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1 de mar de 2019

Viagem ao interior, por Eva Crochemore




Viagem ao interior

Preciso ir para fora, fora da cidade, fora do meu eu urbano e conturbado. Há uma latente ruralidade a me inquietar, sempre me chamando com sua força viva.  Tão logo sair da gaiola, qual bicho do mato do século XXI me embrenharei no matagal cerrado por toda espécie de árvores. Quero filmar as frondosas, bem copadas, jogando-se com a força de todos os ventos sobre as mais frágeis, por vezes fustigando-lhes os galhos, colocando em risco os ninhos dos passarinhos e jogando longe indefesos insetos antes abrigados em suas folhas.  Focarei as pequenas touceiras acotovelando-se, na disputa do melhor espaço para assistir ao espetáculo do astro rei, esquivando-se das sombras do arvoredo que, com o passar das horas, teimam em impedir seu banho de sol.
   
Abrirei ouvidos, coração e microfone para absorver e gravar as ondas sonoras de todos os naipes agudos da passarada desassossegada, que empreende sem cessar os voos de sobrevivência na sua efêmera vida, enquanto orquestram no tapete verde, a céu aberto, inéditas sinfonias, árias inimitáveis apresentadas em consertos diários, que cessam a cada anoitecer para recomeçar na madrugada seguinte.  Então é chegada a vez dos pássaros noturnos; com sons graves intermitentes, repetem todas as noites as mesmas canções sinistras que infundem pavor aos notívagos ou, ainda, despertam um sombrio mistério aos insones românticos.
   
Será fascinante acompanhar o joão-de-barro em construção; ele e a parceira, em revezamento, do barreiro até o local escolhido, começam a obra, com prazo exíguo para entrega.  Ao longo de poucos dias, projeto e execução vão se concretizando. Ele vai, e volta com seu bico cheio e, enquanto deposita aquele primeiro tijolinho, ela voa até o barreiro e já retorna com o segundo. Assim, após centenas e centenas de viagens, no mais laboroso vaivém, na mais sincronizada força-tarefa, vão edificando a casa. Diferentemente dos muambeiros, podem passar muitas vezes por aduanas; ninguém desconfiará de contrabando, nem lhes confiscará a bagagem. O casal já tem data para as núpcias. Aquele ninho de amor primaveril acolherá uma única ninhada, e estará, num ato benevolente, disponível a outros de qualquer espécie, que estarão à espreita para usufruir do benefício gratuito assim que possível.
   
Reencontrarei o envolvente vento verde com suas invisíveis rajadas de ar puro, que inspirarei inflando os cantos mais remotos de meus pulmões. Sorverei os mistérios da mata virgem escondidos no emaranhado das raízes, que serpenteiam o subsolo; nas folhagens fantasmagóricas, que levantam as mãos verdes para me assustar; na impenetrável trama de galhos do espinheiro, que crescem em direção aos espaços livres para vedá-los; na disfarçada quietude dos insetos em incessante labor; no cheiro úmido da fertilidade; no infinito burburinho da natureza em ritmado agito de proliferação.
   
Escutarei o córrego que, com sua imponência arterial, corta e irriga o chão, e, em pulsação frenética, jorra vida riacho afora.  Preciso guardar áudios daquele chuá fresco e cristalino das águas correndo entre as pedras; certamente me serão terapêuticos quando me pesar a rotina.
   
De alma e mala prontas, aceitei o convite da anfitriã natureza. Até mais, cidade grande. Voltarei, não antes de dissipar por lá a minha nostalgia, de cantar em prosa e verso minha alegria e de fazer ‘selfies’ de te causar inveja.
       
Eva Crochemore


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