Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

24 de abr de 2010

Folhas de um vendaval...

O sol vem calmamente a minha janela
Seus raios desenham o rosto dela
Os olhos flamam ao olhar o horizonte
Ao vê-la na chuva brotar mansa fonte

Em brumas vai se ofuscando lentamente
Pouco a pouco surge um deserto silente
Seus lábios contém milhões de promessas
Tal qual um plácido rio tu atravessas

Arduamente e se finda numa aragem
Pouco a pouco se torna só uma paisagem...
E uma nova estação se anunciou
Mesmo com lágrimas nos olhos renegou

E quando um novo sol para mim brilhar
Quando olhar para fora quero te encontrar
Envolta em plumas cintilantes voando
Em uma aurora de louvores soando

Não mais que velhas lembranças que vem que vão
Por oceanos e desertos na solidão
Do sopro do gélido vento invernal
Somos folhas levadas por um vendaval...

Quando quiser

Tenho tanto desejo de lhe ver
Mas tua imagem congela o sol
Como desejo poder te sentir
Mas tua presença me ofusca o céu

Eis que o nosso fim já se anunciou
Muito embora não quero acreditar
Mas eu vou! Sim pode deixar que eu vou
Enterrar bem ele dentro de mim!

Sob meu céu e meu mar há de jazer
Eternamente em paz! E eu vou regar
Suas raízes em mim! Eu vou sim!...

Ai! Como desejo te ver sorrir,
Mas o fazer me arranca ao coração
Como queria ao menos te ouvir
Mas é tal cravar espinhos na alma

Não quero mais ficar me enganando
Se não vejo nada do que eu via
O céu em mil trevas se dissipou
E eis que o nosso fim já se anunciou!

E quando você resolver me olhar,
Olhe para o céu, que estarei lá...
Quando você resolver me escutar
Então vá para o mar! Hei de ser mar!

Sim! Podes vir navegar no meu mar!
Se quiser pode naufragar nele!

Se desejar que eu venha te aquecer
Apenas sinta o sol, é lá que estou!
E se desejar sentir meu tocar
Eu passarei no vento com pressa!

Somente isso que terá de mim
Sim! É somente o que terá de mim!
Nada além! Nada menos! Nada mais!

Eu vou voar sereno pelo céu...
Eu vou pintá-lo de azul anil
Sim! Eu vou mergulhar no mar em mim
Meus tesouros jamais tu verás

Vou luzir onde não podes chegar
Vou estar onde não podes andar
Vou estar bem feliz dentro de mim!...

Rainha do amor

Rompeste o horizonte
Com olhos tão ávidos
Rompendo o silêncio prostrou-se em fronte
Lançou-me um sorrir em mil tons plácidos
Oh! Quão inebriante
Era aquele perfume!
Mil vezes cálido! Louco e incessante!
Num toque de leveza no céu lume

Formosa cachoeira
Que tecem louros fios
Sua pele era tórrida braseira
Tornou-se o mais sutil dos vícios
Louco amor! Louco! Louco!
Que vai pelo ar bailando!...
E vai escurecendo pouco a pouco...
Nos olhos ao horizonte venerando...

Ó rainha das infâmias!
Deusa despudorada!
Ó grácil perjúrio! Ó cálidas orgias...
Foste exoticamente desenhada
Sois prisões perpétuas
Ó doce condenação!...
Caminhar eternamente em tuas ruas
Totalmente submisso a tua afeição

As hortênsias florindo
Traz no olhar vãos fulgores
Teu cálice derrama amor infindo
Dai-me teus afagos redentores
As rosas vão se abrindo
No ápice dos prazeres
Deleitado numa ardência rugindo...
Prenda-me pra sempre em teus cárceres

Vem! Domina, arrebata
É tua minha morada!
Vai tecendo no céu branda cascata
Numa névoa apraz pela madrugada
No soprar da aragem
Numa dança celeste
Nos horizontes somos paisagem
De brumas e de plumas se reveste

No oceano deserto
Primavera florida
Em toques e olhares é desperto
Um amor radiante verte vida...
Ó sagrada candura!
Flor de pétalas sutis
Mácula matinal! Pura loucura!
Pelas noites silentes e febris...

Fragmentos de mim

E de repente sou amor,
Tão de repente sou ódio...
E de repente sou furor,
Tão de repente sou rocio

E de repente sou vazio...
Tão de repente sou cheio...
E de repente sou navio
Tão de repente sou alheio...

De repente sou fascínio
Tão logo sou desilusão...
De repente sou declínio,
Tão logo sou fascinação...

De repente sou sozinho,
Tão logo sou companheiro...
De repente sou caminho,
De repente derradeiro...

De repente sou ruína,
Tão logo sou paraíso...
De repente adrenalina,
De repente sou sorriso...

E de repente sou pranto,
E tão de repente sou céu...
De repente sou espanto,
De repente sou mausoléu...

E de repente sou drama
De repente sou comédia
De repente sou a grama
De repente sou tragédia...

De repente sou o todo,
Tão logo me sinto o nada,
E de repente sou lodo,
De repente sou toada...

E de repente sou sonho,
Tão logo sou pesadelo...
Sou como o prado risonho...
Num segundo sou castelo...

E tão de repente te amo!
Tão de repente te esqueço!
E de repente te chamo,
De repente me conheço

Ah! Sou tantos dentro de mim,
Que já não sei mais quem eu sou!
Ora sou um brando jardim,
Outrora sou flor que secou!...

De repente sou calmaria,
De repente sou contente...
De repente sou gritaria
Sou não mais que de repente...

Chuva em mim

A chuva se espalha pela madrugada,
Tal qual, eu vou pelas ruas à toa...
...E vou mesmo com a alma já calejada
Pelos obstáculos e espinhos da vida...
Vou vagando pela memória perdida
Tal qual um labirinto cheio de escolhas
Nas noites meu coração é névoa
Vou soprando pelas ruas como folhas

De um livro bailando numa mansa aragem
Sem regras, sem destino, num sopro esmo
Velozmente passo como uma miragem
Pelas formosas manhãs de primavera
Mesmo que paz dentro mim jamais houvera
Que meu coração fora mil retalhos.
Dia e noite o mesmo soprar... Sempre o mesmo!...
Sou simples folhas desprendidas dos galhos...

Sou chuva pela madrugada silente,
Em trovões e raios sou amor selvagem
Sou um pensamento tão incoerente
Sou manso lago, sou louca tempestade...
Sou pesadelo, sonho, clamor, vaidade...
Sou humanamente divino! Tão franzino!...
Sou desejo, sou eterno, sou passagem
Sou anseio, sou a busca do destino

A chuva molha meus lábios num manso
Toque, tal qual quando os sutis lábios dela
Tocavam os meus fazendo um remanso
Jardim repleto de flores primorosas...
Um arco-íris de cores harmoniosas...
Ó! Sou selva, sou fogo, sou ar, sou terra
Sou chuva! Que purifica e se revela
Em mansas brisas e bramidos de fera...

A chuva se derramada no horizonte
E se derrama num suave perfume
És mansidão, és promessa, mansa fonte,
Por um plácido manto sou envolvido
Pelo céu anil, sou brisa, sou gemido
Andando pela madrugada silente
No firmamento sou estrela que lume
Sou folha bailando no vento rangente

Sou chuva, sou sol, sou poesia, sou dança
Aí! Sou tão culto, sou tão oculto, um vulto...
Sou pensamento, sou lança sou lembrança
Sou silêncio, terremoto, sou remorso...
Sou divino, sou menino, sou esforço,
Descansa! Sim, descansa pobre criança!
Que amanhã de novo, serás um adulto!
Sereis folhas sopradas na aragem mansa...

Flor do amor

Insinuante flor que vai desabrochando
Nas loucas tardes plácidas de primavera
Como um rio que passa calmamente espera,
Andando sobre as nuvens de plumas sonhando...

Nas pétalas contém exótica fragrância
E em celestes manhãs vai se transfigurando
Teu fulgor é dócil aragem tocando
Minha alma calmamente em doce ressonância

Aspergindo-se pelos prados flamejantes,
Ofertando-se a grama num formoso rocio
Das manhãs mais amenas a luz do sol gentio
Desenhando no céu olhares suplicantes...

Oh meu Deus! Eram dias invejáveis
Que os pássaros cantavam fervorosamente
Olhávamos a aurora de paixão fulgente
Surgia mil sentimentos em nós indomáveis

De repente viramos mar de plenitude
Das eternas manhãs no doce véu de agosto
Num sonho colorido jardim me tem posto
Sou beija-flor que busca em ti flor juventude,

Paixão ingênua prazer sutil quase devasso,
Sim, somos madrugada de loucos gemidos
Teu pólen e minha seiva derretidos
Em brumas de paixão pelo vazio espaço...

Labirinto interior

De repente nas noites mais improváveis
Vagando pelas madrugadas escuras,
Insone observa a cidade das alturas
Carregando as maldições mais implacáveis

Cheio de rancores observa e lamenta...
O vento carrega tormentos atrozes
As noites ficam cada vez mais algozes
A manhã é uma cortina sangrenta

Havia um sol escondendo tempestades
Andando por longas tardes de clamores
Com o coração repleto de horrores
Mesmo livre sentia o torpor das grades

Anda pelas noites tal leão sedento
De desejo num cálice derramado
Era um cárcere caminhar pelo prado
Sozinho ouvindo o sopro cruel do vento...

Tão de repente num soprar descrente
Tão logo a vida se reduz a dúvidas
E surgem jardins de rosas fúlgidas
Derramadas numa essência plangente

Na alma se formam imensos labirintos
Para sempre é andarilho de si mesmo
Vai varrendo as ruas num caminhar esmo
Por paredes de sentimentos extintos...

Página virada

De repente a alma ficara silente,
De lembrança sobrou-lhe apenas uma flor
Sobre o caderno a última frase de amor
Em rabiscos findou-se o sonho luzente...

Flor, só restara em ti perversos espinhos
Versos forjados com os prantos matinais
De letras espalhadas pelos vendavais
Lembranças vão traçando tristes caminhos...

Flor de primores e cores desabrochou
Lançou-se nos afagos da primavera
Tal qual o orvalho se enlaça com a terra
Prende-se a pouca esperança que restou...

Da última página, branca, translúcida,
Restaram meros retalhos espalhados
Em mil poemas de versos amputados
Sem pé nem cabeça, vago, sem vida...

Vêm as chuvas de verão superficiais
Numa correnteza rasa de esperança
Vem numa brisa passageira lembrança
E seu sopro traz tristezas colossais,

Forjado no inferno, em abrolhos de ferro
A morte se desenha rapidamente
Completa o circulo e volta a ser semente,
Na última página, um tom de desespero...

Ar de lamentos

Eu a vi vestida de luto num vão escuro
Da sua face vertia silencioso pranto,
Refletindo seu infindável desencanto
A saudade é morte conhecida em plena vida...
Lembra cada carícia daquele amor impuro
Tão avassalador na hora da despedida,

O beijo da morte transformou seu amado
Em lembranças aspergidas pelos quatro ventos
Seus olhos são como milhares de tormentos
Envolta num ar de pesar apenas espera
O sutil som da morte vindo pelo prado
Agora é só uma flor murcha na primavera...

O céu é cinzas, o amor é remorso, puro ódio...
A pele é tal qual a bruma das manhãs de inverno
Fora é mansa, mas dentro é fervoroso inferno
Logo a morte parece ter um tom encantador
Já a vida se tornou imenso deserto vazio
O futuro se tornou pesadelo aterrador

O desespero é negra mortalha sobre o rosto
Seus sonhos são negros pássaros já sem asas
Agonizam num inferno de lamentos e brasas
Como uma chuva que lava, procela que arrasa
As chagas são curadas, adoçando o desgosto
Pouco a pouco se dissipando a negra fumaça...

Sonhos no espelho

Enfrente do espelho tece devaneios
Quer estar distante da realidade
Abandonou por um segundo a vaidade
Seu cálido olhar tece mil enleios

No meio do céu cinza, havia um fulgor
De uma estrela apraz, mas tão solitária
Sua alma são mares em completa fúria
Nos seus olhos eram imenso fervor,

Sua mente é tal um pássaro vagante
Ora sereno, ora atroz... O vento passa
Tão logo seu pensamento toma asa
E desenha um futuro mirabolante,

Mas a sua face é notória descrença...
São pensamentos, só meros pensamentos
Num soprar de esperanças e de tormentos
Seus olhos são uma nuvem suspensa

Como pássaro liberto da gaiola
Sai batendo asas desesperadamente
Não sabe ser liberto, volta clemente
As migalhas da prisão, amor de esmola...

Num relâmpago se diante do espelho
Vê-se numa monótona realidade
Entre a ânsia do amor e de liberdade
Tal pureza agora é triste tom vermelho

Rosa do amor

Ó flor que nasce nos bosques mais formosos,
Em teus olhos pairam celestes céus
E neles há desejos misteriosos...
É dócil até o pranto que vai surgindo
Como orvalho vertido em gotas de cristais
Por tua cândida face e tecem véus
De imensurável esmero e vem vestindo
A delicadeza de um silvestre lírio...
Teus cabelos são pássaros dourados
Bailando no sopro das brisas matinais
Em cada olhar sem toque é um martírio
Teus lábios são prazeres rabiscados
Coberto de essências de jasmins e rosas
Eles são vinhas de frutos saborosos
Um Oasis de desejos que vão queimando
Tal fogueira nos fins das tardes invernais
Teus sorrisos são brumas fabulosas
De versos cantados num acorde brando
Derramam fragores tão harmoniosos
Movem-se lentamente em gestos cordiais
Ó nobre flor revestida de primores
Tens o sabor do pecado e divindade
És prisão invisível, és liberdade
Nos teus olhos flama um louco desejar
Numa imensa ânsia de ser amada
Como um jardim que ama em silêncio as flores
Deixa na areia uma letra marcada
Pra sua angustia ser levada pelo mar...

14 de abr de 2010


A ÚLTIMA MÚSICA

De repente
sopra aos meus ouvidos
a última música
que ficou no ar.
Em cada nota
Guardo-te em todos
os sentidos
da minha memória.
Derperta em mim
desejos
mais e mais....
Volto para minha realidade
em sinfonia de abandono.
Durmo e desperto
em êxtase
dos meus sonhos
com você.

Ana Maria Marques
Março/2010

Oficina de Escrita Literária Online – Poesia

Oficina de Escrita Literária Online – Poesia INSPIRATURAS - Escrita Criativa - oferece aos interessados na produção de poemas uma oficina q...

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