Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

Oficina de escrita literária Inspiraturas, em Pelotas

Oficina de escrita literária Inspiraturas - o fim da página em branco - A ti, que ainda acreditas na escrita, em especial a Poesia, como ...

30 de ago de 2010

Traços delicados

Moça de olhos cândidos, sorrir cintilante,
Dóceis detalhes de uma pele tão sedosa,
Meus olhos tentam compreender tão fascinante
Beleza que em todos detalhes é formosa!...

Lábios cuidadosos e delicados detêm
Os sensíveis fragores da sensualidade
Feminina que a minha alma branda sobrevém...
Admirar-te e sentir o gosto da liberdade

Que se desenha nos teus traços elegantes
Que esconde tesouro grácil e profundo
Dóceis fragores das primaveras galantes
Pétalas do teu suntuoso jardim fecundo

De onde brota sensível beleza admirável
E os versos encontram sentido nos teus traços
Refletem-me como doce aragem amável
Passos se juntam aos passos, ternos acasos...

Surpresas agradáveis formam horizontes
Amenos que quando juntos formam novo céu
De onde caem mansas chuvas que regam as fontes
De tua beleza e alvura que me enterneceu!...

Vai à chuva lentamente

Cai a chuva lentamente
Em tristes pingos de mágoas
Molha minha face poente
Vão dissipando-se em névoas

Anoitece de repente
Da janela de mil nódoas
Cai a chuva lentamente
Em tristes pingos de mágoas

A alma flama loucamente
Sou banhado pelas águas
Sob um céu limpo e fulgente
Caminhando pelas ruas
Vai à chuva lentamente...

Só mais uma aventura

Somos águas que formam brumas
Ao cair num desfiladeiro
Sobre as rochas formam espumas
Que voam pelo brando vento
No mais ameno movimento
Somos fogo nas palhas do celeiro...

Somos o sopro dos vendavais
Somos imenso terremoto
Somos o cheiro dos roseirais
Somos doces frutos do outono
Somos madrugadas sem sono
Somos só um sonho ignoto?

Somos a vida em plenitude
Somos como taças vertidas
Somos a eterna juventude!...
Somos canto dos querubins
Somos harmoniosos jardins
Somos manhãs adormecidas...

Somos flores, cores, ardores...
Manhã de grande formosura
Somos apenas vão atores
Disputando o papel principal
Somente paixão de carnaval
Fomos só mais uma aventura...

Navegante sem farol

Sim! É inverno dentro de mim
Há neve sobre meu peito
Congelou por inteiro o leito
Do rio que banhava o jardim

Aonde eu cultivava as rosas
Mais formosas e coloridas
E de lamentos revertidas
Pelas noites mais pavorosas

Pétalas voam pelos ares
Entre bem me quer e mal me quer
Numa ânsia de me conhecer
Sou naufrago em teus mares

Sim! Chove muito dentro de mim
Infelizes brumas me envolvem
Mares doridos se revolvem
Trazendo um aroma de jasmim

Prenúncios de primavera
De repente estou no escuro
Tateando o chão eu procuro
Uma estúpida quimera

À que eu posso por um segundo
Apenas me agarrar e deixar
O nevoeiro de dissipar
Sim! Quero ver um novo mundo...


Sim! Venta forte dentro de mim
Uma overdose de você
Sofro uma metamorfose
Deixei de lado o nosso jardim...

Como um pássaro vôo liberto
Vôo para longe num vôo sem fim!...
Vou andando por dentro de mim
Procurando o caminho certo,

Mas só vejo um grande deserto
Que não tem fim e nem começo
E num estrondo estremeço,
Por um amargor sou coberto

É terremoto dentro de mim!
Sou fugitivo de mim mesmo
Sou um mero sopro a esmo
Sou madeira cheia de cupim...

Arranque do céu as estrelas!
Apague de vez a luz da lua!
Sou os ventos que rasgam a rua
Espiona pelas janelas

Por favor! Sequem o oceano!
Por favor! Tire o brilho do sol
Sou navio em busca de um farol
Navegando no mar do engano...

Lágrimas da inocência

Olho tua formosura, oh menina!
Meu tão grácil pecado e demência
Como lobo desejo tal inocência,
Numa ardência louca e ferina...

Brando olhar por inteiro me domina,
Meu desejo na beira de iminência
Esqueceu dos limites da decência,
Nas noites tal qual ave de rapina

Sobrevôo tal essência na espera
Do florescer da révora suprema,
Ver lágrimas de prazer no semblante

De menina virando terna amante,
Selar voraz desejo que me ardera
Nos versos carinhosos de um poema...

Divina flor

Menina flor de olhar tão luminoso...
Rosto de fino traço delicado...
No sorriso se esconde esplendoroso
Mistério que em silêncio é revelado

Na mansa aura de fragor suntuoso...
Terna brisa que sopra sobre o prado
Ornado por um sorriso tão vistoso
Que deixa o coração sempre encantado...

Por que em ti a vida verte em plenitude
Que lhe exalte e venere quem lhe tiver
Ao lado e reconheça a magnitude

De uma mulher humana e tão divina
Que merece respeito e sempre ser
Recebida com flores – flor tão fina...

Troca de olhares

Olhares que se cruzam pervertidos
Fervem e proclamam inúmeras juras
De amor corpos despidos e tórpidos
Vertendo sobre a cama mil loucuras...

De noite docemente aos meus ouvidos
Maliciosas palavras tu sussurras...
Com generosos afagos e gemidos!...
Fonte de todas as minhas amarguras,

E este tórrido sentir tem curado
As feridas da espada árdua cravada
No âmago da alma e logo resplandece

No rocio derramado sobre a amada...
Bate em mim o coração tão desvairado
Do teu corpo meu corpo se apetece...

Soneto de luta

Não fujas de quem tanto lhe procura,
Não tenho medo algum de ser ferido,
Melhor é a dor do amor que foi vivido
Do que ter na alma a triste desventura

De não tentar, e viver na amargura
Do jugo deste sentir tão hórrido
Quero estar totalmente em ti embebido
De amor e com tamanha formosura

Quero lhe ver envolta em plumas brancas
Da sua pudica glória de celeste
Anjo com flor silvestre de beleza

Única contornando as belas ancas
De ondas afáveis donde florescestes
Para ser minha eterna fortaleza!...

Soneto de despedida

Lisi tu foste o maior dos amores,
Tão vívido, também tão doloroso,
Sim! Tu foste sonho fervoroso
Minha alegria, a maior das dores!

Sim! Tu foste jardim cheio de flores,
Mas também meu deserto impiedoso!
A liberdade, a corda no pescoço!
Vida... Morte... Mais sutil dos fragores!

Floresceu em silêncio e em silêncio
Morreu... Sorrir ao chegar, dor ao partir!
Milagrosa benção! Maior traição!

Uma fagulha, tórrido incêndio!
Minha desgraça fora ver-te florir!
Formosa letra! Triste canção!

Amor de caderno

Quando lhe vejo surgir radiante
Minha alma se estremece totalmente,
Sou todo teu de corpo, alma e mente!
Num excelso relâmpago atroante

Clareia em mim aurora tão vibrante
Que amenamente planta apraz semente
Hora suntuosa hora incoerente!
Voz muda, olhar latente e dissonante,

Minha amada! O que sinto é tão vultoso
Que sinto o coração flamar no peito
Como o sol nas manhãs de amor eterno,

Ardores de um verão tão suntuoso
Provar do amor voraz quase perfeito
Vivo apenas nos traços de um caderno...

Flor celeste

Nas flores transparece tua beleza
Ó formoso perfume que ameniza
Dócil flor de silvestre sutileza!
Sopra amor na passagem desta brisa...

Flor de resplandecente profundeza,
Nada além de ti minha alma precisa
Num sorriso revela apraz grandeza
Ó pétalas que minha alma cobiça

Ó minha flor! Vistosa primavera!
Jamais mulher alguma nesta terra
Tivera assim tamanha formosura

Florescendo num plácido amanhecer
Sim na tua estação quero adormecer!
Viver um sonho recheado de ternura

Soneto de ousadia

Ela tem um sutil olhar ousado
Com delicado toque inocente
Seu sorrir contém um primor fulgente
Nos lábios o aroma do pecado

Com um leve sabor adocicado
Seu falar é calmo e envolvente
Como doces manhãs de sol fervente
Seu cheiro é de jardim perfumado

Com essência de lírios e de rosas
Seu olhar reflete liberdade
E rebeldia, é vida, é mansidão!

O sorrir é ternura e tentação,
Sim! É flor de imensa raridade
Deixando as ruas mais cheirosas...

(Dedicado a Cristina por Joselito de S. Bertoglio)

Deusa das minhas manhãs

Ó Vênus! Doce estrela matinal,
Maça do amor, gostosa tentação!
Deusa corpórea... Brisa da paixão!
É vida! Plenitude! Temporal!

Deixa-me passear no roseiral
Adormecer na sua mansidão
Vendo-te passar como furacão
Arrastando-me em teu vendaval

Quão suprema é tua divindade
Que enche de luz as minhas vãs manhãs
Deixa-me deleitar nas tuas vinhas

E do teu pomar colher maçãs
Vermelhas, me perder em tuas linhas
Virginais desta vossa santidade...

Nadar liberto

Como pode caber tanta tristeza
Em mim que sou tão irrelevante
Há tempo tens deixado sufocante
Quando vi que era bruxa, não princesa

Meu sonho tornou-se profundeza
As noites num inferno borbulhante
E minha sanidade mais distante
Folha perdida pela correnteza

Vou ao sopro do vento procurando
Um destino, saída, ou caminho
Onde possa ser mais que pensamento,

Talvez mais que sombra, mais que tormento
Quem sabe ser apenas um mar brando
Nadar liberto como um golfinho...

Olhos azuis celestes

Ela vem com um sorrir cintilante
Que vai me derretendo por inteiro
Olhar azul celeste tão certeiro
Dava-lhe um belo tom inebriante

Na sua voz sutil e sussurrante
É como botar fogo no palheiro
Sim! Fazes despertar um abelheiro
Deixando meu peito palpitante

Dou-te lírios, crisântemos e rosas
Espalhando-as por teu caminho
Só pra sentir o plácido perfume

Que exala nas manhãs harmoniosas
Ou noites calorosas em que lume
Deitada em lençóis de puro linho

Alma vagante

Minha alma é atroz sombra vagante
E meus pensamentos nebulosos...
O futuro corrói até os ossos
E do presente sempre mais distante

Fecharam-se olhos, e o semblante
Em vestígios sutis tão fadigosos
Vagando por caminhos tortuosos
Tomado por um ar tão sufocante

Pelo sopro do acaso sou disperso
No mundo instantâneo passageiro
Tal qual um vento pela madrugada

Como folhas dispersas na calçada
Ressequidas compondo triste verso
Andando num gigante formigueiro

Jardim corrompido

Lancei-me ao jugo do vento
Como uma folha ressequida
Num sopro esmo pela rua
Sou água salgada no deserto...
Sou promessa, mero pensamento
Sou como uma flor jazida
Pelas noites enamorando a lua,
Vivo distante mesmo quando perto...

Sou um sopro liberto do fracasso
Pois, meu futuro é um breve acaso
Vós me dais vida quando quero morte
Sou pétalas e também espinhos
Sou um sopro do sul até o norte
Noite e dia varro os caminhos
Como névoa pelas manhãs de inverno
Sou um superficial homem moderno...

Por que me cobra o que não me deste?
Queres além do que já me tiraste?
Se já vou mendigando pelas avenidas
Uma pitada de paz e talvez sossego,
Um grão de açúcar para meu ego
Disperso por longos impulsos suicidas,
Ó triste legado que me deixaste,
Por fim sou jardim corrompido por tua peste...

24 de ago de 2010

Madame M.

Madame M.

Maria eu sou
Maria de Fátima
Maria da rua
Maria da dor
Maria do amor selvagem
Maria das prostitutas
Maria dos vagabundos
Maria das imperfeições
Maria dos delírios
Maria mãe de três filhos
Maria jornalista
Maria escritora
Maria da liberdade
Maria do erotismo
Maria só
Maria de Fátima
sem consciência nem dó

Madame M.

03/2009

14 de ago de 2010

Fuga

Não haverá verso nem rima
Para vedar a goteira
Instalada no coração

Vou onde o oceano termina
Buscar de volta a essência
A decência e a pulsação

Sinto tamanho desgosto
Das coisas e das pessoas
Desse teatro mal disposto
Que só destila fel, tão imundo
Fecho os olhos e construo
Uma casa no fim do mundo
Longe dessa confusão

Quero alçar voo e despertar
Fora do olho do furacão

Cansei de ser ilha
Quero ser mar


Helenice Priedols

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