Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

20 de set de 2010

Destino



Sigo meu destino
eu e minha alma
resquícios do sopro divino
no santuário dos átomos
e das nuvens fugidias

uma jornada sem guias
por desertos sem fronteiras
vago as noites e os dias
em vão tateando paredes
de histórias alcoviteiras
buscando aplacar a sede
na harmonia dos abraços

num sonho contumaz
ouço os passos
deixados no tempo
- ecos longínquos -
de vidas sedentas de paz

se estou predestinada
é somente a ser livre
para seguir na alvorada
o rastro prateado da lua
e a estrela suicida
que me mostre o itinerário
de uma terra prometida

11 de set de 2010

Tempos de silêncio

Ele fechara os olhos delicadamente
Tentando esconder o pranto caído,
Baixara a cabeça num sinal de luto
Como quem perde um ente querido
Sua alma se tornara silêncio absoluto
Fez-se vento, fez-se voraz corrente

A varrer as ruas num sopro alucinado
Fez-se orvalho nas manhãs de outono
Perdeu-se no tempo por um momento
Tivera por um segundo um sutil alento
Estancando-lhe a ferida do abandono
Sentira-se como um pássaro acanhado

Por uma tempestade de pensamento
Batera a sua porta o som da insanidade,
Num longo suspiro e num breve grito
Expulsando de si seu maior tormento
Enfim encontrara a solidão da liberdade
E para todo o sempre seria seu veredicto...

Transpôs noites dias andando sem destino
Encontrou fontes, horizontes, belos mundos
A si mesmo amava e odiava simultaneamente
Pairava sobre os abismos mais profundos
De rua e rua eterno andarilho sorridente
Mas no fundo era apenas um triste menino?!...

Navegante

Sim! Sou como um barco
A procura de um farol
Sou manhã de primavera
Que espera o nascer do sol

No inverno eu sou lenha
Que espera se tornar fogueira
Sou um cacho de uva
Que espera nascer à parreira

Sou as noites de outono
Que clama a luz da lua
Sou extensa calçada
Esperando construir a rua...

Sou eterno navegante
Esperando ter um porto...
Navegando nos mares da vida
Para não se sentir morto...

Tardes chuvosas.

Sim! Eram negras tardes
Que se vestiam de solidão
Com os olhos nebulosos
Tateando na escuridão

Vou dormir eternamente
Para sentir o tempo passar
Como um temporal voraz
Sem ter pressa de chegar...

Vou como um pássaro
Que perdeu suas asas
Canta na esperança de voar
Com o peito em brasas...

Lágrimas corriam por sua fronte
E eram como as tardes chuvosas
Em que a alma se cobria de luto
Esperando respostas silenciosas...

Tornou-se vento invisível,
O último suspiro, e fechara os olhos
Engolira a seco sua decepção
Partira com a alma cheia de abrolhos...

10 de set de 2010

Exercício do Ego

Exercício do Ego

Eu sirvo o meu vinho preferido
Eu farejo o perigo
Eu busco o beijo molhado
Eu pego o telefone e calo...

Eu deixo a porta aberta
Eu sirvo mais e mais vinho...
Eu busco metas e me vejo só
Eu deixo a flor roxa na janela
Eu deito nua no tapete
Eu faço bico
Eu olho o nada
Eu olho o nada
Eu sinto o ir e vir
Eu queria sorrir
Eu olho o nada
Eu olho o nada
Eu sinto e sinto
Eu sinto a dor
Eu sinto o tapa
Eu choro de raiva
Eu fico torta
Eu grito nua
Eu tenho a cara no tapete
Eu sinto o ir e vir
Eu sinto o ir e vir... o ir e vir... ir e vir... ir e vir e ir e vir
Eu abafo o grito
Eu acho o perigo
Eu sinto no íntimo
Eu olho o chão
Eu olho o chão
Eu grito e grito
Eu grito de paixão
Eu grito de paixão
Eu não sinto mais o ir
Eu não sinto mais o ir
Eu não procuro o olhar
Eu volto a respirar

Eu bato a porta
Eu saio à rua
Eu ando na chuva
Eu entro em casa
Eu deixo a água escorrer na banheira
Eu tenho a cabeça n’água
Eu morro ali
Eu já era... quimera... alguém me traz de volta...
Tu
Logo tu
Eu que já ia embora
E agora?

Agora é hora de dormir, amor.

Madame M.

7 de set de 2010

De nada vale


Do que me vale ter as primaveras,
Se já não tenho mais o teu sorriso?
Do que adiantará atravessar as eras,
Se há em mim um coração maciço?

De nada me adianta ter a luz divina,
Se eu já não posso mais te enxergar?
Do que me vale a flor mais genuína,
Se a mais exótica nunca pude regar?

Do que valem os verdejantes prados,
Se não puder percorrer-los contigo?
Do que valem os doces céus azulados
Se não puder dormir no teu abrigo?

Do que adianta o sol no horizonte,
Se já não posso beber da tua fonte?

Dividido em desesperos e exageros
Vou por minhas estradas sem destino
Se não posso provar vossos temperos
Serei pela eternidade um clandestino...

Se dos teus lábios não puder beber
O néctar, eu desejo morrer de sede
Sem que seja em vós, não quero ser,
Apenas mais um retrato na tua parede

Não quero ser sem que sejas minha
Não adianta ter mil reinos sem rainha...

6 de set de 2010

Sombras de mim

Não quero tuas promessas
Sejam mentiras ou verdades,
Nem sequer a sombra tua
Nem teu paraíso colorido
Quero só a dádiva de não ser,
Dá-me as noites nebulosas
Para poder andar sem rumo
Sem querer pedir demais
Arranque todos os sentimentos
Não quero ser luz nem trevas,
Nem sol, nem luz, nem estrelas
Quero somente o esquecimento,
Caminhar pelas tardes chuvosas
Sem ter em mim lembrança alguma
Vós que criaste o universo
E proclamastes o sopro da vida,
Pode me arrancar - lá agora mesmo,
Só não arranque de mim as rimas
Nem tire de mim a poesia,
Último prazer que me acompanha
Pois já pesa em meus ombros
A dura pena de estar vivo
E quando chegar minha hora
Se puder dá-me a honra
De ter um fim eterno...

Coração pagão

Do que me vale esta vida misera
Se ela só me é tristes desventuras
Ser milionário eu jamais quisera
Jamais pedi tamanhas amarguras

Tenho em mim um coração pagão
E também um espírito indomável
Ora sendo luz, ora sendo escuridão
Sou apenas um sopro implacável

Varrendo as ruas num sopro demente
E minha fé anda por planos distantes
Faz tempo que minha alma anda ausente
Pela escuridão de mundos atemorizantes

Já não a sossego no céu e nem na terra
Meus dias são como uma espada cravada
Na alma causando uma dor que dilacera
Minhas esperanças reduzindo-as a nada.

Arrasa e não acaba, fere e não mata,
Deixado para padecer neste mundo
Um poeta romântico virou um vira-lata
Que vive a falar de um amor já moribundo

Que resiste apenas no seu pensamento
Quisera ascender em si à luz da vida
Que se ofuscara em dor e sofrimento
Vai pelas ruas como uma sombra esquecida...

Se eu não mais puder

Quando meus olhos não encontram os teus
Sinto-me a mais desprezível das criaturas
Sinto pesar sobre meus ombros o furor dos céus
Como se viver fosse um inferno de desventuras

Se meus olhos não mais podem encontrar os teus
Já não pode haver para mim condenação maior
E de nada me vale a divina proteção de deus
Pois já não há neste mundo algo mais aterrador

Se meus lábios não podem tocar os teus
Nada pode tirar o gosto amargo da boca
E não há gosto mais amargo que do adeus
E nessas horas de angustia o coração sufoca

Se nossos corações não podem estar unidos
E se nem minha alma pode se abrandar na tua
De nada valeu minhas preces e meus pedidos
E menos ainda vale a primavera, o sol ou a lua...

E se nossos passos têm que seguir rumos diferentes
Já não haverá caminhos para meus pés percorrer
Pois é como ter os pés amarrados por correntes
E já não conhece nenhuma luz os meus alvorecer

E se meus momentos forem distantes dos teus
Tornar-se-á meu espírito um andarilho pagão
Já não sopra mais os ventos brandos nos mares meus
Sem vós serei por estas ruas e esquinas um sopro vão

Não mais vereis

Vós não vereis mais meu rosto sorridente
Nem mais vereis meu sorriso florido
Pois andarei pelas madrugadas solitárias
Bebendo o torpor de minhas misérias
Do amor derramado sobrou o cálice sucumbido
E um interminável amargor impenitente

Não vereis mais luz em meus olhos
Pois estão mergulhados em tormentos
Habitarei as frias madrugadas nebulosas
Caminharei na solidão das tardes chuvosas
Sentindo a pele ser rasgadas pelos ventos
Das rosas dadas, só me restaram os abrolhos

Já não ouvireis a minha voz, ela emudeceu
Pois vago pelas madrugadas silenciosas
Sempre em busca de um refúgio inexistente
Em meu túmulo corpóreo jazo lentamente
Serei um sopro vão nas madrugadas tempestuosas
Em pleno calor do dia meu espírito escureceu...

Já não me vereis caminhar pelas tardes de outono,
Nem vereis sentar-me a luz do sol da primavera,
Pois andarei pelas madrugadas gélidas do inverno
Por procelas meu espírito será um andarilho eterno
Serei fera ferida que se encarcerada numa quimera
Pelas tristes madrugas que arranca da alma o sono

Oficina de escrita literária Inspiraturas, em Pelotas

Oficina de escrita literária Inspiraturas - o fim da página em branco - A ti, que ainda acreditas na escrita, em especial a Poesia, como ...

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