Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

25 de out de 2010

Perdida



o mundo é mais silêncio
que palavras

somos mais espaço
que matéria

a humanidade flutua
no Verso
apartado do Uno

…perdi minha bússola

o cosmos ainda não me pertence
não pertenço mais à Terra

meus olhos
deixaram de ser humanos
recusam-se ao reconhecimento
dessa maya ensandecida

grito aos deuses
todos os dias:
“Desatem os nós!”

(Acho que se fingem de surdos)


Helenice Priedols
(arte de Kay Sage)

17 de out de 2010

Delusion


que pensas saber da vida dos outros
se nem bem sabes da tua?

inventas estradas de sonhos
em verdades desconexas
trocas de olhos como de roupas
na busca por um novo encantamento
nos solitários dias arrastados
em brilhos ocos e instantâneos

levanto a ponta da tua sombra
e escrevo no teu chão:

viver não é pra qualquer um
(é para aqueles que sabem
o preço de uma morte em vida)

16 de out de 2010

Disfarce

Entre enlaces
E mil disfarces
Renego-te,
Desejo-te...
Devotamente...
Discretamente...
Num olhar sutil
Transpõe na face
Um amor febril
Sem nem saber,
Chamo-te
Fervorosamente,
Amor sem fim,
Sem precedentes...

Nas diversas faces
De meus disfarces
Como amo-te!
(subitamente)...
Palavras ao vento,
Gestos contraditórios
Revelam-se segredos
Ai como amo-te!
(inegavelmente)...
Em pensamento
Nos olhos ledos
Aí! Teus sorrisos
Um só fascínio...
Meu domínio!...

Sobre os disfarces
De nossas faces,
Voraz enlace...
Devora-nos
(incessantemente)
Em vaidades
Nos perdemos,
E esquecemos
Que amamo-nos
(assustadoramente)
Nas suavidades
Dos teus lábios
Cálidos vestígios
(inexplicavelmente)

Aí, aí, disfarces,
Faces do enlace
Louco furor,
Plácido sentir!
(tão divergente)
Consumimo-nos
Fogo abrasador,
Na calmaria se esvair
(repentinamente)
Como quem se ausenta
De si próprio
Confesso-te
Eu te amo!
(simplesmente)

Nos disfarces
Da minha face,
O louco enlace
Surge o amor
(tão de repente)...

Amor errante

Vou por tuas correntezas,
Como barco sem destino,
Tal qual pirata clandestino
Que divaga em incertezas...

Há um oceano de promessas
 E deleites de teu oásis puro,
Fiz do teu véu porto seguro,
Maior das minhas fraquezas...

Nos teus braços fiz morada,
Repousei no teu roseiral
Não ser mais um vendaval
 Rumando pro eterno nada...

Quem nasceu pra ser errante
Nunca pode viver aportado,
Seu caminho já está marcado,
Ser só uma onda sussurrante

Vai e vem repentinamente
Como voraz lobo solitário
Para a lua oferta simplório
Amor tão devotadamente...

Espalhando aos quatros ventos
A todos os cantos do mundo,
Aquele uivo meio moribundo,
Mas repleto de sentimentos...

Último acenar

Posso ser uma brisa sutil,
Pelas manhãs de primavera
Translúcidas e tão plácidas,
Posso ser um temporal febril
Que varre as ruas como fera
Causando nas almas feridas...

Posso ser manhã de inverno
Gélido, amargo, sem vida...
Posso ser o que eu quiser!
Sim! Escolho ser fraterno,
Remendar todas as feridas
Causadas, as que eu puder...

Não quero ser um sopro vão
Não mais ser bruma ressequida
Que amarga tudo ao seu redor
Sentir em mim mesmo o perdão,
E numa derradeira despedida
Quem sabe renascer melhor

Não quero ser nada além de eu,
Nem divino, ser apenas humano
Hei de ser um sopro sereno
E que encontra seu o apogeu
Na aurora do novo plano,
E se findar num último aceno...

Estranho rumo

A vida transcorre
Assim tão estranha,
Ora sendo tão doce
Ora sendo tão atroz

E o tempo escorre,
Afasta e emaranha,
Vem e toma posse
E parte tão veloz...

Por um horizonte
De brumas e flores,
De jardins se enfeita
Num ameno colorir

Com o sol na fronte,
Pintam-se novas cores
Pela estrada estreita
De meu eterno partir...

E caminhando eu sinto
Tudo assim tão normal
Uma estranha sensação
De estar esquecendo.

Como num labirinto,
Pela aurora boreal,
Fez-se a nova canção
Vou amanhecendo...

Sopro sutil

Vou por este mundo
Como um sopro sutil
Atrás de algo profundo
Que este céu azul anil...

Quero manhãs vibrantes,
Tardes mais amorosas,
Quero noites inebriantes,
Lembranças fervorosas...

Passear por belos jardins,
Sentir em mim a primavera
Sentir o cheiro dos jasmins,
De repente até rolar na terra...

Escalar uma montanha,
Só pra olhar pro horizonte,
Sentir o vento que se emaranha
Sutilmente à minha fronte...

E simplesmente adormecer,
Como criança recém nascida,
Ansiosa para desbravar a vida,
E a cada nova aurora renascer...

Simplesmente

Assim te amo,
Como uma flor
De um jardim...
Assim te amo,
Tão livremente,
Quando quiser
Volte para mim...

Assim te amo,
Como primavera,
Calmamente...
Assim te amo,
Mesmo quando
É longa a espera,
E árduas as feridas...

Assim te amo,
Como quem ama
Ser livre,
Dou-te a liberdade
Podes ir
 Não há magoa,
Não há rancor,
E volte se quiser...

Assim te amo,
Por isso parto,
Mesmo não querendo,
Já é chegada à hora...
Não posso mais
Te ver sofrendo...

Assim te amo,
Mesmo na despedida,
Afinal teus olhos
Já me condenaram
E tua face se perdeu
Em meio ao vão

Assim te amo,
Com meus lábios
Emudecidos,
Pois os teus
Jamais falaram...

Assim te amo,
Como uma folha
Que se desprende
E voa ao vento
Buscando coisas novas
Novos rumos...

Assim te amo
Desprendidamente
Para todo sempre
Só por instantes,
De qualquer forma
Eternamente...

Assim te amo
E devo ir embora,
Mas vou sorrindo,
Vou-me sem demora
Que é bem melhor
Do que viver fingindo!


Flor de primavera

Dorme ó doce flor de primavera!
O que pensei estarmos sentindo
Era apenas uma simples quimera

Descansa ó Flor! Não tenhas pressa!
Se não for eu outro alguém te alcançará!
Não preciso de juras nem promessas...

Dorme ó flor! Dorme tranquilamente,
Talvez um dia eu entenda a tua atitude...
A vida mostrará o melhor caminho pra gente!

Dorme ó flor! Tens todo tempo do mundo
Por que teu legado será a eternidade
Para sempre terás um jardim fecundo...

Dorme flor! Quando chegar à hora
Quero lhe ver desabrochar esplendorosa
Dorme flor o tempo não demora

Dorme ó flor! Dorme tranquilamente,
Ande pelos mansos jardins do éden,
Algum dia alguém te fará mais contente...

Dorme ó flor! Não há razão para acordar,
Eis que ainda paira sobre nós o inverno,
Eu jamais suportaria lhe ver murchar...

Amo-te sempre


Amo-te assim tão simplesmente,
Não sei nem onde, nem quando,
De repente amo-te devotamente
 Não sei por que, como ou quanto
Sei apenas que te amo subitamente...

Amo-te mesmo não querendo amar
Quanto mais fujo, mais perto te encontro
Amo-te e queria saber como explicar
Quando ando de ti e de mim distante
Alcança-te o meu mais puro pensar...

Mesmo se te amar seja só uma quimera
Mesmo assim te amaria sem dúvidas
Cantaria meu amor pela eterna primavera
Mesmo que te amar seja viver na solidão
Não hesitaria mesmo que fosse longa a espera

Amo-te mesmo quando penso que não amo,
Amo-te quando nego tua importância
E nas frias noites eu devotamente te chamo
Mesmo que nunca venha, te amarei na eternidade
Das lembranças que em versos eu declamo:

Amo-te sem sombra dúvidas e sem medo,
Não hesitaria mesmo se fosse árduo o seu pesar
Meus olhos já não comportam tal segredo,
Mesmo que não acredite, amo-te profundamente,
Amo-te de morrer, mas morro com o coração ledo...

Teus jardins


Vós que carregais nos olhos
 A ferocidade dos temporais
Que alimenta a chama da vida
Colore as manhãs primaverais...

Vós trazeis nos dóceis braços
Alentos que acalmam os ventos
Trazeis no sorriso a mansidão
Dos estrelados firmamentos...

Em vossa bela forma corpórea
Traduz os encantos do éden
Trazeis a chama do amor eterno
Espelhando saboroso pólen...

Deusa que habita o olimpo
Que passeia altiva pelas ruas
E me dá a sensação de ser divino,
Trazeis na pele as faces luas

Que lhe dão um tom inebriante
Vós que vens com fina beleza
Transcendendo pelo horizonte
Os finos primores da tua realeza...

Teus jardins são um convite
Instigando-me a beber da tua fonte
O cálice ardente do amor carnal
Aspergido por toda sua fronte...

9 de out de 2010

Cinismo

esses poderosos personagens
cuja imagem nos agride
os olhos qual fuligem
não agradam no engodo
que insistem em representar

a mentira está nos olhos
na língua, nos gestos
ensaiados frente ao espelho,
espalhada nas palavras gastas,
enquadrada nos velhos clichês

até quando seremos receptáculo
dessas idéias dementes
que subestimam nossas mentes
nesse ridículo espetáculo
de abuso de poder?

Oficina de Escrita Literária Online – Poesia

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