Oficina de escrita literária Inspiraturas, em Pelotas

Oficina de escrita literária Inspiraturas - o fim da página em branco - A ti, que ainda acreditas na escrita, em especial a Poesia, como ...

5 de dez de 2011

2ª proposta: Retrato de personagem

Retrato de Personagem

O retrato de personagem compreende a descrição dos aspectos visuais – aparência física, fisionomia, vestuário, gestual etc -, bem como psicológicos ou emocionais – caráter, personalidade, ideal político ou religioso, etc. Lembrar que o retrato de personagem, a exemplo de toda descrição, deve ser funcional.

O ‘nome’ ou ‘apelido’ da personagem pode se constituir em um elemento descritivo, em função dos conteúdos sócio-culturais a ele vinculados. Dessa forma, o nome da personagem, por si só, serve para identificá-la e inseri-la em determinado contexto. Zenaide, Zoraia e Sybila, por exemplo, são nomes próprios que funcionam para uma cartomante – e não para uma freira carmelita!

A ‘aparência física’ e a ‘fisionomia’ são marcas que podem remeter a atributos psicológicos ou à vida pregressa da personagem, de acordo com conteúdos (preconceituosos ou não) cristalizados na sociedade. A falta de dentes indica as condições sociais da personagem. Uma cicatriz no rosto sugere um episódio anterior, marcante em sua história.

O ‘vestuário’ da personagem é um elemento funcional. Uma cigana não se veste da mesma maneira do que uma freira carmelita. O vestuário, além de identificar a profissão ou grupo – social, étnico, etc – da personagem, também é índice de sua personalidade. Exemplo de retratos estereotipados: uma mulher que sempre veste blusas decotadas tem uma postura diante da vida diferente daquela outra que nunca mostra o colo.

Os ‘acessórios habituais’ da personagem também devem ser observados. Jóias e outros acessórios revelam, além da posição social, e a época em que se passa a trama –, conteúdos internos da personagem. Grandes argolas de ouro possuem o mesmo significado do que discretos brincos de pérolas?

Ainda em relação aos aspectos visuais, a ‘postura corporal’ (onde se inclui também o gestual) diz muito sobre a personagem. O modo como José dias (Dom Casmurro) caminha revela seu caráter.

Regra de Ouro: Para o retrato da personagem é válido o preceito: ‘mostrar o que pode ser visto, sugerir o que pode ser intuído.’

 

(Oficina de Criação Literária – Aulus Mandagará Martins)

 

Proposta: crie um conto, com tema livre, em que a personagem seja retratada de forma verossimilhante às possibilidades da realidade sociocultural proposta no enredo, ou seja, o retrato da personagem deve ser convincente.

Envie o conto finalizado em formato .doc (documento do Word) para oficinainspiraturas@gmail.com até o dia 18 de fevereiro de 2012.

Subsídios teóricos do conto

Boas inspirações!

4 de dez de 2011

SUBSÍDIOS TEÓRICOS DO CONTO–A Descrição

A Descrição

“Não adjetiva sem necessidade, pois serão inúteis as rendas coloridas que venhas a pendurar num substantivo débil. Se dizes o que é preciso, o substantivo, sozinho, terá uma cor incomparável. Mas é preciso achá-lo.” (“Decálogo do perfeito contista” - Horácio Quiroga)

“Os adjetivos não nos servem de nada, se uma pessoa mata outra, por exemplo, seria melhor enunciá-lo assim, simplesmente, e confiar que o horror do acto, só por si, fosse tão chocante que nos dispensasse de dizer que foi horrível.” (“Ensaio sobre a cegueira” – José Saramago)

¨

1. Entende-se por descrição uma sequência organizada em torno de um referente espacial e que reproduz as características visíveis de um objeto, lugar ou personagem (retrato), como também os aspectos emocionais vinculados a esses elementos. Em ambos os casos, a descrição cumpre a finalidade de ‘fazer ver’.

2. A descrição deve ser funcional, ou seja, deve integrar-se à narrativa, e não se constituir em um acessório.

3. Descrições longas e exaustivas só devem ser usadas quando houver uma boa razão para tal. Geralmente, os detalhes causam melhor impressão – e deixam o leitor à vontade par compor a sua imagem.

“Terminou de crescer (Sandro Lanari), adquirindo ossatura pesada e músculos de atlante. Os olhos ficaram míopes a ponto de não avistar um pássaro. Sagaz e com a ‘Eneida’ decorada, amaldiçoava a necessidade de usar óculos, pois com eles parecia o fruto nervoso de algum seminário provinciano. Boa ou má, definia-se a figura com a qual atravessaria a vida.” (Luiz Antonio de Assis Brasil, ‘O Pintor de Retratos’)

4. Informações exatas e precisas conferem veracidade ao texto de ficção.

“O Príncipe das Astúrias – um barco magnífico, com bordos altos e perfil alongado, lembrando, com seus quase duzentos metros de comprimento, uma gaivota em mergulho – partira de Barcelona no domingo, 20 de fevereiro de 1916.” (Sinval Medina, ‘O Herdeiro das Sombras)

“Desde cedo, bem cedo, antes mesmo que os movimentos da casa iniciassem, Raquel trabalhava. A mesa já posta, três lugares, garrafas térmicas, leite, café, o jornal matutino, e o castanho áspero do pão querendo saciar alguma fome. (Cíntia Moscovich, ‘Os laços e os nós, os brancos e os azuis’)

5. Uma imagem, tendo por base metáfora ou comparação, funciona muito bem, desde que traduza o estado emocional da personagem, por meio da ação, e integre-se, de modo coerente, ao objeto ou lugar descrito.

“Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã.” (Machado de Assis, ‘Dom Casmurro’)

6. Mostre o que pode ser visto, e ‘sugira’ o que pode ser intuído, sobretudo o estado emocional, mental, psicológico. Use ‘ações’ para descrever esses estados.

“Trazia [José Diaz] as calças curtas para que lhe ficassem bem esticadas. A gravata de cetim preto, com um aro de aço por dentro, imobilizava-lhe o pescoço; era então moda. O rodaque de chita, veste caseira e leve, parecia nele uma casaca de cerimônia. Era magro, chupado, com um princípio de calva: teria os seus cinqüenta e cinco anos. Levantou-se com o passo vagaroso do costume, não aquele vagar arrastado dos preguiçosos, mas um vagar calculado e deduzido, um silogismo completo, a premissa antes da conseqüência, a conseqüência antes da confusão.” (Machado de Assis, ‘Dom Casmurro’)

7. Os adjetivos e locuções adjetivas devem ser usados com cuidado, para evitar os excessos e clichês, frequentes nas descrições. Prefira os adjetivos concretos. Às vezes, adjetivos abstratos, contrastando com o substantivo, podem se constituir em um recurso eficaz. Não abusar, contudo, desse procedimento.

8. Uma descrição eficiente pode resultar da combinação de elementos objetivos e subjetivos, sem que os últimos anulem os primeiros.

“A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na vizinhança da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela ‘casa do Ramalhete’ ou simplesmente, o ‘Ramalhete’. Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o ‘Ramalhete’, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de Residência Eclesiástica que competia a uma edificação do reinado da Senhora Dona Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo assemelhar-se-ia a um Colégio de Jesuítas. O nome de Ramalhete provinha de certo de um revestimento quadrado de azulejos fazendo painel no lugar heráldico do Escudo das Armas, que nunca chegara a ser colocado, e representando um grande ramo de girassóis atado por uma fita onde se distinguiam letras e números de uma data.” (Eça de Queirós, ‘Os Maias’)

(Aulus Mandagará Martins)

23 de nov de 2011

Poemaduro, de Mailton Rangel

Poemaduro

O livro Poemaduro, de Mailton Rangel, procura extrair da palavra o máximo proveito, em especial, por meio de jogos sonoros, fazendo eclodir toda a semântica dos signos, dos sons e até dos silêncios representados pelos aspectos da palavra que não são explícitos no poema. O leitor poderá perceber que essa preocupação cativa e estimula a leitura até o final de cada unidade, onde quase sempre se encontra uma mensagem forte, dura e, ao mesmo tempo, desconcertante.

Melquíades Ayres de Aguirre

 

Mailton Rangel, poeta, compositor e artista plástico, nasceu no dia 07 de setembro de 1952, em Italva, interior do Estado do Rio de Janeiro, quando a cidade ainda era um precário distrito do Município de Campos dos Goitacazes. Oriundo de família humilde, erradicou-se na Baixada Fluminense desde os três anos de idade onde, durante as décadas de 70 e 80, mesmo extraindo seu sustento de subempregos, também se integrava, na medida do possível, a movimentos culturais e de formação de jovens. Assim, ele consolidou seu gosto pelas artes, apurando substancialmente a visão crítica que hoje exterioriza nas canções e poemas que cria. Ainda em 1980, publicou seu primeiro livro “Pólen ao Vento”, mas por considerá-lo só um arroubo da juventude, cujo teor se estagnava um pouco àquele momento político-social, o autor jamais aceitou reeditá-lo. Atualmente, por força do cargo de analista judiciário que conquistou em 1997, mediante concurso, Mailton Rangel é um bacharel em Direito, e não em Letras, Música ou Filosofia, como lhe pareceria mais inerente. Porém, meio que paradoxalmente, tal formação somente lhe acrescentou em termos de senso de justiça e de cidadania, o que corrobora com a sua poética voltada prioritariamente para a defesa da dignidade e da essencialidade humana, atributos que, afinal, também figuram como objeto de tutela da corrente naturalista das Ciências Jurídicas. O brilho e o encanto das palavras arrebataram meu peito desde muito cedo. Quando dei por mim, ainda adolescente, eu já imprimia meus primeiros poeminhas nas sobras dos cadernos de escola, pois sintonizando o quanto dessa essência se dispersava na comunicação verbal, vislumbrei no ato de escrever a forma mais segura e gratificante de apreender as tantas pérolas que se formulam pela emoção. Palavras, se ordenhadas pela grafia, assemelham-se às flores: quando reunidas em arranjos metódica e carinhosamente elaborados, assim como essas, elas também podem nos surpreender com uma beleza muito mais substancial. Entretanto, as flores murcham, esvaindo seu encanto e dispersando seu perfume, enquanto que as palavras, além de indeléveis, tendem a congregar no bojo de sua perene excelência, uma surpreendente propriedade terapêutica, passível, a um só tempo, de perfumar a vida amarga de alguns homens, dimensionar o equilíbrio de outros e remediar a alma entorpecida de uns terceiros. É por isso que eu escrevo!

 

Poemaduro
ISBN 978-85-366-0753-5
Poesia - JS 4170
Formato 14 x 21 cm - 112 páginas
1ª Edição - Ano 2007
 Livraria Virtual Asabeça

ou fale conosco, que o encaminhamos ao autor.

SUBSÍDIOS TEÓRICOS DO CONTO–O Diálogo

1.Constituição do diálogo:

Em narrativa, o diálogo possui, de um modo geral, dois elementos: a fala da personagem e a intervenção do narrador.

– Um copo d’água, pelo amor de Deus – disse Fifi, atirando-se no sofá.

– Não tem ninguém em casa? – gritou, em direção à cozinha.

 

2.Transcrição do diálogo direto:

a. Há várias maneiras de transcrever, diretamente, a fala das persongens. A mais usual, em língua portuguesa, na atualidade, é com o uso de travessão, como no exemplo acima. Nesse caso, o travessão desempenha uma dupla função: introduzir a fala (o primeiro e o terceiro) e a intervenção do narrador (o segundo e o quarto), de modo que fique claro para o leitor o que é fala e o que é narração.

b. Observa-se, também, o uso de aspas na transcrição do diálogo, recurso pouco utilizado em língua portuguesa:

“Um copo de água, pelo amor de Deus”, disse Fifi, atirando-se no sofá.

" Não tem ninguém em casa?”, gritou, em direção à cozinha.

No exemplo, a fala da personagem fica entre aspas, distinguindo-se da intervenção do narrador.

Esses procedimentos não se constituem em regras obrigatórias. A transcrição do diálogo é eficiente quando não se confunde a fala da personagem com a intervenção do narrador.

c. Atualmente em desuso, a forma seguinte era a habitual no século XIX e a primeira metade do século XX:

– Um copo de água, pelo amor de Deus, disse Fifi, atirando-se no sofá.

– Não tem ninguém em casa? gritou, em direção à cozinha.

Como se percebe, a separação entre fala e narração dá-se através de vírgula e pode causar embaraços à leitura, em determinados casos.

 

3.Princípios do bom diálogo:

a. Intencionalidade: as palavras postas na boca das personagens devem ter uma justificativa. Tudo o que elas dizem provém de uma intenção determinada. As falas, muito mais do que simples informações para o entendimento do texto, revelam algo sobre a personagem. As palavras remetem o leitor para o estado de ânimo da personagem.

b. Precisão e economia: por princípio, falas e diálogos curtos são mais eficientes. Desse modo, as palavras da personagem devem ter um significado preciso e não devem dizer mais que o necessário.

c. Naturalidade e coerência: o diálogo deve soar natural aos ouvidos do leitor. Diálogos coerentes são aqueles verossímeis coma personagem.

d. Fluidez: diálogos excessivos, frouxos e lentos devem ser evitados. As falas e as réplicas devem se complementar, a menos que se tenha intenção contrária.

Aulus Mandagará Martins

Universidade Federal de Pelotas

19 de nov de 2011

1ªproposta: diálogo intercalado com narrador

Diálogo é uma conversação estabelecida entre duas ou mais pessoas.

1.Entendimento através da palavra, conversação, colóquio, comunicação. 2. Discussão ou troca de idéias, conceitos, opiniões, objetivando a solução de problemas e a harmonia. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Di%C3%A1logo)

A pontuação é muito importante quando falamos em diálogo na escrita. É preciso que fique bem marcada a fala de cada personagem. O sinal de pontuação mais comum é o travessão aberto em cada parágrafo para cada fala. Alguns usam aspas* ou apóstrofos (aquela virgulazinha que fica embaixo das aspas no teclado do computador), que são aceitos sem problemas desde que sejam uniformes no texto, usei aspas no primeiro diálogo, uso aspas até o final. Vasgas Llosa fez um livro inteirinho sem sinais de pontuação – o que tem seu valor dentro da proposta dele – mas de difícil interpretação para os leitores mais comuns (inclusive para alguns nem tão comuns). Então, talvez seja melhor apostar nos sinais para passar da melhor forma a mensagem. Uma outra característica do diálogo é o discurso direto.

Discurso Indireto:

Ex.: Joana disse a Mateus que queria ir embora.

Discurso Direto:

Ex.: ─ Mateus, quero ir embora. – disse Joana.

“Retalho” é um texto de oficina. Foi feito a partir de um exercício de técnica narrativa. A proposta era “Diálogo intercalado com narração”, ou seja, o enredo deveria ser trabalhado em cima das falas das personagens prioritariamente e, enquanto isso, o narrador iria se misturando à história e fechando as lacunas deixadas por essas falas...

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RETALHO

─ Não vai sair hoje, filha? ─ D. Regina, sentada no sofá, pergunta com a colcha de retalhos nas mãos.

─ Não, vovó! ─ Mariana surge na porta da cozinha.

─ O rapaz tem aula? ─ A velha senhora escolhe mais um pedaço de tecido e, com uma tesoura, recorta um quadrado.

─ Não, ele quase não tem ido às aulas. ─ A moça senta-se no chão, na frente da avó, as pernas finas cruzadas.

─ E o serviço? ─ retorna a senhora, enquanto começa a costura do retalho vermelho.

─ Ele trabalha com o pai... é seguro! ─ Mariana estende o braço para pegar uma lixa de unha dentro de um pote de cerâmica, na estante de madeira escura.

─ Ah! ─ diz D. Regina olhando para a costura. ─ Então por que não saiu hoje? É sexta!

─ Por causa de mamãe... ─ Mariana ri e começa a lixar as unhas curtas e sem pintura. ─ Ela me pediu para ficar em casa... quer me apresentar o tal Ademar.

─ Xiii... ─ D. Regina pára a costura e olha para a adolescente. ─ Este deve ser sério então! ─ E fazendo o sinal da cruz, finaliza. ─ Que Deus nos livre!

─ É... ─ Mariana dá de ombros e termina de lixar a última unha.

─ Bonita a blusa ─ diz Ademar encostado na geladeira. ─ O rosa combina com você.

─ Obrigado ─ Mariana responde num tom baixo, engolindo o resto do leite. ─ Preciso ir.

─ Tão rápido? ─ O homem alto sorri e continua. ─ Não vai esperar a chegada da sua mãe?

─ Ela vai demorar. ─ Mariana levanta-se da cadeira e pega o copo para depositar na pia. ─ Sempre chega tarde às sextas... você sabe.

─ Aonde vai? ─ Ademar dá dois passos e pára na frente da moça. ─ Tem aula hoje?

─ Não... vou encontrar o Dudu. ─ Ela recua, esbarrando na cadeira.

─ Tome cuidado... ─ Com um sorriso no rosto, o homem de cabelos escuros segura o braço de Mariana. ─ Vai se machucar desse jeito.

─ Tudo bem. ─ Ela tenta retirar a mão. ─ Não vou cair...

─ Precisa gostar de mim, menina! ─ Ademar diz, a pressão da mão no braço da menina aumenta e finaliza com um sussurro. ─ A felicidade de sua mãe depende disso.

─ Não gosto desse rapaz! ─ Ademar fala para Tereza, deitado na cama de casal. ─ É um vagabundo!

─ É só um menino, meu bem! ─ Tereza diz, de dentro do banheiro, enquanto passa um creme no rosto. ─ O namoro não é sério.

─ Acho que você está enganada! ─ Ele suaviza a voz. ─ Mariana está levando esse namoro a sério. É um desperdício!

─ Não entendi ─ A mulher morena, de cabelos crespos e curtos, aparece na porta do quarto. ─ O rapaz parece boa gente. Não gosta muito dos estudos, mas...

─ Tereza ─ Ademar não a deixa terminar. ─ Mariana é uma menina inteligente, bonita, tem um futuro promissor pela frente... ─ Ele senta-se na cama. ─ Ficar presa a um rapaz sem estudos, que vive à custa do pai... Por favor!

─ Eu sei, mas... ─ Tereza também se senta. ─ O que podemos fazer?

─ Você me dá permissão para resolver esse assunto? ─ Os olhos azuis encaram a face de Tereza. O lençol escorrega e mostra a nudez do corpo moreno. Ele aproxima-se da mulher e finaliza baixinho. ─ Tenho essa menina como minha filha!

─ Claro, meu bem! ─ Tereza observa os pêlos no peito de Ademar, que formam um triângulo. ─ Tem toda a permissão.

─ Mãe? ─ Mariana pára na porta do quarto de Tereza. ─ Posso falar com você?

─ Agora não, filha ─ Tereza diz e pega a bolsa de couro preto em cima da cama. ─ Estou atrasada!

─ É rápido! ─ A moça encosta-se no batente da porta. ─ É sobre o Ademar...

─ Já disse que agora não tenho tempo! ─ Tereza suspira e ajeita o cabelo, olhando-se no espelho da penteadeira. ─ Mas adianto que se é sobre o comportamento dele diante do seu namoro com Dudu... esqueça!

─ Mas, mãe... ─ Mariana entra no quarto. ─ Você não entende...

─ Chega! ─ A mãe se posta ereta diante da garota. ─ Não vou aceitar reclamações suas sobre o Ademar! Ele apenas está preocupado com você!

─ Tá certo, mamãe... ─ Ela baixa a cabeça. ─ Eu só queria...

─ Acho que já nos entendemos, Mariana! ─ Tereza passa pela filha e, antes de sair do quarto, finaliza. ─ Prepare o jantar para o seu padrasto! Ele deve chegar cedo hoje.

─ Parece preocupada! ─ Dudu passa a mão pelo rosto de Mariana. ─ Aconteceu alguma coisa?

─ Não ─ Ela responde, o olhar baixo, e beija a mão de Dudu. ─ É só o clima lá em casa...

─ Quer falar sobre isso? ─ Ele chega mais perto e começa a beijar o pescoço da moça.

─ Pára, Dudu... ─ Mariana reclama quando sente a mão do rapaz num dos seios.

─ Oh, Mariana! ─ Dudu se afasta. ─ Estamos namorando há quatro meses e ainda não confia em mim!

─ Acho cedo demais para isso, Du ─ A menina sorri. As maçãs do rosto tingindo-se de vermelho. ─ Quero que seja especial... quero estar segura.

─ Desculpa... ─ Dudu suspira e sorri também, passando os dedos pelo cabelo de Mariana. ─ Quando você quiser, amor, quando você quiser...

─ Ah! ─ Mariana assusta-se com a entrada de Ademar no seu quarto. ─ O quê...?

─ Esteve com o vagabundo hoje? ─ Ademar tem o semblante fechado. ─ Responda, Mariana!

─ Eu... ─ A moça cruza os braços. A camisola de algodão sobe mostrando as coxas. ─ Sim, eu vi o Dudu, mas... foi rápido e...

─ Pensei que tivesse proibido você de ver esse menino! ─ Ele fecha a porta do quarto e aproxima-se de Mariana. ─ Vai sofrer as conseqüências, menina...

─ Não... por favor ─ Mariana implora ao ver Ademar desafivelar o cinto da calça. ─ Ademar...

─ Já tive muita paciência com você! ─ Ele termina de abrir o cinto. ─ Prometo que vai doer só um pouquinho...

─ Consultório médico ─ Tereza atende ao primeiro toque do telefone. ─ Boa tarde!

─ Mãe... ─ Mariana tem a voz rouca. ─ Eu...

─ Só um minutinho, filha. ─ Tereza vê a luz da outra linha piscando. ─ Sim, doutor?

─ Passe o próximo ─ Dr. Carlos fala com um tom cansado. ─ Espero que não tenham muitos.

─ Apenas oito, doutor ─ Tereza ri e aperta outra tecla do telefone. ─ Só mais um minuto, querida ─ O próximo, por favor ─ diz abrindo a porta da sala do doutor. Volta à mesa após um casal entrar. ─ Pronto, meu bem...

─ Mãe... ─ Mariana ainda tem a voz rouca. ─ Que horas você vem?

─ Saio às oito. ─ Tereza observa uma senhora entrar no consultório. ─ O que foi, querida?

─ Nada ─ Ela responde após uma breve pausa. ─ Só queria pedir que fizesse o jantar...

─ Pode deixar, querida, Ademar teve que viajar, já ia ligar pra você ─ Tereza abre a agenda e faz um gesto para a senhora sentar. ─ Preciso desligar, meu bem.

─ Tá... ─ Mariana baixa mais um tom na voz. ― Mãe?

─ Sim? ─ Tereza franze a testa. ─ Aconteceu alguma coisa?

─ Não... ─ A moça suspira. ─ Só queria... amo você...

─ Também te amo, filha! ─ Tereza desliga

─ Mariana? Cheguei! ─ Tereza entra na casa e acende o interruptor de luz da sala. ─ Comprei bifes... só quatro, pois Ademar não vem! ─ Enquanto fala, dirige-se à cozinha. ─ Teve que viajar. ─ Desembrulha a carne e pega um prato no armário. ─ Dia horrível! Todos resolveram consultar!... Diabos! ─ diz após derrubar, no chão, um dos bifes. ─ Que raiva quando isso acontece! ─ Pega o pano e abaixa-se para limpar o sangue. ─ Mariana, me ajuda aqui? ─ Aumenta um tom na voz. ─ Mariana? ─ Tereza larga o pano, as mãos ainda vermelhas do sangue, e volta à sala. ─ Mariana? ─ Repete, olhando para o quarto da filha, que tem a porta semi-aberta e a luz acesa. ─ Mariana? ─ A mãe empurra a porta. ─ Não!!! ─ Grita e cai de joelhos perto do corpo frio de Mariana.

Dhenova

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A proposta:

Escreva um conto, limitado a 200 linhas, com temática livre, utilizando como recurso narrativo os diálogos intercalados com narração. Observe para que os diálogos sejam verossímeis e o conto seja atraente ao leitor.

Envie o conto finalizado em formato .doc para oficinainspiraturas@gmail.com até o dia 08 de fevereiro de 2012.

Subsídios teóricos do conto

Boas inspirações!

17 de nov de 2011

Resultados da 3ªOficina Inspiraturas de Poesia Livre–vencedora: Luciana Brandão Carreira Del Nero

Parabéns LUCIANA BRANDÃO CARREIRA DEL NERO, vencedora da 3ªOficina Inspiraturas de Poesia Livre. Nossos cumprimentos e gratidão a todos os participantes, oficineiros e jurados.
 
  PROVOCAÇÕES 1 2 3 4 5 parcial
    Os Silêncios Solilóquio Poesia Social A Morte na Poesia Os nomes e as Lembranças  
01 Francisco Córdula 3,68 4,00 3,83 3,30 3,46 18,27
02 Leh Lopes 3,70 3,20 4,33 3,20 4,46 18,89
03 Marisa Schmidt 4,87 3,83 3,70 3,62 4,50 20,52
04 André Anlub 3,80 2,53 2,16 0,00 3,00 11,49
05 Luciana Brandão Carreira Del Nero 4,03 3,03 5,00 4,22 4,73 21,01
06 Dhenova 4,32 3,90 3,96 4,36 4,06 20,60
07 Cristina Macedo 3,53 2,83 3,70 4,10 3,26 17,42
08 Flávio O.Ferreira 4,30 4,50 3,66 3,96 3,16 19,58
09 Elias Araújo 2,75 3,33 4,37 4,10 4,33 18,88
10 Samuel Barreto 0,00 2,16 3,57 0,00 4,30 10,03

8 de nov de 2011

3ªOficina - 5ªrodada - Rangido das correntes


Rangido das correntes

Rangido das correntes
vai e vem da madeira
Pernas balançam rentes
pés que roçam areia

No balanço da praça
menina desafia lembranças
No alto, sol no rosto
sorriso, covinhas e ânsias

Vestido de corações
brancos e vermelhos
Cortes sem direções
riscados nos joelhos

No largo, busto exposto
do general da guerra
Todo seu pressuposto
cruel  ideal encerra

Mortes, ambições
pretas e brancas
Despidas de emoções
marcadas em âmbar

Rangido das correntes
vai e vem da madeira
Pernas balançam rentes
pés que somem na areia!

PENÉLOPE DE ÍTACA

3ªOficina - 5ªrodada - Acaso Oculto


Acaso Oculto

Atravesso o sonho
De nomes extintos
Em cores tão cruas
E febres tão leves

Se a noite é sua
Desejos tão reles
Ecoam sucintos
Em profundo sono

Teu nome invade
Em silêncio o ocaso
E rasga a lembrança
De outras manhãs

Já não fazes parte
Metade ocultada
Teu nome resguarda
Maldade terçã
 
Tangerina Urbana

3ªOficina - 5ªrodada - O brinquedo na praça


O brinquedo na praça

Os nomes das praças e das ruas e das avenidas
percorridas pelas lembranças de uma etapa inglória,
lembram aos homens de suas heranças indignas,
impostas pela dura mão da história.

E o brinquedo na praça onde hoje a criança brinca
− na esquina daquela rua, ao cruzar a principal avenida −
contradiz a espessura  de outras vidas,
de gente que brincava brigando com a censura
frente à esbórnia de uma classe em supremacia.

− esses ficaram sem nome, sem praça, sem pátria.
Sem rua, sem chão.
Sem vigas.
Sem vitória.

Lubracadene

3ªOficina - 5ªrodada - IN(VERSÃO)


IN(VERSÃO)

No final, todas as guerras viram História
E ela cria heróis e vilões de oportunidade
As dores e as mortes tatuam na memória
Os rostos de filhos e de pais em saudade.

Nas brumas do tempo a verdade repousa
Quem vence a batalha, determina a versão
Os nomes dos vencidos são marcas na lousa
 E os dos generais ornam as praças da nação

A vida seguindo em despreocupada ironia
Coloca crianças em brincadeiras na praça
Promovendo suas guerras de areia e fantasia

No banco os namorados dão um beijo sensual
Enquanto os pombos, na mais inocente chalaça
Defecam sobre o bronzeado busto do general...

Florlinda Abate

3ªOficina - 5ªrodada - Ame-o ou deixe-o!

Ame-o ou deixe-o!

O País numa embaçada geral
As armas como segurança inócua
A morte como libertação arbitraria
Letargia e opressão de mãos dadas

Tudo jogado para baixo do tapete
Corrupção, canalhices e abusos que tais
Nos porões gemidos e dores latentes
E nada a noticiar nos jornais

Nas escolas propaganda mentirosa
Divulgando um mundo irreal
Nas casas o medo e a sombra diuturna
Ditadura! Nada mais anormal ou imoral

Um tempo de demagogias e maculas
Marcadas por desaparecimentos abruptos
Arroubos de nacionalismo estúpido
Restando o legado amargo dos generais.

Breno Galtieri

3ªOficina - 5ªrodada - Tempo de Inocência


TEMPO DE INOCÊNCIA

Eram apenas páginas
e mais páginas de livro,
mas que cantavam
para meus olhos ouvirem.

Falavam de Heróis,
com H maiúsculo,
feitos de garra, fibra e História
e um punhado de sonhos e músculos.

Eram meus heróis da infância:
tão reais quanto o sol
que a vista alcança,
sem superpoderes, sem capas, sem utopia:
tão reais que cabem em minha poesia.
Minha poesia? Vou, agora, compô-la,
pois que passou, sem heroísmo,
a inocência do tempo da escola...

Ah, meus heróis!
Almirantes, capitães, marechais!
Se puderem responder
agora em tempos de paz:
quantas crianças perderam a infância,
sem heróis que as salvassem,
e dormiram na lama,
para que vocês, meus Heróis,
tivessem eternizada a sua fama?

Tom Alguma Coisa

3ªOficina - 5ªrodada - Meu norte


Meu norte

Foi dito e repetido

“Quem mata um é assassino, se mata muitos é herói”
Será que é legalização para matar?

Podem ser só palavras de pessimismo e crítica...
Ou o abismo de quem se identificou com as palavras.

A meu ver ninguém precisa ser mártir
Penso que também não é necessária a morte.

Viver bem, fazer o bem
Esse é meu norte.

Gentileza

3ªOficina - 5ªrodada - Devoradores


Devoradores

Do que vale esses nomes que eu ouço
Afundando a mais profunda solidão,
A tristeza dessas horas pouco a pouco
Faz sangrar uma lembrança de ilusão.

Quem falou que herói é coisa assim
Triturando a calmaria do indefeso?
Cada estrela que carrega de marfim,
É a emblemática crueldade do ileso!

Vi Antonio tombar no monte santo
Todo sangue banhando aquele manto,
Destruíram uma terra em plantação.

As crianças que um dia foram escudo
Quem assistiu a chacina ficou mudo:
Esses nomes e lembranças são em vão.

João de Ana

6 de nov de 2011

3ªOficina - 5ªrodada - Heróis?!


Heróis?!

Não assustem as crianças
que brincam
nas praças
refúgios da derradeira
ingenuidade

Crianças brincam
nas praças
que têm nomes
de generais
constituídos

Instituídos heróis
da pátria
apesar do sangue
dos soldados mortos
dignidade assassinada

Os meninos observam
as guerras
as batalhas
a morte
crueldades de toda sorte

Poupem os pequenos
deste mundo
atroz
veloz,
mundo de armas e brasões

Parem!
Já chega!
Não ensinem a guerra
Não destruam a infância
Não assustem as crianças

Poema Paixão

5 de nov de 2011

30 de out de 2011

3ªOficina - 4ªrodada - Ser o não-ser


Ser o não-ser

Há-de-ser leve leve,
de leveza tal
que o vazio que se forma
indelevelmente
se transforma
na sem razão de ser.

Esse não-ser permanente
desconectanto  corpo e mente
há-de-ser o que não é.

Tangerina Urbana

3ªOficina - 4ªrodada - Tanatoscopia


TANATOSCOPIA

Surgindo a centelha da vida
há sempre nela escondida
a figura sinistra da morte...
Resta-nos evitar que aporte

A infância descuidada ignora
que existe a atenta senhora
rondando os seus folguedos
E pais varados por medos

A juventude sempre a desafia
escorada em insensata rebeldia
faz da morte adversária constante
Vencê-la torna a vida interessante

Mais tarde, o homem a respeita
Consciente que ela o espreita
em cada esquina da existência
Sua meta é só a sobrevivência

Quem foi poupado, envelhece
E pode ser que peça em prece
que a temida venha finalmente
Trazendo o descanso inerente

Seja como for, resta a certeza
que a morte, por sua natureza,
é a prima-dona do nosso teatro:
É dela a apoteose do último ato!

Florlinda Abate

3ªOficina - 4ªrodada - Verso Predestinado


Verso Predestinado

Ingênuo, abstrato verso
nasceu livre, feliz
empilheirou rimas
riu das falhas vis
buscou matizes e sinas

Colorido, apaixonado verso
traçou linhas imaginárias
desejou no céu controverso
gravar amor sem falácias

Tolo, imaturo verso
fragmentou-se em batalhas
seguiu atrás do convexo
encontrou só navalhas

Decepcionado, amargo verso
desenhou tristezas
no chão verde imerso
desdenhou belezas

Atrapalhado, medíocre verso
fez da briga a cena
entalhou ódio no anverso
e renegou poemas

Entristecido, doído verso
em seu último suspiro
solilóquio disperso
fez-se amante do mito

agonizou envenenado
soprou tom perverso
distorceu embriagado
pueris manhas
em brancas linhas...

Expulsou, o verso
agonia velada
marcou o fim do eterno
escreveu a última letra
morreu, enfim, predestinado.

PENÉLOPE DE ÍTACA

3ªOficina - 4ªrodada - Folhas do cerrado


Folhas do cerrado

Tudo aconteceu numa viagem ao cerrado,
de onde eu guardo uma folhagem seca num vaso,
ao lado de minha cama.

Vida e morte se embaralham nessas folhas:
signos de um fim mas também  de um recomeço,
no tropeço do acaso e do tempo que se abre para o novo,
nas folhas de papel que se quer poema e chama.

Poesia e vida se irmanam nessa morte −
Morte, de onde a centelha criativa germina.

E no furo do tempo que essa folha origina,
prevalece o fuso insistente da hora inexata
na fresta do dia que se faz mais dia
resgatando a noite que se quer inquieta
e que objeta o marasmo embora dele se nutra.

Lubracadene

3ªOficina - 4ªrodada - Sorrateiramente morri


Sorrateiramente morri

Chegaste sorrateira
Conquistando minha alma
Quando notei já te pertencia

Ficaste comigo em meu repouso
Não me esquentaste na pedra fria
Restando apenas meu invólucro tosco

Minha alma levaste contigo
Para muito alem de onde nunca fui
Dando-me numa paz, nunca antes sentida

Nada de minha vida terrena levei
Apenas resquícios de saudades intimas
E poucas lembranças que o vento apaga

O tempo é o melhor juiz
Ficarei contigo até que outra vida floresça
E minha alma liberta outra embalagem receba

E outra vez terráqueo
Ficarei aguardando sua nova visita
Para novamente passearmos pelo infinito.

Breno Galtieri

3ªOficina - 4ªrodada - A caminho...


A CAMINHO...

...do trabalho
um homem caiu no Terminal:
— estava vivo
saudável
forte
ainda ontem alguém o tinha visto nalgum lugar! —
ia trabalhar, mas caiu.
O chão o amparou
como segura uma fruta muito madura
que se espatifa na efemeridade dos que
   nascem
   e vivem
   e morrem
no final do que passou.

ninguém o socorreu:
não por impiedade
mas faltava saber para o que fazer
contra a impunidade...
... da Morte.

ninguém o socorreu: só o celular:
bendita tecnologia!
que evoluiu mais do que a vida
       mais do que os homens
menos do que a morte
       mais do que o homem que caiu no Terminal:

o coração perdido
    — não de amor
                de amor não —
perdido porque errou o caminho
  esqueceu os compassos
  atrapalhou-se nos passos
  inventou de dançar diferente.

um homem caiu no Terminal
e foi socorrido pelos olhos condoídos
  das gentes!


Tom Alguma Coisa

3ªOficina - 4ªrodada - Dano


Dano

Espumas de marfim
escorrem
sobre seus pés
nus
você ausente
pressente
o poder do mar
imenso
você olhos
fixos
no turquesa das ondas
quebradas
você imóvel
pedras nas vestes
cinzas
você chama apagada
você murcha
você nada.

Cede enfim
ao apelo
das águas
você agora
afoita
caminha
sem volta
sem culpa
sem tento
mar adentro!

Poema Paixão

23 de out de 2011

3ªOficina - 3ªrodada - Glórias aos Mártires


Glórias aos Mártires

Gritem alto, gritem gloria,
Sendo sérios,
Sejam honestos nesta hora.
Glorifiquem os mártires vivos,
Bendigam os corações ardidos,
Proclamem a sabedoria
Dos donos da terra,
Senhores de nossos dias!

O tempo, o vento,
A saudade, a verdade,
O relento, o arrebento,
A sagacidade, a felicidade.
Plagiem as mesmas histórias,
Murmurem os acontecimentos,
Mas não deixem sair da memoria
Os heróis de nosso tempo.

Índio Galdino,
Chico Mendes,
Retrato de um povo
Sem lei, sem vez,
Sem voz, nem talvez.
Terra entregue aos covardes,
Viva os poetas da humanidade,
Cancioneiros.
Viva os mártires vivos,
Viva os desafios, viva nossa sociedade!

Tangerina Urbana

3ªOficina - 3ªrodada - A Alma do Negócio


A ALMA DO NEGÓCIO
 
A felicidade está à venda o tempo inteiro
conta a platinada venus mercantilista
do carro importado ao amor verdadeiro
pode-se ter tudo... Até o carinho da artista

Nos quatro cantos da miséria sem apelo
o sonho de consumo surge com facilidade
se no novelístico lar pleno de cálido desvelo
sobra aquilo que falta na desvalida realidade

Nos cantos sombrios da mente confusa
o brilho falso da propaganda incita e abusa
dos desejos tão acalentados pela fantasia

Escusa dizer que mais dia ou menos dia
o herói esfomeado e armado de letal poder
busca ao vivo e em cores o que julga merecer...

 Florlinda Abate

3ªOficina - 3ªrodada - Sem Adereços


SEM ADEREÇOS

Quero a paz sem adereços
sem tons vermelho ou prata
que venha densa e cálida
ah, a paz que almejo...

pálida seja a ira
num céu sem fuzis
o perfume da rosa
invada em brisa sutil

iludida seja a paixão
mergulhada em branco
espante a solidão
com sorriso franco

tácita seja a briga
na avenida ou mar
cale o motivo escondido
emoção em ter mais

enaltecido seja o amor
desenhado entre estrelas
visto por todos entes
amanhecer sem fronteiras

cristalizada seja a razão
num poema frágil
deite as regras no chão
sem confusão ou maldade

Quero a paz sem adereços
sem tons vermelho ou prata
que venha densa e cálida
ah, esta paz que almejo!

PENÉLOPE DE ÍTACA

3ªOficina - 3ªrodada - Calçadas


Calçadas

As calçadas estão lotadas
Invadidas de pedintes,
Recheadas de viciados,
Tomadas por farrapos humanos
Subnutridos, subdesenvolvidos
Deslocados no mundo possível

Não precisa ser especial para notar
Basta ser cínico para ignorar
As calçadas são nossas verdades
Nosso dia a dia sem maquiagem
Desmantelo que não tem como esconder
Soluções se existem ninguém quer achar

As calçadas das lojas de "marcas"
Do consumismo desmedido e compulsivo
Termômetro de nossas mazelas
Tela verdadeira de nossas diferenças
Realce maior de nosso abismo
Contraste entre nua verdade e realismo

As calçadas estão mudas
Já não há balburdia como antes
Estão conformadas e amordaçadas
Numa enganosa paz reinante
Talvez um dia sendo otimista
As calçadas voltem a ter vida.

Breno Galtieri

3ªOficina - 3ªrodada - Nenhum ou nenhuma


Nenhum ou nenhuma


Nenhum vislumbre de poesia no horizonte,
quando a fome amordaça a palavra.

Nenhuma nesga de luz guiando o caminho,
quando a liberdade é tolhida daquele que pensa.
  
Nenhum resquício de vida pulsando nas veias,
quando a vaidade e a mais-valia imperam no mundo.
  
Nenhuma ousadia alumiando o destino dos homens,
quando o medo do novo os aprisionam e a comodidade em suas vidas prevalece.


Lubracadene

3ªOficina - 3ªrodada - Na rua


Na rua

Você perdido
vício no lixo
da vida
que nada dá

Sinal fechado
olhar  vidrado
na fantasia
do que não há

Pessoa nenhuma
socorre você.
Qual a saída?
Crer no PT?

Impiedosa
a cidade
pra você é nua
meu pobre menino de rua!

Poema Paixão

3ªOficina - 3ªrodada - “Centoeoitenta”


“Centoeoitenta”

Batem na sua porta ou entra num ônibus... Cobrador
Não sente mais dor, pois tem medo de gastar no médico
Nem medo mais pode sentir, psicólogo tá um horror.

Anda contando os vinténs
Comendo salsicha com macarrão
Aperta o sinto e o santo
Nem para cumprimentar abre a mão.

Mora ainda naquele casebre
Com goteiras, sem luz e esgoto
Parou com vício, não bebe
Arrumou um oficio no banco

Enfim mexendo na riqueza dos outros
Não vive mais buscando esmolas
Pode comer agora finos biscoitos
Afrouxa as mãos e as calçolas.

Gentileza

3ªOficina - 3ªrodada - Sorte Grande


SORTE GRANDE
                         
E agora, João?
              parabéns!
arrumou um emprego também...
mas o Outro não.

E agora, João?
              primeiro pagamento
o prato cheio de contentamento
ou será um pouco de feijão?

Tanto faz, João, tanto faz
porque agora João deita em paz...
mas o Outro não.

E agora, João?
E agora João
               não ganha tanto
que possa ser feliz,
como outrora quis,
em dividir o pão.

Ah, João está rindo à toa,
                                claro;
    impossível condená-lo.
Agora João doa
não recebe mais
mas tanto faz
como tanto fez
João tirou a sorte grande:
está escrito e alinhavado em sua tez
alinhavado não costurado
porque agora o João exibe
arroz com feijão e bife
ovo frito
       frita batata
               batata que sobra vai na sopa de macarrão
João tem dignidade agora e nem chora
Arrumou um emprego agora, o João...
Ah! Mas o Outro não...

Tom Alguma Coisa

3ªOficina - 3ªrodada - Desrespeito


DESRESPEITO

Chuva forte,
Madrugada.
Falta sorte.
Enxurrada.
O governo
Nada vê.
E deixou acontecer.
Tanta gente
Ameaçada,
Uma vida
Desgraçada.
Só há medo
No  lugar.
Nuvem escura
A sombrear.
Esta noite
Não  acaba
E o governo
Nada sabe.
Tantas vidas
Decepadas.
Tem família
Desabrigada.
E o governo
A  lamentar
A tragédia do lugar.

Sol Poente

3ªOficina - 3ªrodada - Lamina


Lamina

A mão que corta a carne
Afia a dor da vida,
Treme de medo
E causa pavor.

A faca que afia a dor
Ceifa mil vidas,
Impõe segredo
É um horror.

Corta, corta sem cessar
Pinga a gota
Vai crescendo,
Toma tudo,
Fome e sede
Pouco tempo
Vida jaz.

Quem ouviu o último grito?
Cochilava sozinho,
Estava sem graça
Vendia promessa
Queria riqueza
Sonhava o mundo,
Enorme e restrito.

Sento na ponta da estrela
Vejo alguém chorando
Tem outro sorrindo,
Na vida tem festa
O brilho engana
A cana vem bem
Depois da costela.

A faca afia
A vida confia
O medo é sangue.
Lá vem o pavor
A morte é dor
É banho de mangue.

João de Ana

16 de out de 2011

3ªOficina - 2ªrodada - Poderia chamar-se esperança


PODERIA CHAMAR-SE ESPERANÇA

Encontro você a toda hora...
Já bem cedo no espelho
o meu olhar se demora
esperando seu conselho
A melhor roupa a vestir
será a que você decidir

Você me mostra no dia
(seja de sol ou chuvoso)
os motivos para alegria
-Viver é bem precioso
me diz sua voz de menina
cantarolando em surdina

 Você é a sensibilidade
aflorada em demasia
trazendo a fragilidade
expressa em minha poesia
onde choro em cada verso
este insensível universo

Quando me pego olhando
encantada algum filhote
é você quase implorando
pedindo que então eu note
a riqueza da vida nova
(e da velha posta em prova)

Minha alma - menina
que ainda baila e brinca
e que jamais desanima
quando a tristeza me trinca
o nome Esperança poderia ter
...Eu não vejo você envelhecer!

Florlinda Abate

3ªOficina - 2ªrodada - Do Desafio de Ser


DO DESAFIO DE SER

Quero a lua enquadrada
na minha sala
te ter no campo de visão
quero a chuva em risco
pisar firme no chão

Quero a busca solta
na minha cama
te ter abstrata
quero a alma afinada
notas altas em dó

Quero a sensação única
na minha vida
te ter como estrela
quero a trilha verde
som rasgado de folhas...

Quero a loucura sã
na minha verdade
ser mais do que ter
encontrar a passagem.

PENÉLOPE DE ÍTACA

3ªOficina - 2ªrodada - Contra a corrente


Contra a corrente

Eu que não sou moderno
Nem sou mordomo,
Apenas o dono
De preguiça infindável
Compreendo o tema
E me prendo nas travas
De versos vazios
De compreensão.

Meu libelo, livre e liberto
Arrefece ancorado no medo
Sou eu o covarde
Medíocre serpente
A arrastar-se na sombra
Contraditória
Esgarçando-me no frontispício
Da memória

Oh céus!
Oh vida louca!
Arrebatamento que me envolve.
Rompante de loucura e medo.

O que diz em mim
O que me comove
O que me circunda
E se alastra em meu intimo
Nada mais que o silêncio
Nada mais que o desejo
De permanecer calado
À sombra da noite

Oh céus esparsos!
Sou eu o covarde!
Rasgando o véu
Que encobre meu mundo!
Contrafeito
Aos homens ousados
de boa vontade.

Tangerina Urbana

3ªOficina - 2ªrodada - Xeque-mate


Xeque-mate

Cortei meu cabelo e pintei de preto
Olhou para mim de jeito como quem olha um espelho
Passou o dedo nos dentes e se ajustou
Passei na sua frente... Nem reparou!

Deixei então uma carta debaixo de sua porta
Ela está em branco, talvez me responda ou chame atenção
Sei que ainda importa onde vou e estou
Também sei que tudo aquilo não foi em vão.

Escrevi em um muro em frente seu trabalho
Versos de amor com tempero de saudade
Fiz folhetos e colei nos postes das redondezas
Meu novo telefone, e-mail e site

Daqui a cinco segundo acabará meu tempo
O décimo recado que deixo na sua secretária
Sei que não me vê otária, me vê alento
Mas quero que trate minhas palavras como um xeque-mate.

Gentileza

3ªOficina - 2ªrodada - Pulsante


Pulsante

Os botões da camisa testemunham o silêncio que veste o meu peito
− um silêncio pulsante que fala,
pelas chagas do corpo.

E  é assim que na solidão silenciosa que bate no peito
a voz que me habita se cala,
subvertida numa  fala estranha,
que brota por dentro.

Efeito de puro nonsense,
essa voz é ruído que fere,
de cuja ferida resta um resto que pulsa e perturba.

... espécie de solilóquio encarnado,
aderido ao corpo que o propaga,
por entre as suas chagas,
a todo momento.

Lubracadene

3ªOficina - 2ªrodada - Solilóquio


Solilóquio

Solfejava uma muda canção imaginária
Reclamando a mim mesmo a tua ausência,
Numa trilha de dor mais que ordinária,
Divagando um combate com a carência.

Gritei espalhando um brado pelo mundo,
E uma platéia em silêncio só me olhava,
Volta e meia eu plateiava mais profundo
Nesse jogo para amar quem me odiava.  

No duelo da minha voz com os olhares,
Atravesso com os meus textos seculares,
Num compendio de credito de um ateu.

Nesse palco que provoca-me a lacuna,
No encontro da minha voz pela tribuna,
Com o final do meu ato, quem sou eu?

João de Ana

3ªOficina - 2ªrodada - Foragido


Foragido

Corri os campos sem destino
Corri e corri sempre menino
Em busca de não sei o que.

Corri sem remorso  ou percalço
Corri solto e descalço
Sempre em frente ofegante, mais corri.

Corri margens intermináveis
Corri enormes pastagens
Sem saber o que iria encontrar.

Corri estradas asfaltadas
Corri vicinais enlameadas
E até brejos que não corri,  mas pulei.

Corri paisagens, vida inteira
Subi e desci ladeira
E até da morte corri...

Breno Galtieri

3ªOficina - 2ªrodada - Aqui é inverno


Aqui é inverno

Eu te falei
que não era flor
meu amor
lembra?

Eu disse
esquece
meu perfume
de tóxico odor

Eu pedi
não te aproxima
pois minha sina
é a dor

Mas, que jeito,
você teima
e queima
por mim

Você vai pro inferno,
meu bem,
mas eu avisei,
sou inverno, sou inverno...

Poema Paixão

3ªOficina - 2ªrodada - Espelho


ESPELHO

Se eu falasse com você
e você me respondesse,
eu não estaria feliz,
como outrora um dia quis,
porque suas palavras seriam
um eco concomitante de mim mesmo.

Se eu conhecesse você
e você me conhecesse de verdade,
seríamos amigos íntimos
com laços prístinos
e viveríamos duas dúvidas
de uma mesma alma.

Porque viver é dúvida
e não certeza.
E se agora eu o vejo
talvez não seja como desejo:
como saber, afinal,
se você reflete o Eu?

Se eu penso,
logo você existe:
porque somos um só
e juntos volveremos ao pó,
mas até lá a busca continua
porque a incógnita permanece em mim.

Porque se é mister
conhecer a si mesmo,
investigando seu reflexo
contextualizadamente sem nexo
(que sou eu do lado de cá)
penetrarei no que me é imane.

Se eu olhasse seus olhos
e cheirasse seu odor;
se saboreasse seu paladar,
se tocasse seu toque,
se ouvisse mais o que você diz:
talvez eu o conhecesse melhor.

Porque o segredo de Ser
está oculto em mim
e você e eu somos unidos para sempre,
como alfa e ômega inerentes:
porque as respostas do reflexo no espelho
são incógnitas dentro de mim...

E, entretanto, tenho a certeza de sê-lo.

Tom Alguma Coisa

3ªOficina - 2ªrodada - Insônia


INSÔNIA

Boa noite, madrugada
Que silêncio é este que eu escuto?
Foi a noite que me trouxe este silêncio,
Deixou este vazio tão escuro
E que ergueu o muro
Que me separa do meu dia,
Do meu cantar, da minha alegria?
Foi a noite, madrugada
Que me deixou isolada
Neste mundo de silencio?
Então corre, madrugada,
Vá embora desta noite.
Não me sirva de açoite
A mexer nesta ferida.
Quero vida!!
Quero dia!
Quero luz e energia!
Vá embora madrugada
Leva a noite assombrada
E diga ao sol
Que pode entrar.
Vá correndo, vá depressa,
Faz o relógio correr.
Não fique inerte, aí parada...
O dia precisa nascer,
Já é hora de acordar.
Boa noite, madrugada!!!!

SOL POENTE

12 de out de 2011

Pai contra Mãe, de Machado de Assis

Pai contra Mãe, de Machado de Assis

O conto Pai contra Mãe, de Machado de Assis, publicado em 1906, no livro Relíquias da Casa Velha, insere-se na fase “madura” do autor, de características marcadamente Realistas. Ambienta-se no Rio de Janeiro do século XIX antes da abolição da escravatura, que serve de pano de fundo para a narrativa, não se configurando, porém, como a questão principal. Os aspectos sócio-econômicos das personagens beiram a miséria, com dificuldades muito grandes, dependência e escassez. O pensamento predominante é maquiavélico e capitalista, com destaque para a “coisificação” do ser humano, resumindo os escravos a mercadorias.
Fazendo um descortinamento do perfil psicológico das personagens, ele traz à tona o problema do egoísmo humano e da tibieza de caráter que subjuga o discernimento. A sociedade hipócrita em que se ambienta a narrativa é constantemente ironizada pelo narrador que vê em seus mandos e desmandos uma tentativa de impor a ordem social aos dominados, como se pudesse colocar-lhes uma máscara de folha-de-flandres para impedir seus excessos. A oposição em que se apresentam as personagens é uma briga de iguais que legitima o poder da classe dominante e da qual sai vencedor o mais forte, apesar de sua fraqueza moral e instabilidade emocional.

Narrado em 3ª pessoa, é um dos contos em que o autor apresenta a escravidão da maneira mais impressionante e brutal. A instituição forma uma tela de fundo, um elemento do cenário em que se desenrola a trama. Nesse conto a escravidão é o próprio centro da história. Aliás, na primeira linha do conto, o autor escreve: "A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais". Quando Machado escreveu este conto, a escravidão havia sido abolida há mais de uma década e já parecia algo do passado. Como quem não quer nada, Machado começou o conto como se fosse escrever uma anedotinha sobre uma profissão desaparecida devido ao progresso. O personagem do qual ele fala, Cândido, era um caçador de escravos fugidos que os capturava para entregá-los aos seus senhores. Mas ele não andava por montes e vales, vestido de botas, capa e chapéu grande, seguido por cachorros, como os caçadores de escravos que trabalhavam para os senhores das zonas rurais. Cândido trabalhava na cidade. Seu território de caça eram as ruelas, as espeluncas, os mercados, as saídas das igrejas, as procissões, as aglomerações do porto.

Para os escravos fugidos no meio urbano, a melhor coisa a fazer era misturar-se à população negra, livre, alforriada ou escrava para embaralhar as pistas. Aliás, os anúncios dos jornais da época, fonte documentária extraordinária para os historiadores, descrevem todo tipo de subterfúgio usado por escravos fugidos que buscavam confundir-se com o meio urbano. Havia anúncios do gênero: "Um tal escravo, de tal tamanho, fugiu, mas ele faz semblante de ser livre e é habituado de tal parte da cidade".

Os senhores e as autoridades, é claro, faziam questão de cercar de perto a população escrava e decretavam normas proibindo todo escravo de usar sapatos. Logo, todo negro ou mulato calçado era considerado a princípio como sendo livre ou alforriado. Nessas condições, os escravos fugidos que circulavam na cidade podiam facilmente obter sapatos para evitarem ser interpelados. Isso aumentava a confusão social fazendo recair a suspeita sobre todos os negros livres. Essa situação modificou-se após 1850 quando a imigração de proletários portugueses substituiu-se pouco a pouco os escravos no mercado urbano do Rio de Janeiro. Mesmo que Machado tivesse escrito seu conto mais tarde, após a abolição da escravidão, quando a população branca, brasileira e imigrada, era mais numerosa, seus leitores guardariam na memória a lembrança dessa cidade negra e escravagista da metade do século XIX.

Os escravos urbanos eram alugados. Seus senhores os alugavam a terceiros. Isso conduziu a uma situação particular na qual o senhor empregador do escravo não era seu senhor proprietário. Senhores confeiteiros, padeiros, maçons, marceneiros, vendedores de leilão recrutavam escravos alugados para suas atividades.
Os senhores proprietários de escravos permitiam-lhes o direito de guardar uma parte de seus ganhos a fim de formar um pecúlio que, eventualmente, permitir-lhes-ia comprar sua própria liberdade. Sabe-se que a proporção de escravos que podiam pagar seu próprio preço ao senhor proprietário era muito reduzida. Entretanto, isso representava a recompensa - o estímulo material - que impelia o escravo a trabalhar ainda mais, a fornecer rendimentos ao seu senhor proprietário para aumentar suas chances de comprar sua liberdade. Na situação já descrita do Rio de Janeiro, em que o escravo trabalhava para ganho de um senhor patrão a fim de fornecer uma renda ao seu senhor proprietário, surgia mesmo assim um problema. Isso acontecia quando o senhor patrão explorava o escravo até o esgotamento e a morte, causando, por conseqüência, uma perda não compensada por nenhum benefício para o senhor proprietário que perdia o capital que ele havia investido na compra do cativo. Para cobrir esses riscos, surgiu no Rio de Janeiro companhias de seguro para segurar a vida dos escravos em benefício de seus senhores proprietários.

Eis o contexto social no qual se desenvolviu as atividades de Cândido, caçador de escravos fugidos, personagem central do conto de Machado de Assis. Como ele fazia para ganhar sua vida na cidade? Pela manhã, lia os jornais nos quais havia muitos anúncios de escravos fugidos. Como não havia fotos nos jornais da época, as descrições eram muito detalhadas, assinalando o sotaque do escravo, suas eventuais cicatrizes etc., à maneira da polícia francesa da época no tocante aos condenados a trabalhos forçados que haviam fugido. Essa descrição física comportava pontos imprecisos.

Assim, após ter lido os anúncios e ter tomado notas das características dos escravos fugidos que ele acreditava poder cruzar nas ruas da cidade, Cândido saía para caçar. Com auxílio de uma corda, ele atacava a pessoa que julgava corresponder a um anúncio determinado. Antes de tornar-se um caçador de escravos fugidos, Cândido havia tentado várias profissões sem sucesso. Entretempo, ele havia se casado com Clara, uma jovem orfã que vivia com sua tia.

O casamento de Cândido também pode ser visto como algo que merece destaque. Apesar de ser ele alguém sem grandes ambições e gostar de vida fácil, questiona-se porque se casaria com alguém que não poderia dar-lhe boa vida? Sendo ela submissa e influenciável, infere-se que Clara legitimaria a vida medíocre ambicionada por Cândido Neves.

Por não terem meios de estabelecerem-se por conta própria, o casal morava na casa da tia. Mas eles desejavam muito ter um filho e algum tempo depois Clara engravidou. O bebê ia nascer e a tia estava muito preocupada porque eles não tinham dinheiro, nem profissão fixa, e isso ia trazer problemas. Finalmente, quando Clara deu à luz um menino, a tia a convence a abandonar a criança na Roda dos enjeitados, isto é, tratava-se de um guichê giratório instalado na fachada dos orfanatos; esse dispositivo permitia aos pais depositarem seu filho no anonimato e com toda segurança. Isso existia também em Paris e em várias cidades francesas no século XIX. Logo, a idéia de abandonar um recém-nascido era dolorosa mas, em último caso, não era escandalosa.

Após muito hesitar, o pai, cheio de desespero, pegou o nenê para levá-lo à Roda dos enjeitados do Rio de Janeiro. Antes, ele decidiu tentar, ainda uma vez, obter dinheiro para evitar a infelicidade de perder o filho. Retomou os jornais e suas fichas sobre os escravos fugidos. Selecionou então um anúncio que prometia uma grande recompensa por uma mulata fugida na cidade. O texto descrevia a aparência da escrava, os bairros que ela costumava freqüentar e seu nome: Arminda. Com o dinheiro da recompensa, Cândido podia pagar suas dívidas e ter um descanso. Sobretudo, isso permitiria ao casal ficar com o filho. Após ter relido a descrição dessa escrava, ele teve a impressão de já tê-la visto em um dos bairros do Rio de Janeiro. No caminho que o levava em direção à Roda, ele decidiu deixar o bebê com um de seus conhecidos para tentar, uma última vez, encontrar a mulata em determinadas ruas da cidade. Vai a esse lugar e eis que ele percebe a pessoa em questão. Ele a seguiu quase certo de que se tratava da escrava fugida descrita no anúncio. Chamou-a por seu nome: Arminda. Ela virou-se.

Certo de que era sua presa, Cândido saltou sobre Arminda. Eles se bateram e ela lhe diz suplicando: "estou grávida, me solte, eu serei sua escrava". De fato, no sistema escravagista, também era uso que os indivíduos escondessem e conservassem para seus próprios serviços escravos fugidos pertencentes a terceiros. Cândido recusou e arrastou-a até a casa de seu senhor que morava em um bairro próximo. Machado descreveu bem a seqüência da cena e os leitores desse conto publicado em um jornal da época não tinham nenhuma dificuldade para seguir os itinerários.

Na medida em que eles se aproximavam da casa do senhor, Arminda reagiu ainda mais, ela se debatia e terminou por abortar na entrada da casa. O proprietário de Arminda chegou e deu a recompensa a Cândido. Esse voltou com o dinheiro e, após um pequeno suspense, recuperou seu nenê.

Sucintamente, chegando na casa dele, viu a tia de sua mulher e contou-lhe o que se passou. É interessante porque aqui a mãe não está presente, é um diálogo em que a mãe não intervém mais, somente a tia. Ele conta-lhe a história de Arminda e de seu aborto.

O narrador do texto é um elemento importante para a construção da ironia nesta narrativa. Em terceira pessoa, como já citado aqui, a sua perspectiva aproxima o leitor do tempo e do espaço através de relatos históricos sobre os fatos que envolviam a escravidão, como na descrição das crueldades das quais os escravos eram vítimas. Pareciam ser transformados em coisas, deixando de ser humanos. Por exemplo, quando fugiam “grande parte era apenas repreendida; havia alguém em casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, por que dinheiro também dói”. O escravo, essa coisa, objeto, mesmo quando fugisse, não poderia sofrer muitos castigos, já que estes poderiam impedi-lo de prestar os serviços necessários a seu senhor, inutilizando-o, causando assim, grande prejuízo.

Quando o narrador comenta “nem todos gostavam da escravidão” e “nem todos gostavam de apanhar pancadas”, qual pessoa gostaria de viver em completa escravidão, à mercê dos mandos e desmandos de alguém e, ainda por cima, levar algumas pancadas? Com sua ironia, parece que é ele, quem dá uma pancada no sistema de escravatura.

A questão da intertextualidade nos textos machadianos com outros textos, pode-se perceber através do processo de construção da personagem principal, Cândido, que do latim significa “alvo”, “puro”, “imaculado”. Nome que foi grandemente popularizado pelo título de um livro de Voltaire, sátira ao otimismo de Leibniz, então em voga, que diz que nos encontramos no melhor dos mundos possíveis. É pertinente a comparação do Cândido de Voltaire e o de Machado, já que ambos são responsáveis por ironizar uma idéia vigente ou um sistema: um o otimismo desenfreado; e outro, o sistema da escravidão em que negros são tratados como objetos e não como seres humanos. Podemos dizer que os dois Cândidos estão longe de demonstrar que o mundo em que vivem é o melhor dos mundos possíveis.

O protagonista da obra de Voltaire é também chamado Cândido, o otimista, já que atravessa um sem fim de desventuras e sempre busca encontrar o lado positivo da situação, seguindo os ensinamentos de seu mestre Panglós. O seu caráter é o reflexo de sua alma, é sensível, apaziguador e sensato: “o seu rosto era o espelho da alma. Era de entendimento claro e espírito simples; e foi essa a razão por que lhe deram o nome de Cândido. Aqui pode-se dizer que reside a ironia do Cândido machadiano, pois seu caráter não revela nenhuma candura, antes pelo contrário mostra-se insensível ao aborto da escrava, é extremamente desumano arrastando-a pelas ruas até a casa do seu senhor, pois o que realmente importa para ele é conseguir alcançar o seu propósito, que é ficar com o seu filho. O egoísmo é sua marca principal.

A idéia de progresso e perfeição na citada obra de Voltaire está basicamente ligada ao trabalho: “quando o homem foi posto no jardim do Éden, foi ali posto para trabalhar, ut opereratur eum, o que prova que não foi criado para repouso”. Voltaire faz um homem tornar-se perfeito, além de dar-lhe melhores condições de vida, ou seja, ninguém é realmente feliz até que comece a trabalhar. Extremamente irônico, Machado constrói um Cândido que tem uma aversão ao trabalho, para ele todo oficio é custoso, além disso, muitas vezes, quem trabalha não recebe o que merece. Assim seus “empregos foram deixados pouco depois de obtidos". Então lhe restou o oficio de pegar escravos fugidos, já que este estava destinado aos inaptos para outros trabalhos, como era o seu caso. Ele, porém, tinha necessidade de estabilidade, e considerava isso má sorte ou infelicidade constante, ao contrário do Cândido de Voltaire, sempre otimista. Este, todavia, no fim da obra, aceita que é mais importante a ação sobre a reflexão filosófica. Melhor que ficar pensando nos dramas existenciais é colocar-se a trabalhar, pois só o trabalho pode ser o remédio para muitos males, o que não pensa o Candinho de Machado.

É conveniente também citar a ironia presente na construção de duas personagens do conto. Clara, cujo nome do latim significa “brilhante”, “luzente”, “ilustre”, além da tonalidade, seu nome é ligado ao brilho (de distinção). Distinção essa não revelada por sua personalidade que mesmo em meio à perda de seu filho, não esboça nenhuma reação e é sempre submissa aos desmandos da tia. Mônica, a tia, significa só, sozinha, viúva, o que não acontece no texto, pois está, geralmente, perto do casal, abrigando-os, participando de suas decisões, opinando, não fica sozinha, vive em companhia dos dois.

Para dar verossimilhança aos fatos e reforçar a ironia à escravatura e à diminuição dos seres, o espaço ambiente, na cidade do Rio de Janeiro, é fundamental, pois sabe-se que os nomes das ruas em que se desenrola a ação, são nomes reais, e que muitos são os mesmos até hoje. Fato que torna essa narrativa extremamente passível de verossimilhança externa.

Machado de Assis apresenta um pessimismo, cuja fonte está em Schopenhauer, pensador alemão, que afirmava que a essência do universo é a vontade ou o querer, entidade da qual emana a parte verdadeira dos indivíduos. Mas a vontade, tanto em estado cósmico quanto individual, é má, pois provoca a agitação, o egoísmo, o ciúme. Por isso a personagem principal age como age, coloca a sua vontade de continuar com o filho acima de qualquer outra coisa, por isso é levado a agir com egoísmo, luta corpo a corpo com a escrava para poder entregá-la a seu senhor, e receber o dinheiro da recompensa, sem ao menos pensar que poderia agir de outra forma para não maltratá-la, já que estava grávida.

Vladimir Propp, em Morfologia do conto maravilhoso, relaciona trinta e uma funções ao estudar, pormenorizadamente, contos populares russos, porém, identificam-se algumas destas facilmente neste conto de Machado de Assis. Através delas pode-se perceber como se desenrolou a ação da personagem principal, dentro de um enredo curto, sendo ele um pai que vai lutar para continuar com seu filho, a ironia aqui consiste em não ser a mãe a responsável por essa luta, já que em nossa concepção, a mãe é mais ligada ao filho, por isso mais difícil perdê-lo.

Na função "afastamento", pode-se salientar a tentativa de Candinho em deixar o ócio em que vivia e aprender um ofício, já que agora estava apaixonado por Clara e queria ter em que trabalhar quando casasse.

Na função definida como "ardil", o Cândido Neves sofreu com as interferências da Tia Mônica que era contra o casamento da sobrinha com a nossa personagem e também das amigas de Clara que “tentaram arredá-la do passo que ia dar”.

Na função que trata da reação do herói, Candinho ficou muito triste por que agora ele tinha um filho para sustentar, as dificuldades aumentaram e ele, que agora virara caçador de escravos fugitivos, não conseguia empreitada que lhe rendesse algum dinheiro.

Em outra função, o herói luta para conquistar um objeto, quando a nossa personagem descobriu em suas notas de escravos fugidos o anúncio da fuga de uma mulata em que a gratificação subia a cem mil-réis, achar a escrava seria a salvação, não teria que entregar seu filho à roda de enjeitados como queria a tia de sua mulher: “...agora, porém, a vista nova da quantia e a necessidade dela animaram Cândido Neves. Saiu de manhã a ver e indagar...”.

Pode-se salientar também a presença da função definida como "perseguição" quando Cândido, ao ir entregar seu filho, encontrou por acaso a escrava fugitiva, deixou o filho em uma farmácia e saiu em sua perseguição: “atravessou a rua, até o ponto em que pudesse pegar a mulher sem dar alarma”.

Em outra função, a tarefa é realizada e o herói é reconhecido. A nossa personagem captura a escrava, entrega-a a seu dono, e recebe a recompensa e volta para casa entre lágrimas com seu filho nos braços. Tia Mônica que não queria saber da criança, ouve a explicação e perdoa a volta do pequeno, uma vez que ele trazia um bom dinheiro para a subsistência da família.

Tendo em vista os aspectos observados, acredita-se que Machado ao construir este conto utilizou elementos que acetuam o tom irônico de suas palavras.

Machado de Assis

Angústia, de Anton Tchekhov


Angústia, de Anton Tchekhov

A quem confiar minha tristeza?(1)
Crepúsculo vespertino. Uma neve úmida, em grandes flocos, remoinha preguiçosa junto aos lampiões recém-acesos, cobrindo com uma camada fina e macia os telhados das casas, os dorsos dos cavalos, os ombros das pessoas, os chapéus. O cocheiro Iona Potapov está completamente branco, como um fantasma. Encolhido o mais que pode se encolher um corpo vivo, está sentado na boléia, sem se mover.

Tem-se a impressão de que, mesmo que caísse sobre ele um montão de neve, não consideraria necessário sacudi-la... Seu rocim está igualmente branco e imóvel. Graças a sua imobilidade, à angulosidade das formas e à perpendicularidade de estaca de suas patas, parece mesmo, de perto, um cavalinho de pão-de-ló de um copeque. Seguramente, ele está imerso em meditação.
Não pode deixar de meditar quem foi arrancado do arado, da paisagem cinzenta e familiar, e atirado nessa voragem, repleta de luzes monstruosas, de um barulho incessante e de gente correndo...
Faz muito tempo que Iona e seu rocim não se mexem do lugar. Saíram de casa ainda antes do jantar, e, até agora, não apareceu trabalho. Mas, eis que a treva noturna desce sobre a cidade. A palidez das luzes dos lampiões cede lugar a cores vivas e a confusão das ruas torna-se mais barulhenta.
- Cocheiro, para a Víborgskaia! - ouve Iona. - Cocheiro!
Estremece e vê, através das pestanas cobertas de neve, um militar de capote com capuz.
- Para a Viborgskaia! - repete o militar. - Está dormindo? Para a Víborgskaia!
Em sinal de consentimento, Iona puxa as rédeas, e a neve cai em camadas de seus ombros e do dorso do cavalo...
O militar senta-se no trenó. O cocheiro faz ruído com os lábios, estende o pescoço à feição de cisne, ergue-se um pouco e agita o chicote, mais por hábito que por necessidade. O cavalinho estica também o pescoço, entorta as pernas, que parecem estacas, e desloca-se com indecisão...
- Onde vai, demônio?! - ouve, logo depois, Iona exclamações partidas da massa escura de gente, que se desloca em ambos os sentidos. - Para onde te empurram os diabos? Mantenha-se à direita!
- Não sabe dirigir! Olha a direita - zanga-se o militar.
O cocheiro de uma carruagem solta impropérios; um transeunte, que atravessou a rua correndo e chocou-se com o ombro contra a cara do rocim, lança um olhar rancoroso e sacode a neve da manga. Na boléia, Iona parece sentado sobre alfinetes e aponta com os cotovelos para os lados; seus olhos tontos perpassam pelas coisas, como se não compreendesse onde se encontra e o que está fazendo ali.
- Que gente canalha! - graceja o militar. - Eles se esforçam em chocar-se contra você ou cair embaixo do cavalo.
Combinaram isso.
Iona volta-se para o passageiro e move os lábios...
Sem dúvida, quer dizer algo, mas apenas uns sons vagos lhe saem da garganta.
- O quê? - pergunta o militar.
Iona torce a boca num sorriso, faz um esforço com a garganta e cicia:
- Pois é, meu senhor, assim é... perdi um filho esta semana.
- Hum!... De que foi que morreu?
Iona volta todo o corpo na direção do passageiro e diz:
- Quem é que pode saber! Acho que foi de febre... Passou três dias no hospital e morreu... Deus quis.
- Dá a volta, diabo! - ressoa nas trevas uma voz. - Não está mais enxergando, cachorro velho? É com os olhos que tem que olhar!
- Anda, anda... - diz o passageiro. - Assim, não chegamos nem amanhã. Mais depressa!
O cocheiro estica novamente o pescoço, ergue-se um pouco e agita o chicote, com uma graciosidade pesada. Depois, torna a olhar algumas vezes para o passageiro, mas este fechou os olhos e parece pouco disposto a ouvir. Depois de deixá-lo na Víborgskaia, pára diante de uma taverna, encurva-se sobre a boléia e fica novamente imóvel... A neve molhada torna a pintá-lo de branco, juntamente com o rocim. Decorre uma hora... outra...
Três jovens passam pela calçada, fazendo muito barulho com as galochas e trocando impropérios: dois deles são altos e magros, o terceiro é pequeno e corcunda.
- Cocheiro, para a Ponte Politzéiski! - grita o corcunda, com voz surda. - Damos vinte copeques... os três!
Iona sacode as rédeas e faz ruído com os lábios. Vinte copeques são um preço inadequado, mas, agora, pouco lhe importa o preço... Tanto faz seja um rublo ou cinco copeques, contanto que haja passageiros... Empurrando-se e soltando palavrões, os jovens acercam-se do trenó e sobem para os assentos, os três ao mesmo tempo. Começam a discutir a questão: dois deles irão sentados, e quem vai ficar de pé?
Depois de uma longa troca de insultos, manhas e recriminações, chegam à conclusão de que o corcunda é quem deve ficar de pé, por ser o menor.
- Bem, faz o cavalo andar! - grita com voz trêmula o corcunda, ajeitando-se de pé e soprando no pescoço de Iona. - Dá nele! Que chapéu você tem, irmão! Não se encontra um pior em toda Petersburgo...
- Hi-i... hi-i... - ri Iona. - Assim é...
- Ora, você assim é, bate no cavalo! Vai andar desse jeito o tempo todo? Sim? E se eu te torcer o pescoço?
- Estou com a cabeça estalando... - diz um dos moços compridos. - Ontem, em casa dos Dukmassov, eu e Vaska(2) tornamos quatro garrafas de conhaque.
Não compreendo para que mentir! - irrita-se o outro moço comprido. - Mente como um animal.
- Que Deus me castigue, é verdade...
- Tão verdade como um piolho tossindo.
- Hi-i! - ri Iona entre dentes. - Que senhores alegres!
- Irra, com todos os diabos!... - indigna-se o corcunda. - Você vai andar ou não, velha peste? É assim que se anda? Estala o chicote no cavalo! Eh, diabo! Eh! Dá nele!
Iona sente, atrás de si, o corpo agitado e a voz trêmula do corcunda. Ouve os insultos que lhe são dirigidos, vê gente, e o sentimento de solidão começa, pouco a pouco, a deixar-lhe o peito. O corcunda continua os impropérios e, por fim, engasga com um insulto rebuscado, descomunal, e desanda a tossir. Os moços compridos começam a falar de uma certa Nadiejda Pietrovna. Iona volta a cabeça para olhá-los. Aproveitando uma pausa curta, olha mais uma vez e balbucia:
- Esta semana... assim, perdi meu filho!
- Todos vamos morrer. - suspira o corcunda, enxugando os lábios, após o acesso de tosse. - Bem, bate nele, bate nele! Minha gente, decididamente, não posso continuar andando assim! Esta corrida não acaba mais?
- Você deve animá-lo um pouco... umas pancadas no pescoço!
- Está ouvindo, velha peste? Vou te moer o pescoço de pancada! Não se pode fazer cerimônia com gente como você, senão é melhor andar a pé! Está ouvindo, Zmiéi Gorínitch(3)? Ou você não se importa com o que a gente diz?
E Iona ouve, mais que sente, os sons de uma pancada no pescoço.
- Hi-i... - ri ele. - Senhores alegres... que Deus lhes dê saúde!
- Cocheiro, você é casado? - pergunta um dos compridos.
Eu? Hi-i... que senhores alegres! Agora, só tenho uma mulher, a terra fria... Hi-ho-ho... O túmulo, quer dizer!... Meu filho morreu, e eu continuo vivo... Coisa esquisita, a morte errou de porta... Em vez de vir me buscar, foi procurar o filho...
E Iona volta-se, para contar como lhe morreu o filho, mas, nesse momento, o corcunda solta um suspiro de alívio e declara que, graças a Deus, chegaram ao destino. Tendo recebido vinte copeques, Iona fica por muito tempo olhando os pândegos, que vão desaparecendo no escuro saguão. Está novamente só e, de novo, o silêncio desce sobre ele... A angústia que amainara por algum tempo torna a aparecer, inflando-lhe o peito com redobrada força. Os olhos de Iona correm, inquietos e sofredores, pela multidão que se agita de ambos os lados da rua: não haverá, entre esses milhares de pessoas, uma ao menos que possa ouvi-lo? Mas a multidão corre, sem reparar nele, nem na sua angústia... Uma angústia imensa, que não conhece fronteiras. Dá a impressão de que, se o peito de Iona estourasse e dele fluísse para fora aquela angústia, daria para inundar o mundo e, no entanto, não se pode vê-la. Conseguiu caber numa casca tão insignificante, que não se pode percebê-la mesmo de dia, com muita luz...
Iona vê o zelador de uma casa, carregando um embrulho, e resolve travar conversa.
- Que horas são, meu caro? - pergunta.
- Mais de nove... Por que você parou aqui? Passa!
Iona afasta-se alguns passos, torce o corpo e entrega-se à angústia... Considera já inútìl dirigir-se às pessoas. Mas, decorridos menos de cinco minutos, endireita-se, sacode a cabeça, como se houvesse sentido uma dor aguda e puxa as rédeas... Não pode mais.
"Para casa", pensa, "para casa".
E o cavalinho, como se tivesse compreendido seu pensamento, começa a trotar ligeiramente. Uma hora e meia depois, Iona está sentado junto ao fogão grande e sujo. Há gente roncando em cima do fogão, no chão e sobre os bancos. O ar é abafado, sufocante... Iona olha para os que dormem, coça a cabeça e lamenta haver voltado tão cedo para casa...
"Não ganhei nem para a aveia", pensa. "Daí essa angústia. Uma pessoa que conhece o ofício... que está bem alimentada e tem o cavalo bem nutrido também, está sempre calma..."
Num dos cantos, levanta-se um jovem cocheiro, funga, sonolento, e arrasta-se para o balde d'água.
- Ficou com sede? - pergunta Iona.
- Com sede, sim!
- Bem... Que lhe faça proveito... Pois é, irmão, e eu perdi um filho... Está ouvindo? Foi esta semana, no hospital... Que coisa!
Iona procura ver o efeito que causaram suas palavras, mas não vê nada. O jovem se cobriu até a cabeça e já está dormindo. O velho suspira e se coça... Assim como o jovem quis beber, assim ele quer falar. Vai fazer uma semana que lhe morreu o filho e ele ainda não conversou direito com alguém sobre aquilo... É preciso falar com método, lentamente...
É preciso contar como o filho adoeceu, como padeceu, o que disse antes de morrer e como morreu... É preciso descrever o enterro e a ida ao hospital, para buscar a roupa do defunto. Na aldeia, ficou a filha Aníssia... É preciso falar sobre ela também... De quantas coisas mais poderia falar agora? O ouvinte deve soltar exclamações, suspirar, lamentar... E é ainda melhor falar com mulheres. São umas bobas, mas desandam a chorar depois de duas palavras.
"É bom ir ver o cavalo", pensa Iona. "Sempre há tempo para dormir..."
Veste-se e vai para a cocheira, onde está seu cavalo. Iona pensa sobre a aveia, o feno, o tempo... Estando sozinho, não pode pensar no filho... Pode-se falar sobre ele com alguém, mas pensar nele sozinho, desenhar mentalmente sua imagem, dá um medo insuportável...
Está mastigando? - pergunta Iona ao cavalo, vendo seus olhos brilhantes. - Ora, mastiga, mastiga... Se não ganhamos para a aveia, vamos comer feno... Sim... Já estou velho para trabalhar de cocheiro... O filho é que devia trabalhar, não eu... Era um cocheiro de verdade... Só faltou viver mais...
Iona permanece algum tempo em silêncio e prossegue:
- Assim é, irmão, minha egüinha... Não existe mais Kuzmá Iônitch... Foi-se para o outro mundo... Morreu assim, por nada... Agora, vamos dizer, você tem um potrinho, que é teu filho... E, de repente, vamos dizer, esse mesmo potrinho vai para o outro mundo... Dá pena, não é verdade?
O cavalinho vai mastigando, escuta e sopra na mão de seu amo... Iona anima-se e conta-lhe tudo...
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(1). Versículo de um canto da Igreja Russa.
(2). Diminutivo de Vassíli.
(3). Nas lendas russas, um dragão que repreeenta o mal. No entanto, o nome Gorínitch dá também idéia de tristeza, aflição.
(1886).
Tradução: Boris Schnaidermann

Charles Baudelaire: Os olhos dos pobres

Os olhos dos pobres


Quer saber por que a odeio hoje? Sem dúvida lhe será mais fácil compreendê-lo do que a mim explicá-lo; pois acho que você é o mais belo exemplo da impermeabilidade feminina que se possa encontrar.

Tínhamos passado juntos um longo dia, que a mim me pareceu curto. Tínhamos nos prometido que todos os nossos pensamentos seriam comuns, que nossas almas, daqui por diante, seriam uma só; sonho que nada tem de original, no fim das contas, salvo o fato de que, se os homens o sonharam, nenhum o realizou.
De noite, um pouco cansada, você quis se sentar num café novo na esquina de um bulevar novo, todo sujo ainda de entulho e já mostrando gloriosamente seus esplendores inacabados. O café resplandecia. O próprio gás disseminava ali todo o ardor de uma estréia e iluminava com todas as suas forças as paredes ofuscantes de brancura, as superfícies faiscantes dos espelhos, os ouros das madeiras e cornijas, os pajens de caras rechonchudas puxados por coleiras de cães, as damas rindo para o falcão em suas mãos, as ninfas e deusas portando frutos na cabeça, os patês e a caça, as Hebes e os Ganimedes estendendo a pequena ânfora de bavarezas, o obelisco bicolor dos sorvetes matizados; toda a história e toda a mitologia a serviço da comilança.

Plantado diante de nós, na calçada, um bravo homem dos seus quarenta anos, de rosto cansado, barba grisalha, trazia pela mão um menino e no outro braço um pequeno ser ainda muito frágil para andar. Ele desempenhava o ofício de empregada e levava as crianças para tomarem o ar da tarde. Todos em farrapos. Estes três rostos eram extraordinariamente sérios e os seis olhos contemplavam fixamente o novo café com idêntica admiração, mas diversamente nuançada pela idade.

Os olhos do pai diziam: "Como é bonito! Como é bonito! Parece que todo o ouro do pobre mundo veio parar nessas paredes." Os olhos do menino: "Como é bonito, como é bonito, mas é uma casa onde só entra gente que não é como nós." Quanto aos olhos do menor, estavam fascinados demais para exprimir outra coisa que não uma alegria estúpida e profunda.

Dizem os cancionistas que o prazer torna a alma boa e amolece o coração. Não somente essa família de olhos me enternecia, mas ainda me sentia um tanto envergonhado de nossas garrafas e copos, maiores que nossa sede. Voltei os olhos para os seus, querido amor, para ler neles meu pensamento; mergulhava em seus olhos tão belos e tão estranhamente doces, nos seus olhos verdes habitados pelo Capricho e inspirados pela Lua, quando você me disse: "Essa gente é insuportável, com seus olhos abertos como portas de cocheira! Não poderia pedir ao maître para os tirar daqui?"
Como é difícil nos entendermos, querido anjo, e o quanto o pensamento é incomunicável, mesmo entre pessoas que se amam!

O GATO PRETO (Por Edgar Allan Poe )

O GATO PRETO (Por Edgar Allan Poe )

Não espero nem solicito o crédito do leitor para a tão extraordinária e no entanto tão familiar história que vou contar. Louco seria esperá-lo, num caso cuja evidência até os meus próprios sentidos se recusam a aceitar. No entanto não estou louco, e com toda a certeza que não estou a sonhar. Mas porque posso morrer amanhã, quero aliviar hoje o meu espírito. O meu fim imediato é mostrar ao mundo, simples, sucintamente e sem comentários, uma série de meros acontecimentos domésticos. Nas suas consequências, estes acontecimentos aterrorizaram-me, torturaram-me, destruíram-me. No entanto, não procurarei esclarecê-los. O sentimento que em mim despertaram foi quase exclusivamente o de terror; a muitos outros parecerão menos terríveis do que extravagantes. Mais tarde, será possível que se encontre uma inteligência qualquer que reduza a minha fantasia a uma banalidade. Qualquer inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que a minha encontrará tão somente nas circunstâncias que relato com terror uma sequência bastante normal de causas e efeitos.

Já na minha infância era notado pela docilidade e humanidade do meu carácter. Tão nobre era a ternura do meu coração, que eu acabava por tornar-me num joguete dos meus companheiros. Tinha uma especial afeição pelos animais e os meus pais permitiam-me possuir uma grande variedade deles. Com eles passava a maior parte do meu tempo e nunca me sentia tão feliz como quando lhes dava de comer e os acariciava. Esta faceta do meu carácter acentuou-se com os anos, e, quando homem, aí achava uma das minhas principais fontes de prazer. Quanto àqueles que já tiveram uma afeição por um cão fiel e sagaz, escusado será preocupar-me com explicar-lhes a natureza ou a intensidade da compensação que daí se pode tirar. No amor desinteressado de um animal, no sacrifício de si mesmo, alguma coisa há que vai direito ao coração de quem tão frequentemente pôde comprovar a amizade mesquinha e a frágil fidelidade do homem.

Casei jovem e tive a felicidade de achar na minha mulher uma disposição de espírito que não era contrária à minha. Vendo o meu gosto por animais domésticos, nunca perdia a oportunidade de me proporcionar alguns exemplares das espécies mais agradáveis. Tínhamos pássaros, peixes dourados, um lindo cão, coelhos, um macaquinho, e um gato.

Este último era um animal notavelmente forte e belo, completamente preto e excepcionalmente esperto. Quando falávamos da sua inteligência, a minha mulher, que não era de todo impermeável à superstição, fazia frequentes alusões à crença popular que considera todos os gatos pretos como feiticeiras disfarçadas. Não quero dizer que falasse deste assunto sempre a sério, e se me refiro agora a isto não é por qualquer motivo especial, mas apenas porque me veio à ideia.

Plutão, assim se chamava o gato, era o meu amigo predilecto e companheiro de brincadeiras. Só eu lhe dava de comer e seguia-me por toda a parte, dentro de casa. Era até com dificuldade que conseguia impedir que me seguisse na rua.

A nossa amizade durou assim vários anos, durante os quais o meu temperamento e o meu carácter sofreram uma alteração radical - envergonho-me de o confessar - para pior, devido ao demónio da intemperança. De dia para dia me tornava mais taciturno, mais irritável, mais indiferente aos sentimentos dos outros. Permitia-me usar de uma linguagem brutal com minha mulher. Com o tempo, cheguei até a usar de violência. Evidentemente que os meus pobres animaizinhos sentiram a transformação do meu carácter. Não só os desprezava como os tratava mal. Por Plutão, porém, ainda nutria uma certa consideração que me não deixava maltratá-lo. Quanto aos outros, não tinha escrúpulos em maltratar os coelhos, o macaco e até o cão, quando por acaso ou por afeição se atravessavam no meu caminho.

Mas a doença tomava conta de mim - pois que doença se assemelha à do álcool? - e, por fim, até o próprio Plutão, que estava a ficar velho e, por consequência, um tanto impertinente, até o próprio Plutão começou a sentir os efeitos do meu carácter perverso.

Certa noite, ao regressar a casa, completamente embriagado, de volta de um dos tugúrios da cidade, pareceu-me que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele, horrorizado com a violência do meu gesto, feriu-me ligeiramente na mão com os dentes. Uma fúria dos demónios imediatamente se apossou de mim. Não me reconhecia. Dir-se-ia que a minha alma original se evolara do meu corpo num instante e uma ruindade mais do que demoníaca, saturada de genebra, fazia estremecer cada uma das fibras do meu corpo. Tirei do bolso do colete um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pelo pescoço e, deliberadamente, arranquei-lhe um olho da órbita! Queima-me a vergonha e todo eu estremeço ao escrever esta abominável atrocidade.

Quando, com a manhã, me voltou a razão, quando se dissiparam os vapores da minha noite de estúrdia, experimentei um sentimento misto de horror e de remorso pelo crime que tinha cometido. Mas era um sentimento frágil e equívoco e o meu espírito continuava insensível. Voltei a mergulhar nos excessos, e depressa afoguei no álcool toda a recordação do acto.

Entretanto, o gato curou-se lentamente. A órbita agora vazia apresentava, na verdade, um aspecto horroroso, mas o animal não aparentava qualquer sofrimento. Vagueava pela casa como de costume, mas, como seria de esperar, fugia aterrorizado quando eu me aproximava. Porém, restava-me ainda o suficiente do meu velho coração para me sentir agravado por esta evidente antipatia da parte de um animal que outrora tanto gostara de mim. Em breve este sentimento deu lugar à irritação. E para minha queda final e irrevogável, o espírito da PERVERSIDADE fez de seguida a sua aparição. Deste espírito não cura a filosofia. No entanto, não estou mais certo da existência da minha alma do que do facto que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano; uma dessas indivisas faculdades primárias, ou sentimentos, que deu uma direcção ao carácter do homem. Quem se não surpreendeu já uma centena de vezes cometendo uma acção néscia ou vil, pela única razão de saber que a não devia cometer? Não temos nós uma inclinação pperpétua, pese ao melhor do nosso juízo, para violar aquilo que constitui a Lei, só porque sabemos que o é? E digo que este espírito de perversidade surgiu para minha perda final. Foi este anseio insondável da alma por se atormentar, por oferecer violência à sua própria natureza, por fazer o mal só pelo mal, que me forçou a continuar e, finalmente, a consumar a maldade que infligi ao inofensivo animal. Certa manhã, a sangue-frio, passei-lhe um nó corredio ao pescoço e enforquei-o no ramo de uma árvore; enforquei-o com as lágrimas a saltarem-me dos olhos e com o mais amargo remorso no coração; enforquei-o porque sabia que me tinha tido afeição e porque sabia que não me tinha dado razão para a torpeza; enforquei-o porque sabia que ao fazê-lo estava cometendo um pecado, um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal a ponto de a colocar, se tal fosse possível, mesmo para além do alcance da infinita misericórdia do Deus Mais Piedoso e Mais Severo.

Na noite do próprio dia em que este acto cruel foi perpetrado, fui acordado do sono aos gritos de «Fogo!». As cortinas da minha cama estavam em chamas; toda a casa era um braseiro. Foi com grande dificuldade que minha mulher, uma criada e eu conseguimos escapar do incêndio. A destruição foi completa. Todos os meus bens materiais foram destruídos, e daí em diante mergulhei no desespero.

Sou superior à fraqueza de procurar estabelecer uma sequência de causa a efeito entre a atrocidade e o desastre. Limito-me, porém, a narrar uma cadeia de acontecimentos e não quero deixar nem um elo sequer incompleto. Nos dias que se sucederam ao incêndio, visitei as ruínas. As paredes, à excepção de uma, tinham abatido por completo. Esta excepção era constituída por um tabique interior, não muito espesso, que estava sensivelmente a meio da casa, e de encontro ao qual antes ficava a cabeceira da minha cama. O reboco resistira em grande parte à acção do fogo, facto que atribuo a ter sido pouco antes restaurado.

Próximo desta parede juntara-se uma densa multidão e muitas pessoas pareciam estar a examinar certa zona em particular, com minúcia e grande atenção. A minha curiosidade foi despertada pelas palavras «estranho», «singular» e outras expressões semelhantes. Aproximei-me e vi, como se fora gravado em baixo revelo, sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem estava desenhada com uma precisão realmente espantosa. Em volta do pescoço do animal estava uma corda.

Mal vi a aparição, pois nem podia pensar que doutra coisa se tratasse, o meu assombro e o meu terror foram imensos. Por fim, a reflexão veio em meu auxílio. Lembrei-me que o gato fora enforcado num jardim junto à casa. Após o alarme de incêndio, O dito jardim fora imediatamente invadido pela multidão e por alguém que deve ter cortado a corda do gato e o deve ter lançado para dentro do meu quarto, por uma janela aberta. Isto deve ter sido feito, provavelmente, com a intenção de me acordar. A queda das outras paredes tinha comprimido a vítima da minha crueldade na substância do reboco recentemente aplicado e cuja cal, combinada com as chamas e o amoníaco do cadáver, tinha produzido a imagem tal como eu a via.

Tendo assim satisfeito prontamente a minha razão - que não totalmente a minha consciência - sobre o facto extraordinário atrás descrito, não deixou este, no entanto, de causar profunda impressão na minha imaginação. Durante meses não consegui libertar-me do fantasma do gato, e, durante este período, voltou-me ao espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, mas que o não era. Cheguei ao ponto de lamentar a perda do animal e a procurar à minha volta, nos sórdidos tugúrios que agora frequentava com assiduidade, um outro animal da mesma espécie e bastante parecido que preenchesse o seu lugar.

Uma noite, estava eu sentado meio aturdido num antro mais do que infamante, a minha atenção foi despertada por um objecto preto que repousava no topo de um dos enormes toneis de gin ou de rum que constituíam o principal mobiliário do compartimento. Havia minutos que olhava para a parte superior do tonel, e o que agora me causava surpresa era o facto de não me ter apercebido mais cedo do objecto que estava em cima. Aproximei-me e toquei-lhe com a mão. Era um gato preto, um gato enorme, tão grande como Plutão e semelhante a ele em todos os aspectos menos num. Plutão não tinha sequer um único pêlo branco no corpo, enquanto este gato tinha uma mancha branca, grande mas indefinida, que lhe cobria toda a região do peito.

Quando lhe toquei, imediatamente se levantou e ronronou com força, roçou-se pela minha mão, e parecia contente por o ter notado. Era este, pois, o animal que eu procurava. Imediatamente propus a compra ao dono, mas este nada tinha a reclamar pelo animal, nada sabia a seu respeito, nunca o tinha visto até então.

Continuei a acariciá-lo, e quando me preparava para ir para casa, o animal mostrou-se disposto a acompanhar-me. Permiti que o fizesse, inclinando-me de vez em quando para o acariciar enquanto caminhava. Quando chegou a casa, adaptou-se logo e logo se tornou muito amigo da minha mulher

Pela minha parte, não tardou em surgir em mim uma antipatia por ele. Era exactamente o reverso do que eu esperava, mas, não sei como nem porquê, a sua evidente ternura por mim desgostava-me e aborrecia-me. Lentamente, a pouco e pouco, esses sentimentos de desgosto e de aborrecimento transformaram-se na amargura do ódio. Evitava o animal; um certo sentimento de vergonha e a lembrança do meu anterior acto de crueldade impediram-me de o maltratar fisicamente. Abstive-me, durante semanas, de o maltratar ou exercer sobre ele qualquer violência, mas, gradualmente, muito gradualmente, cheguei a nutrir por ele um horror indizível e a fugir silenciosamente da sua odiosa presença como do bafo da peste.

O que aumentou, sem dúvida, o meu ódio pelo animal foi descobrir, na manhã do dia seguinte a tê-lo trazido para casa, que, tal como Plutão, tinha também sido privado de um dos seus olhos. Esta circunstância, contudo, mais afeição despertou na minha mulher, que, como já disse, possuía em alto grau aquele sentimento de humanidade que fora em tempos característica minha e a fonte de muitos dos meus prazeres mais simples e mais puros.

Com a minha aversão pelo gato parecia crescer nele a sua preferência por mim. Seguia os meus passos com uma pertinácia que seria difícil fazer compreender ao leitor. Sempre que me sentava, enroscava-se debaixo da minha cadeira ou saltava-me para os joelhos, cobrindo-me com as suas repugnantes carícias. Se me levantava para caminhar, metia-se-me entre os pés e quase me fazia cair ou, fincando as suas garras compridas e aguçadas no meu roupão, trepava-me até ao peito. Em tais momentos, embora a minha vontade fosse matá-lo com uma pancada, era impedido de o fazer, em parte pela lembrança do meu crime anterior mas, principalmente, devo desde já confessá-lo, por um verdadeiro medo do animal.

Este medo não era exactamente o receio de um mal físico; no entanto, é me difícil defini-lo de outro modo. Quase me envergonhava admitir - sim, mesmo aqui, nesta cela de malfeitor, eu me envergonho de admitir - que o terror e o horror que o animal me infundia se viam acrescidos de uma das fantasias mais perfeitas que é possível conceber. Minha mulher tinha-me chamado várias vezes a atenção para o aspecto da mancha de pêlo branco de que já falei, e que era a única diferença aparente entre o estranho animal e aquele que eu tinha eliminado. O leitor lembrar-se-á que esta marca, embora grande, era, originariamente, bastante indefinida, mas, gradualmente, por fases quase imperceptíveis e que durante muito tempo a minha razão lutou por rejeitar como fantasiosas, assumira, finalmente, uma rigorosa nitidez de contornos. Era agora a imagem de um objecto que me repugna mencionar, e por isso eu o odiava e temia acima de tudo, e ter-me-ia visto livre do monstro se o ousasse. Era agora a imagem de uma coisa abominável e sinistra: a imagem da forca!, oh!, lúgubre e terrível máquina de horror e de crime, de agonia e de morte. Por essa altura, eu era, na verdade, um miserável maior do que toda a miséria humana. E um bruto animal cujo semelhante eu destruíra com desprezo, um bruto animal a comandar-me, a mim, um homem, feito à imagem do Altíssimo - oh!, desventura insuportável. Ah, nem de dia nem de noite, nunca, oh!, nunca mais, conheci a bênção do repouso! Durante o dia o animal não me deixava um só momento. De noite, a cada hora, quando despertava dos meus sonhos cheios de indefinível angústia, era para sentir o bafo quente daquela coisa sobre o meu rosto e o seu peso enorme, incarnação de um pesadelo que eu não tinha forças para afastar, pesando-me eternamente sobre o coração.

Sob a pressão de tormentos como estes, os fracos resquícios do bem que havia em mim desapareceram. Só os pensamentos pecaminosos me eram familiares - os mais sombrios e os mais infames dos pensamentos. A tristeza do meu temperamento aumentou até se tornar em ódio a tudo e à humanidade inteira. Entretanto, a minha dedicada mulher era a vítima mais usual e paciente das súbitas, frequentes e incontroláveis explosões de fúria a que então me abandonava cegamente.

Um dia acompanhou-me, por qualquer afazer doméstico, à cave do velho edifício onde a nossa pobreza nos forçava a habitar. O gato seguiu-me nas escadas íngremes e quase me derrubou, o que me exasperou até à loucura. Apoderei-me de um machado, e desvanecendo-se na minha fúria o receio infantil que até então tinha detido a minha mão, desferi um golpe sobre o animal, que seria fatal se o tivesse atingido como eu queria. Mas o golpe foi sustido diabólicamente pela mão da minha mulher. Enraivecido pela sua intromissão, libertei o braço da sua mão e enterrei-lhe o machado no crânio. Caiu morta, ali mesmo, sem um queixume.

Consumado este horrível crime, entreguei-me de seguida, com toda a determinação, à tarefa de esconder o corpo. Sabia que não o podia retirar de casa, quer de dia quer de noite, sem correr o risco de ser visto pelos vizinhos. Muitos projectos se atropelaram no meu cérebro. Em dado momento, cheguei a pensar em cortar o corpo em pequenos pedaços e destruí-los um a um pelo fogo. Noutro, decidi abrir uma cova no chão da cave. Depois pensei deitá-lo ao poço do jardim, ou metê-lo numa caixa como qualquer vulgar mercadoria e arranjar um carregador para o tirar de casa. Por fim, detive-me sobre o que considerei a melhor solução de todas. Decidi emparedá-lo na cave como, segundo as narrativas, faziam os monges da Idade Média às suas vítimas.

A cave parecia convir perfeitamente aos meus intentos. As paredes não tinham sido feitas com os acabamentos do costume e, recentemente, tinham sido todas rebocadas com uma argamassa grossa que a humidade ambiente não deixara endurecer. Além do mais, numa das paredes havia uma saliência causada por uma chaminé falsa ou por uma lareira que tinha sido entaipada para se assemelhar ao resto da cave. Não duvidei que me seria fácil retirar os tijolos neste ponto, meter lá dentro o cadáver e tornar a pôr a taipa como antes, de modo que ninguém pudesse lobrigar qualquer sinal suspeito.

Não me enganei nos meus cálculos. Com o auxílio de um pé-de-cabra retirei facilmente os tijolos, e depois de colocar cuidadosamente o corpo de encontro à parede interior, mantive-o naquela posição ao mesmo tempo que, com um certo trabalho, devolvia a toda a estrutura o seu aspecto primitivo.

Usando de toda a precaução, procurei argamassa, areia e fibras com que preparei um reboco que se não distinguia do antigo e, com o maior cuidado, cobri os tijolos. Quando terminei, vi com satisfação que tudo estava certo. A parede não denunciava o menor sinal de ter sido mexida. Com o maior escrúpulo, apanhei do chão os resíduos. Olhei em volta, triunfante, e disse para comigo: "Aqui, pelo menos, não foi infrutífero o meu trabalho."

A seguir procurei o animal que tinha sido a causa de tanta desgraça, pois que, finalmente, tinha resolvido matá-lo. Se o tivesse encontrado naquele momento, era fatal o seu destino. Mas parecia que o astuto animal se alarmara com a violência da minha cólera anterior e evitou aparecer-me na frente, dado o meu estado de espírito. É impossível descrever ou imaginar a intensa e aprazível sensação de alívio que a ausência do detestável animal me trouxe. Não me apareceu durante toda a noite, e deste modo, pelo menos por uma noite, desde que o trouxera para casa, dormi bem e tranquilamente; sim, dormi, mesmo com o crime a pesar-me na consciência.

Passaram-se o segundo e terceiro dias e o meu verdugo não aparecia. Mais uma vez respirei como um homem livre. O monstro, aterrorizado, tinha abandonado a casa para sempre! Nunca mais voltaria a vê-lo!

Suprema felicidade a minha! A culpa da acção tenebrosa inquietava-me pouco. Fizeram-se alguns interrogatórios que colheram respostas satisfatórias. Fez-se inclusivamente uma busca, mas, naturalmente, nada se descobriu. Dava como certa a minha felicidade futura.

No quarto dia após o crime, surgiu inesperadamente em minha casa um grupo de agentes da Polícia que procederam a uma rigorosa busca. Eu, porém, confiado na impenetrabilidade do esconderijo, não sentia qualquer embaraço. Os agentes quiseram que os acompanhasse na sua busca. Não deixaram o mínimo escaninho por investigar. Por fim, pela terceira ou quarta vez, desceram à cave. Nem um músculo me tremeu. O meu coração batia calmamente como o coração de quem vive na inocência. Percorri a cave de ponta a ponta. De braços cruzados no peito, andava descontraído de um lado para o outro. Os agentes estavam completamente satisfeitos e prontos para partir. O júbilo do meu coração era demasiado intenso para que o pudesse suster. Ansiava por dizer pelo menos uma palavra à guisa de triunfo e para tornar duplamente evidente a sua convicção da minha inocência.

- Senhores - disse por fim, quando iam a subir os degraus. - Estou satisfeito por ter dissipado as vossas suspeitas. Desejo muita saúde para todos, e um pouco mais de cortesia. A propósito, esta casa está muito bem construída (e no meu furioso desejo de dizer qualquer coisa com à-vontade, mal sabia o que estava a dizer). Direi, até, que é uma casa excelentemente construída. Estas paredes... vão-se já embora, meus senhores?... Estas paredes estão solidamente ligadas. - E neste momento, por uma frenética fanfarronice, bati com força, com uma bengala que tinha na mão, na parede atrás da qual se encontrava o cadáver da minha querida esposa.

Ah!, que Deus me livre das garras do arquidemónio! Mal tinha o eco das minhas pancadas mergulhado no silêncio, quando uma voz lhes respondeu de dentro do túmulo: um gemido, a princípio abafado e entrecortado como o choro de urna criança, que depois se transformou num prolongado grito sonoro e contínuo, extremamente anormal e inumano. Um bramido, um uivo, misto de horror e de triunfo, tal como só do inferno poderia vir, provindo das gargantas conjuntas dos condenados na sua agonia e dos demónios no gozo da condenação.

Seria insensato falar dos meus pensamentos. Senti-me desfalecer e encostei-me à parede da frente. Tolhidos pelo terror e pela surpresa, os agentes que subiam a escada detiveram-se por instantes. Logo a seguir, doze braços vigorosos atacavam a parede. Esta caiu de um só golpe. O cadáver, já bastante decomposto e coberto de pastas de sangue, apareceu erecto frente aos circunstantes. Sobre a cabeça, com as vermelhas fauces dilatadas e o olho solitário chispando, estava o odioso gato cuja astúcia me compelira ao crime e cuja voz delatora me entregava ao carrasco. Eu tinha emparedado o monstro no túmulo!

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