Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

31 de mar de 2011

A PIPA – Fase inicial – 4ª Rodada

A PIPA

A pipa apita para onde?
No nariz vermelho de geléia
Na boca ensaboada de caramelo
Apita a pipa para o céu

Apita o vídeo-game
Hora de jogar
Do banho
Do sono

Apita pipa e caramelo
Vermelho na boca de geléia
Nariz para o céu
Ensaboada a pipa pára e apita.


Hora de acordar
O relógio apita minhas aulas
Sem desenho animado
Isso somente sábado
A pipa apita
Entre o circo e o palhaço
Apita a pipa pita pipa!

Caramelo Chorão

BOLINHAS E CEBOLINHAS – Fase inicial – 4ª Rodada

BOLINHAS E CEBOLINHAS

Não tem coisa mais bonita
que ver uma porção de arco-íris
 dentro das bolinhas de sabão.

A gente sonha que voa
e lá bem alto enxerga
o mundo bem diferente:

 lugar colorido,
 cheio de gente contente,
onde não existe mais nada
que sorrisos entre os dentes.

Então, vamos amiguinho,
colher mais cebolinhas.
Trouxe o sabão da cozinha
e no bolso a tesourinha.

Também, tenho mil historinhas
para contar às nuvens
e às joaninhas flamenguistas
que moram aqui no jardim.



NENA  SILVA

MENINO POETA – Fase inicial – 4ª Rodada

Menino Poeta

Poema qual pluma tal pena
Brincando no colo do dia
É pipa que voa bem alto
É vento que sopra tão frio

Poema pequeno menino
É rima sobre rolimãs
É lima, é pé de romã
Pomar de doces frutas

O verso, menino que brinca
É nosso brinquedo bendito
É nosso segredo escondido
Rimando de tanto brincar

Menino peralta e sapeca
Com sua mania de versos
Criando imagens diversas
Gritemos bem alto: POETA.

Franklin Stingër

SONHOS DE MENINO – Fase inicial – 4ª Rodada

Sonhos de menino

Correndo pelo campo ao relento
Empinando sua pipa ao vento
Numa viagem tão próxima
E ao mesmo tempo tão longe

Menino pobre e franzino
Viajando em seus sonhos de menino
Aos lugares distantes, desconhecidos
Imaginários destinos vislumbrados em sua pipa

A miséria como barreira
E o escape para viver sonhando
Criando um mundo distinto, belo
Bem diferente de seu cotidiano sofrido

E aquele menino e sua jornada
Sem lamentos, sem tristezas, somente leveza
Acalanto de quem tanto sofrimento nutre
E que só a imaginação faz aliviar

Voa menino com sua pipa
Realize em minutos de liberdade
Tua vontade acalentada pelo tempo
E pelo vento satisfaça teus sonhos mais contidos

Correndo pelo campo ao relento
Empinando sua pipa ao vento
Continue em seus sonhos de menino.

Klaus Weber

LETRAS TROCADAS – Fase inicial – 4ª Rodada

LETRAS TROCADAS (Poema Infantil)

A bolha de sabão
a alegria espelha
ou
alegria espalha?

Na dança de salão
o corpo cansa
ou
corpo canta?

Uma nuvem de algodão
é chuva pouca
ou
chuva louca?

E esta canção
embala menino
ou
embala menina?

Aprendiz de Poeta

O MENINO E A PIPA – Fase inicial – 4ª Rodada

O menino e a Pipa


O menino só sabia soltar pipa. Só queria brincadeira. Com ela, fez amizade. Amizade verdadeira.

Pipa, suba
Não pare por ali
Voe lá, bem alto
Sei que vai conseguir

Pipa, agora que está aí
Olhe para baixo
Consegue me ver?
Estou bem aqui
Olhando para você

Pipa, não balance
Por favor, não se irrite
Só me dê uma chance
De soltá-la, não grite

Pipa, vá
Já está na hora
O pai mandou chamar
Desça agora
Vem jantar!
Vamos?

(...)

Pipa, já disse, não pule
Acabou de comer
Teimosa que é
Vem cá, venha ler

Isso se chama poesia
E é coisa linda Pipa
Pois fala da alegria
Que eu quero que sinta

Mas, também fala da tristeza
Que não se deve lembrar Pipa
Lembre apenas da beleza
Pinte a tristeza com tinta

Pipa bela
Tinta nela
Aquarela Pipa

Pipa querida
Tão colorida
A vida Pipa
A vida


O Dentista

NOSSAS CRIANÇAS – Fase inicial – 4ª Rodada

Nossas crianças
 
Criança que brinca com pião, pula corda e amarelinha
às vezes solta uma pipa e no seu voo a imaginação vai junto.
Brinca de futebol de botão, jogar bola na rua, é o dono do mundo
pensa, para que serve o relógio?
O tempo é infinito, e o viver é além de bonito, subo sempre no pódio.
 
Cuidado que a Cuca vem ai, Bicho Papão, o Saci Pererê...
se cuida, eles podem lhe ver, suba logo na árvore!
usando a imaginação, em um mundo só seu, tudo pode acontecer
e lendo Monteiro Lobato, as idéias no ato, vão no mato da vida...
florescer.
 
Os adultos serão sempre crianças também
só ficaram mais velhas, é o destino de todos.
Juntos, nessa grande família, a brincadeira cria vida, e voa além.
 
Se entender que papai e mamãe, viveram uma história, um conto de fadas
se aproveitar a infância, aumenta a esperança, nascem almas aladas.
Querendo, de todos, o bem, para seguir trilhos certos, entrando em um trem
Esse é o trem da alegria, satisfação, o verdadeiro amor.
E por fim, guardados os brinquedos, benzidos os sonhos...
 
Durmam bem e amém.
 
Senhor dos Anéis

BONECAS QUE FALAM – Fase inicial – 4ª Rodada

Bonecas Que Falam

Mamãe me disse
Que as bonecas não falam.
Olha que bobinha!
Eu digo:
Elas não calam.

Papai me disse
Que a flor nunca ri
Coitado!
Acho que os óculos
Já `tão quebrados,
Só assim pra ele não ver.

Vovô me disse
Que eu posso voar
Num tapete esquisito
Em cima do mar.
Ah! Esse entende das coisas,
É tão culto
Nem parece adulto.

Mas, mamãe mandou:
Esquece o vovô,
Ele é poeta.
Nunca acorda,
Nunca para de sonhar.

Joaquim Pirantes

CÉU DE LEITE COALHADO – Fase inicial – 4ª Rodada

CÉU DE LEITE COALHADO

Quando se é criança
Contam-se as estrelas a dedo
Dizem que dá verruga, oh! Que medo

Mas se o céu está coalhado
De estrelas a brilhar
Como, cada uma delas, não  contar?

Desejar ser astronauta

E viajar ao espaço sideral


Laura LUfe

NA CASA DA AVÓ – Fase inicial – 4ª Rodada

Na casa da avó

O menino no apartamento
É como passarinho na gaiola
Estiola...

O menino na casa da avó
É como sabiá na laranjeira
Brincadeira...

Com a bicicleta
Vira atleta

Com a bola
Deita e rola

Com a tinta
Borra e pinta

E na hora de dormir
Tem leite com chocolate
E servindo de arremate
Tem a história do faquir...

Vixe!Verso!

26 de mar de 2011

2ª Oficina - 1ª Proposta - “A melhor idade” – entregar até 04 de junho de 2011

Sabendo envelhecer

O envelhecer deve ser visto como um processo contínuo de crescimento intelectual, emocional e psicológico. Deve ser o momento em que, ao se olhar o que foi vivido, nos permitamos sentir alegria pelo que foi conseguido, apesar de serem reconhecidos alguns fracassos e erros.

A velhice começa por volta dos 65 anos e se caracteriza por um declínio gradativo do funcionamento de todos os sistemas corporais. Entretanto, ao contrário do que muitos acreditam, a maioria das pessoas da terceira idade conservam um nível importante de suas capacidades cognitivas e psíquicas.

Embora em qualquer idade seja possível morrer, a velhice concentra um acúmulo de perdas. São amigos, familiares e colegas que se vão, além de ser necessário superar mudanças em vários setores como no trabalho e na saúde. Torna-se importante elaborar a proximidade da própria morte, pois quem não pode aceitar sua finitude ou se sente frustrado com o curso que sua vida tomou, será invadido pelo desespero de perceber que o tempo é muito breve para recomeçar uma nova vida.

Saber envelhecer não é fácil, principalmente numa sociedade que cultiva o novo, as cirurgias plásticas, o poder e a produtividade. Saber envelhecer é um aprendizado contínuo, é aceitar as novas limitações que o tempo traz, é não encarar a aposentadoria como um vazio, mas aprender a usar e desfrutar desse momento livre para buscar momentos de prazer. É renunciar a uma antiga posição de autoridade e aceitar que um estilo de vida produtiva se fecha para que outro tipo de vida apareça.

Quem se recusa a aceitar as mudanças que essa fase da vida traz, pode viver em um constante estresse e pessimismo perante a perda de prestígio e do poder aquisitivo, além de ter uma reduzida auto-estima.
Um envelhecer repleto de sentido é aquele momento no qual predominam uma atitude contemplativa, sem ser estática, e reflexiva. É o momento em que a pessoa se reconcilia com seus fracassos, erros e defeitos, aceitando a si mesmo e aprendendo a desfrutar dos prazeres que essa etapa possibilita.

Elisabeth Salgado
 

Fui princesa

Certa vez, eu fui princesa
quando tive a certeza
que a vida sorria para mim

Avancei o curso dos tempos
passaram as águas
limparam lamentos
inundaram as mágoas

Porém, não foi o meu fim

Decerto custou a delicadeza
bem, ser eterna princesa
é da existência querer demais

Hoje espero a paz
atracada num porto seguro
aprendi a ver no escuro
e não escutar os meus ais

Sempre serei a criança
não se perca de mim a graça
pois ela será a minha dança
enquanto essa vida passa.

Wasil Sacharuk
A proposta:
Escreva um poema acerca das belezas ou conflitos naturais pertinentes à melhor idade. Entregue o poema finalizado até o dia 04 de junho de 2011.
Boas inspirações!

24 de mar de 2011

SOU A POESIA – Fase inicial – 3ª Rodada

Sou a poesia

Sou concebida de atos mais diversos;
De sentimentos infinitamente discordantes...
Ora sou fruto da ira de mil universos
Ora sou filha do desejo dos amantes

Existo pela mão de meu senhor
Que usa, abusa e se lambuza
Deliciando-se em cheiro e sabor
Como se despisse a  amada musa

Em folha virgem sob a pena do poeta
Vou sendo esculpida em cada detalhe
A princípio tímida e discreta
Por fim perfeita em cada entalhe

Sou o tudo do menestrel...
A lua e o sol; a vida e a morte
A alegria e a tristeza, o inferno e o céu
Sou deusa imponente ou guerreira forte

Sou santa ou vadia, perdôo ou enlouqueço
Atiço, afasto, grito verdades e aponto mentiras
Em verso ou em prosa de nada me esqueço
Enalteço ou destroço deixando a alma em tiras

Humilde ou soberba eu vivo na fantasia
Obscura ou iluminada do escritor
Sou de carne e osso, sou Poesia
Sou de toda escrita, o primor!

Autor 02: Laura Lufe

EU POR EU MESMA – Fase inicial – 3ª Rodada

EU POR EU MESMA

Permita que eu me apresente:

Sou aquela que tudo consente
Impregnada só de sentimento
Traduzo a luz do pensamento
Com o ardor da força comovente
Sou a alma do enamorado
Sentida e tão verdadeira
Colocando-me por inteira
Em prol do apaixonado

Às vezes sou temerária
Levando a fala proibida
Daquele que arrisca a vida
Fazendo-me voz libertária

Sou amiga das crianças                        
Sucesso nas brincadeiras
Nas cirandas sou certeira
Balbuciando esperanças                                                                
                                                                  
Confesso que me deixo usar
Em situações menos nobres
Em mictórios sujos e pobres
Sempre em mau linguajar

Mas também sou a companhia
De alguns na última morada
Homenageando a pessoa amada
Faço-me adeus na lápide fria.

Presente na tristeza e na alegria
Faço das rimas aplauso à vida
Ou triste pranto na despedida
Um traço simples de harmonia...

Muito prazer, sou a poesia!

Autor 01: Vixe!Verso!

CAMINHEMOS – Fase inicial – 3ª Rodada

Caminhemos

Caminhemos.
Tudo que fomos
Tornou-se sombra,
Já não é.
Tudo que temos,
Saudade.

Sigamos.
A lua sagrou-te filha
Ao fim do grande ocaso.
E o sol clamou a ti
Pingos de luz.

Brinquemos.
Passam-se as noites,
Calam-se vidas.
E tu, somente tu,
És imortal.

Bebamos
Este elixir que eu não mereço,
Néctar de flores e silêncio.
Brindemos, poesia,
Sente nos lábios as nossas vidas.

Gritemos,
Que o céu é teu
E eu trago as asas
Que tu me deste
Sobre as costas
E as nuvens postas entre os dedos.

Cantemos.
Tudo que foi
Reviverá
E tudo
o que se quis
Esculpiremos
No barro santo
Destes tantos versos.

Autor 03: Joaquim Pirantes

EU POESIA – Fase inicial – 3ª Rodada

Eu poesia

Não seremos prolixos, vamos falar de poesia
Eu, meu eu lírico e o alter ego se exporão
Concordamos que a mesma, no âmago, é cega, um lince, feia e linda
Em sua saída, abraçada na verve, leva contigo tato e emoção!

Poesia pode lhe trair, atrair e extrair
Estimular muitos, ou nenhum
Ser alento ou veneno.

Pode, com sua criação, somar ou subtrair
Levar aos sonhos, ser foice perversa, vertigem
Ser seu metiê, ócio, dar ordens ou obedecer.

Em poemas libertinos
Que quase sempre em linhas tortas
Ficariam mortos, desatinos
Mas comovem platéias, alcançam destinos!

No arcano que é a poesia
Fazemos uma idolatria doentia
Poesia é menina traidora e mentirosa.

E nós, mesmo que na ferida exposta da fossa
De pé, batendo palmas
Damos guarida, espaço e nossas almas.

Autor 04: Senhor dos Anéis

POESIA SEM PONTOS – Fase inicial – 3ª Rodada

Poesia sem pontos

Entre pontos eu escrevia.
É assim que me viro.
É assim que eu viria.

A parada foi notória
Pra agradar, esqueci. O passado?
Guardarei na memória

Não vou mentir
Sem eles, me sinto nu
Sem folhas de parreira
Como um bife cru

O que eles me davam
No momento, está acabado
A poesia, não se manteve
Estou centralizado

Não vejo mais o céu
Não olho para os lados
O meu, antes, complexo
São só círculos e quadrados

A vida que eu tinha, nesse instante, já não tenho. Estou cego. Sozinho como antes.

Perdi-me totalmente
O controle? Já não sei
Não tenho mais sofá
A televisão, eu dei

A poesia que me resta
Versos simples que se vão
Seria coisa da genética
Ou seria muita ação?

Biologia não é comigo
Gosto mesmo é de versar
O meu código preferido:
São palavras pros amigos
Que eu quero agradar

Como um órgão que pulsa
Minha poesia, tão querida
Tem palavras que são células
E estrofes que tem vida

Parece que me machuquei. Não sei, quem sabe num tropeço, vesti a camisa do avesso.

Com as horas, tudo melhora
E o que é bom termina
Meus verbos se acabam
Como o tempo da menina

A menina? Ah!
Essa não tem história
Ela veio pra rimar
Pra deixar-me te agradar
E por ser a minha cria
Veio dar charme e amar
A poesia

A crítica foi toda minha
O poema é meu todo
Meu tudo, meu cais

Leia com calma
Releia com olhos de ver
E, claro, volte mais


Autor 05: O Dentista

POESIA – Fase inicial – 3ª Rodada

POESIA

Grito infernal que me acorda.
Dor do caos
que as entranhas rasga
e num verter de sangue
jorra,
jorra,
esvai-se em mim.

Taça inebriante.
Pequenos sorvos de tudo,
embebeda-me,
liberta-me
e em tontura de valsa
dança,
dança,
parceira de mim.

Asas da ilusão.
Brisa furta-cor
colore-me
e ousada
voa,
voa,
pousa nua em mim.

Alegre ou triste,
dia ou noite,
amante brejeira,
serpenteia-me
e em versos
torce,
retorce
desprende-se de mim.

Autor 06: Aprendiz de Poeta

ABRANGÊNCIA POÉTICA – Fase inicial – 3ª Rodada

Abrangência poética

Enquanto houver um tema
Haverá um poeta e, por conseqüência
A poesia será perene e se renovará
Em todos os temas e abordagens

Envolta de personalismos, regionalismos, humanismos
Naturalismos, egocentrismos e que tais
Tendo como pano fundo a vida
Tendo como inspiração a morte
Norteando-se pelos motes mais íntimos do poeta

De sorte que tanto na acidez como no lirismo
Entremeando e viajando por estilos
A poesia estará sempre vigente e vivente
Onde e enquanto existir um poeta
Ainda que este não se considere como tal

Em verdade a amplitude da poesia
Muito além de sua diversidade fórmica
Torna-se uma pujante força de linguagem
Abrangente em sua totalidade
Facilitando a grande quantidade de criações

A relatividade da limitação poética
Ofusca-se no momento em que o autor
Ilumina-se com a aura da inspiração
Ainda que com transpiração
E literalmente “solta os bichos” no papel

Autor 08: Klaus Weber

UNS DEZ ENCANTOS POÉTICOS – Fase inicial – 3ª Rodada



Uns dez encantos poéticos...

Foi-se o tempo da poesia metafísica,
volto meus versos
para o homem,
único ser tão interessante quanto eu
neste mundo de meu Deus.

Não tivemos a Terceira Grande Guerra,
como pareciam querer
os pessimistas profetas do terror.
Todos os “eus” são deveras menores
que o mundo.

Vejo anjos no teto;
no espelho um diabo rindo
de si mesmo,
por ainda enxergar anjos no teto.

O homem,
único ser que pode compadecer-se
do sofrimento
do homem.

Não, não há anjos da guarda,
nem retos
nem tortos
ou com qualquer geometria.

Nem a poesia, nem qualquer forma de arte
têm culpa do sofrimento humano,
porém sua omissão seria vergonhosamente
antiética, para não dizer, antiestética.

Dedicamos horas em busca
da rima e
da aliteração perfeitas;
da hipálage congruente,
da inversão,
da apóstrofe reflexiva,
da musicalidade,
do ritmo,
do construto,
disto,
daquilo outro.

No entanto, enquanto humanos
labutamos com NATUREZAS:
há conflitos na Líbia,
terremotos, tsunamis no Japão.

ah, se eu fosse Deus...,
mas não sou Deus
e nada posso.

[sagrado conformismo]

meu verbo
cria,
recria
e conserta
mundos outros,
não este mundo no qual vivo,
penso e sinto

e pelo qual mantenho vivo,
pulsante e latente
um profundo sentimento...

Autor 11: Melquíades

META POÉTICA – Fase inicial – 3ª Rodada

Meta Poética

Nada do que lhe digo é bobagem
Mesmo que na mínima existência da minha essência
Seja apenas uma computação de alienígenas manetas
E corais de caramelos chorando pelos campos

Nada, absolutamente nada é como penso
Nem os teus, muito menos meus sonhos
Serão exacerbados nas profundezas de uma dose de tequila
Nem em Manaus muito pouco arriba de nosotros.

Se tu faz de mim somente um pedaço de poesia
Deve ser porque não temos tempo para as canções
Faz de mim o que quer, floresce de loucura minha mente
E não deixa um segundo de lucidez sequer.

Etâ poesia arretada, luz castigada de ingratidão
Estirpe poética de poetas mal amados
Aliena minha frustração pelo prazer de não ser
Aquilo que tanto meu pai queria que fosse

Um trovador ou um bem sucedido vendedor de camisetas
Que batesse de porta em porta oferecendo
Poemas confeccionados em retalhos de algodão
Algo tão obvio quanto necessariamente seria

E toda essa coisa de ser eu esse poeta confuso
De não conseguir encaixar as palavras em suas entranhas
Desafiando cada vez mais cansativo as leis da física
Desentoando e vomitando rimas

Em cima das tuas palavras
Poesia, poesia e cachaça
Somente isso, não trepo mais com você
Poesia, patética meretriz da minha vida.

Autor 12: Caramelo Chorão

CICLO VITAL DA POESIA – Fase inicial – 3ª Rodada

CICLO VITAL DA POESIA

Pinga o ponto
final,
depois de tantos versos.

Foram expostos
os nervos,
as flores,
medos.

O título parido,
assinatura...
À flor da verve,
desenham-se estrofes.

A poesia cresce
aos olhos,
reproduz-se
nas mentes,

algumas morrem,
outras escorrem
eternamente.


Autor 13: Nena Silva

POEMA INSURGENTE – Fase inicial – 3ª Rodada

Poema insurgente

Quando me propus a escrever
[um poema
Vieram me dizer as palavras
– que antes de escrevê-las –
Melhor que lhes deixasse a pena
Que meu ato – sem senso e falho –
[nada lhes vale
Se não sei sequer tocar em tema
Que se lhes compensa a densidade

De fato, eis minha colcha de retalhos,
Cerzida por todos os lados
Sem frestas, espaços
Num emaranhado disperso
De coisas, palavras, imagens
A poesia que vem, por hora, atribulada
Contém o impreciso do passo
A inequívoca pressa
do viajante lasso
que se perde nos desvãos da estrada

se em tudo isso me submerge as palavras
a poesia flui sensitiva como eu nunca a quis
porém, meu domínio jamais lhe serve
pois, quando penso ser eu que a faço
descubro-me ignorante crasso
arremedo a viver por um triz

palavra inaudita palavra
que nessa lavra de pedras raras
és a lâmina que me aparas
me escrevendo inteiramente

palavra interdita palavra
és larva que me sublima
subornando-me a estima
em devaneios permanentes

assim, a poesia inunda toda gente
subverte a direção do verso
buscando no interior das coisas
a palavra ciosa de significados
inscreve o poeta nas entrelinhas
[de formas ingentes
no peito aberto – a miragem –
o bisturi que rasga o cerne
convergindo ao coração insano
o célere impulso que tece
[a paisagem

Não executo meus propósitos:
Sozinho, o verso se derrama
E me escreve – antes mesmo
do erguer da pena
sobre a pauta branca –
a poesia me desbanca
me rouba a cena
me encerra no ataúde
do esquecimento.

Autor 10: Franklin Stingër

17 de mar de 2011

O SIGNO DO MISTÉRIO – Fase inicial – 2ª Rodada

O Signo do Mistério

E como se na areia reluzisse
A chama dos mistérios mais profanos,
Denise quis tocar todos enganos.
Talvez tudo que ainda não se disse.

E fossem tais segredos não humanos,
Quicá a dor que a fere se exaurisse.
Porém, a Terra é sempre a grande lice.
Os deuses dormem sós sob tantos danos.

A caixa, agora aberta, é a lembrança,
A areia se perdera do alguidar,
O segredo no signo, enfim, descansa.

Denise abrira os olhos para voar.
Na asa do mistério da esperança,
Mas se perdeu nas ondas de outro mar.

Autor 03: Joaquim Pirantes

A CAIXA DE DENISE – Fase inicial – 2ª Rodada

A CAIXA DE DENISE

Caminha sem entender aonde vai
Sem entender como sabe aonde ir
Não chora e nem sorri
Não agradece e nem lamenta

Apenas sabe o que deve fazer
Talvez lhe venha do passado
Fantasmas ou quiçá, anjos
Soprarem-lhe ao ouvido o destino

Que deve dar ao conteúdo da caixa sagrada
E eis que a encontra:
Exatamente como sentiu que seria
Denise a reconheceu...

Só lhe resta abrir e ver o que há
Ela tem em suas mãos o destinho dos homens
O poder da vida eterna
O santo Graal.

Autor 02: Laura Lufe

A CURIOSIDADE MATOU O GATO – Fase inicial – 2ª Rodada

A CURIOSIDADE MATOU O GATO

Lá vai Denise pensativa rumo ao mar
Buscando na areia fofa uma resposta
Para a dúvida que sua alma arrosta
Pondo sombras de incerteza no olhar...

Envolta em seus devaneios ela tropeça
Numa caixa envolvida em lindo laço
E Denise demonstrando embaraço
Pergunta-se de onde veio essa peça

Está só na trilha,disto tem certeza
Só seus passos deixam ali pegadas
Erguendo a caixa meio assustada
Mas curiosa também com a surpresa

E lembra a velha lenda da caixa de Pandora
Da maldição contida, espectro do mal...
Com o coração aflito disparando seu sinal
Quer abrir a caixa, querendo ir embora.

Por fim, deixa a caixa e seu segredo
Conhece a mensagem do seu medo
Que aconselha cada coisa em seu lugar

Lá vai Denise pensativa rumo ao mar
Buscando na areia fofa nova resposta
Para outra dúvida que sua alma arrosta...

Autor 01: Vixe!Verso!

DENISE E SUA SAGA – Fase inicial – 2ª Rodada

Denise e sua saga

Denise, bela jovem, jeito de felina
Apesar de menina, mulher feminina
Descobriu em seu caminho uma caixa
Curiosa sem delongas a abriu
E nela surgiu o roteiro de sua vida
E num ilusionismo mágico
Foram transformadas as formas de menina em mulher

E se viu sedutora e dominadora
Dona de uma beleza arrebatadora
Capaz de fazer-se apaixonar com o olhar
E seu olhar se transformou em sua arma de sedução

E Denise levou aquela caixa consigo
Para acompanhar seu destino
E mais além descobriu outro brinde da caixa
A eternidade que lhe valeria
Enquanto com a caixa estivesse

E assim seguiu com sua beleza,
Descobriu-se, em sua jornada, também ambiciosa
E assim conquistou amores, fortunas e inimigos
E os amores, os inimigos passavam, se iam nos anos
Muitos deles destruídos ou vencidos por Denise
Que continuava jovem, bela e imortal

E com o tempo, muito tempo por sinal
Denise começou a se cansar de sua vida
E pela primeira vez desejou ser como os mortais
Mas para isto tinha que se livrar daquela caixa
Decisão ambígua que a fazia sofrer
Mas finalmente um belo dia
Denise resolveu da caixa se livrar

E assim jogou aquela caixa no mar
E com a caixa foi-se a beleza, a juventude
A riqueza, a nobreza e a ambição de Denise
Que conseguiu voltar a sorrir apesar de tudo
E mais feliz, e liberta, pode assim fechar os olhos
E finalmente descansar de sua saga.

Autor 08: Klaus Weber

FENDA – Fase inicial – 2ª Rodada

FENDA

Como Eva e Pandora
de Denise chegou a hora:
ao homem induzir
e o novo construir.

Abre a caixa, à beira mar
E para todo seu pasmar
vê em dia de final juízo
Monte Olimpo e Paraíso.

É o simbolismo; é o terror
da sedução inquisidor.
Julgadas e condenadas
por todos apontadas.

Nem mito, nem lenda
apenas uma fenda:
percepção do feminino
alterando o destino.

E, agora, a caixa de Denise
pode ser uma reprise
ou em metáfora de absolvição
o trilhar de novo chão.

Autor 06: Aprendiz de Poeta

CAIXA – Fase inicial – 2ª Rodada

Caixa
.:.
Denise pisou fundo.
Com areia entre os dedos.
Muito bem acompanhada.
Era assim que ela andava.

Pelo vento que soprava.
Tropeçou sem olhar.
Tão sem jeito, ela caiu.
Como era desastrada.

Doeu, é claro.
Muito mesmo, mas, enfim.
Que caixa era aquela.
O que seria aquilo?

Dúvida cruel.
Mas, bem lá dentro.
Ela soube.
Onde mesmo havia lido?

(...)

Era aquela, a caixa.
Dos segredos.
Dos elementos.
E dos medos.

(...)

Denise sabia.
O porquê do tropeço.
A história.
Da criação.

Encontrá-la no caminho.
Era o destino.
Seu motivo.
A razão.

A curiosidade encheu.
A garrafa.
Nem beleza, nem talento.
Nunca mais ela colheu.

O vento acabou.
A beleza.
Reduziu-se.
O colar, ela perdeu.

Com dúvidas.
Até o pescoço.
Não se afogou.
Por pouco.

Seria verdade?
Que besteira.
Só podia ser.
Coisa de louco.

Sem pensar duas vezes.
A caixa, ela abriu.
Naquele interior.
O que ela viu?

Como assim?!
Estava vazia!
De todo aquele medo.
Nada mais existia.

(...)

A esperança não se via.
Mas, ali, ela estava.
Ela sabia, era esse.
O fogo que ardia.

(...)

Nem sempre esperando.
Viveu Denise.
Um exemplo de mulher.
Quantas coisas elas fez.

Nos tempos de crise.
E desentendimentos.
Caminhando ela ia.
Sem tropeços, dessa vez.

Sempre esperando.
.:.
Autor 05: O Dentista

A EPOPÉIA DE DENISE – Fase inicial – 2ª Rodada

A Epopéia de Denise

Como se começa uma história?
Algo que pode ter acontecido!
E se a mesma não existe na memória
Posto que é um fictício ocorrido!

Denise caminha em uma praia
Mesmo que o sol não raia
Sua alegria insiste.

Se depara com uma caixa
Um baú velho e pequeno
O abre, deixando escapar um veneno.
A caixa...
Dentro havia um sonho
Remeteu-a a outros lugares
Voava por entre vales
Sentia na face leve brisa gélida.
Se despiu de todos os seus disfarces
Reviu todos que já se foram
Todos que por ela eram amados
E eles por ela.
Viu a morte, passou tão rápida e inexpressiva que, na verdade, poderia se tratar de uma nuvem negra!
Nuvem pequena e inútil
Dessas que não fazem chuva
Mas dependendo do ponto de vista
Pode fazer sombra
Tirando o reinado do sol.

Voou sobre a ilha de Páscoa
Sorriu para seus mistérios
Atravessou alguns deltas de rios
Do Parnaiba ao Nilo.
Ao anoitecer viu Paris
Sentiu seus perfumes
Por um momento os odores a levaram a campos
Como se estivessem presos a uma redoma de vidro.

Foi testemunha do nascimento de uma pequena aldeia
África
Os lugares voltavam no tempo
Homens pré-históricos surgiam em grupos
Perseguiam mamutes
Comiam com as mãos
Descobrindo o fogo
Violência e pretensão.

Ninguém podia vê-la
Sequer podia ouvi-la
Mas tantas coisas para dizer...
Ensinar e aprender.

Por fim tudo foi simplificado a um só casal de humanos
Pode ver tanta coisa
Estar em tantos lugares
Mas ao retornar desse sonho tão real
Uma realidade melhor e maior a esperava.

Ela não pode encontrar quem seria prioritário,
Quem responderia suas recentes e antigas perguntas,
Que a acolheria, lhe daria afagos e força,
Quem a conhecia como ninguém!

Ela mesma!

Autor 04: Senhor dos Anéis

DENISE E CAIXA – Fase inicial – 2ª Rodada

DENISE E A CAIXA

Maresia esbarra nos cabelos soltos,
envolto em sonhos voam pensamentos.
Lentos, pés nas areias.

A vida é teia...
Presa, Denise é suspense.

O encontro permite
estender a linha
entre o dentro
e o mundo.

Maresia entra pela pele nua,
descortina velhas e novas sensações.
Suaves, as mãos são toques.

A vida é breve...
Leve, Denise é descoberta.

Caixa aberta pronuncia
 sentimentos,
desvenda
o ser Denise.


Autor 13: Nena Silva

O PRESENTE DE DENISE – Fase inicial – 2ª Rodada

O Presente de Denise

Nos seus solitários passos
pela praia,
por certo a contemplar,
à lá Rimbaud,
o sol ao mar,

Denise,
em sua caixa
não carrega mal algum,
É cria de poetas,
personificação perfeita
da poesia polimórfica
do século XXI.

Imagem refrataria de Pandora,
que era mescla
de beleza e de vingança,
Denise pode até não ser tão bela,
porém jamais retém,
mas dissemina entre os homens
a esperança.

Ao contrário de Pandora,
filha de um deus vingativo,
Denise é a filha perdida
do influxo da História

Que trás sua caixa guarnecida
por mil novos motes, formas e
motivos
reservados aos poetas.

[e iquando
esta icaixa
foriaberta[

todo verso será ainda
mais livre
e totalmente sem degredo

então todo poeta terá
a recompensa
por guardar
nas mãos firmes de Denise
sua arte
seu encanto
e seu segredo

jAutor 11:Melquíades

DUAL FACE BOX – Fase inicial – 2ª Rodada

Dual Face Box

na  vastidão das sombras noturnas
surge a imprudência de sentimentos
sem medidas – sutis deslizes
de um peito aberto impunemente
buscando desvendar Denise.

das profundas marcas advindas
da incansável luta que nunca finda
a silenciosa busca por seus segredos;
Denise, tu não me pões medo,
nem surpresa em mim incute
pois, bem sei, que seu segredo é absurdo.

traz a chama que não queima
a luz incipiente não acendida
o orvalho que molhar não teima
a brisa inerte, suspiro lento
o chão aberto, ressequido.

tu, Denise, é o flagelo, a tormenta.
és singela, figura extrema de dois elos,
descomunal proeza dos deuses:
que mimos trazes embrulhados
em laços de sutis presentes?
tua ira a seduzir as gentes?
Se queres nos seduzir, saibas:
Facies non omnibus una*
não quero teus regalos
pois, teus segredos me envenenam,
me entorpecem da pura essência.

Descubro, inocentemente,
Em teu pequeno exemplar
que a docilidade que se me escapa
nada mais é que a fé que emana
de tua pequena e dúbia caixa.

(*) faces na eram iguais (ou faces desiguais)

Autor 10: Franklin Stingër

REPOUSO EM DENISE – Fase inicial – 2ª Rodada

REPOUSO EM DENISE

As pegadas da vida marcaram a areia
Em cada uma delas havia uma história
Infância, juventude, medo e desejos
Tudo habitava uma mulher nas suas memórias

As memórias de Denise se propagaram com os ventos
E ela sentiu tanta dor que desejou nem ter nascido
Almejou a eternidade dos mitológicos Deuses
Quis nos braços de Zeus ter morrido

Mas a voz de Afrodite gritou em seu inconsciente
A fez lembrar de Pandora
De branco vestiu-se Denise
E clamou por todos os Céus uma ínfima  glória

Abriu-se então uma aurora
Sussurrou, inspirou e foi embora...

A noite veio como a chama da vida
Clareando a praia num eclipse
A brisa sossegou todos os mares
Para transcender as guerras de Denise

Por não mais ter condições de escrever
Findei aqui meu versar
Eu mesma sou a Denise
A olhar insegura a caixa a beira mar
Mesmo com tantos medos
Só quis ser feliz
Mas deixo aqui um choro
Que amparar ninguém mais quis

Abri minha própria caixa
Nas pegadas da memória
E até os mais puros tremeram
Nos restos dessa trajetória

Sofrimento, lamento e uma  miséria incolor
A misteriosa caixa de Denise
Foi só um instrumento
Para vomitar minha dor

No centro do universo eu me repouso em Denise...

Autor 14: Jasmim

HERANÇA DE GAIA – Fase inicial – 2ª Rodada

Herança de Gaia

Meus pés chafurdam em grãos de areia
Acarretei-me aqui em vão para tão raro deslumbre
Maldita Onipotência que se assombra da própria imortalidade
Hei de lhe arrancar esta sina, as visceras e os olhos azuis

Por onde passo lamenta o cheiro da inveja
Escassa penumbra fruto da luta
Ouço a voz da injustiça e do pré-choro
E por pouco quase morro, maldito Deus

Reles presença, se me queres aqui fatal
Serei sim tua única desgraça
Cantada pelas correntes do passado
Aqui nesta praia onde submergiste o calor

Herança de Gaia, mãe desta e aquela maldição
Sé tu és realmente Deus
Maldito Zeus, encoraja-se e vista esta caixa
Traga de volta o ladrão do fogo

Devora-se de todo calor que habita ali
Se dele já estou cheia até mesmo de dor
Ficarei aqui como tua cria observando aflita
O renascimento intrépido do meu amor.


Autor 12: Caramelo Chorão

8ª Proposta – O direito de sonhar – entregar até o dia 27 de abril de 2011.

O direito de sonhar, de Eduardo Galeano

Tente adivinhar como será o mundo depois do ano 2000. Temos apenas uma única certeza: se estivermos vivos, teremos virado gente do século passado. Pior ainda, gente do milênio passado.

Sonhar não faz parte dos trinta direitos humanos que as Nações Unidas proclamaram no final de 1948. Mas, se não fosse por causa do direito de sonhar e pela água que dele jorra, a maior parte dos direitos morreria de sede. Deliremos, pois, por um instante. O mundo, que hoje está de pernas para o ar, vai ter de novo os pés no chão.

Nas ruas e avenidas, carros vão ser atropelados por cachorros.

O ar será puro, sem o veneno dos canos de descarga, e vai existir apenas a contaminação que emana dos medos humanos e das humanas paixões.

O povo não será guiado pelos carros, nem programado pelo computador, nem comprado pelo supermercado, nem visto pela TV. A TV vai deixar de ser o mais importante membro da família, para ser tratada como um ferro de passar ou uma máquina de lavar roupas.

Vamos trabalhar para viver, em vez de viver para trabalhar.

Em nenhum país do mundo os jovens vão ser presos por contestar o serviço militar. Serão encarcerados apenas os quiserem se alistar.

Os economistas não chamarão de nível de vida o nível de consumo, nem de qualidade de vida a quantidade de coisas.

Os cozinheiros não vão mais acreditar que as lagostas gostam de ser servidas vivas.

Os historiadores não vão mais acreditar que os países gostem de ser invadidos.

Os políticos não vão mais acreditar que os pobres gostem de encher a barriga de promessas.

O mundo não vai estar mais em guerra contra os pobres, mas contra a pobreza. E a indústria militar não vai ter outra saída senão declarar falência, para sempre.

Ninguém vai morrer de fome, porque não haverá ninguém morrendo de indigestão.

Os meninos de rua não vão ser tratados como se fossem lixo, porque não vão existir meninos de rua. Os meninos ricos não vão ser tratados como se fossem dinheiro, porque não vão existir meninos ricos.

A educação não vai ser um privilégio de quem pode pagar por ela.

A polícia não vai ser a maldição de quem não pode comprá-la.

Justiça e liberdade, gêmeas siamesas condenadas a viver separadas, vão estar de novo unidas, bem juntinhas, ombro a ombro.

Uma mulher - negra - vai ser presidente do Brasil, e outra - negra - vai ser presidente dos Estados Unidos. Uma mulher indígena vai governar a Guatemala e outra, o Peru.

Na Argentina, as loucas da Praça de Maio vão virar exemplo de sanidade mental, porque se negaram a esquecer, em tempos de amnésia obrigatória.

A Santa Madre Igreja vai corrigir alguns erros das Tábuas de Moisés. O sexto mandamento vai ordenar: "Festejarás o corpo". E o nono, que desconfia do desejo, vai declará-lo sacro. A Igreja vai ditar ainda um décimo-primeiro mandamento, do qual o Senhor se esqueceu: "Amarás a natureza, da qual fazes parte". Todos os penitentes vão virar celebrantes, e não vai haver noite que não seja vivida como se fosse a última, nem dia que não seja vivido como se fosse o primeiro.

Eduardo Galeano (1940-) é jornalista e escritor uruguaio. O texto foi publicado no diário argentino Página 12, em 29 de outubro de 1997, com o título "El derecho de soñar".

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A proposta:

Escreva um poema que dialogue com o texto de Galeano. Entregar até o dia 27 de abril.

 

Boas inspirações!

Oficina de escrita literária Inspiraturas, em Pelotas

Oficina de escrita literária Inspiraturas - o fim da página em branco - A ti, que ainda acreditas na escrita, em especial a Poesia, como ...

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