Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

Oficina de escrita literária Inspiraturas, em Pelotas

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15 de abr de 2011

O ÍNDIO RAUL E O SACERDOTE ANÃO - etapa final - 6ª rodada

O Índio Raul e o Sacerdote Anão
(Pequeno cordel raulseixista)

                       Peço licença aos nobres cantadores do nordeste


Essa história se passa algumas décadas após a revolução boliviana de 1952, com um índio, um anão sacerdote e um cão.

O índio Raul Fernandez sai de um bar com a fisionomia nada sã, tropeçando nas pernas já às nove da manhã, ouvindo uma canção no seu único bem, um pequeno walkman.

Pensa no estado de seu povo que não apresenta muita transformação, mesmo após a tal revolução continua a amargar os pesares da vida e a remoer suas velhas feridas.

Vê seu irmão aiamará feito um burro de carga, pra lá e pra cá, de tudo fazendo um pouco na cidade de La Paz, não muito diferente de seus ancestrais.

Olha para si mesmo, um índio chamado Raul, com uma calça velha, sem camisa, ouvindo “Cachorro Urubu”.

De repente surge em sua frente a figura de um ser disforme que falava sem parar, mas Raul só ouvia uma espécie de balbuciar.

Dentre aquele tipo de som que surge e logo some o índio só  entendeu que ele queria saber seu nome.

Sem se conter deixou a música responder:
“Baby isso só vai dar certo se você ficar perto, eu sou um índio Sioux, eu sou o Cachorro Urubu, em guerra com o Zeul!”

A figura aproximou-se e Raul teve que se curvar para falar, não por reverência ou adoração, é que o infeliz era um anão, e o mais estranho é que trazia uma Bíblia na boca e não na mão.

O índio indagou: o que fazes anão?
 Ah! Vejo o passado, o futuro e leio a sorte, sou cartomante, vidente e sacerdote.

Raul ironizou: “Transformo água vinho, chão em céu, pau em pedra, cuspe em mel, para mim não existe impossível, pastor anão e a igreja invisível!”

O anão inicia a discussão: Converta-se se ainda não é cristão! Andava com a Bíblia, mas de vários livros citava trechos: Bagavat Gita, Rig-Veda, Alcorão e o Cânon dos Três Cestos.

O aiamará não sabia o que fazer, só queria algo para ao anão ofender: Não acredito em Jesus, dizem até que na infância estudou o budismo no Tibet.

E na ocasião de sua crucificação fugiu para o Japão morrendo aos cento e três anos após ter duas filhas com o grande amor de seu coração.

E se lá, passasse pelo que sofremos aqui, pegaria seu sabre e cometeria o haraquiri.



Ouvindo estas palavras o anão corria de um lado para o outro em busca de algo que a Bíblia diz, e quando encontrou balançava sua bata como o rabo de um cachorro feliz.

Jesus é a única esperança para todos vocês, lendo Mateus, capítulo cinco, versículo seis.

Falava como que seus pensamentos fossem pelo próprio Deus enviados: “Felizes os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados”.



Após tanta discussão nada mais disse o anão, somente mordeu a perna do índio até sua calça rasgar, deu-lhe uma lambida e começou a urinar.

                         O índio caiu na calçada e começou a roncar.
Quando o sol já ia alto o anão dava seu salto.

“Baby essa estrada é comprida, ela não tem saída, é ora de acordar pra ver o galo cantar, pro mundo inteiro escutar”. Acorda aiamará!



O índio levanta, obedecendo a canção, olha para os lados em busca do sacerdote cristão, lá estava o anão, não era padre, pastor, presbítero nem ancião, era um cachorro, sim... , um cão.

A Bíblia que trazia na boca era um pedaço de pão, que dividira com o índio, seu único irmão, com quem dormia no chão.



Raul dá as costas e sai pelas ruas da cidade a refletir sobre sua insanidade, queria saber qual era a causa de tamanha alucinação em sua mente: O trabalho? A fome? O sol ardente?

 Era tudo isso, junto com duas folhas de coca e um litro de aguardente...



Melquíades

Um comentário:

  1. Gostei da intertextualidade, alcançou com facilidade o tema. Há uma riqueza de informações que, a princípio, prendem o leitor. Todavia, por ser longo na proposta, precisaria de mais fluidez, mais ritmo para não se tornar cansativo.

    Nota 3,5

    Dhenova

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