29 de mai de 2011

Marisa Schmidt – vencedora da 1ºOficina



Nasci num outubro há muito tempo...tanto tempo que minha São Paulo era tranquila e  o bonde  me levava para o grupo escolar. Depois, ela cresceu rapidamente e eu também cresci e fui ser normalista, coisa normalíssima para as mocinhas daqueles dias, e nessa época descobri o prazer da poesia. Dei aulas por muito tempo, mas também casei, tive filhos e parei de fazer poesias, porque ser mãe exigia toda minha inspiração! Mas São Paulo havia crescido tanto, mas tanto que para o bem dos meninos precisava de uma cidade menor.Mudei para São Bernardo do Campo, criei lá os filhos e uma escola, o que me fez voltar aos estudos.Fui fazer Pedagogia e me especializar em educação da primeira infância.Enquanto isso os meninos saíram da segunda infância e do ninho...e eu percebi que a pequena São Bernardo já havia crescido tanto, mas tanto, que até fabricara um mito operário e a nossa casa era então imensa para dois...Sim, os filhos sairam, mas o marido ficou! Resolvemos que o melhor era flanar na praia e há quatorze anos aportamos em Bertioga, onde curto minha aposentadoria e os quatro netos quando nos visitam.

No restante do tempo, faço trabalhos voluntários, leio, escrevo e cultivo amigos reais e virtuais.

Depois que me aventurei pela internet e descobri a NOP conheci novos poetas e num assomo de ousadia voltei a escrever poesias.Redescobri um prazer a muito esquecido e depois de haver participado de alguns concursos e ganhar dois deles, acho que a musa está razoavelmente em forma; bem mais que eu!

Marisa Schmidt

22 de mai de 2011

Sobre a poesia imagética, por Wasil Sacharuk

A poesia imagética é um todo organizado, um cimentado de tijolos vocabulares, de requintada elaboração semântica. Surge poesia imagética quando a escultura de palavras transcende a literalidade para envolver o leitor nos detalhes arquitetônicos de sentidos e significados. Logo, a poesia imagética não é surrealista, pois se utiliza dos recursos linguísticos para traduzir um significado; e também não se trata de fluxo de consciência, já que está delimitada em um eixo espaço-temporal no qual as escolhas semânticas guardam o sentido.

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Pedidos perdidos de um recomeço

Tudo o que eu te peço é um recomeço sôfrego
lângido e célere, na avidez do malsofrido

Tudo o que eu te peço, eu já nem mesmo meço 
e, nessa desmedida, despedaço- me

Tudo assim em mim já tão disperso
ao passo de um clamor soado como alarido

Refratada em pungentes estilhaços 
Reencontro-me porém em cada esgarçado espaço, 
donde me despeço,
donde esmaeço..., donde não te esqueço

O que eu te peço mesmo? 
Quem saberia?
... talvez a permissão para alçar vôo
ou a exata dose de volúpia para atiçar insurreições, ressurreições, reviravoltas

Se mereço ou desmereço, 
quem confessaria?
Simplesmente careço,
e pago o preço.

Luciana Del Nero

Pela Palavra, por Wasil Sacharuk

Pela Palavra

É somente o uso da palavra que garante um pequeno grau de distinção entre as pessoas e os outros bichos. 

Quanto a mim, a timidez me confinou à eterna tentativa de domar meus instintos, enquanto Aristóteles assombrava com aquela idéia de animal político. E eu não encontrava tanta politicidade em minha animalidade.

Ainda questiono minha capacidade de integrar uma sociedade e constituir um Estado. É a palavra o único acesso que tenho ao mundo das pessoas... Por ela sou facilmente influenciado e posso tentar influenciar. É ela que me faz distinguir o meu bem do meu mal e disfarçar a imoralidade. Modelo o pensamento seguindo signos confusos que gritam no meu cérebro. Mas, o mais significativo, é que pela palavra invento alcunhas aos meus sentimentos e valores (quais?), e assim, faço uma bruta distinção entre as coisas e selo suas diferenças. Todos precisam de rótulos para ser animal político.
Fico aqui, navegando no mesmo barco que Rousseau: não sei se preciso pensar para encontrar as palavras ou encontrar as palavras para pensar. Tudo no meu mundo é tão abstrato que só toma forma quando eu falo, quando escrevo... e se não falo ou escrevo, me escondo.

Penso que toda essa complexidade se sintetiza num ser vivente, do tipo social, revestido da textura material das palavras e, invariavelmente, mal-compreendido. Como escreveu Lispector: "Inútil querer me classificar... eu simplesmente escapulo... gênero não me pega mais..."

Toda linguagem não dá conta dessa abstração. A brincadeira com os clichês me conduz ao entendimento dos rótulos. E na minha poesia, ingênua e simples, eu posso alcançar alguma catarse. E com ela ainda permito a expressão da animalidade. E nem gênero, espécie ou Aristóteles me pegam mais.

Wasil Sacharuk

Por que o poeta?, por Decimar Biagini

Por que o poeta?

Porque diz palavras inimagináveis, que estão acima dos liames da relevância ambicionada pelo homem.
Porque tem raciocínio coerente quando quer e enlouquecido quando não quer, organiza ideias com consciência crítica, mas sequer sabe percorrer o caminho inverso daquilo que disse, daí o leitor para completar esta criatura transcendente.
Porque o mais perturbador é que a personalidade do poeta se equilibra entre os extremos. Como pode alguém fazer poesia sobre a eternidade e ao mesmo tempo não procurar qualquer ato para tornar-se imortal que não a própria escrita?
Porque o poema dele ultrapassa os indexadores da física, portanto não poderia ser explicitado nem mesmo pela inteligente teoria da relatividade.
Diante disso, é fácil concluir que seu comportamento estilhaça os paradigmas e foge das avenidas por onde transita a humanidade, pois ele caminha por linhas bilaterais em interpretações matriciais, preto no branco jamais será dessa forma enquanto houver um poeta e um leitor.

Senão vejamos, o que lhe suscito:

É difícil dar nome ao projeto do poeta
Alguns podem nomeá-lo de propósito
Mas lá estaria a ironia de sua falta de meta
Pois audacioso e multifocal é o poema ilógico

O leitor, ao investigá-lo, não muda sua natureza
Agrega valores de uma intertextualidade
E se perde ao procurá-lo, em absurda virada de mesa
O poeta carrega mais cores que a realidade

Ele pode insinuar que o pote não estaria no final do arco íris
Inclusive convencer que o mesmo é preto e branco
Apenas pelo prazer de transformar o homem em versos livres
E expandir nesse crescer a esmo o ledo engano

Certamente, em alguma oportunidade
O poeta poderá fazer o exegeta bradar a voz
Para entender a sua mais pura verdade
De outra baila, fará o mesmo perder-se a sós
Emudecendo na existência, perdendo a vaidade

Decimar Biagini

Sobre a leitura e interpretação, por Wasil Sacharuk

A interpretação de um texto é um ato reflexivo que precisa dar conta do conflito entre as diferentes possibilidades de interpretações dos símbolos lingüísticos e tentar esclarecer a verdadeira intenção e o interesse que subjaz toda a compreensão de um escrito.


Sabemos que a boa interpretação advém de uma leitura cuidadosa que considera todos os elementos de um texto, sejam estes reconhecidos ou não pelo escritor:
... a leitura deve, sempre, visar uma certa relação, despercebida pelo escritor, entre o que ele comanda e que ele não comanda, dos esquemas da língua de que faz uso. Esta relação não é uma certa repartição quantitativa de sombra e de luz, de fraqueza ou de força, mas uma estrutura significante que a leitura crítica deve produzir (DERRIDA, 1973). 

A desconstrução de um texto se volta ao próprio texto, mas não com o foco na mensagem, mas sim, aponta para o conflito e a contradição.

A literatura permite que se diga tudo. E, obviamente, a informação é remetida à voz do sujeito. Mas, o significado e o referencial de um texto não é o texto em si, mas a escritura, ou seja, as significações e suplementações que só serão favorecidos pela abordagem do contexto.

O que o escritor disse é tão importante quanto o que ele não disse. Assim, a procura de um significado que considere texto e autor tende a ser falho. 

Wasil Sacharuk

Acerca do eu-poético, por Wasil Sacharuk e Dhenova

Eu gostaria de discutir a questão:

Quando o leitor confunde o autor com o eu-lírico, significa que:
a)O autor foi incompetente?
b)O leitor foi incompetente?
c)O poema cumpriu o seu papel?
d)Os leitores precisam de mais educação literária?
e)Tudo o que o escritor apresenta tem fundamento catártico?
f)Tenho outras considerações... Quais?

Autores incompetentes existem. São os que não "escrevem", não criam. Leitores incompetentes, também, existem... os desleixados com a leitura, leem com superficialidade. 

Um poema pode não cumprir o seu papel por culpa do autor ou do leitor, ainda de ambos. 

É necessária a educação incentivadora de leitores e, portanto, autores. Ler e escrever são hábitos que devem ser difundidos, ensinados, incentivados... Saber ler vai além de decodificar letras, sílabas, palavras. Ler é compreender, não só o que está escrito.

Há, de certa forma, o fundamento catártico em tudo que alguém escreve. Porém, isso não quer dizer que alguma personagem do texto seja a pessoa do autor. Porém, cada um escreve o que escreve baseado em sua experiência de vida ( experiência vivida na carne ou aprendizado cultural ).


Encontramos muitos leitores que entende o poema como uma declaração do poeta. Imaginam todo o poema como confissão. Isso é, realmente, falta de informação sobre literatura. Os pragmáticos têm dificuldades em conferir à poesia alguma validade. Mas, para que serve a poesia? Alguém sabe?

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Juleni Andrade disse:


"Mas para que serve a poesia?" 

Juleni Andrade

A poesia é vida
bálsamo que cura
a ferida

A poesia é fato
traz no disfarce
a arte do ato

A poesia é nostalgia
encontra na solidão
um outro dia

A poesia é tudo
é nada
se faz bizarra
irada
sensível
ou parca

A poesia é melancolia
é abstrata
indecente
pudica ou imoral
mas ainda assim
é poesia...
sentida muitas vezes
por seres (a)normais.

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Dhenova disse:

Ah, este tal de eu-lírico... vou contar aqui duas situações que me deixaram decepcionada com a 'leitura' de algumas pessoas. Acho que deve sim ser descontada a ignorância, a falta de interpretação de mundo, mas eu fiquei muito chateada com a parca noção e também com a maldade de alguns.

Escrevi um poema chamado 'Jogo de Xadrez', eu-lírico feminino, situação clássica de um quarteto amoroso... a esposa de um fala para o amante, marido de outra... nada a ver comigo, nem mesmo com alguma situação que tenha presenciado... bom, uma 'tia' não veio me perguntar se estava tudo bem entre eu e Sacha... pode? Contei até dez, lembrei do respeito que devemos ter com os mais velhos, mas minha decepção foi grande, porque esta pessoa é leitora, e também aprecia poesia. Bom, depois de passado o estresse, virou brincadeira entre eu e Sacha, quando falamos em 'jogo de xadrez' vem junto a descrição do Sacha 'aquele em que eu sou corno' ahahah... fala sério!

Tá aí a obra:

Jogo de Xadrez

A tua torre
atacou a minha fortaleza
enfraqueceu as defesas

Os peões perderam-se 
nos valos
fugiram pela mata
buscaram refúgio

O cavalo deu o pinote
quis o galope
a ventania

Meu rei fazia tempo
abandonara o posto
perdido em pensamentos

E tua rainha
ficou lá sentada
nada fez pra te deter

Se fosse eu
te matava (como fiz)
de beijos 
até o amanhecer.

Dhenova
agosto/2009
 
A segunda situação foi um comentário de uma poetisa que eu respeitava muito... o poema é 'Menino Inocente', um flash do cotidiano, uma daquelas imagens que eu tanto gosto de descrever... a ver comigo? absolutamente nada. Não é que a poetisa me mandou um depoimento dizendo que gostaria de conhecer o tal menino... pode?

Menino Inocente

Entro na sala apinhada
o cheiro é de suor e alvejante
o salto bate suave no piso frio
vou me aproximando
lentamente
encontro os olhos
de um menino inocente
um sorriso surge no íntimo
ao ver-lhe o espanto
a saia que sobe
quando me sento
as coxas se mostram
as meias coladas
o triângulo escuro
e o menino ali
tão perdido
tão seguro
ele sorri

Chamam meu nome
levanto
sem olhar para o menino
me afasto
as mãos nos cabelos
o olhar afetado
sem sorriso
sem doçura
só vaidade e formosura.

Dhenova
11/10/2009

Sobre o eu-poético, por Wasil Sacharuk

Discussão acerca do EU-LÍRICO

"Eu-Lírico" ou "Eu-Poético"

A terminologia "eu-lírico" foi inspirada no instrumento musical grego chamado lira. E lírica era a canção entoada ao som da lira. A união entre a música e o texto resistiu até o século XV. Logo após, houve um afastamento gradativo da poesia em relação à música, quando a primeira passou a ser declamada e lida sem acompanhamento musical.

O eu-lírico é a voz do poema. Do poema, não do autor. Logo, o poeta é fingidor. Ou pode não ser, se assim o quiser.

Atenção às três reflexões de Tânia Orsi Vargas:

EU LÍRICO: TRÊS REFLEXÕES

FUNDO FALSO

O poeta falou de amor e ela
se leu nas entrelinhas;
Entretanto, ele apenas era um homem
que falava literaturas às mulheres,
com sua palavra fácil,
seu talento que não vinha do coração
Mas da vaidade e do desejo.
E as via assim como suas personagens,
aquelas a quem poetava encantamentos
quando eram apenas espelhos a refleti-lo,
ele cuja palavra fácil e memória frágil
imagem de fundo falso
areia movediça por dentro
abocanhava atenções e agrados
ziguezagueava em escorregadias presenças
ao sabor dos ventos das conveniências.
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AO PÉ DA LETRA

Dizia o poeta a sua amiga que os versos dela eram sombrios, que a achava triste e solitária. E ela então lhe escreveu tantas coisas engraçadas, fez troça, deu risada de tal forma que o deixou arrebatado e assim perplexo: como era possível tal paradoxo? Paradoxo nenhum, ela lhe respondeu, você é que me vê ao pé da letra, e eu lá não estou, não mesmo....já devia ter aprendido que escrever é como representar, entrar no corpo de tanta gente, falar suas falas, viver suas experiências, mesmo que misturadas com as nossas. E finalmente, ao conversarem por telefone, ele novamente comenta que assim falando ela não é aquela tresloucada dos recados, parece alguém mais contida, reticente. É o que acontece com os leitores que viram nossos amigos. Não podemos jamais ser confundidos com nossos textos. Nem mesmo com textos de cartas, como estas a que me referi, uma vez que aquele modo de falar fora algo premeditado justamente para surpreender e confundir e em se tratando de correspondência, existe o tempo e a tranquilidade que não acontece na fala direta. Como existe por trás de cartas de poetas mais do que a pessoa, uma espécie de alter ego que não se sofre sem fantasiar um pouco e fazer fluir a sua criatividade. Um verdadeiro escritor tem muitas caras, se veste de muitas vestimentas, e mesmo quando usa alguma roupa sua ela nunca é no poema a sua real essência, pois esta vestimenta está recortada e transposta como passageira clandestina de um trem sem destino, nestes territórios da ficção. E daí em diante cria asas e vida própria e foge ao controle do seu criador.

tania orsi Vargas

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NÃO TENHAM PENA DO ESCRITOR

Muitas pessoas vêem, nos versos de amor especialmente, a própria vida do autor e tentam consolá-lo nos comentários, caso a história seja triste, ou parabenizá-lo, caso a história pareça ter bom termo. Outro dia uma poeta escreveu algo a partir de um fato ocorrido há muito tempo mas substituiu detalhes mantendo somente a idéia básica e além disso, acrescentando coisas para tornar o fato mais atraente e literário. E concluiu com uma frase que seria para mostrar a ingenuidade da mulher em questão, sua personagem que, portanto, não era ela, mas uma hipotética figura, dizendo: "devo ter esperanças?" Alguém logo se solidarizou e lhe disse que sim, que ele ia voltar. 

tania orsi vargas

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Alguns poemas de Wasil Sacharuk tiveram seu conteúdo desvinculado do eu-lírico e remetidos à pessoa do autor.

Em certos casos, percebi uma tendência para a interpretação da minha arte para um foco indesejado. Mas, até aí tudo é compreensível! O problema é quando, no decorrer do meu trânsito, passo a ser julgado pelos atos cometidos por minhas personagens. WS

Veja alguns exemplos:

Infelizmente não sou gay, mas despertei a desconfiança do leitor com esse:

Shangri-La

Numa junção de serpentes
ejaculamos o nosso veneno
na cara de todo o preconceito
do dito caminho direito

Sempre sonhamos toque sereno
tal a mistura de sementes
em Shangri-lá haverá outra gente
com discurso mais ameno

Chegando lá daremos um jeito
seremos o casamento perfeito
lá é benvindo o que é diferente
amor entre homens não é obsceno.

Wasil Sacharuk

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Em "Eu errei..." fui julgado como adúltero e, para piorar, usei um eu-lírico feminino. Um dos comentários que recebi dizia que "o importante é o arrependimento... Deus sempre perdoa". Não recordo mais, mas provavelmente mandei o comentador pastar.

Eu errei...

Ah! Meu amado
em respeito à comunhão
para não ver-te ferido
prefiro manter-te marido

Fugi dos ditames da religião
quando ocultei o meu pecado
um simples deslize alucinado
sucumbi ao convite da paixão

Depois de ter refletido
em busca de algum sentido
fiz-me passiva da submissão
quando conheci meu namorado

Um menino sério e centrado
com grande poder de sedução
um tanto incompreendido
mais um garoto perdido

Ele teve o controle na mão
deixei meu recato de lado
gostei do seu jeito abusado
e fui tomada pela sensação

Ontem ele foi preferido
adorei seu toque atrevido
incendiou-me de tesão
tive meu corpo devorado

Que não fiques zangado
com essa minha confissão
espero que seja absolvido
o meu adultério incontido

O matrimônio é instituição
união em um laço sagrado
e deus deve ter perdoado
agora falta o teu perdão.

Wasil Sacharuk

Sobre a poesia na internet, por Juleni Andrade

Sempre há algum motivo que move o autor. Não acredito na ideia de escrever para si... ainda mais se publicar o escrito ( em qualquer que seja a mídia ). Quem posta um texto quer ser lido, senão guardaria em algum arquivo próprio.


Quando penso em liberdade do autor, penso em ele escolher o que deseja escrever e como. Claro que o escritor deve está ciente de o que alcançará com sua proposta. Se um artista quer público, deve saber qual tipo de público terá com seu estilo.

Às vezes, a crítica especializada ronda um artista com ideias mirabolantes sobre sua obra... e não entende o que ela significa para o artista e seu próprio público.


Muitas vezes, o público não tem a oportunidade de conhecer certas obras por causa da barreira imposta pela crítica e/ou pela mídia dominante. A internet começa a ser um veículo mais livre da interferência dos teorizadores e capitalizadores da arte.

Juleni Andrade

O que, realmente, é arte?, por Juleni Andrade

O que, realmente, é arte?

Certamente, é uma criação humana impregnada de valores estéticos. Esses valores estéticos sintetizam emoções, história, sentimentos e cultura: sensibilizam.

Sem dúvida alguma, arte possui um conjunto de procedimentos e apresenta-se sob variadas formas: o artista precisa de técnicas para comunicar-se. As técnicas são a ponte entre a ideia e a comunicabilidade. 

O objetivo da arte é criar uma experiência, uma construção mental geradora da contemplação. O sensibilizar é despertar o sentimento de excelência. Assim, cada grupo de indivíduos é “tocado” de forma diferente. O artista é parte de algum grupo,ele pode ficar focado em seu mundo ou pode desejar despertar outros segmentos. Desse modo, a ação do crítico corresponde a um determinado setor social. Para o artista é imprescindível saber o seu real objetivo, as técnicas que usará para alcançá-lo. Para o crítico é fundamental ter consciência de sua limitação enquanto ser social representante de um grupo.

Juleni Andrade

Sobre o amadurecimento da arte, por Wasil Sacharuk

Penso que a arte, definida como tal, demanda o esmero do artista e o uso proeficiente do ferramental correspondente. Contudo, encontramos no nosso contexto algumas variações acerca da intenção que cada qual tem com a própria expressão artística. Há poetas que não consideram o leitor ao compor. Outros (que são poucos) elaboram as reações pretendidas na leitura enquanto escrevem. Os primeiros tendem a utilizar a escrita com o intuito apenas catártico e, em função disso, necessitam consolidar laços de amizade quando pretendem a aprovação para suas obras. Pessoalmente, tenho certa dificuldade de pensá-los enquanto artistas, partindo do pressuposto que a arte precisa considerar o interlocutar para se dizer como tal. Veja bem, isso não diminui a grandeza da expressão, no entanto, não se trata de arte intencional.

Sou um poeta amador e laico. Não li Espanca, nem Pessoa, nem Bandeira, nem Quintana, nem Leminski, nem Bilac, nenhum clássico e não me orgulho disso. Meu primeiro contato efetivo com a poesia se dei há menos de dois anos, quando escrevi meu primeiro poema (na verdade, um acróstico) encantado, no intento, pelo talento de Venus Poça e Decimar Biagini. No decorrer, minha arte amadureceu, mas não o suficiente. E reconheço que necessito de mais leituras e críticas fundamentadas.

Wasil Sacharuk

Sobre a sobrevivência das obras, por Juleni Andrade

Se perguntarmos o motivo de certas obras terem sobrevivido e outras não, que resposta teríamos? Na filosofia da antiguidade só tinham permissão para “pensar” os cidadão e esses eram poucos. Na idade média eram os apadrinhados pela Igreja. Os renascentistas, pela ascendente burguesia... no século XX e hoje, os que entram na mídia concorridíssima e vendem bem.

Daqui há muitos séculos, o que irão dizer da arte atual? O que ficar registrado. O que ficará registrado? Visto assim, as opiniões dos respeitáveis críticos têm importância primordial à sobrevida da obra.

O público de arte, qualquer arte, é sugestionado pela membrana publicitária. Porém, às vezes, acontece a sensibilização oferecida por alguma obra fora do processo usual. Vejamos o verbo sensibilizar não como comoção, sim como diálogo obra/expectador.

JULENI ANDRADE

Sobre as revoluções, por Juleni Andrade

Tudo que pensamos atualmente é um composto, como aqueles adubos orgânicos feito com restos...

Deuses e demônios assombram o imaginário humano. Isto é conveniente. Não temos as repostas definitivas para velhas indagações. Por isso, o sobrenatural passa a explicar o aparentemente inexplicável. É a sobrevivência do mito, mesmo após Sócrates.

Nossa Filosofia está amarrada aos preceitos neoplatônicos, aristotélicos. Ora surgem filósofos reafirmando, com uma moldura nova, tais preceitos, ora surgem os que atacam. Mas, sempre, recorrendo ao passado. Transgressão nenhuma ocorre, não há criação. Conceitos de belo, de estética, de arte, de felicidade... tudo é um misto de teorias antigas. Por que isso acontece? Os transgressores são hostilizados, não ganham espaço.

A literatura dá seus saltos, vez por outra. Muitas das vezes, é na marginalidade que ocorrem revoluções.

JULENI ANDRADE

Sobre a poesia, por Michelle Portugal

Em se tratando de poesia, ainda não encontrei um meio de expressão que saiba dizer o que ela diz. A poesia está aí pra contar o que o noticiário deixou escapar, o que o discurso não soube abordar e a narrativa não descreveu.

Michelle Portugal

Sem leitores, teremos autores?, por Juleni Andrade

Perante uma obra literária, o leitor leigo irá sensibilizar-se ou não; um crítico de literatura irá analisar o estilo, compondo sua tese sobre a forma da escrita. E o artista? Ele usa a arte com um objetivo. Poderia citar alguns acadêmicos da ABL que mesmo considerados, pelos críticos mais confiáveis, lá estão sem ter sensibilizado nenhum leitor. Também, poderia fazer uma lista de autores considerados por críticos como péssimos e que vendem rios de livros. Ainda, poderia fazer uma relação de autores que nem receberam crítica e são ótimos para muitos leitores.

Todo julgamento é relativo, depende do momento e das circunstâncias. Além, de haver uma classe de críticos e manchetes encomendados por autores e editoras. Vivemos num mundo capitalista: tudo ou quase tudo pelo lucro.

Considero a instrumentação teórica do artista muito relevante para o aprimoramento de sua obra... mas isso não é imprescindível.

A análise de estilos literários é fascinante, mas não está acima da sensibilização causada pela literatura. Essa mania de colocar a teoria acima do sensibilizar acaba prejudicando a formação de novos leitores, por exemplo. Vejo isso acontecer na educação formal, professores impedindo o nascimento de novos leitores, matando o gosto pela leitura sem compromisso. 

Sem leitores teremos autores?

Juleni Andrade

Sobre a forma, por NTakeshi

estou refletindo nesse ponto:

A produção de um texto é bidimensional. Há que se estar atento à forma e ao conteúdo. Enquanto proposta oficinal, a escrita criativa não busca mais do que o desenvolvimento de uma escrita personalizada e eficiente, de forma a abranger as duas dimensões. (Wasil Sacharuk)
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... sou muito indiciplinada quanto a buscar uma forma de apresentação... isso já faz parte da minha "escrita", uma coisa meio "pensamento-escrachado e cheio de aforismos"...
Sou fã dos Sonetos, mas é óbvio que " cabulei"nas aulas de métrica e rimas...hoje sou mais a prosa, as crônicas e outros delizes que posto ás vezes por aqui...
Esse processo de amadurecimento poético é de fato um exercício diário que começa na leitura, no conhecimento da palavra.
Sinceramente, nos improvisos...pouca coisa se salva( estou falando do meu processo de criação), é que eu gosto de "mastigar" a palavra,não a idéia implícita no mote proposto.

Tenho um exercício de criação e de desenvolvimento da sensibilidade textual que funciona comigo...quem acompanha minhas postagens sabe que procuro colocar a referência de leitura para que possam visualizar de onde surgiu a inspiração do poema ou texto... tenho um Diário específico para cada autor predileto, diário com Clarice, com Hilst e um com Pessoa - todos os textos inspirados em trechos de livros ,ou alguma palavra que "incendeia","chamusca" ou "fere"..., uma espécie de contra-poema..."um dedin de prosa"

Acredito que para se alcançar uma escrita personalizada é necessário esse "maturar-se", esse envolvimento com a palavra,um gozo literário.

Ntakeshi

INSPIRATURAS - personagem e paisagem

INSPIRATURAS - personagem e paisagem

Oficina de escrita criativa

1. Caracterize uma personagem.

2. Descreva uma paisagem vista sob a ótica dessa personagem.

3. Não utilize diálogos.

INSPIRATURAS - A Câmera


Oficina de Escrita Criativa

Você é uma câmera. Daí, não sabe o que se passa na mente das personagens e não sabe inferir sobre o tempo, clima, endereços etc. 

Você apenas observa e nos diz o que vê.

1. Crie uma cena

2. Descreva a cena como se você fosse uma câmera de vídeo.

INSPIRATURAS - DE 4 PALAVRAS, 1 TEXTO

INSPIRATURAS - DE 4 PALAVRAS, 1 TEXTO

Quatro palavras te esperam...

Delas, construas prosa ou poesia e

não esqueças de deixar mais quatro palavras para o próximo escritor.

INSPIRATURAS - Uma Escada

INSPIRATURAS - Uma Escada



.
INSPIRATURAS - Uma Escada


Oficina de Escrita Criativa

Observe a imagem e escreva em prosa ou poesia:

O que há além da escada?

O que se passa em cada degrau?

Qual a sensação da subida? Ou da descida?.

NOP Oficina - *Acrósticos*

NOP Oficina - *Acrósticos*

Os acrósticos são formas textuais nas quais a primeira
letra de cada frase ou verso formam uma palavra
ou frase. Podem ser simples, com frases ou palavras
que não tenham ligação entre si ou podem mesmo ser
o encerramento de uma poesia.

Eis um exemplo de acróstico simples:

ACRÓSTICO, um acróstico

A primeira letra do verso
Compoe palavra consequente
Remete a um tema ou inverso
Ou dissimula a palavra secreta
Sutil, enigmática, diferente
Traduz a virtude do poeta
Inicia com uma proposta
Contínua da letra da frente
Ou termina como uma resposta.

Wasil Sacharuk

Poste o seu acróstico e não esqueça de deixar uma sugestão
para o próximo poeta.

Catilinas - Criatura Cabalística



Cabe conversar com C?

Compete criação conjunta?

Conheça Catilinas, criatura cabalística
conforme considerou cara colega Carreira

copiou?

Conduza conversação com C convidando colegas

Com C chegaremos céu!


Visite Catilinas, o blog.

Catilinas - Criatura Cabalística está na NOVA ORDEM DA POESIA.

Baixe aqui o e-book "Catilinárias I"

Baixe aqui o e-book "Catilinárias II"

NOP Oficina - "O que aconteceria se..."

NOP Oficina - "O que aconteceria se..."

Exemplo:

Há um mote nesse modelo:

O que aconteceria se...
a luz apagasse?


então, o poeta responde em verso, pode ser mais ou menos assim:

O que aconteceria se
a luz apagasse
coisa de praxe
gritos e ais
sussurros normais?

O que aconteceria se
a chama da vela
não fosse suficiente
para iluminar
tanta fragilidade aparente?

O que aconteceria se
a fogueira da vaidade
apagada com lágrimas
de emoção e saudade
fosse motivo de coragem?

O que aconteceria se
o vazio fosse preenchido
o universo colorido
o amor não seria sonho
e a claridade não mais fantasia?

O que aconteceria se
uma página em branco
fosse arrancada
arrastada e jogada no lixo da vida
e isso virasse poesia?

Dhenova


Logo, o poeta deixa um mote para o próximo:

O que aconteceria se... as estrelas pudessem chorar?

Faça o exercício, envie para academiadodiscurso@gmail.com e o publicaremos aqui.

Eu sinto muito... compreendo pouco.


Esse espaço é diferente. Sinta-o e não compreenda-o. 

José Humberto Ribeiro está ao leme da (in)consciência e disse à NOP:

"Como sabes não sou poeta, mas tenho grande interesse 
naqueles sentidos e emoções difíceis de compreensão 
ou como se diz por aí pelo "fluxo de consciência" 
ou quem sabe pelo "fluxo de inconsciência". "

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Trata-se de uma proposta para extravasar o que se tem por dentro, tirando qualquer tipo de barreira ou mito sobre o que se passa conosco sem precisar ser totalmente cognitivo ou algo parecido. 
Então, se você é como eu, para quem muitas palavras ainda são pouco porque não é bom entendedor e sim um SENTIDOR, esteja aqui conosco e derrame a sua idéia. 

Nada é insano e despropositado, apenas os olhares são diferentes e talvez a estética. 
Assim é o nosso Universo, diverso...
Que venham os nefelibatas, os sons, as imagens, 
os golpes de vista, o estranhamento, os gostos........ 
as sinestesias....

Então estamos combinados: se for mergulhar, suba de vez em quando e nos conte como foi.

Vamos compor juntos?


O tópico tem como objetivo a parceria e interação dos participantes para que possamos criar poesias coletivas livres.

Cada participante deverá escrever um verso, um total de dez a doze versos para cada poesia.
Quem já postou um verso poderá postar outro, mas não deverá ser logo após o seu.

Espero que possamos criar muitas poesias coletivas juntos.


Gall Marttins

NOP - 2°Desafio da Roda de Improviso


O poeta Decimar Biagini consagrou-se o melhor poeta improvisador de 2010, durante a primeira edição do Desafio da Roda de Improviso 

Seguindo a proposta oficinal da NOP, lançamos o 2°Desafio da Roda de Improviso, com a proposta de estimular o desenvolvimento da escrita oficinal de improviso. Para tal, numa primeira fase, estabelecemos pontuação aos poetas que atenderem as provocações com maior rapidez. Em novembro, os três poetas com maior pontuação, disputarão o primeiro lugar por meio de votação direta.



Como funciona?

1.Haverá sempre uma provocação disponível no tópico. A primeira será deixada pela moderação. As provocações seguintes serão sugeridas pelo poeta que atender a última provocação.

2.O poeta atende à provocação com um poema estilo livre com, no mínimo, sete versos. Os poemas não deverão estar acompanhados de ilustrações.

3.O poeta não poderá atender a própria provocação.

4.O primeiro a postar marcará um ponto.

5.O poeta que não deixar a provocação para o próximo perderá um ponto, ao passo que a moderação cumprirá a próxima para dar continuidade.

6.Cabe aos poetas improvisadores contabilizarem suas próprias pontuações a cada postagem.

7.Serão consideradas as postagens realizadas até às 24 horas do dia 30 de OUTUBRO.

8. De 1º a 30 DE NOVEMBRO, um entre os três poetas com maior pontuação será eleito, por meio de votação direta, o vencedor do 2ºDesafio da Roda de Improviso. Os votos serão postados por enquete, de 01 a 30 de novembro de 2010.

9.Obras com conteúdo ofensivo, preconceituoso ou plagiado serão eliminados do concurso sem prévio aviso.

10.O prêmio é o reconhecimento, carinho e mimos da comunidade, no entanto, aceitaremos doações para compor a premiação.

 O 2°Desafio da Roda de Improviso acontece na NOVA ORDEM DA POESIA. Apareça por lá.

Sobre o significado II

Sobre o significado II

Pela linguagem o escritor pode organizar sua experiência no mundo, bem como, pode construir um mundo singular à sua maneira. Isso significa que nenhum texto está confinado a mera descrição do mundo, pois a linguagem cria novas realidades a partir da visão do escritor.

Essa realidade alternativa toma forma ao parto da criação. O texto evoca determinadas imagens de entidades que, a rigor, podem ser ausentes da concepção natural de mundo, como se existissem.
Assim, o texto absorve novas possibilidades ampliadoras ao passo em que inaugura novos mundos entrelaçados com a perspectiva pessoal do escritor.

O escritor deve precaver-se para não escapar da universalidade de sua criação sob a pena de não ser entendido.

Wasil Sacharuk

Sobre os motes e provocações

Sobre os motes e provocações

O texto se configura numa experiência que enquanto se constitui, é reconstruído e reorganizado continuamente em função do conteúdo e da forma.

Esse processo reflexivo se desenvolve a partir de uma proposta desafiadora com que o escritor se defronta durante o desenrolar. Essa proposta é a diretriz das experiências futuras durante a criação. Respaldado em mecanismos de identificação e em associações, o escritor dirige a experiência com as letras.

Wasil Sacharuk

Sobre o significado

Sobre o significado

Um texto não nasce pronto em sua integridade e esplendor. Ele vai ganhando vida através do encadeamento de pequenas unidades do discurso. Os textos são formados pela interação entre frases e estas, por sua vez, pela interação entre as palavras, de forma a privilegiar o conteúdo e a forma.

Veja bem: o discurso tem uma dimensão subjetiva que brota do envolvimento intelectual e afetivo do escritor. Cada elemento surge livremente na mente e obriga o redator a decidir sobre o que e como escrever. E, enquanto a produção avança, os questionamentos são inevitáveis e tornam possível a escolha entre uma diversidade de caminhos. Para concluir um texto é necessário empreender uma sequência de escolhas.

Assim, o significado do texto nasce das respostas às questões lançadas pelo próprio escritor durante a criação.

Wasil Sacharuk

Sobre o improviso

Sobre o improviso

A maior parte das propostas de criação textual que encontramos na internet (nos sites de relacionamento, mais particularmente) provoca o escritor a uma atitude comunicativa que o obriga, num primeiro momento, à estruturação do seu pensamento orientado à produção de ideias para a produção de um discurso pessoal e autônomo.

Por meio do exercício literário, as significações dos textos se estabelecem em torno da capacidade do escritor em gerar ideias ao mesmo tempo em que organiza o discurso. Esse é o segredo da arte da improvisação. Biagini que o diga.

O ideal é que o escritor consiga gerar duas ou três soluções diferentes para o texto proposto, como parte de um processo de desenvolvimento da habilidades intelectuais mais complexas.

Wasil Sacharuk

Sobre a forma e o conteúdo

Sobre a forma e o conteúdo

A produção de um texto é bidimensional. Há que se estar atento à forma e ao conteúdo. Enquanto proposta oficinal, a escrita criativa não busca mais do que o desenvolvimento de uma escrita personalizada e eficiente, de forma a abranger as duas dimensões.

A redação deve ser um exercício constante e gradual em busca de uma autonomia. E a principal competência necessária ao escritor é habilidade de leitura oriundo do desenvolvimento da avaliação crítica dos textos.

Cada obra que o escriba pretende concluir deve contemplar um leque amplo de possibilidades. É necessário trabalhar O QUE se pretende dizer e também COMO dizer. O tratamento de um texto deve estar ancorado em alguma metodologia que permita ao leitor empreender uma relação eficaz com o texto escrito. Esse é um bom desafio que demanda a tomada de decisões.

Wasil Sacharuk

Sobre a responsabilidade do redator

Sobre a responsabilidade do redator

Contemporaneamente, há muitos escritores na internet. Alguns destes lêem pouco, ou nada, mas escrevem permanentemente em seus poemas, contos, apontamentos, chats etc. O escasso envolvimento com a leitura faz com que escrevam de forma incompetente e cometam equívocos fatais.

O principal argumento utilizado por muitos escritores da virtualidade, no intuito de fundamentar os erros, é o da despretensão em relação à própria escrita. Já “ouvi” dezenas de vezes, de um ou outro escritor, que não pretende mais do que a diversão que as postagens de suas obras proporcionam. Esses deveriam voltar a guardar suas obras nas gavetas.

A expressão escrita, quando tornada pública, demanda responsabilidade. Persistir nos desvios linguísticos é atitude inaceitável. O escritor precisa ter compromisso com a educação. Escritor que não almeja a correção não é digno de atenção.

O escritor precisa de uma relação criativa e íntima com sua língua materna, de modo a aprender a dar forma e controlar os efeitos da expressão escrita e da estética. Daí, a leitura dos textos de outros escritores deve ser uma atividade constante e de aprendizagem intensiva. É por meio da leitura que o escriba reconhece a multiplicidade de sutilezas e de explorações idiomáticas complexas.

Essa relação direta e livre com a leitura dos textos conduz à desmistificação cultural e da própria literatura. É no embate com as dificuldades, dúvidas, tentativas e erros que a estética textual reconhece a fruição necessária para a produção dos textos.

Escrever é tocar na instabilidade da procura, do reconhecimento e questionamento das próprias motivações. É isso que constitui a verdadeira natureza de uma peça artística.

Quantos bloqueios em relação à escrita não se devem à incompetência de leitura?  

Wasil Sacharuk

SEMINÁRIO: EDGAR ALLAN POE E “O BARRIL DE AMONTILLADO”

EDGAR ALLAN POE E “O BARRIL DE AMONTILLADO”

Wasil Sacharuk


Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe nasceu em Boston, no dia 19 de Janeiro de 1809. Seu avô David Poe participou da Guerra da Independência,e seu pai (também chamado David Poe) apaixonou-se pela atriz inglesa Elisabeth Arnold, casando-se com ela.Edgar Allan Poe teve dois irmãos e seus pais faleceram pouco tempo depois do nascimento de Rosalie, a filha mais nova do casal Poe. Porém, eles não ficaram desamparados e foram adotados pelo rico casal John Allan e Frances Keeling Allan.
Poe estudou em Londres na Stoke-Newington; algum tempo depois continuou seus estudos de volta a Richmond, na Universidade Charlotteville. Allan Poe, apesar de muito inteligente era também muito genioso, e isto lhe valeu a expulsão desta universidade.
Edgar Allan Poe era um jovem aventureiro, romântico, orgulhoso e idealista. Continuou seus estudos em Virgínia, mas também foi expulso por não se enquadrar nos padrões comportamentais daquela época. Na verdade, Allan Poe era um boêmio que vivia no luxo, se entregando à bebida, ao jogo e às mulheres. Mais tarde, foi para a Grécia e ingressou no exército lutando contra os turcos. Porém, suas ambições militares não vingaram, e perdeu-se nos Balcans chegando até a Rússia, sendo repatriado pelo cônsul americano. De volta a América, descobre que sua mãe adotiva havia falecido.
Logo após, alista-se num Batalhão de artilharia e matricula-se na Academia Militar de West Point. Mas com o lançamento de uma compilação de poesias em 1831, desligase da Academia e corta relações com seu pai adotivo, devido ao casamento com outra mulher, o que teria deixado Poe muito contrariado.
Aos 22 anos, vivendo na miséria, publica Poemas. Já em Baltimore procura pelo irmão Willian e assiste a morte dele. Allan Poe passa a viver com uma tia muito pobre e viúva com duas filhas. Durante dois anos vive em miséria profunda. Mas vence dois concursos de poesias e o editor Thomaz White entrega-lhe a direção do "Southern Literary Messenger".
Em 1833 lança Uma aventura sem paralelo de um certo Hans Pfaal. Dirige a revista por dois anos. Allan Poe gozava de uma certa reputação com leitores assíduos. Depois de sua vida estabilizada, aos 27 anos casa-se com sua prima de 13 anos, Virgínia Clemn.
No ano de 1838 trabalha na Button’s Gentleman Magazine na companhia de sua esposa. O casal vivera na Filadélfia, Nova York e Fordham. Em 1847, sofre com a morte de sua esposa depois de um acidente de carro.
Em 1849, Allan Poe lança O Corvo. Eureka e Romance Cosmogônico lhe atribuem a fama necessária para provocar a censura da imprensa e da sociedade. Desiludido, volta para Richmore e depois vai para Nova York e entrega-se à bebida. Antes de seguir para a Filadélfia, resolve encontrar-se com velhos amigos. Na manhã seguinte, Poe é encontrado por um amigo em estado de profundo desespero, largado numa taberna sórdida, de onde o transportaram imediatamente para um hospital. Estava inconsciente e moribundo. Ali permaneceu, delirando e chamando repetidamente por um misterioso "Reynolds", até morrer, na manhã do domingo seguinte, aos 39 anos e deixando uma vasta obra em sua vida de sacrifícios e desordem. Era 7 de outubro de 1849, e os Estados Unidos perdiam um de seus maiores escritores. Até hoje não se sabe ao certo o que tenha acontecido naquela noite. Teria o autor, sido vítima da loucura que em tantos contos narrou? Muitos afirmam que tenha sido vítima de uma quadrilha que o envenenou, mas o mais certo é que tenha tido uma overdose de ópio.
Poe escreveu novelas, contos e poemas, exercendo larga influência em autores fundamentais como Baudelaire, Maupassant e Dostoievski. Mas admite-se que seu maior talento era em escrever contos. Escreveu contos de horror ou "gótico" e contos analíticos,  policiais. Os contos de horror apresentam invariavelmente personagens doentias, obsessivas, fascinadas pela morte, vocacionadas para o crime, dominadas por maldições hereditárias, seres que oscilam entre a lucidez e a loucura, vivendo numa espécie de transe, como espectros assustadores de um terrível pesadelo. Entre os contos, destacam-se: O gato preto, Ligéia, O coração delator, A queda da casa de Usher, O poço e o pêndulo, Berenice e O barril de Amontillado. Os contos analíticos, de raciocínio ou policiais, entre os quais figuram os antológicos Assassinato de Maria Roget, Os crimes da Rua Morgue e A carta roubada, ao contrário dos contos de horror, primam pela lógica rigorosa e pela dedução intelectual que permitem o desvendamento de crimes misteriosos.
Em seus contos, Poe se concentrava no terror psicológico, vindo do interior de seus personagens ao contrário dos demais autores que se concentravam no terror externo, no terror visual se valendo apenas de aspectos ambientais.
Geralmente, os personagens sofriam de um terror avassalador, fruto de suas próprias fobias e pesadelos, que quase sempre eram um retrato do próprio autor, que sempre teve sua vida regida por um cruel e terrível destino. Nenhum de seus contos é narrado em terceira pessoa, desse modo, vê-se como realmente é sempre "ele" que vê, que sente, que ouve e que vive o mais profundo e escandente terror. São relatos em que o delírio do personagem se mistura de tal maneira à realidade que não se consegue mais diferenciar se o perigo é concreto ou se trata apenas de ilusões produzidas por uma mente atormentada.
Em quase todos os contos, sempre há um mergulho, em certas profundezas da alma humana, em certos estados mórbidos da mente, em recônditos desvãos do subconsciente. Por esses aspectos a psicanálise lança-se ao estudo da obra de Poe, já que a mesma possui uma grande leva de exemplos que ilustram suas demonstrações. Independentemente desse aspecto, sua obra é lembrada pelo talento narrativo impressionante e impressivo, pela força criadora monumental e pela realização artística invejável, fazendo com que Edgar Allan Poe seja considerado um dos maiores autores de contos de terror.

ANÁLISE

O relato de “O Barril de Amontillado” pode se qualificar como um dos relatos mais macabros do genial escritor Edgar Allan Poe. Um relato no qual o tema da vingança leva uma personagem a cometer um atroz assassinato à pessoa de Fortunato. A vingança é a expressão de um implacável castigo de Montresor contra Fortunato.
A personagem principal e redonda, da qual sabemos apenas que havia sido ofendida por Fortunato, não esclarece totalmente os motivos que o levam a cometer tal ato de vingança. Simplesmente se limita a dizer que havia sido insultada. Será que tal insulto justificaria o crime?
O relato, narrado pelo próprio Montresor, autodiegético, arranca com a apresentação dos motivos que o levaram a tal extremo. Allan Poe apresenta a narrativa como uma espécie de confissão por parte de Montresor, a personagem principal. No decorrer da narrativa, Montresor dá a impressão ao leitor de estar confessando o crime cometido, possivelmente a algum representante da lei ou a um clérigo. Podemos ainda supor a hipótese de Montresor estar narrando em seu próprio leito de morte. É bastante significativo o momento que o próprio Montresor se dirige a várias pessoas quando afirma que elas conhecem a natureza de sua pessoa. Disto podemos inferir que o narrador não se encontra só, já que se dirige a um grupo de ouvintes que poderiam ser, até mesmo, seus familiares ou amigos. Isso decerto descarta nossa primeira suposição da confissão diante de um clérigo ou representante da lei, ainda que, por outro lado, resulta intrigante que o relato finalize com as palavras em latim: in pace requiescat!. Note que não fica totalmente claro quem é o autor da pronúncia. Num primeiro momento, chegaríamos a conclusão de que seja o próprio Montresor aludindo à morte de Fortunato. Por outro lado, a expressão poderia haver sido pronunciada por um clérigo ou representante da lei. Não resta dúvida de que a personagem Montresor está se confessando. No entanto, não fica expresso quem é seu narratário. Allan Poe magistralmente coloca dúvida no leitor acerca da autoria daquelas palavras.
No relato percebemos Montresor como uma personagem fria e calculista, que consegue com facilidade esconder as emoções advindas de seu desejo de vingança contra Fortunato. Montresor é senhor de sua perfeição e seus defeitos, e, aguardando sua oportunidade, elege o momento adequado para sua vingança: o carnaval.
Possivelmente Allan Poe tenha baseado seu relato nos carnavais de Veneza, visto que ambas as personagens são italianos amantes dos vinhos.
Analisando a descrição que Montresor faz de Fortunato, percebemos que este é uma presa fácil. O fato deste estar bêbado e vestido de bufão agrava a comicidade quase ridícula desta personagem. Pode-se imaginá-lo como um homem débil do qual Montresor se aproveitará com frieza e certa facilidade. Montresor sabe que Fortunato não resistiria a um Amontillado, e para atrair sua presa mais facilmente, provoca-o falando de um possível competidor seu: Luchesi. Montresor desperta a rivalidade de sua vítima em relação a Luchesi, de forma que Fortunato não hesita em momento algum da empreitada em direção as adegas de Montresor, a despeito da tosse que o acometeu. A tosse de Fortunato é significativa, pois Montresor o adverte das condições úmidas que se encontram nas adegas e que prejudicaram o estado físico do primeiro. Note que a advertência é falsa, visto que a Montresor, a debilidade do estado de saúde de Fortunato pode colaborar com seu projeto.
É muito importante destacar os elementos em torno do assassinato. Em primeiro lugar os criados não estavam em casa. O próprio Montresor cuidara de que não houvessem testemunhas de seu crime. A descrição das adegas da família é sem dúvida o fiel reflexo de um lugar sinistro, úmido, escuro, sinuoso, cheio de aranhas e ossos, elementos estes, comuns aos contos góticos do século XVIII. Este cenário representa o lugar ideal para o crime de Montresor. Quando Fortunato experimenta os primeiros sintomas da umidade, o assassino volta a interpretar seu papel de pessoa preocupada com a saúdo do amigo, o que, por sua vez, apenas estimula o ego de Fortunato.
Outro elemento chave no projeto de vingança é a garrafa de Medoc, que segundo Montresor servirá como um bálsamo contra os efeitos da umidade. Este insiste para que Fortunato beba para acalmar a tosse. A mensagem é clara. Montresor busca embriagar Fortunato para facilitar seu empreendimento. Nesse momento o relato revela uma quebra daquilo que inferíamos acerca de Montresor. Talvez por medo do fracasso quer assegurar que Fortunato esteja completamente embriagado. Fortunato fica tão embriagado que não percebe a mensagem do brasão dos Montresor: “Memo me impune lacessit!”. Assim, Montresor se deixa levar pela máxima de sua família: a vingança.
Chegamos ao momento em que as personagens entram em uma cripta descrita por Allan Poe com elementos góticos, donde está tudo preparado para a vingança. A descrição do lugar está de acordo com a dimensão do crime. Na cripta se encontra o suposto barril de Amontillado. Fortunato entra sem vacilar, ao passo em que, Montresor, ironicamente, pergunta-lhe se quer voltar antes de lhe acorrentar em argolas de ferro.
Montresor se esforça para levantar a parede que isolará sua vítima da vida. Na medida em que Montresor avança na empreitada, a embriaguez de Fortunato vai passando. Nada mais macabro do que ser enterrado vivo.
Montresor saboreia a vingança enquanto escuta o sofrimento de sua vítima. Fortunato, agora livre da embriaguez, pede a Montresor que o libere. Nesse ponto da narrativa encontramos a dificuldade de distinguir se a expressão “pelo amor de Deus” é pronunciada por Fortunato ou pelo narratário. Ambas as situações seriam aplicáveis. Essa situação torna a repetir no final com a expressão latina In pace requiescat. Essa expressão poderia ter sido pronunciada pelo próprio Montresor ou pelo narratário, possivelmente como uma personagem-tipo.


A Poética de Aristóteles


A Poética de Aristóteles
Por Luiz Alberto Machado

Quando me vi às voltas com a poesia, versejando desde menino, cheguei ao momento de que precisaria não apenas colocar sentimentos, emoções e idéias nos versos rimados, mas aprofundar os conhecimentos acerca da arte poética.
Foi ai que pretendendo saber mais a respeito da poesia e, ao mesmo tempo, descobrindo que poesia vai além de tudo que eu imaginava ser, fui estudando métricas, estética, aprendendo e trabalhando exaustivamente a respeito da arte.
Indispensável se faz, primeiramente, que se tenha conhecimento de uma obra de relevo: a Poética de Aristóteles. É nela que se encontra o entendimento filosófico acerca da poesia.
Indubitavelmente é uma obra tão reveladora que é indispensável para quem pretende militar na área, seja versejador, poeta ou estudioso da arte poética.
É com esta obra que a gente pode discernir o que é poesia, o que é poética e tudo que está imanente ou transcendente a esta arte.

O filosofo grego Aristóteles

O filosofo grego Aristóteles, era realista, utilitarista e adepto do senso comum. E conforme as bases fundamentais do realismo grego e talqualmente Platão, considerava a arte como imitação direta da própria idéia, do inteligível imanente no sensível, imitação da forma imanente na matéria. E no entendimento de Ariano Suassuna, o pensamento aristotélico sente a arte como um depoimento do mundo, contido numa outra realidade, transfigurada. Por esta razão, é a arte é uma criação da beleza, sendo o imitar congênito no homem, sendo ele o mais imitador. Isto quer dizer que Aristóteles considerava a poesia de Homero superior à história e mais filosófica do que a história de Heródoto.
Nascido em 384 a.C, em Estagira, cidade da Calcidia, Aristóteles viveu no período da história grega em que a hegemonia da Macedônia se estendia sobre toda a Grécia. Ele vai para Atenas com 16 anos de idade, encontrando, de um lado, Isócrates que pretendia ser a retórica a melhor preparação para a vida política. E de outro, Platão, que em sua academia, mostrava que a preparação para a vida pública exigia mais do que opiniões e recursos retóricos – deveria ter fundamentos científicos. Aristóteles preferiu o caminho apontado por Platão e, durante 20 anos, freqüentou a Academia.
Quando morre Platão, Aristóteles deixa Atenas e vai para Assos. E em 343 a.C., Filipe da Macedônia chama-o à sua corte, confiando-lhe a educação de seu filho, futuro "Alexandre O Grande". Morto Filipe, Alexandre sobe ao trono e prepara uma expedição ao Oriente. É o momento de Aristóteles voltar à Atenas. Lá, próximo ao templo dedicado a Apolo Liceano, abre uma escola, o Liceu, que passou a rivalizar com a Academia, então dirigida por Xenócrates. Ao contrário da Academia platônica, voltada fundamentalmente para investigações matemáticas, o Liceu se transformou num centro de estudos mais dedicados às ciências naturais. Aí, Aristóteles trabalhou, escreveu e ensinou durante 12 anos. Acusado de ateu, Aristóteles se instalou, no ano de 322, em Cálcis (na Eusébia), onde no ano seguinte, morreu aos sessenta e dois anos de idade.

Decifrando a poética aristotélica

Entre os escritos e obras, A Poética de Aristóteles é uma obra esotérica e terá por base a fundamentação conceitual de imatação (mimesis) e de catarse (katharsis, purificação, purgação). Mimesis, no sentido aristotélico, é ativa e criativa, determina o modo de ser do poema trágico e estará sempre ligada à idéia de arte (tecgné) e de natureza (physis), defendendo sempre que a arte imita a natureza. Já a catarse para Aristóteles é uma força emotiva causada pela mimesis levando a um efeito suscitado pela tragédia no público.
No primeiro capítulo da obra aristotélica, são abordados alguns aspectos da poesia e da imitação segundo os meios, o objeto e o modo de imitação. Nesse sentido, apresenta-se como propósito da obra a abordagem da produção poética em si mesma e seus gêneros, da função de cada um desses gêneros e a maneira pela qual a fábula deve ser construída com vistas à conquista do belo poético. A epopéia, a poesia trágica, a comédia, a poesia ditirâmbica, a maior parte da aulética e da citarística enquadram-se nas artes da imitação, havendo entre elas, contudo, a diferença de que seus meios não são os mesmos, tampouco os objetos que imitam e a maneira pela qual se dá essa imitação. Nas artes citadas, a imitação ocorre por meio do ritmo, da linguagem e da harmonia, empregados em conjunto ou separadamente. A epopéia utiliza a palavra simples e nua dos versos.
No segundo capítulo encontra-se uma abordagem acerca das formas pelas quais se utiliza a imitação. Assim, afirma-se que a imitação aplica-se aos atos das personagens, as quais podem unicamente ser boas ou ruins, dependendo da prática do vício ou da virtude. Nesse sentido, as personagens são representadas como melhores ou piores.
No terceiro capítulo é tratado do refinamento da classificação focalizada no capítulo anterior, afirmando ser possível imitar os mesmo objetos nas mesmas situações e numa mesma narrativa, seja pela introdução de um terceiro personagem, seja insinuando-se a própria pessoa sem a intervenção de outro personagem. Uma outra forma de seria contar com a ajuda de personagens que agem por si só.
No quarto capítulo ocorre uma análise acerca da origem da poesia e seus diferentes gêneros, que teria duas causas, ambas devidas à natureza do homem. Tendo em vista que a imitação corresponde a um instinto humano, característica que o distingue dos demais seres vivos, pela imitação são adquiridos os primeiros conhecimentos e experimentado o prazer. A poesia, então, teria sido criada pelos homens mais aptos à execução da imitação, por meio de ensaios improvisados. A divisão em gêneros resultaria das diferenças entre os caracteres dos sujeitos imitadores: aqueles mais propensos à gravidade reproduziriam as belas ações e seus realizadores, ao passo que os menos propensos se voltariam para as pessoas ordinárias com o objetivo de censurá-las. Aponta-se Homero como o pioneiro dos gêneros dramático e cômico. Defende-se, também, a superioridade da tragédia e da comédia em relação ao iambo e à epopéia. Tal superioridade seria a responsável pela migração dos poetas para os dois primeiros gêneros.
No quinto capítulo é efetuada uma comparação entre epopéia e tragédia. A primeira, assim como a tragédia, focaliza os assuntos sérios, porém não inclui qualquer forma negativa e é menos limitada quanto à duração em relação à tragédia. Ambas apresentam partes constitutivas comuns e todos os caracteres presentes na epopéia encontram-se também na tragédia.
No sexto capítulo são focalizadas as diferentes partes da tragédia, conceituando esta, entendendo-se que o pensamento é a arte de encontrar o modo de exprimir o conteúdo do assunto de maneira conveniente e busca provar a existência ou não de determinada coisa e realizar uma declaração de ordem geral. Já o caráter torna possível a decisão após a reflexão, razão pela qual o caráter somente se revela após a decisão dos personagens. A elocução é a escolha dos termos, os quais apresentam o mesmo poder de expressão, seja no prosa ou no verso. Já o canto é o principal tempero do espetáculo. Defende-se a idéia de que a despeito do efeito de seu efeito sobre os ânimos, a encenação em si mesma não pertence à arte da representação e não guarda qualquer relação com a poesia. Dessa forma, a tragédia existiria por si só, independentemente da representação e dos atores.
O sétimo capítulo trata da extensão da ação, parte primeira e capital da tragédia. Conceitua-se princípio como sendo aquilo após o qual é natural haver ou produzir-se outra coisa; fim como sendo o contrário, ou seja, ocorre após outra coisa e é algo após o qual nada ocorre. Assim, para se ter uma voa composição na fábula, seria necessário que o início e o fim não fossem obras do acaso, mas de condições indicadas. Assim, afirma-se que para que algo seja considerado belo, deve não só apresentar ordem em suas partes, como também comportar certas dimensões. Sob essa ótica, um ser vivente muito grande ou muito pequeno não poderia ser belo. Dessa forma, a dimensão dessa extensão seria dada pela duração dos concursos e pelo grau de atenção do espectador, ponto este que não dependeria da arte.
O oitavo capítulo trata da unidade da ação e afirma que, ao contrário do que se pode pensar, o que confere unidade à fábula não é a personagem principal. Assim, o que importa é que a unidade da imitação resulte na unidade do objeto, de forma que a supressão ou deslocamento de uma parte seja suficiente para mudar ou confundir o conjunto.
O nono capítulo versa sobre a competência do poeta ao narrar exatamente o que acontecido, mas sim o que poderia acontecer, o possível, a verossimilhança ou a necessidade. Assim, a diferença entre o historiador e o poeta não é a forma da obra, mas o que ela relata. Assim, o historiador relata o que ocorreu e o poeta, o que poderia ter ocorrido. Por isso, a poesia é mais filosófica e de caráter mais elevado, pois permanece no universal - o que uma categoria de homens diz ou faz em determinadas circunstâncias segundo o verossímil ou necessário - ao passo que a história focaliza o particular. Assim, a missão do poeta concentra-se em criar fábulas e não em fazer versos, sendo poeta justamente porque imita ações. Neste capítulo, atribui-se a maus poetas a criação de fábulas episódicas, obras em que a conexão dos episódios não observa a verossimilhança e nem a necessidade. Assim, a tragédia deve imitar a ação em seu conjunto e, além disso, imitar fatos capazes de suscitar o terror e a compaixão, principalmente se tais sentimentos nascerem de fatos que se encadeiam contra a experiência do espectador, causando, assim, maior admiração do que se fossem devidos ao acaso e à fortuna.
No décimo capítulo traz tão-somente a noção de que as fábulas são classificadas em simples ou complexas de acordo com as ações que imitam.
No décimo primeiro capítulo são apresentados os elementos da ação complexa, quais sejam peripécia, reconhecimento e catástrofe ou patético. A Peripécia é um elemento de ação complexa, que, segundo Aristóteles, consiste numa reviravolta das ações, o que conduz a história a um rumo contrário ao que parecia indicado e natural. O uso da peripécia é um dos instrumentos usados para que se chegue ao objetivo de causar terror e compaixão, ou catarse, finalidade da qual se presta qualquer tragédia. Como várias das peças já eram conhecidas do público, estratégias como essa provocavam mais interesse do público, o prendia mais e o deixava ansioso. Logo, essa reviravolta na história fazia com que o público ficasse mais curioso e mais identificado com a história e, assim, a interação do público com a peça aumentava. É com o uso da peripécia e de ações simples, diz Aristóteles, que se alcança o fim que se propõe alcançar, a saber a emoção trágica e os sentimentos da humanidade.
No décimo segundo capítulo encontram-se as divisões da tragédia, que são: prólogo, epílogo, êxodo e canto coral. O Prólogo é a parte que a si mesma se basta e que precede a entrada do coro (párodo). O episódio é uma parte completa da tragédia colocada entre cantos corais completos. O êxodo é uma parte completa da tragédia, após há qual não há canto coral.
No décimo terceiro capítulo fala das qualidades da fábula em relação às personagens. A fábula bela deve ser complexa e capaz de excitar temor e compaixão. Nelas, o infortúnio dos personagens não são fruto de sua perversidade, mas sim das suas ações. Para ser bela, a fábula necessita propor um fim único, oferecendo a mudança da felicidade para o infortúnio em virtude de um erro grave.
No décimo quarto capítulo aborda os diversos modos de produzir o terror e a compaixão, os quais podem nascer do espetáculo cênico, podendo, porém, derivar do arranjo dos fatos, o que é preferível e evidencia maior habilidade do poeta. Na tragédia, o temor e a piedade devem ser causados pelas ações. As ações que inspiram dor devem ocorrer entre amigos ou inimigos, ou indiferentes. Numa boa tragédia, o personagem não hesita em matar, saiba ou não quem é a vítima.
No décimo quinto capítulo ressalta-se a importância de que a representação e o entrosamento dos fatos apresentem verossimilhança de modo que as ações e palavras da personagem estejam de acordo com o necessário e verossímil. Assim, o desenlace das fábulas deve nascer da própria fábula e não de um artifício cênico, não havendo, tampouco, espaço nas ações para o irracional.
Nos capítulos seguintes são apresentados alguns conselhos ao poeta Diz-se que, ao organizar sua fábula, o poeta deve sentir como se a tivesse diante de seus olhos e completar o efeito do que é dito pelas atitudes das personagens, razões pelas quais a poesia exige entusiasmo. Fala-se, ainda, que os assuntos devem conter primeiramente uma idéia global, distinguindo os episódios a seguir. Então, devem ser atribuídos nomes aos personagens, os quais variam em função da sua terminação em neutros, femininos ou masculinos.
No décimo oitavo capítulo afirma-se que em todas as tragédias há o nó e o desenlace. O primeiro corresponde à parte que vai do início ao ponto em que ocorre mudança e o desenlace é a parte que vai da mudança até o final da peça. Uma boa peça deve conjugar adequadamente o lace e o desenlace. O canto coral teria o papel de passagem entre uma peça e outra.
Nos dois capítulos seguintes são encontradas observações acerca da elocução e do pensamento, dois dos elementos essenciais da tragédia. O pensamento tem como objeto a retórica e é de seu domínio tudo aquilo que se exprime por meio da linguagem, incluindo a demonstração, a refutação e a maneira pela qual se movem as paixões, tais como compaixão, temor, e a cólera, os quais devem dotar de importância e verossimilhança. A elocução é tratada a partir de seus elementos essenciais: letra, sílaba, conjunção, nome, verbo, artigo, flexão e expressão.
A partir daí encontra-se o objeto e as formas dos nomes ou figuras. O nome simples é desprovido de elementos significativos. Já a composição do nome duplo varia pode ser de um elemento significativo com um elemento vazio de sentido ou de elementos todos significativos. Os nomes usados podem ser da própria língua ou estrangeiros. Faz-se uso também de metáforas e nomes forjados, que são aqueles que em princípio não apresentam sentido, mas que passam a possui-lo pela utilização do poeta. Os nomes alongados assim se chamam devido ao alongamento ou abreviação. Os nomes masculinos terminam em N, R, S ou letras compostas de S, que são as consoantes duplas Y e X. Os femininos terminam em vogal sempre longa, como H, W e A alongado. Nenhum nome termina em muda ou vogal breve.
No vigésimo segundo capítulo observam-se as qualidades da elocução. A principal dessas qualidades é a clareza, contudo sem constituir em algo trivial, que é obtida a partir do uso da linguagem corrente. Para manter-se nobre, a elocução vale-se de metáforas, alongamentos e tudo o que se afasta da linguagem corrente, mas sem exageros.
No vigésimo terceiro capítulo é abordada a unidade de ação na composição épica. Diz-se que é necessário que a fábula seja dotada de tom dramático, e que encerrem uma só ação, com princípio, meio e fim.
No vigésimo quarto capítulo trata das partes da epopéia, que deve ser simples ou complexa, ou de caráter, ou patética. Assim, seus elementos essências são os mesmos da tragédia, salvo o canto e a encenação, e também são necessários reconhecimentos, peripécias e catástrofes, devendo, além disso, apresentar pensamentos e linguagem bela. A diferença entre epopéia e tragédia está na métrica. Assim, a epopéia deve apresentar limite exato, ou seja, seu conjunto deve ser abarcado do início ao fim.
No vigésimo quinto capítulo apresenta a maneira pela qual deve se apresentar o que é falso. Diz-se que o poeta deve dialogar o mínimo possível com o leitor. Nas tragédias, pode-se apresentar aquilo que é maravilhoso, sendo que na epopéia pode-se avançar até o irracional, para obtenção de um maravilhoso em grau mais elevado. Quanto à verossimilhança, defende-se a idéia de que é preferível o impossível verossímil ao possível incrível. Além disso, os assuntos poéticos devem ser racionais.
O vigésimo sexto capítulo traz algumas respostas às críticas feitas à poesia. Defende-se a idéia de que é erro do poeta a tentativa de imitação do impossível e o erro que provém de uma escolha mal feita não é intrínseco à própria poesia. Contudo, o erro torna-se secundário se a finalidade da arte tiver sido alcançada, a não ser que esse mesmo fim pudesse ter sido alcançado sem o uso de eventos impossíveis. Pode-se justificar o erro, ainda, pelo argumento de que o autor representou as coisas como elas deveriam ser, ou como a platéia acha que é, ou como elas eram em uma outra época. Critica-se também o uso exagerado de palavras estrangeiras. Admite-se, ainda, que possam ocorrer eventos aparente inverossímeis e que esse acontecimento seja verdadeiro.
O vigésimo sétimo capítulo trata da superioridade da tragédia sobre a epopéia. Argumenta-se que a menor extensão da tragédia proporciona maior prazer do que a diluição da epopéia, sem, contudo, deixar de atingir o seu objetivo, que é o de imitar. Além disso, a imitação da epopéia apresentaria menos unidade, pois trata de muitas fábulas simultaneamente.
Por fim, fica entendido que esta obra constitui-se de importante e bastante esclarecedor manual para o entendimento das tragédias, tornando-se base para a compreensão desse tipo de obra e, inclusive, para o estudo da arte dramática e da História da Arte como um todo.
É preciso observar, ainda, que a poética no sentido aristotélico, segundo Massaud Moisés, advem de talento poético, arte da versificação, designando, assim, o seu tratado e teoria da arte de criar poesia. E para Daniel Delas e Jacques Filliolet é consagrada à essência e à origem da poesia.
Para Assis Brasil, a poética é entendida hoje como a ciência da literatura, o que levou Jean Cohen a dizer que é a ciência cujo objeto é a poesia.

Afinal, para Aristóteles qual o significado para a poesia?

Para Aristóteles a poesia é imitação, um ato congênito ao homem, ao lado do ritmo e da harmonia.
Por isso, no sentido aristotélico, a poesia, segundo Jean Cohen, designava um gênero literário, por transferência da causa para o efeito, do objeto para o sujeito, designando a impressão estética particular normalmente produzida pelo poema. Tal condução levou-se a entender que a poesia, com base em Ariano Suassuna, está entre as artes auditivas, e possui três espécies principais: a lírica, a épica e a filosófica. 

FONTES BIBLIOGRÁFICAS

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DELAS, Daniel; FILLIOLET, Jacques. Linguistica e poética. São Paulo: Cultrix, 1975.
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TELES, Antônio Xavier. Introdução ao Estudo de Filosofia. São Paulo: Àtica, 1976.


Fonte: http://www.sobresites.com/poesia/resenha/aristoteles.html
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