Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

Oficina de escrita literária Inspiraturas, em Pelotas

Oficina de escrita literária Inspiraturas - o fim da página em branco - A ti, que ainda acreditas na escrita, em especial a Poesia, como ...

6 de mai de 2011

2ª rodada - "Poesia Imagética"

A Poesia Imagética

Lembro de um amigo que em suas primeiras e perigosas experiências com bebida alcoólica acabou ficando embriagado. A sua mãe o colocou para tomar banho, deixando-o com roupa debaixo do chuveiro. O que ninguém esperava era que ele, depois de um tempo sozinho, saísse correndo nu do banheiro, dizendo que existia um jacaré por trás do vaso sanitário. Até hoje colegas que presenciaram a cena não sabem dizer de que aborígine indução surgiu o drama ufanista do amigo. Mas não é dessa imagem supostamente etílica que venho falar. Mas sim, da possibilidade visual que a poesia consegue proporcionar quando as palavras criam atalhos proporcionando visões.

O poeta paraibano, Geraldo Alves, expõe no livro Entranhas da terra, no início do poema "A umburana da serra" uma estrofe que nos cabe como aceno imagético, quando diz: "Essa antiga umburana/ Já velha, encaracolada, / Só parece uma cigana, / Pelo sol esturricada; / Filha do ventre da terra,/ Velha habitante da serra,/ Já pelos anos ferida;/ Encurvada num lajedo/ Como quem já sente medo/ Dos últimos golpes da vida (...) Na perspectiva poética essas palavras parecem-me se fixarem na retina antecedendo a eclosão da imagem. Lógico que para visualizar melhor, através desse poema, o leitor deve conhecer a atmosfera significativa dos elementos semânticos: umburana, cigana, esturricada, lajedo... já que trata-se de um poema em que a estética e o conteúdo compreende o cancioneiro popular.

A captação da imagem poética não é exclusividade do olho durante a leitura. Podem-se visualizar imagens através das palavras escutas. Neste caso a audição é o auxiliar de armazenamento para a projeção. Mas tudo parte da palavra criando a formação metafórica. O poeta João Batista, no seu poema "Sonho de sabiá" que conta a vida de uma ave engaiolada, traz uma estrofe que, além de atribuir sentimentos humanos a um pássaro prisioneiro, forja as imagens da prosopopéia com as visões em sonho do personagem: (...) Sonhou catando sementes / Num campo vasto e risonho / Se sentia tão contente / Que sonhou que fosse um sonho / Olhava pra vastidão / Tocava em seu coração / Um regozijo profundo, / Todas delícias sentia / As vezes lhe parecia / Vivendo fora do mundo (...)

O poeta e ensaísta Ezra Pound insistia na afirmação de que a poesia está mais próxima da visualidade e da música do que da linguagem verbal. Com essa afirmação, dando ao poeta um ar de designer das palavras, eu compreendo a parceria do jacaré no banho do meu amigo, nos fulgores da juventude. Ele, naquela época, tinha me mostrado o trabalho que tinha feito sobre Amazônia e meio ambiente. Ele é atualmente um reconhecido poeta e já sentia naquele tempo o espanto em suas visões. Já que a intuição é algo que surpreende o seu estado inicial. A retina capta a imagem surgindo do externo e a imagem metafórica aparece no universo das ideias. Ou seja, de dentro para fora feito quem corre do banheiro assombrado com o que viu.
flaviopetronio@bol.com
POETA, JORNALISTA

A poesia imagética é um todo organizado, um cimentado de tijolos vocabulares, de requintada elaboração semântica. Surge poesia imagética quando a escultura de palavras transcende a literalidade para envolver o leitor nos detalhes arquitetônicos de sentidos e significados. Logo, a poesia imagética não é surrealista, pois se utiliza dos recursos linguísticos para traduzir um significado; e também não se trata de fluxo de consciência, já que está delimitada em um eixo espaço-temporal no qual as escolhas semânticas guardam o sentido.
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Pedidos perdidos de um recomeço

Tudo o que eu te peço é um recomeço sôfrego
lângido e célere, na avidez do malsofrido

Tudo o que eu te peço, eu já nem mesmo meço 
e, nessa desmedida, despedaço- me

Tudo assim em mim já tão disperso
ao passo de um clamor soado como alarido

Refratada em pungentes estilhaços 
Reencontro-me porém em cada esgarçado espaço,
donde me despeço,
donde esmaeço..., donde não te esqueço

O que eu te peço mesmo?
Quem saberia?
... talvez a permissão para alçar vôo
ou a exata dose de volúpia para atiçar insurreições, ressurreições, reviravoltas

Se mereço ou desmereço,
quem confessaria?
Simplesmente careço,
e pago o preço.

Luciana Del Nero
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Converse em versos com o poema “Pedidos perdidos de um recomeço”, de Luciana Del Nero e use recursos imagéticos.
Boas inspirações!

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