Oficina de escrita literária Inspiraturas, em Pelotas

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22 de mai de 2011

Acerca do eu-poético, por Wasil Sacharuk e Dhenova

Eu gostaria de discutir a questão:

Quando o leitor confunde o autor com o eu-lírico, significa que:
a)O autor foi incompetente?
b)O leitor foi incompetente?
c)O poema cumpriu o seu papel?
d)Os leitores precisam de mais educação literária?
e)Tudo o que o escritor apresenta tem fundamento catártico?
f)Tenho outras considerações... Quais?

Autores incompetentes existem. São os que não "escrevem", não criam. Leitores incompetentes, também, existem... os desleixados com a leitura, leem com superficialidade. 

Um poema pode não cumprir o seu papel por culpa do autor ou do leitor, ainda de ambos. 

É necessária a educação incentivadora de leitores e, portanto, autores. Ler e escrever são hábitos que devem ser difundidos, ensinados, incentivados... Saber ler vai além de decodificar letras, sílabas, palavras. Ler é compreender, não só o que está escrito.

Há, de certa forma, o fundamento catártico em tudo que alguém escreve. Porém, isso não quer dizer que alguma personagem do texto seja a pessoa do autor. Porém, cada um escreve o que escreve baseado em sua experiência de vida ( experiência vivida na carne ou aprendizado cultural ).


Encontramos muitos leitores que entende o poema como uma declaração do poeta. Imaginam todo o poema como confissão. Isso é, realmente, falta de informação sobre literatura. Os pragmáticos têm dificuldades em conferir à poesia alguma validade. Mas, para que serve a poesia? Alguém sabe?

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Juleni Andrade disse:


"Mas para que serve a poesia?" 

Juleni Andrade

A poesia é vida
bálsamo que cura
a ferida

A poesia é fato
traz no disfarce
a arte do ato

A poesia é nostalgia
encontra na solidão
um outro dia

A poesia é tudo
é nada
se faz bizarra
irada
sensível
ou parca

A poesia é melancolia
é abstrata
indecente
pudica ou imoral
mas ainda assim
é poesia...
sentida muitas vezes
por seres (a)normais.

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Dhenova disse:

Ah, este tal de eu-lírico... vou contar aqui duas situações que me deixaram decepcionada com a 'leitura' de algumas pessoas. Acho que deve sim ser descontada a ignorância, a falta de interpretação de mundo, mas eu fiquei muito chateada com a parca noção e também com a maldade de alguns.

Escrevi um poema chamado 'Jogo de Xadrez', eu-lírico feminino, situação clássica de um quarteto amoroso... a esposa de um fala para o amante, marido de outra... nada a ver comigo, nem mesmo com alguma situação que tenha presenciado... bom, uma 'tia' não veio me perguntar se estava tudo bem entre eu e Sacha... pode? Contei até dez, lembrei do respeito que devemos ter com os mais velhos, mas minha decepção foi grande, porque esta pessoa é leitora, e também aprecia poesia. Bom, depois de passado o estresse, virou brincadeira entre eu e Sacha, quando falamos em 'jogo de xadrez' vem junto a descrição do Sacha 'aquele em que eu sou corno' ahahah... fala sério!

Tá aí a obra:

Jogo de Xadrez

A tua torre
atacou a minha fortaleza
enfraqueceu as defesas

Os peões perderam-se 
nos valos
fugiram pela mata
buscaram refúgio

O cavalo deu o pinote
quis o galope
a ventania

Meu rei fazia tempo
abandonara o posto
perdido em pensamentos

E tua rainha
ficou lá sentada
nada fez pra te deter

Se fosse eu
te matava (como fiz)
de beijos 
até o amanhecer.

Dhenova
agosto/2009
 
A segunda situação foi um comentário de uma poetisa que eu respeitava muito... o poema é 'Menino Inocente', um flash do cotidiano, uma daquelas imagens que eu tanto gosto de descrever... a ver comigo? absolutamente nada. Não é que a poetisa me mandou um depoimento dizendo que gostaria de conhecer o tal menino... pode?

Menino Inocente

Entro na sala apinhada
o cheiro é de suor e alvejante
o salto bate suave no piso frio
vou me aproximando
lentamente
encontro os olhos
de um menino inocente
um sorriso surge no íntimo
ao ver-lhe o espanto
a saia que sobe
quando me sento
as coxas se mostram
as meias coladas
o triângulo escuro
e o menino ali
tão perdido
tão seguro
ele sorri

Chamam meu nome
levanto
sem olhar para o menino
me afasto
as mãos nos cabelos
o olhar afetado
sem sorriso
sem doçura
só vaidade e formosura.

Dhenova
11/10/2009

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