Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

15 de mai de 2011

Elementos de Poesia II


Quem não conhece um poema? Ou, quem já não tentou rimar algumas palavras e apresentá-las como poesia? Ou ainda, quantos, não encontrando a rima em determinada poesia, a classificam de menos importante, quando não dizem que isso não é poesia? 
O Caboverdeano é tão afeito à poesia que é difícil encontrar alguém que já não tenha tentado rabiscar algumas linhas e dedicá-las à amada, ou que já não tenha escrito algumas "quadras soltas", ou que já não tenha tentado musicar alguns versos e sentir o inusitado prazer de ter "feito uma morna". 
Ora, não é nossa intenção ditar regras que devem ser observadas ao se escrever uma boa poesia, tendo em consideração que ela é uma produção fundamentalmente artística e subjectiva. É sim nossa intenção mostrar alguns elementos usados na confecção de uma poesia e assim tentar enriquecer a criação poética daqueles que se interessam por essa nobre arte, ou ainda, tentar acender aquela luzinha ou despertar aquele interesse mais encoberto. 

A Composição Poética

A composição poética é de natureza essencialmente solitária onde o poeta tenta exteriorizar os seus sentimentos mais íntimos eternizando em preto e branco os seus pensamentos sobre diversos sectores da vida quotidiana. 
Na poesia as palavras são cuidadosamente estudadas, escolhidas e arrumadas de uma certa forma, de maneira a soarem bem ao ouvido humano, de maneira a carregarem no seu bojo uma certa mensagem, de maneira a despertarem no leitor espectativas contidas e libertarem vontades veladas e desejos contidos que, por vias normais, não tiveram oportunidade de serem veiculadas. 
Em suma, na composição poética o leitor tenta se identificar com a linha de pensamento do poeta, fazendo seus esses mesmos pensamentos. 
O poeta usa palavras para criar imagens ou cenas na mente do leitor. Os adjectivos, advérbios, verbos e substantivos são escolhidos a dedo para tentar transmitir, com maior fidelidade possível, as idéias do autor ou as imágens que "pululam" na sua mente. 
Escrever poesias pode ser uma actividade totalmente natural para certas pessoas, enquanto que para outras a vontade poética é maior do que a potencialidade literária.
Para estas pessoas, alguns conselhos, (se é que se pode dar conselhos para uma actividade tão pessoal quanto esta), não devem ser desprezados. 
Assim, em um ambiente considerado perfeito, o corpo numa posição mais relaxada e confortável, um ambiente mais favorável à extrapolação mental, a quietude, o isolamento, a paixão, o inconformismo, etc, são formas que devem ser levadas em consideração para se favorecer a produção poética. 
A leitura de outros autores é outra actividade que deve ser estimulada, especialmente quando a gente se identifica com o estilo e conteúdo literário profeciado por esse autor.
No entanto não é recomendável pôr-se de lado poetas do passado, uma vêz que estes são uma referência valiosa e têm muito que oferecer. 
Entretanto, fazer poesia não é uma actividade que se pode abraçar e desenvolver com certa facilidade, como acontece com certos outros ramos do conhecimento humano.
Ser poeta requer uma tendência artística, uma certa inclinação literária e certas destrezas e habilidades que conjuntamente facilitam a exteriorização do nosso pensamento. 
Assim, um poeta deve ter a habilidade e percepção suficientes para analizar e descrever as qualidades e particularidades de uma pessoa, as nuances que envolvem um certo lugar, conhecer e empregar metáforas, usar palavras que ajudem o leitor a visualizar o evento na mente, fazer comparações ou ainda descrever coisas e eventos de forma metafórica. 

Elementos de uma poesia

Assim como toda a obra literária, a poesia tem os seus componentes e os seus quês que devem ser observados e levados em conta quando se quer abraçar este ramo de actividade. 

Estrofe
Parte de um poema consistindo de uma série de linhas ou versos dispostos em uma certa configuração regular, formados e definidos por metrificação e rima que se repetem periódicamente. Uma estrofe tem, geralmente, um "pattern" regular de número de linhas, metrificação e rima, constituindo-se em uma secção da poesia. No entanto, uma estrofe irregular não é incomum. 
Na corrente modernista encontramos estrofes livres, onde a preocupação maior é com o conteúdo, dando-se menor importância à metrificação, à rima ou a qualquer outra configuração regular. 

Alliteration
Alinhamento de palavras em "patterns" de sons, ou repetição de sons provenientes da consoante inicial de palavras ou de sílabas. 
Um sexto sentido semeou em mim ...

Ritmo
Considerado por muitos como sendo a mística da palavra, o ritmo é uma alternação uniforme de sílabas tónicas e não tónicas em cada verso de uma composição poética.
O ritmo de um poema ainda tem muito a ver com a metrificação do poema e a correspondência sonora provocada pela rima. Todo esse conjunto de elementos determina o ritmo do poema. 
No verso livre a sonoridade rítmica obedece a um padrão próprio, não sendo governado por regras externas derivadas da alternação uniforme de sílabas tónicas ou de metrificação e rima. 

Rimas
Sendo uma importante componente da poesia tradicional e ocorrendo especialmente no final das linhas, a rima é um pedaço de um verso ou de um poema aonde existe uma ocorrência regular de sons correspondentes, ou seja, quando as palavras terminam com a mesma sílaba, ou a mesma sonoridade silábica. 

"Ó mar eterno sem fundo, sem fim,
Ó mar de túrbidas vagas, ó mar!
De ti e das bocas do mundo, a mim,
Só me vem dores e pragas, ó mar!
..." 
CANÇÃO AO MAR - morna - Eugénio Tavares

No entanto não devemos esquecer que a rima praticada por um poetastro pode-se tornar cansativa e sem expressão, enquanto que nas mãos de um mestre pode-se constituir naquele toque de embelezamento tão necessário à poesia. 
Nunca é demais descrever alguns elementos ligados, de uma forma ou de outra, à rima: 
Consonância - Uma palavra que se aproxima da outra no seu som final, não necessáriamente usando as mesmas letras.
Rima cruzada - É a rima praticada em versos alternados, isto é, o primeiro verso rima com o terceiro e o segundo rima com o quarto (abab).
"...
Uma luz penetrou
Na flecha da esperança,
Uma vida se elevou
Na força da minha crença.
..." 
ELA - Cajuca Pereira
in "Extractos da Poesia Caboverdeana"

Rima completa - Na rima completa há uma correspondência exacta entre sons idênticos nos versos de um poema.
Rima parcial - Composta de sílabas relacionadas mas não totalmente idénticas, provocando um efeito dissonante no ritmo do poema.
Rima real - Um "pattern" de rimas que se estende por uma estrofe de sete linhas.
"Poetastro" - Versificador de menor qualidade, com alguma similaridade poética, ou um feitor de versos e rimas triviais e vulgares.

Imagens sensoriais
Têm por finalidade enaltecer o visual, o som e o "feel" da poesia. Os poetas procuram descrever imagens vivas através de imagens sensoriais, ou seja, procuram prover a descrição dessas imagens com elementos característicos provenientes dos sentidos da visão, audição, tacto, gosto e cheiro. Nessa descrição há uma preocupação em se activar os cinco sentidos do leitor. 

A metáfora
O linguajar humano é essencialmente metafórico. Não existe um número finito de metáforas, uma vêz que as usamos diáriamente e constantemente estamos criando novas metáforas. 
Na metáfora procura-se descrever uma pessoa, um lugar ou uma coisa, comparando, ou enunciando as qualidades e particularidades dessa pessoa, lugar ou coisa de uma forma não directamente voltada ao específico mas sim ao geral e comparativo. 
Uma boa metáfora deve ter a habilidade de permitir ao leitor recriar, com uma certa facilidade, a matéria descrita na sua mente, com elementos familiares a esse leitor. 
Outrossim, a metáfora deve providenciar elementos que tenham a particularidade de chamar a atenção das pessoas, e ao mesmo tempo, possam fornecer uma visão nova no que diz respeito ao entendimento e compreensão da matéria em questão. 
As metáforas precisam no entanto ser espontâneas. Não se deve cair no erro de adicionar metáforas às poesias sómente com o intuito de mostrar que a gente sabe usar metáforas. Fazendo isso também se cai no erro de tirar toda a espontaneidade da linguagem simples, pura e directa, em troca pela sofisticação. 
" .....
Na encruzilhada dos mares 
Nossas vidas na balança 
Num baloiçar constante
Sem saber aonde cair,
Germinar e florir!
....." 
EMIGRAÇÃO - Vuca Pinheiro
in "Extractos da Poesia Caboverdeana"

"A primavera da vida", "A luz da inteligência" e "O gemer da aragem" são exemplos de metáforas muito usadas na composição poética.

A simile
Por vezes considerada como uma variação da metáfora, a "simile" é uma comparação entre duas coisas totalmente diferentes, onde as palavras "como" (sentido comparativo) ou "qual" ou "mais que" ou "menos que" são usadas para estabelecer a ligação entre dois elementos de uma comparação. 
"...
Hoje, como quem semeia em deserto,
vivo de perguntar
de qual mais vivo:
se da memória das rosas que plantamos,
se da sede das que não chegamos de semear..." 

TÃO FRESCA AINDA - Teobaldo Virgínio
in "Do Mar ao Chão dos Teus Pés"

As "similes" são usadas especialmente com a intenção de clarificar idéias. Assim, "Maria come como um passarinho", ou "Ele está mais perdido que cego em tirotéio", nos dá a noção exata da quantidade de comida que a Maria come e também do sentido de desnorteamento e desorientação do sujeito descrito na segunda frase. 

A parábola
Considerada como uma versão estendida da "simile" e da "metáfora", a parábola, muito usada em textos antigos como a Bíblia, serviu muitas vezes como instrumento lectivo e de aprendizagem para um público menos literato mas muito receptivo em termos de idéias e conceitos. 
Na parábola o objecto da comparação, ou seja, o algo que é comparado à idéia original é desenvolvido e elaborado com a esperança de que o público ouvinte possa entender a idéia e possa aplicar o aprendido à idéia original. 

A fraseologia
A forma como a idéia é apresentada também pesa no contexto geral da poesia. Portanto, "Assim como um cego em tiroteio, ele encontra-se perdido" não é tão eficáz quanto "Ele está mais perdido que cego em tirotéio". "A chuva abundante molhou a nua  calçada" é mais eficáz que "A chuva, que era abundante, acabou por molhar toda a  calçada", assim como "A luz amena e empaledecida da lua distante" soa melhor que "O brilho da lua no horizonte era brando e sem foco". 
Ao se descrever a aparência, o emprego do adjectivo é de suma importância.
O homem olhou para o seu relógio.
O velho homem olhou para o seu relógio de ouro.
O excêntrico sexagenário consultou o seu dourado e empoeirado "Cartier".
Como se pode deduzir, o emprego de objectivos ajuda o leitor a clarificar a sua idéia quanto ao objecto da descrição, emprestando-lhe precisão descritiva, situando-o no tempo, ou ainda qualificando-o quanto à sua construção ou procedência. 

Personificação
A personificação é uma descrição de animais, objectos ou idéias como se fossem pessoas humanas. Deste modo, aos animais, objectos ou idéias se emprestam qualidades humanas. 

"Tu que ouves os meus lamentos
sem dizer nada,
Tu que sentes as minhas carícias
sem reclamar,
Tu que compartilhas da minha dor
em silêncio,
Tu que me embalas
em meus sonhos dolentes,
Tu, violão amigo,
companheiro de todas as horas,
............"
COMPANHEIRO DE TODAS AS HORAS - Vuca Pinheiro
in "Extractos da Poesia Caboverdeana"

Estilo
Até final da década de 60, reconhecia-se, nos meios literários, 3 formas representativas do estilo literário chamado poesia: formal, informal e coloquial. 

Formal
Esta forma poética é caracterizada por frases longas e complicadas, salpicadas por sofisticados vocabulários, onde as contrações, abreviações ou quaisquer outras formas menos "dignas" ou menos conservadoras de representar a linguagem eram totalmente repudiadas. A regra gramatical era respeitada e cultivada, para não dizer venerada. 

Informal
De natureza menos rígida que a poesia formal, onde a inclusão de certas "imperfeições" linguísticas são aceitas. 

Coloquial
Caracterizada por frases simples, onde o vocabulário e a construção das frases seguem uma estrutura menos rígida, aceitando vocábulos de natureza menos sofisticadas e até calões ou gírias. 

Formato
É a maneira ou forma como a poesia se apresenta na página, ou o visual e aspecto gráficos da poesia. Muitas vezes o formato da poesia já nos transmite uma certa idéia concebida pelo autor sobre o conteúdo da obra. 

O verso livre
Tendo nascido como uma reação ao tradicional, o verso livre tem leis próprias onde não existe um ritmo pre-determinado ou pre-definido, onde a metrificação obedece a um padrão mais livre, assim como o "pattern" de som utilizado na poesia. 
O verso livre foi introduzido no século dezanove por poetas que se sentiram consternados e prisioneiros das regras existentes na poesia tradicional, não podendo expressar livremente as suas idéias. Assim, o verso livre adquiriu um ritmo próprio e uma correspondência sonora toda especial, procurando básicamente refletir a sensibilidade do poeta e permitindo uma série de efeitos especiais não anteriormente experimentados pela poesia tradicional. 
Actualmente o verso livre é largamente usado por poetas de orígem e influência tradicionais, assim como uma larga gama de poetas considerados modernos. 
Uma das vantagens do verso livre é a utilização de uma variedade grande de efeitos, ritmos e "petterns" de sons. Ao se escrever um verso livre, o poeta se preocupa básicamente com o conteúdo, a organização das palavras e que sons utilizar. 

O soneto
Estilo poético cultivado especialmente na literatura mais antiga, o soneto (que ainda hoje é utilizado) é caracterizado por um conjunto de quatro estrofes perfeitamente metrificadas, sendo as duas primeiras formadas por quatro versos e as duas últimas por três versos. 
A metrificação é caracterizada por dez sílabas em cada verso e a rima (nas primeiras duas estrofes) é feita entre a primeira e a quarta linha da estrofe, e a segunda e a terceira linha da mesma estrofe (abba). As duas últimas estrofes mostram a rima estre a primeira e a segunda linha de cada estrofe e entre as terceiras linhas das duas últimas estrofes (aab aab). 

Soneto Inglês ou Shakespeariano
Versando básicamente sobre o intelecto, o soneto Inglês consiste de três quadras com rima do tipo "abba abba abba", seguida por dois últimos versos que também rimam entre si (aa). Nas três primeiras quadras apresenta-se um longo depoimento, enquanto que nos dois últimos versos uma breve conclusão é apresentada. 

Soneto Italiano
Carregado de emoções e celebrando o amor, o soneto Italiano também é formado por quatorze linhas divididas em duas quadras e dois tercetos. Nas duas primeiras quadras um problema é apresentado enquanto que nos dois últimos tercetos a solução é dada. 
A rima, para a primeira parte do soneto, é do tipo "abba abba", ou seja, verso 1 rima com verso 4, verso 2 com verso 3, 5 com 8 e 6 com 7. Na parte final aparecem mais duas ou três rimas empregadas de uma forma mais livre. 

Soneto lusófono
O soneto subscrito por escritores da língua lusa segue os mesmos preceitos do soneto Italiano, no formato e no conteúdo.

By Vuca Pinheiro

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