Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

22 de mai de 2011

SEMINÁRIO: EDGAR ALLAN POE E “O BARRIL DE AMONTILLADO”

EDGAR ALLAN POE E “O BARRIL DE AMONTILLADO”

Wasil Sacharuk


Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe nasceu em Boston, no dia 19 de Janeiro de 1809. Seu avô David Poe participou da Guerra da Independência,e seu pai (também chamado David Poe) apaixonou-se pela atriz inglesa Elisabeth Arnold, casando-se com ela.Edgar Allan Poe teve dois irmãos e seus pais faleceram pouco tempo depois do nascimento de Rosalie, a filha mais nova do casal Poe. Porém, eles não ficaram desamparados e foram adotados pelo rico casal John Allan e Frances Keeling Allan.
Poe estudou em Londres na Stoke-Newington; algum tempo depois continuou seus estudos de volta a Richmond, na Universidade Charlotteville. Allan Poe, apesar de muito inteligente era também muito genioso, e isto lhe valeu a expulsão desta universidade.
Edgar Allan Poe era um jovem aventureiro, romântico, orgulhoso e idealista. Continuou seus estudos em Virgínia, mas também foi expulso por não se enquadrar nos padrões comportamentais daquela época. Na verdade, Allan Poe era um boêmio que vivia no luxo, se entregando à bebida, ao jogo e às mulheres. Mais tarde, foi para a Grécia e ingressou no exército lutando contra os turcos. Porém, suas ambições militares não vingaram, e perdeu-se nos Balcans chegando até a Rússia, sendo repatriado pelo cônsul americano. De volta a América, descobre que sua mãe adotiva havia falecido.
Logo após, alista-se num Batalhão de artilharia e matricula-se na Academia Militar de West Point. Mas com o lançamento de uma compilação de poesias em 1831, desligase da Academia e corta relações com seu pai adotivo, devido ao casamento com outra mulher, o que teria deixado Poe muito contrariado.
Aos 22 anos, vivendo na miséria, publica Poemas. Já em Baltimore procura pelo irmão Willian e assiste a morte dele. Allan Poe passa a viver com uma tia muito pobre e viúva com duas filhas. Durante dois anos vive em miséria profunda. Mas vence dois concursos de poesias e o editor Thomaz White entrega-lhe a direção do "Southern Literary Messenger".
Em 1833 lança Uma aventura sem paralelo de um certo Hans Pfaal. Dirige a revista por dois anos. Allan Poe gozava de uma certa reputação com leitores assíduos. Depois de sua vida estabilizada, aos 27 anos casa-se com sua prima de 13 anos, Virgínia Clemn.
No ano de 1838 trabalha na Button’s Gentleman Magazine na companhia de sua esposa. O casal vivera na Filadélfia, Nova York e Fordham. Em 1847, sofre com a morte de sua esposa depois de um acidente de carro.
Em 1849, Allan Poe lança O Corvo. Eureka e Romance Cosmogônico lhe atribuem a fama necessária para provocar a censura da imprensa e da sociedade. Desiludido, volta para Richmore e depois vai para Nova York e entrega-se à bebida. Antes de seguir para a Filadélfia, resolve encontrar-se com velhos amigos. Na manhã seguinte, Poe é encontrado por um amigo em estado de profundo desespero, largado numa taberna sórdida, de onde o transportaram imediatamente para um hospital. Estava inconsciente e moribundo. Ali permaneceu, delirando e chamando repetidamente por um misterioso "Reynolds", até morrer, na manhã do domingo seguinte, aos 39 anos e deixando uma vasta obra em sua vida de sacrifícios e desordem. Era 7 de outubro de 1849, e os Estados Unidos perdiam um de seus maiores escritores. Até hoje não se sabe ao certo o que tenha acontecido naquela noite. Teria o autor, sido vítima da loucura que em tantos contos narrou? Muitos afirmam que tenha sido vítima de uma quadrilha que o envenenou, mas o mais certo é que tenha tido uma overdose de ópio.
Poe escreveu novelas, contos e poemas, exercendo larga influência em autores fundamentais como Baudelaire, Maupassant e Dostoievski. Mas admite-se que seu maior talento era em escrever contos. Escreveu contos de horror ou "gótico" e contos analíticos,  policiais. Os contos de horror apresentam invariavelmente personagens doentias, obsessivas, fascinadas pela morte, vocacionadas para o crime, dominadas por maldições hereditárias, seres que oscilam entre a lucidez e a loucura, vivendo numa espécie de transe, como espectros assustadores de um terrível pesadelo. Entre os contos, destacam-se: O gato preto, Ligéia, O coração delator, A queda da casa de Usher, O poço e o pêndulo, Berenice e O barril de Amontillado. Os contos analíticos, de raciocínio ou policiais, entre os quais figuram os antológicos Assassinato de Maria Roget, Os crimes da Rua Morgue e A carta roubada, ao contrário dos contos de horror, primam pela lógica rigorosa e pela dedução intelectual que permitem o desvendamento de crimes misteriosos.
Em seus contos, Poe se concentrava no terror psicológico, vindo do interior de seus personagens ao contrário dos demais autores que se concentravam no terror externo, no terror visual se valendo apenas de aspectos ambientais.
Geralmente, os personagens sofriam de um terror avassalador, fruto de suas próprias fobias e pesadelos, que quase sempre eram um retrato do próprio autor, que sempre teve sua vida regida por um cruel e terrível destino. Nenhum de seus contos é narrado em terceira pessoa, desse modo, vê-se como realmente é sempre "ele" que vê, que sente, que ouve e que vive o mais profundo e escandente terror. São relatos em que o delírio do personagem se mistura de tal maneira à realidade que não se consegue mais diferenciar se o perigo é concreto ou se trata apenas de ilusões produzidas por uma mente atormentada.
Em quase todos os contos, sempre há um mergulho, em certas profundezas da alma humana, em certos estados mórbidos da mente, em recônditos desvãos do subconsciente. Por esses aspectos a psicanálise lança-se ao estudo da obra de Poe, já que a mesma possui uma grande leva de exemplos que ilustram suas demonstrações. Independentemente desse aspecto, sua obra é lembrada pelo talento narrativo impressionante e impressivo, pela força criadora monumental e pela realização artística invejável, fazendo com que Edgar Allan Poe seja considerado um dos maiores autores de contos de terror.

ANÁLISE

O relato de “O Barril de Amontillado” pode se qualificar como um dos relatos mais macabros do genial escritor Edgar Allan Poe. Um relato no qual o tema da vingança leva uma personagem a cometer um atroz assassinato à pessoa de Fortunato. A vingança é a expressão de um implacável castigo de Montresor contra Fortunato.
A personagem principal e redonda, da qual sabemos apenas que havia sido ofendida por Fortunato, não esclarece totalmente os motivos que o levam a cometer tal ato de vingança. Simplesmente se limita a dizer que havia sido insultada. Será que tal insulto justificaria o crime?
O relato, narrado pelo próprio Montresor, autodiegético, arranca com a apresentação dos motivos que o levaram a tal extremo. Allan Poe apresenta a narrativa como uma espécie de confissão por parte de Montresor, a personagem principal. No decorrer da narrativa, Montresor dá a impressão ao leitor de estar confessando o crime cometido, possivelmente a algum representante da lei ou a um clérigo. Podemos ainda supor a hipótese de Montresor estar narrando em seu próprio leito de morte. É bastante significativo o momento que o próprio Montresor se dirige a várias pessoas quando afirma que elas conhecem a natureza de sua pessoa. Disto podemos inferir que o narrador não se encontra só, já que se dirige a um grupo de ouvintes que poderiam ser, até mesmo, seus familiares ou amigos. Isso decerto descarta nossa primeira suposição da confissão diante de um clérigo ou representante da lei, ainda que, por outro lado, resulta intrigante que o relato finalize com as palavras em latim: in pace requiescat!. Note que não fica totalmente claro quem é o autor da pronúncia. Num primeiro momento, chegaríamos a conclusão de que seja o próprio Montresor aludindo à morte de Fortunato. Por outro lado, a expressão poderia haver sido pronunciada por um clérigo ou representante da lei. Não resta dúvida de que a personagem Montresor está se confessando. No entanto, não fica expresso quem é seu narratário. Allan Poe magistralmente coloca dúvida no leitor acerca da autoria daquelas palavras.
No relato percebemos Montresor como uma personagem fria e calculista, que consegue com facilidade esconder as emoções advindas de seu desejo de vingança contra Fortunato. Montresor é senhor de sua perfeição e seus defeitos, e, aguardando sua oportunidade, elege o momento adequado para sua vingança: o carnaval.
Possivelmente Allan Poe tenha baseado seu relato nos carnavais de Veneza, visto que ambas as personagens são italianos amantes dos vinhos.
Analisando a descrição que Montresor faz de Fortunato, percebemos que este é uma presa fácil. O fato deste estar bêbado e vestido de bufão agrava a comicidade quase ridícula desta personagem. Pode-se imaginá-lo como um homem débil do qual Montresor se aproveitará com frieza e certa facilidade. Montresor sabe que Fortunato não resistiria a um Amontillado, e para atrair sua presa mais facilmente, provoca-o falando de um possível competidor seu: Luchesi. Montresor desperta a rivalidade de sua vítima em relação a Luchesi, de forma que Fortunato não hesita em momento algum da empreitada em direção as adegas de Montresor, a despeito da tosse que o acometeu. A tosse de Fortunato é significativa, pois Montresor o adverte das condições úmidas que se encontram nas adegas e que prejudicaram o estado físico do primeiro. Note que a advertência é falsa, visto que a Montresor, a debilidade do estado de saúde de Fortunato pode colaborar com seu projeto.
É muito importante destacar os elementos em torno do assassinato. Em primeiro lugar os criados não estavam em casa. O próprio Montresor cuidara de que não houvessem testemunhas de seu crime. A descrição das adegas da família é sem dúvida o fiel reflexo de um lugar sinistro, úmido, escuro, sinuoso, cheio de aranhas e ossos, elementos estes, comuns aos contos góticos do século XVIII. Este cenário representa o lugar ideal para o crime de Montresor. Quando Fortunato experimenta os primeiros sintomas da umidade, o assassino volta a interpretar seu papel de pessoa preocupada com a saúdo do amigo, o que, por sua vez, apenas estimula o ego de Fortunato.
Outro elemento chave no projeto de vingança é a garrafa de Medoc, que segundo Montresor servirá como um bálsamo contra os efeitos da umidade. Este insiste para que Fortunato beba para acalmar a tosse. A mensagem é clara. Montresor busca embriagar Fortunato para facilitar seu empreendimento. Nesse momento o relato revela uma quebra daquilo que inferíamos acerca de Montresor. Talvez por medo do fracasso quer assegurar que Fortunato esteja completamente embriagado. Fortunato fica tão embriagado que não percebe a mensagem do brasão dos Montresor: “Memo me impune lacessit!”. Assim, Montresor se deixa levar pela máxima de sua família: a vingança.
Chegamos ao momento em que as personagens entram em uma cripta descrita por Allan Poe com elementos góticos, donde está tudo preparado para a vingança. A descrição do lugar está de acordo com a dimensão do crime. Na cripta se encontra o suposto barril de Amontillado. Fortunato entra sem vacilar, ao passo em que, Montresor, ironicamente, pergunta-lhe se quer voltar antes de lhe acorrentar em argolas de ferro.
Montresor se esforça para levantar a parede que isolará sua vítima da vida. Na medida em que Montresor avança na empreitada, a embriaguez de Fortunato vai passando. Nada mais macabro do que ser enterrado vivo.
Montresor saboreia a vingança enquanto escuta o sofrimento de sua vítima. Fortunato, agora livre da embriaguez, pede a Montresor que o libere. Nesse ponto da narrativa encontramos a dificuldade de distinguir se a expressão “pelo amor de Deus” é pronunciada por Fortunato ou pelo narratário. Ambas as situações seriam aplicáveis. Essa situação torna a repetir no final com a expressão latina In pace requiescat. Essa expressão poderia ter sido pronunciada pelo próprio Montresor ou pelo narratário, possivelmente como uma personagem-tipo.


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