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22 de mai de 2011

Sobre o eu-poético, por Wasil Sacharuk

Discussão acerca do EU-LÍRICO

"Eu-Lírico" ou "Eu-Poético"

A terminologia "eu-lírico" foi inspirada no instrumento musical grego chamado lira. E lírica era a canção entoada ao som da lira. A união entre a música e o texto resistiu até o século XV. Logo após, houve um afastamento gradativo da poesia em relação à música, quando a primeira passou a ser declamada e lida sem acompanhamento musical.

O eu-lírico é a voz do poema. Do poema, não do autor. Logo, o poeta é fingidor. Ou pode não ser, se assim o quiser.

Atenção às três reflexões de Tânia Orsi Vargas:

EU LÍRICO: TRÊS REFLEXÕES

FUNDO FALSO

O poeta falou de amor e ela
se leu nas entrelinhas;
Entretanto, ele apenas era um homem
que falava literaturas às mulheres,
com sua palavra fácil,
seu talento que não vinha do coração
Mas da vaidade e do desejo.
E as via assim como suas personagens,
aquelas a quem poetava encantamentos
quando eram apenas espelhos a refleti-lo,
ele cuja palavra fácil e memória frágil
imagem de fundo falso
areia movediça por dentro
abocanhava atenções e agrados
ziguezagueava em escorregadias presenças
ao sabor dos ventos das conveniências.
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AO PÉ DA LETRA

Dizia o poeta a sua amiga que os versos dela eram sombrios, que a achava triste e solitária. E ela então lhe escreveu tantas coisas engraçadas, fez troça, deu risada de tal forma que o deixou arrebatado e assim perplexo: como era possível tal paradoxo? Paradoxo nenhum, ela lhe respondeu, você é que me vê ao pé da letra, e eu lá não estou, não mesmo....já devia ter aprendido que escrever é como representar, entrar no corpo de tanta gente, falar suas falas, viver suas experiências, mesmo que misturadas com as nossas. E finalmente, ao conversarem por telefone, ele novamente comenta que assim falando ela não é aquela tresloucada dos recados, parece alguém mais contida, reticente. É o que acontece com os leitores que viram nossos amigos. Não podemos jamais ser confundidos com nossos textos. Nem mesmo com textos de cartas, como estas a que me referi, uma vez que aquele modo de falar fora algo premeditado justamente para surpreender e confundir e em se tratando de correspondência, existe o tempo e a tranquilidade que não acontece na fala direta. Como existe por trás de cartas de poetas mais do que a pessoa, uma espécie de alter ego que não se sofre sem fantasiar um pouco e fazer fluir a sua criatividade. Um verdadeiro escritor tem muitas caras, se veste de muitas vestimentas, e mesmo quando usa alguma roupa sua ela nunca é no poema a sua real essência, pois esta vestimenta está recortada e transposta como passageira clandestina de um trem sem destino, nestes territórios da ficção. E daí em diante cria asas e vida própria e foge ao controle do seu criador.

tania orsi Vargas

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NÃO TENHAM PENA DO ESCRITOR

Muitas pessoas vêem, nos versos de amor especialmente, a própria vida do autor e tentam consolá-lo nos comentários, caso a história seja triste, ou parabenizá-lo, caso a história pareça ter bom termo. Outro dia uma poeta escreveu algo a partir de um fato ocorrido há muito tempo mas substituiu detalhes mantendo somente a idéia básica e além disso, acrescentando coisas para tornar o fato mais atraente e literário. E concluiu com uma frase que seria para mostrar a ingenuidade da mulher em questão, sua personagem que, portanto, não era ela, mas uma hipotética figura, dizendo: "devo ter esperanças?" Alguém logo se solidarizou e lhe disse que sim, que ele ia voltar. 

tania orsi vargas

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Alguns poemas de Wasil Sacharuk tiveram seu conteúdo desvinculado do eu-lírico e remetidos à pessoa do autor.

Em certos casos, percebi uma tendência para a interpretação da minha arte para um foco indesejado. Mas, até aí tudo é compreensível! O problema é quando, no decorrer do meu trânsito, passo a ser julgado pelos atos cometidos por minhas personagens. WS

Veja alguns exemplos:

Infelizmente não sou gay, mas despertei a desconfiança do leitor com esse:

Shangri-La

Numa junção de serpentes
ejaculamos o nosso veneno
na cara de todo o preconceito
do dito caminho direito

Sempre sonhamos toque sereno
tal a mistura de sementes
em Shangri-lá haverá outra gente
com discurso mais ameno

Chegando lá daremos um jeito
seremos o casamento perfeito
lá é benvindo o que é diferente
amor entre homens não é obsceno.

Wasil Sacharuk

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Em "Eu errei..." fui julgado como adúltero e, para piorar, usei um eu-lírico feminino. Um dos comentários que recebi dizia que "o importante é o arrependimento... Deus sempre perdoa". Não recordo mais, mas provavelmente mandei o comentador pastar.

Eu errei...

Ah! Meu amado
em respeito à comunhão
para não ver-te ferido
prefiro manter-te marido

Fugi dos ditames da religião
quando ocultei o meu pecado
um simples deslize alucinado
sucumbi ao convite da paixão

Depois de ter refletido
em busca de algum sentido
fiz-me passiva da submissão
quando conheci meu namorado

Um menino sério e centrado
com grande poder de sedução
um tanto incompreendido
mais um garoto perdido

Ele teve o controle na mão
deixei meu recato de lado
gostei do seu jeito abusado
e fui tomada pela sensação

Ontem ele foi preferido
adorei seu toque atrevido
incendiou-me de tesão
tive meu corpo devorado

Que não fiques zangado
com essa minha confissão
espero que seja absolvido
o meu adultério incontido

O matrimônio é instituição
união em um laço sagrado
e deus deve ter perdoado
agora falta o teu perdão.

Wasil Sacharuk

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