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11 de out de 2011

Subsídios teóricos do conto–enciclopédia

Conto

Breve narrativa de ficção, quase sempre em prosa, muito cultivada pela literatura ocidental. Para antigas civilizações, narrativa fantástica inspirada na mitologia e transmitida oralmente entre as gerações.
Folclore

v. tb. Fabliau; Fada; Maupassant, Guy de

Alguns dos maiores nomes da moderna literatura ocidental se expressaram por meio do conto, gênero literário que se caracteriza por sua agilidade e poder de concentração.

Conto é uma breve narrativa ficcional, geralmente em prosa. Em relação aos gêneros literários mais próximos, a novela e o romance, pode ser abordado do ponto de vista quantitativo ou do estrutural. No primeiro caso, o conto é uma narrativa mais breve que a novela, esta já mais breve que o romance. Há quem fixe seu limite de extensão em cinqüenta páginas. Quanto à estrutura, o conto trata basicamente de um único tema, enquanto os outros gêneros apresentam derivações e tramas paralelas. Seria assim essencialmente sintético, enquanto a novela e o romance seriam analíticos: o primeiro concentra e os outros decompõem as situações ficcionais.

Para as antigas civilizações, o conto era uma narrativa de cunho fabuloso e fantástico, inspirada na mitologia e transmitida oralmente de uma geração a outra. A literatura ocidental, em diferentes momentos, reelaborou e recriou contos, mitos e lendas orientais, que chegaram à Europa medieval por assimilação ao patrimônio cultural greco-romano ou transmitidos diretamente pela civilização árabe da Espanha, como é o caso de As mil e uma noites.
O conto moderno ensaiou suas primeiras formas com a obra de Boccaccio, que em meados do século XVI lançou os fundamentos do humanismo renascentista e elevou a literatura italiana ao nível dos clássicos da antiguidade. As narrativas reunidas no Decameron demonstram ampla liberdade de expressão literária e as raízes plebéias que caracterizariam a literatura burguesa. São contos humorísticos, obscenos e burlescos, nos quais Boccaccio ironiza a corrupção do clero e dos homens em geral, equilibrando a linguagem popular e a fala culta das classes altas.

Boccaccio influenciou grande número de narradores, como o inglês Geoffrey Chaucer, autor de Canterbury Tales (Contos de Canterbury). Nesse livro de contos em versos, Chaucer criou um hábil processo de caracterização dos personagens, de diferentes origens sociais, por meio de histórias contadas por eles mesmos. O português Gonçalo Fernandes Trancoso, autor de Contos e histórias de proveito e exemplo (1575), inspirou-se na tradição oral do folclore lusitano, em Boccaccio e em outras fontes. Na Espanha, Cervantes publicou as Novelas ejemplares (1613), coleção de 12 contos compostos segundo a moral contra-reformista da Espanha de Filipe II.

Alguns dos principais contos de Voltaire datam de meados do século XVIII, como Zadig, Micromégas e Candide. Leitor de Boccaccio, Voltaire escreveu contos em versos e diálogos filosóficos para servirem de repositório a suas idéias e observações críticas, intenção que deixou explícita em alguns textos.
Entre 1830 e 1870 predominaram na ficção ocidental os contos rústicos, caracterizados pela simpatia para com os "humilhados e ofendidos", a gente explorada dos campos. São obras com certa tendência realista, mitigada por forte sentimento romântico e idealização da realidade camponesa. Filia-se a essa tendência o americano Washington Irving, que nos contos de The Sketch Book (1820; O livro de esboços) poetiza o prosaísmo rural. Outro exemplo é o alemão Berthold Auerbach, autor de Schwarzwälder Dorfgeschichten (1843-1853; Histórias das aldeias da Floresta Negra), com enredos ingênuos e sentimentais. Em geral a miséria era encoberta por uma forte idealização do ambiente rural, como é o caso das Novelas do Minho, publicadas pelo português Camilo Castelo Branco entre 1875 e 1877.

Com a ascensão do romantismo, floresceu nos séculos XIX e XX o conto fantástico, cujo precursor é o alemão E. T. A. Hoffmann. Suas histórias sinistras e humor negro influenciaram autores como Gogol, Kipling e Kafka. Contos como O capote e O nariz, de Gogol, são considerados clássicos do humor negro. Outros autores hoffmannianos são os americanos Nathaniel Hawthorne e Edgar Allan Poe, este último considerado precursor do moderno conto policial por The Murders in the Rue Morgue (1841; Os assassinatos da rua Morgue). Na mesma linha de Poe, em que se unem o fantástico ao horror, Ambrose Bierce escreveu Can Such Things Be? (1893; Podem tais coisas existir?).

Na segunda metade do século XIX, o conto atingiu o auge de seu prestígio com o realismo. Na ficção francesa, Gustave Flaubert aprofundou a linha semidocumental e psicológica com Trois contes (1877; Três contos). Guy de Maupassant foi um dos mestres do gênero e com Boule de suif (1880; Bola de sebo) tornou-se um clássico do gênero. A preocupação realista está presente no italiano Giovanni Verga, que retrata os campos decadentes da Sicília, e no russo Tolstoi, que revela a tensão entre os valores civilizatórios e vidas primitivas. Gorki escolheu como tema de seus contos as agruras dos operários russos.

Outro russo, Tchekhov, é considerado um dos mestres do conto no século XIX. Ao contrário de Maupassant, não valoriza o desfecho, sequer a trama, muitas vezes tênue, e sim o sutil clima psicológico transmitido pelos personagens por atitudes e falas. Essa é também a linguagem da inglesa Katherine Mansfield, que desenvolveu uma técnica impressionista de esboço e sugestão.

No século XX, o conto procura novas formas. Um dos grandes inovadores da ficção moderna, James Joyce, escreveu com técnica realista os contos do livro Dubliners (1914; Dublinenses), que, no entanto, prefigura o fluxo de consciência que o autor desenvolveria nos romances. Na linha realista, dois grandes nomes são os dos americanos William Faulkner e Ernest Hemingway. O primeiro descreve um mundo cruel de padrões éticos primitivos, o do sul do Estados Unidos, e o segundo mergulha na desilusão e no cinismo diante do perigo e da morte.

Na vertente do conto fantástico, uma das mais ricas, destaca-se Kafka com obras-primas como Metamorphosis (1915) e In der Strafkolonie (1919; A colônia penal), prenunciadoras do horror persecutório que caracterizaria a Europa da primeira metade do século XX. O argentino Jorge Luis Borges é um dos grandes autores fantásticos do século, mais conhecido pelos contos de diversas datas reunidos em Ficciones e El Aleph. Os jogos intelectuais e o humor fino e cruel aparecem nas obras de outro argentino, Julio Cortázar, por exemplo em Todos os fogos, o fogo (1966), e nos contos do mexicano Juan José Arreola reunidos em Confabulario, de 1952.

Brasil. Em Panorama do conto brasileiro (1959-1961), Barbosa Lima Sobrinho aponta como precursores do conto no Brasil os autores de folhetins românticos publicados a partir de 1826. A figura máxima do conto brasileiro, nos moldes clássicos, é Machado de Assis, que em 1862 publicou O alienista, uma de suas obras-primas. Mário de Andrade, que se projetou no cenário intelectual brasileiro como um dos líderes da revolução modernista de 1922, é autor de Belazarte (1934) e Contos novos (1947). Guimarães Rosa foi também um inovador da linguagem em seus romances e nos contos de Sagarana (1946) e Corpo de baile (1956). A melhor prosa de Clarice Lispector se encontra provavelmente nas coletâneas de contos, como A legião estrangeira (1964) e Laços de família (1972). Outros renovadores do gênero foram Dalton Trevisan, Rubem Fonseca e Luís Vilela.

Ficção científica; Fantástica, literatura; Horror, literatura de cordel


©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.

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