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11 de out de 2011

Subsídios teóricos do conto–O Tempo no Conto

O TEMPO NO CONTO - O tempo, no conto tradicional, é geralmente indeterminado (“Era uma vez...”, “Naquele tempo...”, "Há muitos anos..."). E ainda que, pelo seu conteúdo, um ou outro conto popular deixe adivinhar um determinado contexto histórico, o que verdadeiramente importa não é a localização temporal dos eventos, mas o modo como eles aconteceram. O passado para que o conto nos reenvia só interessa na medida em que atesta que a matéria a narrar já aconteceu e que, por isso mesmo, vale, sobretudo, pela sua exemplaridade.

Tempo cronológico ou tempo da história - determinado pela sucessão cronológica dos acontecimentos narrados.

Tempo histórico - refere-se à época ou momento histórico em que a ação se desenrola. O tempo histórico representa a duração das formas históricas de vida, e podemos dividi-lo em intervalos curtos ou longos, ritmados por fatos diversos. Os intervalos curtos do tempo histórico se ajustam a acontecimentos singulares: guerras, revoluções, migrações, movimentos religiosos, sucessos políticos. Os intervalos longos correspondem a uma rede complexa de fatos ou a um processo (formação da cidade grega, desenvolvimento do feudalismo, advento do capitalismo, por exemplo). Consoante as mudanças regulares operadas no âmbito da Natureza e empiricamente perceptíveis: a alternância da noite e do dia, o fluxo-refluxo das marés, as estações, o movimento do sol, etc.

Tempo psicológico - é um tempo subjetivo, vivido ou sentido pela personagem, que flui em consonância com o seu estado de espírito. A experiência da sucessão dos nossos estados internos leva-nos ao conceito de tempo psicológico ou de tempo vivido, também chamado de duração interior.

O primeiro traço do tempo psicológico é a sua permanente descoincidência com as medidas temporais objetivas. Uma hora pode parecer-nos tão curta quanto um minuto se a vivemos intensamente; um minuto pode parecer-nos tão longo quanto uma hora se nos entediamos. Variável de indivíduo para indivíduo, o tempo psicológico, subjetivo e qualitativo, por oposição ao tempo físico da Natureza, e no qual a percepção do presente se faz ora em função do passado ora em função de projetos futuros, é a mais imediata e mais óbvia expressão temporal humana.

Essa forma de tempo aborrece ou ignora a marcação do relógio. Tempo interior, imerso no labirinto mental de cada um, cronometrado pelas sensações, idéias, pensamentos, pelas vivências, em suma, que, como sabe mos, não têm idade: pertence à experiência universal, repetida diariamente, saber que não significa nada, em última análise, afirmar que determinada sensação ocorreu há dez anos, vinte dias, etc.

Tempo de discurso - resulta do tratamento ou elaboração do tempo da história pelo narrador.

Este pode escolher narrar os acontecimentos:

- Por ordem linear.

- Com alteração da ordem temporal (anacronia), recorrendo à analepse (recuo a acontecimentos passados) ou à prolepse (antecipação dos acontecimentos futuros).

- Ao ritmo dos acontecimentos (isocronia) como, por exemplo, a cena dialogada.

- A um ritmo diferente (anisocronia), recorrendo ao resumo ou sumário (condensação dos acontecimentos que decorreram durante um certo período), à elipse (omissão de acontecimentos/omissão de períodos mais ou menos longos da história) e à pausa (interrupção da história para dar lugar a descrições ou divagações).

Agostinho: “Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir com palavras seu conceito? (...) O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar, eu sei, se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.” (Confissões, XI:14-17)

A relação entre o começo e o fim, chamado intervalo, de determinado movimento, o cômputo de sua duração, bem como a passagem de um intervalo a outro numa ordem que liga o anterior ao posterior, chamada de sucessão — todas essas noções que o uso do relógio suscita de maneira espontânea corroboram a compreensão prévia do tempo, por força de nossa atividade prática, que nos obriga a lidar com ele antes de conceituá-lo.

Tempo físico - A experiência do movimento exterior das coisas prepondera na elaboração do conceito de tempo físico, natural ou cósmico: tanto pode ser a medida do movimento como relação entre o anterior e o posterior, conforme Aristóteles escreveu em sua Física quanto o próprio processo de mudança — processo objetivo, porque independente de consciência do sujeito, além de quantitativo, por que expresso mediante grandezas.

O tempo físico, que tem uma direção irreversível é também, de outra maneira, o tempo vivido, mas a sua direção, que lhe empresta o atributo da finitude, segue, de momento a momento, entre passado e futuro.

Na narrativa, a ordem temporal e a ordem causal se distinguem, mas dificilmente se dissociam. Entretanto, o romancista E. M. Forster, em Aspectos do romance, entende que a causal está para a temporal como um grau de maior complexidade, acima das relações temporais. “O rei morreu e depois a rainha” é a célula de uma história. Mas se dizemos “a rainha morreu ninguém sabia por quê, até descobrir-se que foi de pena pela morte do rei”, entra em jogo a causalidade e, com ela, um enredo, como “uma fórmula capaz de desenvolvimento superior” Roland Barthes observa que a narrativa estabelece “uma confusão entre a consecução e a conseqüência, o tempo e a lógica” Na verdade, porém, o elemento causal está implícito à relação temporal.

http://www.projectodejersey.com/oqueeoconto.htm

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