Oficina de escrita literária Inspiraturas, em Pelotas

Oficina de escrita literária Inspiraturas - o fim da página em branco - A ti, que ainda acreditas na escrita, em especial a Poesia, como ...

19 de nov de 2011

1ªproposta: diálogo intercalado com narrador

Diálogo é uma conversação estabelecida entre duas ou mais pessoas.

1.Entendimento através da palavra, conversação, colóquio, comunicação. 2. Discussão ou troca de idéias, conceitos, opiniões, objetivando a solução de problemas e a harmonia. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Di%C3%A1logo)

A pontuação é muito importante quando falamos em diálogo na escrita. É preciso que fique bem marcada a fala de cada personagem. O sinal de pontuação mais comum é o travessão aberto em cada parágrafo para cada fala. Alguns usam aspas* ou apóstrofos (aquela virgulazinha que fica embaixo das aspas no teclado do computador), que são aceitos sem problemas desde que sejam uniformes no texto, usei aspas no primeiro diálogo, uso aspas até o final. Vasgas Llosa fez um livro inteirinho sem sinais de pontuação – o que tem seu valor dentro da proposta dele – mas de difícil interpretação para os leitores mais comuns (inclusive para alguns nem tão comuns). Então, talvez seja melhor apostar nos sinais para passar da melhor forma a mensagem. Uma outra característica do diálogo é o discurso direto.

Discurso Indireto:

Ex.: Joana disse a Mateus que queria ir embora.

Discurso Direto:

Ex.: ─ Mateus, quero ir embora. – disse Joana.

“Retalho” é um texto de oficina. Foi feito a partir de um exercício de técnica narrativa. A proposta era “Diálogo intercalado com narração”, ou seja, o enredo deveria ser trabalhado em cima das falas das personagens prioritariamente e, enquanto isso, o narrador iria se misturando à história e fechando as lacunas deixadas por essas falas...

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RETALHO

─ Não vai sair hoje, filha? ─ D. Regina, sentada no sofá, pergunta com a colcha de retalhos nas mãos.

─ Não, vovó! ─ Mariana surge na porta da cozinha.

─ O rapaz tem aula? ─ A velha senhora escolhe mais um pedaço de tecido e, com uma tesoura, recorta um quadrado.

─ Não, ele quase não tem ido às aulas. ─ A moça senta-se no chão, na frente da avó, as pernas finas cruzadas.

─ E o serviço? ─ retorna a senhora, enquanto começa a costura do retalho vermelho.

─ Ele trabalha com o pai... é seguro! ─ Mariana estende o braço para pegar uma lixa de unha dentro de um pote de cerâmica, na estante de madeira escura.

─ Ah! ─ diz D. Regina olhando para a costura. ─ Então por que não saiu hoje? É sexta!

─ Por causa de mamãe... ─ Mariana ri e começa a lixar as unhas curtas e sem pintura. ─ Ela me pediu para ficar em casa... quer me apresentar o tal Ademar.

─ Xiii... ─ D. Regina pára a costura e olha para a adolescente. ─ Este deve ser sério então! ─ E fazendo o sinal da cruz, finaliza. ─ Que Deus nos livre!

─ É... ─ Mariana dá de ombros e termina de lixar a última unha.

─ Bonita a blusa ─ diz Ademar encostado na geladeira. ─ O rosa combina com você.

─ Obrigado ─ Mariana responde num tom baixo, engolindo o resto do leite. ─ Preciso ir.

─ Tão rápido? ─ O homem alto sorri e continua. ─ Não vai esperar a chegada da sua mãe?

─ Ela vai demorar. ─ Mariana levanta-se da cadeira e pega o copo para depositar na pia. ─ Sempre chega tarde às sextas... você sabe.

─ Aonde vai? ─ Ademar dá dois passos e pára na frente da moça. ─ Tem aula hoje?

─ Não... vou encontrar o Dudu. ─ Ela recua, esbarrando na cadeira.

─ Tome cuidado... ─ Com um sorriso no rosto, o homem de cabelos escuros segura o braço de Mariana. ─ Vai se machucar desse jeito.

─ Tudo bem. ─ Ela tenta retirar a mão. ─ Não vou cair...

─ Precisa gostar de mim, menina! ─ Ademar diz, a pressão da mão no braço da menina aumenta e finaliza com um sussurro. ─ A felicidade de sua mãe depende disso.

─ Não gosto desse rapaz! ─ Ademar fala para Tereza, deitado na cama de casal. ─ É um vagabundo!

─ É só um menino, meu bem! ─ Tereza diz, de dentro do banheiro, enquanto passa um creme no rosto. ─ O namoro não é sério.

─ Acho que você está enganada! ─ Ele suaviza a voz. ─ Mariana está levando esse namoro a sério. É um desperdício!

─ Não entendi ─ A mulher morena, de cabelos crespos e curtos, aparece na porta do quarto. ─ O rapaz parece boa gente. Não gosta muito dos estudos, mas...

─ Tereza ─ Ademar não a deixa terminar. ─ Mariana é uma menina inteligente, bonita, tem um futuro promissor pela frente... ─ Ele senta-se na cama. ─ Ficar presa a um rapaz sem estudos, que vive à custa do pai... Por favor!

─ Eu sei, mas... ─ Tereza também se senta. ─ O que podemos fazer?

─ Você me dá permissão para resolver esse assunto? ─ Os olhos azuis encaram a face de Tereza. O lençol escorrega e mostra a nudez do corpo moreno. Ele aproxima-se da mulher e finaliza baixinho. ─ Tenho essa menina como minha filha!

─ Claro, meu bem! ─ Tereza observa os pêlos no peito de Ademar, que formam um triângulo. ─ Tem toda a permissão.

─ Mãe? ─ Mariana pára na porta do quarto de Tereza. ─ Posso falar com você?

─ Agora não, filha ─ Tereza diz e pega a bolsa de couro preto em cima da cama. ─ Estou atrasada!

─ É rápido! ─ A moça encosta-se no batente da porta. ─ É sobre o Ademar...

─ Já disse que agora não tenho tempo! ─ Tereza suspira e ajeita o cabelo, olhando-se no espelho da penteadeira. ─ Mas adianto que se é sobre o comportamento dele diante do seu namoro com Dudu... esqueça!

─ Mas, mãe... ─ Mariana entra no quarto. ─ Você não entende...

─ Chega! ─ A mãe se posta ereta diante da garota. ─ Não vou aceitar reclamações suas sobre o Ademar! Ele apenas está preocupado com você!

─ Tá certo, mamãe... ─ Ela baixa a cabeça. ─ Eu só queria...

─ Acho que já nos entendemos, Mariana! ─ Tereza passa pela filha e, antes de sair do quarto, finaliza. ─ Prepare o jantar para o seu padrasto! Ele deve chegar cedo hoje.

─ Parece preocupada! ─ Dudu passa a mão pelo rosto de Mariana. ─ Aconteceu alguma coisa?

─ Não ─ Ela responde, o olhar baixo, e beija a mão de Dudu. ─ É só o clima lá em casa...

─ Quer falar sobre isso? ─ Ele chega mais perto e começa a beijar o pescoço da moça.

─ Pára, Dudu... ─ Mariana reclama quando sente a mão do rapaz num dos seios.

─ Oh, Mariana! ─ Dudu se afasta. ─ Estamos namorando há quatro meses e ainda não confia em mim!

─ Acho cedo demais para isso, Du ─ A menina sorri. As maçãs do rosto tingindo-se de vermelho. ─ Quero que seja especial... quero estar segura.

─ Desculpa... ─ Dudu suspira e sorri também, passando os dedos pelo cabelo de Mariana. ─ Quando você quiser, amor, quando você quiser...

─ Ah! ─ Mariana assusta-se com a entrada de Ademar no seu quarto. ─ O quê...?

─ Esteve com o vagabundo hoje? ─ Ademar tem o semblante fechado. ─ Responda, Mariana!

─ Eu... ─ A moça cruza os braços. A camisola de algodão sobe mostrando as coxas. ─ Sim, eu vi o Dudu, mas... foi rápido e...

─ Pensei que tivesse proibido você de ver esse menino! ─ Ele fecha a porta do quarto e aproxima-se de Mariana. ─ Vai sofrer as conseqüências, menina...

─ Não... por favor ─ Mariana implora ao ver Ademar desafivelar o cinto da calça. ─ Ademar...

─ Já tive muita paciência com você! ─ Ele termina de abrir o cinto. ─ Prometo que vai doer só um pouquinho...

─ Consultório médico ─ Tereza atende ao primeiro toque do telefone. ─ Boa tarde!

─ Mãe... ─ Mariana tem a voz rouca. ─ Eu...

─ Só um minutinho, filha. ─ Tereza vê a luz da outra linha piscando. ─ Sim, doutor?

─ Passe o próximo ─ Dr. Carlos fala com um tom cansado. ─ Espero que não tenham muitos.

─ Apenas oito, doutor ─ Tereza ri e aperta outra tecla do telefone. ─ Só mais um minuto, querida ─ O próximo, por favor ─ diz abrindo a porta da sala do doutor. Volta à mesa após um casal entrar. ─ Pronto, meu bem...

─ Mãe... ─ Mariana ainda tem a voz rouca. ─ Que horas você vem?

─ Saio às oito. ─ Tereza observa uma senhora entrar no consultório. ─ O que foi, querida?

─ Nada ─ Ela responde após uma breve pausa. ─ Só queria pedir que fizesse o jantar...

─ Pode deixar, querida, Ademar teve que viajar, já ia ligar pra você ─ Tereza abre a agenda e faz um gesto para a senhora sentar. ─ Preciso desligar, meu bem.

─ Tá... ─ Mariana baixa mais um tom na voz. ― Mãe?

─ Sim? ─ Tereza franze a testa. ─ Aconteceu alguma coisa?

─ Não... ─ A moça suspira. ─ Só queria... amo você...

─ Também te amo, filha! ─ Tereza desliga

─ Mariana? Cheguei! ─ Tereza entra na casa e acende o interruptor de luz da sala. ─ Comprei bifes... só quatro, pois Ademar não vem! ─ Enquanto fala, dirige-se à cozinha. ─ Teve que viajar. ─ Desembrulha a carne e pega um prato no armário. ─ Dia horrível! Todos resolveram consultar!... Diabos! ─ diz após derrubar, no chão, um dos bifes. ─ Que raiva quando isso acontece! ─ Pega o pano e abaixa-se para limpar o sangue. ─ Mariana, me ajuda aqui? ─ Aumenta um tom na voz. ─ Mariana? ─ Tereza larga o pano, as mãos ainda vermelhas do sangue, e volta à sala. ─ Mariana? ─ Repete, olhando para o quarto da filha, que tem a porta semi-aberta e a luz acesa. ─ Mariana? ─ A mãe empurra a porta. ─ Não!!! ─ Grita e cai de joelhos perto do corpo frio de Mariana.

Dhenova

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A proposta:

Escreva um conto, limitado a 200 linhas, com temática livre, utilizando como recurso narrativo os diálogos intercalados com narração. Observe para que os diálogos sejam verossímeis e o conto seja atraente ao leitor.

Envie o conto finalizado em formato .doc para oficinainspiraturas@gmail.com até o dia 08 de fevereiro de 2012.

Subsídios teóricos do conto

Boas inspirações!

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