Oficina de escrita literária Inspiraturas, em Pelotas

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5 de dez de 2011

2ª proposta: Retrato de personagem

Retrato de Personagem

O retrato de personagem compreende a descrição dos aspectos visuais – aparência física, fisionomia, vestuário, gestual etc -, bem como psicológicos ou emocionais – caráter, personalidade, ideal político ou religioso, etc. Lembrar que o retrato de personagem, a exemplo de toda descrição, deve ser funcional.

O ‘nome’ ou ‘apelido’ da personagem pode se constituir em um elemento descritivo, em função dos conteúdos sócio-culturais a ele vinculados. Dessa forma, o nome da personagem, por si só, serve para identificá-la e inseri-la em determinado contexto. Zenaide, Zoraia e Sybila, por exemplo, são nomes próprios que funcionam para uma cartomante – e não para uma freira carmelita!

A ‘aparência física’ e a ‘fisionomia’ são marcas que podem remeter a atributos psicológicos ou à vida pregressa da personagem, de acordo com conteúdos (preconceituosos ou não) cristalizados na sociedade. A falta de dentes indica as condições sociais da personagem. Uma cicatriz no rosto sugere um episódio anterior, marcante em sua história.

O ‘vestuário’ da personagem é um elemento funcional. Uma cigana não se veste da mesma maneira do que uma freira carmelita. O vestuário, além de identificar a profissão ou grupo – social, étnico, etc – da personagem, também é índice de sua personalidade. Exemplo de retratos estereotipados: uma mulher que sempre veste blusas decotadas tem uma postura diante da vida diferente daquela outra que nunca mostra o colo.

Os ‘acessórios habituais’ da personagem também devem ser observados. Jóias e outros acessórios revelam, além da posição social, e a época em que se passa a trama –, conteúdos internos da personagem. Grandes argolas de ouro possuem o mesmo significado do que discretos brincos de pérolas?

Ainda em relação aos aspectos visuais, a ‘postura corporal’ (onde se inclui também o gestual) diz muito sobre a personagem. O modo como José dias (Dom Casmurro) caminha revela seu caráter.

Regra de Ouro: Para o retrato da personagem é válido o preceito: ‘mostrar o que pode ser visto, sugerir o que pode ser intuído.’

 

(Oficina de Criação Literária – Aulus Mandagará Martins)

 

Proposta: crie um conto, com tema livre, em que a personagem seja retratada de forma verossimilhante às possibilidades da realidade sociocultural proposta no enredo, ou seja, o retrato da personagem deve ser convincente.

Envie o conto finalizado em formato .doc (documento do Word) para oficinainspiraturas@gmail.com até o dia 18 de fevereiro de 2012.

Subsídios teóricos do conto

Boas inspirações!

4 de dez de 2011

SUBSÍDIOS TEÓRICOS DO CONTO–A Descrição

A Descrição

“Não adjetiva sem necessidade, pois serão inúteis as rendas coloridas que venhas a pendurar num substantivo débil. Se dizes o que é preciso, o substantivo, sozinho, terá uma cor incomparável. Mas é preciso achá-lo.” (“Decálogo do perfeito contista” - Horácio Quiroga)

“Os adjetivos não nos servem de nada, se uma pessoa mata outra, por exemplo, seria melhor enunciá-lo assim, simplesmente, e confiar que o horror do acto, só por si, fosse tão chocante que nos dispensasse de dizer que foi horrível.” (“Ensaio sobre a cegueira” – José Saramago)

¨

1. Entende-se por descrição uma sequência organizada em torno de um referente espacial e que reproduz as características visíveis de um objeto, lugar ou personagem (retrato), como também os aspectos emocionais vinculados a esses elementos. Em ambos os casos, a descrição cumpre a finalidade de ‘fazer ver’.

2. A descrição deve ser funcional, ou seja, deve integrar-se à narrativa, e não se constituir em um acessório.

3. Descrições longas e exaustivas só devem ser usadas quando houver uma boa razão para tal. Geralmente, os detalhes causam melhor impressão – e deixam o leitor à vontade par compor a sua imagem.

“Terminou de crescer (Sandro Lanari), adquirindo ossatura pesada e músculos de atlante. Os olhos ficaram míopes a ponto de não avistar um pássaro. Sagaz e com a ‘Eneida’ decorada, amaldiçoava a necessidade de usar óculos, pois com eles parecia o fruto nervoso de algum seminário provinciano. Boa ou má, definia-se a figura com a qual atravessaria a vida.” (Luiz Antonio de Assis Brasil, ‘O Pintor de Retratos’)

4. Informações exatas e precisas conferem veracidade ao texto de ficção.

“O Príncipe das Astúrias – um barco magnífico, com bordos altos e perfil alongado, lembrando, com seus quase duzentos metros de comprimento, uma gaivota em mergulho – partira de Barcelona no domingo, 20 de fevereiro de 1916.” (Sinval Medina, ‘O Herdeiro das Sombras)

“Desde cedo, bem cedo, antes mesmo que os movimentos da casa iniciassem, Raquel trabalhava. A mesa já posta, três lugares, garrafas térmicas, leite, café, o jornal matutino, e o castanho áspero do pão querendo saciar alguma fome. (Cíntia Moscovich, ‘Os laços e os nós, os brancos e os azuis’)

5. Uma imagem, tendo por base metáfora ou comparação, funciona muito bem, desde que traduza o estado emocional da personagem, por meio da ação, e integre-se, de modo coerente, ao objeto ou lugar descrito.

“Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã.” (Machado de Assis, ‘Dom Casmurro’)

6. Mostre o que pode ser visto, e ‘sugira’ o que pode ser intuído, sobretudo o estado emocional, mental, psicológico. Use ‘ações’ para descrever esses estados.

“Trazia [José Diaz] as calças curtas para que lhe ficassem bem esticadas. A gravata de cetim preto, com um aro de aço por dentro, imobilizava-lhe o pescoço; era então moda. O rodaque de chita, veste caseira e leve, parecia nele uma casaca de cerimônia. Era magro, chupado, com um princípio de calva: teria os seus cinqüenta e cinco anos. Levantou-se com o passo vagaroso do costume, não aquele vagar arrastado dos preguiçosos, mas um vagar calculado e deduzido, um silogismo completo, a premissa antes da conseqüência, a conseqüência antes da confusão.” (Machado de Assis, ‘Dom Casmurro’)

7. Os adjetivos e locuções adjetivas devem ser usados com cuidado, para evitar os excessos e clichês, frequentes nas descrições. Prefira os adjetivos concretos. Às vezes, adjetivos abstratos, contrastando com o substantivo, podem se constituir em um recurso eficaz. Não abusar, contudo, desse procedimento.

8. Uma descrição eficiente pode resultar da combinação de elementos objetivos e subjetivos, sem que os últimos anulem os primeiros.

“A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na vizinhança da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela ‘casa do Ramalhete’ ou simplesmente, o ‘Ramalhete’. Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o ‘Ramalhete’, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de Residência Eclesiástica que competia a uma edificação do reinado da Senhora Dona Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo assemelhar-se-ia a um Colégio de Jesuítas. O nome de Ramalhete provinha de certo de um revestimento quadrado de azulejos fazendo painel no lugar heráldico do Escudo das Armas, que nunca chegara a ser colocado, e representando um grande ramo de girassóis atado por uma fita onde se distinguiam letras e números de uma data.” (Eça de Queirós, ‘Os Maias’)

(Aulus Mandagará Martins)

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