Caros amigos oficineiros INSPIRATURAS, Balcão de Poemas e Nova Ordem da Poesia

Iniciaremos o ano de 2015 com todas as indagações e questionamentos que um ritual de passagem dessa natureza é capaz de nos conduzir. Para nós, que buscamos interagir com o todo, fazer um balanço consiste em olhar para todas as direções, sabendo transitar entre a luz e as sombras, sentindo, ao mesmo tempo, o temor e a confiança, ao passo em que procuramos, a cada dia, retomar cuidadosamente o que é essencial à vida, à solidariedade e à paz frente a novos momentos que virão. Queremos ajudar a educar para a inteireza do ser e para a paz, e, para tal, nos articulamos em novos vôos, abrindo novos caminhos e frentes de ação.

É tempo de preparar um convívio social mais harmonioso e verdadeiro, com cada um reconhecendo e assumindo sua cota de responsabilidade com o futuro da comunidade, respeitando a vida e a dignidade de cada um, sem discriminação ou preconceito.

O ser humano ainda é a maior descoberta desse século!

Poderemos integrar nossos pensamentos, a emoções e corpos em uma só unidade, constituindo um alinhamento que promove a evolução na direção do aperfeiçoamento humano e oportunizando um salto significativo no crescimento pessoal em todos os âmbitos da existência. Poderemos, ainda, despertar nossa vitalidade e resgatar a espontaneidade e a alegria de viver numa comunidade plena de paz.

“Nunca duvide da capacidade de transformação que duas ou mais pessoas juntas possam fazer no mundo. Talvez esteja aí a grande chance de realmente mudá-lo”. (Provérbio árabe)

Nós, do Projeto INSPIRATURAS, desejamos um NATAL MARAVILHOSO E INESQUECÍVEL e um 2015 PERFEITO.

Queremos te agradecer por ter estado perto de nós neste ano que se vai, cultivando a semente do desenvolvimento humano. Queremos, também, lhes relatar o quanto foi bom ter estado junto de ti.

8 de nov de 2011

3ªOficina - 5ªrodada - Rangido das correntes


Rangido das correntes

Rangido das correntes
vai e vem da madeira
Pernas balançam rentes
pés que roçam areia

No balanço da praça
menina desafia lembranças
No alto, sol no rosto
sorriso, covinhas e ânsias

Vestido de corações
brancos e vermelhos
Cortes sem direções
riscados nos joelhos

No largo, busto exposto
do general da guerra
Todo seu pressuposto
cruel  ideal encerra

Mortes, ambições
pretas e brancas
Despidas de emoções
marcadas em âmbar

Rangido das correntes
vai e vem da madeira
Pernas balançam rentes
pés que somem na areia!

PENÉLOPE DE ÍTACA

3ªOficina - 5ªrodada - Acaso Oculto


Acaso Oculto

Atravesso o sonho
De nomes extintos
Em cores tão cruas
E febres tão leves

Se a noite é sua
Desejos tão reles
Ecoam sucintos
Em profundo sono

Teu nome invade
Em silêncio o ocaso
E rasga a lembrança
De outras manhãs

Já não fazes parte
Metade ocultada
Teu nome resguarda
Maldade terçã
 
Tangerina Urbana

3ªOficina - 5ªrodada - O brinquedo na praça


O brinquedo na praça

Os nomes das praças e das ruas e das avenidas
percorridas pelas lembranças de uma etapa inglória,
lembram aos homens de suas heranças indignas,
impostas pela dura mão da história.

E o brinquedo na praça onde hoje a criança brinca
− na esquina daquela rua, ao cruzar a principal avenida −
contradiz a espessura  de outras vidas,
de gente que brincava brigando com a censura
frente à esbórnia de uma classe em supremacia.

− esses ficaram sem nome, sem praça, sem pátria.
Sem rua, sem chão.
Sem vigas.
Sem vitória.

Lubracadene

3ªOficina - 5ªrodada - IN(VERSÃO)


IN(VERSÃO)

No final, todas as guerras viram História
E ela cria heróis e vilões de oportunidade
As dores e as mortes tatuam na memória
Os rostos de filhos e de pais em saudade.

Nas brumas do tempo a verdade repousa
Quem vence a batalha, determina a versão
Os nomes dos vencidos são marcas na lousa
 E os dos generais ornam as praças da nação

A vida seguindo em despreocupada ironia
Coloca crianças em brincadeiras na praça
Promovendo suas guerras de areia e fantasia

No banco os namorados dão um beijo sensual
Enquanto os pombos, na mais inocente chalaça
Defecam sobre o bronzeado busto do general...

Florlinda Abate

3ªOficina - 5ªrodada - Ame-o ou deixe-o!

Ame-o ou deixe-o!

O País numa embaçada geral
As armas como segurança inócua
A morte como libertação arbitraria
Letargia e opressão de mãos dadas

Tudo jogado para baixo do tapete
Corrupção, canalhices e abusos que tais
Nos porões gemidos e dores latentes
E nada a noticiar nos jornais

Nas escolas propaganda mentirosa
Divulgando um mundo irreal
Nas casas o medo e a sombra diuturna
Ditadura! Nada mais anormal ou imoral

Um tempo de demagogias e maculas
Marcadas por desaparecimentos abruptos
Arroubos de nacionalismo estúpido
Restando o legado amargo dos generais.

Breno Galtieri

3ªOficina - 5ªrodada - Tempo de Inocência


TEMPO DE INOCÊNCIA

Eram apenas páginas
e mais páginas de livro,
mas que cantavam
para meus olhos ouvirem.

Falavam de Heróis,
com H maiúsculo,
feitos de garra, fibra e História
e um punhado de sonhos e músculos.

Eram meus heróis da infância:
tão reais quanto o sol
que a vista alcança,
sem superpoderes, sem capas, sem utopia:
tão reais que cabem em minha poesia.
Minha poesia? Vou, agora, compô-la,
pois que passou, sem heroísmo,
a inocência do tempo da escola...

Ah, meus heróis!
Almirantes, capitães, marechais!
Se puderem responder
agora em tempos de paz:
quantas crianças perderam a infância,
sem heróis que as salvassem,
e dormiram na lama,
para que vocês, meus Heróis,
tivessem eternizada a sua fama?

Tom Alguma Coisa

3ªOficina - 5ªrodada - Meu norte


Meu norte

Foi dito e repetido

“Quem mata um é assassino, se mata muitos é herói”
Será que é legalização para matar?

Podem ser só palavras de pessimismo e crítica...
Ou o abismo de quem se identificou com as palavras.

A meu ver ninguém precisa ser mártir
Penso que também não é necessária a morte.

Viver bem, fazer o bem
Esse é meu norte.

Gentileza

3ªOficina - 5ªrodada - Devoradores


Devoradores

Do que vale esses nomes que eu ouço
Afundando a mais profunda solidão,
A tristeza dessas horas pouco a pouco
Faz sangrar uma lembrança de ilusão.

Quem falou que herói é coisa assim
Triturando a calmaria do indefeso?
Cada estrela que carrega de marfim,
É a emblemática crueldade do ileso!

Vi Antonio tombar no monte santo
Todo sangue banhando aquele manto,
Destruíram uma terra em plantação.

As crianças que um dia foram escudo
Quem assistiu a chacina ficou mudo:
Esses nomes e lembranças são em vão.

João de Ana

6 de nov de 2011

3ªOficina - 5ªrodada - Heróis?!


Heróis?!

Não assustem as crianças
que brincam
nas praças
refúgios da derradeira
ingenuidade

Crianças brincam
nas praças
que têm nomes
de generais
constituídos

Instituídos heróis
da pátria
apesar do sangue
dos soldados mortos
dignidade assassinada

Os meninos observam
as guerras
as batalhas
a morte
crueldades de toda sorte

Poupem os pequenos
deste mundo
atroz
veloz,
mundo de armas e brasões

Parem!
Já chega!
Não ensinem a guerra
Não destruam a infância
Não assustem as crianças

Poema Paixão

5 de nov de 2011

30 de out de 2011

3ªOficina - 4ªrodada - Ser o não-ser


Ser o não-ser

Há-de-ser leve leve,
de leveza tal
que o vazio que se forma
indelevelmente
se transforma
na sem razão de ser.

Esse não-ser permanente
desconectanto  corpo e mente
há-de-ser o que não é.

Tangerina Urbana

3ªOficina - 4ªrodada - Tanatoscopia


TANATOSCOPIA

Surgindo a centelha da vida
há sempre nela escondida
a figura sinistra da morte...
Resta-nos evitar que aporte

A infância descuidada ignora
que existe a atenta senhora
rondando os seus folguedos
E pais varados por medos

A juventude sempre a desafia
escorada em insensata rebeldia
faz da morte adversária constante
Vencê-la torna a vida interessante

Mais tarde, o homem a respeita
Consciente que ela o espreita
em cada esquina da existência
Sua meta é só a sobrevivência

Quem foi poupado, envelhece
E pode ser que peça em prece
que a temida venha finalmente
Trazendo o descanso inerente

Seja como for, resta a certeza
que a morte, por sua natureza,
é a prima-dona do nosso teatro:
É dela a apoteose do último ato!

Florlinda Abate

3ªOficina - 4ªrodada - Verso Predestinado


Verso Predestinado

Ingênuo, abstrato verso
nasceu livre, feliz
empilheirou rimas
riu das falhas vis
buscou matizes e sinas

Colorido, apaixonado verso
traçou linhas imaginárias
desejou no céu controverso
gravar amor sem falácias

Tolo, imaturo verso
fragmentou-se em batalhas
seguiu atrás do convexo
encontrou só navalhas

Decepcionado, amargo verso
desenhou tristezas
no chão verde imerso
desdenhou belezas

Atrapalhado, medíocre verso
fez da briga a cena
entalhou ódio no anverso
e renegou poemas

Entristecido, doído verso
em seu último suspiro
solilóquio disperso
fez-se amante do mito

agonizou envenenado
soprou tom perverso
distorceu embriagado
pueris manhas
em brancas linhas...

Expulsou, o verso
agonia velada
marcou o fim do eterno
escreveu a última letra
morreu, enfim, predestinado.

PENÉLOPE DE ÍTACA

3ªOficina - 4ªrodada - Folhas do cerrado


Folhas do cerrado

Tudo aconteceu numa viagem ao cerrado,
de onde eu guardo uma folhagem seca num vaso,
ao lado de minha cama.

Vida e morte se embaralham nessas folhas:
signos de um fim mas também  de um recomeço,
no tropeço do acaso e do tempo que se abre para o novo,
nas folhas de papel que se quer poema e chama.

Poesia e vida se irmanam nessa morte −
Morte, de onde a centelha criativa germina.

E no furo do tempo que essa folha origina,
prevalece o fuso insistente da hora inexata
na fresta do dia que se faz mais dia
resgatando a noite que se quer inquieta
e que objeta o marasmo embora dele se nutra.

Lubracadene

3ªOficina - 4ªrodada - Sorrateiramente morri


Sorrateiramente morri

Chegaste sorrateira
Conquistando minha alma
Quando notei já te pertencia

Ficaste comigo em meu repouso
Não me esquentaste na pedra fria
Restando apenas meu invólucro tosco

Minha alma levaste contigo
Para muito alem de onde nunca fui
Dando-me numa paz, nunca antes sentida

Nada de minha vida terrena levei
Apenas resquícios de saudades intimas
E poucas lembranças que o vento apaga

O tempo é o melhor juiz
Ficarei contigo até que outra vida floresça
E minha alma liberta outra embalagem receba

E outra vez terráqueo
Ficarei aguardando sua nova visita
Para novamente passearmos pelo infinito.

Breno Galtieri

3ªOficina - 4ªrodada - A caminho...


A CAMINHO...

...do trabalho
um homem caiu no Terminal:
— estava vivo
saudável
forte
ainda ontem alguém o tinha visto nalgum lugar! —
ia trabalhar, mas caiu.
O chão o amparou
como segura uma fruta muito madura
que se espatifa na efemeridade dos que
   nascem
   e vivem
   e morrem
no final do que passou.

ninguém o socorreu:
não por impiedade
mas faltava saber para o que fazer
contra a impunidade...
... da Morte.

ninguém o socorreu: só o celular:
bendita tecnologia!
que evoluiu mais do que a vida
       mais do que os homens
menos do que a morte
       mais do que o homem que caiu no Terminal:

o coração perdido
    — não de amor
                de amor não —
perdido porque errou o caminho
  esqueceu os compassos
  atrapalhou-se nos passos
  inventou de dançar diferente.

um homem caiu no Terminal
e foi socorrido pelos olhos condoídos
  das gentes!


Tom Alguma Coisa

3ªOficina - 4ªrodada - Dano


Dano

Espumas de marfim
escorrem
sobre seus pés
nus
você ausente
pressente
o poder do mar
imenso
você olhos
fixos
no turquesa das ondas
quebradas
você imóvel
pedras nas vestes
cinzas
você chama apagada
você murcha
você nada.

Cede enfim
ao apelo
das águas
você agora
afoita
caminha
sem volta
sem culpa
sem tento
mar adentro!

Poema Paixão

23 de out de 2011

3ªOficina - 3ªrodada - Glórias aos Mártires


Glórias aos Mártires

Gritem alto, gritem gloria,
Sendo sérios,
Sejam honestos nesta hora.
Glorifiquem os mártires vivos,
Bendigam os corações ardidos,
Proclamem a sabedoria
Dos donos da terra,
Senhores de nossos dias!

O tempo, o vento,
A saudade, a verdade,
O relento, o arrebento,
A sagacidade, a felicidade.
Plagiem as mesmas histórias,
Murmurem os acontecimentos,
Mas não deixem sair da memoria
Os heróis de nosso tempo.

Índio Galdino,
Chico Mendes,
Retrato de um povo
Sem lei, sem vez,
Sem voz, nem talvez.
Terra entregue aos covardes,
Viva os poetas da humanidade,
Cancioneiros.
Viva os mártires vivos,
Viva os desafios, viva nossa sociedade!

Tangerina Urbana

3ªOficina - 3ªrodada - A Alma do Negócio


A ALMA DO NEGÓCIO
 
A felicidade está à venda o tempo inteiro
conta a platinada venus mercantilista
do carro importado ao amor verdadeiro
pode-se ter tudo... Até o carinho da artista

Nos quatro cantos da miséria sem apelo
o sonho de consumo surge com facilidade
se no novelístico lar pleno de cálido desvelo
sobra aquilo que falta na desvalida realidade

Nos cantos sombrios da mente confusa
o brilho falso da propaganda incita e abusa
dos desejos tão acalentados pela fantasia

Escusa dizer que mais dia ou menos dia
o herói esfomeado e armado de letal poder
busca ao vivo e em cores o que julga merecer...

 Florlinda Abate

3ªOficina - 3ªrodada - Sem Adereços


SEM ADEREÇOS

Quero a paz sem adereços
sem tons vermelho ou prata
que venha densa e cálida
ah, a paz que almejo...

pálida seja a ira
num céu sem fuzis
o perfume da rosa
invada em brisa sutil

iludida seja a paixão
mergulhada em branco
espante a solidão
com sorriso franco

tácita seja a briga
na avenida ou mar
cale o motivo escondido
emoção em ter mais

enaltecido seja o amor
desenhado entre estrelas
visto por todos entes
amanhecer sem fronteiras

cristalizada seja a razão
num poema frágil
deite as regras no chão
sem confusão ou maldade

Quero a paz sem adereços
sem tons vermelho ou prata
que venha densa e cálida
ah, esta paz que almejo!

PENÉLOPE DE ÍTACA

3ªOficina - 3ªrodada - Calçadas


Calçadas

As calçadas estão lotadas
Invadidas de pedintes,
Recheadas de viciados,
Tomadas por farrapos humanos
Subnutridos, subdesenvolvidos
Deslocados no mundo possível

Não precisa ser especial para notar
Basta ser cínico para ignorar
As calçadas são nossas verdades
Nosso dia a dia sem maquiagem
Desmantelo que não tem como esconder
Soluções se existem ninguém quer achar

As calçadas das lojas de "marcas"
Do consumismo desmedido e compulsivo
Termômetro de nossas mazelas
Tela verdadeira de nossas diferenças
Realce maior de nosso abismo
Contraste entre nua verdade e realismo

As calçadas estão mudas
Já não há balburdia como antes
Estão conformadas e amordaçadas
Numa enganosa paz reinante
Talvez um dia sendo otimista
As calçadas voltem a ter vida.

Breno Galtieri

3ªOficina - 3ªrodada - Nenhum ou nenhuma


Nenhum ou nenhuma


Nenhum vislumbre de poesia no horizonte,
quando a fome amordaça a palavra.

Nenhuma nesga de luz guiando o caminho,
quando a liberdade é tolhida daquele que pensa.
  
Nenhum resquício de vida pulsando nas veias,
quando a vaidade e a mais-valia imperam no mundo.
  
Nenhuma ousadia alumiando o destino dos homens,
quando o medo do novo os aprisionam e a comodidade em suas vidas prevalece.


Lubracadene

3ªOficina - 3ªrodada - Na rua


Na rua

Você perdido
vício no lixo
da vida
que nada dá

Sinal fechado
olhar  vidrado
na fantasia
do que não há

Pessoa nenhuma
socorre você.
Qual a saída?
Crer no PT?

Impiedosa
a cidade
pra você é nua
meu pobre menino de rua!

Poema Paixão

3ªOficina - 3ªrodada - “Centoeoitenta”


“Centoeoitenta”

Batem na sua porta ou entra num ônibus... Cobrador
Não sente mais dor, pois tem medo de gastar no médico
Nem medo mais pode sentir, psicólogo tá um horror.

Anda contando os vinténs
Comendo salsicha com macarrão
Aperta o sinto e o santo
Nem para cumprimentar abre a mão.

Mora ainda naquele casebre
Com goteiras, sem luz e esgoto
Parou com vício, não bebe
Arrumou um oficio no banco

Enfim mexendo na riqueza dos outros
Não vive mais buscando esmolas
Pode comer agora finos biscoitos
Afrouxa as mãos e as calçolas.

Gentileza

3ªOficina - 3ªrodada - Sorte Grande


SORTE GRANDE
                         
E agora, João?
              parabéns!
arrumou um emprego também...
mas o Outro não.

E agora, João?
              primeiro pagamento
o prato cheio de contentamento
ou será um pouco de feijão?

Tanto faz, João, tanto faz
porque agora João deita em paz...
mas o Outro não.

E agora, João?
E agora João
               não ganha tanto
que possa ser feliz,
como outrora quis,
em dividir o pão.

Ah, João está rindo à toa,
                                claro;
    impossível condená-lo.
Agora João doa
não recebe mais
mas tanto faz
como tanto fez
João tirou a sorte grande:
está escrito e alinhavado em sua tez
alinhavado não costurado
porque agora o João exibe
arroz com feijão e bife
ovo frito
       frita batata
               batata que sobra vai na sopa de macarrão
João tem dignidade agora e nem chora
Arrumou um emprego agora, o João...
Ah! Mas o Outro não...

Tom Alguma Coisa

3ªOficina - 3ªrodada - Desrespeito


DESRESPEITO

Chuva forte,
Madrugada.
Falta sorte.
Enxurrada.
O governo
Nada vê.
E deixou acontecer.
Tanta gente
Ameaçada,
Uma vida
Desgraçada.
Só há medo
No  lugar.
Nuvem escura
A sombrear.
Esta noite
Não  acaba
E o governo
Nada sabe.
Tantas vidas
Decepadas.
Tem família
Desabrigada.
E o governo
A  lamentar
A tragédia do lugar.

Sol Poente

3ªOficina - 3ªrodada - Lamina


Lamina

A mão que corta a carne
Afia a dor da vida,
Treme de medo
E causa pavor.

A faca que afia a dor
Ceifa mil vidas,
Impõe segredo
É um horror.

Corta, corta sem cessar
Pinga a gota
Vai crescendo,
Toma tudo,
Fome e sede
Pouco tempo
Vida jaz.

Quem ouviu o último grito?
Cochilava sozinho,
Estava sem graça
Vendia promessa
Queria riqueza
Sonhava o mundo,
Enorme e restrito.

Sento na ponta da estrela
Vejo alguém chorando
Tem outro sorrindo,
Na vida tem festa
O brilho engana
A cana vem bem
Depois da costela.

A faca afia
A vida confia
O medo é sangue.
Lá vem o pavor
A morte é dor
É banho de mangue.

João de Ana

16 de out de 2011

3ªOficina - 2ªrodada - Poderia chamar-se esperança


PODERIA CHAMAR-SE ESPERANÇA

Encontro você a toda hora...
Já bem cedo no espelho
o meu olhar se demora
esperando seu conselho
A melhor roupa a vestir
será a que você decidir

Você me mostra no dia
(seja de sol ou chuvoso)
os motivos para alegria
-Viver é bem precioso
me diz sua voz de menina
cantarolando em surdina

 Você é a sensibilidade
aflorada em demasia
trazendo a fragilidade
expressa em minha poesia
onde choro em cada verso
este insensível universo

Quando me pego olhando
encantada algum filhote
é você quase implorando
pedindo que então eu note
a riqueza da vida nova
(e da velha posta em prova)

Minha alma - menina
que ainda baila e brinca
e que jamais desanima
quando a tristeza me trinca
o nome Esperança poderia ter
...Eu não vejo você envelhecer!

Florlinda Abate

3ªOficina - 2ªrodada - Do Desafio de Ser


DO DESAFIO DE SER

Quero a lua enquadrada
na minha sala
te ter no campo de visão
quero a chuva em risco
pisar firme no chão

Quero a busca solta
na minha cama
te ter abstrata
quero a alma afinada
notas altas em dó

Quero a sensação única
na minha vida
te ter como estrela
quero a trilha verde
som rasgado de folhas...

Quero a loucura sã
na minha verdade
ser mais do que ter
encontrar a passagem.

PENÉLOPE DE ÍTACA

3ªOficina - 2ªrodada - Contra a corrente


Contra a corrente

Eu que não sou moderno
Nem sou mordomo,
Apenas o dono
De preguiça infindável
Compreendo o tema
E me prendo nas travas
De versos vazios
De compreensão.

Meu libelo, livre e liberto
Arrefece ancorado no medo
Sou eu o covarde
Medíocre serpente
A arrastar-se na sombra
Contraditória
Esgarçando-me no frontispício
Da memória

Oh céus!
Oh vida louca!
Arrebatamento que me envolve.
Rompante de loucura e medo.

O que diz em mim
O que me comove
O que me circunda
E se alastra em meu intimo
Nada mais que o silêncio
Nada mais que o desejo
De permanecer calado
À sombra da noite

Oh céus esparsos!
Sou eu o covarde!
Rasgando o véu
Que encobre meu mundo!
Contrafeito
Aos homens ousados
de boa vontade.

Tangerina Urbana

3ªOficina - 2ªrodada - Xeque-mate


Xeque-mate

Cortei meu cabelo e pintei de preto
Olhou para mim de jeito como quem olha um espelho
Passou o dedo nos dentes e se ajustou
Passei na sua frente... Nem reparou!

Deixei então uma carta debaixo de sua porta
Ela está em branco, talvez me responda ou chame atenção
Sei que ainda importa onde vou e estou
Também sei que tudo aquilo não foi em vão.

Escrevi em um muro em frente seu trabalho
Versos de amor com tempero de saudade
Fiz folhetos e colei nos postes das redondezas
Meu novo telefone, e-mail e site

Daqui a cinco segundo acabará meu tempo
O décimo recado que deixo na sua secretária
Sei que não me vê otária, me vê alento
Mas quero que trate minhas palavras como um xeque-mate.

Gentileza

3ªOficina - 2ªrodada - Pulsante


Pulsante

Os botões da camisa testemunham o silêncio que veste o meu peito
− um silêncio pulsante que fala,
pelas chagas do corpo.

E  é assim que na solidão silenciosa que bate no peito
a voz que me habita se cala,
subvertida numa  fala estranha,
que brota por dentro.

Efeito de puro nonsense,
essa voz é ruído que fere,
de cuja ferida resta um resto que pulsa e perturba.

... espécie de solilóquio encarnado,
aderido ao corpo que o propaga,
por entre as suas chagas,
a todo momento.

Lubracadene

3ªOficina - 2ªrodada - Solilóquio


Solilóquio

Solfejava uma muda canção imaginária
Reclamando a mim mesmo a tua ausência,
Numa trilha de dor mais que ordinária,
Divagando um combate com a carência.

Gritei espalhando um brado pelo mundo,
E uma platéia em silêncio só me olhava,
Volta e meia eu plateiava mais profundo
Nesse jogo para amar quem me odiava.  

No duelo da minha voz com os olhares,
Atravesso com os meus textos seculares,
Num compendio de credito de um ateu.

Nesse palco que provoca-me a lacuna,
No encontro da minha voz pela tribuna,
Com o final do meu ato, quem sou eu?

João de Ana

3ªOficina - 2ªrodada - Foragido


Foragido

Corri os campos sem destino
Corri e corri sempre menino
Em busca de não sei o que.

Corri sem remorso  ou percalço
Corri solto e descalço
Sempre em frente ofegante, mais corri.

Corri margens intermináveis
Corri enormes pastagens
Sem saber o que iria encontrar.

Corri estradas asfaltadas
Corri vicinais enlameadas
E até brejos que não corri,  mas pulei.

Corri paisagens, vida inteira
Subi e desci ladeira
E até da morte corri...

Breno Galtieri

3ªOficina - 2ªrodada - Aqui é inverno


Aqui é inverno

Eu te falei
que não era flor
meu amor
lembra?

Eu disse
esquece
meu perfume
de tóxico odor

Eu pedi
não te aproxima
pois minha sina
é a dor

Mas, que jeito,
você teima
e queima
por mim

Você vai pro inferno,
meu bem,
mas eu avisei,
sou inverno, sou inverno...

Poema Paixão

3ªOficina - 2ªrodada - Espelho


ESPELHO

Se eu falasse com você
e você me respondesse,
eu não estaria feliz,
como outrora um dia quis,
porque suas palavras seriam
um eco concomitante de mim mesmo.

Se eu conhecesse você
e você me conhecesse de verdade,
seríamos amigos íntimos
com laços prístinos
e viveríamos duas dúvidas
de uma mesma alma.

Porque viver é dúvida
e não certeza.
E se agora eu o vejo
talvez não seja como desejo:
como saber, afinal,
se você reflete o Eu?

Se eu penso,
logo você existe:
porque somos um só
e juntos volveremos ao pó,
mas até lá a busca continua
porque a incógnita permanece em mim.

Porque se é mister
conhecer a si mesmo,
investigando seu reflexo
contextualizadamente sem nexo
(que sou eu do lado de cá)
penetrarei no que me é imane.

Se eu olhasse seus olhos
e cheirasse seu odor;
se saboreasse seu paladar,
se tocasse seu toque,
se ouvisse mais o que você diz:
talvez eu o conhecesse melhor.

Porque o segredo de Ser
está oculto em mim
e você e eu somos unidos para sempre,
como alfa e ômega inerentes:
porque as respostas do reflexo no espelho
são incógnitas dentro de mim...

E, entretanto, tenho a certeza de sê-lo.

Tom Alguma Coisa

3ªOficina - 2ªrodada - Insônia


INSÔNIA

Boa noite, madrugada
Que silêncio é este que eu escuto?
Foi a noite que me trouxe este silêncio,
Deixou este vazio tão escuro
E que ergueu o muro
Que me separa do meu dia,
Do meu cantar, da minha alegria?
Foi a noite, madrugada
Que me deixou isolada
Neste mundo de silencio?
Então corre, madrugada,
Vá embora desta noite.
Não me sirva de açoite
A mexer nesta ferida.
Quero vida!!
Quero dia!
Quero luz e energia!
Vá embora madrugada
Leva a noite assombrada
E diga ao sol
Que pode entrar.
Vá correndo, vá depressa,
Faz o relógio correr.
Não fique inerte, aí parada...
O dia precisa nascer,
Já é hora de acordar.
Boa noite, madrugada!!!!

SOL POENTE

12 de out de 2011

Pai contra Mãe, de Machado de Assis

Pai contra Mãe, de Machado de Assis

O conto Pai contra Mãe, de Machado de Assis, publicado em 1906, no livro Relíquias da Casa Velha, insere-se na fase “madura” do autor, de características marcadamente Realistas. Ambienta-se no Rio de Janeiro do século XIX antes da abolição da escravatura, que serve de pano de fundo para a narrativa, não se configurando, porém, como a questão principal. Os aspectos sócio-econômicos das personagens beiram a miséria, com dificuldades muito grandes, dependência e escassez. O pensamento predominante é maquiavélico e capitalista, com destaque para a “coisificação” do ser humano, resumindo os escravos a mercadorias.
Fazendo um descortinamento do perfil psicológico das personagens, ele traz à tona o problema do egoísmo humano e da tibieza de caráter que subjuga o discernimento. A sociedade hipócrita em que se ambienta a narrativa é constantemente ironizada pelo narrador que vê em seus mandos e desmandos uma tentativa de impor a ordem social aos dominados, como se pudesse colocar-lhes uma máscara de folha-de-flandres para impedir seus excessos. A oposição em que se apresentam as personagens é uma briga de iguais que legitima o poder da classe dominante e da qual sai vencedor o mais forte, apesar de sua fraqueza moral e instabilidade emocional.

Narrado em 3ª pessoa, é um dos contos em que o autor apresenta a escravidão da maneira mais impressionante e brutal. A instituição forma uma tela de fundo, um elemento do cenário em que se desenrola a trama. Nesse conto a escravidão é o próprio centro da história. Aliás, na primeira linha do conto, o autor escreve: "A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais". Quando Machado escreveu este conto, a escravidão havia sido abolida há mais de uma década e já parecia algo do passado. Como quem não quer nada, Machado começou o conto como se fosse escrever uma anedotinha sobre uma profissão desaparecida devido ao progresso. O personagem do qual ele fala, Cândido, era um caçador de escravos fugidos que os capturava para entregá-los aos seus senhores. Mas ele não andava por montes e vales, vestido de botas, capa e chapéu grande, seguido por cachorros, como os caçadores de escravos que trabalhavam para os senhores das zonas rurais. Cândido trabalhava na cidade. Seu território de caça eram as ruelas, as espeluncas, os mercados, as saídas das igrejas, as procissões, as aglomerações do porto.

Para os escravos fugidos no meio urbano, a melhor coisa a fazer era misturar-se à população negra, livre, alforriada ou escrava para embaralhar as pistas. Aliás, os anúncios dos jornais da época, fonte documentária extraordinária para os historiadores, descrevem todo tipo de subterfúgio usado por escravos fugidos que buscavam confundir-se com o meio urbano. Havia anúncios do gênero: "Um tal escravo, de tal tamanho, fugiu, mas ele faz semblante de ser livre e é habituado de tal parte da cidade".

Os senhores e as autoridades, é claro, faziam questão de cercar de perto a população escrava e decretavam normas proibindo todo escravo de usar sapatos. Logo, todo negro ou mulato calçado era considerado a princípio como sendo livre ou alforriado. Nessas condições, os escravos fugidos que circulavam na cidade podiam facilmente obter sapatos para evitarem ser interpelados. Isso aumentava a confusão social fazendo recair a suspeita sobre todos os negros livres. Essa situação modificou-se após 1850 quando a imigração de proletários portugueses substituiu-se pouco a pouco os escravos no mercado urbano do Rio de Janeiro. Mesmo que Machado tivesse escrito seu conto mais tarde, após a abolição da escravidão, quando a população branca, brasileira e imigrada, era mais numerosa, seus leitores guardariam na memória a lembrança dessa cidade negra e escravagista da metade do século XIX.

Os escravos urbanos eram alugados. Seus senhores os alugavam a terceiros. Isso conduziu a uma situação particular na qual o senhor empregador do escravo não era seu senhor proprietário. Senhores confeiteiros, padeiros, maçons, marceneiros, vendedores de leilão recrutavam escravos alugados para suas atividades.
Os senhores proprietários de escravos permitiam-lhes o direito de guardar uma parte de seus ganhos a fim de formar um pecúlio que, eventualmente, permitir-lhes-ia comprar sua própria liberdade. Sabe-se que a proporção de escravos que podiam pagar seu próprio preço ao senhor proprietário era muito reduzida. Entretanto, isso representava a recompensa - o estímulo material - que impelia o escravo a trabalhar ainda mais, a fornecer rendimentos ao seu senhor proprietário para aumentar suas chances de comprar sua liberdade. Na situação já descrita do Rio de Janeiro, em que o escravo trabalhava para ganho de um senhor patrão a fim de fornecer uma renda ao seu senhor proprietário, surgia mesmo assim um problema. Isso acontecia quando o senhor patrão explorava o escravo até o esgotamento e a morte, causando, por conseqüência, uma perda não compensada por nenhum benefício para o senhor proprietário que perdia o capital que ele havia investido na compra do cativo. Para cobrir esses riscos, surgiu no Rio de Janeiro companhias de seguro para segurar a vida dos escravos em benefício de seus senhores proprietários.

Eis o contexto social no qual se desenvolviu as atividades de Cândido, caçador de escravos fugidos, personagem central do conto de Machado de Assis. Como ele fazia para ganhar sua vida na cidade? Pela manhã, lia os jornais nos quais havia muitos anúncios de escravos fugidos. Como não havia fotos nos jornais da época, as descrições eram muito detalhadas, assinalando o sotaque do escravo, suas eventuais cicatrizes etc., à maneira da polícia francesa da época no tocante aos condenados a trabalhos forçados que haviam fugido. Essa descrição física comportava pontos imprecisos.

Assim, após ter lido os anúncios e ter tomado notas das características dos escravos fugidos que ele acreditava poder cruzar nas ruas da cidade, Cândido saía para caçar. Com auxílio de uma corda, ele atacava a pessoa que julgava corresponder a um anúncio determinado. Antes de tornar-se um caçador de escravos fugidos, Cândido havia tentado várias profissões sem sucesso. Entretempo, ele havia se casado com Clara, uma jovem orfã que vivia com sua tia.

O casamento de Cândido também pode ser visto como algo que merece destaque. Apesar de ser ele alguém sem grandes ambições e gostar de vida fácil, questiona-se porque se casaria com alguém que não poderia dar-lhe boa vida? Sendo ela submissa e influenciável, infere-se que Clara legitimaria a vida medíocre ambicionada por Cândido Neves.

Por não terem meios de estabelecerem-se por conta própria, o casal morava na casa da tia. Mas eles desejavam muito ter um filho e algum tempo depois Clara engravidou. O bebê ia nascer e a tia estava muito preocupada porque eles não tinham dinheiro, nem profissão fixa, e isso ia trazer problemas. Finalmente, quando Clara deu à luz um menino, a tia a convence a abandonar a criança na Roda dos enjeitados, isto é, tratava-se de um guichê giratório instalado na fachada dos orfanatos; esse dispositivo permitia aos pais depositarem seu filho no anonimato e com toda segurança. Isso existia também em Paris e em várias cidades francesas no século XIX. Logo, a idéia de abandonar um recém-nascido era dolorosa mas, em último caso, não era escandalosa.

Após muito hesitar, o pai, cheio de desespero, pegou o nenê para levá-lo à Roda dos enjeitados do Rio de Janeiro. Antes, ele decidiu tentar, ainda uma vez, obter dinheiro para evitar a infelicidade de perder o filho. Retomou os jornais e suas fichas sobre os escravos fugidos. Selecionou então um anúncio que prometia uma grande recompensa por uma mulata fugida na cidade. O texto descrevia a aparência da escrava, os bairros que ela costumava freqüentar e seu nome: Arminda. Com o dinheiro da recompensa, Cândido podia pagar suas dívidas e ter um descanso. Sobretudo, isso permitiria ao casal ficar com o filho. Após ter relido a descrição dessa escrava, ele teve a impressão de já tê-la visto em um dos bairros do Rio de Janeiro. No caminho que o levava em direção à Roda, ele decidiu deixar o bebê com um de seus conhecidos para tentar, uma última vez, encontrar a mulata em determinadas ruas da cidade. Vai a esse lugar e eis que ele percebe a pessoa em questão. Ele a seguiu quase certo de que se tratava da escrava fugida descrita no anúncio. Chamou-a por seu nome: Arminda. Ela virou-se.

Certo de que era sua presa, Cândido saltou sobre Arminda. Eles se bateram e ela lhe diz suplicando: "estou grávida, me solte, eu serei sua escrava". De fato, no sistema escravagista, também era uso que os indivíduos escondessem e conservassem para seus próprios serviços escravos fugidos pertencentes a terceiros. Cândido recusou e arrastou-a até a casa de seu senhor que morava em um bairro próximo. Machado descreveu bem a seqüência da cena e os leitores desse conto publicado em um jornal da época não tinham nenhuma dificuldade para seguir os itinerários.

Na medida em que eles se aproximavam da casa do senhor, Arminda reagiu ainda mais, ela se debatia e terminou por abortar na entrada da casa. O proprietário de Arminda chegou e deu a recompensa a Cândido. Esse voltou com o dinheiro e, após um pequeno suspense, recuperou seu nenê.

Sucintamente, chegando na casa dele, viu a tia de sua mulher e contou-lhe o que se passou. É interessante porque aqui a mãe não está presente, é um diálogo em que a mãe não intervém mais, somente a tia. Ele conta-lhe a história de Arminda e de seu aborto.

O narrador do texto é um elemento importante para a construção da ironia nesta narrativa. Em terceira pessoa, como já citado aqui, a sua perspectiva aproxima o leitor do tempo e do espaço através de relatos históricos sobre os fatos que envolviam a escravidão, como na descrição das crueldades das quais os escravos eram vítimas. Pareciam ser transformados em coisas, deixando de ser humanos. Por exemplo, quando fugiam “grande parte era apenas repreendida; havia alguém em casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, por que dinheiro também dói”. O escravo, essa coisa, objeto, mesmo quando fugisse, não poderia sofrer muitos castigos, já que estes poderiam impedi-lo de prestar os serviços necessários a seu senhor, inutilizando-o, causando assim, grande prejuízo.

Quando o narrador comenta “nem todos gostavam da escravidão” e “nem todos gostavam de apanhar pancadas”, qual pessoa gostaria de viver em completa escravidão, à mercê dos mandos e desmandos de alguém e, ainda por cima, levar algumas pancadas? Com sua ironia, parece que é ele, quem dá uma pancada no sistema de escravatura.

A questão da intertextualidade nos textos machadianos com outros textos, pode-se perceber através do processo de construção da personagem principal, Cândido, que do latim significa “alvo”, “puro”, “imaculado”. Nome que foi grandemente popularizado pelo título de um livro de Voltaire, sátira ao otimismo de Leibniz, então em voga, que diz que nos encontramos no melhor dos mundos possíveis. É pertinente a comparação do Cândido de Voltaire e o de Machado, já que ambos são responsáveis por ironizar uma idéia vigente ou um sistema: um o otimismo desenfreado; e outro, o sistema da escravidão em que negros são tratados como objetos e não como seres humanos. Podemos dizer que os dois Cândidos estão longe de demonstrar que o mundo em que vivem é o melhor dos mundos possíveis.

O protagonista da obra de Voltaire é também chamado Cândido, o otimista, já que atravessa um sem fim de desventuras e sempre busca encontrar o lado positivo da situação, seguindo os ensinamentos de seu mestre Panglós. O seu caráter é o reflexo de sua alma, é sensível, apaziguador e sensato: “o seu rosto era o espelho da alma. Era de entendimento claro e espírito simples; e foi essa a razão por que lhe deram o nome de Cândido. Aqui pode-se dizer que reside a ironia do Cândido machadiano, pois seu caráter não revela nenhuma candura, antes pelo contrário mostra-se insensível ao aborto da escrava, é extremamente desumano arrastando-a pelas ruas até a casa do seu senhor, pois o que realmente importa para ele é conseguir alcançar o seu propósito, que é ficar com o seu filho. O egoísmo é sua marca principal.

A idéia de progresso e perfeição na citada obra de Voltaire está basicamente ligada ao trabalho: “quando o homem foi posto no jardim do Éden, foi ali posto para trabalhar, ut opereratur eum, o que prova que não foi criado para repouso”. Voltaire faz um homem tornar-se perfeito, além de dar-lhe melhores condições de vida, ou seja, ninguém é realmente feliz até que comece a trabalhar. Extremamente irônico, Machado constrói um Cândido que tem uma aversão ao trabalho, para ele todo oficio é custoso, além disso, muitas vezes, quem trabalha não recebe o que merece. Assim seus “empregos foram deixados pouco depois de obtidos". Então lhe restou o oficio de pegar escravos fugidos, já que este estava destinado aos inaptos para outros trabalhos, como era o seu caso. Ele, porém, tinha necessidade de estabilidade, e considerava isso má sorte ou infelicidade constante, ao contrário do Cândido de Voltaire, sempre otimista. Este, todavia, no fim da obra, aceita que é mais importante a ação sobre a reflexão filosófica. Melhor que ficar pensando nos dramas existenciais é colocar-se a trabalhar, pois só o trabalho pode ser o remédio para muitos males, o que não pensa o Candinho de Machado.

É conveniente também citar a ironia presente na construção de duas personagens do conto. Clara, cujo nome do latim significa “brilhante”, “luzente”, “ilustre”, além da tonalidade, seu nome é ligado ao brilho (de distinção). Distinção essa não revelada por sua personalidade que mesmo em meio à perda de seu filho, não esboça nenhuma reação e é sempre submissa aos desmandos da tia. Mônica, a tia, significa só, sozinha, viúva, o que não acontece no texto, pois está, geralmente, perto do casal, abrigando-os, participando de suas decisões, opinando, não fica sozinha, vive em companhia dos dois.

Para dar verossimilhança aos fatos e reforçar a ironia à escravatura e à diminuição dos seres, o espaço ambiente, na cidade do Rio de Janeiro, é fundamental, pois sabe-se que os nomes das ruas em que se desenrola a ação, são nomes reais, e que muitos são os mesmos até hoje. Fato que torna essa narrativa extremamente passível de verossimilhança externa.

Machado de Assis apresenta um pessimismo, cuja fonte está em Schopenhauer, pensador alemão, que afirmava que a essência do universo é a vontade ou o querer, entidade da qual emana a parte verdadeira dos indivíduos. Mas a vontade, tanto em estado cósmico quanto individual, é má, pois provoca a agitação, o egoísmo, o ciúme. Por isso a personagem principal age como age, coloca a sua vontade de continuar com o filho acima de qualquer outra coisa, por isso é levado a agir com egoísmo, luta corpo a corpo com a escrava para poder entregá-la a seu senhor, e receber o dinheiro da recompensa, sem ao menos pensar que poderia agir de outra forma para não maltratá-la, já que estava grávida.

Vladimir Propp, em Morfologia do conto maravilhoso, relaciona trinta e uma funções ao estudar, pormenorizadamente, contos populares russos, porém, identificam-se algumas destas facilmente neste conto de Machado de Assis. Através delas pode-se perceber como se desenrolou a ação da personagem principal, dentro de um enredo curto, sendo ele um pai que vai lutar para continuar com seu filho, a ironia aqui consiste em não ser a mãe a responsável por essa luta, já que em nossa concepção, a mãe é mais ligada ao filho, por isso mais difícil perdê-lo.

Na função "afastamento", pode-se salientar a tentativa de Candinho em deixar o ócio em que vivia e aprender um ofício, já que agora estava apaixonado por Clara e queria ter em que trabalhar quando casasse.

Na função definida como "ardil", o Cândido Neves sofreu com as interferências da Tia Mônica que era contra o casamento da sobrinha com a nossa personagem e também das amigas de Clara que “tentaram arredá-la do passo que ia dar”.

Na função que trata da reação do herói, Candinho ficou muito triste por que agora ele tinha um filho para sustentar, as dificuldades aumentaram e ele, que agora virara caçador de escravos fugitivos, não conseguia empreitada que lhe rendesse algum dinheiro.

Em outra função, o herói luta para conquistar um objeto, quando a nossa personagem descobriu em suas notas de escravos fugidos o anúncio da fuga de uma mulata em que a gratificação subia a cem mil-réis, achar a escrava seria a salvação, não teria que entregar seu filho à roda de enjeitados como queria a tia de sua mulher: “...agora, porém, a vista nova da quantia e a necessidade dela animaram Cândido Neves. Saiu de manhã a ver e indagar...”.

Pode-se salientar também a presença da função definida como "perseguição" quando Cândido, ao ir entregar seu filho, encontrou por acaso a escrava fugitiva, deixou o filho em uma farmácia e saiu em sua perseguição: “atravessou a rua, até o ponto em que pudesse pegar a mulher sem dar alarma”.

Em outra função, a tarefa é realizada e o herói é reconhecido. A nossa personagem captura a escrava, entrega-a a seu dono, e recebe a recompensa e volta para casa entre lágrimas com seu filho nos braços. Tia Mônica que não queria saber da criança, ouve a explicação e perdoa a volta do pequeno, uma vez que ele trazia um bom dinheiro para a subsistência da família.

Tendo em vista os aspectos observados, acredita-se que Machado ao construir este conto utilizou elementos que acetuam o tom irônico de suas palavras.

Machado de Assis

Angústia, de Anton Tchekhov


Angústia, de Anton Tchekhov

A quem confiar minha tristeza?(1)
Crepúsculo vespertino. Uma neve úmida, em grandes flocos, remoinha preguiçosa junto aos lampiões recém-acesos, cobrindo com uma camada fina e macia os telhados das casas, os dorsos dos cavalos, os ombros das pessoas, os chapéus. O cocheiro Iona Potapov está completamente branco, como um fantasma. Encolhido o mais que pode se encolher um corpo vivo, está sentado na boléia, sem se mover.

Tem-se a impressão de que, mesmo que caísse sobre ele um montão de neve, não consideraria necessário sacudi-la... Seu rocim está igualmente branco e imóvel. Graças a sua imobilidade, à angulosidade das formas e à perpendicularidade de estaca de suas patas, parece mesmo, de perto, um cavalinho de pão-de-ló de um copeque. Seguramente, ele está imerso em meditação.
Não pode deixar de meditar quem foi arrancado do arado, da paisagem cinzenta e familiar, e atirado nessa voragem, repleta de luzes monstruosas, de um barulho incessante e de gente correndo...
Faz muito tempo que Iona e seu rocim não se mexem do lugar. Saíram de casa ainda antes do jantar, e, até agora, não apareceu trabalho. Mas, eis que a treva noturna desce sobre a cidade. A palidez das luzes dos lampiões cede lugar a cores vivas e a confusão das ruas torna-se mais barulhenta.
- Cocheiro, para a Víborgskaia! - ouve Iona. - Cocheiro!
Estremece e vê, através das pestanas cobertas de neve, um militar de capote com capuz.
- Para a Viborgskaia! - repete o militar. - Está dormindo? Para a Víborgskaia!
Em sinal de consentimento, Iona puxa as rédeas, e a neve cai em camadas de seus ombros e do dorso do cavalo...
O militar senta-se no trenó. O cocheiro faz ruído com os lábios, estende o pescoço à feição de cisne, ergue-se um pouco e agita o chicote, mais por hábito que por necessidade. O cavalinho estica também o pescoço, entorta as pernas, que parecem estacas, e desloca-se com indecisão...
- Onde vai, demônio?! - ouve, logo depois, Iona exclamações partidas da massa escura de gente, que se desloca em ambos os sentidos. - Para onde te empurram os diabos? Mantenha-se à direita!
- Não sabe dirigir! Olha a direita - zanga-se o militar.
O cocheiro de uma carruagem solta impropérios; um transeunte, que atravessou a rua correndo e chocou-se com o ombro contra a cara do rocim, lança um olhar rancoroso e sacode a neve da manga. Na boléia, Iona parece sentado sobre alfinetes e aponta com os cotovelos para os lados; seus olhos tontos perpassam pelas coisas, como se não compreendesse onde se encontra e o que está fazendo ali.
- Que gente canalha! - graceja o militar. - Eles se esforçam em chocar-se contra você ou cair embaixo do cavalo.
Combinaram isso.
Iona volta-se para o passageiro e move os lábios...
Sem dúvida, quer dizer algo, mas apenas uns sons vagos lhe saem da garganta.
- O quê? - pergunta o militar.
Iona torce a boca num sorriso, faz um esforço com a garganta e cicia:
- Pois é, meu senhor, assim é... perdi um filho esta semana.
- Hum!... De que foi que morreu?
Iona volta todo o corpo na direção do passageiro e diz:
- Quem é que pode saber! Acho que foi de febre... Passou três dias no hospital e morreu... Deus quis.
- Dá a volta, diabo! - ressoa nas trevas uma voz. - Não está mais enxergando, cachorro velho? É com os olhos que tem que olhar!
- Anda, anda... - diz o passageiro. - Assim, não chegamos nem amanhã. Mais depressa!
O cocheiro estica novamente o pescoço, ergue-se um pouco e agita o chicote, com uma graciosidade pesada. Depois, torna a olhar algumas vezes para o passageiro, mas este fechou os olhos e parece pouco disposto a ouvir. Depois de deixá-lo na Víborgskaia, pára diante de uma taverna, encurva-se sobre a boléia e fica novamente imóvel... A neve molhada torna a pintá-lo de branco, juntamente com o rocim. Decorre uma hora... outra...
Três jovens passam pela calçada, fazendo muito barulho com as galochas e trocando impropérios: dois deles são altos e magros, o terceiro é pequeno e corcunda.
- Cocheiro, para a Ponte Politzéiski! - grita o corcunda, com voz surda. - Damos vinte copeques... os três!
Iona sacode as rédeas e faz ruído com os lábios. Vinte copeques são um preço inadequado, mas, agora, pouco lhe importa o preço... Tanto faz seja um rublo ou cinco copeques, contanto que haja passageiros... Empurrando-se e soltando palavrões, os jovens acercam-se do trenó e sobem para os assentos, os três ao mesmo tempo. Começam a discutir a questão: dois deles irão sentados, e quem vai ficar de pé?
Depois de uma longa troca de insultos, manhas e recriminações, chegam à conclusão de que o corcunda é quem deve ficar de pé, por ser o menor.
- Bem, faz o cavalo andar! - grita com voz trêmula o corcunda, ajeitando-se de pé e soprando no pescoço de Iona. - Dá nele! Que chapéu você tem, irmão! Não se encontra um pior em toda Petersburgo...
- Hi-i... hi-i... - ri Iona. - Assim é...
- Ora, você assim é, bate no cavalo! Vai andar desse jeito o tempo todo? Sim? E se eu te torcer o pescoço?
- Estou com a cabeça estalando... - diz um dos moços compridos. - Ontem, em casa dos Dukmassov, eu e Vaska(2) tornamos quatro garrafas de conhaque.
Não compreendo para que mentir! - irrita-se o outro moço comprido. - Mente como um animal.
- Que Deus me castigue, é verdade...
- Tão verdade como um piolho tossindo.
- Hi-i! - ri Iona entre dentes. - Que senhores alegres!
- Irra, com todos os diabos!... - indigna-se o corcunda. - Você vai andar ou não, velha peste? É assim que se anda? Estala o chicote no cavalo! Eh, diabo! Eh! Dá nele!
Iona sente, atrás de si, o corpo agitado e a voz trêmula do corcunda. Ouve os insultos que lhe são dirigidos, vê gente, e o sentimento de solidão começa, pouco a pouco, a deixar-lhe o peito. O corcunda continua os impropérios e, por fim, engasga com um insulto rebuscado, descomunal, e desanda a tossir. Os moços compridos começam a falar de uma certa Nadiejda Pietrovna. Iona volta a cabeça para olhá-los. Aproveitando uma pausa curta, olha mais uma vez e balbucia:
- Esta semana... assim, perdi meu filho!
- Todos vamos morrer. - suspira o corcunda, enxugando os lábios, após o acesso de tosse. - Bem, bate nele, bate nele! Minha gente, decididamente, não posso continuar andando assim! Esta corrida não acaba mais?
- Você deve animá-lo um pouco... umas pancadas no pescoço!
- Está ouvindo, velha peste? Vou te moer o pescoço de pancada! Não se pode fazer cerimônia com gente como você, senão é melhor andar a pé! Está ouvindo, Zmiéi Gorínitch(3)? Ou você não se importa com o que a gente diz?
E Iona ouve, mais que sente, os sons de uma pancada no pescoço.
- Hi-i... - ri ele. - Senhores alegres... que Deus lhes dê saúde!
- Cocheiro, você é casado? - pergunta um dos compridos.
Eu? Hi-i... que senhores alegres! Agora, só tenho uma mulher, a terra fria... Hi-ho-ho... O túmulo, quer dizer!... Meu filho morreu, e eu continuo vivo... Coisa esquisita, a morte errou de porta... Em vez de vir me buscar, foi procurar o filho...
E Iona volta-se, para contar como lhe morreu o filho, mas, nesse momento, o corcunda solta um suspiro de alívio e declara que, graças a Deus, chegaram ao destino. Tendo recebido vinte copeques, Iona fica por muito tempo olhando os pândegos, que vão desaparecendo no escuro saguão. Está novamente só e, de novo, o silêncio desce sobre ele... A angústia que amainara por algum tempo torna a aparecer, inflando-lhe o peito com redobrada força. Os olhos de Iona correm, inquietos e sofredores, pela multidão que se agita de ambos os lados da rua: não haverá, entre esses milhares de pessoas, uma ao menos que possa ouvi-lo? Mas a multidão corre, sem reparar nele, nem na sua angústia... Uma angústia imensa, que não conhece fronteiras. Dá a impressão de que, se o peito de Iona estourasse e dele fluísse para fora aquela angústia, daria para inundar o mundo e, no entanto, não se pode vê-la. Conseguiu caber numa casca tão insignificante, que não se pode percebê-la mesmo de dia, com muita luz...
Iona vê o zelador de uma casa, carregando um embrulho, e resolve travar conversa.
- Que horas são, meu caro? - pergunta.
- Mais de nove... Por que você parou aqui? Passa!
Iona afasta-se alguns passos, torce o corpo e entrega-se à angústia... Considera já inútìl dirigir-se às pessoas. Mas, decorridos menos de cinco minutos, endireita-se, sacode a cabeça, como se houvesse sentido uma dor aguda e puxa as rédeas... Não pode mais.
"Para casa", pensa, "para casa".
E o cavalinho, como se tivesse compreendido seu pensamento, começa a trotar ligeiramente. Uma hora e meia depois, Iona está sentado junto ao fogão grande e sujo. Há gente roncando em cima do fogão, no chão e sobre os bancos. O ar é abafado, sufocante... Iona olha para os que dormem, coça a cabeça e lamenta haver voltado tão cedo para casa...
"Não ganhei nem para a aveia", pensa. "Daí essa angústia. Uma pessoa que conhece o ofício... que está bem alimentada e tem o cavalo bem nutrido também, está sempre calma..."
Num dos cantos, levanta-se um jovem cocheiro, funga, sonolento, e arrasta-se para o balde d'água.
- Ficou com sede? - pergunta Iona.
- Com sede, sim!
- Bem... Que lhe faça proveito... Pois é, irmão, e eu perdi um filho... Está ouvindo? Foi esta semana, no hospital... Que coisa!
Iona procura ver o efeito que causaram suas palavras, mas não vê nada. O jovem se cobriu até a cabeça e já está dormindo. O velho suspira e se coça... Assim como o jovem quis beber, assim ele quer falar. Vai fazer uma semana que lhe morreu o filho e ele ainda não conversou direito com alguém sobre aquilo... É preciso falar com método, lentamente...
É preciso contar como o filho adoeceu, como padeceu, o que disse antes de morrer e como morreu... É preciso descrever o enterro e a ida ao hospital, para buscar a roupa do defunto. Na aldeia, ficou a filha Aníssia... É preciso falar sobre ela também... De quantas coisas mais poderia falar agora? O ouvinte deve soltar exclamações, suspirar, lamentar... E é ainda melhor falar com mulheres. São umas bobas, mas desandam a chorar depois de duas palavras.
"É bom ir ver o cavalo", pensa Iona. "Sempre há tempo para dormir..."
Veste-se e vai para a cocheira, onde está seu cavalo. Iona pensa sobre a aveia, o feno, o tempo... Estando sozinho, não pode pensar no filho... Pode-se falar sobre ele com alguém, mas pensar nele sozinho, desenhar mentalmente sua imagem, dá um medo insuportável...
Está mastigando? - pergunta Iona ao cavalo, vendo seus olhos brilhantes. - Ora, mastiga, mastiga... Se não ganhamos para a aveia, vamos comer feno... Sim... Já estou velho para trabalhar de cocheiro... O filho é que devia trabalhar, não eu... Era um cocheiro de verdade... Só faltou viver mais...
Iona permanece algum tempo em silêncio e prossegue:
- Assim é, irmão, minha egüinha... Não existe mais Kuzmá Iônitch... Foi-se para o outro mundo... Morreu assim, por nada... Agora, vamos dizer, você tem um potrinho, que é teu filho... E, de repente, vamos dizer, esse mesmo potrinho vai para o outro mundo... Dá pena, não é verdade?
O cavalinho vai mastigando, escuta e sopra na mão de seu amo... Iona anima-se e conta-lhe tudo...
_____________________________________________________________________________
(1). Versículo de um canto da Igreja Russa.
(2). Diminutivo de Vassíli.
(3). Nas lendas russas, um dragão que repreeenta o mal. No entanto, o nome Gorínitch dá também idéia de tristeza, aflição.
(1886).
Tradução: Boris Schnaidermann

Charles Baudelaire: Os olhos dos pobres

Os olhos dos pobres


Quer saber por que a odeio hoje? Sem dúvida lhe será mais fácil compreendê-lo do que a mim explicá-lo; pois acho que você é o mais belo exemplo da impermeabilidade feminina que se possa encontrar.

Tínhamos passado juntos um longo dia, que a mim me pareceu curto. Tínhamos nos prometido que todos os nossos pensamentos seriam comuns, que nossas almas, daqui por diante, seriam uma só; sonho que nada tem de original, no fim das contas, salvo o fato de que, se os homens o sonharam, nenhum o realizou.
De noite, um pouco cansada, você quis se sentar num café novo na esquina de um bulevar novo, todo sujo ainda de entulho e já mostrando gloriosamente seus esplendores inacabados. O café resplandecia. O próprio gás disseminava ali todo o ardor de uma estréia e iluminava com todas as suas forças as paredes ofuscantes de brancura, as superfícies faiscantes dos espelhos, os ouros das madeiras e cornijas, os pajens de caras rechonchudas puxados por coleiras de cães, as damas rindo para o falcão em suas mãos, as ninfas e deusas portando frutos na cabeça, os patês e a caça, as Hebes e os Ganimedes estendendo a pequena ânfora de bavarezas, o obelisco bicolor dos sorvetes matizados; toda a história e toda a mitologia a serviço da comilança.

Plantado diante de nós, na calçada, um bravo homem dos seus quarenta anos, de rosto cansado, barba grisalha, trazia pela mão um menino e no outro braço um pequeno ser ainda muito frágil para andar. Ele desempenhava o ofício de empregada e levava as crianças para tomarem o ar da tarde. Todos em farrapos. Estes três rostos eram extraordinariamente sérios e os seis olhos contemplavam fixamente o novo café com idêntica admiração, mas diversamente nuançada pela idade.

Os olhos do pai diziam: "Como é bonito! Como é bonito! Parece que todo o ouro do pobre mundo veio parar nessas paredes." Os olhos do menino: "Como é bonito, como é bonito, mas é uma casa onde só entra gente que não é como nós." Quanto aos olhos do menor, estavam fascinados demais para exprimir outra coisa que não uma alegria estúpida e profunda.

Dizem os cancionistas que o prazer torna a alma boa e amolece o coração. Não somente essa família de olhos me enternecia, mas ainda me sentia um tanto envergonhado de nossas garrafas e copos, maiores que nossa sede. Voltei os olhos para os seus, querido amor, para ler neles meu pensamento; mergulhava em seus olhos tão belos e tão estranhamente doces, nos seus olhos verdes habitados pelo Capricho e inspirados pela Lua, quando você me disse: "Essa gente é insuportável, com seus olhos abertos como portas de cocheira! Não poderia pedir ao maître para os tirar daqui?"
Como é difícil nos entendermos, querido anjo, e o quanto o pensamento é incomunicável, mesmo entre pessoas que se amam!

O GATO PRETO (Por Edgar Allan Poe )

O GATO PRETO (Por Edgar Allan Poe )

Não espero nem solicito o crédito do leitor para a tão extraordinária e no entanto tão familiar história que vou contar. Louco seria esperá-lo, num caso cuja evidência até os meus próprios sentidos se recusam a aceitar. No entanto não estou louco, e com toda a certeza que não estou a sonhar. Mas porque posso morrer amanhã, quero aliviar hoje o meu espírito. O meu fim imediato é mostrar ao mundo, simples, sucintamente e sem comentários, uma série de meros acontecimentos domésticos. Nas suas consequências, estes acontecimentos aterrorizaram-me, torturaram-me, destruíram-me. No entanto, não procurarei esclarecê-los. O sentimento que em mim despertaram foi quase exclusivamente o de terror; a muitos outros parecerão menos terríveis do que extravagantes. Mais tarde, será possível que se encontre uma inteligência qualquer que reduza a minha fantasia a uma banalidade. Qualquer inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que a minha encontrará tão somente nas circunstâncias que relato com terror uma sequência bastante normal de causas e efeitos.

Já na minha infância era notado pela docilidade e humanidade do meu carácter. Tão nobre era a ternura do meu coração, que eu acabava por tornar-me num joguete dos meus companheiros. Tinha uma especial afeição pelos animais e os meus pais permitiam-me possuir uma grande variedade deles. Com eles passava a maior parte do meu tempo e nunca me sentia tão feliz como quando lhes dava de comer e os acariciava. Esta faceta do meu carácter acentuou-se com os anos, e, quando homem, aí achava uma das minhas principais fontes de prazer. Quanto àqueles que já tiveram uma afeição por um cão fiel e sagaz, escusado será preocupar-me com explicar-lhes a natureza ou a intensidade da compensação que daí se pode tirar. No amor desinteressado de um animal, no sacrifício de si mesmo, alguma coisa há que vai direito ao coração de quem tão frequentemente pôde comprovar a amizade mesquinha e a frágil fidelidade do homem.

Casei jovem e tive a felicidade de achar na minha mulher uma disposição de espírito que não era contrária à minha. Vendo o meu gosto por animais domésticos, nunca perdia a oportunidade de me proporcionar alguns exemplares das espécies mais agradáveis. Tínhamos pássaros, peixes dourados, um lindo cão, coelhos, um macaquinho, e um gato.

Este último era um animal notavelmente forte e belo, completamente preto e excepcionalmente esperto. Quando falávamos da sua inteligência, a minha mulher, que não era de todo impermeável à superstição, fazia frequentes alusões à crença popular que considera todos os gatos pretos como feiticeiras disfarçadas. Não quero dizer que falasse deste assunto sempre a sério, e se me refiro agora a isto não é por qualquer motivo especial, mas apenas porque me veio à ideia.

Plutão, assim se chamava o gato, era o meu amigo predilecto e companheiro de brincadeiras. Só eu lhe dava de comer e seguia-me por toda a parte, dentro de casa. Era até com dificuldade que conseguia impedir que me seguisse na rua.

A nossa amizade durou assim vários anos, durante os quais o meu temperamento e o meu carácter sofreram uma alteração radical - envergonho-me de o confessar - para pior, devido ao demónio da intemperança. De dia para dia me tornava mais taciturno, mais irritável, mais indiferente aos sentimentos dos outros. Permitia-me usar de uma linguagem brutal com minha mulher. Com o tempo, cheguei até a usar de violência. Evidentemente que os meus pobres animaizinhos sentiram a transformação do meu carácter. Não só os desprezava como os tratava mal. Por Plutão, porém, ainda nutria uma certa consideração que me não deixava maltratá-lo. Quanto aos outros, não tinha escrúpulos em maltratar os coelhos, o macaco e até o cão, quando por acaso ou por afeição se atravessavam no meu caminho.

Mas a doença tomava conta de mim - pois que doença se assemelha à do álcool? - e, por fim, até o próprio Plutão, que estava a ficar velho e, por consequência, um tanto impertinente, até o próprio Plutão começou a sentir os efeitos do meu carácter perverso.

Certa noite, ao regressar a casa, completamente embriagado, de volta de um dos tugúrios da cidade, pareceu-me que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele, horrorizado com a violência do meu gesto, feriu-me ligeiramente na mão com os dentes. Uma fúria dos demónios imediatamente se apossou de mim. Não me reconhecia. Dir-se-ia que a minha alma original se evolara do meu corpo num instante e uma ruindade mais do que demoníaca, saturada de genebra, fazia estremecer cada uma das fibras do meu corpo. Tirei do bolso do colete um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pelo pescoço e, deliberadamente, arranquei-lhe um olho da órbita! Queima-me a vergonha e todo eu estremeço ao escrever esta abominável atrocidade.

Quando, com a manhã, me voltou a razão, quando se dissiparam os vapores da minha noite de estúrdia, experimentei um sentimento misto de horror e de remorso pelo crime que tinha cometido. Mas era um sentimento frágil e equívoco e o meu espírito continuava insensível. Voltei a mergulhar nos excessos, e depressa afoguei no álcool toda a recordação do acto.

Entretanto, o gato curou-se lentamente. A órbita agora vazia apresentava, na verdade, um aspecto horroroso, mas o animal não aparentava qualquer sofrimento. Vagueava pela casa como de costume, mas, como seria de esperar, fugia aterrorizado quando eu me aproximava. Porém, restava-me ainda o suficiente do meu velho coração para me sentir agravado por esta evidente antipatia da parte de um animal que outrora tanto gostara de mim. Em breve este sentimento deu lugar à irritação. E para minha queda final e irrevogável, o espírito da PERVERSIDADE fez de seguida a sua aparição. Deste espírito não cura a filosofia. No entanto, não estou mais certo da existência da minha alma do que do facto que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano; uma dessas indivisas faculdades primárias, ou sentimentos, que deu uma direcção ao carácter do homem. Quem se não surpreendeu já uma centena de vezes cometendo uma acção néscia ou vil, pela única razão de saber que a não devia cometer? Não temos nós uma inclinação pperpétua, pese ao melhor do nosso juízo, para violar aquilo que constitui a Lei, só porque sabemos que o é? E digo que este espírito de perversidade surgiu para minha perda final. Foi este anseio insondável da alma por se atormentar, por oferecer violência à sua própria natureza, por fazer o mal só pelo mal, que me forçou a continuar e, finalmente, a consumar a maldade que infligi ao inofensivo animal. Certa manhã, a sangue-frio, passei-lhe um nó corredio ao pescoço e enforquei-o no ramo de uma árvore; enforquei-o com as lágrimas a saltarem-me dos olhos e com o mais amargo remorso no coração; enforquei-o porque sabia que me tinha tido afeição e porque sabia que não me tinha dado razão para a torpeza; enforquei-o porque sabia que ao fazê-lo estava cometendo um pecado, um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal a ponto de a colocar, se tal fosse possível, mesmo para além do alcance da infinita misericórdia do Deus Mais Piedoso e Mais Severo.

Na noite do próprio dia em que este acto cruel foi perpetrado, fui acordado do sono aos gritos de «Fogo!». As cortinas da minha cama estavam em chamas; toda a casa era um braseiro. Foi com grande dificuldade que minha mulher, uma criada e eu conseguimos escapar do incêndio. A destruição foi completa. Todos os meus bens materiais foram destruídos, e daí em diante mergulhei no desespero.

Sou superior à fraqueza de procurar estabelecer uma sequência de causa a efeito entre a atrocidade e o desastre. Limito-me, porém, a narrar uma cadeia de acontecimentos e não quero deixar nem um elo sequer incompleto. Nos dias que se sucederam ao incêndio, visitei as ruínas. As paredes, à excepção de uma, tinham abatido por completo. Esta excepção era constituída por um tabique interior, não muito espesso, que estava sensivelmente a meio da casa, e de encontro ao qual antes ficava a cabeceira da minha cama. O reboco resistira em grande parte à acção do fogo, facto que atribuo a ter sido pouco antes restaurado.

Próximo desta parede juntara-se uma densa multidão e muitas pessoas pareciam estar a examinar certa zona em particular, com minúcia e grande atenção. A minha curiosidade foi despertada pelas palavras «estranho», «singular» e outras expressões semelhantes. Aproximei-me e vi, como se fora gravado em baixo revelo, sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem estava desenhada com uma precisão realmente espantosa. Em volta do pescoço do animal estava uma corda.

Mal vi a aparição, pois nem podia pensar que doutra coisa se tratasse, o meu assombro e o meu terror foram imensos. Por fim, a reflexão veio em meu auxílio. Lembrei-me que o gato fora enforcado num jardim junto à casa. Após o alarme de incêndio, O dito jardim fora imediatamente invadido pela multidão e por alguém que deve ter cortado a corda do gato e o deve ter lançado para dentro do meu quarto, por uma janela aberta. Isto deve ter sido feito, provavelmente, com a intenção de me acordar. A queda das outras paredes tinha comprimido a vítima da minha crueldade na substância do reboco recentemente aplicado e cuja cal, combinada com as chamas e o amoníaco do cadáver, tinha produzido a imagem tal como eu a via.

Tendo assim satisfeito prontamente a minha razão - que não totalmente a minha consciência - sobre o facto extraordinário atrás descrito, não deixou este, no entanto, de causar profunda impressão na minha imaginação. Durante meses não consegui libertar-me do fantasma do gato, e, durante este período, voltou-me ao espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, mas que o não era. Cheguei ao ponto de lamentar a perda do animal e a procurar à minha volta, nos sórdidos tugúrios que agora frequentava com assiduidade, um outro animal da mesma espécie e bastante parecido que preenchesse o seu lugar.

Uma noite, estava eu sentado meio aturdido num antro mais do que infamante, a minha atenção foi despertada por um objecto preto que repousava no topo de um dos enormes toneis de gin ou de rum que constituíam o principal mobiliário do compartimento. Havia minutos que olhava para a parte superior do tonel, e o que agora me causava surpresa era o facto de não me ter apercebido mais cedo do objecto que estava em cima. Aproximei-me e toquei-lhe com a mão. Era um gato preto, um gato enorme, tão grande como Plutão e semelhante a ele em todos os aspectos menos num. Plutão não tinha sequer um único pêlo branco no corpo, enquanto este gato tinha uma mancha branca, grande mas indefinida, que lhe cobria toda a região do peito.

Quando lhe toquei, imediatamente se levantou e ronronou com força, roçou-se pela minha mão, e parecia contente por o ter notado. Era este, pois, o animal que eu procurava. Imediatamente propus a compra ao dono, mas este nada tinha a reclamar pelo animal, nada sabia a seu respeito, nunca o tinha visto até então.

Continuei a acariciá-lo, e quando me preparava para ir para casa, o animal mostrou-se disposto a acompanhar-me. Permiti que o fizesse, inclinando-me de vez em quando para o acariciar enquanto caminhava. Quando chegou a casa, adaptou-se logo e logo se tornou muito amigo da minha mulher

Pela minha parte, não tardou em surgir em mim uma antipatia por ele. Era exactamente o reverso do que eu esperava, mas, não sei como nem porquê, a sua evidente ternura por mim desgostava-me e aborrecia-me. Lentamente, a pouco e pouco, esses sentimentos de desgosto e de aborrecimento transformaram-se na amargura do ódio. Evitava o animal; um certo sentimento de vergonha e a lembrança do meu anterior acto de crueldade impediram-me de o maltratar fisicamente. Abstive-me, durante semanas, de o maltratar ou exercer sobre ele qualquer violência, mas, gradualmente, muito gradualmente, cheguei a nutrir por ele um horror indizível e a fugir silenciosamente da sua odiosa presença como do bafo da peste.

O que aumentou, sem dúvida, o meu ódio pelo animal foi descobrir, na manhã do dia seguinte a tê-lo trazido para casa, que, tal como Plutão, tinha também sido privado de um dos seus olhos. Esta circunstância, contudo, mais afeição despertou na minha mulher, que, como já disse, possuía em alto grau aquele sentimento de humanidade que fora em tempos característica minha e a fonte de muitos dos meus prazeres mais simples e mais puros.

Com a minha aversão pelo gato parecia crescer nele a sua preferência por mim. Seguia os meus passos com uma pertinácia que seria difícil fazer compreender ao leitor. Sempre que me sentava, enroscava-se debaixo da minha cadeira ou saltava-me para os joelhos, cobrindo-me com as suas repugnantes carícias. Se me levantava para caminhar, metia-se-me entre os pés e quase me fazia cair ou, fincando as suas garras compridas e aguçadas no meu roupão, trepava-me até ao peito. Em tais momentos, embora a minha vontade fosse matá-lo com uma pancada, era impedido de o fazer, em parte pela lembrança do meu crime anterior mas, principalmente, devo desde já confessá-lo, por um verdadeiro medo do animal.

Este medo não era exactamente o receio de um mal físico; no entanto, é me difícil defini-lo de outro modo. Quase me envergonhava admitir - sim, mesmo aqui, nesta cela de malfeitor, eu me envergonho de admitir - que o terror e o horror que o animal me infundia se viam acrescidos de uma das fantasias mais perfeitas que é possível conceber. Minha mulher tinha-me chamado várias vezes a atenção para o aspecto da mancha de pêlo branco de que já falei, e que era a única diferença aparente entre o estranho animal e aquele que eu tinha eliminado. O leitor lembrar-se-á que esta marca, embora grande, era, originariamente, bastante indefinida, mas, gradualmente, por fases quase imperceptíveis e que durante muito tempo a minha razão lutou por rejeitar como fantasiosas, assumira, finalmente, uma rigorosa nitidez de contornos. Era agora a imagem de um objecto que me repugna mencionar, e por isso eu o odiava e temia acima de tudo, e ter-me-ia visto livre do monstro se o ousasse. Era agora a imagem de uma coisa abominável e sinistra: a imagem da forca!, oh!, lúgubre e terrível máquina de horror e de crime, de agonia e de morte. Por essa altura, eu era, na verdade, um miserável maior do que toda a miséria humana. E um bruto animal cujo semelhante eu destruíra com desprezo, um bruto animal a comandar-me, a mim, um homem, feito à imagem do Altíssimo - oh!, desventura insuportável. Ah, nem de dia nem de noite, nunca, oh!, nunca mais, conheci a bênção do repouso! Durante o dia o animal não me deixava um só momento. De noite, a cada hora, quando despertava dos meus sonhos cheios de indefinível angústia, era para sentir o bafo quente daquela coisa sobre o meu rosto e o seu peso enorme, incarnação de um pesadelo que eu não tinha forças para afastar, pesando-me eternamente sobre o coração.

Sob a pressão de tormentos como estes, os fracos resquícios do bem que havia em mim desapareceram. Só os pensamentos pecaminosos me eram familiares - os mais sombrios e os mais infames dos pensamentos. A tristeza do meu temperamento aumentou até se tornar em ódio a tudo e à humanidade inteira. Entretanto, a minha dedicada mulher era a vítima mais usual e paciente das súbitas, frequentes e incontroláveis explosões de fúria a que então me abandonava cegamente.

Um dia acompanhou-me, por qualquer afazer doméstico, à cave do velho edifício onde a nossa pobreza nos forçava a habitar. O gato seguiu-me nas escadas íngremes e quase me derrubou, o que me exasperou até à loucura. Apoderei-me de um machado, e desvanecendo-se na minha fúria o receio infantil que até então tinha detido a minha mão, desferi um golpe sobre o animal, que seria fatal se o tivesse atingido como eu queria. Mas o golpe foi sustido diabólicamente pela mão da minha mulher. Enraivecido pela sua intromissão, libertei o braço da sua mão e enterrei-lhe o machado no crânio. Caiu morta, ali mesmo, sem um queixume.

Consumado este horrível crime, entreguei-me de seguida, com toda a determinação, à tarefa de esconder o corpo. Sabia que não o podia retirar de casa, quer de dia quer de noite, sem correr o risco de ser visto pelos vizinhos. Muitos projectos se atropelaram no meu cérebro. Em dado momento, cheguei a pensar em cortar o corpo em pequenos pedaços e destruí-los um a um pelo fogo. Noutro, decidi abrir uma cova no chão da cave. Depois pensei deitá-lo ao poço do jardim, ou metê-lo numa caixa como qualquer vulgar mercadoria e arranjar um carregador para o tirar de casa. Por fim, detive-me sobre o que considerei a melhor solução de todas. Decidi emparedá-lo na cave como, segundo as narrativas, faziam os monges da Idade Média às suas vítimas.

A cave parecia convir perfeitamente aos meus intentos. As paredes não tinham sido feitas com os acabamentos do costume e, recentemente, tinham sido todas rebocadas com uma argamassa grossa que a humidade ambiente não deixara endurecer. Além do mais, numa das paredes havia uma saliência causada por uma chaminé falsa ou por uma lareira que tinha sido entaipada para se assemelhar ao resto da cave. Não duvidei que me seria fácil retirar os tijolos neste ponto, meter lá dentro o cadáver e tornar a pôr a taipa como antes, de modo que ninguém pudesse lobrigar qualquer sinal suspeito.

Não me enganei nos meus cálculos. Com o auxílio de um pé-de-cabra retirei facilmente os tijolos, e depois de colocar cuidadosamente o corpo de encontro à parede interior, mantive-o naquela posição ao mesmo tempo que, com um certo trabalho, devolvia a toda a estrutura o seu aspecto primitivo.

Usando de toda a precaução, procurei argamassa, areia e fibras com que preparei um reboco que se não distinguia do antigo e, com o maior cuidado, cobri os tijolos. Quando terminei, vi com satisfação que tudo estava certo. A parede não denunciava o menor sinal de ter sido mexida. Com o maior escrúpulo, apanhei do chão os resíduos. Olhei em volta, triunfante, e disse para comigo: "Aqui, pelo menos, não foi infrutífero o meu trabalho."

A seguir procurei o animal que tinha sido a causa de tanta desgraça, pois que, finalmente, tinha resolvido matá-lo. Se o tivesse encontrado naquele momento, era fatal o seu destino. Mas parecia que o astuto animal se alarmara com a violência da minha cólera anterior e evitou aparecer-me na frente, dado o meu estado de espírito. É impossível descrever ou imaginar a intensa e aprazível sensação de alívio que a ausência do detestável animal me trouxe. Não me apareceu durante toda a noite, e deste modo, pelo menos por uma noite, desde que o trouxera para casa, dormi bem e tranquilamente; sim, dormi, mesmo com o crime a pesar-me na consciência.

Passaram-se o segundo e terceiro dias e o meu verdugo não aparecia. Mais uma vez respirei como um homem livre. O monstro, aterrorizado, tinha abandonado a casa para sempre! Nunca mais voltaria a vê-lo!

Suprema felicidade a minha! A culpa da acção tenebrosa inquietava-me pouco. Fizeram-se alguns interrogatórios que colheram respostas satisfatórias. Fez-se inclusivamente uma busca, mas, naturalmente, nada se descobriu. Dava como certa a minha felicidade futura.

No quarto dia após o crime, surgiu inesperadamente em minha casa um grupo de agentes da Polícia que procederam a uma rigorosa busca. Eu, porém, confiado na impenetrabilidade do esconderijo, não sentia qualquer embaraço. Os agentes quiseram que os acompanhasse na sua busca. Não deixaram o mínimo escaninho por investigar. Por fim, pela terceira ou quarta vez, desceram à cave. Nem um músculo me tremeu. O meu coração batia calmamente como o coração de quem vive na inocência. Percorri a cave de ponta a ponta. De braços cruzados no peito, andava descontraído de um lado para o outro. Os agentes estavam completamente satisfeitos e prontos para partir. O júbilo do meu coração era demasiado intenso para que o pudesse suster. Ansiava por dizer pelo menos uma palavra à guisa de triunfo e para tornar duplamente evidente a sua convicção da minha inocência.

- Senhores - disse por fim, quando iam a subir os degraus. - Estou satisfeito por ter dissipado as vossas suspeitas. Desejo muita saúde para todos, e um pouco mais de cortesia. A propósito, esta casa está muito bem construída (e no meu furioso desejo de dizer qualquer coisa com à-vontade, mal sabia o que estava a dizer). Direi, até, que é uma casa excelentemente construída. Estas paredes... vão-se já embora, meus senhores?... Estas paredes estão solidamente ligadas. - E neste momento, por uma frenética fanfarronice, bati com força, com uma bengala que tinha na mão, na parede atrás da qual se encontrava o cadáver da minha querida esposa.

Ah!, que Deus me livre das garras do arquidemónio! Mal tinha o eco das minhas pancadas mergulhado no silêncio, quando uma voz lhes respondeu de dentro do túmulo: um gemido, a princípio abafado e entrecortado como o choro de urna criança, que depois se transformou num prolongado grito sonoro e contínuo, extremamente anormal e inumano. Um bramido, um uivo, misto de horror e de triunfo, tal como só do inferno poderia vir, provindo das gargantas conjuntas dos condenados na sua agonia e dos demónios no gozo da condenação.

Seria insensato falar dos meus pensamentos. Senti-me desfalecer e encostei-me à parede da frente. Tolhidos pelo terror e pela surpresa, os agentes que subiam a escada detiveram-se por instantes. Logo a seguir, doze braços vigorosos atacavam a parede. Esta caiu de um só golpe. O cadáver, já bastante decomposto e coberto de pastas de sangue, apareceu erecto frente aos circunstantes. Sobre a cabeça, com as vermelhas fauces dilatadas e o olho solitário chispando, estava o odioso gato cuja astúcia me compelira ao crime e cuja voz delatora me entregava ao carrasco. Eu tinha emparedado o monstro no túmulo!

Subsídios teóricos do conto–A Teoria do Conto

A Teoria do Conto

Autora: Nádia Battella Gotlib

1 A história da estória

O fio da estória

Mil e uma páginas têm sido escritas para se tentar contar a história da teoria do conto: afinal, o que é o conto? Qual a sua situação enquanto narrativa, ao lado da novela e do romance, seus parentes mais extensos? E mais: até que ponto este caráter de extensão é válido para determinar sua especificidade?

Estas questões instigam outras, mas parece que a estória é bem mais antiga que a necessidade de sua explicação.

Aliás, sob o signo da convivência, a estória sempre reuniu pessoas que contam e que ouvem: em sociedades primitivas, sacerdotes e seus discípulos, para transmissão dos mitos e ritos da tribo; nos nossos tempos, em volta da mesa, à hora das refeições, pessoas trazem notícias, trocam idéias e... contam casos. Ou perto do fogão de lenha, ou simplesmente perto do fogo. Não foi perto “desse foguinho meu” que a personagem de Guimarães Rosa, em “Meu tio o Iauaretê” (Estas estórias), contou a sua estória — a do caboclo que acaba vivendo isolado entre onças, e que de matador de onça virou onça, o jaguar-etê, o totem da sua antiga tribo indígena? A personagem, à beira do fogo e movida a cachaça, percorre, pela estória, ao contrário, a história do seu próprio povo, tentando reconquistar, assim, e inutilmente, o seu espaço cultural perdido.

Estórias há de conquistas e de perdas. Estórias que seguem para frente. Ou para frente, retornando. Variam de assuntos e nos modos de contar. Desde quando?

Embora o início do contar estória seja impossível de se localizar e permaneça como hipótese que nos leva aos tempos remotíssimos, ainda não marcados pela tradição escrita, há fases de evolução dos modos de se contarem estórias. Para alguns, os contos egípcios — Os contos dos mágicos — são os mais antigos: devem ter aparecido por volta de 4 000 anos antes de Cristo. Enumerar as fases da evolução do conto seria percorrer a nossa própria história, a história de nossa cultura, detectando os momentos da escrita que a representam. O da estória de Caim e Abel, da Bíblia, por exemplo. Ou os textos literários do mundo clássico greco-latino: as várias estórias que existem na ilíada e na Odisséia, de Homero. E chegam os contos do Oriente: a Pantchatantra (VI aC), em sânscrito, ganha tradução árabe (VII dC) e inglesa (XVI dc); e as Mil e uma noites circulam da Pérsia (século X) para o Egito (século XII) e para toda a Europa (século
XVIII).

Como não nos determos um pouco aqui, nesta coletânea de mil e um contos, que vêm resistindo ao tempo? Pois estas mil e uma estórias desenhavam, no seu modo de organização, o próprio curso da história da estória, nestas estórias que se seguiam, noite após noite, contadas por Sheherazade, que, assim, ia distraindo o rei que a condenara à morte. O plano do rei Shariar era este: dêsposar uma virgem por noite, que morreria no dia seguinte, para que nenhuma pudesse repetir o ato de traição de sua antiga esposa. Quando Sheherazade conta estórias ao rei, aguça-lhe a curiosidade. Ele quer continuar a ouvir a estória, na noite seguinte. O conto, enquanto vida, acaba também encantando o rei. E Sheherazade, contando estórias, vai adiando a morte e prolongando a vida.
No século XIV dá-se outra transição. Se o conto transmitido oralmente ganhara o registro escrito, agora vai afirmando a sua categoria estética. Os contos eróticos de Bocaccio, no seu Decameron (1350), são traduzidos para tantas outras línguas e rompem com o moralismo didático: o contador procura elaboração artística sem perder, contudo, o tom da narrativa oral. E conserva o recurso das estórias de moldura: são todas unidas pelo fato de serem contadas por alguém a alguém. E os Canterbury tales (1386), de Chaucer, são contados numa estalagem por viajantes em peregrinação.

Posteriormente, o século XVI mostra o Héptameron (1558), de Marguerite de Navarre. E no século XVII surgem as Novelas ejemplares (1613), de Cervantes. No fim do século surgem os registros de contos por Charles Perrault: Histoires ou contes du temps passé, com o subtítulo de “Contes de ma mère Loye”, conhecidos como Contos da mãe Gansa. Se o século XVIII exibe um La Fontaine, exímio no contar fábulas, no século XIX o conto se desenvolve estimulado pelo apego à cultura medieval, pela pesquisa do popular e do folclórico, pela acentuada expansão da imprensa, que permite a publicação dos contos nas inúmeras revistas e jornais. Este é o momento de criação do conto moderno quando, ao lado de um Grimm que registra contos e inicia o seu estudo comparado, um Edgar Allan Poe se afirma enquanto contista e teórico do conto.
Portanto, enquanto a força do contar estórias se faz, permanecendo, necessária e vigorosa, através dos séculos, paralelamente uma outra história se monta: a que tenta explicitar a história destas estórias, problematizando a questão deste modo de narrar — um modo de narrar caracterizado, em princípio, pela própria natureza desta narrativa: a de simplesmente contar estórias.

“Este inábil problema de estética literária”

Tais mil e uma páginas referentes ao problema da teoria do conto poderiam se resumir em algumas direções teóricas marcantes: há os que admitem uma teoria. E há os que não admitem uma teoria específica. Isto quer dizer que uns pensam que a teoria do conto filia-se a uma teoria geral da narrativa. E nisto têm razão. Como pensar o conto desvinculado de um conjunto maior de modos de narrar ou representar a realidade?

Mas aí surgem diferenciações: embora sujeito às determinações gerais da narrativa, ele teria característica específica de gênero, tal como existem características específicas de romance? de teatro? de cinema? de novela de TV? Quais os limites da especificidade do conto enquanto um tipo determinado de narrativa? E mais ainda: o que faz com que os contos continuem sendo contos, apesar das mudanças que, naturalmente, foram experimentando, no curso da história? Em que aspectos permaneceriam eles fiéis às suas origens?
Esta duplicidade de pontos de vista dos estudiosos acarretou, por exemplo, a divisão em tópicos de um dos livros já antológicos de ensaios sobre o conto — What is the short story?, de E. Current-García e W. R. Patrick. Seus organizadores selecionaram textos gerais da bibliografia teórica sobre o conto, divididos entre os que propõem “definições e a procura da forma” e os que manifestam “revolta contra regras e definições prescritivas”. Além de “regras” (e de “contra-regras”), aparece um terceiro tópico, em função das múltiplas tendências do conto: “novas direções: liberdade e forma”.
Esta mesma distância notamos entre outros autores, contistas e teóricos, O uruguaio Horacio Quiroga estabelece um “Decálogo do perfeito contista”: ainda que com muita ironia, apresenta normas de como se escrever um bom conto e, conseqüentemente, postula o que um bom conto deve ter. Já para Mário de Andrade, em “Contos e contistas”, “em verdade, sempre será conto aquilo que seu autor batizou com o nome de conto”. Ë a resposta que encontra para esta “pergunta angustiosa: o que é o conto?”, e que gera, segundo ele, “este inábil problema de estética literária”.
De fato, torna-se angustioso problema e inábil tentativa responder a uma questão dessa natureza. Principalmente quando se considera, como Mário de Andrade, que bons contistas, como Maupassant e Machado de Assis, encontraram a “forma do conto”. Mas o que encontraram, segundo ainda Mário de Andrade, “foi a forma do conto indefinível, insondável, irredutível a receitas”.

“Essa alquimia secreta”

Vários atentam para a dificuldade de se escreverem contos. Machado de Assis, por exemplo, manifesta-se em 1873 2: “É gênero difícil, a despeito da sua aparente facilidade”. E continua:

“e creio que essa mesma aparência lhe faz mal, afastando-
-se dele os escritores e não lhe dando, penso eu, o público toda a atenção de que ele é muitas vezes
credor”.

Vários atentam para a dificuldade também de se explicar o conto. Julio Cortázar, em “Alguns aspectos do conto”, refere-se a “esse gênero de tão difícil definição, tão esquivo nos seus múltiplos e antagônicos aspectos”. Porque se, de um lado, “é preciso chegarmos a ter uma idéia viva do que é o conto”, isto torna-se difícil “na medida em que as idéias tendem para o abstracto, para a desvitalização do conteúdo”.

Tratar da teoria do conto é aceitar uma luta em que a força da teoria pode aniquilar a própria vida do conto. Que vale a pena tentar, lembrando-nos de Cortázar:

“se não tivermos uma idéia viva do que é o conto, teremos perdido tempo, porque um conto, em última análise, se move nesse plano do homem onde a vida e a expressão escrita dessa vida travam uma batalha fraternal, se me for permitido o termo; e o resultado dessa batalha é o próprio conto, uma síntese viva ao mesmo tempo que uma vida sintetizada, algo assim como um tremor de água dentro de um cristal, uma fugacidade numa permanência. Só com imagens se pode transmitir essa alquimia secreta que explica a profunda ressonância que um grande conto tem em nós, e que explica também por que há tão poucos contos verdadeiramente grandes “.

2 O conto: uma narrativa

Três acepções da palavra conto

Para Julio Casares há três acepções da palavra conto, que Julio Cortázar utiliza no seu estudo sobre Poe: 1. relato de um acontecimento; 2. narração oral ou escrita de um acontecimento falso; 3. fábula que se conta às crianças para diverti-las.
Todas apresentam um ponto comum: são modos de se Contar alguma coisa e, enquanto tal, são todas narrativas. Pois

“toda narrativa consiste em um discurso integrado numa sucessão de acontecimentos de interesse humano na unidade de uma mesma ação”,

afirma Claude Brémond, ao examinar a “lógica dos possíveis narrativos”.
De fato, toda narrativa apresenta: 1. uma sucessão de acontecimentos: há sempre algo a narrar; 2. de interesse humano: pois é material de interesse humano, de nós, para nós, acerca de nós: “e é em relação com um projeto humano que os acontecimentos tomam significação e se organizam em uma série temporal estruturada”; 3. e tudo “na unidade de uma mesma ação”.
No entanto, há vários modos de se construir esta “unidade de uma mesma ação”, neste “projeto humano” com uma “sucessão de acontecimentos”.

O conto: relato de um acontecimento? falso ou verdadeiro?

O contar (do latim computare) uma estória, em princípio, oralmente, evolui para o registrar as estórias, por escrito. Mas o contar não é simplesmente um relatar acontecimentos ou ações. Pois relatar implica que o acontecido seja trazido outra vez, isto é: re (outra vez) mais latum (trazido), que vem de fero (eu trago). Por vezes é trazido outra vez por alguém que ou foi testemunha ou teve notícia do acontecido.

O conto, no entanto, não se refere só ao acontecido. Não tem compromisso com o evento real. Nele, realidade e ficção não têm limites precisos. Um relato, copia-se; um conto, inventa-se, afirma Raúl Castagnino. A esta altura, não importa averiguar se há verdade ou falsidade: o que existe é já a ficção, a arte de inventar um modo de se representar algo. Há, naturalmente, graus de proximidade ou afastamento do real. Há textos que têm intenção de registrar com mais fidelidade a realidade nossa. Mas a questão não é tão simples assim. Trata-se de registrar qual realidade nossa? a nossa cotidiana, do dia-a-dia? ou a nossa fantasiada? Ou ainda: a realidade contada literariamente, justamente por isto, por usar recursos literários segundo as intenções do autor, sejam estas as de conseguir maior ou menor fidelidade, não seria já uma invenção? no seria já produto de um autor que as elabora enquanto tal? Há, pois, diferença entre um simples relato, que pode ser um documento, e a literatura. Tal como o tamanho, literatura não é documento. É literatura. Tal qual o conto, pois. O conto literário.

O conto literário

A história do conto, nas suas linhas mais gerais, pode se esboçar a partir deste critério de invenção, que foi se desenvolvendo. Antes, a criação do conto e sua transmissão oral. Depois, seu registro escrito. E posterior- mente, a criação por escrito de contos, quando o narrador assumiu esta função: de contador-criador-escritor de contos, afirmando, então, o seu caráter literário.
A voz do contador, seja oral ou seja escrita, sempre pode interferir no seu discurso. Há todo um repertório no modo de contar e nos detalhes do modo como se conta— entonação de voz, gestos, olhares, ou mesmo algumas palavras e sugestões —, que é passível de ser elaborado pelo contador, neste trabalho de conquistar e manter a atenção do seu auditório.

Estes recursos criativos também podem ser utilizados na passagem do conto oral para o escrito, ou seja, no registro dos contos orais: qualquer mudança que ocorra, por pequena que seja, interfere no conjunto da narrativa. Mas esta voz que fala ou escreve só se afirma enquanto contista quando existe um resultado de ordem estética, ou seja: quando consegue construir um conto que ressalte os seus próprios valores enquanto conto, nesta que já é, a esta altura, a arte do conto, do conto literário. Por isso, nem todo contador de estórias é um contista.
Estes embriões do que pode ser uma arte só se consolidam mesmo numa obra estética quando a voz do contador ou registrador se transforma na voz de um narrador:
o narrador é uma criação da pessoa; escritor, é já “ficção de uma voz”, na feliz expressão de Raúl Castagnino, que, aparecendo ou mais ou menos, de todo modo dirige a elaboração desta narrativa que é o conto.
Estes modos variados de narrar por vezes se agrupam, de acordo com alguns pontos característicos, que delimitam um gênero. Se apresentam algumas tantas características, podem pertencer a este ou àquele gênero: podem ser, por exemplo, romances, poemas ou dramas. Convém considerar que esta “classificação” também tem sua história. Há fases em que ela se acentuou: a dos períodos clássicos, por exemplo (a Antigüidade greco-latina, a Renascença) em que há para cada gênero um público e um repertório de procedimentos ou normas a ser usado nas obras de arte. E há períodos em que estes limites se embaralham, em que se dilatam as possibilidades de misturar características dos vários gêneros e atingir até a dissolução da própria idéia de gênero e de normas: é o que acontece progressivamente do Romantismo até o Modernismo.

O limite dos gêneros torna-se um problema. Lembre-se ainda que houve um tempo em que vários modos de hoje comungavam num mesmo gênero, sem especificações. Isto gera algumas confusões, que se refletem na terminologia.

A questão da terminologia

Veja-se o exemplo do inglês. Novel, usada do século XVI ao XVIII, como prosa narrativa de ficção com personagens ou ações representando a vida diária, diferenciava-se do romance, forma mais longa e mais tradicional. No século XIX, com o declínio do romance antigo, de reminiscências medievais, a novel preencheu o espaço disponível, perdeu as associações originais, deixou de ser breve, virou romance. Hoje, novel, em inglês, é romance. E só no século XIX surge um termo específico para a estória curta, a short-story. Há ainda a long short story, para a novela. E o tale, para o conto e o conto popular.
Para alguns, a novela vem do italiano novella, ou seja, pequenas estórias. Em Bocaccio, a novella era breve, no mais de dez páginas, se opondo ao romance medieval, forma mais longa e difusa, que desenvolvia uma intriga amorosa completa. E Bocaccio chama seus textos indistintamente de “histórias, relatos, parábolas, fábulas”. Este Conjunto de formas menores por vezes é chamado épica menor, para diferenciá-las das grandes epopéias, como Os Lusíadas, de Camões.

Modernamente, sabe-se que fábula é a estória com personagens animais, vegetais ou minerais, tem objetivo instrutivo e é muito breve. E se a parábola tem homens como personagens, e se tem sentido realista e moralista, tal como a fábula, o sentido não é aparente e os detalhes de personagens podem ser simbólicos. O conto conserva características destas duas formas: a economia do estilo e a situação e a proposição temática resumidas.

O termo novel passa para o espanhol. Cervantes escreve suas Novelas Ejem plares, em 1621, e estas experimentam, já, um processo de extensão. E Lope de Vega escreve então novelas que são, segundo ele, anteriormente chamadas cuentos: “éstos se sabían de memoria, y nunca que me acuerde, los vi escritos”. Atualmente, romance é novela. Novela é novela corta. E conto é cuento.

Atente-se, ainda, para a distinção entre nouveille e conte, no francês, usados indistintamente por La Fontaine, em 1664. E houve naturalmente uma distinção: conte é mais concentrado, com episódio principal, forma remanescente da tradição oral, e freqüentemente com elementos de fantasia. Seria o conto popular. A nouvelie seria a forma mais complexa, com mais cenas, apresentando série de incidentes para análise e desenvolvimento da personagem ou motivo. Mas a confusão continuaria:
Maupassant chama suas nouvelles de contes. Hoje, são os termos franceses que mais se aproximam do que temos em português: usam-se roman, nouvelle e conte para os nossos, respectivamente, romance, novela e conto.

Na Alemanha, a novelle tem desenvolvimento linear, com um ponto de interesse chocante. Mas ela se torna mais extensa e surge então a necessidade de um termo para designar a narrativa realmente curta: a kurz Geschichte. E ainda têm Märchen para o conto popular. E Roman para romance.

É nos Estados Unidos que o termo short story se afirma e, desde 1880, designa não somente uma estória curta, mas um gênero independente, com características próprias. No entanto, a confusão terminológica predominava, O contista Washington Irving usava os termos tale e sketch, enquanto tale seria usado por Poe, Hawthorne e Melville, de forma distinta ao uso de short story, considerada por alguns como forma de fundo mais realista. Estes termos ganham fisionomia mais definida, O termo sketch passa a se referir à narrativa descritiva, estática, representando um estado: como é ou está alguém ou alguma coisa, com personagens não envolvidas em cadeia de eventos; são retratos ou quadros ou caracteres soltos. O termo yarn aplica-se a anedotas: um único episódio fragmentário, que pode ter acontecido com alguém, contado em linguagem coloquial. E tale seria uma anedota aumentada, seja ela ficção ou não. Ou o conto popular.

As formas híbridas, incentivadas no século XIX, podem conservar mais ou menos o caráter épico do conto.
O Conto em verso continua ligado à epos, pois traz, segundo Raúl Castagnino, “um universo verbal que imita ações e pessoas, que organiza um argumento, que relaciona componentes”. Pode ser re-contado, indefinidamente, legitimando sua condição narrativa e preservando algumas das consideradas chaves do conto, como se verá adiante (o impulso único, a tensão unitária, o efeito preciso e inesperado). Já o poema em prosa afasta-se da épica e aproxima-se da lírica: mesmo que ele conte uma estória, impossível re-contá-la sem que se perca sua força centrada no poético, por meio, entre outros recursos, das imagens e das suas múltiplas sugestões. No entanto, o que faz o conto — seja ele de acontecimento ou de atmosfera, de moral ou de terror — é o modo pelo qual a estória é contada. E que torna cada elemento seu importante no papel que desempenha neste modo de o Conto ser. Como bem formulou o contista Horacio Quiroga, ao alertar para alguns “truques” do contista: “Em literatura a ordem dos fatores altera profundamente o produto’.

O conto maravilhoso

Uma forma simples (André Jolies)

O conto, segundo a terceira acepção de Julio Casares, entendido como “fábula que se conta às crianças para diverti-las”, liga-se mais estreitamente ao conceito de estória e do contar estórias, e refere-se, sobretudo, ao conto maravilhoso, com personagens não determinadas historicamente. E narra como “as coisas deveriam acontecer”, satisfazendo assim uma expectativa do leitor e contrariando o universo real, em que nem sempre as coisas acontecem da forma que gostaríamos.
Este é o sentido que lhe atribui André Jolles, para quem o conto, ao lado da legenda, saga, mito, adivinha, ditado, caso, memorável e chiste, é uma “forma simples”, isto é, uma forma que permanece através dos tempos, recontada por vários, sem perder sua “forma” e opondo-se, pois, à “forma artística”, elaborada por um autor, única, portanto, e impossível de ser recontada sem que perca sua peculiaridade.

Este conto, segundo Jolles, não pode ser concebido sem o elemento “maravilhoso” que lhe é imprescindível. As personagens, lugares e tempos são indeterminados historicamente: não têm precisão histórica. Lembre-se do “Era uma vez. . .“ que costuma iniciar contos deste tipo. E o conto obedece a uma “moral ingênua”, que se opõe ao trágico real. Não existe a “ética da ação”, mas a “ética do acontecimento”: as personagens não fazem o que devem fazer. Os acontecimentos é que acontecem como deveriam acontecer. Este conto é transmitido, oralmente ou por escrito, através dos séculos. Porque pode ser recontado com “as próprias palavras”, sem que o seu “fundo” desapareça. Pelo contrário, qualquer um que conte o conto, manterá a sua forma, que é a do conto e não a sua, que é uma “forma simples”. Daí o conto ter como características justamente esta possibilidade de ser fluido, móvel, de ser entendido por todos, de se renovar nas suas transmissões, sem se desmanchar: caracterizam-no, pois, a mobilidade, a generalidade, a pluralidade.

Novela é que é, para Jolles, a “forma artística”, que poderia corresponder ao nosso atual conto literário. Porque a novela leva a marca do eu criador, é produto de uma personalidade em ação criadora, que tenta representar uma parcela peculiar da realidade, segundo seu ponto de vista único, compondo um universo fechado e coeso, sólido. Daí ela caracterizar-se por esta solidez, peculiaridade e unicidade. E, ainda, por ser alimentada por um “acontecimento impressionante”, tônica que persiste desde as suas origens mais remotas, na forma da novela toscana praticada por Bocaccio no seu Decameron, “a novela toscana procura, de modo geral, contar um fato ou incidente impressionante de maneira tal que se tenha a impressão dum acontecimento efetivo e, mais exatamente, a impressão de que esse incidente é mais importante do que as personagens que o vivem”

Neste caso, a novela, segundo Jolles, estaria próxima do chamado conto de acontecimento.
Esta novela toscana adotou também o procedimento da narrativa de moldura, que já existia anteriormente e que vai persistir em muitas coletâneas de contos (ou novelas?): estas narrativas acham-se ligadas por um quadro que assinala, entre outras coisas, onde, quando e por quem são contadas.
Pois estas novelas (toscanas e de moldura) foram sofrendo modificações nos séculos XVI e XVII, ou seja, houve progressiva separação entre elas e os contos, pelo abafamento da novela e afloramento dos contos, os maravilhosos, que são registrados por Charles Perrault, em 1697, nos seus Contos da mãe Gansa: estes não são mais uma narrativa-moldura, mas deixam transparecer um dos seus recursos: Perrault os apresenta como sendo contados por seu filho, que os ouviu contar por uma velha ama. Os contos maravilhosos são registrados também e especialmente por Grimm, em 1812, na sua coletânea Kinder-und Hausmärchen (Contos para crianças e famílias), obra fundamental para a verificação destas “formas simples” do conto. Pois, de acordo com Jolles,

“Jacob Grimm percebeu no conto um ‘fundo’ que pode manter-se perfeitamente idêntico a si mesmo, até quando é narrado por outras palavras”.

O conto simples, ou maravilhoso, e o conto artístico
— que era chamado, a princípio, novela toscana e de moldura — são, pois, duas realidades narrativas diferentes.

Um é sempre um, apesar das variações que nunca atingem o fundamento da sua forma. Ê bastante significativo este seu poder de resistência, vencendo as variações possíveis, sem perder sua estrutura fundamental. Outro é sempre outro, a cada narrativa, que nunca se repete e que é peculiar a seu único autor.

As funções, transformações e origens (Vladimir Propp)

As funções

A permanência das formas simples do conto maravilhoso para a qual Grimm alertou (1812) e que André Jolles desenvolveu (1929) foi minuciosamente examinada por Vladimir Propp, em A morfologia do conto (1928), segundo os moldes do formalismo russo: estudou as formas para determinar as constantes e variantes dos contos, comparando suas estruturas e sistemas.

Para Propp era preciso, antes de qualquer coisa, descrever os contos. Como estabelecer teses sobre a origem dos contos e determinar tipos de contos antes de se saber o que é o conto?

Por não saber qual a estrutura destes contos maravilhosos é que Propp rejeitou classificações, como a que divide os contos em: histórias fantásticas, histórias tomadas da vida cotidiana e histórias de animais (de U. F. Miller). Ou a que tenta dividi-los por assuntos — contos de animais, contos propriamente ditos, contos jocosos — (de Antti Aarne), sem especificar na verdade o que é assunto e o que é variação de um assunto, e a possibilitar o enquadramento de um conto em mais de um tipo destes três.

A uniformidade específica do conto não se explica, pois, segundo Propp, por temas (A. Aarne), por motivos (Veselovski), por assuntos (Volkov), ainda que eles se repitam, mas por unidades estruturais em torno das quais estes elementos se agrupam.
Para estabelecer o que é o conto — entenda-se aqui o conto maravilhoso — Propp determina então uma “morfologia do conto”. Isto é: faz uma descrição do conto segundo as partes que o constituem e segundo as relações destas partes entre si e destas partes com o conjunto do conto.

Partindo da análise da ação das personagens, constata que há ações constantes, que ele chama de funções; função seria, então, “a ação de uma personagem, definida do ponto de vista do seu significado no desenrolar da intriga” (p. 60). Estas funções ou ações constantes são independentes das personagens que as praticam e dos modos pelos quais são praticadas. Isto é, as mesmas ações são praticadas por personagens diferentes e de maneiras diferentes.

Examinando os contos russos, Propp encontrou cerca de 150 elementos que compõem o conto e 31 funções constantes, cuja sucessão, no conto, é sempre idêntica. O conto maravilhoso seria, então, o que apresenta estas funções em determinada ordem de seqüência, que não se altera. É possível que um conto não apresente todas as funções. Mas é impossível que a ordem das funções que aparecem no conto seja modificada. Estes processos ou passagens de uma função a outra são os movimentos do conto. Analisar o conto implica determinar também estes seus movimentos.
Basta nos lembrarmos de qualquer conto maravilhoso, ouvido na infância ou depois dela, para reconhecermos, de imediato, certas funções que Propp enumera, num total de 31. Em “O Chapeuzinho Vermelho”, por exemplo, há a função da ausência de um dos membros da família (o Chapeuzinho), que é a primeira função determinada por Propp. E há também uma ordem que lhe é dada (pela mãe); o engano da vítima (pelo lobo, que irá devorá-la); a salvação do herói (pelo caçador); a punição do antagonista (morte do lobo).

Assim como encontra 31 funções, Propp encontra também sete personagens, cada uma com sua “esfera de ação”, que são: o antagonista ou agressor, o doador, o auxiliar, a princesa e seu pai, o mandatário, o herói e o falso herói.

A esta altura, Propp pode afirmar o que é o conto maravilhoso:

“Podemos chamar conto maravilhoso, do ponto de vista morfológico, a qualquer desenrolar de ação que parte de uma malfeitoria ou de uma falta (...), e que passa por funções intermediárias para ir acabar em casamento (...) ou em outras funções utilizadas como desfecho” (p. 144).

Mas se tais funções viessem contadas em mil páginas, ainda continuariam sendo um conto maravilhoso? Propp não se preocupa com o problema da extensão. Está apenas interessado em determinar as ações e personagens constantes nos contos maravilhosos que examina.

As transformações

Se “a vida real não pode destruir a estrutura geral do Conto”, ela modifica ou transforma o conto: é o que Propp examina no seu trabalho intitulado “As transformações dos contos fantásticos”. Pois se existe uma forma fundamental do conto, que está ligada, aliás, às suas origens religiosas, existem também, segundo Propp, as formas derivadas, que dependem da realidade em que o conto aparece das determinações de ordem cultural.

E para se chegar a alguma conclusão sobre o conto maravilhoso, em nível internacional, torna-se preciso, também, examinar estas formas fundamentais e derivadas do conto de um povo. Depois, as de outro. E confrontá-las. Para se poder responder à questão: de que teor seriam estas transformações?

Propp conclui que há vinte casos de transformações de elementos do conto fantástico, que se fazem ou por alteração da forma fundamental, reduzindo, deformando, Invertendo, intensificando ou enfraquecendo as ações das personagens; ou por tipos de substituições e assimilações.
Restaria ainda uma outra questão: como distinguir entre o que é da fonte no conto maravilhoso e o que é aquisição posterior? Se esta diferença é a base para reconhecer as transformações do conto, ela será examinada mais detidamente por Propp em Las raices historicas del cuento.

As origens

A pesquisa de Propp é coerente com seu programa. Se já desenvolvera o estudo da estrutura dos contos e o das mudanças dos contos, agora irá desenvolver o estudo das origens, em Las raices historicas del cuento (1946): os elementos do conto serão agora estudados em função de suas fontes.
E Propp reconhece duas fases na evolução do conto. Uma primeira, sua pré-história, em que o conto e o relato sagrado — conto/mito/rito — se confundiam. Entende mito no sentido de “relato sobre a divindade ou seres divinos em cuja realidade o povo crê” (p. 30). E rito, tal como costume e segundo Engels, ou seja, como “atos ou ações cuja finalidade é operar sobre a natureza e submetê-la”.

Nessa fase religiosa, os mais velhos contavam aos jovens suas origens, para informá-los dos sentidos dos atos a que estavam submetidos: para justificar as proibições que lhes eram feitas, por exemplo. O relato fazia parte do ritual religioso, do qual constituía uma parte imprescindível. E havia proibição de narrar alguma coisa, por que o narrar estava imbuído de funções mágicas, que não eram permitidas a todos. Nem estes podiam narrar tudo.

Portanto, segundo Propp:

“o relato faz parte do cerimonial, do rito, está vinculado a ele e à pessoa que passa a possuir o amuleto; é uma espécie de amuleto verbal, um meio para operar magicamente o mundo” (p. 528).

Narrar e viver mais uma vez se acham estreitamente ligados, mas não como nas Mil e uma noites. Porque aqui narrar implica morrer. Em algumas tribos, o relatar implicava sacrificar uma parte da vida do narrador, apressando-lhe o final. Portanto, se não quisesse morrer, não contava. E se não se importasse mais com a morte, contava. Diz um habitante de uma tribo, estudada por Dorsey (citado por Propp): “Sei que meus dias estão contados (. . .) Não há razão nenhuma para que não conte tudo que eu sei” (p. 529).
E Propp conclui que a maior parte dos motivos dos contos refere-se a dois ciclos ritualísticos: o da iniciação e o das representações da morte, os quais, por vezes, se confundem e se intercambiam mutuamente.
Uma segunda fase de que fala Propp é a da história mesma do conto, quando ele se libera da religião e passa a ter vida própria. O relato sagrado torna-se profano. Os narradores, antes sacerdotes ou pessoas mais velhas, passam a ser pessoas quaisquer. Os relatos perdem seu significado religioso. E os contos são contados “como se contam os contos”. Nesta nova vida,

“livre dos convencionalismos religiosos, evade-se na livre atmosfera da criação artística que recebe seu impulso de fatores sociais que já são outros diferentes e começa a viver uma vida exuberante” (p. 531).

Quando, precisamente, se dá esta passagem é que é impossível determinar.
A investigação do folclore, desenvolvida por Propp, seguindo a linha do materialismo marxista, busca explicação dos fatos no exame da realidade histórica do passado: a origem religiosa dos contos. Investiga a conexão do folclore com a economia da vida material: esta é que gera determinados mitos, ritos e contos. O rito desaparece, segundo Propp, quando desaparece a caça como único e fundamental recurso de subsistência. E atribui à sociedade, com ou sem castas, o destino da arte folclórica/ /popular. Assim, o conto maravilhoso consta, segundo ele, de elementos que remontam a fenômenos e representações existentes na sociedade anterior às castas. E o conto, depois, passa a ser patrimônio das classes dominantes, como na Idade Média, quando foi manipulado de cima para baixo.

Este princípio é o que lhe permite também considerar (aliás, logo no início do seu livro) dois tempos no conto folclórico da Rússia: antes e depois da Revolução. Antes, o folclore era criação de classes oprimidas; depois, é criação verdadeiramente popular.

Mas não haveria uma semelhança entre contos de diversos povos porque existiria uma semelhante disposição da psique humana, através dos tempos? Esta seria uma outra explicação, na linha antropológico-psicanalítica. A questão, neste caso, estaria no exame da narrativa enquanto elaboração de um sujeito.

Para Propp, o rito referente à morte admitia a viagem dos mortos e a transmigração das almas. Ora, como conseqüência, haveria a perda — do corpo, da terra, da vida. Esta perda, gravada na memória coletiva, não geraria o desejo em relação ao perdido? É para o que alerta Adriano D. Rodrigues, no Prefácio à edição portuguesa, em que reconhece uma semelhança entre os princípios que regem as modificações do conto descobertas por Propp (“redução” e “amplificação”, por exemplo) e os processos da economia onírica examinados por Freud, o qual vai reconhecer os sonhos como forma de recriar a realidade (“condensação” e “deslocamento”, por exemplo). O crítico alerta, assim, para toda uma “economia do desejo” relativa ao narrador no seu ato de fala, que “a Morfologia do conto deixa intacta”.

Não é esta a preocupação de Propp, que procura e encontra as fontes do conto no exame da realidade histórica do passado religioso, não na psicologia dos religiosos.
De toda forma, fica a questão levantada pelo prefaciador: “Como passar então das funções das personagens e das suas qualificações para o narrador?” E ainda: afinal,
o que motivou os contos a serem como são, mesmo na sua
manifestação primeira, sob a forma de mitos e ritos?

Do conto maravilhoso à narrativa em geral

A descoberta por V. Propp de ações constantes e das sete personagens do conto maravilhoso estimulou outros estudos na área da lingüística, da antropologia, da etnografia, do folclore e da semiótica. É o caso do antropólogo Claude Lévi-Strauss, que nos anos 50 desenvolve um estudo da estrutura do pensamento mítico 3 . Examina como, a partir, inclusive, de variantes do mito de Édipo, ocorre no mito a superação de oposições profundas ou conflitos que seriam de outra forma irreconciliáveis.

Nos anos 60 os estudos de A. J. Greimas e Claude Brémond, entre outros teóricos, transferem os princípios de Propp, reexaminados e com modificações, para a análise da narrativa em geral.

Greimas, examinando a distribuição dos papéis ou da atuação das personagens, a partir da relação sintática sujeito/objeto (usa funções do conto segundo Propp e as do teatro segundo Souriau) 4, determina três tipos de “categorias atuacionais” ou três tipos de relações das personagens em função de uma ação: sujeito vs. objeto, destinador vs. destinatário, adjuvante vs. oponente. Acasalando algumas das funções de Propp, reduz as 31 funções a vinte. Agrupa as funções também por oposição, como por exemplo: interrogação vs. resposta. E acaba por reduzir as funções a duas: a ruptura da ordem e a alienação; e a restituição da ordem. Não é nada difícil reconhecer estes dois momentos numa narrativa. Nos romances românticos, poderiam ser representados por: 1. obstáculos à união do par amoroso; 2. o final feliz, mediante a união dos dois.

Claude Brémond traça também, e a partir de Propp, regras gerais para o desenvolvimento de toda a narrativa. Determina a seqüência elementar, num grupo de três funções: uma que abre a possibilidade do processo, uma que realiza tal possibilidade e uma que conclui o processo, com sucesso ou fracasso. No romance romântico teríamos estes

3 LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia estrutural (1958). Rio de
Janeiro, Tempo Brasileiro, 1967.
4 GREIMAS, A. J. Semântica estrutural. (1966). Trad. de Haquira
Osakabe e Isidoro Blikstein. São Paulo, Cultrix, 1973.

três tempos bem delimitados. E também em vários contos, como em alguns de Clarice Lispector, em que há um momento de ordem, um momento de desordem interior e um momento de retorno à ordem primeira, com alguns ganhos e perdas — como veremos no próximo capítulo.
Também V. Chklovski, em “A construção da novela e do romance”, vai examinar várias tramas, ou seja, modos pelos quais os elementos da novela e romance se organizam. Examina a trama em função de uma novela-
-padrão,
em que ocorre sempre, por exemplo, não uma só ação, mas reação ou falta de coincidência para que o enredo se desencadeie. Amor feliz não faz novela ou romance, a não ser em oposição às novelas tradicionais, em que o amor é insatisfeito e há que vencer obstáculos para se conquistar a felicidade.

O autor descreve vários tipos de trama, em combinações diferentes dos seus elementos: ligados entre si (em cadeia) por projeções e oposições (em plataformas). Dada a variedade das possibilidades, chega a conclusões gerais, sem conseguir uma definição do que seria esta novela (ou conto) e romance, tal qual Propp conseguiu para o conto maravilhoso.

Isto teria acontecido porque os contos modernos afastam-se de certas ações constantes ou fundamentais, desdobrando-se em tantas outras ações miúdas, de nossa realidade cotidiana? Afinal, que princípio é este que rege esta variedade de contos que não favorece mais uma classificação segundo determinados padrões? Seria por causa da própria multiplicidade de experiências que rege estes “tempos modernos”?
Já Boris Eikhenbaum, ao analisar o conto do norte-americano O. Henry, estabelece uma definição entre novela (ou conto) e romance. Pois observa que estas duas formas nada têm a ver uma com a outra. Têm origens diferentes. O romance vem da história e do relato de viagens. A novela, do conto (maravilhoso?) e da anedota.
O estudo da lógica dos contos russos, que propiciou o estudo da lógica da narrativa, evolui ainda para o estudo da lógica de outras formas de outros tantos objetos visuais:
nele se empreende a leitura de uma praça ou de uma cidade, mediante análise dos elementos que as compõem nas suas relações e como representação cultural de uma situação histórica, O repertório das ações constantes detectadas nos contos maravilhosos por V. Propp desencadeou, pois, tal como observa Adriano Rodrigues, um estudo cada vez mais amplo da “lógica das formas culturais”, de modo a desenvolver uma “semiótica do mundo”.

Do conto maravilhoso ao moderno:
apenas uma mudança de técnica?

O que caracteriza o conto é o seu movimento enquanto uma narrativa através dos tempos. O que houve na sua “história” foi uma mudança de técnica, não uma mudança de estrutura: o conto permanece, pois, com a mesma estrutura do conto antigo; o que muda é a sua técnica. Esta é a proposta, discutível, de A. L. Bader (1945), que se baseia na evolução do modo tradicional para o modo moderno de narrar. Segundo o modo tradicional, a ação e o conflito passam pelo desenvolvimento até o desfecho, com crise e resolução final. Segundo o modo moderno de narrar, a narrativa desmonta este esquema e fragmenta-se numa estrutura invertebrada.
De fato, a arte clássica (do período greco-latino) e a de seus imitadores (da Renascença, no século XVI; ou do Classicismo no século XVII) tinham eixos fixos que determinavam os valores da arte, como os do equilíbrio
e harmonia, que eram reunidos em princípios ou normas estéticas a serem aprendidas e imitadas por outros. Uma delas era esta: a de se obedecer à ordem de início, meio e fim na estória, ou a regra das unidades: uma só ação, num só tempo de um dia e num só espaço. Algumas destas regras já apareceram na Poética de Aristóteles.

Com a complexidade dos novos tempos, e devido em grande parte à Revolução Industrial que vai progressivamente se firmando desde o século XVIII, o caráter de Unidade da vida e, conseqüentemente, da obra, vai se perdendo. Acentua-se o caráter da fragmentação dos valores, das pessoas, das obras. E nas obras literárias, das palavras, que se apresentam sem conexão lógica, soltas, como átomos (segundo as propostas do Futurismo, a partir sobretudo de 1909). Esta realidade, desvinculada de um antes ou um depois (início e fim), solta neste espaço, desdobra-se em tantas configurações quantas são as experiências de cada um, em cada momento destes.
Antes, havia um modo de narrar que considerava o mundo como um todo e conseguia representá-lo. Depois, Perde-se este ponto de vista fixo; e passa-se a duvidar do Poder de representação da palavra: cada um representa parcialmente uma parte do mundo que, às vezes, é uma minúscula parte de uma realidade só dele 5.

O que era verdade para todos passa ou tende a ser verdade para um só. Neste sentido, evolui-se do enredo que dispõe um acontecimento em ordem linear, para um Outro, diluído nos feelings, sensações, percepções, revelações ou sugestões íntimas. . . Pelo próprio caráter deste enredo, sem ação principal, os mil e um estados interiores vão se desdobrando em outros..

A questão não é, pois, ser ou não ser a favor do enredo (ou plot, em língua inglesa). Ê admitir que há

5 Ver ROSENFELD, Anatol. Reflexões sobre o romance moderno. In: Texto e contexto. São Paulo, Perspectiva, 1973. p. 75-97.

contos em que a ação é mais ou menos importante, por injunção da própria história da estória. Sherwood Anderson afirmava que “o plot envenena todo conto”. Já Bader apóia este ponto de vista, mas não para condenar o plot, e sim “o mau uso do plot, o enredo com sentimentalização excessiva, que torna a narrativa artificial”.

O teórico, contista e professor de literatura Sean O’Faolain reconhece mudança na natureza do incidente, do argumento, do enredo: passa-se a uma aventura da mente, ao suspense emocional ou intelectual, ao suspense mais estranho, ao clímax a partir de elementos interiores da personagem, ao desmascaramento do herói não mais pelo vilão e sim pelo autor ou pelo próprio herói.

E o contista argentino Jorge Luis Borges, citado por Raúl Castagnino, afirma que o seu trabalho, nos seus contos, reside mais propriamente na combinação de argumentos que na criação deles:

“em minha contística tenho apenas três ou quatro argumentos. O que ocorre é que mudo ou combino de modo diferente alguns componentes: ou o lugar ou o tempo ou as pessoas ou as estratégias narrativas, O núcleo argumental poderia ser sempre o mesmo”.

3 O conto: um gênero?

A unidade de efeito (Poe)

A teoria de Poe sobre o conto recai no princípio de uma relação: entre a extensão do conto e a reação que ele consegue provocar no leitor ou o efeito que a leitura lhe causa.

o que Poe expõe no prefácio à reedição da obra Twice-told iates, de Hawthorne, em texto intitulado “Review of Twice-told tales”, de 1842. Aí o contista norte-americano parte do pressuposto de que “em quase todas as classes de composição, a unidade de efeito ou impressão é um ponto da maior importância”. A Composição literária causa, pois, um efeito, um estado de “excitação” ou de “exaltação da alma”. E como “todas as excitações intensas”, elas “são necessariamente transitórias”. Logo, é preciso dosar a obra, de forma a permitir sustentar esta excitação durante um determinado tempo. Se o texto for longo demais ou breve demais, esta excitação ou efeito ficará diluído.
Torna-se imprescindível, então, a leitura de uma só assentada, para se conseguir esta unidade de efeito. No caso do poema rimado, não deve 33

“exceder em extensão o que pode ser lido com atenção em uma hora. Somente dentro deste limite o mais alto nível de verdadeira poesia pode existir“.

É natural que entre estas formas, poema rimado/ conto/ romance, haja uma hierarquia, em função deste critério: qual o que mais favorece a leitura de uma só vez ou, como popularmente se diz, de um só fôlego? A resposta de Poe é que

“podemos continuar a leitura de uma composição em prosa, devido à própria natureza da prosa, muito mais longamente que podemos persistir, para atingir bons resultados, na leitura atenta de um poema. Este último, se realmente estiver preenchendo as expectativas do sentimento poético, induz a uma exaltação da alma que não pode ser sustentada por muito tempo”.

E explica:

“Todas as excitações intensas são necessariamente transitórias. Desta forma, um poema longo é um paradoxo. E sem unidade de impressão, os efeitos mais profundos não podem ser conseguidos”.

O poema não deve, pois, ser longo demais e nem breve demais. Poe situa-se, equilibradamente, no meio:
“um poema breve demais pode produzir uma impressão vívida, mas nunca intensa e duradoura”. Sem uma certa continuidade de esforço, “sem uma certa duração ou repetição de propósitos a alma nunca é profundamente atingida”. Por isso tudo, “brevidade extrema degenerará em epigramatismo; mas o pecado da extensão extrema é ainda mais imperdoável”.

Estas mesmas propostas de leitura e teoria do poema Poe aplica à leitura do conto em prosa, definindo a sua medida de extensão — ou tempo de leitura: “referimo-nos à prosa narrativa curta, que requer de meia hora a uma ou duas horas de leitura atenta”.

Da mesma forma que o poema rimado é superior ao conto no que respeita às suas potencialidades de conquistar o efeito único, o conto difere do romance, pois este,

“como não pode ser lido de uma assentada, destitui-se, obviamente, da imensa força derivada da totalidade. Interesses externos intervindo durante as pausas da leitura, modificam, anulam ou contrariam em maior ou menor grau, as impressões do livro. Mas a simples interrupção da leitura será, ela própria, suficiente para destruir a verdadeira unidade”

Não é o que acontece na leitura do conto:

“no conto breve, o autor é capaz de realizar a plenitude de sua intenção, seja ela qual for. Durante a hora da leitura atenta, a alma do leitor está sob o controle do escritor. Não há nenhuma influência externa ou extrínseca que resulte de cansaço ou interrupção”

Aliás, Julio Cortázar, no seu estudo sobre Poe, ressalta esta intenção de domínio sobre o leitor e suas relações com o orgulho, o egotismo, a inadaptação ao mundo, a “anormalidade” a “neurose declarada” do contista e teórica Poe, que, naturalmente, interfere na construção das suas personagens e situações.

O fato é que a elaboração do conto, segundo Poe, é produto também de um extremo domínio do autor sobre os seus materiais narrativos, O conto, como toda obra literária, é produto de um trabalho consciente, que se faz por etapas, em função desta intenção: a conquista do efeito único, ou impressão total. Tudo provém de minucioso cálculo. Assim, tendo o contista

“concebido, com cuidado deliberado, um certo efeito único e singular a ser elaborado, ele então inventa tais incidentes e combina tais acontecimentos de forma a melhor ajudá-lo a estabelecer este efeito preconcebido. Se sua primeira frase não tende à concretização deste efeito, então ele falhou em seu primeiro passo. Em toda a composição não deve haver nenhuma palavra escrita cuja tendência, direta ou indireta, não esteja a serviço deste desígnio preestabelecido”

Estas considerações atentam já, sistematicamente, para uma característica básica na construção do conto:
a economia dos meios narrativos. Trata-se de conseguir, com o mínimo de meios, o máximo de efeitos. E tudo que não estiver diretamente relacionado com o efeito, para conquistar o interesse do leitor, deve ser suprimido.

Tanto são importantes estas observações sobre a teoria do conto, que serão mais tarde retomadas por Poe em “The philosophy of composition” (1846). Ele continua aí a defender a totalidade de efeito ou a unidade de impressão que se consegue ao ler o texto de uma só vez, sem interrupções, na dependência direta, pois, da sua duração, que interfere na excitação ou elevação, ou na intensidade do efeito poético.

Para tanto, ao iniciar o processo do escrever estórias, é o efeito que o autor deve levar em conta: qual o efeito que pretende causar no leitor? A primeira pergunta que se faz é:

“Dentre os inúmeros efeitos ou impressões a que o coração, o intelecto ou (mais geralmente) a alma é suscetível, qual deles, neste momento, escolherei?”.

O que pretende o autor? aterrorizar? encantar? enganar? Já havendo selecionado um efeito, que deve ser tanto original quanto vívido, passa a considerar a melhor forma de elaborar tal efeito, seja através do incidente ou do tom: “se por incidentes comuns e um tom peculiar, ou o contrário, ou por peculiaridade tanto de incidentes quanto de tom”. E em seguida busca combinações adequadas de acontecimentos ou de tom, visando a “construção do efeito”.
Poe ilustra este percurso com a sua própria experiência na construção do poema “The Raven”, determinando as etapas de execução de um projeto: a extensão ideal de mais ou menos cem versos, o tom de tristeza, os recursos necessários para se atingir este tom: uso do refrão, tema da morte, espaço do quarto, símbolo do corvo, ambiente soturno, personagem sofrendo a ausência da amada morta, o desfecho com pergunta final: ainda veria a sua amada no outro mundo?
Se o poema — ou qualquer outra obra — for grande, haverá naturalmente uma divisão de leitura. No entanto, para cada período serão mantidas as mesmas exigências, com o objetivo de fisgar o leitor: manter a tensão sem afrouxá-la, para não dar ensejo a interrupções. Daí a conclusão lógica a que chega Poe: um poema longo nada mais é que “uma sucessão de (poemas) breves”, isto é, de efeitos poéticos breves que se sucedem. “Há um claro limite, quanto à extensão, para todos os trabalhos de arte literária — o limite de uma única assentada” — e continua: “embora em alguns casos de prosa, como no de Robinson Crusoé, que não exige unidade, este limite seja ultrapassado com vantagens”.
Neste caso, o desfecho (dénouement) torna-se também um elemento importante, no sentido de colaborar para o efeito que se deseja:

“todo enredo, digno desse nome, deve ser elaborado para o desfecho, antes de se tentar qualquer coisa com a caneta. É somente com o desfecho constantemente em vista que podemos conferir a um enredo seu indispensável ar”.

de conseqüência, ou causalidade, fazendo com que os incidentes e, principalmente, em todos os pontos, o tom tendam ao desenvolvimento da intenção

Um conto de Poe

Estaria Poe se referindo ao tipo de conto de que era mestre, ao conto de terror? Suas considerações parecem ser de ordem geral, para todo conto. Convém salientar, no entanto, que no conto de terror e no conto policial o efeito singular tem uma especial importância, pois surge dos recursos de expectativa crescente por parte do leitor ou da técnica do suspense perante um enigma, que é alimentado no desenvolvimento do conto até o seu desfecho final. Por isto, Julio Cortázar bem resumiu o conceito de conto em Poe: “Um conto é uma verdadeira máquina literária de criar interesse”.
Aliás, Julio Cortázar vai mais além. Talvez por se basear não só na teoria, mas também na leitura dos contos de Poe, o contista e crítico argentino identifica o acontecimento como sendo o grande instrumento de causar interesse no leitor de Poe: “No conto vai ocorrer algo, e esse algo será intenso” (p. 124).
Para Julio Cortázar, Poe

“compreendeu que a eficácia de um conto depende de sua intensidade como acontecimento puro, isto é, que todo comentário ao acontecimento em si (. .) deve ser radical- mente suprimido” (p. 122).

Isto é:

“cada palavra deve confluir para o acontecimento, para a coisa que ocorre e esta coisa que ocorre deve ser só acontecimento e não alegoria (...) ou pretexto para generalizações psicológicas, éticas ou didáticas” (p. 122).

Para Poe, tais propostas de construção da obra em função de um efeito predeterminado, seja no poema, seja no conto, primam pela racionalidade. Existe sempre a idéia de um projeto, ou propósito ou intenção, que posteriormente passa a ser executado, mediante trabalho racional. Segundo ele, “com a precisão e rígida lógica de um problema matemático”.

Veja-se o exemplo de um dos seus mais famosos contos, que é considerado, aliás, o iniciador do conto policial: “Os crimes da rua Morgue”, publicado em dezembro de 1841. Nele, a admiração pela análise manifesta-se na sua preleção sobre os jogos, que vai ocupar uma primeira parte do conto. E encontra-se ilustrada pelo próprio enredo do conto: Como o detetive Dupin
— antecedente do futuro Sherlock Holmes, do inglês Conan Doyle — observa e analisa as peças e, assim, monta a sua versão dos crimes ocorridos na rua Morgue. E acerta a jogada, descobrindo o criminoso.

O narrador do conto é o companheiro do detetive amador Dupin, com quem ele vive, em Paris, na mais absoluta reclusão e, segundo o narrador, “abandonando-me ao sabor de suas extravagantes originalidades” (p. 68). Dupin é um analista, tal como Poe o é. De fato, há uma clara admiração pelo analista. E Poe — pela via do seu narrador, talvez — “exulta o analista com essa atividade espiritual, cuja função é destrinçar enredos” (p. 65). E desta forma que o enredo se desenvolve: da notícia do crime lida no jornal à observação direta do local, com o desvendamento do criminoso. E, mediante a técnica do suspense, retarda a resolução da ação e, assim, causa “perturbação lógica”, que é “consumida com angústia e prazer”, segundo Roland Barthes, em “Introdução à análise estrutural da narrativa”. O suspense alimenta, pois, a curiosidade do narrador e a nossa, na medida em que o detetive conta, aos poucos, o que já sabe.

Ele sabe. Ele sabe quem estrangulou as duas mulheres:
a filha, que, depois de violentamente estrangulada, foi empurrada na chaminé de cabeça para baixo; e a mãe, que foi encontrada no pátio da casa, com o pescoço tão cortado que, ao levantarem o corpo, a cabeça se separou. Ele sabe, e o narrador e nós, não. Aos poucos é que ele vai desvendando o crime, sob o nosso olhar espantado...

Com um detalhe ainda de maior espanto: o segredo está em chegar facilmente à dissolução do mistério, coisa de que a polícia não é capaz: “mas é por esses desvios do plano comum que a razão tateia seu caminho, se é que existe, na procura da verdade”, afirma Dupin, que poderia ser também o próprio contista Poe.

Com e contra Poe

Mas foi também Cortázar que alertou para o fato de que os contos e poemas de Poe não são feitos por sua neurose, mas por seu dom artístico. Há em Poe um “caso clínico” e um “caso artístico”, assim como nos seus textos há a execução de um desígnio preestabelecido e também “uma outra ordem, mais profunda e incompreensível”. Existiria então algo, além do cálculo engenhoso, que seria o próprio engenho artístico.
Complementando e contrariando Poe, considere-se, pois, que nem toda obra é só deliberada ou se faz só por um processo mecânico, de execução consciente de um plano pré-estipulado. Nem a de Poe, segundo Cortázar.
Também Boris Eikhenbaum, ao estudar os contos de O. Henry, atenta para princípios já determinados por E. A. Poe, na sua teoria e na sua prática. Examinando as diferenças entre novela (e conto) e romance, constata que existe entre eles “uma diferença de princípio, determinada pela extensão da obra”. E, ao especificar as diferenças, recai na questão do efeito e da unidade:

“Tudo, na novela, assim como na anedota, tende para a conclusão. Ela deve arremessar-se com impetuosidade, tal como um projétil jogado de um avião, para atingir com todas as suas forças o objetivo visado”.

E define o conto:

“Short story é um termo que subentende sempre uma estória e que deve responder a duas condições: dimensões reduzidas e destaque dado à conclusão. Essas condições criam uma forma que, em seus limites e em seus procedimentos, é inteiramente diferente daquela do romance”.

A novela ou conto termina num clímax, enquanto que, no romance, o clímax “deve encontrar-se em algum lugar antes do final”, e termina por epílogo ou falsa conclusão.

E a análise que faz da produção norte-americana de contos leva-o a conclusões semelhantes, reconhecendo nela três características: 1. a unidade de construção; 2. o efeito principal no meio da narração; 3. o forte acento final.
Também O. Henry, como Stevenson, como Poe, tinha o conto na cabeça, antes de escrevê-lo. O plano ou design surge como característica do conto, para Boris Eikhenbaum. Tal como para Poe. Tal como para Jorge Luis Borges, que, em entrevista a um canal de TV em São Paulo (agosto de 1984), distinguia a poesia lírica, que deixa fluir a intimidade, do conto, que é construção.
É por isto que Sean O’Faolain constata no conto moderno, além da sua curteza, da sua compreensão dramática e do seu caráter pessoal, uma rigidez de construção:

“Esta mobilidade para o detalhe combinado com a rigidez da direção geral é um dos grandes prazeres técnicos do conto moderno”.

Considere-se ainda que o conto evolui e se multiplica em diferentes possibilidades de construção. Todos os contos provocam um efeito único no leitor? Não haveria os que provocam nele diferentes efeitos, efeitos que podem, inclusive, ir sofrendo mudanças no decorrer da leitura, desde o extremo cômico ao extremo sentimental, por exemplo? Seriam estes maus contos? Seriam estes contos?
Estas oscilações mostram que a questão da totalidade de efeito é mais complicada do que parece à primeira vista. Vale, aí, a observação do contista William Saroyan, ao considerar que, se a medida do conto é a da leitura de uma só assentada, há uns que podem se sentar por mais tempo que os outros...
Outros teóricos se opõem à teoria de Poe porque atentam para a dificuldade da estipulação de uma teoria sobre o conto, dada a sua fluidez: o conto pode ser “quase tudo”, já afirmava nos anos 40 H. E. Bates, como já afirmara três anos antes o nosso Mário de Andrade.
Estes teóricos recorrem à antiguidade do gênero, que absolutamente não é gênero novo, produto do século XIX. Suas origens são antigas e remontam, segundo alguns, às baladas da pré-história, depois inseridas nas épicas, passando por coletâneas como as do Decameron, de Bocaccio.
Outros avançam, na consideração deste efeito de que trata Poe. Que efeito seria este? Seria a apreensão de uma tensão unitária, para além do tamanho e da extensão? Neste caso, enquanto no romance há várias, com relaxamentos intermediários, no poema é possível haver uma só. De todo modo, para a leitura de cada conto, a questão permanece: quais as condições que, no conto lido, propiciam tal tensão?
Fala-se, além da tensão, em condensação, concentração ou compactação: é o que nos propõe Tchekhov, junto a outros quesitos do conto, na sua farta e conscienciosa correspondência.

A unidade de efeito e a contenção em Tchekhov

Ë certo que Tchekhov, contista célebre e também dramaturgo e médico, não desenvolve sistematicamente uma teoria do conto, tal como Poe. Mas na sua intensa correspondência mostra-se um paciente e dedicado leitor, que não mede esforços no sentido de expor suas críticas aos escritores que o consultavam. Esta militância crítica, sobre obras dos outros e sobre suas próprias obras, permite avaliar os conceitos do escrever bem, em que defeitos e qualidades no contar estórias aparecem expostos com delicada firmeza e simpático entusiasmo. O conjunto das cartas transforma-se, assim, num valioso repertório das dificuldades e conquistas do processo do narrar. Esclarece questões referentes à prática do escrever e do ler estórias — e, especialmente, contos.
Em alguns pontos, coincide com o pensamento de Poe. A questão da brevidade permanece como elemento caracterizador do conto: “Brevidade, na imprensa menor, é a maior das virtudes” (p. 107). E, tal como Poe, afirma que mais vale dizer de menos que demais: “Mas em contos é melhor não dizer o suficiente que dizer demais, porque, porque — não sei por quê!. . .” (p. 106). Nisto estão de acordo.

Em conseqüência desta brevidade, Tchekhov também considera necessário ao conto causar o efeito ou o que chama de impressão total no leitor, que “deve sempre ser mantido em suspense”. Esta característica — e Poe já afirmara — não é necessária em textos mais longos, como o romance: “trabalhos longos e detalhados têm seus objetivos peculiares próprios, que requerem uma execução mais cuidadosa, para além da impressão total” (p. 106).
Mas não é só da brevidade e da impressão total que surge a boa estória ou conto. Tchekhov exige nela “brevidade, e algo que seja novo” (p. 7). E também força, clareza e compactação. Assim, o texto deve ser claro
— o leitor deve entender, de imediato, o que o autor quer dizer. Deve ser forte — e ter a capacidade de marcar o leitor, prendendo-lhe a atenção, não deixando que entre uma ação e outra se afrouxe este laço de ligação. O excesso de detalhes desorienta o leitor, lançando-o em múltiplas direções. E deve ser compacto — deve haver condensação dos elementos. Tudo isto, com objetividade: “Quanto mais objetivo, mais forte será o efeito” (p. 92), afirma em carta à escritora L. A. Avílova.

Se novidade, força, clareza podem ser exigências para toda narrativa, não é este o caso da compactação. Porque é “a compactação que torna vivas as coisas curtas” (p. 82). Ou contos. Naturalmente que, para conseguir compactar os elementos do conto, ou apresentá-los com concisão, o autor tem de controlar a tendência aos excessos e ao supérfluo. O autor tem de se conter. E é justamente esta falta de contenção, especialmente nas descrições da natureza, retratos de mulheres e cenas de amor, que Tchekhov observa nos contos de Máximo Górki, ao lado, também, de tantas qualidades. “O Sr. é como o espectador num teatro que manifesta seu entusiasmo de maneira tão desenfreada que impede a si e os outros de ouvirem”. Falta-lhe a contenção e também a graciosidade. “Graciosidade é quando alguém, numa determinada ação, utiliza o mínimo de movimentos. Mas nos gestos que o senhor faz, sente-se o excesso”

Daí a série de conselhos, espalhados por suas cartas, recomendando evitar personagens, episódios, detalhes e explicações em demasia. E àqueles que criavam muitas personagens aconselhava: diminuir o seu número, ou então escrever romances.
Em outras passagens, Tchekhov reforça suas propostas de realismo. Aconselha escritores a descreverem quadros de modo a que o leitor, ao fechar os olhos, possa recompô-los na mente. E a não pintar quadros que nunca viu, porque a mentira é ainda mais inoportuna na estória que numa conversa.
Entre o longo e o breve, entre a extensão do discurso e sua retenção em narrativa curta, Tchekhov vai se afirmando na curta: “é mais entediante e mais difícil escrever um trabalho longo que um curto”. E, por falta de prática em escrever trabalhos longos, teme sempre cair aí no excesso de detalhes:

“como resultado, consegue-se não um quadro em que todos os detalhes acham-se fundidos num todo, como estrelas nos céus, mas um mero sumário, um seco inventário de impressões.

Entre o perigo da narrativa curta demais e o perigo da narrativa longa demais, o olho crítico de Tchekhov às vezes vacila, pressionado, de um lado, pelo rigor dos seus critérios de avaliação: era preciso escrever bem; e, de outro, pelas necessidades de sobrevivência: era preciso escrever para ganhar dinheiro.
Com isto, -Tchekhov já confirmava um dos grandes estímulos responsáveis pela produção do conto — a expansão jornalística do século XIX que, curiosamente, funcionou, em alguns casos, como amortecedor do seu nível de qualidade. Nos idos de 80, do século XIX, já havia a prensa da imprensa: era preciso escrever e muito e depressa. Assim é que Tchekhov explica a A. S. Suvórin as limitações na caracterização do herói de uma de suas estórias: ou entregava a estória em 25 dias ou ficava sem o dinheiro. . . (p. 11). Porque se o dinheiro não o ajuda nas decisões fundamentais sobre “o que vou fazer e como vou agir”, quando tem dinheiro reconhece (p. 13) que se torna “extremamente descuidado e preguiçoso”.

Esta autocrítica mistura-se a um espírito caprichoso, que aconselha a escrever pouco para escrever bem. Ao seu irmão, Al. Tchekhov, aconselha não escrever mais do que dois contos por semana e polir as estórias... (p. 70). E a L. A. Avílova aconselha trabalho lento e cuidadoso: que gaste um ano todo escrevendo uma estória e mais meio ano debastando-a, para então publicá-la . . (p. 98).

A intenção de Tchekhov-escritor realista é repetidamente anunciada por ele mesmo: representar a verdade, que é “a absoluta liberdade do homem, liberdade da opressão, dos preconceitos, ignorância, paixões, etc.” E para denunciar uma situação condenável.

Meu objetivo é matar dois pássaros com uma só pedra:
pintar a vida nos seus aspectos verdadeiros e mostrar quão longe está da vida ideal” (p. 15).

Nesta perspectiva, aconselhou sempre o contato mais próximo e intenso dos escritores com a realidade. Compreende-se que tenha aconselhado Máximo Górki (p. 89) a ir para São Petersburgo ou Moscou e viver entre os escritores para sentir o ambiente literário e poder estudar o seu público leitor.

De Maupassant a Tchekhov: o conto e o enredo

Na história do conto, Tchekhov não se afirma só enquanto um crítico e teórico, cujos pontos de vista coincidem tanto com os de Poe. Tchekhov-contista avança no sentido de libertar o conto de um dos seus fundamentos mais sólidos: o do acontecimento. E, neste aspecto, afasta-se do conto de acontecimento extraordinário, tal como o conto de Poe. E afasta-se também do conto de simples acontecimento, tal como o conjunto dos contos de Maupassant.
Porque os contos de Maupassant trazem o acontecimento que flui, naturalmente, sem nada de excepcional. E a qualidade dos seus contos reside exatamente nisto:
sua imensa produção, de cerca de trezentos contos, traz uma fácil fluência natural do acontecimento, com precisão e descontraída firmeza, produto de uma intensa elaboração, seguindo os conselhos do seu mestre Flaubert.
E o caso do seu conto “Dois amigos” (Mar de histórias, v. 4), por exemplo. São dois amigos que costumavam se encontrar nas pescarias de domingo, perto de Paris. Um dia encontram-se na cidade e relembram estes momentos felizes no campo, que se tornaram impossíveis, por causa da guerra. E resolvem pescar outra vez, aproximando-se, para isso, do campo inimigo. Enquanto estão calmamente desfrutando o prazer da pesca, são presos como espiões e fuzilados. Ora, o encanto do conto está no modo aparentemente fácil de conduzir a intriga, com início, meio e fim. Os episódios fluem e são eles que fazem o conto: a conversa em Paris, as pescarias de antes, a pescaria fatídica — de modo a realçar a ingenuidade dócil destes dois amigos e a violência da guerra, que, aliás, o próprio Maupassant sentiu bem de perto, como soldado, antes de se tornar um homem rico com os Contos que escrevia.
Já Tchekhov escreve contos freqüentemente e, pelo menos na aparência, sem grandes ações, rompendo, assim, com uma antiga tradição. E abre as “brechas” para toda uma linha de conto moderno, em que às vezes nada parece acontecer

Esta narrativa que se enreda na ruptura com o compromisso dos grandes acontecimentos verifica-se também no seu teatro. Tchekhov registra os acontecimentos da vida numa sucessão de quadros, como se fosse um mosaico, abandonando a construção tradicional, que previa uma ação, com desenvolvimento, clímax e desenlace.

Também no conto, a tal unidade tradicional, calcada na obediência ao início, meio e fim, é prejudicada. Alguns contos seus não crescem em direção a um clímax. Ao contrário, mantêm um tom menor, às vezes por igual no decorrer de toda a narrativa. Ou então realizam uma curva descendente, conforme afirmação do próprio Tchekhov, em carta a Suvórin, referindo-se à peça A gaivota:
“Bem, terminei a peça. Eu a comecei forte e acabei pianissimo — contrariamente a todas as regras da arte dramática” (p. 146).

Curiosamente, o autor atribui, por vezes, este arrefecimento da narrativa à premência do dinheiro. A revista mensal Siéviernii Viéstnik não era rica, e ele era um dos seus colaboradores mais caros. Por isso é que, segundo ele,

“o começo de minhas estórias é sempre muito promissor,
é como se eu estivesse começando um romance, o meio
é confuso e o fim, como num breve quadro, rápido como
fogos de artifício” (p. 11).

Mas é pelo seu meio que o conto de Tchekhov torna-se mais original:

“estando acostumado a estórías curtas que consistem somente num começo e fim, eu afrouxo e começo a ‘ruminar’ quando passo a escrever o meio (p. 8).

Ora, é justamente pelo meio que os seus contos inovam. Ou é aí que ocorre a subversão do centro de interesse tradicional rígido, como já ocorrera em outros pontos, com outros escritores russos, conforme observa Boris Schnaiderman, no seu artigo “Por falar em conto”.

Lembre-se da angústia do cocheiro lona Potapov, que se mantém do início ao final do conto “Angústia”

(Mar de histórias, v. 5). Nada acontece no conto, a não ser este estado que domina a personagem: o pai que tenta contar aos seus fregueses a notícia da morte do filho, e inutilmente, enquanto faz a corrida no trenó, levando-os aos seus destinos. Porque ninguém o ouve. E ele conta a notícia ao seu cavalo.

O conto faz-se por estas tentativas que se sucedem e que não chegam a constituir um fio de grandes ações. Nem mesmo a última delas se sobressai demais às outras. Mas são fatalmente, todas e cada uma, manifestações fortes e comoventes da desgraça e da solidão humana. Não há mesmo ninguém a quem confiar a sua dor. Não há mesmo ninguém a quem contar a sua estória.

Neste conto, em que pouca coisa parece estar acontecendo desvenda-se todo um destino humano. Vale, neste caso, a observação que fez Otto Maria Carpeaux para outro conto de Tchekhov, intitulado justamente “O acontecimento”. Afirma Carpeaux:

“Parece conto sem enredo. Pois em ‘O acontecimento’ não aconteceu nada digno de nota. Mas quem lê com atenção maior esse conto, perceberá que o acontecimento é o maior e o mais trágico da existência”.

Estas estórias deixam questões pulsando no ar, com alto teor de comoção. Talvez por isto Virginia Woolf, que procura as razões desta força da literatura russa 7, a encontre no modo pelo qual ela transforma a “alma” torturada em principal personagem, numa mistura surpreendente de beleza e vilania, de mesquinharia e dignidade.

O conto realiza-se justo nesta sua capacidade de abertura para uma realidade que está para além dele, para além da simples estória que conta. É o que afirma Julio Cortázar, em “Alguns aspectos do conto”:

“o bom contista é aquele cuja escolha possibilita essa fabulosa abertura do pequeno para o grande, do individual e circunscrito para a essência mesma da condição humana” (p. 155).

O momento especial

Que momento é esse?

Assim como para Poe o conto depende de um efeito único ou impressão total que causa no leitor, para outros, é o próprio conto que representa um momento especial em que algo acontece. No entanto, surgem dúvidas com relação ao que venha a ser esse momento especial. Tratar-se-ia, aqui, do momento da leitura, tal como era para Poe? Ou do momento ou tempo em que acontece algo para a personagem, no nível do enunciado? Ou, ainda, do momento ou tempo experimentado pelo narrador, estabelecendo, portanto, relação com o tempo do seu discurso de narrador, ou com a enunciação?
Para alguns, é necessário que algo aconteça no conto
— nele precisa haver ação. Nesta linha, o conto é o que traduz uma mudança, de caráter moral, de atitudes ou de destino das personagens, e que provoca uma realização do leitor, através destas mudanças: é a teoria de Theodore A. Stroud. Para outros, deve acontecer algo num tempo passado, que é, desta forma, dominado pelo narrador — é o que pensa Mário A. Lancelotti.

Mas, para outros, o que o conto mostra é justamente a ausência de mudança e de crise. E se a crise existe, por vezes é notada pelo leitor, não pela personagem. Às vezes não existe mesmo crise nenhuma. Neste caso, as personagens não mudam. E no conto nada acontece, isto é, o que acontece é este nada acontecer. A monotonia do relato e a mesmice do cotidiano substituem, então, o que seria a dinâmica do processo de evolução de uma mudança.

O importante, pois, é que haja algo especial na representação desta parte da vida que faz o conto, isto é, que haja um acidente que interesse e que ele “seja ou pareça-nos realmente um ‘caso’ considerado pela novidade, pelo repente, pelo engraçado ou pelo trágico” — afirma José Oiticica (citado por Herman Lima, em Variações sobre o conto).

Intimamente ligado ao momento de realidade que o conto representa, há o problema do tipo de tempo que nele é representado. Trata-se de acontecimento com simetria e lógica na sua sucessão de início/meio/fim? Segundo Aristóteles, sim. Mas parece que o grande mérito de Tchekhov foi quebrar esta linha de seqüência, valorizando o meio.

Havendo ou não evolução de atitudes de personagens ou mudança de seu comportamento, o que este modo de abordar o conto propõe é considerar o conto como um modo narrativo propício a flagrar um determinado instante que mais o especifique. Neste caso, não haveria o acompanhar por muito tempo esta evolução, o que redundaria em formas mais desenvolvidas, como a novela e o romance. Haveria o simples, arguto e rápido instantâneo da realidade, captando-a na sua especificidade. Mas isto não seria típico também do poema? E da crônica? E do sketch? E ainda: se o conto tem por base este instante de crise ou conflito da personagem, não tenderia a se basear na tensão dramática, tal como no teatro? Ë o que propõem alguns teóricos, como E. Bowen. Semelhanças entre a construção do conto e do teatro existem em vários aspectos como: começar do fim para o começo; tender para um final conclusivo forte; tudo girar em torno de um ponto — o conflito dramático.
E, mesmo assim, haveria muitas variações ou muitos momentos diferentes entre si. Afinal, que momento é esse?

A epifania (James Joyce)

Um dos momentos especiais é concebido como o que se chama de epifania. Epifania, tal como a concebeu James Joyce, é identificada como uma espécie ou grau de apreensão do objeto que poderia ser identificada com o objetivo do conto, enquanto uma forma de representação da realidade. Para Joyce, segundo um dos capítulos do seu Stephen Hero, epifania é “uma manifestação espiritual súbita”, em que um objeto se desvenda ao sujeito. Trata-se, em última instância, do modo de se ajustar um foco ao objeto, pelo sujeito. Seria um último estágio desta tentativa de ajuste, que se faz primeiro por tentativas depois, com sucesso.
Ê o que a personagem narradora explica ao seu companheiro ao divisar o relógio de “Ballast Office”:

“Imagine meus olhares sobre esse relógio como experiências de um olho espiritual tentando fixar a própria mirada através de um preciso foco de luz. No momento em que o foco é ajustado, o objeto é epifanizado. Ora, é nesta epifania que reside para mim a terceira qualidade, a qualidade suprema do belo”

A epifania seria um dos quesitos de beleza. O primeiro deles seria o da integridade, quando se percebe a coisa enquanto obra integral. Este primeiro quesito permite reconhecer a coisa como sendo uma, e não outra. O segundo, o da simetria, permite considerar o objeto como um, em si mesmo, nas suas partes e no seu todo, na relação consigo mesmo e com outros objetos. E pelo terceiro, a epifania, a coisa torna-se ela mesma:

“Constatamos primeiro que o objeto é uma coisa íntegra; em seguida, que apresenta uma estrutura compósita e organizada, que é efetivamente uma coisa; enfim, quando as relações entre as partes estão bem estabelecidas, os pormenores estão conformes à intenção particular, constatamos que esse objeto é o que é. Sua alma, sua qüididade, de súbito se desprende, diante de nós, do revestimento da aparência. A alma do objeto, sela ele o mais comum, cuja estrutura é assim demarcada, assume um brilho especial a nossos olhos. O objeto realiza a sua epifania”.

Estas considerações não fazem parte estritamente do conceito do que se denomina conto. Podem fazer parte de uma teoria geral da narrativa, ou mesmo de uma teoria geral do conhecimento.
No entanto, em contos cujo núcleo é justamente esta percepção reveladora de uma dada realidade, a teoria torna-se fundamental para a sua leitura. Ë o caso dos contos de Clarice Lispector, por exemplo. Aliás, não só dos seus contos mas de toda a sua narrativa, conforme foi lida por Olga de Sá.

Um conto de Clarice Lispector

Como é que ocorre esta epifania, num dos contos de Clarice Lispector, o conto “Amor” ?

A estória é aparentemente simples. Ana, uma dona-de-casa, espera visitas para o jantar e vai às compras. Quando está já de volta no bonde, vislumbra um cego mascando chicle, o que provoca subitamente toda uma mudança em seu comportamento. Inicia-se, neste momento, uma situação de desorientação, de desligamento da realidade, que vai atingir o seu clímax no Jardim Botânico, onde Ana renasce, experimentando outro tipo de percepção das coisas. Plantas, animais e qualquer detalhe passam a estar prenhes de significado. E ela contempla, extasiada, este outro mundo, que se resume num paradoxo: sente tanto a vida, que esta lhe vem como a morte, a dor como amor, o sofrimento, como felicidade, o Inferno, como o Paraíso: “O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno”. E: “Era fascinante, e ela sentia nojo”.

Convém notar que a experiência especial de Ana é gradativa, e leva consigo o leitor, que também caminha, na leitura, sem saber para onde vai, levado que vai por um impulso estranho, mergulhado que está neste aprofundar-se da experiência de Ana.
Mas se por um lado o miolo do conto consiste nesta experiência de caráter místico (enquanto revelação), gnóstico (enquanto conhecimento) ou filosófico (enquanto crise existencial), e até estético (enquanto percepção recriadora do mundo), o fato é que tal experiência, de índole moderna (enquanto consagração de um momento especial de vida interior), se insere numa estrutura rigorosamente clássica na sua estrutura linear, em três tempos:
1. o início (Ana vai às compras e aparece envolvida na rotina doméstica); 2. o desenvolvimento (Ana mergulha na experiência de crise desde quando vê o cego até fugir correndo do Jardim Botânico); 3. o final (Ana volta para a rotina doméstica).

Este conto demonstra, então, que nem sempre o conto moderno foge totalmente dos princípios anteriores, ou que nem sempre há apenas adoção de novos procedimentos. Por vezes, a qualidade reside mesmo nesta forma de combinar recursos da tradição com os que vão surgindo nos novos tempos, ou seja, aliar a um modo tradicional de narrar, com começo, meio e fim (tal como observava Aristóteles na sua Poética), uma experiência de índole moderna, que representa um estado de crise e que, entre tantos outros possíveis sentidos, pode significar o da situação da mulher. Mulher “abafada” por uma vida familiar, em que não cabe a expansão de suas potencialidades mais individuais e mais profundas, e em que acaba perdendo sua identidade, a qual vislumbra, temporariamente e na sua plenitude, no Jardim Botânico; para depois voltar, com a riqueza desta experiência anterior, à absorvedora rotina da vida doméstica.

Portanto, a epifania, embora característica de uma linha de literatura moderna, não explica os contos de Clarice Lispector enquanto gênero específico. A questão não é somente constatar a epifania, mas o conjunto de recursos narrativos que se combinam, de forma a definir o modo de construir o conto. Seus contos surgem, pois, da combinação de vários recursos narrativos: os’ da tradição e os dos tempos modernos. Combinação esta que é, ela sim, responsável pela sua especificidade.

Um flash dos novos tempos

É justamente por esta capacidade de corte no fluxo da vida que o conto ganha eficácia, segundo alguns teóricos, na medida em que, breve, flagra o momento presente, captando-o na sua momentaneidade, sem antes nem depois. É o caso, entre outros, da escritora Nadine Gordimer, para quem o conto representa o real como que através de flashes de luz, intermitentes como o piscar de vaga-lumes.

Assim concebido, o conto seria um modo moderno de narrar, caracterizado por seu teor fragmentário, de ruptura com o princípio da continuidade lógica, tentando consagrar este instante temporário.
As reservas a esta concepção são mais ou menos semelhantes às que já foram levantadas sobre o conceito de conto como representação de um momento epifânico ou de crise existencial: ela pode explicar um conto, ou uma narrativa. Mas não o conto enquanto gênero.

No entanto, a escritora propõe uma questão de interesse, quando indaga das razões que levam o conto a sobreviver: quais as implicações sócio-políticas desta sobrevivência? Se o romance, conforme a crítica marxista de G. Lukács, pressupõe privacidade para a sua curtição pela classe burguesa e marca o apogeu da cultura individualista, que papel social caberia à leitura do conto?

Segundo ela, o conto

“é uma arte solitária na comunicação, e é, pois, outro sinal, tal como o romance, de uma solidão e isolamento crescentes do individuo numa sociedade competitiva. Você só pode ter a experiência de leitura de um conto mediante condições mínimas de privacidade que são as da vida da classe média”.

No entanto, a autora reconhece uma mudança.

Mas naturalmente o conto, por razão de sua ‘completude’, totalmente contida no breve tempo que você dispensa a ele, depende menos que o romance das condições clássicas de vida da classe média, e talvez corresponda à ruptura daquela vida que já está acontecendo. Neste caso, embora o conto possa sobreviver ao romance, pode tornar-se obsoleto, quando o período de desintegração for substituído por novas formas sociais e por formas de arte que as representam

Neste caso, o apogeu do romance, seguido da preponderância do conto, tende a ser seguido por outras formas narrativas. Haveria uma tendência à predominância de formas cada vez mais breves? Esta proposta estimula discussão sobre a relação entre o conto e outras formas breves de comunicação, veiculadas pela TV, por exemplo. Qual será o destino do conto na era da informática?

O conto: a voz de um solitário?

Em 1936 Elizabeth Bowen alertava para a proximidade entre a arte do conto e a do teatro, e para o fato de a arte do conto estar crescendo paralelamente à do cinema, quando observava produções dos últimos trinta anos. E lamentava o destino do conto: foi durante muito tempo o “romance condensado”, que precisava de um assunto complexo (tal como o romance) e dependia do modo como a condensação era levada a efeito. Faltava, pois, ao conto o que o caracteriza — a “simplicidade heróica”, e certas características que Bowen salientava na seleção que fez de contos para o volume The faber book: a completude, a espontaneidade, a capacidade de situar o homem na sua solidão, na consciência de ocupar um lugar sozinho na realidade.
E também a solidão do homem, a sua voz solitária, a base das considerações de Frank O’Connor, na obra The lonely voice. O conto, segundo o autor, visa satisfazer o leitor solitário, individual, crítico, porque nele não há heróis com os quais este possa se identificar, tal como acontece no romance, em que esta solidão é de certa forma amenizada ou desaparece, na medida em que compartilha as ações do herói e se identifica com ele. No conto, mundo solitário de seres solitários, são todos herdeiros de “O Capote”, de Gogol, afirmava Turguenev. Porque Gogol criara o little man, a personagem situada entre o heróico e o satírico, que caracteriza a “população submersa ou marginal” e que tenta o escape ou a fuga desta situação. Ainda segundo O’Connor, no conto não há também a totalidade de uma experiência, com desenvolvimento cronológico, como no romance, mas a seleção de pontos, que acabam definindo o seu sucesso ou o seu fiasco.

As personagens do conto têm um mundo autônomo: não é a brevidade que as caracteriza, O que as caracteriza é o fato de os problemas serem delas, e não nossos.

“O que Turguenev e Tchekhov nos dão não é tanto a brevidade do conto comparada com a expansão do romance, quanto a pureza de uma forma de arte motivada mais por suas próprias necessidades que por nossa conveniência” (p. 28).

Frank O’Connor situa, pois, o conto, num mundo moderno: o conto é gênero novo; e tal como o romance, é arte privada e destinada ao leitor solitário.
As ressalvas que se pode fazer a O’Connor são as que podem ser feitas a outros autores. Refere-se apenas ao conto moderno, cuja temática da solidão surge como conseqüência de uma sociedade burocratizada e capitalista, que deseja o objeto. E considera impossível haver identificação de vozes — entre a voz do leitor e a da personagem. Entretanto, a identificação pode existir ainda que e pelo próprio fio da semelhança de situações: a da solidão.
Já nos anos 40, Eudora Welty salientava a variedade de recursos que atuam no conto, cuja ênfase podia recair no enredo, na personagem, na forma simbólica, e que possibilitava a forma impressionista dos contos de Virginia Woolf ou a organização musical nos contos de Faulkner. Mas ressaltava, sobretudo, o conto de atmosfera e de mistério: “A primeira coisa que realmente observamos numa estória é uma atmosfera de mistério”.

Contra o rigor formal, os defensores do conto de atmosfera valorizam o caráter pessoal dos contos, que refletem a liberdade individual do autor e a sua carga de personalidade, contra o conto mercenário, e, outras vezes, contra o conto fragmentário, que acaba não contando nada. Considerando o conto mais próximo ora da poesia lírica, ora do teatro, ora do cinema, ressaltam sua proximidade do sono (dream verbalized, segundo Joyce Carol Oates) e do mistério.
No entanto, nenhum destes critérios tem condição de sustentar uma definição do conto, quer seja o conto de atmosfera, quer seja a voz solitária do homem moderno. Mas não é conto só por isso. Na verdade, tais critérios atentam para o assunto do conto: o mistério, a solidão. E não é só de assunto que se faz um conto.

A simetria na construção (Brander Matthews)

Os que seguem Poe reafirmam o caráter da unidade de efeito no conto e a sua importância como gênero novo, produto do século XIX, nos termos em que foi praticado e teorizado por Edgar Allan Poe. Tal é a linha seguida por Brander Matthews, num ensaio de 1901, em que faz questão de escrever short-story, com hífen, para distingui-la de uma estória meramente curta: a short story. Isto porque, segundo o autor, que segue à risca as propostas de Poe, existe uma diferença entre conto e romance que não é só de extensão, mas de natureza: o conto tem uma unidade de impressão, que o romance obrigatoriamente não tem. E por que tal unidade ocorre? Por causa da singularidade dos elementos que compõem a narrativa do conto: o conto é o que tem unidade de tempo, de lugar e de ação. O conto é o que lida com um só elemento: personagem, acontecimento, emoção e situação. E o autor sustenta com tal rigor esta teoria, que marcou época na história da teoria do conto.

Além destas considerações sobre a necessidade de unidade de elementos, compondo a “teoria de um só”, B. Matthews faz outras observações sobre o conto, que atestam sua posição dogmática rigorosa. Segundo ele, o conto não precisa do tema do amor, tal como precisa o romance — e ele se refere ao contemporâneo romance americano. No conto, o que conta é: concisão e compressão. E originalidade, ingenuidade. E finalmente: no conto sempre algo acontece. O assunto é de extrema importância, mais do que no sketch ou quadro.

Neste início do século, a teoria do conto desponta, pois, com radical dogmatismo. Mas será que todo conto teria um só episódio? Muitos já lembraram que há contos que, embora obedientes ao princípio da brevidade e da contenção, têm mais de um episódio. E o caso do conto de Maupassant, “Odyssée d’une filie”. Aliás, o mesmo autor, anônimo, que faz esta objeção a B. Matthews, faz mais esta: não é porque um conto provoca a unidade de impressão que será mais simples ou mais complexo. Uma coisa (a unidade de efeito) nada tem a ver com a outra (a maior ou menor complexidade da obra). Mas esta já é uma outra questão.

A conceituação de Brander Matthews encontra repercussão em outras posteriores. Como na de 1909, também baseada no princípio da singularidade dos elementos que compõem o conto.

“O conto é uma narrativa breve; desenrolando um só incidente predominante e uma só personagem principal, contém um assunto cujos detalhes são tão comprimidos e o conjunto do tratamento tão organizado, que produzem uma só impressão”,

afirma J. Berg Esenwein, num dos manuais que proliferaram nas primeiras décadas do século, nos Estados Unidos. Este princípio seria reafirmado por Carl Grabo, em 1913: o conto produz um só efeito. E desde estes primeiros anos do século XX, estes herdeiros de Poe, mais ou menos radicais, passariam a influenciar outros tantos estudiosos do assunto.

O perigo do estereótipo

A linha normativa gera uma série de manuais que prescrevem como escrever contos. E a revista popular propicia uma comercialização gradativa do gênero. Tais fatos são tidos como responsáveis pela degradação técnica e pela formação de estereótipos de contos que, na era industrializada do capitalismo americano, passam a ser arte padronizada, impessoal, uniformizada, de produção veloz e barata.
Tais preocupações provocam, por sua vez, um movimento de diferenciação entre o conto comercial e o conto literário. Daí talvez tenha surgido o preconceito contra o conto: seria ele apenas um romance condensado ou, em sentido contrário, um embrião de romance? De qualquer maneira, este modo de conduzir o problema considera o conto uma forma secundária em relação ao romance: como preparação do romance ou como ocupação, em horas de descanso...
A necessidade de revalorização do gênero é uma conseqüência inevitável. As próprias publicações americanas encampam um movimento de reação: tentam inclusive reivindicar a necessidade de estudos específicos sobre o conto e um estudo das causas de ser o conto uma “arte depreciada”.

Esta perspectiva surge do repúdio à artificialidade e à- sofisticação que dominaram a produção do conto nas primeiras décadas do século XX nos Estados Unidos, quando o conto se sujeitou a fórmulas que Henry
S. Canby, em 1915, descreve ironicamente como: um diálogo no início; um desenvolvimento até o clímax; um final inesperado; e uma sentença final, de sentimento ou epigramática. Isto, com a obsessão por duas regras básicas: 1. eliminar tudo que não contribuísse diretamente para a caracterização da personagem e ação; 2. detectar apenas os pontos altos, sem detalhes inúteis.

O exagero das regras, que sacrificara o conto em benefício de fórmulas, proclama a necessidade de libertação das regras. Destas primeiras décadas datam as críticas severas aos manuais que ditavam como escrever contos e críticas às exigências do plot (enredo). Alguns textos, reunidos em What is the short story?, de E. Current-García e W. R. Patrick, mostram essa preocupação antidogmática. Sherwood Anderson escreve: “Form, not plot”, em 1924. E Ring Lardner acaba aconselhando, ironicamente, “como não escrever contos”. William Saroyan rejeita definições: “O que é, se nada é, uma estória?” E mais: “uma coisa é o que ela é, principalmente uma coisa criada”. E Katherine Anne Porter, ironiza a exigência do editor ao rejeitar contos para publicação mediante a alegação de que: “No plot, my dear, no story” (“Se não há enredo, meu querido, não há estória”).
O acentuado caráter empresarial da produção do conto, examinado como mercadoria nas suas relações de oferta e procura, acha-se patente nos estudos dos participantes do simpósio internacional sobre o conto, cujos trabalhos foram publicados nas quatro partes da Kenyon Review. Ao lado de textos de informação sobre a situação do conto nos diversos países, grande parte dos trabalhos dirige suas atenções para o caráter comercial do conto e as relações entre editor/escritor.
Contra este estado do conto é que surge a louvação do conto russo. Neste sentido é que H. S. Canby, em 1915, exaltava a superioridade do conto russo, que segue o ritmo da vida, livre do lema americano com que os editores prensavam os escritores: “Your stories must move, move, move!” (“Suas estórias precisam caminhar, caminhar, caminhar!”). E exigindo dos escritores remissão exagerada de cada palavra à solução e efeito do enredo. E gerando, ainda, outras sujeições nesta cadeia consumista: do escritor ao editor; do editor ao público.
Herman Lima, por exemplo, que vinha publicando artigos sobre o conto desde os anos 40, na Revista Brasileira, publica em 1952 um livro sobre o conto — Variações sobre o conto — que marcou a história dos estudos do conto no Brasil.
Seleciono, dentre as tantas definições de conto que Herman Lima apresenta, a de Araripe Júnior, de 1894, em artigo escrito para A Semana, de Valentim de Magalhães, em que o autor é categórico quanto à diferença entre conto e romance.

“o conto é sintético e monocrônico; o romance, analítico e sincrônico. O conto desenvolve-se no espírito como um fato pretérito, consumado; o romance, como a atualidade dramática e representativa. No primeiro, os fatos filiam-se e percorrem uma direção linear; no segundo, apresentam-se no tempo e no espaço, reagem uns sobre os outros, constituindo trama mais ou menos complicada. A forma do conto é a narrativa; a do romance, a figurativa”.

Não seria esta definição, assim tão rígida, uma conseqüência da época em que foi escrita? Talvez. Mas lembre-se que também nesta época Machado de Assis não só escrevia seus contos, como também escrevia sobre eles, nas suas “Advertências” às coletâneas. E não era tão rigoroso assim...
Esta é uma das muitas citações que faz o crítico brasileiro H. Lima, com o objetivo de mostrar a disparidade de pontos de vista com relação a uma definição do conto. E que nos serve de alerta: é preciso desconfiar das definições autoritárias, que, como toda proposta dogmática, tendem a ser desmentidas pela própria variedade dos objetos que tentam tão rigorosamente definir,

A questão da brevidade

O conto é uma forma breve. Esta afirmação, que aparece toda vez em que se tenta definir o conto, nos leva a um conhecido ditado:

“No conto não deve sobrar nada, assim como no romance não deve faltar nada.”

Para Alceu Amoroso Lima, numa conferência que fez sobre o conto na Academia Brasileira de Letras, em 1956, o conto é: uma obra de ficção; uma obra de ficção em prosa; uma obra curta de ficção em prosa. E completa:

“O tamanho, portanto, representa um dos sinais característicos de sua diferenciação. Podemos mesmo dizer que o elemento quantitativo é o mais objetivo dos seus caracteres. O romance é uma narrativa longa. A novela é uma narrativa média. O conto é uma narrativa curta. O critério pode ser muito empírico, mas é muito verdadeiro. É o único realmente positivo.

E parece que é mesmo, porque quando se propõe a caracterizá-lo quanto ao aspecto qualitativo, o problema torna-se mais complicado. Eis um exemplo: “Enquanto no romance o tempo domina o espaço, no conto a primazia pertence ao espaço sobre o tempo”.

No entanto, mesmo em Poe, a questão não era propriamente e tão simplesmente a do tamanho. E também para Norman Friedman, em “What makes a short story short?” (1958), a brevidade, considerada como fator diferencial, baseia-se apenas nos sintomas e não nas causas. A questão não é “ser ou não ser breve”. A questão é: “provocar ou não maior impacto no leitor”.

Neste caso, o conto pode ter até uma forma mais desenvolvida de ação, isto é, um enredo formado de dois ou mais episódios. Se assim for, suas ações, no entanto, são independentes, enquanto que no romance dependem intrinsecamente do que vem antes e depois. O conto é, pois, conto, quando as ações são apresentadas de um modo diferente das apresentadas no romance: ou porque a ação é inerentemente curta, ou porque o autor escolheu omitir algumas de suas partes. A base diferencial do conto é, pois, a contração: o contista condensa a matéria para apresentar os seus melhores momentos. Pode haver o caso de uma ação longa ser curta no seu modo de narrar, ou então ocorrer o inverso.

Daí a conclusão a que chega Norman Friedman:

um conto é curto porque, mesmo tendo uma ação longa a mostrar, sua ação é melhor mostrada numa forma contraída ou numa escala de proporção contraída” (p. 134).

Para tanto, mobiliza alguns recursos narrativos favoráveis a este intento de seleção, mediante omissão, expansão, contração e pontos de vista.

O que não se pode afirmar é que uma estória é curta porque tem um certo número de palavras ou porque tem mais unidade ou porque enfoca mais o clímax que o desenvolvimento da ação.

O que podemos considerar, afirma Norman Friedman, é como e por que tais recursos acontecem e os modos vários de responder a estas questões, de acordo com as possíveis combinações de tais elementos narrativos. Ou seja: de como aparecem tais combinações em cada conto.

Dos males, o menor

Sobre a brevidade, lembro ainda Machado de Assis, que, na “Advertência” às suas Várias histórias 10, afirma que juntou estes contos em função do tamanho: as trezentas páginas do livro. Nesta mesma advertência, acrescenta uma declaração de intenções “aos que acharem excessivos tantos contos”: “É um modo de passar o tempo”. E uma desculpa de aparente modéstia: “não pretendem sobreviver como os do filósofo” (referindo-se a Diderot, que cita na epígrafe). Pois “não são feitos daquela matéria, nem daquele estilo que dão aos de Merimée o caráter de obras-primas, e colocam os de Poe entre os primeiros da América”.

Desconfio, sempre, de Machado de Assis. E da sua modéstia. Mas concordo com ele quando reconhece que:
“O tamanho não é o que faz mal a este gênero de histórias; é naturalmente a sua qualidade”. E também quando reconhece, “em alguns casos”, a grande vantagem de os contos serem mais curtos. . . que os romances: “mas há sempre uma qualidade nos contos, que os torna superiores aos grandes romances, se uns e outros são medíocres:
é serem curtos”.

O conto excepcional (Julio Cortázar)

O conto excepcional, para Julio Cortázar, em “Alguns aspectos do conto”, não é o conto que traz o extraordinário anormal, como os contos de Poe; nem o conto que traz o extraordinário fantástico, como os contos do próprio Cortázar. O conto excepcional é o conto muito bom. Excepcional é a marca de qualidade literária que torna alguns contos inesquecíveis para quem os lê.

De fato, para que o conto fisgue o leitor é preciso que tenha algo mais, aquela “alquimia secreta” de que nos fala Cortázar. Ou então:

“O excepcional reside numa qualidade parecida à do ímã; um bom tema atrai todo um sistema de relações conexas, coagula no autor, e mais tarde no leitor, uma imensa quantidade de noções, entrevisões, sentimentos e até idéias que lhe flutuavam virtualmente na memória e na sensibilidade; um bom tema é como um sol, um astro em torno do qual gira um sistema planetário de que muitas vezes não se tinha consciência até que o contista, astrônomo de palavras, nos revela sua existência” (p. 154).

Vimos várias destas condições, ao percorrermos as teorias do conto. Mas Cortázar parece dar o fecho necessário, ao considerá-las em conjunto, como “um sistema de relações”, em que cada elemento tem sua função específica, insubstituível.

O conto, o romance, a fotografia, o cinema

A comparação que Julio Cortázar estabelece entre romance/cinema e conto/fotografia facilita a compreensão das suas diferenças, ao mesmo tempo que realça os critérios de valor para um julgamento do que seria um bom conto. Ou seja, realça

os elementos invariáveis que dão a um bom conto a atmosfera peculiar e a qualidade de obra de arte” (p. 149).

Na comparação, o romance está para o conto assim como o cinema está para a fotografia. Ou então: há elementos de semelhança entre o romance e o cinema, e entre a fotografia e o conto. Isto,

“na medida em que um filme é em princípio uma‘ordem aberta’, romanesca, enquanto que uma fotografia bem realizada pressupõe uma justa limitação prévia, imposta em parte pelo reduzido campo que a câmara abrange e pela forma que o fotógrafo utiliza esteticamente essa limitação” (p. 151).

No entanto, para alguns fotógrafos, a arte da fotografia se apresenta como um aparente paradoxo, que Cortázar considera também próprio do conto:

“o de recortar um fragmento da realidade, fixando-lhe determinados limites, mas de tal modo que esse recorte atue como uma explosão que abre de par em par uma realidade muito mais ampla”.

Já o romance e o cinema agem por acumulação:

a captação dessa realidade mais ampla e multiforme é alcançada mediante o desenvolvimento de elementos parciais, acumulativos, que não excluem, por certo, uma síntese e que dêem o ‘clímax’ da obra”.

Na fotografia e no conto, em vez da acumulação o que importa é a seleção do significativo: surge a

“necessidade de escolher e limitar uma imagem ou acontecimento que selam significativos, que não só valham por si mesmos, mas também sejam capazes de atuar no espectador ou no leitor como uma espécie de abertura, de fermento que projete a inteligência e a sensibilidade em direção a algo que vai muito além do argumento visual ou literário contido na foto ou no conto” (p. 151-2).

O que Cortázar ouve de um escritor argentino, apreciador de boxe, arremata esta distinção que desenvolve entre romance e conto:

“Nesse combate que se trava entre um texto apaixonante e o leitor, o romance ganha sempre por pontos, enquanto que o conto deve ganhar por knock-out” (p. 152).

O significativo, a intensidade e a tensão

Embora vários elementos concorram para a criação de um conto, parece que o destino de sucesso ou fiasco depende menos destes elementos que do modo como são tratados pelo contista. Ou seja: o que decide se um conto é bom ou ruim é o procedimento do autor, e não propriamente este ou aquele elemento isolado.

Tais elementos são elaborados de forma a permitir que o conto se torne significativo: segundo Cortázar,

“Um conto é significativo quando quebra seus próprios limites com essa explosão de energia espiritual que ilumina bruscamente algo que vai muito além da pequena e às vezes miserável história que conta” (p. 153).

Para que isto ocorra, o

“tempo e o espaço do conto têm de estar como que condensados, submetidos a uma alta pressão espiritual e formal para provocar essa ‘abertura’ (p. 152).

Além da capacidade de captar o mais significativo, há outros quesitos que favorecem a conquista do interesse do leitor ou do “seqüestro momentâneo do leitor”, segundo Cortázar, este discípulo de Poe, que de certa forma está a reiterar a lição do mestre. Pois o que é a intensidade senão a eliminação do supérfluo, de que já tratava Poe? Pois intensidade, para Cortázar, é

“a eliminação de todas as idéias e/ou situações intermédias, de todos os recheios ou fases de transição que o romance permite e mesmo exige” (p. 157).

Nos contos de intensidade, como em “O tonel de Amontillado”, de Poe, “os fatos, despojados de toda preparação, saltam sobre nós e nos agarram” (p. 157). Diferente desta intensidade é a tensão, que “é uma intensidade que se exerce na maneira pela qual o autor nos vai aproximando lentamente do que conta”, tal como em “A lição de mestre”, de Henry James. Nestes contos de tensão,

“sente-se de imediato que os fatos em si carecem de importância, que tudo está nas forças que os desencadearam, na malha sutil que os precedeu e os acompanha” (p. 158).

Uma bolha de sabão

Sim, “uma bolha de sabão que se desprende do autor, do seu pito de gesso”. Esta é a imagem que Cortázar cria para representar a autarquia do conto ou sua capacidade de existir ou de respirar por si, independentemente já do seu autor. Ë a figura que representa também a forma fechada e tensa do conto, como o fora para Poe. Tal como o modelador de argila, o contista trabalha esta forma de dentro para fora, até sua tensão maior, na forma esférica: a forma do conto é a da esfera, construída sob tensão máxima, e em cujo interior o autor deve mergulhar, antes de soltá-la. Cortázar endossa, em “Do conto breve e seus arredores”, o 1O.° mandamento do decálogo do perfeito contista, do uruguaio Horacio Quiroga, pois concorda que, para se escrever um conto, é necessário o autor pressupor um pequeno ambiente, fechado, esférico, do qual ele mesmo poderia ter sido uma das personagens.
Uma bolha de sabão, que atrai atenções e prende os interesses justamente pela sua força de tensão, na luta para preservar esta sua esfericidade. Que, se não se mantiver suficientemente forte, pode se desvanecer, com um leve sopro.

O conto, o poema, o jazz

O excepcional, chave de compreensão do conto em Cortázar, também caracteriza a poesia. Conto e poesia têm a mesma origem, enquanto arte que “nasce de um repentino estranhamento, de um deslocar-se que altera o regime ‘normal’ da consciência” (p. 234), afirma Cortázar no mesmo ensaio.

No entanto, o conto não tem intenções. E a poesia, tal como é entendida a partir de Baudelaire, a poesia tem. A poesia tem “uma espécie de magia de segundo grau, tentativa de posse ontológica e não já física, como na magia propriamente dita” e o conto não, o conto “não tem intenções essenciais, não indaga nem transmite um conhecimento ou uma ‘mensagem’” (p. 234.). Embora, para Cortázar, o conto se aproxime mais da poesia que da prosa. Pois a eficácia e o sentido do conto

“dependem destes valores que dão um caráter específico ao poema e também ao jazz: a tensão, o ritmo, a pulsação interna, o imprevisto dentro de parâmetros pré-vistos, essa liberdade fatal que não admite alteração sem uma perda irreparável” (p. 235).

Esta última observação nos remete também, e de forma irreparável, para os contos do próprio Cortázar, que se desenvolvem em vertiginosa busca do inalcançável, pelas formas espiraladas em ritmo de jazz, que por vezes compõem a própria estrutura dos seus contos.

Um conto de Cortázar

Sente-se em toda a teoria do conto de Julio Cortázar a presença de um E. A. Poe, que Cortázar admirava, que Cortázar traduziu e estudou. Voltamos, neste final de percurso pela teoria do conto, ao nosso ponto de partida. De Poe a Poe.

Basta nos lembrarmos de um dos famosos contos de Julio Cortázar, “Casa tomada” 12 Tal como ele próprio anunciava, o sentido primeiro do conto se amplia em outros tantos possíveis, dependendo da tomada que dele se faça. Pois dois irmãos viviam numa casa ou no interior de uma casa, que tem a marca do passado histórico (foi de bisavós, de avós e dos pais). Vivem aí juntos: “Irene e eu”. Ela, tecendo. Ele, lendo. As relações com o exterior atendem à utilidade imediata desta ocupação interior. Ele sai para comprar lã, para ela; livros, para ele.

Numa segunda etapa, ocorre minuciosa descrição da casa, de todos os seus cômodos. E, de repente, começam, inexplicavelmente — e daí o seu caráter fantástico —, começam os ruídos. As personagens fecham as partes da casa tomadas pelos ruídos e vão recuando para outras, que vão sendo também progressivamente tomadas. Até que a casa fica totalmente tomada. E os dois, com o que tinham no corpo, encontram-se na rua.
O conto, sóbrio na sua economia de detalhes, fisga apenas o mais significativo. Isto poderia ser demonstrado pela análise de cada elemento do conto. Menciono um, como exemplo. Quando ele sai para comprar livros, acrescenta: “Desde 1939 não chegava nada de bom à Argentina”. Este dado sugere a situação de país visado — ou tomado — pela repressão. E não seria a casa “tomada” o espaço gradativamente invadido, sem saber como, nem por quê, por um poder político absurdo, despótico, mais forte que o das duas pessoas ali unidas por um afeto e por ocupações vitais: o tecer e o ler?
O conto trabalha esta intensidade e também uma tensão: a casa ser tomada aos poucos e inesperadamente por ruídos. Esta é a base da construção do fantástico:
pois não se sabe que ruídos são estes. Basta uma constatação: a de que eles acontecem. E têm a força de eliminar pessoas. . . da casa? do país?

A criatividade nas definições do conto

Quanto já se exerceu o poder criador na tentativa de se definir este gênero criativo que é o conto!

Alguns conservam, sobriamente, a condição de tempo de leitura como critério: para Wells, o conto pode ser qualquer peça de ficção passível de ser lida em meia hora.

Outros recorrem à condição do maior impacto. Então o conto é comparado a uma corrida de cavalos: o que define é a largada e a chegada. . . Nesta mesma linha de pungência do conto, fica o argentino Ricardo Guiraldes: ele gostaria que seus contos fossem breves, concisos, porque — e sua imagem é a de luta, que é também a de escrita: “o que mais me agrada na mão é o punho”. E seu secretário, Roberto Arlt, refere-se aos livros de contos, os “livros que trazem a violência de um cross” — ou soco cruzado nas mandíbulas. Já vimos a imagem da luta de boxe adotada por Julio Cortázar: a de que o romance ganharia por contagem de pontos e o conto, por nocaute.

Outros ressaltam sua flagrância do presente, por ser o conto uma ficção livre, mais apta a representar a vida moderna na sua multiplicidade de situações, impressões e incidentes. Por isso, para William Carlos Williams, o romance seria um quadro, e o conto, uma pincelada. Forma virtuosa, o conto “é um vôo da imaginação completo: para cima e para baixo”.
Não falta a recorrência à topologia. Para Boris Eikhenbaum, o romance é comparado

“a um longo passeio através de lugares diferentes que supõe um retorno tranqüilo; a novela, à escalada de uma colina, tendo por finalidade oferecer-nos a vista que se descobre dessa altura”.

E o mesmo autor, quando se refere especialmente ao conto ou novela de enigma, recorre à imagem do cálculo matemático:

“A novela [ou conto] lembra o problema que consiste em colocar uma equação a uma incógnita; o romance é um problema de regras diversas que se resolve através de um sistema de equações com muitas incógnitas, sendo as construções intermediárias mais importantes que a resposta final. A novela é um enigma; o romance corresponde à charada ou ao jogo de palavras”.


Nem falta o elemento erótico. Como no depoimento da escritora Mrs. Janeway, ao declarar sua preferência pelo romance, em relação ao conto:
“Sou como o marido vitoriano que falava da profunda paz da cama dupla no casamento, depois do ‘hurly burly’ da ‘chaise longue’; o romance é como aquela maravilhosa cama dupla, e eu não consigo voltar atrás para a chaise longue.

Alguns truques para se escrever... contos (Horacio Quiroga)


Nem falta também, no rol das definições criativas, um “manual do perfeito contista”, criado pela ironia do célebre contista uruguaio Horacio Quiroga.
Raúl Castagnino, como tantos outros, também apresentou o seu repertório: o conto deve ter ação concentrada, única tensão narrativa, suficiente dose de sugestão, linguagem adequada, aprofundamento do espaço literário, tudo de modo a que ele permaneça na mente do leitor e o deixe “trepidante” (p. 93).
E Herman Lima, em Variações sobre o conto, valendo-se de alguns teóricos, reconhece no conto clássico — de início, meio e fim — a síntese, o acidente, o drama de uma situação, a tensão poética e a clareza.
Mas Horacio Quiroga ironiza os repertórios. Tão irônico na crítica! E tão trágico na vida (com suicídios na família, inclusive o seu próprio) e nos contos (Cuentos de amor, de locura y de muerte, de 1947, por exemplo). E parodia, assim, os repertórios feitos a sério, dando-nos “receitas de procedimentos ao alcance de todos . . ., procedimentos mais usuais e seguros” . . . que facilitarão a “confecção caseira, rápida e sem falhas” do que “veio a se considerar o mais difícil dos gêneros literários”...
E nos passa algumas dicas sobre o conto. Por exemplo: como começar? Pelo fim. Porque no conto, tal como no soneto, é preciso saber aonde se vai, e o mais difícil é achar a frase final. Mais uma vez as intenções de Poe a regular a economia dos meios narrativos.
Começar, também, com as “velhas fórmulas abandonadas, do tipo ‘Era uma formosa noite de primavera...”
e ‘Era uma vez. . .’”, que são ainda as mais eficientes se... o que vem depois é bom. “Porque se nada prometem e nada sugerem, justamente por isso despertam a malícia, como se estivessem a encobrir uma mulher maravilhosa...”

Começar também pelo “lugar comum”, se usado de má fé, fora de lugar. Exemplo: usar “pálido como a morte” não para a noiva morta, mas para a noiva viva...

Esta arte íntima do conto, que ele compara a uma mulher bonita, tem seus “truques”:

“deve valer-se de ligeiras formosuras, pequenos encantos muito visíveis, que o artista deve espalhar aqui e ali por sua história

Como o uso da tal da cor local: se quer escrever um conto regionalista e não conhece o lugar onde se passará a estória, ponha um poncho nas personagens e solte-as em espanhol mal-falado e... terá um conto de folclore nacional.

A audácia do contista é sempre sua condição necessária:

“o artista que não se atreve a perturbar com giros ininteligíveis o seu leitor, deve mudar de ofício”.

E Quiroga ainda constata que há “escritores para homens”, que geralmente usam mal o idioma. . . E “escritores para damas”, sobre os quais diz não estar bem informado, pois devem eles ter o “dom da sensibilidade particularíssima”, que escapa à maioria dos escritores...

Algumas destas propostas, sistematicamente reunidas num “decálogo”, num “manual” ou numa série de “truques”, chegam a compor uma síntese, quando Quiroga, ao comentar a crise do conto nacional, endossa as três qualidades de contistas apresentadas por Tolstoi: sentir com intensidade, atrair a atenção e comunicar com energia os sentimentos. Porque um conto diluído é como um perfume rarefeito: “não se percebe mais a intensidade essencial que constituía(m) sua virtude e seu encanto”.

É também Quiroga que, nesse mesmo artigo, resume a distinção conto/novela:

“Se não é de todo exata a definição de síntese para a obra do contista, e de análise para a do novelista, nada melhor pode achar-se”.

E é também Quiroga que, ao se referir à retórica do conto, por uma definição tão simples do conto literário, liga-o ao seu passado e aos seus ancestrais.

“O conto literário consta dos mesmos elementos que o conto oral e é, como este, o relato de uma história bastante interessante e suficientemente breve para que absorva toda a nossa atenção.”

Justamente por isto o conto permanece. “E o homem contará sempre, por ser o conto a forma natural, normal e insubstituível de contar.”

4 O conto: uns casos

Machado de Assis: afinal, qual é o enredo?

“Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta”. Assim se inicia um dos famosos contos de Machado de Assis, “A Missa do Galo”, um dos cerca de trezentos contos que ele escreveu.
Na verdade, nem ele, nem nós conseguimos ir até o final das conjeturas, para chegarmos a uma conclusão sobre o que realmente aconteceu naquela noite, entre o sr. Nogueira e d. Conceição, na sala, enquanto o sr. Nogueira esperava a hora da Missa do Galo.
Porque os contos de Machado traduzem perspicazes compreensões da natureza humana, desde as mais sádicas às mais benévolas, porém nunca ingênuas. Aparecem motivadas por um interesse próprio, mais ou menos sórdido, mais ou menos desculpável. Mas é sempre um comportamento duvidoso, que nunca é totalmente desvendado nos seus recônditos segredos e intenções...

O modo pelo qual o contista Machado representa a realidade traz consigo a sutileza em relação ao não-dito, que abre para as ambigüidades, em que vários sentidos dialogam entre si. Portanto, nos seus contos, paralela- mente ao que acontece, há sempre o que parece estar acontecendo. E disto nunca chegamos a ter certeza. Afinal, o que acontece mesmo? qual é a estória? e como acontece? ou qual é o enredo? Isto tudo é montado a partir dos gestos, olhares, cochichos e entrelinhas. Transforma-
-se numa questão para o leitor, que às vezes irá atormentá-lo pelo resto da sua vida.

A leitura dos seus contos caminha neste auscultar outra e sempre outra significação sugerida pela ironia fina e implacável. Como a que constrói a atmosfera da espera, na sala da casa do Rio de Janeiro, enquanto o sr. Nogueira aguarda a hora da Missa do Galo. Ele e ela, ali. Afinal, ele tinha ficado no Rio ou na corte até o Natal para ver “a Missa do Galo na Corte”. Teria sido só para isso?

Pelo menos é o que parece, desde a primeira parte do conto: uma apresentação das personagens, das razões de ali se encontrarem, usando, para isto, o flashback — a volta a um passado — para explicitar este presente. As causas vão surgindo naturalmente, mas também como se não o fossem, isto é, vão surgindo como se pudessem ser motivos razoáveis para o enlevo amoroso que se desenvolve no decorrer da espera da missa. D. Conceição é a esposa conformada com o marido, que “trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana”. E o sr. Nogueira, enquanto espera (a hora da missa, naturalmente), lê romances do A. Dumas, Os Três Mosqueteiros, até ficar “ébrio de Dumas”, a tal ponto que quando d. Conceição entra na sala, “tinha um ar de visão romântica, não disbaratada com o meu livro de aventuras”.

Nesta segunda parte do conto, em que o par se encontra, a conversa gira em torno de romances, e depois sobre mulheres. . . vulgares e santas. E d. Conceição era boa. O sr. Nogueira — narrador — faz questão de repetir com certa impaciência, como se para se certificar, ele mesmo, do que diz. “Já disse que ela era boa, muito boa.”

E há os gestos de d. Conceição, os olhares, sempre fixos nele, a inquietação, os braços, os dentes brancos, o nariz, a proximidade, os cochichos, as mudanças de lugar para mais perto dele, o devaneio, a sonolência. . . E, sobretudo, o diálogo. Não propriamente o que se diz. Este parece ser mais o pretexto para encobrir, disfarçar ou dissimular o que acontece por detrás, ou além disto:
o diálogo de tensões...

No final da espera, aumenta-se a expectativa: “queria e não queria acabar a conversação”, afirma o sr. Nogueira. E ainda: “Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me.
Uma das que ainda tenho frescas é que, em certa ocasião,
ela, que era apenas simpática, ficou linda, lindíssima”. Na terceira parte, após o clímax da tensão, as coisas voltam aos seus lugares. E quais são eles? Ele, para a missa. Ela, fica em casa. E mais tarde: ele, viaja e volta ao Rio. Ela, fica viúva e se casa de novo: “Ouvi dizer que casara com o escrevente juramentado do marido”.

Entre o nível das boas intenções, aliás, reiteradas, e o das outras, as segundas intenções, sugeridas, há um intervalo em que reside o sentido do conto. Pois este intervalo tende a ser desfeito, a cada detalhe. Mas, ao contrário, a cada detalhe ele mais se amplia e se desdobra. Sabemos e não sabemos dos limites entre estas intenções. Permanece a dúvida, em vibração, na periclitância. “A perspectiva de Machado é a da contradição que se despista, o terrorista que se finge de diplomata”, afirma Alfredo Bosi .

Machado tem este dom de fisgar o leitor pela intriga bem arquitetada, intrigando-o com questões não-resolvidas. Porque nenhum deles, ele ou ela, cede ao impulso instintivo da atração mútua. Ele quer conhecer a corte. Ela tem o marido, este, depois outro.
Este sentido de armadilha do conto aparece também em textos de Machado sobre o conto. Na “Advertência” ao volume Papéis avulsos, ele afirma reunir ali apenas papéis avulsos. “Mas a verdade é essa, sem ser bem essa”, diz ele. E completa: os contos têm certo parentesco entre eles.

Veja-se outro exemplo nesta mesma “Advertência”. Sobre os contos, afirma ele, “não sei que diga que não seja inútil”. Mas acaba sempre dizendo coisas: cita, por exemplo, Diderot, para quem, ao escrever um conto, “o espírito fica alegre, o tempo escoa-se e o conto da vida acaba, sem a gente dar por isso”. Realmente, ele não quer dizer e diz. E mais: realmente, é isso, dito por Diderot, que acontece quando se lê um conto. Mas será que é só isso que Machado quer dizer? Não estaria ele pensando que a realidade castiga esta fuga ilusória do real? Tal qual surpreendeu a personagem de “A cartomante”? E que, nesse caso, todo conto tende a ser um “conto do vigário”? Realmente, a verdade é essa. Sem ser bem essa.

E este é também o segredo do conto, que promove o seqüestro do leitor, prendendo-o num efeito que lhe permite a visão em conjunto da obra, desde que todos os elementos do conto são incorporados, tendo em vista a construção deste efeito (Poe); neste seqüestro temporário, existe toda uma torça de tensão, num sistema de relações entre elementos do conto e em que cada detalhe é significativo (Cortázar). O conto centra-se num conflito dramático, em que ceda gesto e olhar são até mesmo teatralmente utilizados Pelo narrador (E. Bowen). Não lhe falta a construção simétrica, de um episódio, num espaço determinado (B. Mathews). Trata-se de um acidente da vida (José Oiticica), cercado, neste caso, de um ligeiro antes e depois (José Oiticica). De tal forma que esta ação parece ter sido mesmo criada para um conto, adaptando-se a este gênero e não a outro, por seu caráter dp contração (N. Friedman). Este é um lado da questão teórica referente às características específicas do gênero conto. Eis um caso.

Mas neste momento especial de ações e reações mútuas entre o par amoroso, permanece uma zona velada, porque as personagens irão explodem ou não deixam explodir até o final ——- a sua intimidade. E este já é outro lado da questão, que diz respeito à especificidade dos contos de Machado de Assis. Já é outro caso.

A leitura do conto transita entre estes dois percursos. Tal qual a situação das personagens de Machado, que ficam entre os dois lados. Pairam entre lá e cá. E tal qual Machado se situa na história do conto: entre a tradição do conto de acontecimento e o moderno conto de acontecimentos interiores, que são mesmo indevassáveis na sua totalidade.

O que é plano do autor, do narrador, da personagem? O que é disfarce? Ficam estas indagações. Não dá mesmo para se perceberem os limites. Ou será que dá?

5 Cada conto, um caso


Porque cada conto traz um compromisso selado com sua origem: a da estória. E com o modo de se contar a estória: é uma forma breve. E com o modo pelo qual se constrói este seu jeito de ser, economizando meios narrativos, mediante contração de impulsos, condensação de recursos, tensão das fibras do narrar.
Porque são assim construídos, tendem a causar uma unidade de efeito, a flagrar momentos especiais da vida, favorecendo a simetria no Uso do repertório dos seus materiais de composição.
Além disso, são modos peculiares de uma época da história. E modos peculiares de um autor, que, deste e não de outro modo, organiza a sua estória, como organiza outras, de outros modos, de outros gêneros. Como são também modos peculiares de uma face ou de uma fase da produção deste contista, num tempo determinado, num determinado país. Como são.
A seqüência dos elos que motivam a ocorrência de um conto tende, também, ao desdobramento, em mil e uma contingências.

Não há como não nos lembrarmos aqui de Jorge Luis Borges, que escreve/lê as traduções de Mil e uma noites do capitão Burton, do doutor Mardrus, de Enno Littmann, que, por sua vez, leram outras versões, árabes, que, por sua vez, foram registradas a partir de outros e milenares contadores.
Se as noites em que se contavam os contos se desdobraram em mil e uma, tentando, assim, adiar a morte, parece que as tentativas de se buscar um elemento comum aos contos para além do simples contar estórias, que o liga a sua tradição antiga, tendem também a se desdobrar, tal qual sua antiga tradição, em quase tantas quantos são os contos que se contam.
O que faz também, de cada conto, um caso... teórico.

6 Bibliografia comentada

Bibliografias

1. DEMERS, Jeanne; GAUVIN, Lise & CAMBSON, Micheune. Quand le conte se constitue en objet(s). Bibliographie analytique et critique. Liltérature. Les Contes. Oral/Êcrit. Théorie/Pratique. Univ. de Montréal. 45: 79-113, fev. 1963.
Bibliografia comentada de quase duzentos títulos, selecionados dentre os cerca de 2 000 examinados.
2. GOMES, Celuta Moreira. O conto brasileiro e sua crítica. Bibliografia. (1941-1974). Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional, 1977. 2 v.
Excelente levantamento bibliográfico num total de 5 253 referências.

Antologias

1. Bosi, Alfredo, org. O Conto brasileiro contemporâneo. São Paulo, Cultrix, 1975. Com texto introdutório: “Situação e formas do conto brasileiro contemporâneo”, p. 7-22. A antologia evidencia a multiplicidade de direções do conto brasileiro contemporâneo ou pós-modernista, o que aparece criticamente anunciado no texto introdutório.

2. FERREIRA, Aurélio Buarque de Hollanda & RÓNAI, Paulo, orgs. Mar de histórias; antologia do conto mundial. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1978 em diante. 6 v. Com Prefácio dos autores: v. 1, p. 11-23. Antologia que reúne contos desde os mais antigos até os mais recentes, agrupados cronologicamente e segundo as civilizações de onde provêm, formando um substancioso e atraente painel da história do conto na literatura mundial.

3. PANORAMA DO CONTO BRASILEIRO. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1959-1960. 11 v.
Os contos agrupam-se segundo as regiões do Brasil de onde provêm (Norte, Rio de Janeiro, Minas, São Paulo), segundo os tipos de contos (trágico, fantástico, feminino, da vida burocrática) e segundo sua história (os precursores do conto, os contos românticos).

Textos sobre o conto

1. ANDRADE, Mário de. Contos e contistas (13/09/ /1938). In: —. O empalhador de passarinho. 3. ed. São Paulo, Martins; Brasília-INL, 1972. p. 5-8. O artigo, escrito a propósito de uma pesquisa da Revista Acadêmica que procurava determinar os dez melhores contos brasileiros, discute a questão do gênero.

2. BATES, H. E. The modern short story. A critical survey (1941). London, Thomas Nelson and Sons Ltd., 1941.

Após considerações gerais e introdutórias sobre o conto, Bates detém-se no exame de contistas modernos mais significativos.
3. BRÉMOND, Claude. A lógica dos possíveis narrativos. In: VÁRIos. Análise estrutural da narrativa. Petrópolis, Vozes, 1972. p. 109-35.
O autor reduz as funções de Propp e aplica-as à narrativa em geral. Outros textos desta coletânea, embora não se refiram especificamente aos contos, fornecem elementos úteis para a sua análise.
4. CARPEAUX, Otto Maria. O acontecimento. In: —. Vinte e cinco anos de literatura. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1969. p. 174-9.
Neste artigo, escrito por ocasião da publicação dos Contos de Tchekhov com tradução e notas do prof. Bons Schnaiderman, O. M. Carpeaux ressalta a importância do acontecimento nos contos de Tchekhov, negando-lhes a denominação de contos sem enredo ou atmosféricos.
5. CASTAGNINO, Raúl H. “Cuento-artefacto” y artificios del cuento. Buenos Aires, Editorial Nova, 1977.
Bom material de informação sobre a história do conto, sobre a elaboração artística do conto e sobre os “artifícios” adequados à sua construção.
6. CHKLOVSKI, Y. A construção da novela e do romance. In: Vários. Teoria da literatura; formalistas russos. Porto Alegre, Globo, 1971. p. 205-26.
Analisa a trama da novela (e conto) e romance, determinando seus vários modos de combinação.
7. CORTÁZAR, Julio. Valise de Cronópio. Trad. de Davi Arrigucci Júnior. São Paulo, Perspectiva, 1974. Contém três excelentes textos sobre o conto, a saber: “Alguns aspectos do conto” (p. 147-66).
Nesta conferência feita aos cubanos em 1963, trata de questões referentes aos seus próprios contos e aos contos em geral, tentando acompanhar o processo da criação, discutindo a peculiaridade dos contos e questionando o caráter revolucionário dos escritores. “Do conto breve seus arredores” (p. 227-37).
Partindo de uma afirmação de Quiroga, discute a esfericidade do conto, suas relações com a poesia e prosa, além de considerações sobre o conto fantástico.
“Poe: o poeta, o narrador e o crítico” (p. 103-46). De interesse também para o estudo do conto, este texto examina de forma conscienciosa e entusiasmada a obra de Poe. Acompanhou a tradução da obra de Poe para o espanhol, feita por Cortázar.
8. CURRENT-GARCIA, Eugene & PATRICK, Walton R., eds. What is the short story? (1961). Glenview -Illinois Brighton-England; Scott, Foresman and Company, 1974.
Ensaios sobre o conto, reunindo os que propõem definições (Poe, Tchekhov, II. James, 13. Matthews, entre outros), os que são contra regras e definições (texto anônimo sobre B. Matthews, trechos de H. S. Canby, Sherwood Anderson, Ring Lardner, William Saroyan) e os que tratam das novas direções do conto moderno (Katherine Anne Porter, Frank O’Connor, Joyce Carol Oates, entre outros). Contém antologia de contos.
9. ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Curso de conto. Rio de Janeiro, 1958.
Contém textos de várias conferências, pronunciadas num curso de contos na Academia Brasileira de Letras, em 1956.. Entre outros: BARROSO, Gustavo. O conto popular. p. 89-108; LIMA, Alceu Amoroso. A evolução do conto no Brasil. p. 11-38; LIMA SoBRINHO, Barbosa. O conto urbano no Brasil. p. 6 1-87.

10. EICKENBAUM, Boris. O. Henry and the theory of the short story. In: MATEJKA, Ladislav & POMORSKA, Krystyna, eds. Readings in Russian formalist and structuraljst views. Ann Arbor, Slavic Publications & University of Michigan, 1978. p. 227-70.
(O cap. II, do mesmo autor, tem tradução em português: “Sobre a teoria da prosa”. In: VÁRIOS. Teoria da Literatura; formalistas russos. Op. cit., p. 157-68.) Análise do contista norte-americano O. Henry, com conclusões sobre o conto americano em geral e sobre as especificidades da novela (conto) e romance.

11. JOLLES, André. Formas simples. Trad. de Álvaro Cabral. São Paulo, Cultrix, 1976.
Examina o conto enquanto uma forma simples, ao lado de outras formas simples: legenda, saga, mito, adivinha, ditado, caso, memorável, chiste, e diferenciando-os da forma artística.
12.KENYON REVIEW INTERNATIONAL SYMPOSIUM OF THE SHORT STORY. Part 1, Issue 4, 1968, p. 443-90. Part II, 31, Issue 1, 1969, p. 58-94. Part III, 31, Issue 4, 1969, p. 450-502. Part IV, Issue 1, ‘1970, p. 78-108.
Estudiosos de diversos países discutem problemas referentes a definições de gênero, relações escritor/editor, panoramas de situação do conto nos seus respectivos países de origem.

13. LANCE LOTTI, Mano A. De Poe a Kafka; Para una teoría dei cuento (1965). 2. ed., Buenos Aires, Eudeba Editorial Universitaria de Buenos Aires, 1968 (Colección Ensayos).
Concisa e inteligente abordagem do conto, que discute a questão da temporalidade, a partir da qual desenvolve a leitura de Poe e de Kafka.

14. LIMA, Herman. Variações sobre o conto. Rio de Janeiro, MEC-Serviço de Documentação, 1952. Obra elucidativa que comenta definições de conto de vários autores, determina tipos de contos, trata da evolução do conto em geral, detendo-se na evolução do conto brasileiro.
Ver também do mesmo autor:
O conto. Liv. Progresso/Univ. da Bahia, 1958. Evolução do conto. In: COUTINHO, Afrânio, org. A literatura no Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro, Sul Americana, 1971, v. 6. p. 39-56.

15. MAGALHÃES JÚNIOR, R. A arte do conto; sua história, seus gêneros, sua técnica, seus mestres. Rio de Janeiro, Bloch, 1972.
Trata-se, sobretudo, de uma apresentação de vários gêneros de contos, tais como o conto em verso, o moral, o epistolar, o policial, o satírico.

16. MAY, Charles E., ed. Short story theories (1969). 2. ed. Ohio Univ. Press, 1976.
Ensaios sobre o conto, de 24 escritores e críticos, desde Poe (1842), até o próprio Charles May (1976), passando, entre outros, por: BADER, A. L. The structure of modern short story. p. 107-15. BowEN,Elizabeth. The faber book of modern short stories. p.
116-30. FRIEDMAN, Norman. What makes a short story short? p. 131-46. GULLASON, Thomas A. The short story: An underrated art. p. 13-31. MATTHEWS, Brander. The philosophy of short-story. p. 52-8. Além destes, textos também de James Cooper Lawrence, Theodore A. Stroud, Nadine Gordimer, Eudora Welty, Elizabeth Janeway, e de outros mais.
17. MLÉTINSKI, E. Estudio estructural y tipológico dei cuento. Buenos Aires, Rodolfo Alonso, ed., 1972.
Exame consciencioso da repercussão da obra de Propp, por meio das traduções em outras línguas e das críticas e influências que suscitou.

18. O´CONNOR, Frank. The lonely voice; a study of the (1963). London, Macmillan & Co. Ltd., 1963

Trata de vários tópicos referentes ao conto, defendendo basicamente o conto moderno como produto de uma voz solitária.
19. O’FAOLAIN, Sean. The short story (1948). 3. ed. Bristol, Mercier Press, 1972.
Obra inteligente do contista e professor de Literatura, que trata da questão técnica do conto e faz leituras de A. Daudet, Maupassant e Tchekhov.
20. OLMIL, Alba & PIÉROLA, Raúl A. El cuento y sus claves. Buenos Aires, Editorial Nova (1967). Definição do conto, sua relação com outras formas próximas, evolução do conto, desde suas primeiras manifestações até o moderno conto argentino.

21. POE, Edgar Allan. Review of Twice told tales (1842). In: MAY, Charles E., ed. Short story theories. Op. cit. p. 45-52.
Texto fundamental para o estudo do conto, em que Poe desenvolve uma teoria baseada no princípio da unidade de efeito.

—. The philosophy of composition (1946). In:
BODE, Carl; HOWARD, Leon & WRIGHT, Louis B., eds. American literature (1966). 4. ed. New York, Washington Square Press, 1973, v. II: “The first part of the XIXth century”. p. 86-98. (Há tradução para o português: “Filosofia da composição”. In:
POE, E. A. Ficção completa, poesia & ensaios. Org., trad. e notas por Oscar Mendes, em colab. com Milton Amado. Rio de Janeiro, Aguilar, 1981. p. 9 11-20.)

Reitera sua teoria da unidade de efeito e os modos adequados de se conseguir tal unidade explicitando o seu processo consciente de composição.

—. The writing — Nathaniel Hawthorne (1847).
In: CURRENT-GARCÍA, Eugene e PATRICK, Walton R.
What is the short story? Op. cit. p. 11-5 (Há tradução para o português: “Os contos de Hawthorne”.
In: VAN NOSTRAND, Albert d.- org. Antologia de crítica literária. Rio de Janeiro, Lidador, 1968, p. 45-53.)

Neste trabalho, Poe discute a originalidade, peculiaridade e popularidade do contista norte-americano Hawthorne.
22. PROPP, Viadimir. Morfologia do conto. Trad. de Jaime Ferreira e Vítor Oliveira. Lisboa, Editorial Vega, 1978. (Esta edição inclui também: “As transformações dos contos fantásticos”, p. 201-32 e “Euguéni Mélétinski, o estudo estrutural e tipológico do conto”, p. 233-86.)

A partir da descrição de contos populares russos, Propp determina sua estrutura, formada por funções constantes e chega, assim, a uma definição do conto maravilhoso.

—. “As transformações dos contos fantásticos”. In:
VÁRIOS. Teoria da literatura; formalistas russos. Op. cit. Examina as mudanças ou transformações das formas fundamentais dos contos maravilhosos.
—. Las raices historicas dei cuento (1946). Caracas-Madrid, ed. Fundamentos, (1972).
Já havendo determinado a morfologia do conto e suas transformações, examina agora mais demorada- mente suas origens ou suas fontes.
23. QUIROGA, Horacio. Sobre literatura; Obras inéditas y desconocidas. Montevidéu, Arca, 1970, v. 7.

Este volume traz vários textos de Quiroga sobre o conto:
“El manual dei perfecto cuentista”, p. 60-5;

“Los trucs dei perfecto cuentista”, p. 65-9;

“Decálogo dei perfecto cuentista”, p. 86-8;
“La crisis dei cuento nacional”, p. 92-6;
“La retórica dei cuento”, p. 114-7;
“El cuento norteamericano”, p. 126-8.

Além destes, em que o contista uruguaio discute sempre com muita ironia problemas de teoria, história e situação do conto, há também: “Sobre El Ombú, de Hudson” (p. 122-6), que trata da questão da tradução de contos; e “Cadáveres frescos” (p. 130-4), sobre a construção de dois contos seus.
24. REID, lan. The short story. London, Methuen & Co. Ltd., 1977.
Obra sucinta e objetiva, que trata da definição e da história do conto, das formas afins, das suas qualidades essenciais enquanto gênero.

25. SCFINAIDERMAN, Bons. Por falar em conto. O Estado de S. Paulo. Suplemento de 7/11/1971. Discute, entre outros tópicos, como os contos russos de Tchekhov e de outros autores afastam-se dos padrões, num alerta às múltiplas possibilidades de realização que o gênero oferece.
26. TCHEKHOV, Anton. Letters on the short story, the drama, and other literary topics. Seleção e edição de Louis S. Friediand. New York, Dover Publications mc., 1966.
Farta correspondência com vários escritores e amigos, em que discorre sobre o Conto, o teatro e a literatura em geral, formando um painel de questões teóricas, ainda que de forma não sistemática.

7 Vocabulário crítico

Ação: atos praticados por um sujeito, ou atitudes e caracteres que, em conjunto, compõem o enredo; este agir, fazer ou acontecer se desenvolve em processo, organizando-se numa seqüência, que compõe a linha de ação; se a ação é forte e predominante entre outros elementos de construção do conto, este é chamado conto de ação.

Acidente (ou incidente): acontecimento casual; episódio; uma parte da vida que adquire realce no conto e em torno do qual o conto se desenvolve.
Anedota: relato curto, com final surpreendente e de caráter humorístico ou engraçado.
Argumento: resumo ou síntese da ação ou do que acontece; fábula.
Clímax: momento decisivo do enredo, em que se atinge o ponto máximo da tensão (conflito) e que traz ou anuncia o desfecho ou resolução do conflito.
Conflito: relação mais ou menos tensa de luta entre personagens ou entre personagens e outra força, como a social, por exemplo; uma instabilidade entre estas forças, sob a forma de um desequilíbrio, que pode estar, por exemplo, numa situação de incorrespondência amorosa ou num ato de injustiça social; o conflito pode ir aumentando até o seu ponto máximo, o clímax; resolve-se — ou se desfaz — no desenlace, e a este último segue-se uma parte final da narrativa, o epílogo.
Desfecho:
desenlace; dénouement (fr.); resolução do conflito. Pode ser seguido de epílogo.

Enredo: como a estória é contada; encadeamento dos episódios conforme eles aparecem organizados na narrativa; intriga, trama; plot (ingl.), sujet (fr.).
Epifania: revelação súbita do que é um objeto, após haver apreendido o objeto na relação entre suas partes e na relação com outros objetos (Joyce).
Epílogo: parte final da narrativa, o que se narra depois do desfecho ou resolução do conflito.

Estória: o que se conta numa narrativa e que pode ser recontado, recompondo-se os fatos numa seqüência cronológica, sem a preocupação de obedecer à ordem que tais acontecimentos ocupam na narrativa; fábula.

Fábula: o que é contado; estória; “conjunto de acontecimentos ligados entre si que nos são comunicados no decorrer da obra” (B. Tomachevski); e também: estória curta, cujos personagens são animais, vegetais ou minerais, e que tem objetivo moral.

Mito: enredo ou trama (Aristóteles); e também: narrativa simbólica na qual se instaura o equilíbrio de valores espirituais ou sociais em que cada um possa se situar e que fornece uma interpretação da existência (Bernard Dupriez).
Plano: disposição das partes de uma obra; projeto, desígnio (design), intenção.

Regra das três unidades: princípio que consiste em manter numa peça uma só ação, um só lugar e um tempo (um dia).

Simetria: regularidade no plano ou estrutura de uma obra, causada, por exemplo, pelo uso de um só elemento: um só episódio, espaço, ou outro elemento de construção da narrativa.

Sketch (ingl.): texto em prosa curto, de caráter descritivo, que representa como é ou está alguém ou alguma coisa; esboço, retrato, caracteres soltos e independentes; quadro ou peça dramática de caráter estático.

Suspense: técnica narrativa que consiste em “suspender” a ação, adiando o desfecho e, assim, instigando a tensão, ou o medo (contos de terror) ou a curiosidade do leitor.

Tensão: intensidade de força entre elementos de uma narrativa, que alimenta o conflito entre elementos, ou seja, que promove a situação de instabilidade numa narrativa, até a resolução do conflito ou o desfecho.

Trama: enredo, intriga; “o modo pelo qual as coisas que acontecem se organizam na narrativa” (B. Tomachevski).

Unidade: organização das partes de um objeto num todo único, de forma a possibilitar a sua visão de conjunto; unidade de efeito: o efeito que causa no leitor um texto, se lido de uma só vez, sem interrupções, de modo a lhe permitir uma impressão total ou do conjunto da obra (Poe).

Yarn (ingl.): anedota, um único episódio que pode ter acontecido com alguém, contado em linguagem coloquial estória ou acontecimento breve, de caráter fantástico, do gênero “acredite se quiser”.

Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

projeto INSPIRATURAS - OFICINAS DE CRIAÇÃO LITERÁRIA oferece a oportunidade, ao público em geral, de desenvolver a prática da produção de textos literários e de conhecer os aspectos técnicos que compõem o estilo, o tipo e garantem a eficácia do texto. As oficinas Inspiraturas são fundamentadas na premissa de que escrever se aprende no exercício da leitura e da escrita.

INSPIRATURAS é uma pequena empresa voltada para desafiar o desenvolvimento humano através das ferramentas da comunicação textual e literária, ou seja, como meios do desenvolvimento dos hábitos de ler, escrever, falar e ouvir o mundo na forma de arte e, sobretudo, o despertar de um senso crítico capaz de promover transformações mais efetivas no ser e no seu ambiente.

INSPIRATURAS foi planejada com foco naquela pequena parcela que reconhece a literatura como um caminho para a busca do sentido da existência, e que não encontra espaço social disponível e em sintonia com essa busca. Queremos fomentar nosso mercado em torno daqueles que encontram prazer na necessidade de trocar experiências e conhecimento. No nosso projeto, essas pessoas têm papel preponderante, já que o grande valor agregado ao nosso produto é a qualidade das relações interpessoais e da comunicação; trata-se de uma proposta fundamentada nos melhores valores humanos.

Nosso diferencial reside na valorização da convivência e da arte. Buscamos um cliente que, por sua vez, também se distingue da média, preocupado em exercer sua humanidade num espaço simples no qual a importância reside na qualidade de vida, na atenção, respeito e carinho.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...