Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

17 de out de 2012

O tumulto dos lábios mudos




e se a palavra pronunciada
é um sólido pesado e perigoso
melhor mantê-la entre dentes
ainda líquida, ainda informe
e daí vem o problema
de não sabermos o que fazer com ela
que vive e lateja na boca
expectorada do peito
expelida da garganta
a meio caminho travada
ilusão pensar que a matamos
quando ela escapa pelos olhos
e queima a mão que a ampara


Helenice Priedols


14 de out de 2012

DHENOVA & WASIL SACHARUK - A Espera

"Débora acorda assustada ao ouvir o som estridente do telefone. Uma voz desconhecida pergunta se ela conhece um tal de Sandro Morales. Débora vê o rosto de Sandrinho, amigo de infância, parceria de festas. Andava sumido. Mas ele era assim mesmo. Passava dias trancado em casa. Não saía. "O quê?" Débora pergunta em voz alta... "Não" Débora murmura... ao fundo, a voz metálica desconhecida diz... 'overdose'."

A Espera

Que eu me renda não espere 
Não lembre da chuva amena
Não espere que eu seja doce
Não queira me dizer onde está o sol

Não espere que eu aceite
Não sinta pena nem dó
Não espere que eu me acalme
Não tente explicar

Não, não sinta nada
Não espere que eu mude
Não espere a doçura
Não, não há chuva que resista ao vento frio

Lá, atrás do monte
Está escondido um tesouro
Feito sob cruzes de prata
O anel de vidro
Mãos que se juntaram
Lá, é lá atrás do monte

Lá, é lá atrás do monte
Que está escondido um tesouro
Feito sob cruzes, sob cruzes de prata
O anel de vidro, mãos que se juntam
Lá, é lá atrás do morro, do monte azul

Não, não sinta nada (como sempre)
Não espere que eu me mude, ou simplesmente mude
Não espere a doçura (no rosto de pedra?)
Não, não há chuva que resista ao vento, ao vento frio

Não, não espere que eu aceite
Não, não sinta pena, não sinta dó
Não, não espere que eu me acalme
Não, nem sequer tente explicar 

Que eu me renda não espere
Não, não lembre da chuva amena
Não, não espere que eu seja doce
Não, não queira me dizer por onde anda o sol

Por onde anda o sol?

DHENOVA - voz e poema
WASIL SACHARUK - música e execução

16 de set de 2012

Nos varais: as sacolas plásticas


Nos varais: as sacolas plásticas


As cortinas de náilon balançam à vontade da brisa forte, quase vento, que anuncia o temporal. Os varais ensaiam uma brincadeira de corda. No vai e vem, o prendedor solitário escapa-se de alguns pingos, de outros nem tanto. E as sacolas de plástico, com lixo seco, estão à mercê da chuva grossa que cai. Uma das cordas dos varais roça-se ao material barulhento e a estranha melodia alcança o pátio vazio. Junto os pingos que pingam. Não há crianças correndo, nem a zoeira das bicicletas, dos freios, que crianças não têm. Apenas o farfalhar das sacolas rege o momento.

De repente, um pássaro escuro surge à janela e, por detrás das cortinas, posso vê-lo a sacudir as asas num balé bonito. Ritual terminado, o bicho me vê, sinto um arrepio, mas mantenho o olhar. Ele me vê, sentada à mesa, caderno e caneta e permanece ali.

O tempo é de tormenta e a noite vai nascer fria. Olho o pássaro mais uma vez e ele parece me dar adeus. E realmente dá. Voa livre, bem alto, e some.

As sacolas continuam a melodia irritante, o pátio continua vazio, os varais insistem nas brincadeiras sem graça e, em mim, o sentimento contrário, de plenitude, me toma inteira, entorno a taça e sorrio ao destino. Um brinde. Sou tão vermelha que o cinza não combina, ainda que a combinação seja clássica. Sei onde ir.

Suspiros de claridade ainda permanecem no vidro da janela e servem como espelho. Vejo meu reflexo. Finalmente, voltaram minhas asas negras.


Dhenova

2 de set de 2012

Galáxias (Haroldo de Campos)


Galáxias (Haroldo de Campos)

e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso
e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa
não é a viagem mas o começa da por isso meço por isso começo escrever
mil páginas escrever milumapáginas para acabar com a escritura para
começar com a escritura para acabarcomeçar com a escritura por isso
recomeço por isso arremeço por isso teço escrever sobre escrever é
o futuro do escrever sobrescrevo sobrescravo em milumanoites miluma-
páginas ou uma página em uma noite que é o mesmo noites e páginas
mesmam ensimesmam onde o fim é o comêço onde escrever sobre o escrever
é não escrever sobre não escrever e por isso começo descomeço pelo
descômeço desconheço e me teço um livro onde tudo seja fortuito e
forçoso um livro onde tudo seja não esteja seja um umbigodomundolivro
um umbigodolivromundo um livro de viagem onde a viagem seja o livro
o ser do livro é a viagem por isso começo pois a viagem é o cômeço
e volto e revolto pois na volta recomeço reconheço remeço um livro
é o conteúdo do livro e cada página de um livro é o conteúdo do livro
e cada linha de uma página e cada palavra de uma linha é o conteúdo
da palavra da linha da página do livro um livro ensaia o livro
todo o livro é um livro de ensaio de ensaios do livro por isso o fim-
cômeço começa e fina recomeça e refina se afina o fim no funil do
cômeço afunila o cômeço no fuzil do fim no fim do fim recomeça o
recomeço refina o refino do fim e onde fina começa e se apressa e
regressa e retece há milumaestórias na mínima unha de estória por
isso não conto por isso não canto por isso a nãoestória me desconta
ou me descanta o avesso da estória que pode ser escória que pode
ser cárie que pode ser estória tudo depende da hora tudo depende
glória tudo depende de embora e nada e néris e reles e nemnada
de nada e nures de néris de reles de ralo de raro e nacos de necas
e nanjas de nullus e nures de nenhures e nesgas de nulla res e
nenhumzinho de nemnada nunca pode ser tudo pode ser todo pode ser total
tudossomado todo somassuma de tudo suma somatória do assomo do assombro
e aqui me meço e começo e me projeto eco do cômeço eco do eco de um
cômeço em eco no solo de um cômeço em eco no oco eco de um soco
no osso e aqui ou além ou aquém ou láacolá ou em toda parte ou em
nenhuma parte ou mais além ou menos aquém ou mais adiante ou menos atrás
ou avante ou paravante ou à ré ou a raso ou a rés começo re começo
rés começo raso começo que a unha-de-fome da estória não me come
não me consome não me doma não me redoma pois no osso do cômeço só
conheço o osso o osso buço do cômeço a bossa do cômeço onde é viagem
onde a viagem é maravilha de tornaviagem é tornassol viagem de maravilha
onde a migalha a maravalha a apara é maravilha é vanilla é vigília
é cintila de centelha é favila de fábula é lumínula de nada e descanto
a fábula e desconto as fadas e contos as favas pois começo a fala

in GALÁXIAS, HAROLDO DE CAMPOS, EDITORA 34, 2ªEDIÇÃO, SÃO PAULO, 2004

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INSPIRATURAS

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•           Oficinas de produção textual
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•           Oficinas de memorização, desenvolvimento pessoal
•           Correção de trabalhos acadêmicos (monografias, teses)

Pelotas RS

Inspiraturas - Escrita Criativa


O Projeto INSPIRATURAS
Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras não escritas que residem dentro de nós.
Coordenado por Andréa Iunes & Wasil Sacharuk
A QUEM INSPIRATURAS SE DESTINA: - A quem quer começar a escrever e não sabe como; - A quem quer voltar a escrever; - A quem procura novos temas, novos textos, novas ideias; - A quem sente que o gosto pela escrita foi dilacerado pela escrita profissional; - A quem quer “brincar com palavras” e usufruir o prazer da descoberta; - A quem quer ler com uma nova perspectiva; - A quem procura uma experiência criativa através da escrita; - A quem ama a literatura em língua portuguesa.
Estímulo à sua criação literária;
Exercícios e desafios criativos e inspiradores;
Feedback para suas obras anteriormente escritas;
Subsídios para novas obras;
Respostas, percepções e insumos para a sua produção literária;
Oficinas baseadas na premissa de que escrever se aprende no exercício da leitura e da escrita;
Oportunidade de ter seus textos lidos, apreciados e criticados por outros escritores aspirantes;
Reconhecimento de nuanças autorais e únicas na sua própria produção;
Controle e auto-confiança em relação ao próprio texto;
Direcionamento do seu texto para leitores específicos;
Entendimento do fenômeno artístico literário contemporâneo.

Nos Varais

Título:

Nos Varais

Autor:Dhenova
Formato:pdf
Tamanho:733 KB
Ano:2012
Enviado por:Dhenova
Enviado em:03/08/2012
Classificação:seguro
Sinopse:Coletânea de poemas compilados do tópico de mesmo nome, da comunidade do Orkut NOP - Nova Ordem da Poesia.

BAIXE AQUI

10 de jul de 2012

Está tudo certo



quando eu digo: amor
sei que todas as células do teu corpo vibram
porque essa é a linguagem na qual foste criado

ainda que não vejas a luz
é nela que tu vives
pois dela foste gerado

vês o mal melhor do que vês o bem
mas ambos estão em equilíbrio
e quando fechares teus olhos cansados
abre os olhos da tua alma aflita
entenda que o bem sempre esteve mais iluminado

sofres a cada vez que ouves um não
morres um pouco em cada mudança
a vida te oferece tudo, amigo
por que insistes em ir na contramão?

quando eu digo: amor
sei que todas as células do teu corpo vibram
porque essa é a linguagem na qual foste criado


Helenice Priedols

(arte de Maren Marmulla)

1 de jun de 2012

Por que INSPIRATURAS homenageia a poetisa Janete do Carmo?

INSPIRATURAS teve seu desenvolvimento na Internet, como uma eficiente oficina de criação literária fundamentada no compartilhamento de obras e opiniões. Provavelmente a característica mais comum entre  os que participaram de nossos projetos é o fato de se tratarem de novos autores que, a exemplo da poetisa Janete do Carmo, começaram e desenvolveram sua escrita na Internet. Nesse contexto, a poetisa que nos deixou no ano de 2011 é um ícone e, decerto, merece nosso apreço e consideração. Janete foi uma das mais criativas poetisas do nosso meio.

 

Conheça mais da obra de Janete do Carmo

9 de mai de 2012

Quase


 

de ti guardei os gestos vagos
os lábios semicerrados
os olhos baixos
nas flores que pendem do vaso, murchas
pesam tuas escusas

tentei equilibrar-me
no quase amor sustenido
cavei sentimentos onde não havia escolhas
restaram-me bolhas nas mãos
e uma cova repleta de vinho e lágrimas
único oásis no deserto deste áspero tapete

sob a pele ainda queimam cicatrizes
em todos os matizes da dor

de ti guardei os gestos vagos
e esta palavra 'quase'
dependurada no lustre
gotejando na torneira
fazendo sombra na minha vida

espero as novas estações
quem sabe uma reinvenção do corpo
ou então uma inversão do olhar


por via das dúvidas
deixo teu prato e garfo sobre a mesa


Helenice Priedols

(arte de Ariel Gulluni)

20 de mar de 2012

Esse Menino



há algo de angelical nesse menino
sai por aí sem blusa e sem chinelo
de unhas pintadas e dreads no cabelo
mas seu semblante tem algo de divino

há algo de angelical nesse garoto
parece até que sonha acordado
sentado em pose de devoto
como fosse um buda iluminado

há algo de angelical nessa criança
uma semelhança que já vi e nem sei onde
talvez seja a paz que emana, a  confiança
talvez sejam as asas que ele nem esconde! 


Helenice Priedols

13 de fev de 2012

INSPIRATURAS - "palavrinventada"®

INSPIRATURAS - "palavrinventada"®

Oficina para o desenvolvimento de uma escrita despojada e criativa, a partir do uso de inovações lexicais. (por Dhenova, Leh Lopes e Wasil Sacharuk).

De uma palavra inventada, absurdamente possível, escreva um poema ou narrativa curta. O desafio é produzir um texto original.

Não esqueça de deixar uma palavra inventada para o próximo escritor.

www.inspiraturas.com

 

primeira palavra:

TAFUIO

------------------


Tafuio

Passei o dia meio truco-retruco
maio maluco
completamente desluio

desagravei um conluio
almocei qualquer treco
com arroz pescosseco

alvorotei um sucesso
esqueci o circunflexo
que define o sexo

passei o dia mais louco
num sol bocomoco
com pensamento tafuio.

Wasil Sacharuk

 

---------------

próxima: andermaiskin

4 de fev de 2012

AS AQUARELAS DO BRASIL

Meu Brasil tem sete cores
Terra de muitos amores
Frevo , samba , sombra dos coqueiros
Praias , botequins , pitu , futebol , vários cantos ...

O teu céu é mais azul
Lá nas bandas do Norte
Primavera enfeitada no Sul
Em bosques de árvores frondente .

No Nordeste , ondas tranquilas
Praias com piscinas de águas mornas
Que com toda a sua beleza
De encanto e cântico , encanta .

Meu Brasil tem muitas ilhas..
Destaco uma preferida : Fernando de Noronha
Se eu tenho este paraíso no Nordeste
Por que deixa-lo pra viver no Sudeste ?
Lá , aquele céu brilhoso , exala o claro anil
Do meu querido , da minha terra , meu Brasil !

Ana Maria Marques
Fevereiro /2012

QUEM PODERÁ SABER


QUEM PODERÁ SABER


Quem poderá saber
Ao certo o movimento
Desta vida incerta
Que se movimenta
Inventa e reinventa

Numa busca eterna
Uma direção interna
Para uma vida sem seta

E o destino são escolhas
Individuais ou coletivas
O acaso esculpido
Numa percepção

E o tempo
É apenas a impressão
Uma sensação
Desenhada
Na busca de uma
Explicação concreta...

POR QUE NÃO CHAMAS


POR QUE NÃO CHAMAS


Por que não chamas
Quem tanto te inflama

Assim passa nosso
Tormento levemente

Enquanto imaginamos
Sentir o que não sentimos
Forjando sentimentos
Que não temos pra fugir

Da realidade que ruge
Como um trovão à noite
Entre os lábios silentes

Pensar me dói, pensar em ti
Dói-me mais, muito mais...

Suavemente vivemos
O que pensamos ser
Sutilmente distorcemos
O que não podemos ver,

Apenas para crer
Que a realidade
Não é nem a sombra
Do que possa parecer...

REFLORESCER


REFLORESCER


Ó Cristina,
Por que não te satisfaz
O jardim do meu regaço?
O que mais queres
Que eu te ofertar?

Tantas são as borboletas
Que desejam aqui pairar...

Por que não te deleitas
Nesta fonte cuidadosamente
Ornamentada em meu peito?

A vida passa,
As flores passam também
Os jardins trocam suas flores

E um botão não pode
Duas vezes florescer...

Oficina de Escrita Literária Online – Poesia

Oficina de Escrita Literária Online – Poesia INSPIRATURAS - Escrita Criativa - oferece aos interessados na produção de poemas uma oficina q...

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