Oficina de escrita literária Inspiraturas, em Pelotas

Oficina de escrita literária Inspiraturas - o fim da página em branco - A ti, que ainda acreditas na escrita, em especial a Poesia, como ...

14 de out de 2012

DHENOVA & WASIL SACHARUK - A Espera

"Débora acorda assustada ao ouvir o som estridente do telefone. Uma voz desconhecida pergunta se ela conhece um tal de Sandro Morales. Débora vê o rosto de Sandrinho, amigo de infância, parceria de festas. Andava sumido. Mas ele era assim mesmo. Passava dias trancado em casa. Não saía. "O quê?" Débora pergunta em voz alta... "Não" Débora murmura... ao fundo, a voz metálica desconhecida diz... 'overdose'."

A Espera

Que eu me renda não espere 
Não lembre da chuva amena
Não espere que eu seja doce
Não queira me dizer onde está o sol

Não espere que eu aceite
Não sinta pena nem dó
Não espere que eu me acalme
Não tente explicar

Não, não sinta nada
Não espere que eu mude
Não espere a doçura
Não, não há chuva que resista ao vento frio

Lá, atrás do monte
Está escondido um tesouro
Feito sob cruzes de prata
O anel de vidro
Mãos que se juntaram
Lá, é lá atrás do monte

Lá, é lá atrás do monte
Que está escondido um tesouro
Feito sob cruzes, sob cruzes de prata
O anel de vidro, mãos que se juntam
Lá, é lá atrás do morro, do monte azul

Não, não sinta nada (como sempre)
Não espere que eu me mude, ou simplesmente mude
Não espere a doçura (no rosto de pedra?)
Não, não há chuva que resista ao vento, ao vento frio

Não, não espere que eu aceite
Não, não sinta pena, não sinta dó
Não, não espere que eu me acalme
Não, nem sequer tente explicar 

Que eu me renda não espere
Não, não lembre da chuva amena
Não, não espere que eu seja doce
Não, não queira me dizer por onde anda o sol

Por onde anda o sol?

DHENOVA - voz e poema
WASIL SACHARUK - música e execução

16 de set de 2012

Nos varais: as sacolas plásticas


Nos varais: as sacolas plásticas


As cortinas de náilon balançam à vontade da brisa forte, quase vento, que anuncia o temporal. Os varais ensaiam uma brincadeira de corda. No vai e vem, o prendedor solitário escapa-se de alguns pingos, de outros nem tanto. E as sacolas de plástico, com lixo seco, estão à mercê da chuva grossa que cai. Uma das cordas dos varais roça-se ao material barulhento e a estranha melodia alcança o pátio vazio. Junto os pingos que pingam. Não há crianças correndo, nem a zoeira das bicicletas, dos freios, que crianças não têm. Apenas o farfalhar das sacolas rege o momento.

De repente, um pássaro escuro surge à janela e, por detrás das cortinas, posso vê-lo a sacudir as asas num balé bonito. Ritual terminado, o bicho me vê, sinto um arrepio, mas mantenho o olhar. Ele me vê, sentada à mesa, caderno e caneta e permanece ali.

O tempo é de tormenta e a noite vai nascer fria. Olho o pássaro mais uma vez e ele parece me dar adeus. E realmente dá. Voa livre, bem alto, e some.

As sacolas continuam a melodia irritante, o pátio continua vazio, os varais insistem nas brincadeiras sem graça e, em mim, o sentimento contrário, de plenitude, me toma inteira, entorno a taça e sorrio ao destino. Um brinde. Sou tão vermelha que o cinza não combina, ainda que a combinação seja clássica. Sei onde ir.

Suspiros de claridade ainda permanecem no vidro da janela e servem como espelho. Vejo meu reflexo. Finalmente, voltaram minhas asas negras.


Dhenova

2 de set de 2012

Galáxias (Haroldo de Campos)


Galáxias (Haroldo de Campos)

e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso
e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa
não é a viagem mas o começa da por isso meço por isso começo escrever
mil páginas escrever milumapáginas para acabar com a escritura para
começar com a escritura para acabarcomeçar com a escritura por isso
recomeço por isso arremeço por isso teço escrever sobre escrever é
o futuro do escrever sobrescrevo sobrescravo em milumanoites miluma-
páginas ou uma página em uma noite que é o mesmo noites e páginas
mesmam ensimesmam onde o fim é o comêço onde escrever sobre o escrever
é não escrever sobre não escrever e por isso começo descomeço pelo
descômeço desconheço e me teço um livro onde tudo seja fortuito e
forçoso um livro onde tudo seja não esteja seja um umbigodomundolivro
um umbigodolivromundo um livro de viagem onde a viagem seja o livro
o ser do livro é a viagem por isso começo pois a viagem é o cômeço
e volto e revolto pois na volta recomeço reconheço remeço um livro
é o conteúdo do livro e cada página de um livro é o conteúdo do livro
e cada linha de uma página e cada palavra de uma linha é o conteúdo
da palavra da linha da página do livro um livro ensaia o livro
todo o livro é um livro de ensaio de ensaios do livro por isso o fim-
cômeço começa e fina recomeça e refina se afina o fim no funil do
cômeço afunila o cômeço no fuzil do fim no fim do fim recomeça o
recomeço refina o refino do fim e onde fina começa e se apressa e
regressa e retece há milumaestórias na mínima unha de estória por
isso não conto por isso não canto por isso a nãoestória me desconta
ou me descanta o avesso da estória que pode ser escória que pode
ser cárie que pode ser estória tudo depende da hora tudo depende
glória tudo depende de embora e nada e néris e reles e nemnada
de nada e nures de néris de reles de ralo de raro e nacos de necas
e nanjas de nullus e nures de nenhures e nesgas de nulla res e
nenhumzinho de nemnada nunca pode ser tudo pode ser todo pode ser total
tudossomado todo somassuma de tudo suma somatória do assomo do assombro
e aqui me meço e começo e me projeto eco do cômeço eco do eco de um
cômeço em eco no solo de um cômeço em eco no oco eco de um soco
no osso e aqui ou além ou aquém ou láacolá ou em toda parte ou em
nenhuma parte ou mais além ou menos aquém ou mais adiante ou menos atrás
ou avante ou paravante ou à ré ou a raso ou a rés começo re começo
rés começo raso começo que a unha-de-fome da estória não me come
não me consome não me doma não me redoma pois no osso do cômeço só
conheço o osso o osso buço do cômeço a bossa do cômeço onde é viagem
onde a viagem é maravilha de tornaviagem é tornassol viagem de maravilha
onde a migalha a maravalha a apara é maravilha é vanilla é vigília
é cintila de centelha é favila de fábula é lumínula de nada e descanto
a fábula e desconto as fadas e contos as favas pois começo a fala

in GALÁXIAS, HAROLDO DE CAMPOS, EDITORA 34, 2ªEDIÇÃO, SÃO PAULO, 2004

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INSPIRATURAS

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Pelotas RS

Inspiraturas - Escrita Criativa


O Projeto INSPIRATURAS
Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras não escritas que residem dentro de nós.
Coordenado por Andréa Iunes & Wasil Sacharuk
A QUEM INSPIRATURAS SE DESTINA: - A quem quer começar a escrever e não sabe como; - A quem quer voltar a escrever; - A quem procura novos temas, novos textos, novas ideias; - A quem sente que o gosto pela escrita foi dilacerado pela escrita profissional; - A quem quer “brincar com palavras” e usufruir o prazer da descoberta; - A quem quer ler com uma nova perspectiva; - A quem procura uma experiência criativa através da escrita; - A quem ama a literatura em língua portuguesa.
Estímulo à sua criação literária;
Exercícios e desafios criativos e inspiradores;
Feedback para suas obras anteriormente escritas;
Subsídios para novas obras;
Respostas, percepções e insumos para a sua produção literária;
Oficinas baseadas na premissa de que escrever se aprende no exercício da leitura e da escrita;
Oportunidade de ter seus textos lidos, apreciados e criticados por outros escritores aspirantes;
Reconhecimento de nuanças autorais e únicas na sua própria produção;
Controle e auto-confiança em relação ao próprio texto;
Direcionamento do seu texto para leitores específicos;
Entendimento do fenômeno artístico literário contemporâneo.

Nos Varais

Título:

Nos Varais

Autor:Dhenova
Formato:pdf
Tamanho:733 KB
Ano:2012
Enviado por:Dhenova
Enviado em:03/08/2012
Classificação:seguro
Sinopse:Coletânea de poemas compilados do tópico de mesmo nome, da comunidade do Orkut NOP - Nova Ordem da Poesia.

BAIXE AQUI

1 de jun de 2012

Por que INSPIRATURAS homenageia a poetisa Janete do Carmo?

INSPIRATURAS teve seu desenvolvimento na Internet, como uma eficiente oficina de criação literária fundamentada no compartilhamento de obras e opiniões. Provavelmente a característica mais comum entre  os que participaram de nossos projetos é o fato de se tratarem de novos autores que, a exemplo da poetisa Janete do Carmo, começaram e desenvolveram sua escrita na Internet. Nesse contexto, a poetisa que nos deixou no ano de 2011 é um ícone e, decerto, merece nosso apreço e consideração. Janete foi uma das mais criativas poetisas do nosso meio.

 

Conheça mais da obra de Janete do Carmo

13 de fev de 2012

INSPIRATURAS - "palavrinventada"®

INSPIRATURAS - "palavrinventada"®

Oficina para o desenvolvimento de uma escrita despojada e criativa, a partir do uso de inovações lexicais. (por Dhenova, Leh Lopes e Wasil Sacharuk).

De uma palavra inventada, absurdamente possível, escreva um poema ou narrativa curta. O desafio é produzir um texto original.

Não esqueça de deixar uma palavra inventada para o próximo escritor.

www.inspiraturas.com

 

primeira palavra:

TAFUIO

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Tafuio

Passei o dia meio truco-retruco
maio maluco
completamente desluio

desagravei um conluio
almocei qualquer treco
com arroz pescosseco

alvorotei um sucesso
esqueci o circunflexo
que define o sexo

passei o dia mais louco
num sol bocomoco
com pensamento tafuio.

Wasil Sacharuk

 

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próxima: andermaiskin

4 de fev de 2012

NOVA ORDEM DA POESIA destaca Dhenova (A.Yunes)

Rogerio Germani - 19 de jan
São tantos os seus lindos poemas que dá um nó na cabeça para escolher um...srsrrs

Optei por destacar o último


Sou pássaro


Sou pássaro que voa até o monte
busco no pico o sentimento
solidão em ser descrente
não causa dúvida ou tormento

luzes coloridas marcam no horizonte
uma estranha linha do tempo
não sei do dia, ou da noite
sei apenas dos tragos e medos

ave que canta o hino dos pampas
não gosto de meias verdades
solidão e morte conheço, ambas
por isso espero só lealdade

sou livre para sonhar
com céus e borboletas amarelas
com jardins de flores brancas, 
até templos ou bordéus
e também com minhas cenas
estou livre de mim
ainda que às avessas...

nasci sem asas
mas sou livre 
e sonho sim
com véus e madrugadas,

nasci assim.


Dhenova

Este trecho chamou minha atênção pela força e verdade expressa


"ave que canta o hino dos pampas
não gosto de meias verdades
solidão e morte conheço, ambas
por isso espero só lealdade"

Daqui, retiro uma pergunta:

Você, como pássaro sulista, se cala quando a vida é desleal, voa para outros lugares ou contra-ataca com trinados mais fortes?
 
 

Andréa Iunes - 23 de jan


Sabe, Rogério, se tu me perguntasse isso no início do ano passado, eu te diria o seguinte...


sou pássaro
nasci aqui no sul
voo por dias e dias
assegurando as divisas
num céu muito quente e azul
vou abraçando minhas sinas...
Quando a vida me é desleal
escolho a janela da casa
e lá dou o trinado forte
que retumba no quintal
faço a minha sorte
mas não sou
de todo mal
 
Depois de um ano de transformações...
 
E sou hoje,
pássaro estou...
 
Sou pássaro
que nasci no sul
voo de vez em quando
se o sol não vem forte
sei sim onde fica o meu norte
não existem mais divisas
elas, todas, caíram por terra
no último temporal do inverno
não saíram ilesas, ainda bem...
 
Quando a vida me é desleal
isso acontece quase todo santo dia
busco outra janela, abro minhas portas 
deixo por elas o sol entrar, respiro fundo
não, não há ventania, apenas a vontade
de 'estar, ficar, permanecer, continuar'...
 
Sou pássaro de barro que mora no sul
no voo livre me inspira a caminhada
não, não há trinado grave... apenas sorrio
'bico fechado' para comer moscas certas
continuo assim... pra sempre calado.
 
Mas terras distantes não me interessam
'quero ter razão e também estar errado'
é o que espero da trilha...
 
ainda que equivocado.
 
"ave que canta o hino dos pampas
não gosto de meias verdades
solidão e morte conheço, ambas
por isso espero só lealdade"

Gostei muito, Rogério, da tua pergunta, obrigada pelo carinho... e espero que tenhas ficado satisfeito com a resposta, apesar de toda minha abstração... grata sempre.

Quanto ao trecho em destaque, realmente, em qualquer relação, seja ela amorosa, profissional, 'confiança' é essencial, pelo menos pra mim, sei que não é assim que acontece no dia a dia, que precisamos nos relacionar com pessoas que muitas vezes não estão na nossa sintonia, que nos invejam, não gostam da gente sabe-se lá porquê, e que precisamos, seja pelo motivo que for continuar convivendo, mas gosto da palavra lealdade, já vi muita coisa nesta vida (e continuo vendo todos os dias...) então, procuro me cercar de pessoas em que confio, que sei que vou poder contar e que, com certeza, podem contar comigo... não gosto da sensação de me sentir com o 'pé atrás' com as pessoas, de não agir naturalmente... isso é morte pra mim.

Obrigada. beijo na alma.
 
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♀Gall Marttins ♀ - 21 de jan

Dhe... Me fala:
Você acha que a poesia abandona o poeta ou o poeta abandona a poesia?

 

 

DESTACO:

 

O moço e o anjo...

Então, todos os dias, no mesmo horário,  o moço recebia a visita de um anjo. Não, não era do tipo ‘angelical’, daqueles com asinhas coloridas e tudo, não, também não era do mal, era apenas anjo, travestido de poeta, anjo negro, é certo, meio às avessas. E este ser etéreo trazia com ele, letras, letras desenhadas num caderno de capa verde, em folhas recicladas sem linhas, trazia sua poesia e declamava, cantava pra o moço, que quieto ficava, apenas calava, sorria, e o anjo se ia... e os dias passando, meses, anos... um dia, o ser encantado não apareceu. O moço estranhou, buscou no íntimo, por onde andaria a presença celestial, encontrou na gaveta do quarto o caderno verde, mas misteriosamente não havia poesia, as letras sumiram, as folhas estavam em branco, o moço entristeceu, sentiu que sua inspiração tinha morrido, na hora também seu coração endureceu, ficou sem rumo, meio que perdeu o sentido, mas o moço não entendeu o motivo... os dias passaram, meses e anos... um dia, o moço acordou com um sopro, sentiu no rosto o morno, cheiro de menta, e abriu os olhos, viu o anjo, ser nada alado, sorrindo para ele sentado na cama com outro caderno, agora com a capa cor de rosa, dentro as folhas todas escritas, transbordava a prosa e fazia companhia letras e letras tortas. O moço não se importou, sorriu aliviado, permitiu que o ser alado deixasse embaixo do seu travesseiro a mais terna mensagem, a de pura amizade. E se deu o laço. Hoje o moço ainda sorri, e os cadernos passaram a ser muitos.

A.Yunes

 

Andréa Iunes - 30 de jan

 
Gall, infelizmente, acho que ambos os casos podem acontecer... às vezes, se tem aquele esvaziamento natural, principalmente quando se escreve muito, então, é necessário tempo para que tudo se ordene – dentro da gente ou ao redor – e que se possa criar de forma mais efetiva, é mais comum... mas também a poesia também pode abandonar, sem explicação nenhuma, de repente um dia se acorda e não se sabe mais escrever em versos, tudo fica feio, sem graça, ruim... acho que isso é o pior... eu acordei assim, um dia, e até hoje não sei o que aconteceu... ainda tento (sou teimosa rsrs) mas sei da parca qualidade... daí, só espero que seja fase e que daqui a pouco tudo fique melhor.
 
Feliz com a questão, sem angústia. Obrigada pela presença, poetamiga.
 
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Helenice PS - 22 de jan
Trago para o destaque um dos meus preferidos:

SIMILITUDES

Tenho o pé na terra
e os olhos no vento
busco só a resposta
do outro lado da porta
a noite é de tempestade
raios, trovões, ventania
e eu aqui
o pé no chão
e ainda é a mesma
a mesma estrela
que me guia

eu te vi no retrato
um sorriso suave
no olhar, lá no fundo
uma tristeza sem jeito
abafada no tempo
esquecida? não tão cedo
na expressão firme
a responsabilidade
de quem ama
e levanta da cama
mesmo no inverno mais frio
e vai olhar a cria
pede com esperança
pra estrela do norte
desejando sorte
de ter mais um dia

Tenho o pé no chão
e o coração na chuva
sei a proposta
relâmpago, trovão, agonia
o pé na terra
o coração no chão
e a vida por um fio.

(Dhenova - 02/03/2009) 


Sabe aquela frase do Quintana:"Um bom poema é aquele que nos dá a impressão 
de que está lendo a gente ... e não a gente a ele!" Pois é o que eu sinto ao ler os poemas da Dhenova, essa empatia tremenda, vontade de ter escrito aquilo. 

Dhenova, você falou dos filhotes, desse lugar lindo onde você mora. Mas, e a Andreia, quem é, o que espera da vida, o que sonha, o que faz, que marca quer deixar neste mundo?

 

Andréa Iunes - 15:28
Querida Helen, busquei aqui nos meus arquivos (sei que tinha) o poema que inspirou 'similitudes', um poema teu... lembro da cena, foi forte, eu li, bateu lá dentro, enchi meus olhos de lágrimas e estes versos foram saindo. Foi um momento muito especial, te senti muito perto. Gosto demais dele, é um dos mais sentidos que fiz.
 
"sei a proposta
relâmpago, trovão, agonia
o pé na terra
o coração no chão
e a vida por um fio."
 
bom...

Andréa quer da vida, principalmente, paz, Helen, quer ver os filhos com um mínimo de segurança financeira, quer casa própria - pagar aluguel não tá com nada - quer um trabalho onde possa ser valorizada - a educação é uma piada neste país.

Quem tem filhos pequenos, como os meus, consegue imaginar que o meu momento é de 'juntar galhos pra o ninho' (roubei da Marisa) ... e, ao mesmo tempo, ter certa tranquilidade pra poder curtir o instante tão maravilhoso que é o crescimento destas pestinhas rsrs curtir o lugar  onde moro, encontrar um meio termo pra esta loucura diária, ser produtiva sim, mas não escrava...

eu, por mim rsrs... eu tenho muitos sonhos, Helen, eu os projeto como objetivos, então, se quero, coloco na cabeça e vou atrás, leve o tempo que levar... os utópicos - tenho também - estes apenas saboreio quando vou deitar e vez por outra servem de inspiração, mas permanecem latentes... tenho alguns projetos literários que gostaria de ter mais tempo e ser mais organizada pra fazer, tenho quatro livros em versos praticamente prontos pra lançar, e três em prosa (muita coisa pra acertar) mas sempre encontro algum problema e vou adiando... marca? não, Helen, não quero nada sulcado, nada riscado, cansei de cortes... prefiro que lembrem do meu perfume.

Grata, amiga, espero que tenha respondido... beijo no coração.
 
 

Helenice PS - 16:04

Andréa (acho muito significativo quando você se denomina como o seu próprio nome) acabei de vir do seu blog e deixei lá um comentário sobre medos e voos.

Entendo com o coração essas preocupações todas que você coloca, acho que toda mulher, mãe e profissional sente o que você está sentindo nesse seu momento de vida, e vou lhe dizer -  não pra te preocupar mas pra te preparar - não acaba nunca! Os filhos crescem e a gente acha que a independência deles também será a nossa, mas o cordão umbilical é mais poderoso do que se imagina e não se corta tão facilmente. Os filhos voam mas a gente fica em baixo com as mãos em concha, só pra garantir.

A sua resposta, sua maneira de ver a vida me trouxe mais certeza de que a pessoa que eu conheço virtualmente é a que imagino na realidade, de uma delicadeza ímpar mas de uma força imensa.

Adorei isso: ...marca? não, Helen, não quero nada sulcado, nada riscado, cansei de cortes... prefiro que lembrem do meu perfume.

Um grande abraço, incluindo nele o maridão e os lindos filhos.


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Marcia P. de Sá - 23 de jan
Amo a Dhenova, a poetisa...a Andréa, mulher e mãe amantíssima, a Yunes!(que nome lindo!) todas enfim, sempre que a leio amiga sinto fundo na alma a tua força, é como se fosses bailarina de várias peças distintas e em todas és a prima bailarina. Rasgations a parte, (rsrs brincadeira, isso é afeto!)

Tenho notado que entrastes de cabeça na prosa e posso te dizer que estou adorando cada uma delas...
Queria saber do teu processo de criação das prosas, porque comigo o que me apaixona em escreve-las é que tenho uma vaga sensação de que elas já estavam prontas em algum lugar, eu só as transcrevo...saem fácil e completas. E você? me conta....

Além disso queria saber se não pensas em escrever um romance, já senti muito em teus textos mais longos uma clara essência de que tens o dom para isto.

Um muito afetuoso abraço Dhe...e saibas que te ler é uma delicia!!!
Obrigada sempre...
 

De onde veio esta inspiração??? lindíssima prosa!

Medo dos Rochedos

Era interessante o comportamento daquela onda, o medo que tinha de bater contra os rochedos, era fascinante as voltas que ela dava, rodopiava em si, para fugir do contato, da vil correnteza que vinha e levava tudo e que fazia sentir... era interessante o muro que a onda fazia, ficava tão dura que nada a amolecia, e a correnteza passava, não a alcançava, e a cada dia a onda se sentia mais vitoriosa, não bateria nos rochedos, não se fragmentaria, não morreria em pasmos, ficaria exatamente igual... um dia, todavia, a onda estava dispersa, havia endurecido tanto as arestas que a liquidez era nula, ela sentia falta do vibrar, de amolecer, correr junto ao sol, ver a lua surgir, tão preocupada estava com a correnteza. Então, a onda relaxou, abraçou o infinito, voltou a ver o brilho do sol tão amarelo, tudo tão bonito, sentiu a brisa encrespar suas fontes, sentiu o sol, sentiu tanto, até ele ficar mais e mais intenso, viu a onda que a correnteza a pegara, levava-a pela trilha oculta... até os rochedos... a onda esperou o choque, fechou os olhos... que não veio... rodopiou primeiro, águas perpassadas em si, em revoada, um salto só... ela abriu os olhos, estava sendo jogada pra o alto, lançada no ar, e foi aí que se espatifou nos rochedos... o que viu a deixou encantada, a onda se viu em milhares de partes, coloridas, distintas, cada uma com sua essência, características... e elas, as partes, iam sendo mudadas, algumas ficavam, outras vinham, se aglomeravam, se entranhavam, nasciam... outras essências, outras características... até formar nova onda, a mesma, mas nova agora, em nova vida.

A.Yunes

 

Andréa Iunes - 16:04
Grata, fada, sei que é de coração, gosto também e muito de ti, sempre foste a mesma pra mim, com o mesmo rosto, o mesmo discurso, e a mesma postura o tempo inteiro, ou seja, és autêntica, uma verdadeira flor, te admiro demais! (hihihi rasgações à parte...)

Pois é, amiga, venho tentando entrar de cabeça na prosa faz algum tempo. Na realidade, as narrativas curtas são meu objeto de estudo, além de minha paixão, fiz minha pós graduação em cima dos contos e da minha própria criação, queria aprofundar alguns conhecimentos, trocar ideias, mas depois que me afastei do meio acadêmico ficou muito difícil encontrar um lugar - principalmente no meio virtual - em que as pessoas levassem a sério a prosa - a maioria não gosta de ler porque são textos longos rsrs... então, venho e vou nestes dois mundo: que bom que gostas de ambos!!!
 
O que venho escrevendo, amiga, são pequenas prosas poéticas descontextualizadas, abstratas, inspiradas em imagens...
 

Requiem
 
E o tempo se esvai... escorre pelo vidro, e lá fora ouço os gemidos de uma chuva fininha e insistente, chuva fria, que molha a alma, que se entranha, busca calma... faz frio lá fora, num dia cinzento e pouco poético, a umidade que a tudo corrompe, suja, destrói... e a música que toca, uma sinfonia de Mozart, invade os cômodos, partes de mim que se partem... e o tempo que se esvai pelo vidro num ínfimo, e a vida que arde já sem sentido... nenhum.
 
A.Yunes

Márcia,

"Queria saber do teu processo de criação das prosas, porque comigo o que me apaixona em escreve-las é que tenho uma vaga sensação de que elas já estavam prontas em algum lugar, eu só as transcrevo...saem fácil e completas. E você? me conta...."

As prosas poéticas, assim como muitos poemas, escrevo inspirada em imagens, quase um retrato, elas podem ser reais, existir uma imagem como no caso de Requiem, ou apenas me vêm à mente e eu coloco no papel, mas o processo se dá por imagem... daí a característica mais forte nestes textos é a descrição, algumas mais abstratas ficam difícil pra o entendimento do leitor, estou abandonando-as aos poucos, acho que servem de trampolim para as mais longas e menos poéticas...

Já a prosa não, trabalho bastante em cima do tema, pesquiso, busco o tipo de narrador que cabe na proposta, o melhor título, os nomes das personagens, a caracterização de cada uma, retiro excessos, tento colocar pistas mas não entregar o jogo... tenho problemas com a simbologia, mas não deixo de usar rsrs... adoro mitologia e suas pontes...

prontas? já saíram algumas... este conto saiu praticamente pronto, é claro que o 'banho de loja' foi necessário, mas mexi pouco, quase nada... é um narrador câmera, apenas vê o que está acontecendo sem saber de nada...

 

Fada, quanto ao romance... tenho projetos, mas o praticamente pronto é 'Instabilidade dos Mundos', o primeiro, que comecei a fazer em 1997... sempre que mexo, arrumo, refaço partes... ainda não está pronto mesmo, tomara que fique um dia rsrs... 

grata, amiga, por tudo e por tanto carinho... gosto demais das tuas prosas e quando as palavras jorram assim não é preciso nenhuma técnica, vale apenas o sentimento... e esta tua fez reboliço aqui dentro:

Amanhecendo-me

Acordo com os falatórios da lua, ela sempre a tentar uma

palavra com o sol...e se desespera

levanto com as dores da realidade, e ao sentar nas letras,

com os olhos fixos na negritude do horizonte a minha frente, me desfaço.

Palavras vão subindo qual bolhas de sabão, e o tempo voa com

elas...

Agora o horizonte se abre ao vermelho que o come pelas

beiradas, invadindo a escuridão

morna de ninhos...alforrio os meus sonhos reais.

E sinto passar por mim um cheiro forte de loucura, é

doce...quase enjoativo

se dissipa na próxima página escrita, e vai não se sabe para

onde. A lua já se foi

falando baixo e reclamando de seu destino...ah! se ela

soubesse do meu...

Na verdade, as páginas já se acumulam em meu vazio, não mais

reconheço minha alma

ou talvez a reconheça tanto que me assombro!

Preferível voltar a esta vida, fingir que preciso mesmo

levantar, comer, tomar banho, trabalhar... possivelmente é necessário a mim

fingir infinitamente que sou corpo.

Amanhã...quem sabe, antes do nascer do sol

eu tenha mais uma vez esta chance de me rever.

Márcia Poesia de Sá - 31.01.2012 - 05:20hr

 

Fada, o 'medo dos rochedos' foi um mote do poeta amado Rogério Germani (faz parte daquela lista imensa que jamais, nem que viva mil anos, vou conseguir pagar aos amigos, ainda bem que eles são gente fina e me perdoam), e veio num momento oportuno, numa fase de repaginação, de busca, de enfrentar alguns medos... daí, a 'onda' fragmentada, que voa, espirra, bate nos rochedos, respinga, se faz em partes, mas se une, se constrói novamente, uma nova velha onda... foi muito,mas muito especial fazer... nunca imaginei, aliás, nunca imagino que o que escrevo as pessoas vão gostar ou comentar, acho que ninguém vai ler, daí quando acontece como aconteceu com este texto, que recebi tantos comentários carinhosos, eu fico muito feliz.

grata sempre, amiga.

 

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Bia Cunha - 23 de jan

Quais impulsos alçam teu voo mais profundo?
Teus sonhos de menina? Teus sonhos de Mulher? Teus sonhos de Yunes?
 

Andréa Iunes - 18:12

Bia Cunha:
Quais impulsos alçam teu voo mais profundo?
Grata, Bia, pelos destaques... sou impulsiva por natureza, vivo 'voando' ainda que no chão... acho muito sem graça apenas 'esperar' pelo toque do vento, gosto de fazer o movimento, ainda que muitas vezes não o faça porque é impossível fazê-lo... meu impulso maior são as minhas buscas... adoro os voos, gosto de sentir a liberdade no rosto, gosto de deixar as letras em versos jorrarem soltas, em piruetas, e que elas criem vida ou não rsrs...

grata, menina.

 

Meu sonho de menina... queria ser professora (ai!) e fui! 

Meus sonhos de mulher... ter um casal de filhos e um companheiro que, além de apaixonado, fosse meu amigo e companheiro... e consegui!

Meus sonhos de Yunes? Publicar, publicar e publicar... eheheh ainda estou lutando por estes... vou conseguir, é certo!

Grata por todos os destaques, Bia. beijoca grande.

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JULENI ANDRADE 1 - 24 de jan

Alço o voo

Alço o voo, e no pleno gozo
faço da água o meu intento
da lua um céu negro intenso
e meus passos, valso no vento.

Dhenova

Pergunto: qual a grande diferença entre Yunes e Dhenova?
 

Andréa Iunes - 21:47

Além da forma, Juleni, eu escrevo prosa, e Dhenova escreve em versos, eu sou autora, Dhenova é personagem...

Dhenova saiu de um livro (é, aquele que um dia vai ser publicado rsrs), e acompanha a música do "Audiverimus', faz letra de música, ou pelo menos tenta, traz na escrita uma despreocupação imensa, gosta de desafios, estuda as figuras de linguagem, mas prefere antes de mais nada sentir a poesia e não usa nada disso no final rsrs... todavia, eu já sou muito estressada com as narrativas, vou atrás de ecos, erros de concordância, deixo o texto de molho, pego uma, duas, três vezes (quatro, cinco, seis)... uma chata ahahah! Leio muitas e muitas vezes, procuro pontes, tento encontrar na simbologia caminhos para o leitor... e por aí vai... dualidades!!! 

grata pela oportunidade, amiga, beijo grande.

 

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Davi Setta. Quase off - 24 de jan
Destaco e pergunto:

Mergulho

Mergulho do íntimo
entre bolhas
peixes
conquistas verdes
mergulho eterno
voo terno
entre nuvens sagradas
ilusão azul
céu apagado
cela riscada

mergulho do íntimo
correnteza
do ínfimo acesa
sai pela mão
mas asas molhadas
permanecem petrificadas
no fundo do mar
espaço absurdo
escuro balanço
no fundo imundo.

Dhênova


Qual é aquele livro inesquecível?
 
 

Andréa Iunes - 22:05

Davi, querido, obrigada pelo carinho e por trazer 'mergulho'...

tenho 'alguns' livros inesquecíveis...

quando tinha 9 anos li 'O Exorcista', consegui com uma amiga bem mais velha que eu, e li escondido dos meus pais... lia na cama, após eles deitarem... quando terminei (li rápido), passei um bom tempo verificando se os pés da cama estavam realmente no chão ahahah... agora, eu rio, na época, foi meio apavorante! Mas faria outra vez...

aos 16, li 'As Brumas de Avalon' (todos)... virei fã de Morgana das Fadas... e o 'lago' passou a ser inspiração...

com 27, descobri Clarice Lispector (e o mundo nunca mais foi o mesmo)... amo tudo, mas 'Água Viva' é com certeza meu preferido.

com mais de 30 rsrs, descobri Bruna Lombardi, a poesia de Bruna serviu como pano de fundo pra minha história de amor, foram muitos os poemas declamados em plena madrugada, com muito uísque, e risadas...

foram momentos especiais em que os livros, estes 'seres' tão necessários fizeram parte.

Grata pela questão, querido.

 
 
 
 
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