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Oficina de escrita literária Inspiraturas, em Pelotas

Oficina de escrita literária Inspiraturas - o fim da página em branco - A ti, que ainda acreditas na escrita, em especial a Poesia, como ...

16 de set de 2012

Nos varais: as sacolas plásticas


Nos varais: as sacolas plásticas


As cortinas de náilon balançam à vontade da brisa forte, quase vento, que anuncia o temporal. Os varais ensaiam uma brincadeira de corda. No vai e vem, o prendedor solitário escapa-se de alguns pingos, de outros nem tanto. E as sacolas de plástico, com lixo seco, estão à mercê da chuva grossa que cai. Uma das cordas dos varais roça-se ao material barulhento e a estranha melodia alcança o pátio vazio. Junto os pingos que pingam. Não há crianças correndo, nem a zoeira das bicicletas, dos freios, que crianças não têm. Apenas o farfalhar das sacolas rege o momento.

De repente, um pássaro escuro surge à janela e, por detrás das cortinas, posso vê-lo a sacudir as asas num balé bonito. Ritual terminado, o bicho me vê, sinto um arrepio, mas mantenho o olhar. Ele me vê, sentada à mesa, caderno e caneta e permanece ali.

O tempo é de tormenta e a noite vai nascer fria. Olho o pássaro mais uma vez e ele parece me dar adeus. E realmente dá. Voa livre, bem alto, e some.

As sacolas continuam a melodia irritante, o pátio continua vazio, os varais insistem nas brincadeiras sem graça e, em mim, o sentimento contrário, de plenitude, me toma inteira, entorno a taça e sorrio ao destino. Um brinde. Sou tão vermelha que o cinza não combina, ainda que a combinação seja clássica. Sei onde ir.

Suspiros de claridade ainda permanecem no vidro da janela e servem como espelho. Vejo meu reflexo. Finalmente, voltaram minhas asas negras.


Dhenova

2 de set de 2012

Galáxias (Haroldo de Campos)


Galáxias (Haroldo de Campos)

e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso
e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa
não é a viagem mas o começa da por isso meço por isso começo escrever
mil páginas escrever milumapáginas para acabar com a escritura para
começar com a escritura para acabarcomeçar com a escritura por isso
recomeço por isso arremeço por isso teço escrever sobre escrever é
o futuro do escrever sobrescrevo sobrescravo em milumanoites miluma-
páginas ou uma página em uma noite que é o mesmo noites e páginas
mesmam ensimesmam onde o fim é o comêço onde escrever sobre o escrever
é não escrever sobre não escrever e por isso começo descomeço pelo
descômeço desconheço e me teço um livro onde tudo seja fortuito e
forçoso um livro onde tudo seja não esteja seja um umbigodomundolivro
um umbigodolivromundo um livro de viagem onde a viagem seja o livro
o ser do livro é a viagem por isso começo pois a viagem é o cômeço
e volto e revolto pois na volta recomeço reconheço remeço um livro
é o conteúdo do livro e cada página de um livro é o conteúdo do livro
e cada linha de uma página e cada palavra de uma linha é o conteúdo
da palavra da linha da página do livro um livro ensaia o livro
todo o livro é um livro de ensaio de ensaios do livro por isso o fim-
cômeço começa e fina recomeça e refina se afina o fim no funil do
cômeço afunila o cômeço no fuzil do fim no fim do fim recomeça o
recomeço refina o refino do fim e onde fina começa e se apressa e
regressa e retece há milumaestórias na mínima unha de estória por
isso não conto por isso não canto por isso a nãoestória me desconta
ou me descanta o avesso da estória que pode ser escória que pode
ser cárie que pode ser estória tudo depende da hora tudo depende
glória tudo depende de embora e nada e néris e reles e nemnada
de nada e nures de néris de reles de ralo de raro e nacos de necas
e nanjas de nullus e nures de nenhures e nesgas de nulla res e
nenhumzinho de nemnada nunca pode ser tudo pode ser todo pode ser total
tudossomado todo somassuma de tudo suma somatória do assomo do assombro
e aqui me meço e começo e me projeto eco do cômeço eco do eco de um
cômeço em eco no solo de um cômeço em eco no oco eco de um soco
no osso e aqui ou além ou aquém ou láacolá ou em toda parte ou em
nenhuma parte ou mais além ou menos aquém ou mais adiante ou menos atrás
ou avante ou paravante ou à ré ou a raso ou a rés começo re começo
rés começo raso começo que a unha-de-fome da estória não me come
não me consome não me doma não me redoma pois no osso do cômeço só
conheço o osso o osso buço do cômeço a bossa do cômeço onde é viagem
onde a viagem é maravilha de tornaviagem é tornassol viagem de maravilha
onde a migalha a maravalha a apara é maravilha é vanilla é vigília
é cintila de centelha é favila de fábula é lumínula de nada e descanto
a fábula e desconto as fadas e contos as favas pois começo a fala

in GALÁXIAS, HAROLDO DE CAMPOS, EDITORA 34, 2ªEDIÇÃO, SÃO PAULO, 2004

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O Projeto INSPIRATURAS
Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras não escritas que residem dentro de nós.
Coordenado por Andréa Iunes & Wasil Sacharuk
A QUEM INSPIRATURAS SE DESTINA: - A quem quer começar a escrever e não sabe como; - A quem quer voltar a escrever; - A quem procura novos temas, novos textos, novas ideias; - A quem sente que o gosto pela escrita foi dilacerado pela escrita profissional; - A quem quer “brincar com palavras” e usufruir o prazer da descoberta; - A quem quer ler com uma nova perspectiva; - A quem procura uma experiência criativa através da escrita; - A quem ama a literatura em língua portuguesa.
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Controle e auto-confiança em relação ao próprio texto;
Direcionamento do seu texto para leitores específicos;
Entendimento do fenômeno artístico literário contemporâneo.

Nos Varais

Título:

Nos Varais

Autor:Dhenova
Formato:pdf
Tamanho:733 KB
Ano:2012
Enviado por:Dhenova
Enviado em:03/08/2012
Classificação:seguro
Sinopse:Coletânea de poemas compilados do tópico de mesmo nome, da comunidade do Orkut NOP - Nova Ordem da Poesia.

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