Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

27 de dez de 2013

ANO NOVO

ANO NOVO

O tempo é tão simplesmente
o rodar da grande esfera
entre o inverno e a primavera
dando uma pista pra gente
de que a noite e o dia
o claro, o escuro, o intermitente
é fruto do senhor tempo
e o tempo é dono da vida...

Mas isso é só ilusão
para passar o nosso tempo
(este sim, curto e contado)
no espelho de torta visão
toda manhã vem o recado:
- Do seu tempo pouco é restado...
aproveita, então sua provisão
que vale muito a pena ser vivida...

Mas o tempo passa e registra
que a grande esfera rodou
outro tanto e um novo ano
surge em nosso horizonte
como sempre o tempo faz
que venha, cumprindo o plano
e traga com ele a esperança
de paz, amor e toda bonança...

Somos amantes de uma quimera
que preencha nosso tempo
( que está sempre por um triz)
no ano novo que deve chegar
enquanto roda a grande esfera
preparamos a grande festa
e entre bindes e abraços
criamos um tempo feliz...

Marisa Schmidt

5 de dez de 2013

Uma sombra na parede

arte de Kumi Yamashita

das histórias que nunca contaremos
das sombras na parede
que aparecem e desaparecem
sem deixar vestígios
e nunca nos afastaremos
do medo da dor
que nunca renegaremos
dos cadáveres inevitáveis
que nunca enterraremos
da luz que incide em nós
e nunca aceitaremos
virá um dia
em que a água cobrirá tudo
e submersos na noite vazia
nem sombra nem dor nem medo nem luz
intoxicados pela mais pura verdade
para sempre dormiremos

Helenice Priedols



29 de nov de 2013

Que tal amarelinha no chão do céu ?

Hoje foi um daqueles dias que se corre para todos os lados. Viramos atletas olímpicos. Pressa. Imprevistos. E trabalho. Muito trabalho (ainda bem). Saí do primeiro que dura o dia inteiro e vai pra mais um (aquele extrazinho), sempre correndo, o trajeto, a condução, o outro trajeto, por fim chega-se e noto que só as horas não tem pressa... Findaram os grãos da ampulheta. Apressadamente se foge, na mente: o banho, o gato sumido, o remédio... Carona ajudou até metade do percurso, depois ônibus que, também, não tem pressa alguma. Tem momentos que a mente chega primeiro que os dedos dos pés. Parada!!! Corre-se pela Avenida, aproveitar o sinal fechado (3,2,1,0), agora a rampa do Hospital, falta pouco, a moradia fica logo atrás. Algo inusitado... Subida a Céu-aberto, e que Céu, nuvens poucas, estrelas muitas, essa beleza não cabe no segundo, pairou a Lua dentro da retina. Magia! Recompensa! Cada passo nos segundos abstratos, risquei uma amarelinha no firmamento, um planeta para pedrinha, versos para saltar, pode-se ver o mundo ao contrário, de ponta a cabeça, nenhum físico pensaria na tal "gravidade", apenas uma poesia para um minuto de felicidade. Em casa. Em paz. Tudo terminou bem demais.
 BiaCunha

28 de nov de 2013

CONTRASTES...

São os maus bofes da noite
que destacam as alegorias
do que ignoramos as faces
no tropel das vãs correrias

Os mendigos esfarrapados
os cães famintos ao relento
se nos mostram enregelados
no sórdido cantar dos ventos

São os mágicos clarões da lua
que tornam o negror mais claro
namorados se beijam na rua
sob um céu de veludo tão raro

Os gatos passeiam no telhado
como se fossem o pensamento
das flores no jardim sombreado
onde caracóis aspiram o momento

O dia, a noite, os pobres humanos
se ajeitam como podem ao destino
tentando encaixar nos seus planos
os contrastes de um mundo supino

Marisa Schmidt
Curtir ·  · Promover · 

25 de nov de 2013

REFLEXÕES DA SEGUNDA-FEIRA


REFLEXÕES DA SEGUNDA-FEIRA

Caminhando na cidade
Sou apenas uma mulher
(uma mulher qualquer)
Sem ter peculiaridade
Que justifique atenção

Ninguém vê meu coração...

Não sabem que sou poeta
E qualquer um vira inspiração
Na rima que é minha meta
Em segredo observo a feição
da criança, do moço, do idoso

Ignoram meu olhar amoroso...

E sigo dialogando com o vento
Contando o que descobri
Nas rugas do senhor desatento
No sorriso que na menina eu vi
E nas folhas perdidas ao léu

Poucos olham para o céu...

Na avenida andam apressados
Os transeuntes e seus dilemas
Ninguém para ou olha nos lados
(ema, ema, todo mundo tem problema)
Só eu vejo a cidade que os afeta

Essa é a sina do poeta...

Marisa Schmidt

18 de nov de 2013

Indignação sem atitude


Indignação sem atitude


De que adianta uma garganta que engole sapos
o paradoxo da cabeça de cima viver para baixo
olhos que, para injustiça, estão sempre fechados
ou ter um corpo sempre cansado quando se trata de ajudar
o próximo?

para quê palavras educadas
diplomacia
cortesia de praxe a quem não merece
se, todos os dias, escarram em seu prato?

de que serve remoer em silêncio os fracassos
as faltas alheios
os seus erros crassos
se nenhuma atitude acende a fagulha de seus passos?

como pensa que se modificará o mundo
antes que você assuma seu próprio destino
se o medo ainda petrifica os seus gestos?

Rogério Germani

Estudo sobre o tempo III

Estudo sobre o tempo III

Apenas se fiam os dias
em que a vida se repete
sem maiores rebeldias
oco de véus ou confete
sereno caindo à noite,
luz opalina na manhã
e o vento, macio açoite,
lembra o toque da lã

Tempos da maturidade
apaziguado os desejos
domada a louca ansiedade
sobrevivem os lampejos
do que sempre esteve em nós:
felicidade são só os momentos
em que voamos livres e a sós
no doce enlevo dos sentimentos...

Marisa Schmidt

16 de nov de 2013

De um dia pro outro. Em ambos pensando em siris...



 .Noite.

 Ouvi a voz do Mar
 Sabia que estava atrás de mim a me chamar, atendi
 Ultrapassei as pedras, barreiras novas
 Andei na areia da praia
 Mergulhei meus pés nas ondas
 Amaciei montes de terra q firmavam pequenas piscinas
 Azulei em estrelas
 Vi o mar refletindo a Lua
 Pensei em siris
 Acho q rezei também
 Contei ao Sr. Mar meus segredos
 Desfiz meus castelos sombrios
 Voltei pra orla calçando estrelas-marinhas
 Com frio de saudade
 Totalmente suja de esperanças

 ...

 .Dia.

 O Mar novamente me chamou
 Saí cedo dos sonhos
 Sábado de novembro
 Quente
 Cheguei
 A maresia já me embriagava pela Rua dos Navegantes
 Naveguei até o pé das ondas
 Para as ondas banharem meus pés
 Sentei
 Despi
 Esverdeei
 Ali
 Procurei siris
 (tô vidrada neles)
 As notícias nublaram a desesperança. Enfim!
 Depois um livro.
 Um conto.
 Esqueci meus versos sentidos.
 De novo
 água nos pés
 Logo uns passos pela orla
 Até as flores
 Ah se flores sempre possível assim!
 Voltei perfumada de mar
 Enfeitada de cores
 Desejando vasos, copos, garrafas e até papel
 Só para abraçar a delicadeza de um dia novo,
 Da sublime vontade de ter feito diferente
 Sorvendo somente:
 Uma manhã feliz!!



Bia Cunha 

11 de nov de 2013

CONVERSA DE P... VELHA

CONVERSA DE P... VELHA

Eu era tão boa nisso!
fazia tudo no capricho
com muito arrojo e graça
-Fui famosa nessa praça...

Mas era profissional!
Que acho fundamental
Ter em mente objetivo
-Cliente não é marido...

Bonita e bem ajeitada
Era a mais requisitada
Por doutor e fazendeiro
-Tudo gente de dinheiro...

Fiz da profissão minha arte
A melhor, modéstia a parte,
Criativa e bem disposta
-A gente faz bem o que gosta...

Mas o tempo muda a gente
Fui cansando de ter cliente
Me aposentei em boa hora
-Ficou difícil o trabalho agora...

É enorme a concorrência
Não se exige experiência
Qualquer um faz o serviço
-Mal feito e sem capricho...

E é tanta a tal modernidade!
Gay,bi, trans, uma variedade
Que um homem necessitado
-Ou faz curso, ou vai enganado...

Marisa Schmidt

6 de nov de 2013

TÃO SIMPLES

TÃO SIMPLES

Tentei tanto cortar caminho
pra chegar onde eu queria
Li de bula a pergaminho
para ver se descobria
o jeito de ser sempre feliz...
Fiz a rota da juventude
no corcel alado da ilusão
fingindo que a finitude
era questão de opinião

(e ela sempre por um triz...)

Mas o mapa para a felicidade
foi traçado por um brincalhão
que se mantém ocupado
a por mais pedras no chão
do que eu consigo pular...
O tempo passa e percebo
que fui feliz em cada parada
e se o descanso foi placebo
não há remédio pra jornada...

Felicidade é só na vida estar...

Marisa Schmidt

5 de nov de 2013

Amanheci entardecendo...


Quando o dia raiou eu amanheci entardecendo, não compare a algum pecado capital, não é mesmo, os olhos que fitam a rua, recolhe-se na ânsia para entardecer, pôr-se por detrás da colina que está atrás das altas casas de um bairro que nem sei o nome. Em minha mente já sinto as cores mescladas do amarelo-laranja-marrom-dourado-azul, sinto o vento que remexe os galhos da escassa árvore que fica no baldio terreno a minha frente. Sinto meu coração batendo excitado. Sinto que posso não sentir as horas tardias de um dia que ainda nem passou, mas sinto. Sinto o morno Sol adentro em mim, fazendo o dia em mim, enquanto que anoitece a vida da rua, do país meu. Eu sinto tão forte que turva a visão. Assento esse anseio na cadeira perto da janela e já degusto o café, a suavidade pressentida, a serenidade respirada, na mente um pouco de nada para logo mais embarcar numa lida repleta de tudo e de estrelas enluarada, fazer adormecer os pássaros que agora cantam divinamente o belo dia que se anuncia, mas que eu repito baixinho, só pra mim, que já estou pronta para entardecer...

4 de nov de 2013

Rimas sopradas

Rimas sopradas

É no silêncio dos ossos
que ouço o trote dos faunos
a indivisível trombeta dos anjos agrestes
despejando segredos nas perenes curvas
de meus poros sedentos

é quando me recolho de mim mesmo
que absorvo a luz das palavras em braille
ao vento

e feito ilusionista
descubro, enfim, nas sopradas rimas
que a vida não é fiasco
para quem ousa por no peito
além de sonhos
canções inaudíveis que plantam flores
na alma dos homens.

Rogério Germani

31 de out de 2013


É cedo da tarde, tardiamente calço-me de andarilha. Encantadas são pedras que calçam as ruas, vejo percorrer entre os paralelepípedos linhas que formam sorrisos e por entre os risos caminho e me entrelaço, cantarolo uma bossa do Tom, para cada novo passo acalmo toda a pressa. Deio-me seduzir pela flor laranja crescida no pé da calçada de uma casa feia, aproximo-me dela e a faço companhia, teço uma reza de bruxa para abençoar os poetas que circulam e que impregnam as ruas com gargalhadas e poesia. Em nós o Sol não queima, ilumina a face como diamante no dedo...

 

É cedo da tarde e muito que sorrir, mas quando for tarde da tarde poderei pintar estrelas.


29 de out de 2013

Eu olho além da grade que aprisiona, não o pensamento, apenas a dor - física - limitando os espaços passos a frente.
Mas eu vejo além dos passos.
Vejo um azul céu que se ascende; que abranda o amarelo em faíscas estrelares, amarelo já não é amarelado
, é uma cor azulada de sol para um azul de luz brilhante.
Eu olho além disso tudo aqui e vejo que tudo se acende. Há luzes nas casas e nas casas além dos altos velhos e distantes. Há luz aqui dentro de mim que de estrela em estrela vai cadenciando uma poesia que entra na veia e dilata e anestesia...

23 de out de 2013

NUMA MANHÃ DE SOL...

O sol acordou mais cedo 
um rio de ouro suspenso
despertando no arvoredo
cantares no ninho tenso

Os filhotes nada sabem
da dura labuta dos pais
apenas os bicos abrem
esperando sempre mais

E a sabiá em alvoroço
busca o inseto distraído
que garanta o almoço
de cada filhote atrevido

A manhã passa ligeira
e eu ainda na varanda
só vendo a trabalheira
dessa ave em sarabanda

Na verdade, senti saudade
dos meus filhotes no ninho
pois é tão igual a atividade
da mãe gente ou passarinho...

Marisa Schmidt


Além...


Desfez-se o substantivo. Coisa. Tipo corpo, tronco. Esqueleto não. A Coisa cabeça, a parte superior, o prazer. As ideias. Imaginação? Pode ser. Desfez-se. Esfarelou-se. Grãos, fios, pétalas, penas. Qualquer coisa dessas. Coisa que enche a matéria vida em metafísica, alma. Sim, espírito. Chame como quiser como bem entender. Desfez-se e não ficou estranho, feio. Muito belo de ver. E de voar junto. Diluir-se na metamorfose da Coisa. Abstrair-se de si e por ti se ser, por aquele ser e revoar, ser um pedaço ao vento, descontrole total da rota, ser carregado em leveza, ser peso atrelado ao poema. Poema de nada. Poema de se ver coisa da Coisa de alguém. Ser a palavra sentida, a excitação da poesia, da composição de outro, da loucura visual de alguém qualquer. Apenas ser rima para um verso, de certo não ser ritmada, mas ser o desfoque ou o embaçado; ser. Ser. E fazer-se noutra realidade, noutro substantivo, noutro abstrato de corrosão astronômica-extrafísica. Fazer-se invencionice do que quer que voe que alce os pés para o além...

 

Bia Cunha

 

16 de out de 2013


Embaixo do sofá não está, olhei três vezes, depois me arrastei até o quarto, procurei entre as frestas da janela. Nenhum lugar. Os livros já estão espalhados, todos. Folha por folha sondada. As roupas estão do avesso, os bolsos para fora. Vasculhou-se acima do teto, a aranha balançou a cabeça e desfez sua teia para provar que por ali não passou. Os gatos desistiram da busca, um a um aninhou-se por entre as almofadas. O dicionário, por incrível que pareça, estava caladinho. Céus! - “Onde estão as palavras?”. Na horta dos Poetas elas estão a produzir infinitamente. Cá em mim não há sentido algum. O dia com Sol sem pássaros a cantar; a relva não se mexe e os equinos não saem do barro; tem ração nos pratos e os gatos não comem; a mesa está posta, só que a fome se perdeu; a tv não acende; o rádio chia; o ônibus está com o letreiro apagado; os outdoors em branco; as placas não indicam; as vozes não dizem nada, os passos estão sem onomatopeia e eu não consigo saber onde pus as palavras.

 

Bia Cunha

11 de out de 2013

Tenho pensando muito em borboletas azuis do mar das oitos horas do dia e em gatos dos pelos de tigre e das patas marrons de areia da esquina, pronde meus olhos em sonhos desviam...
Tenho pensado muito em ilusões duradouras e realidades passageiras.
Novos tempos.


Bia Cunha

quero o coração de um poeta para costurar palavras poéticas, ousar sensibilidades sem métricas e vasculhar os vãos sem setas
 tato, audição, olhares
 pelas linhas escorrer tintas de sangue aos altares particulares, abraçar a religião sacrossanta dos beija-flores, embebedar-se de gozos
 néctar, ópio, raízes
 morrer de overdose de amor, afugentar da alma o torpor
 ...
 quero o coração de um poeta para costurar a dor.
 


Bia Cunha
 
Os versos foram escritos desalinhados ,  as rimas
caíram
caíram
saíram
das margens
das páginas brancas
não se definiu
rabisco
letra
trisco
No final virou prosa
assindética
sindética
poética
da obra incompleta
de mim
de nós
amores
amantes
amigos



Bia Cunha

8 de out de 2013

DESPERTAR A PRIMAVERA

A primavera entrou
logo cedo pela porta
plena de flores e insetos
que em seus voos diretos
cruzaram as linhas tortas
bocejadas por quem acordou

Na alma que sonhava lendas
esse sopro primaveril
trouxe alvoroços existenciais
tentando entender os sinais
do inefável infinito anil
entre as cortinas de rendas

Alma, esquece  a razão...
Vibra alegre com a novidade
dos aromas, cores e ruídos
e deixa que seus sentidos
despertem com voracidade
para as dádivas da estação...

Marisa Schmidt

6 de out de 2013

Infame existência

Infame existência

Altivo, ando pelas valas de meus inimigos
recolhendo escalpos
e, com chispas nos olhos, ateio fogo em seus pútridos
[corpos

é de minha natureza murchar flores
e sonhos alheios;

sou feito de enxofre
belas palavras
inúmeras faces amorfas: pelo poder
barganho almas com anjos & demônios

tampouco me importo se morro sozinho
todos os dias
pois minhas cinzas moldam destinos
no mausoléu secreto das urnas

em cada voto sem propósito que rege o mundo.

Rogério Germani

5 de out de 2013

SEM DILEMAS

SEM DILEMAS

No espelho o que se mostra
é a face que me expõe
aos olhares distraídos
e que às vezes, comovidos,
remetem um pensamento
que me falta pouco tempo
para completar a história
(já fugidia na memória)
e isso até serve de alento
para quem pensa no futuro
temendo esse tempo obscuro
pois não espelho tristeza...

Nunca foi da minha natureza
temer os fatos da vida
e medo não faz o meu tipo
porque afirmo e repito
que apenas o hoje importa.
Se a morte bater à porta,
será recebida como sempre
com a alma sorridente
por ter ganho tanto tempo
para amar e ser amada
ser mãe, avó e amiga
por ter topado toda a briga
que pra mim valia a pena

Envelhecer rende este poema
sem a falsa alegoria
de ser a melhor idade
pois a velhice, na verdade
é o que a vida propõe
a quem se cuidou um pouco
e escapou do trânsito louco,
das farras acima do recomendável
e teve o senso louvável
de usar o filtro solar

O resto é só aceitar
com a possível tranquilidade
as alegrias e tristezas
que nos brinda a natureza
na condição de humanos
valorizando os prazeres,
minimizando os desenganos
a velhice passará em harmonia
como o passar de cada dia
até o cair da cortina
onde o espetáculo termina
e onde ecoam os aplausos...

Marisa Schmidt

Tribalistas

Tribalistas

De onde venho
ninguém possui espelhos
receios
segredos

somos brancos, negros, amarelos
múltiplos
únicos

dividimos tristezas
empecilhos
compartilhamos sorrisos
abraços
música & poemas

e quando o cansaço nos ronda
deixamos soltos os sonhos

dançamos com a alma nua na chuva que consagra
[os corpos.

Rogério Germani

4 de out de 2013

NADA A LAMENTAR

NADA A LAMENTAR



É certo que naufragarão todos barcos de papel...
Seus inúteis pedaços estarão ainda algum tempo
marcando presença no vento que corre ao leu
sendo  próprio do brinquedo ruir-se em fragmento 
e nada há a lamentar nessa ilusão de papel

Também pouco viverão os sonhos da juventude
loucos voos de quimeras fadados ao desengano
pois castelos presos em teias tecidas na quietude
são apenas a desculpa para adiar outro plano
e nada há a lamentar dos arroubos da juventude

O que fica para sempre é só a doce lembrança
das pequenas alegrias que custam quase nada
mas que despertam sorrisos e uma leve esperança
que ainda há a criança dentro da gente guardada
e nada há que apague o calor de cada lembrança...

Marisa Schmidt

3 de out de 2013

Poesia, Poema e Prosa

Poesia, Poema e Prosa
Entre a poesia, o poema e a prosa há diferenças que os caracterizam como tais.

Diferenças demarcam a poesia, o poema e a prosa

Um simples questionamento emerge como sendo a mola propulsora dessa discussão que por ora travamos:poema ou poesia? Pode-se dizer que por mais que estes termos sejam utilizados de forma recorrente, muitos ainda acabam confundindo e achando que se trata de dois elementos sinônimos – concepção essa materializada de forma errônea, equivocada.

Pois bem, caro(a) usuário(a), gostaríamos de deixar bem claro que para entendermos acerca de tais definições, temos de estar cientes de um fato: existem aqueles textos em que prevalece o sentido denotativo da linguagem e aqueles em que o olhar subjetivo emerge por parte do emissor e do receptor, sobretudo. Nesse sentido, equivale afirmar que poesia se refere àquela circunstância de comunicação em que prevalecem algumas intenções voltadas para a subjetividade, para as múltiplas interpretações. Nesse ínterim, os recursos advindos do próprio emissor se tornam plenamente válidos, haja vista que o objetivo não é o de informar, instruir, mas sim o de entreter, provocar emoções, despertar sentimentos. É o que chamamos de função poética da linguagem, pois nela prevalecem a sonoridade, a combinação das rimas, o jogo de palavras, o uso de figuras de linguagem, o uso de imagens, enfim. Partindo desse princípio, hemos de convir que a poesia se define como estado de alma, fruição, sentimentalismo.

De tal estado, ou seja, de tal intenção demarcada por parte de quem escreve, provém o que chamamos de poema, considerado, portanto, uma unidade da poesia. Trata-se de uma construção que se difere daquela que convencionalmente costumamos encontrar em um texto em prosa, ou seja, caracterizada por um início, meio e fim através de parágrafos. Ao constrário de tal construção, o poema se efetiva por meio de versos, os quais, uma vez reunidos, compõem o que chamamos de estrofe. Lembrando que esses versos podem ser constatados como sendo cada linha do poema.

Cremos, portanto, que tais elucidações tendem a se tornar ainda mais efetivas quando partimos para exemplos concretos, os quais nos possibilitam demarcar a presença dos elementos já citados. Por isso, vejamos:

Soneto de separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo, distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente

Vinicius de Moraes

Deparamo-nos com uma construção poética demarcada por dois quartetos e dois tercetos, o que nos faz dar conta de se tratar de um soneto. Nele verificamos a presença de outros elementos, tais como a sonoridade, a materialização das rimas, entre outros.

Agora, ao nos atermos a alguns textos, tais como o artigo de opinião, o editorial, os textos científicos de uma forma geral, entre outros exemplos, estamos, sem nenhuma dúvida, constatando que são textos escritos em forma de prosa, ou seja, são estruturados em parágrafos e possuem início, desenvolvimento e fim. Dados tais atributos, partimos então para um exemplo de artigo de opinião, sob a autoria de Lya Luft, colunista da revista Veja:

A BOA ESCOLA

Meu brilhante colega Gustavo Ioschpe, uma das mais lúcidas vozes no que diz respeito à educação, escreveu sobre o que é um bom professor. Eu já começava este artigo sobre o que acho que deva ser uma boa escola, então aqui vai.

Primeiro, a escola tem de existir. No Brasil há incrivelmente poucas escolas em relação à necessidade real.

Tem de existir escolas para todas as crianças, em todas as comunidades, as mais remotas, com qualidades básicas: não ultrapassar o número de alunos bem acomodados, e que eles não tenham de se locomover para muito longe; instalações dignas, que vão das mesas às paredes, telhado, pátio para diversão e recreio, lugar para exercício físico e esportes; instalações sanitárias decentes, cozinha para alimentar os que não comem suficientemente em casa; alguém com experiência médica ou de enfermagem para atender os que precisarem.

Em cada sala de aula, naturalmente, uma boa prateleira com livros sem dúvida doados pelos governos federal, estadual, municipal. E que ali se ensine bem o essencial: aritmética, bom uso da linguagem, noções de história e geografia para que saibam quem são e onde no mundo se situam.

Falei até aqui apenas de ensino elementar em escolas menos privilegiadas economicamente. Em comunidades mais resolvidas nesse sentido, tudo isso não será apenas bom, mas excelente, desde a parte material até professores muito bem preparados que sejam bem exigidos e bem pagos.

No chamado segundo grau, além de livros, quem sabe computadores, mas – ainda que escandalizando alguns – creio que esses objetos maravilhosos, que eu mesma uso constantemente, não substituem um bom professor. E que, nesse degrau da vida, todos sejam preparados para a universidade, desde que queiram e possam.

Pois nem todos querem uma carreira universitária, nem todos têm capacidade para isso: para eles, excelentes Escolas Técnicas, depois das quais podem ter mais ganho financeiro do que a maioria dos profissionais liberais.

Professores com mestrado e se possível doutorado, diretores que conheçam administração, psicólogos que conheçam psicologia, todos com saber e postura que os alunos respeitem a fim de que possam aprender.

Finalmente a universidade, que enganosamente se julga ser o único destino digno de todo mundo (já mencionei acima os cursos técnicos cada dia melhores e mais especializados). Universidade precisa existir, mas não na abundância das escolas elementares.

É incompreensível e desastrosa a multiplicação de faculdades de medicina, por exemplo, cujas falhas terão efeitos dramáticos sobre vidas humanas. Temos pelo país muitas onde alunos não estudam anatomia, pois não há biotério, não têm aulas práticas, pois não há hospital-escola. Essa é uma realidade assustadora, mas bastante comum, que, parece, se tenta corrigir.

Dessas pseudofaculdades sairão alunos reprovados nas essenciais provas do CRM, mas que eventualmente vão trabalhar sem condição de atender pacientes. Faculdades de direito pululam pelo país, sem professores habilitados, sem boas bibliotecas, formando advogados que nem escrever razoavelmente conseguem, além de desconhecer as leis
e reprovados aos magotes nas importantíssimas provas da OAB.

Coisa semelhante aconteceria com faculdades de engenharia mal preparadas, se existirem, de onde precisam sair profissionais que garantam segurança em obras diversas, de edifícios, casas, estradas, pontes.

Vejam que aqui comentei apenas alguns dos inúmeros cursos existentes, muitos com excelente nível, mas não se ignorem os que não têm condições de funcionar, e mesmo assim… existem. Em todas essas fases, segundo cada nível, incluam-se professores bem preparados, muito dedicados, e decentemente pagos – professor não é sacerdote nem faquir.

O que aqui escrevo é mero, simples, bom-senso. Todos têm direito de receber a educação que os coloque no mundo sabendo ler, escrever, pensar, calcular, tendo ideia do que são e onde se encontram, e podendo aspirar a crescer mais.

Isso é dever de todos os governos. E é nosso dever esperar isso deles.*

A noção que pode ser extraída do exemplo dado é que a forma como se estrutura o discurso resulta em um início, depois parte para um desenvolvimento das ideias, chegando, enfim, a uma conclusão. Constatamos, dessa forma, um dos inúmeros exemplos de texto em prosa, ou seja, um texto que se estrutura em parágrafos.

Lembrando, contudo, que na linguagem literária, ou seja, aquela em que prevalece o sentido conotativo, podemos encontrar a forma prosaica, mas nem por isso ela deixa de assumir o caráter poético, como é o que ocorre num conto, num romance, numa novela literária, enfim.



Por Vânia Duarte
Graduada em Letras

Passarim...












Não me deixe
 tão
 s ol t a
 tenho asas
 e sei
 v oa r
 .
 Não me prenda
 numa 
gaiola 
lá meu canto
 há de
 silenciar
 .
 - Perguntas o que fazer?
 .
 Mantenha teu
 gosto
 essa tua doce
 e renovada
 água
 que 
s. E. M. P. R. E. 
virei te
 bicar
 beber
 beijar
 .
 
Bia Cunha
Foto: Marselha Zakhia
Perdi meu lápis cor-de-rosa, as letras passaram de azuis para amarronzadas, respingou gotas do preto dos teus olhos, escorreram num craque lê esverdeado e do deserto estampado na folha rabiscou-se uma paisagem fraterna, perto do nascer do Sol... Um crepúsculo da alma minha!

Bia Cunha

..Quando

Amo quando 
a história aproxima os ossos de almas que não se separam, 
jamais. 
Amo quando 
a poesia converte solidão em risos e literatura,
sempre...


Bia Cunha 

17 de ago de 2013

HUMANOS DESATINOS



 A esperança sobe vagarosa
A ladeira íngreme do dia
E embora já não seja tão esperançosa
Murmura com lábios de cinzas
Por melhores dias

Contempla pálida
A mansidão de nossas ruinas
Nossas vozes atadas no sonido aparente das paredes

Paira sobre a agonia dessas ilusões inquietas
Nosso coração é terra de exílios
Naus que navegam águas densas
Em solidões oceânicas

A fortaleza desgastada do tempo
Triste réu do crime de amar
Minha ferrugem de insônias e pecados fúteis

A eterna ausência de nós mesmos
Séquito e carrasco
No mistério dos humanos desatinos
Encarcerado.

                                                   Gilberto Felinto.

30 de jul de 2013

Sensações passageiras



Sensações passageiras

Os olhos são amarelos
da cor do cabelo
mudando em mechas e sentimentos

Chuva chega sorrateira
molha cola o colo
percorre além dos seios

Já os olhos
deságuam memórias
de nuas mãos entrelaçadas

cúmplices no caos e na glória.

Salpicam bolhas nas janelas
que recobram histórias
habitantes do espelho

Aquelas sensações passageiras
retrados partidos ao meio
pela sina e suas tramoias
e a canção desafinada

que diz dos que foram embora.

Bia Cunha e Wasil Sacharuk

Sensações passageiras



Sensações passageiras

Os olhos são amarelos
da cor do cabelo
mudando em mechas e sentimentos

Chuva chega sorrateira
molha cola o colo
percorre além dos seios

Já os olhos
deságuam memórias
de nuas mãos entrelaçadas

cúmplices no caos e na glória.

Salpicam bolhas nas janelas
que recobram histórias
habitantes do espelho

Aquelas sensações passageiras
retrados partidos ao meio
pela sina e suas tramoias
e a canção desafinada

que diz dos que foram embora.

Bia Cunha e Wasil Sacharuk

26 de jun de 2013

Caminho na sombra deste dia,
meus pensamentos são verdes ramos
a soar nas asas do vento que vaga.

Aqui onde as quimeras beijam a noite,
acorda a morna manhã com um canto
trépido que se estira em sutil desejo.

Nas colinas do acaso fiz minha morada
e do seu doce eflúvio, o fluxo supremo
das alíneas vibrantes do esmo sonho tido.

Aqui onde os cantos são de promessas,
às avessas, reversas, quem sabe travessas,
nuances do dia que passa por passar apenas.

Sinto passar o dia como uma folha ao vento,
e tal qual a esmo sigo nas alíneas do destino,
a vida que passa, não passa mais que em vão.

21 de jun de 2013

Quisera eu nas andanças

Quisera eu nas andanças de meus dias
encontrar resquícios de um deus em cada ato,
ou ter a sombra de qualquer outro sinal divino.

Desde os mais antigos deuses enterrados
ao  tal deus único e do tal filho deus sofrido,
desde as religiões cultas ou ocultas, resolutas,
não há sequer sombra de alguma divindade.

Quisera eu ver no vento mais que o vento,
ou na chuva qualquer coisa além da chuva,
das manhãs de sol além de sua esma luz,
e de que o viver seja além de viver somente.

Quisera eu ver a sombra do(s) deus(es) no mundo,
ou encontrar um resquício sequer deles em mim.

25 de mai de 2013

Aqui onde os ventos


Aqui onde os ventos são anseios,

anseios que escapam em gestos,

e os olhos denunciam sentimentos.

 

Quanto mais quero manter segredo,

mais escapam meus pensamentos

em cada movimento de meus lábios.

 

Se ao teu lado sou puro arrepio,

denuncia a pele minhas vontades 

e meu sorriso os meus desejos.

 

Na tua voz soa a lira que inflama

e da mais sabor a tuas palavras

fazendo borbulhar dentro de mim

os mais ardilosos devaneios.

 

O desejo por seus ledos beijos

são nuances da vontade que chama

um apelo, um convite irresistível

o tocar dos lábios, nossa fortaleza.

Oficina de Escrita Literária Online – Poesia

Oficina de Escrita Literária Online – Poesia INSPIRATURAS - Escrita Criativa - oferece aos interessados na produção de poemas uma oficina q...

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...