Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

Oficina de escrita literária Inspiraturas, em Pelotas

Oficina de escrita literária Inspiraturas - o fim da página em branco - A ti, que ainda acreditas na escrita, em especial a Poesia, como ...

31 de out de 2013


É cedo da tarde, tardiamente calço-me de andarilha. Encantadas são pedras que calçam as ruas, vejo percorrer entre os paralelepípedos linhas que formam sorrisos e por entre os risos caminho e me entrelaço, cantarolo uma bossa do Tom, para cada novo passo acalmo toda a pressa. Deio-me seduzir pela flor laranja crescida no pé da calçada de uma casa feia, aproximo-me dela e a faço companhia, teço uma reza de bruxa para abençoar os poetas que circulam e que impregnam as ruas com gargalhadas e poesia. Em nós o Sol não queima, ilumina a face como diamante no dedo...

 

É cedo da tarde e muito que sorrir, mas quando for tarde da tarde poderei pintar estrelas.


29 de out de 2013

Eu olho além da grade que aprisiona, não o pensamento, apenas a dor - física - limitando os espaços passos a frente.
Mas eu vejo além dos passos.
Vejo um azul céu que se ascende; que abranda o amarelo em faíscas estrelares, amarelo já não é amarelado
, é uma cor azulada de sol para um azul de luz brilhante.
Eu olho além disso tudo aqui e vejo que tudo se acende. Há luzes nas casas e nas casas além dos altos velhos e distantes. Há luz aqui dentro de mim que de estrela em estrela vai cadenciando uma poesia que entra na veia e dilata e anestesia...

23 de out de 2013

NUMA MANHÃ DE SOL...

O sol acordou mais cedo 
um rio de ouro suspenso
despertando no arvoredo
cantares no ninho tenso

Os filhotes nada sabem
da dura labuta dos pais
apenas os bicos abrem
esperando sempre mais

E a sabiá em alvoroço
busca o inseto distraído
que garanta o almoço
de cada filhote atrevido

A manhã passa ligeira
e eu ainda na varanda
só vendo a trabalheira
dessa ave em sarabanda

Na verdade, senti saudade
dos meus filhotes no ninho
pois é tão igual a atividade
da mãe gente ou passarinho...

Marisa Schmidt


Além...


Desfez-se o substantivo. Coisa. Tipo corpo, tronco. Esqueleto não. A Coisa cabeça, a parte superior, o prazer. As ideias. Imaginação? Pode ser. Desfez-se. Esfarelou-se. Grãos, fios, pétalas, penas. Qualquer coisa dessas. Coisa que enche a matéria vida em metafísica, alma. Sim, espírito. Chame como quiser como bem entender. Desfez-se e não ficou estranho, feio. Muito belo de ver. E de voar junto. Diluir-se na metamorfose da Coisa. Abstrair-se de si e por ti se ser, por aquele ser e revoar, ser um pedaço ao vento, descontrole total da rota, ser carregado em leveza, ser peso atrelado ao poema. Poema de nada. Poema de se ver coisa da Coisa de alguém. Ser a palavra sentida, a excitação da poesia, da composição de outro, da loucura visual de alguém qualquer. Apenas ser rima para um verso, de certo não ser ritmada, mas ser o desfoque ou o embaçado; ser. Ser. E fazer-se noutra realidade, noutro substantivo, noutro abstrato de corrosão astronômica-extrafísica. Fazer-se invencionice do que quer que voe que alce os pés para o além...

 

Bia Cunha

 

16 de out de 2013


Embaixo do sofá não está, olhei três vezes, depois me arrastei até o quarto, procurei entre as frestas da janela. Nenhum lugar. Os livros já estão espalhados, todos. Folha por folha sondada. As roupas estão do avesso, os bolsos para fora. Vasculhou-se acima do teto, a aranha balançou a cabeça e desfez sua teia para provar que por ali não passou. Os gatos desistiram da busca, um a um aninhou-se por entre as almofadas. O dicionário, por incrível que pareça, estava caladinho. Céus! - “Onde estão as palavras?”. Na horta dos Poetas elas estão a produzir infinitamente. Cá em mim não há sentido algum. O dia com Sol sem pássaros a cantar; a relva não se mexe e os equinos não saem do barro; tem ração nos pratos e os gatos não comem; a mesa está posta, só que a fome se perdeu; a tv não acende; o rádio chia; o ônibus está com o letreiro apagado; os outdoors em branco; as placas não indicam; as vozes não dizem nada, os passos estão sem onomatopeia e eu não consigo saber onde pus as palavras.

 

Bia Cunha

11 de out de 2013

Tenho pensando muito em borboletas azuis do mar das oitos horas do dia e em gatos dos pelos de tigre e das patas marrons de areia da esquina, pronde meus olhos em sonhos desviam...
Tenho pensado muito em ilusões duradouras e realidades passageiras.
Novos tempos.


Bia Cunha

quero o coração de um poeta para costurar palavras poéticas, ousar sensibilidades sem métricas e vasculhar os vãos sem setas
 tato, audição, olhares
 pelas linhas escorrer tintas de sangue aos altares particulares, abraçar a religião sacrossanta dos beija-flores, embebedar-se de gozos
 néctar, ópio, raízes
 morrer de overdose de amor, afugentar da alma o torpor
 ...
 quero o coração de um poeta para costurar a dor.
 


Bia Cunha
 
Os versos foram escritos desalinhados ,  as rimas
caíram
caíram
saíram
das margens
das páginas brancas
não se definiu
rabisco
letra
trisco
No final virou prosa
assindética
sindética
poética
da obra incompleta
de mim
de nós
amores
amantes
amigos



Bia Cunha

8 de out de 2013

DESPERTAR A PRIMAVERA

A primavera entrou
logo cedo pela porta
plena de flores e insetos
que em seus voos diretos
cruzaram as linhas tortas
bocejadas por quem acordou

Na alma que sonhava lendas
esse sopro primaveril
trouxe alvoroços existenciais
tentando entender os sinais
do inefável infinito anil
entre as cortinas de rendas

Alma, esquece  a razão...
Vibra alegre com a novidade
dos aromas, cores e ruídos
e deixa que seus sentidos
despertem com voracidade
para as dádivas da estação...

Marisa Schmidt

6 de out de 2013

Infame existência

Infame existência

Altivo, ando pelas valas de meus inimigos
recolhendo escalpos
e, com chispas nos olhos, ateio fogo em seus pútridos
[corpos

é de minha natureza murchar flores
e sonhos alheios;

sou feito de enxofre
belas palavras
inúmeras faces amorfas: pelo poder
barganho almas com anjos & demônios

tampouco me importo se morro sozinho
todos os dias
pois minhas cinzas moldam destinos
no mausoléu secreto das urnas

em cada voto sem propósito que rege o mundo.

Rogério Germani

5 de out de 2013

SEM DILEMAS

SEM DILEMAS

No espelho o que se mostra
é a face que me expõe
aos olhares distraídos
e que às vezes, comovidos,
remetem um pensamento
que me falta pouco tempo
para completar a história
(já fugidia na memória)
e isso até serve de alento
para quem pensa no futuro
temendo esse tempo obscuro
pois não espelho tristeza...

Nunca foi da minha natureza
temer os fatos da vida
e medo não faz o meu tipo
porque afirmo e repito
que apenas o hoje importa.
Se a morte bater à porta,
será recebida como sempre
com a alma sorridente
por ter ganho tanto tempo
para amar e ser amada
ser mãe, avó e amiga
por ter topado toda a briga
que pra mim valia a pena

Envelhecer rende este poema
sem a falsa alegoria
de ser a melhor idade
pois a velhice, na verdade
é o que a vida propõe
a quem se cuidou um pouco
e escapou do trânsito louco,
das farras acima do recomendável
e teve o senso louvável
de usar o filtro solar

O resto é só aceitar
com a possível tranquilidade
as alegrias e tristezas
que nos brinda a natureza
na condição de humanos
valorizando os prazeres,
minimizando os desenganos
a velhice passará em harmonia
como o passar de cada dia
até o cair da cortina
onde o espetáculo termina
e onde ecoam os aplausos...

Marisa Schmidt

Tribalistas

Tribalistas

De onde venho
ninguém possui espelhos
receios
segredos

somos brancos, negros, amarelos
múltiplos
únicos

dividimos tristezas
empecilhos
compartilhamos sorrisos
abraços
música & poemas

e quando o cansaço nos ronda
deixamos soltos os sonhos

dançamos com a alma nua na chuva que consagra
[os corpos.

Rogério Germani

4 de out de 2013

NADA A LAMENTAR

NADA A LAMENTAR



É certo que naufragarão todos barcos de papel...
Seus inúteis pedaços estarão ainda algum tempo
marcando presença no vento que corre ao leu
sendo  próprio do brinquedo ruir-se em fragmento 
e nada há a lamentar nessa ilusão de papel

Também pouco viverão os sonhos da juventude
loucos voos de quimeras fadados ao desengano
pois castelos presos em teias tecidas na quietude
são apenas a desculpa para adiar outro plano
e nada há a lamentar dos arroubos da juventude

O que fica para sempre é só a doce lembrança
das pequenas alegrias que custam quase nada
mas que despertam sorrisos e uma leve esperança
que ainda há a criança dentro da gente guardada
e nada há que apague o calor de cada lembrança...

Marisa Schmidt

3 de out de 2013

Poesia, Poema e Prosa

Poesia, Poema e Prosa
Entre a poesia, o poema e a prosa há diferenças que os caracterizam como tais.

Diferenças demarcam a poesia, o poema e a prosa

Um simples questionamento emerge como sendo a mola propulsora dessa discussão que por ora travamos:poema ou poesia? Pode-se dizer que por mais que estes termos sejam utilizados de forma recorrente, muitos ainda acabam confundindo e achando que se trata de dois elementos sinônimos – concepção essa materializada de forma errônea, equivocada.

Pois bem, caro(a) usuário(a), gostaríamos de deixar bem claro que para entendermos acerca de tais definições, temos de estar cientes de um fato: existem aqueles textos em que prevalece o sentido denotativo da linguagem e aqueles em que o olhar subjetivo emerge por parte do emissor e do receptor, sobretudo. Nesse sentido, equivale afirmar que poesia se refere àquela circunstância de comunicação em que prevalecem algumas intenções voltadas para a subjetividade, para as múltiplas interpretações. Nesse ínterim, os recursos advindos do próprio emissor se tornam plenamente válidos, haja vista que o objetivo não é o de informar, instruir, mas sim o de entreter, provocar emoções, despertar sentimentos. É o que chamamos de função poética da linguagem, pois nela prevalecem a sonoridade, a combinação das rimas, o jogo de palavras, o uso de figuras de linguagem, o uso de imagens, enfim. Partindo desse princípio, hemos de convir que a poesia se define como estado de alma, fruição, sentimentalismo.

De tal estado, ou seja, de tal intenção demarcada por parte de quem escreve, provém o que chamamos de poema, considerado, portanto, uma unidade da poesia. Trata-se de uma construção que se difere daquela que convencionalmente costumamos encontrar em um texto em prosa, ou seja, caracterizada por um início, meio e fim através de parágrafos. Ao constrário de tal construção, o poema se efetiva por meio de versos, os quais, uma vez reunidos, compõem o que chamamos de estrofe. Lembrando que esses versos podem ser constatados como sendo cada linha do poema.

Cremos, portanto, que tais elucidações tendem a se tornar ainda mais efetivas quando partimos para exemplos concretos, os quais nos possibilitam demarcar a presença dos elementos já citados. Por isso, vejamos:

Soneto de separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo, distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente

Vinicius de Moraes

Deparamo-nos com uma construção poética demarcada por dois quartetos e dois tercetos, o que nos faz dar conta de se tratar de um soneto. Nele verificamos a presença de outros elementos, tais como a sonoridade, a materialização das rimas, entre outros.

Agora, ao nos atermos a alguns textos, tais como o artigo de opinião, o editorial, os textos científicos de uma forma geral, entre outros exemplos, estamos, sem nenhuma dúvida, constatando que são textos escritos em forma de prosa, ou seja, são estruturados em parágrafos e possuem início, desenvolvimento e fim. Dados tais atributos, partimos então para um exemplo de artigo de opinião, sob a autoria de Lya Luft, colunista da revista Veja:

A BOA ESCOLA

Meu brilhante colega Gustavo Ioschpe, uma das mais lúcidas vozes no que diz respeito à educação, escreveu sobre o que é um bom professor. Eu já começava este artigo sobre o que acho que deva ser uma boa escola, então aqui vai.

Primeiro, a escola tem de existir. No Brasil há incrivelmente poucas escolas em relação à necessidade real.

Tem de existir escolas para todas as crianças, em todas as comunidades, as mais remotas, com qualidades básicas: não ultrapassar o número de alunos bem acomodados, e que eles não tenham de se locomover para muito longe; instalações dignas, que vão das mesas às paredes, telhado, pátio para diversão e recreio, lugar para exercício físico e esportes; instalações sanitárias decentes, cozinha para alimentar os que não comem suficientemente em casa; alguém com experiência médica ou de enfermagem para atender os que precisarem.

Em cada sala de aula, naturalmente, uma boa prateleira com livros sem dúvida doados pelos governos federal, estadual, municipal. E que ali se ensine bem o essencial: aritmética, bom uso da linguagem, noções de história e geografia para que saibam quem são e onde no mundo se situam.

Falei até aqui apenas de ensino elementar em escolas menos privilegiadas economicamente. Em comunidades mais resolvidas nesse sentido, tudo isso não será apenas bom, mas excelente, desde a parte material até professores muito bem preparados que sejam bem exigidos e bem pagos.

No chamado segundo grau, além de livros, quem sabe computadores, mas – ainda que escandalizando alguns – creio que esses objetos maravilhosos, que eu mesma uso constantemente, não substituem um bom professor. E que, nesse degrau da vida, todos sejam preparados para a universidade, desde que queiram e possam.

Pois nem todos querem uma carreira universitária, nem todos têm capacidade para isso: para eles, excelentes Escolas Técnicas, depois das quais podem ter mais ganho financeiro do que a maioria dos profissionais liberais.

Professores com mestrado e se possível doutorado, diretores que conheçam administração, psicólogos que conheçam psicologia, todos com saber e postura que os alunos respeitem a fim de que possam aprender.

Finalmente a universidade, que enganosamente se julga ser o único destino digno de todo mundo (já mencionei acima os cursos técnicos cada dia melhores e mais especializados). Universidade precisa existir, mas não na abundância das escolas elementares.

É incompreensível e desastrosa a multiplicação de faculdades de medicina, por exemplo, cujas falhas terão efeitos dramáticos sobre vidas humanas. Temos pelo país muitas onde alunos não estudam anatomia, pois não há biotério, não têm aulas práticas, pois não há hospital-escola. Essa é uma realidade assustadora, mas bastante comum, que, parece, se tenta corrigir.

Dessas pseudofaculdades sairão alunos reprovados nas essenciais provas do CRM, mas que eventualmente vão trabalhar sem condição de atender pacientes. Faculdades de direito pululam pelo país, sem professores habilitados, sem boas bibliotecas, formando advogados que nem escrever razoavelmente conseguem, além de desconhecer as leis
e reprovados aos magotes nas importantíssimas provas da OAB.

Coisa semelhante aconteceria com faculdades de engenharia mal preparadas, se existirem, de onde precisam sair profissionais que garantam segurança em obras diversas, de edifícios, casas, estradas, pontes.

Vejam que aqui comentei apenas alguns dos inúmeros cursos existentes, muitos com excelente nível, mas não se ignorem os que não têm condições de funcionar, e mesmo assim… existem. Em todas essas fases, segundo cada nível, incluam-se professores bem preparados, muito dedicados, e decentemente pagos – professor não é sacerdote nem faquir.

O que aqui escrevo é mero, simples, bom-senso. Todos têm direito de receber a educação que os coloque no mundo sabendo ler, escrever, pensar, calcular, tendo ideia do que são e onde se encontram, e podendo aspirar a crescer mais.

Isso é dever de todos os governos. E é nosso dever esperar isso deles.*

A noção que pode ser extraída do exemplo dado é que a forma como se estrutura o discurso resulta em um início, depois parte para um desenvolvimento das ideias, chegando, enfim, a uma conclusão. Constatamos, dessa forma, um dos inúmeros exemplos de texto em prosa, ou seja, um texto que se estrutura em parágrafos.

Lembrando, contudo, que na linguagem literária, ou seja, aquela em que prevalece o sentido conotativo, podemos encontrar a forma prosaica, mas nem por isso ela deixa de assumir o caráter poético, como é o que ocorre num conto, num romance, numa novela literária, enfim.



Por Vânia Duarte
Graduada em Letras

Passarim...












Não me deixe
 tão
 s ol t a
 tenho asas
 e sei
 v oa r
 .
 Não me prenda
 numa 
gaiola 
lá meu canto
 há de
 silenciar
 .
 - Perguntas o que fazer?
 .
 Mantenha teu
 gosto
 essa tua doce
 e renovada
 água
 que 
s. E. M. P. R. E. 
virei te
 bicar
 beber
 beijar
 .
 
Bia Cunha
Foto: Marselha Zakhia
Perdi meu lápis cor-de-rosa, as letras passaram de azuis para amarronzadas, respingou gotas do preto dos teus olhos, escorreram num craque lê esverdeado e do deserto estampado na folha rabiscou-se uma paisagem fraterna, perto do nascer do Sol... Um crepúsculo da alma minha!

Bia Cunha

..Quando

Amo quando 
a história aproxima os ossos de almas que não se separam, 
jamais. 
Amo quando 
a poesia converte solidão em risos e literatura,
sempre...


Bia Cunha 
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...