Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

28 de dez de 2014

Caros amigos oficineiros INSPIRATURAS, Balcão de Poemas e Nova Ordem da Poesia

Caros amigos oficineiros INSPIRATURAS, Balcão de Poemas e Nova Ordem da Poesia

Iniciaremos o ano de 2015 com todas as indagações e questionamentos que um ritual de passagem dessa natureza é capaz de nos conduzir. Para nós, que buscamos interagir com o todo, fazer um balanço consiste em olhar para todas as direções, sabendo transitar entre a luz e as sombras, sentindo, ao mesmo tempo, o temor e a confiança, ao passo em que procuramos, a cada dia, retomar cuidadosamente o que é essencial à vida, à solidariedade e à paz frente a novos momentos que virão. Queremos ajudar a educar para a inteireza do ser e para a paz, e, para tal, nos articulamos em novos vôos, abrindo novos caminhos e frentes de ação.

É tempo de preparar um convívio social mais harmonioso e verdadeiro, com cada um reconhecendo e assumindo sua cota de responsabilidade com o futuro da comunidade, respeitando a vida e a dignidade de cada um, sem discriminação ou preconceito.

O ser humano ainda é a maior descoberta desse século!

Poderemos integrar nossos pensamentos, a emoções e corpos em uma só unidade, constituindo um alinhamento que promove a evolução na direção do aperfeiçoamento humano e oportunizando um salto significativo no crescimento pessoal em todos os âmbitos da existência. Poderemos, ainda, despertar nossa vitalidade e resgatar a espontaneidade e a alegria de viver numa comunidade plena de paz.

“Nunca duvide da capacidade de transformação que duas ou mais pessoas juntas possam fazer no mundo. Talvez esteja aí a grande chance de realmente mudá-lo”. (Provérbio árabe)

Nós, do Projeto INSPIRATURAS, desejamos um NATAL MARAVILHOSO E INESQUECÍVEL e um 2015 PERFEITO.

Queremos te agradecer por ter estado perto de nós neste ano que se vai, cultivando a semente do desenvolvimento humano. Queremos, também, lhes relatar o quanto foi bom ter estado junto de ti.

5 de dez de 2014

Leandra Lopes entrevista Dhenova


Entrevista com Andréa Iunes (Dhenova) concedida à Leandra Lopes[1], em 26 de novembro de 2014.
 
Caros leitores de Inspiraturasbooks

Em 2007, tive a oportunidade inesquecível de conhecer a artista Dhenova e, observando-a mais de perto, fiquei encantada com sua parafernália de expressões artísticas, de variadas vertentes e gêneros, com uma assinatura inconfundível. Meu primeiro contato com sua arte foi com a fotografia e, logo após, descobri que a diva enveredava, também, pelos caminhos da escrita.  “A Viúva e o Escorpião”, numa execução do Audiverimus (projeto artístico que “coloria poesia com música e narração”), foi a primeira peça escrita de Dhenova que li:

A Viúva e o Escorpião

A viúva negra não mata o companheiro por maldade -- apenas por descuido...
Uma gaiola pode ser a única salvação para um pássaro quase extinto...
Uma pequena distração acaba com a hegemonia do lobo em relação ao cordeiro...
Para alguns, a noite é uma velha dama ou... uma dama velha...

Nem sempre a coruja é sábia... apenas cega
a coruja e a aranha
Nem sempre o cão morde calado... ouviu o latido?
o cão e o pássaro
Nem sempre a picada do escorpião é fatal... apenas o veneno é necessário
o escorpião e o lobo (e o cordeiro?)
Nem sempre quem com ferro fere, com ferro será ferido... o ferro existe e está aí...
a noite e o ferro (e a dama?)

A viúva negra não mata por maldade
e o cão não morde calado
A aranha e o cão
A gaiola é a salvação do pássaro
e o veneno necessário do escorpião
O pássaro e o escorpião
O fim da hegemonia do lobo
e o ferro que existe
O cordeiro e o ferro (e o lobo?)
A noite é uma dama velha
e a coruja não é sábia
A noite e a coruja (e a dama cega?)

A viúva não mata
A necessidade do escorpião -- a viúva e o veneno
O fim do lobo
O cão não morde -- distração e latido
A salvação do pássaro
A coruja cega -- a gaiola e a coruja
-- o pássaro cego
A noite é uma velha (dama)
A coruja é cega - a noite e a velha - a coruja e a noite - a dama da noite - a dama cega
A dama da noite (e a velha?)
O ferro que fere - a noite e o ferro - a velha e a noite - o ferro e a viúva - a dama ferida

(Dhenova)


A boa poesia, dita nesse timbre, foi bastante para motivar meu desejo de conhecer ainda mais e mais a obra da escritora; e um tantinho da Andréa Iunes, mãe, professora e coordenadora do projeto Inspiraturas; a qual assina Dhenova, uma charmosa e singular escritora da qual me tornei irremediavelmente fã.

P – Sei que, desde criança, és uma leitora ávida. Mas, e a criação literária? Como tudo começou?

R – Bom, Lêh, em primeiro lugar eu quero agradecer por este teu carinho com as minhas letras e pelo incentivo que sempre estás disposta a dar, não só para Dhenova, para o Sacharuk, Audiverimus e Inspiraturas, mas para a Literatura de forma geral. É bom demais encontrar ‘companheiros de letras’ pela nossa jornada, principalmente assim tão especiais.
Quanto a pergunta, sim, quando entrei pra escola me perguntaram o que eu esperava, lembro que respondi na hora: queria ler. Eu precisava, sentia necessidade de desvendar aqueles símbolos, eu me sentia fora do mundo, à parte. E quando comecei a ler, não parei mais. Li muita porcaria, li porcarias médias, li coisas boas, li coisas muitos boas e assim foi. Hoje leio bem menos do que gostaria. Meu primeiro ‘conto’, uma narrativa imensa para meus dez anos (nove páginas), fiz numa atividade em sala de aula, com a professora Maria da Graça, como eu digo, quem despertou em minha a escrita. Foi quando ela me olhou e disse: ‘continua escrevendo assim’, foi ali, e não parei. Tive dificuldades com isso e ainda tenho, principalmente quando comecei a trabalhar, tinha responsabilidades, horários e vivia ‘fora do ar’, pensando em histórias, ouvindo aqui e ali pequenas conversas, colhia material o tempo inteiro (risos), andava sempre com um caderninho, uma caneta. Era engraçado. O mais engraçado: ainda ando (mais risos).

P – Tu consideras que a criação literária de um mesmo autor tem idade?

Com certeza tem sim. A escrita vai mudar conforme o autor vai mudando, o que ele pensa, o que já viveu, vai mudar conforme o ambiente em que ele está inserido, vai mudar a partir do acúmulo de experiências que ele vai tendo. Esse autor vai buscar inspiração em lugares diferentes conforme o tempo vai passando, isso é certo. Quanto ao estilo, não, acredito que estilo é um só, o que pode haver é uma melhora na parte estética, na forma, mas o estilo é único, vem assim com a identidade. Os bons heterônimos provam isso, apesar de parecer incongruente o que afirmo. É só quando se cria a identidade do heterônimo é que ele vai estar pronto para produzir. Bem simples.
A primeira prova que um autor está ficando maduro é quando ele apaga o que escreveu, corrige e coloca fora o original. E olha que colocar fora o original não é fácil (risos). Acredito que a maturidade da escrita seja diretamente proporcional à maturidade do autor. Encontro jovens que escrevem muito (é, eu ainda encontro) mostram beleza na forma, mas o conteúdo, muitas vezes, não condiz com todo aquele esplendor, falta experiência, assim como já li autores mais maduros, que têm muito conteúdo, mas não têm forma, comentando aqui de forma genérica, é claro. Há exceções! A maturidade na escrita precisa ser o conjunto perfeito de conteúdo e forma, é assim que vejo. O escritor que leva à sério a profissão vai buscar a perfeição deste conjunto, independente da idade.

P – Qual tua visão sobre o cenário literário em Pelotas? A cidade ainda é referência cultural no Estado?

Pelotas deixou de ser referência cultural faz muito, Lêh, infelizmente. Não há incentivo das autoridades, não há interesse da população. Há tanta riqueza na Princesa do Sul e tanto descaso que deprime. Amo minha cidade, sei que neste momento, em especial, está mais suja de que o normal, que está mais pobre do que estava, que está mais esburacada, assim como está também mais ignorante a cada ano que passa, isso incomoda, irrita, mas acredito num movimento inverso, onde resgataremos, indo contra a maré, um pouco daquele brilho antigo, material e inspiração temos, e muito, pra isso.

P – Sei que deténs o talento da escrita, tanto em prosa quanto em verso. Todavia, percebo que produzes uma quantidade maior de poemas do que de textos em prosa. Como se dá a gênese de um poema assinado por Dhenova?

Amiga, a prosa é meu objeto de estudo. Uso técnicas, corrijo, releio, releio outra vez, monto estruturas, leio e leio, pesquiso, tudo isso para um texto de duas, três páginas. É demorado considerar ‘pronta’ uma narrativa. Bem ao contrário da criação de um poema. A poesia na minha vida vem ligada diretamente ao prazer, é o meu momento de desestressar, de sair da rotina, de brincar com as letras, a grande maioria das vezes não busco nenhuma estrutura, nenhuma forma específica, apenas deixo jorrarem as palavras, entrelaçarem-se os versos, completarem-se as estrofes e pronto. Claro que saem muitas porcarias disso aí (risos), mas há também aqueles que valem à pena mexer e publicar. Muitas foram as vezes em que comecei uma prosa e terminei escrevendo versos, é mais rápido, daí a ‘quantidade’ maior de poemas do que prosas. Em ambos os casos, minha inspiração se dá mais pelo visual do que qualquer outro modo, eu penso a cena (vejo em minha mente e reproduzo) ou então eu vejo literalmente e reproduzo. É a forma mais comum da minha criação.

P – Há alguns anos, li uma análise interpretativa, feita por ti, do conto “O Búfalo”, da Clarice Lispector. Confesso que foi uma das coisas mais impressionantes, arrepiantes e plausíveis que li sobre a obra, posto que modificou o entendimento truncado que eu tinha do conto. Há muita especulação na forma de interpretações rasas da simbologia presente da obra da Clarice. Andréa, diga-me como chegaste àquele incrível insight?

Vinho tinto e a visita da autora não tão valendo, né? (risos) Falando sério, este conto me arrepia até hoje. Tive muita dificuldade para fazer esta análise, foram muitas leituras e sempre a mesma sensação, eu deixava escapar algo. A simbologia na obra da Clarice é escrachada, por isso não conseguia acreditar naquela interpretação básica, a mulher que por amor parou em frente ao espaço do búfalo e se matou. Havia mais. E foi no início do conto que ‘percebi’ o mais. Quando Clarice escreve que o leão lambia a testa da leoa o pano caiu. Zoológico, lugar onde os pais levam os filhos, os leões não reproduzem com seus filhos, o velho macaco saltou do texto aos meus olhos, a girafa tão omissa, o vislumbre da gravidez surgiu nas ervas que saiam debaixo dos trilhos, nasciam, cresciam ainda que de forma adversa. E o estômago da personagem dando voltas na montanha russa. O incesto marcado no ódio dela pelo macaco, o velho pai. A girafa, a mãe, tão omissa, e assim foi-se montando em minha mente as cenas, até a última em que ela tira a vida e a do filho em nome da honra do pai, em frente a jaula do búfalo. É horrível. Lembro que acordei no outro dia em cima do caderno onde fiz a análise e custei a acreditar naquilo tudo. Então, eu li, li naquele momento com a interpretação que eu tinha feito, foi mais horrível ainda, Leandra. Só a intensidade de Clarice Lispector é capaz disso.

P - Como é a mãe poeta do Paulo Ricardo e da Ana Clara? Como teus filhos se relacionam com a escrita e a criação?

Ah, amiga, meus filhos são meu mundo, tudo gira em torno deles, não seria diferente com minha criação, eles fazem parte ativa deste universo. Tanto o Paulo quanto a Ana nasceram em meio à poesia. Entre uma mamadeira, uma fralda e um colo poesia e poesia, isso foi especial. Eles vão levar, com certeza, isso pra vida. A Ana escreve e pinta como adulta, posso te dizer que tenho uma artista plástica e uma escritora em casa ‘hoje’. O Paulo tem uma ginga e um ouvido que algo me diz que o mundo musical ainda vai ouvir falar dele (risos) sei que mães são naturalmente corujas e eu nem vou dizer que não sou, assumo, mas quem conhece o Paulo e a Ana sabe do que falo.

P – Dhenova, mencione quatro ou cinco poetas brasileiros que te inspiram:

Os poetas do Balcão de Poemas, um grupo de poesia do Facebook, hoje me inspiram. A maioria são poetas da NOP, e no tempo livre que tenho é lá que vou buscar minhas leituras, gosto demais do espaço, é muito rico. Mas há alguns poetas que me inspiram sempre, que fazem parte da minha história: Wasil Sacharuk, por sempre fomentar meu espírito em relação à poesia, por trazer a sua música e preencher as lacunas das minhas letras, por ser quem ‘faz as coisas acontecerem’ e, principalmente, pela poesia gigante que produz, que vai do incômodo ao prazer; Marcia Poesia de Sá, por ser a poeta que pinta as letras no papel, que traz cor, textura e sentimento à vida; Lena Ferreira, por trazer brisa, vento e ventania com suas palavras, com uma sonoridade ímpar; Marisa Schmidt, pelos retratos do cotidianos tão certeiros e descritos de forma tão poética; Rogério de Souza Germani, por este lirismo que encanta e que alimenta a alma; Rosemarie Schossig Torres, pela poesia única, que esbanja forma e conteúdo e um vocabulário que encanta; Helen Priedols, porque cada verso que ela escreve acerta em cheio o meu peito, sobra intensidade, beleza, é puro encantamento; Teka Rogel, pela emoção que é capaz de fazer sentir em cada poema; Val da Silva, por fazer da poesia a melhor amiga e por estar presente sempre; Ana Maria Marques, a poeta porreta de versos fortes e tantos outros. Família NOP, né? (risos) e têm mais. Também sou fã de Clarice Lispector, é claro, e de Bruna Lombardi, leituras obrigatórias.

P – Fale-me sobre a Nova Ordem da Poesia e Inspiraturas, teus projetos mais conhecidos na internet. No teu entendimento, a lendária NOP realmente revelou talentos e se constituiu num dos mais significativos laboratórios de criação on line nas redes sociais?

Tenho um carinho imenso pela NOP, Nova Ordem da Poesia, foi um lugar em que eu e tantos outros poetas tivemos o oportunidade de mostrar a nossa escrita, tiramos o caderninho da gaveta e jogamos ao mundo, tínhamos feedback uns dos outros, tudo o que sonha um escritor. Foi uma experiência rica e única. A NOP foi um movimento de poesia que agregou muitos talentos, sim. Tínhamos um espaço que era propício para as oficinas, o Orkut, e os poetas produziam muito ali, havia uma interação, uma sintonia indescritível. Convivemos também com a difícil tarefa de tolerar diferenças, nem sempre as pessoas reagem bem a isso, mas acredito que quem realmente tinha a essência da poesia se manteve firme e forte até a extinção do Orkut, não do movimento. Hoje, apesar de ter outra cara, outro nome, talvez, há ainda no facebook, com todas suas limitações para criação, uma grande interação entre os poetas da NOP. Então, acho que nada morre ou se extingue, apenas muda de cara ou de nome. Dentre as muitas das oficinas da NOP, a que tenho mais carinho até hoje, e que se hoje houvesse um lugar adequado eu a refaria era a oficina de imagem, deixava-se uma imagem como tema e o poeta que fizesse teria que deixar outra também, e assim por diante. Era inspirador demais.
Inspiraturas é a marca poética de Dhenova e Wasil Sacharuk na vida real, o nosso espaço para o estímulo de criação literária, seja pelas oficinas, seminários ou aulas. As oficinas reproduzem muito do que foi feito no mundo virtual, tratadas de forma lúdica e leve para quem teme a escrita, e de forma mais técnica para aqueles que já escrevem e querem aprimorar suas letras; trabalha-se o conteúdo e a estética de um texto, desde o título até a finalização. Também temos várias publicações de e-books. Quem quiser conhecer o site é www.inspiraturas.com Aguardamos a visita!

P – Como funciona ser Dhenova, escritora talentosa e, ao mesmo tempo, Andréa, uma bela mulher gaúcha presente nas redes sociais. Quem são os teus fãs?

Outro dia, Leandra, comentava a respeito disso. Como é gostoso ser fã de alguém que é teu fã. Como é significativo dizer para teu ídolo, olha eu sou teu fã, viu? Poder dizer ‘Bom dia’, poder propor parcerias. Mas bah! No meu caso dizer ‘olha, adorei a última estrofe’ (risos). Acontece isso comigo quanto à escrita, tenho amigos de quem sou fã, eu os leio e eles, por sua vez, também me leem e são meus fãs. Essa troca é muito gostosa. Faz com que a gente vibre. É a mesma sintonia. Vez por outra aparece alguém que vê apenas meu aspecto físico, mas a grande maioria das vezes são as minhas letras que chamam a atenção. Eu gosto disso.

P – Dhenova, estamos próximos ao dia do lançamento de “InspiraturasLab”, o teu primeiro livro. Foste a mentora do projeto e o escreveste junto ao poeta Sacharuk. Por que somente agora, depois de tanta produção autoral com inegável profundidade artística, decidiste publicar? O que encontraremos no livro?

Já me perguntaram o motivo de nunca ter publicado. Acho que não me sentia pronta para este passo, publicar é sério. Era preciso realmente querer, agora eu quis, tanto que tenho mais dois livros praticamente prontos, um de acrósticos, que se chamará ‘Acrósticos’ (risos) e outro só com poemas antigos ‘Apenas partes de mim’. Quanto a parceria com o poeta Sacharuk, podes ficar certa que vais encontrar só coisa boa, sabes o quanto somos modestos (risos altos). Sério, é um livro delicioso, os poemas foram escolhidos a dedo, com muito carinho, com certa displicência de não querer engessar a ideia, as nossas parcerias vão aparecendo assim como um e outro poema meu ou dele, harmonizados, mas não enlaçados, está um show, sugiro como presente (risos).

P – Dhenova e Wasil Sacharuk, enquanto poetas, remetem a estilos completamente diferentes quando vistos a olho nu. De que forma suas letras coadunam?

Eu e Sacharuk somos grandes amigos, essa amizade se estendeu até a nossa arte, é certo! Houve um entrosamento perfeito entre as minhas letras e a música do poeta, a criação surgiu fácil e harmônica, a poesia criou música e a música criou poesia. Quanto às letras, sim, somos diversos, falamos línguas diferentes, temos vocabulários diferentes, visões diferentes, vidas diferentes, todavia quando escrevemos juntos essa distância se anula, escrevemos como um, aliás, fora a sintonia, escrever em parceria como o poeta Sacharuk é muito bom, ele é perfeito em coesão, quem já escreveu com ele sabe, ele acerta, ajeita, preenche, é ótimo. Tenho grande apreço por nossas parcerias.

P – “Procuro hoje na poesia a textura mais doce, palavras que falem do amor entre a lua e as estrelas, que falem do deus sol e também das borboletas, que falem do dia da noite da madrugada, que falem da estrada; que venham estas palavras com o suave cheiro de orvalho, de grama cortada, que tenham o brilho da água cristalina, que sejam sentidas na maciez da areia fina. Que tenha alegria na poesia, sim, esta me conquista.” (Dhenova). Poeta, explique como se deu a transição da textura áspera e chocante dos teus primeiros contos para essa poesia doce que fala de amor entre a lua e as estrelas.

Não há transição, minha linda, minha prosa continua tão ácida quanto antes, assim como minha poesia que foi e sempre será ‘um campo de flores’. Escrevi essa descrição para o meu blog no inicio deste ano, depois de perceber que a acidez da minha prosa estava absorvendo meus versos. Não gostei. Não faço catarse, as pessoas confundem eu-lírico com o autor. O que eu escrevo é meu, vem das minhas experiências, é certo, isto não significa que eu, Andréa, esteja vivendo isso. Gosto de escrever sobre o amor, sobre caminhos e buscas, e acho que esses temas não pedem nada tão incisivo como eu vinha fazendo. Quero sim a textura mais rica, quero sentir cada letra na pele, não fincada, apenas que elas rocem de leve, e que deixem perfume!
 

E-books com participação de Dhenova:

LIGAÇÕES EXTERNAS:Dhenova
Dhenova Poeta
Andrea Iunes



[1] Leandra Lopes é Professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e escritora.

2 de dez de 2014

Rogerio Germani entrevista Dhenova - 19 de janeiro de 2012


Rogerio Germani entrevista Dhenova - 19 de janeiro de 2012

Dhenova, são tantos os seus lindos poemas que dá um nó na cabeça para escolher um...srsrrs

Optei por destacar o último


Sou pássaro


Sou pássaro que voa até o monte
busco no pico o sentimento
solidão em ser descrente
não causa dúvida ou tormento

luzes coloridas marcam no horizonte
uma estranha linha do tempo
não sei do dia, ou da noite
sei apenas dos tragos e medos

ave que canta o hino dos pampas
não gosto de meias verdades
solidão e morte conheço, ambas
por isso espero só lealdade

sou livre para sonhar
com céus e borboletas amarelas
com jardins de flores brancas, 
até templos ou bordéus
e também com minhas cenas
estou livre de mim
ainda que às avessas...

nasci sem asas
mas sou livre 
e sonho sim
com véus e madrugadas,

nasci assim.

Dhenova
Este trecho chamou minha atênção pela força e verdade expressa:

"ave que canta o hino dos pampas
não gosto de meias verdades
solidão e morte conheço, ambas
por isso espero só lealdade"

Daqui, retiro uma pergunta:

Você, como pássaro sulista, se cala quando a vida é desleal, voa para outros lugares ou contra-ataca com trinados mais fortes?

------------------------------------

Andréa Iunes responde: 

Sabe, Rogério, se tu me perguntasse isso no início do ano passado, eu te diria o seguinte...

sou pássaro
nasci aqui no sul
voo por dias e dias
assegurando as divisas
num céu muito quente e azul
vou abraçando minhas sinas...
Quando a vida me é desleal
escolho a janela da casa
e lá dou o trinado forte
que retumba no quintal
faço a minha sorte
mas não sou
de todo mal

Depois de um ano de transformações...

E sou hoje,
pássaro estou...

Sou pássaro
que nasci no sul
voo de vez em quando
se o sol não vem forte
sei sim onde fica o meu norte
não existem mais divisas
elas, todas, caíram por terra
no último temporal do inverno
não saíram ilesas, ainda bem...

Quando a vida me é desleal
isso acontece quase todo santo dia
busco outra janela, abro minhas portas
deixo por elas o sol entrar, respiro fundo
não, não há ventania, apenas a vontade
de 'estar, ficar, permanecer, continuar'...

Sou pássaro de barro que mora no sul
no voo livre me inspira a caminhada
não, não há trinado grave... apenas sorrio
'bico fechado' para comer moscas certas
continuo assim... pra sempre calado.

Mas terras distantes não me interessam
'quero ter razão e também estar errado'
é o que espero da trilha...

ainda que equivocado.

"ave que canta o hino dos pampas
não gosto de meias verdades
solidão e morte conheço ambas, por isso espero só lealdade"


Gostei muito, Rogério, da tua pergunta, obrigada pelo carinho... e espero que tenhas ficado satisfeito com a resposta, apesar de toda minha abstração... grata sempre.

Quanto ao trecho em destaque, realmente, em qualquer relação, seja ela amorosa, profissional, 'confiança' é essencial, pelo menos pra mim, sei que não é assim que acontece no dia a dia, que precisamos nos relacionar com pessoas que muitas vezes não estão na nossa sintonia, que nos invejam, não gostam da gente sabe-se lá porquê, e que precisamos, seja pelo motivo que for continuar convivendo, mas gosto da palavra lealdade, já vi muita coisa nesta vida (e continuo vendo todos os dias...) então, procuro me cercar de pessoas em que confio, que sei que vou poder contar e que, com certeza, podem contar comigo... não gosto da sensação de me sentir com o 'pé atrás' com as pessoas, de não agir naturalmente... isso é morte pra mim.

Obrigada. beijo na alma.

Rogério Germani – poeta da NOVA ORDEM DA POESIA


Rogério Germani – poeta da NOVA ORDEM DA POESIA

“Antes mesmo de ser alfabetizado- lá pelos 4 anos de idade- fui enfeitiçado pelo reino das letras. Iniciei meu gosto pela literatura através de folhas avulsas de gibi e impressos de quaisquer assuntos. Já na fase escolar, escrevi meus primeiros poemas aos 9 anos para me enveredar nos namoricos infantis- é a mulher que nos põe amor nos olhos. Desde então, apaixonei-me por versos e, até hoje, escrevo meus sentimentos brotados na alma. Tenho 5 livros publicados: Ao primeiro instante de beleza , Outros Amores, Eu Tu Anônimos, Por detrás dos olhos e o livro de crônicas, Quase sem querer. Participo de várias antologias brasileiras, com destaque ao projeto bilíngue Letras Contemporâneas, da Editora Abrace. Sou membro-correspondente da Academia Cachoeirense de Letras-ES, colunista do site cultural Papokult e diretor cultural de uma associação de moradores em Ibiporã-PR. E por último, porém minha realização maior: sou colaborador ativo da NOP, o maior celeiro virtual de poesia contemporânea, legítima fraternidade de poetas amigos.”

Rogério Germani – poeta da NOVA ORDEM DA POESIA 

Leia mais ROGÉRIO GERMANI em Inspiraturasbooks

1 de dez de 2014

Clarice Lispector - A Hora da Estrela


Clarice Lispector - A Hora da Estrela


Clarice Lispector - A Hora da Estrela


A poesia perdeu a pose, por Luiz Henrique Gurgel


Um fenômeno cultural está tomando conta das periferias de cidades brasileiras: os saraus. Nesses encontros, livres de qualquer afetação, é possível ler o que quiser, quando quiser e como quiser. Na Ponta do Lápis conheceu três deles que existem há alguns anos em bairros da cidade de São Paulo. Veja por que atraem cada vez mais gente – principalmente professores e estudantes – para ler, ouvir e falar sobre versos.
Luiz Henrique Gurgel
 
Estamos em pleno século 21 e um fenômeno literário típico dos salões aristocráticos do século 19 está se repetindo, de maneira transfigurada, em bairros populares e periféricos de grandes cidades brasileiras. É o antigo sarau. Se até meados do século passado a poesia era vista como arte da elite, agora falar ou escrever versos, construir rimas e deixar fluir o “eu lírico” tornou-se algo bem mais popular. O uso da palavra e a criação poética foram democratizados. “Literatura pode ser feita em qualquer lugar”, diz Sérgio Vaz, poeta e um dos criadores da Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia), entidade que agitou a vida de comunidades que vivem nos extremos da Zona Sul da capital paulista. A televisão, com suas novelas, séries, programas de auditório ou jogos de futebol, deixou de ser a única opção de cultura e lazer dessas regiões.
 
A estimativa é que só em São Paulo e cidades vizinhas existam mais de quarenta encontros desse tipo. A maioria surgiu nos últimos cinco anos. Na Ponta do Lápis foi conhecer alguns desses saraus. Descobrimos professores de escolas públicas, de língua portuguesa e de outras disciplinas, que participam dos encontros, levam seus alunos ou realizam o caminho inverso e criam o sarau dentro da escola, transformando- o em estratégia eficiente de trabalho para o estímulo à leitura, à escrita, além de servir de atalho para a literatura.
■ Sarau da Cooperifa
Um botequim típico de bairro. Bebidas alcoólicas atrás do balcão e, sobre ele, uma estufa com pastéis e coxinhas. A primeira surpresa está numa parede lateral, onde fica uma estante forrada de livros. Jorge Amado, Machado de Assis, Ernest Hemingway, entre outros, ao lado de Sidney Sheldon e Paulo Coelho; muitos livros infantis e de poesia, João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, além de autores do próprio bairro. A outra surpresa é que ali no Bar do Zé Batidão, região do Jardim São Luís, periferia de São Paulo, funciona ininterruptamente, desde outubro de 2001, o Sarau da Cooperifa, um dos mais conhecidos da cidade. Ficou tão famoso que já recebeu atores, cineastas, jornalistas e vários autores. Até o escritor moçambicano Mia Couto, um dos principais nomes contemporâneos da literatura de língua portuguesa, foi conhecer o evento. Nem por isso o sarau perdeu suas características. Operários, pedreiros, office-boys, empregadas domésticas, donas de casa, aposentados, cantores de rap, estudantes e professores continuam se apresentando e lendo suas criações, textos de amigos e poesia de autores clássicos.

Foto:Vinícius Carlos;
Foto da caixa: Marcia Minillo
O movimento começa pouco antes das 19 horas, toda quarta-feira. Mesas de plástico são dispostas no salão do bar e um pedestal com microfone é instalado. Enquanto aguardam, jovens, aposentados e casais com filhos experimentam um “escondidinho”, prato nordestino com carne-seca, apropriado para uma noite fria. A equipe da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro chega ao sarau exatamente no momento da arrumação para o evento e encontra os participantes no aquecimento. O aposentado Jorge Esteves é um deles. Concentrado em uma das mesas, lê em voz baixa o poema que iria apresentar dali a pouco. O bar foi se enchendo e não sobraram lugares para se sentar. Sérgio Vaz abre o evento, saúda a plateia e já oferece o microfone para quem quiser ler ou recitar versos. Nas próximas duas horas, sem intervalo, um a um, uma a uma, gente vai se sucedendo na apresentação dos poemas.
O encontro mescla famílias, crianças, jovens, adolescentes e idosos. “Temos hoje, contra nós, a garoa, a novela, mas o que importa é a literatura”, vibra Sérgio Vaz, agitando o público. Seu Jorge é um dos primeiros a ir para o microfone. O jeito de declamar lembra Patativa do Assaré. Lê o seu poema “Carta fora do baralho”, relatando sua história de vida e a sina de aposentado. Jovens também se revezam, leem poemas ou improvisam versos de um rap. Falam da condição social e apresentam a visão de mundo própria de quem vive na periferia. Jéssica Lazzare, 17 anos, pensa em cursar letras. Começou a frequentar o sarau com 12 anos, acompanhando a mãe, que trabalhava no bar. Pegou gosto ouvindo os poemas, veio a vontade de escrever. Apresentou nesse dia uma paródia, costurando trechos do Hino Nacional com críticas à realidade dos jovens no país. “Sempre falo da periferia e me inspiro em coisas que vejo acontecer.”
No sarau também ocorre lançamento de livro e o organizador é o professor de língua portuguesa Fábio Barreto, que participa da Olimpíada. Ele trouxe seus alunos do 9º ano da Escola Estadual Francisco de Paula Conceição Júnior, do bairro de Campo Limpo, para vivenciar um momento único: vinham lançarRacismo é o Ó... Unidos contra o preconceito racial, livro escrito por eles mesmos, num projeto coordenado por Fábio. “Queria fazer a publicação circular e o sarau era uma boa oportunidade”, explica. Inspirado na metodologia da Olimpíada, o professor criou uma sequência didática cujo tema era a discriminação racial. Ele trabalhou com poemas, crônicas e contos, além de promover debates com os alunos sobre a questão. No final, o trabalho rendeu um livro com os textos produzidos pelos estudantes.
Fábio gosta de frequentar esse tipo de encontro, que, segundo ele, promove o direito à literatura. “Durante muito tempo as pessoas acharam que literatura era algo a que não se tinha direito, cuja compreensão e cuja fruição eram restritas a poucos. Representa a democratização da palavra: ler o que quiser, quando quiser; também escrever o que quiser, recitar o que quiser, onde bem entender!” A atividade proporciona para seus alunos outro tipo de contato com a literatura: “[Temos] leituras de diferentes gêneros – peça teatral, romance, poesia, conto, crônica – em espaços diversificados: salas de aula, bibliotecas, estacionamentos, ruas, escadão, pracinhas, e com o propósito do entretenimento – sem resenhas, perguntas, provas. O sarau, nesse contexto, representa uma possibilidade real de envolvimento com literatura”.
■ Uma roda de poesia no Grajaú
Foto: Márcia Minillo
Não muito longe dali, na Casa de Cultura Palhaço Carequinha, no Jardim Grajaú, também na Zona Sul de São Paulo, Maria Vilani, professora da Escola Estadual Adelaide Rosa Ferreira, promove não apenas saraus, nos sábados à noite, mas também cafés filosóficos, encontros abertos com debates livres, que discutem temas como “A religião no contexto da periferia”, “Drogas: uma reflexão”, entre outros. Já o sarau, que funciona há dois anos, se chama Roda de Poesia. Os livros ficam no centro de um círculo formado pelos participantes e qualquer pessoa pode pegar, escolher um poema e ler para as outras, sentada, em pé, interpretando ou cantando na forma de um rap. Vale qualquer tema, e nem só de amor ou problemas sociais vive a poesia da periferia. Claro que a vida complicada, a violência, os preconceitos estão sempre presentes. Mas até de temas não tão poéticos como o videogame podem surgir versos. “A gente faz poesia por poesia”, conta Clayton Cavalcante Gomes, filho de Maria Vilani e também professor de língua portuguesa de escolas públicas, que apresentou de cor o poema “Desencanto”, de Manuel Bandeira. “Quando a gente ia imaginar que num sábado à noite as pessoas viriam se reunir para ouvir e falar poesia?”, indaga. A pergunta faz sentido, pois a maioria dos frequentadores é de jovens de 16 a 22 anos. Ainda mais porque numa sala ao lado do sarau havia um curso de dança e seu convidativo baile era embalado por música pop e eletrônica. Mas isso não foi capaz de desviar a atenção de aproximadamente trinta pessoas, que ficaram até as 22 horas lendo e ouvindo poesia.
E autores, do próprio bairro ou de outras regiões da cidade, que lançaram seus livros de forma independente ou por pequenas editoras, aparecem para as leituras. O professor Adenildo Lima é um dos mais assíduos frequentadores e também o organizador das leituras na Roda de Poesia. Ele criou a Editora da Gente para lançar seus trabalhos e de outros autores da periferia. Outro ativo integrante é o rapper Márcio Ricardo, do grupo Semblantes, que bolou outra estratégia para divulgar seus poemas. Ele lançou o livro Felicidade brasileira na escola em que estudou e em outras da região, com direito a show de rap. Márcio, de 22 anos, conta que foi por causa do ritmo – gênero musical preferido entre jovens da periferia – que começou a escrever. Ele mostrava suas letras para a professora Vilani, recebia dicas e o incentivo para continuar a escrever e ler outros autores. Foi assim também que chegou à poesia de Vinicius de Moraes e de Cecília Meireles. Atualmente, ele e o grupo percorrem escolas da região oferecendo gratuitamente oficinas de poesia e de rap. “A gente mostra que também é da periferia e que faz poesia. Eu olho para os alunos e vejo a vontade que eles têm de mostrar um lado literário”, conta.
■ Sarau dentro da escola: um por todos e todos por um

O Sarau dos Mesquiteiros começou com o trabalho de um professor com seus alunos. Virou atividade aberta para toda a comunidade do bairro.
Foto: Marcelo Castro
Mas alguns saraus e grupos literários surgem na própria escola, fruto do trabalho de professores. É o caso dos Mesquiteiros, nome do coletivo artístico e cultural criado em 2009 e formado por jovens e adolescentes de Ermelino Matarazzo, bairro da Zona Leste de São Paulo. O nome faz referência à Escola Estadual Jornalista Francisco Mesquita, espaço em que o grupo se formou e onde até hoje realiza um sarau aberto para a comunidade todo último sábado do mês.
Foi a partir do projeto “Literatura (é) possível”, trabalho desenvolvido na escola desde 2006, pelo professor de história Rodrigo Ciríaco, que o projeto e o grupo deslancharam. Trata-se de um trabalho “artístico e pedagógico”, explica o professor em seu blog (http://efeito- -colateral.blogspot.com.br), e “tem como finalidade a valorização da leitura, da escrita e da criação através da literatura, principalmente a chamada ‘literatura periférica’”. Mas o projeto é mais abrangente e utiliza-se de outras linguagens, como o teatro, a música, a fotografia, o cinema, entre outras. A proposta dos jovens mesquiteiros é ousada. No blog do grupo (http://mesquiteiros. blogspot.com.br) afirmam ter por objetivo “incentivar, difundir, promover e problematizar a cultura da periferia a partir da Escola Estadual Jornalista Francisco Mesquita para a sua comunidade”. Para isso, realizam oficinas de literatura e teatro, encontros com escritores, produção de espetáculos lítero-teatrais, saraus, além do desenvolvimento do selo editorial Um por Todos, que edita, produz e divulga a criação de seus integrantes e colaboradores.
O comum em todos esses projetos e entre seus protagonistas é a vontade e a necessidade de expressão e a consciência de que a língua também é um patrimônio da periferia, superando todos os preconceitos. São iniciativas espontâneas que estimularam a si mesmas, gerando um movimento. Mas também é possível entender tudo isso de forma mais simples e direta, como explica Sérgio Vaz: “A gente faz porque dá prazer”.
Revista Na Ponta do Lápis
Ano IX
Número 22
Agosto de 2013

texto compilado de: https://www.escrevendoofuturo.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=1431:reportagem-a-poesia-perdeu-a-pose&catid=23:colecao&Itemid=33




















Marisa Schmidt – poeta da NOVA ORDEM DA POESIA

“Nasci num outubro há muito tempo...tanto tempo que minha São Paulo era tranquila e o bonde me levava para o grupo escolar. Depois, ela cresceu rapidamente e eu também cresci e fui ser normalista, coisa normalíssima para as mocinhas daqueles dias, e nessa época descobri o prazer da poesia. Dei aulas por muito tempo, mas também casei, tive filhos e parei de fazer poesias, porque ser mãe exigia toda minha inspiração! Mas São Paulo havia crescido tanto, mas tanto que para o bem dos meninos precisava de uma cidade menor.Mudei para São Bernardo do Campo, criei lá os filhos e uma escola, o que me fez voltar aos estudos.Fui fazer Pedagogia e me especializar em educação da primeira infância.Enquanto isso os meninos saíram da segunda infância e do ninho...e eu percebi que a pequena São Bernardo já havia crescido tanto, mas tanto, que até fabricara um mito operário e a nossa casa era então imensa para dois...Sim, os filhos saíram, mas o marido ficou! Resolvemos que o melhor era flanar na praia e há quatorze anos aportamos em Bertioga, onde curto minha aposentadoria e os quatro netos quando nos visitam.


No restante do tempo, faço trabalhos voluntários, leio, escrevo e cultivo amigos reais e virtuais.


Depois que me aventurei pela internet e descobri a NOP conheci novos poetas e num assomo de ousadia voltei a escrever poesias.Redescobri um prazer a muito esquecido e depois de haver participado de alguns concursos e ganhar dois deles, acho que a musa está razoavelmente em forma; bem mais que eu!”

Marisa Schmidt – poeta da NOVA ORDEM DA POESIA


Rogério Germani – poeta da NOVA ORDEM DA POESIA

Rogério Germani – poeta da NOVA ORDEM DA POESIA

 

“Antes mesmo de ser alfabetizado- lá pelos 4 anos de idade- fui enfeitiçado pelo reino das letras. Iniciei meu gosto pela literatura através de folhas avulsas de gibi e impressos de quaisquer assuntos. Já na fase escolar, escrevi meus primeiros poemas aos 9 anos para me enveredar nos namoricos infantis- é a mulher que nos põe amor nos olhos. Desde então, apaixonei-me por versos e, até hoje, escrevo meus sentimentos brotados na alma. Tenho 5 livros publicados: Ao primeiro instante de beleza , Outros Amores, Eu Tu Anônimos, Por detrás dos olhos e o livro de crônicas, Quase sem querer. Participo de várias antologias brasileiras, com destaque ao projeto bilíngue Letras Contemporâneas, da Editora Abrace. Sou membro-correspondente da Academia Cachoeirense de Letras-ES, colunista do site cultural Papokult e diretor cultural de uma associação de moradores em Ibiporã-PR. E por último, porém minha realização maior: sou colaborador ativo da NOP, o maior celeiro virtual de poesia contemporânea, legítima fraternidade de poetas amigos.”

Rogério Germani – poeta da NOVA ORDEM DA POESIA 

Leia mais ROGÉRIO GERMANI em Inspiraturasbooks

Oficina de Escrita Criativa Online – Conto

Oficina de Escrita Criativa Online – Conto

INSPIRATURAS - Escrita Criativa - oferece aos interessados na produção de narrativas curtas uma oficina que busca integrar conceitos e técnicas literárias com o incentivo e desenvolvimento da expressão criativa e pessoal.

Quando se fala em conto, vem à mente as narrativas curtas, sejam elas com enredos sublimados ou com finais surpreendentes. Daquelas que ‘numa sentada’ pode-se ler. O conto, como afirmou Poe, precisa ser intenso e breve, ‘dizer’ muito em poucas linhas. Assim é este gênero e aqui, na OFICINA DO CONTO INSPIRATURAS ON LINE, pretende-se, através de atividades direcionadas, num total de 10 encontros via internet, mostrar um pouco mais deste tão precioso mundo, o universo das narrativas curtas, os contos.

A oficina do conto INSPIRATURAS foi projetada para ser um meio de iniciação na produção literária. No primeiro encontro, um pouco de teoria, conceito, quais principais autores. Também comentaremos a respeito da descrição, importante ferramenta para quem quer escrever bem; na segunda oportunidade, o tema será o discurso, os tipos direto e indireto; na terceira, a criação da personagem; na quarta, os principais narradores; na quinta, os sinais de pontuação; na sexta, os tipos de enredo; na sétima, o problemas que causam os ecos, redundâncias e clichês; na oitava, a importância do título; na nona e décima, tema e produção. Em cada encontro será solicitada ao oficineiro uma produção textual a partir do tema orientado.

A oficina ocorre pela internet, via e-mail e/ou redes sociais, sem definição de data para início e fim do processo, o que elimina a dificuldade do gerenciamento do tempo pessoal do oficineiro, no entanto, os desafios têm prazo definido para apresentação dos resultados;

Os oficineiros recebem e-mails contendo orientações técnicas e teóricas; e um desafio de produção para o desenvolvimento da criatividade e da imaginação, cujo resultado será avaliado e, caso necessário, retrabalhado para incorporar novos elementos sugeridos na análise. A produção constante e, se possível, ininterrupta dos contos estimula os oficineiros a conquistar o domínio das técnicas mais rapidamente;

São consideradas e estimuladas todas as formas individuais de expressão, de estilo e temática, propiciando o incremento de novas ideias e características estilísticas. A oficina pretende o exercício leve e agradável de interação e da liberdade de brincar literariamente com a criatividade.

As narrativas curtas (contos) produzidas são comentadas pelo(s) facilitador(es) da oficina, com eventuais sugestões e críticas que focalizam os aspectos positivos e negativos da produção, consistindo numa avaliação personalizada com o intuito de fomentar a eficiência da exposição literária em questão;

A oficina consiste em dez propostas lúdicas, com desafios conceituais e criativos voltados ao desbloqueio da escrita e à iniciação na arte de escrever contos, logo, ao final das propostas, o oficineiro terá produzido dez peças avaliadas, revisadas e, se necessário, reescritas.

O investimento é de duzentos e cinquenta reais, com pagamento via pagseguro ou depósito bancário.

INSPIRATURAS é um projeto voltado para atender escritores em Língua Portuguesa que aspiram produzir textos como uma ferramenta para o desenvolvimento pessoal, logo, a OFICINA DO CONTO ON LINE pretende ser coadjuvante do oficineiro no processo de ilustrar sentimentos, bem como desenvolvê-los e expressá-los numa estética bela e sensível. Primamos pela espontaneidade, pela gentileza, pelo respeito à diversidade e pela crença de que a literatura é capaz de fortalecer a existência. 


Facilitadores:

Dhenova (Andréa Iunes) é escritora gaúcha, professora de Língua Portuguesa e Literaturas Brasileira e Portuguesa, especialista em produção textual de narrativas curtas, Fundadora da Nova Ordem da Poesia e do projeto Inspiraturas, ambos voltados para o compartilhamento e a troca de experiências literárias de novos escritores. Facilitadora das oficinas presenciais de contos e poesia do projeto Inspiraturas.
Dhenova publica em: www.dhenova.com.

 

Wasil Sacharuk é escritor gaúcho e membro fundador da Nova Ordem da Poesia e do projeto Inspiraturas, ambos voltados para o compartilhamento e a troca de experiências literárias de novos escritores. Facilitador das oficinas presenciais de contos e poesia do projeto Inspiraturas. Publicou “Uma Outra Gnose”, “Sete Sinas”, “Soneto Libertino”, "Catilinárias I", "Catilinárias II", "Da Janela Virtual", "O Arquivo e a Verve", "Acrósticos" e "Escorpião - versos autobiográficos".
Wasil Sacharuk publica em .www.wasilsacharuk.com

27 de nov de 2014

Fotografia Dividida - Balcão de Poemas




Aspectos del cuento - Julio Cortázar


Aspectos del cuento

Julio Cortázar

Puesto que voy a ocuparme de algunos aspectos del cuento como género literario, y es posible que algunas de mis ideas sorprendan o choquen a quienes las lean, me parece de una elemental honradez definir el tipo de narración que me interesa, señalando mi especial manera de entender el mundo.

Casi todos los cuentos que he escrito pertenecen al género llamado fantástico por falta de mejor nombre, y se oponen a ese falso realismo que consiste en creer que todas las cosas pueden describirse y explicarse como lo daba por sentado el optimismo filosófico y científico del siglo XVIII, es decir, dentro de un mundo regido más o menos armoniosamente por un sistema de leyes, de principios, de relaciones de causa y efecto, de psicologías definidas, de geografía bien cartografiadas. En mi caso, la sospecha de otro orden más secreto y menos comunicable, y el fecundo descubrimiento de Alfred Jarry, para quien el verdadero estudio de la realidad no residía en las leyes sino en las excepciones a esas leyes, han sido algunos de los principios orientadores de mi búsqueda personal de una literatura al margen de todo realismo demasiado ingenuo. Por eso, si en las ideas que siguen encuentran ustedes una predilección por todo lo que en el cuento es excepcional, trátese de los temas o incluso de las formas expresivas, creo que esta presentación de mi propia manera de entender el mundo explicará mi toma de posesión y mi enfoque del problema. En último extremo podrá decirse que solo he hablado del cuento tal y como yo lo practico. Y sin embargo, no creo que sea así. Tengo la certidumbre de que existen ciertas constantes, ciertos valores que se aplican a todos los cuentos, fantásticos o realistas, dramáticos o humorísticos. Y pienso que tal vez sea posible mostrar aquí esos elementos invariables que dan a un buen cuento su atmósfera peculiar y su calidad de obra de arte.

La oportunidad de cambiar ideas acerca del cuento me interesa por diversas razones. Vivo en un país -Francia- donde este género tiene poca vigencia, aunque en los últimos años se nota entre escritores y lectores un interés creciente por esa forma de expresión. De todos modos, mientras los críticos siguen acumulando teorías y manteniendo enconadas polémicas acerca de la novela, casi nadie se interesa por la problemática del cuento. Vivir como cuentista en un país donde esta forma expresiva es un producto casi exótico, obliga forzosamente a buscar en otras literaturas el alimento que allí falta. Poco a poco, en sus textos originales o mediante traducciones, uno va acumulando casi rencorosamente una enorme cantidad de cuentos del pasado y del presente, y llega el día en que puede hacer un balance, intentar una aproximación valorativa a ese género de tan difícil definición, tan huidizo en sus múltiples y antagónicos aspectos, y en última instancia tan secreto y replegado en sí mismo, caracol del lenguaje, hermano misterioso de la poesía en otra dimensión del tiempo literario.

Pero además de ese alto en el camino que todo escritor debe hacer en algún momento de su labor, hablar del cuento tiene un interés especial para nosotros, puesto que casi todos los países americanos de lengua española le están dando al cuento una importancia excepcional, que jamás había tenido en otros países latinos como Francia o España. Entre nosotros, como es natural en las literaturas jóvenes, la creación espontánea precede casi siempre al examen crítico, y está bien que así sea. Nadie puede pretender que los cuentos sólo deban escribirse luego de conocer sus leyes. En primer lugar, no hay tales leyes; a lo sumo cabe hablar de puntos de vista, de ciertas constantes que dan una estructura a ese género tan poco incasillable; en segundo lugar los teóricos y los críticos no tienen por qué ser los cuentistas mismos, y es natural que aquellos sólo entren en escena cuando exista ya un acervo, un acopio de literatura que permita indagar y esclarecer su desarrollo y sus cualidades.

En América, tanto en Cuba como en México o Chile o Argentina, una gran cantidad de cuentistas trabaja desde comienzos de siglo, sin conocerse entre sí, descubriéndose a veces de manera casi póstuma. Frente a ese panorama sin coherencia suficiente, en el que pocos conocen a fondo la labor de los demás, creo que es útil hablar del cuento por encima de las particularidades nacionales e internacionales, porque es un género que entre nosotros tiene una importancia y una vitalidad que crecen de día en día. Alguna vez se harán las antologías definitivas -como las hacen los países anglosajones, por ejemplo- y se sabrá hasta dónde hemos sido capaces de llegar. Por el momento no me parece inútil hablar del cuento en abstracto, como género literario. Si nos hacemos una idea convincente de esa forma de expresión literaria, ella podrá contribuir a establecer una escala de valores para esa antología ideal que está por hacerse. Hay demasiada confusión, demasiados malentendidos en este terreno. Mientras los cuentistas siguen adelante su tarea, ya es tiempo de hablar de esa tarea en sí misma, al margen de las personas y de las nacionalidades. Es preciso llegar a tener una idea viva de lo que es el cuento, y eso es siempre difícil en la medida en que las ideas tienden a lo abstracto, a desvitalizar su contenido, mientras que a su vez la vida rechaza angustiada ese lazo que quiere echarle la conceptualización para fijarla y categorizarla. Pero si no tenemos una idea viva de lo que es el cuento habremos perdido el tiempo, porque un cuento, en última instancia, se mueve en ese plano del hombre donde la vida y la expresión escrita de esa vida libran una batalla fraternal, si se me permite el término; y el resultado de esa batalla es el cuento mismo, una síntesis viviente a la vez que una vida sintetizada, algo así como un temblor de agua dentro de un cristal, una fugacidad en una permanencia. Sólo con imágenes se puede trasmitir esa alquimia secreta que explica la profunda resonancia que un gran cuento tiene entre nosotros, y que explica también por qué hay muchos cuentos verdaderamente grandes.

Para entender el carácter peculiar del cuento se le suele comparar con la novela, género mucho más popular y sobre el cual abundan las preceptivas. Se señala, por ejemplo, que la novela se desarrolla en el papel, y por lo tanto en el tiempo de la lectura, sin otro límite que el agotamiento de la materia novelada; por su parte, el cuento parte de la noción de límite, y en primer término de límite físico, al punto que en Francia, cuando un cuento excede las veinte páginas, toma ya el nombre de nouvelle, género a caballo entre el cuento y la novela propiamente dicha. En ese sentido, la novela y el cuento se dejan comparar analógicamente con el cine y la fotografía, en la medida en que una película es en principio un "orden abierto", novelesco, mientras que una fotografía lograda presupone una ceñida limitación previa, impuesta en parte por el reducido campo que abarca la cámara y por la forma en que el fotógrafo utiliza estéticamente esa limitación. No sé si ustedes han oído hablar de su arte a un fotógrafo profesional; a mí siempre me ha sorprendido el que se exprese tal como podría hacerlo un cuentista en muchos aspectos. Fotógrafos de la calidad de un Cartier-Bresson o de un Brasai definen su arte como una aparente paradoja: la de recortar un fragmento de la realidad, fijándole determinados límites, pero de manera tal que ese recorte actúe como una explosión que abre de par en par una realidad mucho más amplia, como una visión dinámica que trasciende espiritualmente el campo abarcado por la cámara. Mientras en el cine, como en la novela, la captación de esa realidad más amplia y multiforme se logra mediante el desarrollo de elementos parciales, acumulativos, que no excluyen, por supuesto, una síntesis que dé el "clímax" de la obra, en una fotografía o en un cuento de gran calidad se procede inversamente, es decir que el fotógrafo o el cuentista se ven precisados a escoger y limitar una imagen o un acaecimiento que sean significativos, que no solamente valgan por sí mismos, sino que sean capaces de actuar en el espectador o en el lector como una especie de apertura, de fermento que proyecta la inteligencia y la sensibilidad hacia algo que va mucha más allá de la anécdota visual o literaria contenidas en la foto o en el cuento. Un escritor argentino, muy amigo del boxeo, me decía que en ese combate que se entabla entre un texto apasionante y su lector, la novela gana siempre por puntos, mientras que el cuento debe ganar por knock-out. Es cierto, en la medida en que la novela acumula progresivamente sus efectos en el lector, mientras que un buen cuento es incisivo, mordiente, sin cuartel desde las primeras frases. No se entienda esto demasiado literalmente, porque el buen cuentista es un boxeador muy astuto, y muchos de sus golpes iniciales pueden parecer poco eficaces cuando, en realidad, están minando ya las resistencias más sólidas del adversario. Tomen ustedes cualquier gran cuento que prefieran, y analicen su primera página. Me sorprendería que encontraran elementos gratuitos, meramente decorativos. El cuentista sabe que no puede proceder acumulativamente, que no tiene por aliado al tiempo; su único recurso es trabajar en profundidad, verticalmente, sea hacia arriba o hacia abajo del espacio literario. Y esto, que así expresado parece una metáfora, expresa sin embargo lo esencial del método. El tiempo del cuento y el espacio del cuento tienen que estar como condenados, sometidos a una alta presión espiritual y formal para provocar esa "apertura" a que me refería antes. Basta preguntarse por qué un determinado cuento es malo. No es malo por el tema, porque en literatura no hay temas buenos ni temas malos, solamente hay un buen o un mal tratamiento del tema. Tampoco es malo porque los personajes carecen de interés, ya que hasta una piedra es interesante cuando de ella se ocupan un Henry James o un Franz Kafka. Un cuento es malo cuando se lo escribe sin esa tensión que debe manifestarse desde las primeras palabras o las primeras escenas. Y así podemos adelantar ya que las nociones de significación, de intensidad y de tensión han de permitirnos, como se verá, acercarnos mejor a la estructura misma del cuento.

Decíamos que el cuentista trabaja con un material que calificamos de significativo. El elemento significativo del cuento parecería residir principalmente en su tema, en el hecho de escoger un acaecimiento real o fingido que posea esa misteriosa propiedad de irradiar algo más allá de sí mismo, al punto que un vulgar episodio doméstico, como ocurre en tantos admirables relatos de una Katherine Mansfield o un Sherwood Anderson, se convierta en el resumen implacable de una cierta condición humana, o en el símbolo quemante de un orden social o histórico. Un cuento es significativo cuando quiebra sus propios límites con esa explosión de energía espiritual que ilumina bruscamente algo que va mucho más allá de la pequeña y a veces miserable anécdota que cuenta. Pienso, por ejemplo, en el tema de la mayoría de los admirables relatos de AntónChejov. ¿Qué hay allí que no sea tristemente cotidiano, mediocre, muchas veces conformista o inútilmente rebelde? Lo que se cuenta en esos relatos es casi lo que de niños, en las aburridas tertulias que debíamos compartir con los mayores, escuchábamos contar a los abuelos o a las tías; la pequeña, insignificante crónica familiar de ambiciones frustradas, de modestos dramas locales, de angustias a la medida de una sala, de un piano, de un té con dulces. Y, sin embargo, los cuentos de Katherine Mansfield, de Chéjov, son significativos, algo estalla en ellos mientras los leemos y nos proponen una especie de ruptura de lo cotidiano que va mucho más allá de la anécdota reseñada.

Ustedes se han dado ya cuenta de que esa significación misteriosa no reside solamente en el tema del cuento, porque en verdad la mayoría de los malos cuentos que todos hemos leído contienen episodios similares a los que tratan los autores nombrados. La idea de significación no puede tener sentido si no la relacionamos con las de intensidad y de tensión, que ya no se refieren solamente al tema sino al tratamiento literario de ese tema, a la técnica empleada para desarrollar el tema. Y es aquí donde, bruscamente, se produce el deslinde entre el buen y el mal cuentista. Por eso habremos de detenernos con todo el cuidado posible en esta encrucijada, para tratar de entender un poco más esa extraña forma de vida que es un cuento logrado, y ver por qué está vivo mientras otros, que aparentemente se le parecen, no son más que tinta sobre papel, alimento para el olvido.

Miremos la cosa desde el ángulo del cuentista y en este caso, obligadamente, desde mi propia versión del asunto. Un cuentista es un hombre que de pronto, rodeado de la inmensa algarabía del mundo, comprometido en mayor o en menor grado con la realidad histórica que lo contiene, escoge un determinado tema y hace con él un cuento. Este escoger un tema no es tan sencillo. A veces el cuentista escoge, y otras veces siente como si el tema se le impusiera irresistiblemente, lo empujara a escribirlo. En mi caso, la gran mayoría de mis cuentos fueron escritos -cómo decirlo- al margen de mi voluntad, por encima o por debajo de mi consciencia razonante, como si yo no fuera más que un médium por el cual pasaba y se manifestaba una fuerza ajena. Pero eso, que puede depender del temperamento de cada uno, no altera el hecho esencial, y es que en un momento dado hay tema, ya sea inventado o escogido voluntariamente, o extrañamente impuesto desde un plano donde nada es definible. Hay tema, repito, y ese tema va a volverse cuento. Antes que ello ocurra, ¿qué podemos decir del tema en sí? ¿Por qué ese tema y no otro? ¿Qué razones mueven consciente o inconscientemente al cuentista a escoger un determinado tema?

A mí me parece que el tema del que saldrá un buen cuento es siempre excepcional, pero no quiero decir con esto que un tema deba de ser extraordinario, fuera de lo común, misterioso o insólito. Muy al contrario, puede tratarse de una anécdota perfectamente trivial y cotidiana. Lo excepcional reside en una cualidad parecida a la del imán; un buen tema atrae todo un sistema de relaciones conexas, coagula en el autor, y más tarde en el lector, una inmensa cantidad de nociones, entrevisiones, sentimientos y hasta ideas que flotan virtualmente en su memoria o su sensibilidad; un buen tema es como un sol, un astro en torno al cual gira un sistema planetario del que muchas veces no se tenía consciencia hasta que el cuentista, astrónomo de palabras, nos revela su existencia. O bien, para ser más modestos y más actuales a la vez, un buen tema tiene algo de sistema atómico, de núcleo en torno al cual giran los electrones; y todo eso, al fin y al cabo, ¿no es ya como una proposición de vida, una dinámica que nos insta a salir de nosotros mismos y a entrar en un sistema de relaciones más complejo y hermosos? Muchas veces me he preguntado cuál es la virtud de ciertos cuentos inolvidables. En el momento los leímos junto con muchos otros, que incluso podían ser de los mismos autores. Y he aquí que los años han pasado, y hemos vivido y olvidado tanto. Pero esos pequeños, insignificantes cuentos, esos granos de arena en el inmenso mar de la literatura, siguen ahí, latiendo en nosotros. ¿No es verdad que cada uno tiene su colección de cuentos? Yo tengo la mía, y podría dar algunos nombres. Tengo William Wilson de Edgar A. Poe; tengo Bola de sebo de Guy de Maupassant. Los pequeños planetas giran y giran: ahí estáUn recuerdo de Navidad de Truman Capote; Tlön, Uqbar, Orbis Tertius de Jorge LuisBorges; Un sueño realizado de Juan Carlos Onetti; La muerte de Iván Ilich, de Tolstoi;Cincuenta de los grandes, de Hemingway; Los soñadores, de Izak Dinesen, y así podría seguir y seguir... Ya habrán advertido ustedes que no todos esos cuentos son obligatoriamente de antología. ¿Por qué perduran en la memoria? Piensen en los cuentos que no han podido olvidar y verán que todos ellos tienen la misma característica: son aglutinantes de una realidad infinitamente más vasta que la de su mera anécdota, y por eso han influido en nosotros con una fuerza que no haría sospechar la modestia de su contenido aparente, la brevedad de su texto. Y ese hombre que en un determinado momento elige un tema y hace con él un cuento será un gran cuentista si su elección contiene -a veces sin que él lo sepa conscientemente- esa fabulosa apertura de lo pequeño hacia lo grande, de lo individual y circunscrito a la esencia misma de la condición humana. Todo cuento perdurable es como la semilla donde está durmiendo el árbol gigantesco. Ese árbol crecerá en nosotros, dará su sombra en nuestra memoria.

Sin embargo, hay que aclarar mejor esta noción de temas significativos. Un mismo tema puede ser profundamente significativo para un escritor, y anodino para otro; un mismo tema despertará enormes resonancias en un lector, y dejará indiferente a otro. En suma, puede decirse que no hay temas absolutamente significativos o absolutamente insignificantes. Lo que hay es una alianza misteriosa y compleja entre cierto escritor y cierto tema en un momento dado, así como la misma alianza podrá darse luego entre ciertos cuentos y ciertos lectores. Por eso, cuando decimos que un tema es significativo, como en el caso de los cuentos de Chejov, esa significación se ve determinada en cierta medida por algo que está fuera del tema en sí, por algo que está antes y después del tema. Lo que está antes es el escritor, con su carga de valores humanos y literarios, con su voluntad de hacer una obra que tenga un sentido; lo que está después es el tratamiento literario del tema, la forma en que el cuentista, frente a su tema, lo ataca y sitúa verbal y estilísticamente, lo estructura en forma de cuento, y lo proyecta en último término hacia algo que excede el cuento mismo. Aquí me parece oportuno mencionar un hecho que me ocurre con frecuencia, y que otros cuentistas amigos conocen tan bien como yo. Es habitual que en el curso de una conversación, alguien cuente un episodio divertido o conmovedor o extraño, y que dirigiéndose luego al cuentista presente le diga: "Ahí tienes un tema formidable para un cuento; te lo regalo." A mí me han reglado en esa forma montones de temas, y siempre he contestado amablemente: "Muchas gracias", y jamás he escrito un cuento con ninguno de ellos. Sin embargo, cierta vez una amiga me contó distraídamente las aventuras de una criada suya en París. Mientras escuchaba su relato, sentí que eso podía llegar a ser un cuento. Para ella esos episodios no eran más que anécdotas curiosas; para mí, bruscamente, se cargaban de un sentido que iba mucho más allá de su simple y hasta vulgar contenido. Por eso, toda vez que me he preguntado: ¿Cómo distinguir entre un tema insignificante, por más divertido o emocionante que pueda ser, y otro significativo?, he respondido que el escritor es el primero en sufrir ese efecto indefinible pero avasallador de ciertos temas, y que precisamente por eso es un escritor. Así como para Marcel Proust el sabor de una magdalena mojada en el té abría bruscamente un inmenso abanico de recuerdos aparentemente olvidados, de manera análoga el escritor reacciona ante ciertos temas en la misma forma en que su cuento, más tarde, hará reaccionar al lector. Todo cuento está así predeterminado por el aura, por la fascinación irresistible que el tema crea en su creador.

Llegamos así al fin de esta primera etapa del nacimiento de un cuento, y tocamos el umbral de su creación propiamente dicha. He aquí al cuentista, que ha escogido un tema valiéndose de esas sutiles antenas que le permiten reconocer los elementos que luego habrán de convertirse en obra de arte. El cuentista está frente a su tema, frente a ese embrión que ya es vida, pero que no ha adquirido todavía su forma definitiva. Para él ese tema tiene sentido, tiene significación. Pero si todo se redujera a eso, de poco serviría; ahora, como último término del proceso, como juez implacable, está esperando al lector, el eslabón final del proceso creador, el cumplimiento o fracaso del ciclo. Y es entonces que el cuento tiene que nacer puente, tiene que nacer pasaje, tiene que dar el salto que proyecte la significación inicial, descubierta por el autor, a ese extremo más pasivo y menos vigilante y muchas veces hasta indiferente que se llama lector. Los cuentistas inexpertos suelen caer en la ilusión de imaginar que les basta escribir lisa y llanamente un tema que los ha conmovido, para conmover a su turno a los lectores. Incurren en la ingenuidad de aquel que encuentra bellísimo a su hijo, y da por supuesto que todos los demás lo ven igualmente bello. Con el tiempo, con los fracasos, el cuentista capaz de superar esa primera etapa ingenua, aprende que en la literatura no bastan las buenas intenciones. Descubre que para volver a crear en el lector esa conmoción que lo llevó a él a escribir el cuento, es necesario un oficio de escritor, y que ese oficio consiste, entre muchas otras cosas, en lograr ese clima propio de todo gran cuento, que obliga a seguir leyendo, que atrapa la atención, que aísla al lector de todo lo que lo rodea para después, terminado el cuento, volver a conectarlo con sus circunstancias de una manera nueva, enriquecida, más honda o más hermosa. Y la única forma en que puede conseguirse este secuestro momentáneo del lector es mediante un estilo basado en la intensidad y en la tensión, un estilo en el que los elementos formales y expresivos se ajusten, sin la menor concesión, a la índole del tema, le den su forma visual y auditiva más penetrante y original, lo vuelvan único, inolvidable, lo fijen para siempre en su tiempo y en su ambiente y en su sentido más primordial. Lo que llamo intensidad en un cuento consiste en la eliminación de todas las ideas o situaciones intermedias, de todos los rellenos o fases de transición que la novela permite e incluso exige. Ninguno de ustedes habrá olvidado El barril de amontillado, de Edgar A. Poe. Lo extraordinario de este cuento es la brusca prescindencia de toda descripción de ambiente. A la tercera o cuarta frase estamos en el corazón del drama, asistiendo al cumplimiento implacable de una venganza. Los asesinos, de Hemingway, es otro ejemplo de intensidad obtenida mediante la eliminación de todo lo que no converja esencialmente al drama. Pero pensemos ahora en los cuentos de Joseph Conrad, de D. H. Lawrence, de Kafka. En ellos, con modalidades típicas de cada uno, la intensidad es de otro orden, y yo prefiero darle el nombre de tensión. Es una intensidad que se ejerce en la manera con que el autor nos va acercando lentamente a lo contado. Todavía estamos muy lejos de saber lo que va a ocurrir en el cuento, y sin embargo no podemos sustraernos a su atmósfera. En el caso de El barril de amontillado y de Los asesinos, los hechos despojados de toda preparación saltan sobre nosotros y nos atrapan; en cambio, en un relato demorado y caudaloso de Henry James -La lección del maestro, por ejemplo- se siente de inmediato que los hechos en sí carecen de importancia, que todo está en las fuerzas que los desencadenaron, en la malla sutil que los precedió y los acompaña. Pero tanto la intensidad de la acción como la tensión interna del relato son el producto de lo que antes llamé el oficio de escritor, y es aquí donde nos vamos acercando al final de este paseo por el cuento.

En mi país, y ahora en Cuba, he podido leer cuentos de los autores más variados: maduros o jóvenes, de la ciudad o del campo, entregados a la literatura por razones estéticas o por imperativos sociales del momento, comprometidos o no comprometidos. Pues bien, y aunque suene a perogrullada, tanto en la Argentina como aquí los buenos cuentos los están escribiendo quienes dominen el oficio en el sentido ya indicado. Un ejemplo argentino aclarará mejor esto. En nuestras provincias centrales y norteñas existe una larga tradición de cuentos orales, que los gauchos se transmiten de noche en torno al fogón, que los padres siguen contando a sus hijos, y que de golpe pasan por la pluma de un escritor regionalista y, en una abrumadora mayoría de casos, se convierten en pésimos cuentos. ¿Qué ha sucedido? Los relatos en sí son sabrosos, traducen y resumen la experiencia, el sentido del humor y el fatalismo del hombre de campo; algunos incluso se elevan a la dimensión trágica o poética. Cuando uno los escucha de boca de un viejo criollo, entre mate y mate, siente como una anulación del tiempo, y piensa que también los aedos griegos contaban así las hazañas de Aquiles para maravilla de pastores y viajeros. Pero en ese momento, cuando debería surgir un Homero que hiciese una Iliada o una Odisea de esa suma de tradiciones orales, en mi país surge un señor para quien la cultura de las ciudades es un signo de decadencia, para quien los cuentistas que todos amamos son estetas que escribieron para el mero deleite de clases sociales liquidadas, y ese señor entiende en cambio que para escribir un cuento lo único que hace falta es poner por escrito un relato tradicional, conservando todo lo posible el tono hablado, los giros campesinos, las incorrecciones gramaticales, eso que llaman el color local. No sé si esa manera de escribir cuentos populares se cultiva en Cuba; ojalá que no...

Oficina de Escrita Literária Online – Poesia

Oficina de Escrita Literária Online – Poesia INSPIRATURAS - Escrita Criativa - oferece aos interessados na produção de poemas uma oficina q...

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...