Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

25 de mai de 2014

Secretas razões



fosse talvez
porque nossos pés
feriram-se  
irremediavelmente
em pontas de pedras
pelo caminho
ou porque nosso refúgio
fosse o silêncio
das folhas de outono
que amareladas
aguardam o tombo
e temem o vento
a assobiar a música
da morte
quem sabe a 
distância
dessa escuridão
que cresceu
entre a minha mão e a tua
ou as letras que se soltaram
das palavras ternas
e apodreceram no chão 
pisadas como frutos 
abertos na queda
fosse pelo espanto
das tempestades repentinas
a castigar nossa casa
ou pelo perdão impotente
enviado mas não entregue
fosse por inúmeras razões
que meu entendimento
trava nos cantos da memória
pela fome dos tempos de inverno
ou pelas incertezas das galáxias
pela cegueira dos espelhos
ou pela excessiva aragem
dos campos sagrados
que o amor cansou de si
e atirou-se do alto
do último andar
do coração do mundo

Helenice Priedols

24 de mai de 2014

Faces do Amor e da Dor 85


 
LXXXV

 

 

Nua, como plácida seda tecida,

fruta formosa de sabor divino,

doce lua prateada, sol vespertino,

simples, lisa, doce maçã mordida.

 

Nua, folha de loro, pimenta ardida,

o mel dos deuses, lírio cristalino.

és canção carnal, corpo de violino,

águas de verão, flor sempre atrevida.

 

Nua, como amanhecer na primavera,

jardim de vênus num vale dourado,

onde a paixão cai como calda quente.

 

Nua, como voraz luar incandescente,

mulher-menina, nuvem de quimera

que flama na clama do afago alado.

16 de mai de 2014

Bia Cunha em INSPIRATURAS in versos

Disseram que sou bonita, que não há de faltar alguém para preencher o vazio lado do lado. Se beleza pusesse mesa, não se teria perdido o amor pelo oco e o eco silencioso das horas. Tende-se esperar que o Tempo apague o cotidiano impresso nas coisas, nas arestas de dentro da dor, da saudade. Que se apague o cotidiano da voz cravada nos olhos, nos audíveis gemidos marcados na pele alva, os vermelhos pintados das mãos amantes e apaixonadas. Que se apague o cotidiano do cheiro do café e do cigarro que não eram meus, mas de teus devaneios. Que se apague a imagem em vulto a esperar por mim num ponto, num banco, num lugar qualquer de nossos encontros. Que se apague o desejo do abraço, do braço escorado em teus baixos ombros. Que se apague o tocar dos dedos meus sentindo na alma os teus finos cabelos. Que se apague meu medo de seguir sem tuas mãos entrelaçadas. Que se apague a música, os passos, os risos, a cumplicidade de uma Bossa, um Jazz, um Blues, uns Chicos, outros tantos de nossos ouvidos. Que se apague o meu sorriso feliz de ti, pra ser feliz em mim outra vez.
Que se apague...


Bia Cunha

5 de mai de 2014

Desconexo



DESCONEXO

Não sendo a palavra escrita
sou a poesia que vivo
onde trago em versos falhos
as incertezas e medos
o amor e suas asperezas
na generosa ousadia
dos que caminham

nos monossílabos
extrapolo
pensamentos desconexos

nas frases feitas
busco o que não se lê
...entrelinhas exiladas...

Poesia é modus vivendi
de quem morre
mas não se rende...

Marisa Schmidt

2 de mai de 2014

Enfim, a chuva caiu...

Enfim, a chuva caiu.
Tinha pressa em meus passos, quando voltava pra casa após as compras no supermercado; tinha, juntamente a pressa, o cansaço do dia trabalhado, da noite acesa, do coração fatiado. Foi quando bem de repente, ela caiu sobre mim. Veio forte e num descompasso mágico desacelerou meus pés, acelerou os batimentos e me pus a sentir pingo-a-pingo.  O sorriso foi nascendo de dentro enquanto caminhava por ruas, avenidas e trechos despoéticos. Não demorou muito para sentir os cabelos presos na pele, não senti medo de chorar, água escorrendo há mais faria diferença? Não no meu corpo esgotado de gotas de sal e chuva, roupa grudada no corpo farto. Quanto mais perto vou chegando do portão, vou tecendo o mantra de gratidão aos céus que sobre mim encharcou bênçãos de paz e silêncio e revida. Instantes seguintes eu enxuguei só as lágrimas porque o corpo secou que nem senti, vi a rua silenciada, as horas caladas, noite e depois dia silentes também, todos ouvindo a Senhora Água banhando a terra, a vida, os que dormem, os que sonham acordado e a alma do poeta.
Enfim…
Saravá!


Oficina de escrita literária Inspiraturas, em Pelotas

Oficina de escrita literária Inspiraturas - o fim da página em branco - A ti, que ainda acreditas na escrita, em especial a Poesia, como ...

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