Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

22 de fev de 2015

Sementes de Sonhos, por Helenice Priedols


Sementes de Sonhos

não me perdi pelo caminho
fui me deixando ficar aos poucos
pedacinhos de quimeras
flores de extintas primaveras
nem sei quanto ainda resta de mim

as lascas que se soltaram
como penas de gaivotas
feito pétalas de rosa
como carícia amorosa
no chão foram germinando
eram sementes de sonhos
grãos preciosos de vida

esses encantamentos
livres pássaros pela estrada
partículas de tempo espalhadas 
luz que atravessa memórias
janelas que se abrem para ontem
como viver duas vezes

alma que vive dentro e fora
na pele que já não existe
nos olhos que enxergam diferente
nos pés de andar experiente
nas mãos manchadas pelo sol

agora que sou parte transformada
delego ao leigo a rota e a sina 
estendo a mão desafiante
e sei que ao menos por um instante
posso fazer oferta honrada
de uma verdade constatada:
o paraíso é logo ali...
atrás

Helenice Priedols

1 de fev de 2015

O Imperador, de Frederick Forsyth

O Imperador

Frederick Forsyth

– E  tem mais uma coisa — disse a Sra. Murgatroyd.
Ao lado dela, no táxi, o marido disfarçou um pequeno suspiro. Com a Sra. Murgatroyd, sempre havia mais uma coisa. Não importava o quanto tudo estivesse correndo bem, Edna Murgatroyd passava pela vida sob o acompanhamento de um rosário de queixas, uma litania interminável de insatisfação. Em suma, ela importunava o marido incessantemente, sem lhe dar um minuto de descanso.
No banco da frente, ao lado do motorista, Higgins, o jovem executivo da matriz, que fora escolhido para a semana de férias à custa do banco, por ter sido considerado “o mais promissor do ano”, permaneceu em silêncio. Trabalhava no setor de câmbio, um jovem ambicioso, a quem eles haviam conhecido no aeroporto de Heathrow, 12 horas antes, cujo entusiasmo natural gradativamente se desvanecera, sob a investida avassaladora da Sra. Murgatroyd.
O motorista creole, cheio de sorrisos e votos de boas-vindas quando escolheram seu táxi para a viagem até o hotel, alguns minutos antes, também ficara rapidamente contagiado pela disposição da passageira no banco traseiro, permanecendo igualmente em silêncio. Embora a sua língua fosse o francêscreole, ele compreendia o inglês perfeitamente. Afinal, a ilha Maurício fora uma colônia britânica por 150 anos.
Edna Murgatroyd continuou a falar, interminavelmente,uma fonte inesgotável de autocomiseração e indignação, alternadamente. Murgatroyd olhava pela janela, enquanto o aeroporto de Plaisance ficava para trás e a estrada seguia para Mahebourg, a antiga capital francesa da ilha, com os fortes em ruínas que haviam tentado defendê-la contra a esquadra britânica em 1810.
Murgatroyd estava fascinado pelo que via. Tomara a decisão de desfrutar plenamente aquelas pequenas férias numa ilha tropical, a primeira aventura verdadeira de sua vida. Antes da viagem, lera dois alentados guias turísticos sobre Maurício e estudara um mapa em larga escala da ilha.
Passaram por uma aldeia, no ponto em que começava a área de cultivo da cana-de-açúcar. Nos alpendres dos chalés àbeira da estrada avistou indianos, chineses e negros, juntamente com os creoles métis, vivendo lado a lado. Templos hindus e santuários budistas erguiam-se a poucos metros de uma capela católica. Murgatroyd soubera, através de leituras, que Maurício era uma mistura de meia dúzia de grupos étnicos principais e quatro grandes religiões. Mas nunca antes vira nada assim, pelo menos convivendo em harmonia.
Passaram por outras aldeias, que não eram ricas e muito menos bem cuidadas. Mas os habitantes sorriram e acenaram. Murgatroyd acenou em resposta. Quatro galinhas esqueléticas pularam freneti­camente diante do táxi, desafiando a morte por poucos centímetros. Quando ele olhou para trás, as galinhasestavam novamente no meio da estrada, bicando uma sobrevivência aparentemente impossível na poeira. O carro diminuía a velocidade ao se aproximar de uma esquina. Um garotinho tâmil saiu de uma cabana, usando bata, parou no meio-fio e levantou a roupa até a cintura. Estava inteiramente nu por baixo. Pôs-se a urinar na estrada, enquanto o táxi passava. Segurando a bata com uma das mãos, ele acenou com a outra. A Sra. Murgatroyd soltou um grunhido e exclamou:
– Mas que coisa repulsiva! — Inclinou-se para a frente e bateu no ombro do motorista, indagando: — Por que ele não vai ao banheiro?
O motorista jogou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada. Virou o rosto em seguida, para responder. O carro fez as duas curvas seguintes por controle remoto.
– Pas de toilette, madame.
– O que isso significa?
– Parece que a estrada é o banheiro — explicou Higgins. — Ela fungou, horrorizada. — Ei, olhem só para o mar! — disse Higgins.
A direita, ao passarem por um pequeno penhasco, o Oceano Índico estendia-se até o horizonte, um azul deslumbrante ao sol da manhã. A cerca de um quilômetro da praia, havia uma linha branca de ondas a se desmancharem, indicando o grande recife que isola Maurício das águas mais turbulentas além. Por dentro dos recifes, a água era serena, de um verde claro, transparente, a tal ponto que se podia avistar claramente os conjuntos de coral, seis metros abaixo. Depois, o táxi tornou a se embrenhar pelos canaviais.
Cinquenta minutos depois, passaram pela aldeia de pescadores de Trou D’Eau Douce. O motorista apontou para a frente.
– Hôtel — disse ele. — Dix minutes.
– Graças a Deus — resmungou a Sra. Murgatroyd. — Eu não aguentaria por muito mais tempo neste calhambeque.
Entraram no caminho do hotel, entre gramados bem cuidados e fileiras de palmeiras. Higgins virou-se para trás com um sorriso, comentando:
– Uma grande distância de Ponder’s End.
Murgatroyd retribuiu o sorriso.
– Tem toda razão.
Não que ele não tivesse motivos para ser grato à comunidade suburbana londrina de Ponder’s End, onde era gerente de filial. Uma fábrica se instalara ali, quase seis meses antes. Num golpe de inspiração, Murgatroyd procurara tanto a direção como os operários, com a sugestão de que podiam atenuar o risco de um assalto ao dinheiro do pagamento, pagando-se os salários semanais em cheque, como se fazia com os executivos. Um pouco para a sua surpresa, quase todos concordaram. Várias centenas de contas novas foram abertas em sua filial. Fora essa manobra bem-sucedida que atraca atenção na matriz. Alguém por lá sugerira um plano de incentivo a executivos regionais e juniores. Murgatroyd fora o escolhido no primeiro ano do plano. O prêmio era uma semana em Maurício, com tudo pago pelo banco.
O táxi finalmente parou diante da grande entrada em arcada do Hotel St. Geran. Dois empregados se adiantaram rapidamente para pegar a bagagem. A Sra. Murgatroyd saltou imediatamente do banco traseiro. Embora tivesse se aventurado apenas duas vezes a leste do estuário do Tâmisa, pois geralmente passavam as férias com a irmã dela em Bognor, a Sra. Murgatroyd começou no mesmo instante a reclamar com os carregadores, como se, numa vida anterior, tivesse a metade da população nativa à sua disposição.
Seguidos pelos carregadores e a bagagem, os três passaram pela entrada em arcada, penetrando no saguão fresco. A Sra. Murgatroyd seguia na vanguarda, o vestido estampado bastante amarrotado do voo e da viagem de táxi.Higgins usava um elegante terno creme tropical, enquanto Murgatroyd estava com um austero terno cinzento. O balcão de recepção ficava à esquerda, guarnecido por um funcionário indiano, que exibiu um sorriso de boas-vindas. Higgins assumiu o comando:
– Sou o Sr. Higgins e meus companheiros são o Sr. Murgatroyd e sua mulher.
O indiano consultou a lista de reservas.
– Aqui estão seus nomes.
Murgatroyd correu os olhos pelo saguão. Era feito de pedras locais, o teto muito alto. Vigas escuras sustentavam o telhado. Estendia-se até as colunas na outra extremidade. Os lados também eram constituídos por colunas, permitindo a passagem de uma aragem fresca. Ao fundo, ele podia ver a claridade intensa do sol tropical, enquanto ouvia os ruídos e gritos de uma piscina em pleno uso. No meio do saguão, à esquerda, havia uma escada de pedra, que presumivelmente levava aos quartos do andar superior. No térreo, outra arcada levava às suítes que ali havia.
De uma sala por trás da recepção emergiu um jovem e louro inglês, de camisa bem passada e uma calça esporte clara.
– Bom-dia— disse ele, sorrindo. — Sou Paul Jones, o gerente- geral.
– Sou Higgins. E esses são o Sr. Murgatroyd e sua mulher.
– São muito bem-vindos — disse Jones. — E agora vou mostrar-lhes seus aposentos.
Um vulto alto e magro aproximou-se pelo saguão. As pernas finas saíam por baixo de um short, uma camisa florida bem folgada caía dos ombros. Não estava de sapatos, mas exibia um sorriso de felicidade e uma lata de cerveja na mão imensa. Parou a vários metros de Murgatroyd e fitou-o de alto a baixo.
– Recém-chegados, hem? — disse ele, com um evidente sotaque australiano.
Murgatroyd ficou aturdido e balbuciou:
– Hã... isso mesmo...
– Qual é o seu nome? — perguntou o australiano, sem a menor cerimônia.
– Murgatroyd — disse o gerente de banco. — Roger Murgatroyd.
O australiano acenou com a cabeça, registrando a informação.
– De onde você é?
Murgatroyd interpretou a pergunta da maneira errada. Pensou que o homem estivesse querendo saber como ele trabalhava. E foi por isso que respondeu:
– Sou de Midland.
O australiano levou a lata de cerveja aos lábios e tomou um gole. Soltou um arroto antes de fazer outra pergunta:
– Quem é ele?
– E Higgins, da matriz.
O australiano sorriu na maior felicidade. Piscou por várias vezes, procurando focalizar melhor. E murmurou:
– Gosto disso. Murgatroyd do Midland e Higgins da matriz.
A esta altura, Paul Jones já vira a intromissão do australiano e saíra de trás do balcão de recepção. Veio pegar o homem pelo cotovelo e afastou-o gentilmente.
Se quiser fazer a gentileza de voltar ao bar, Sr. Foster, para que eu possa instalar confortavelmente os nossos novos hóspedes...
Foster foi levado, gentil mas firmemente, para os fundos do saguão. Ao sair, acenou com a mão cordialmente, gritando:
– Prazer em conhecê-lo, Murgatroyd.
Paul Jones tornou a se juntar aos hóspedes recém-chegados. A Sra. Murgatroyd comentou, em tom gelado de desaprovação:
– Aquele homem estava embriagado.
– Ele está aqui de férias, minha cara—murmurou Murgatroyd.
– Isso não é desculpa. Quem é ele?
– Harry Foster— informou Jones. — De Perth.
– Ele não fala como um escocês — declarou a Sra. Murgatroyd.
– Perth, Austrália—explicou Jones. — E, agora, permitam-me levá-los a seus aposentos.
Murgatroyd contemplou a cena do balcão do quarto com duas camas, no segundo andar. E ficou deliciado. Lá embaixo, um pequeno gramado estendia-se até a areia branca, na qual as palmeiras dispersas projetavam sombras inconstantes, agitadas pela brisa. Dez cabanas abertas, de teto de colmo, proporcionavam uma proteção mais firme. As águas quentes, parecendo leitosas no ponto em que remexia a areia, desmanchavam-se suavemente na praia. Mais além, era de um verde transparente; e ainda mais além parecia azul. A 500 metros de distância, ele pôde divisar a linha dos recifes, onde a água se tornava espumante.
Um rapaz, o rosto cor de mogno por baixo dos cabelos louros, praticava windsurfe, a uma centena de metros da praia. Equilibrado na pequena prancha, ele virava a vela na direção do vento, deslizando pela superfície da água sem qualquer esforço. Duas crianças bronzeadas, de cabelos e olhos pretos, brincavam na água rasa, gritando alegremente. Um europeu de meia-idade, barrigudo, o corpo brilhando de água, saía do mar em pés-de-pato, segurando a máscara e o respirador.
– Por Deus, há tanto peixe aqui que nem dá para acreditar! — gritou ele, com um sotaque sul-africano, para uma mulher que estava na sombra.
À direita de Murgatroyd, perto do prédio principal, homens e mulheres, envoltos em pareôs, seguiam para o bar da piscina, afim de tomarem um drinque gelado antes do almoço.
– Vamos dar um mergulho — sugeriu Murgatroyd.
– Poderemos fazer isso mais cedo, se você me ajudar a arrumar as coisas.
– Deixe isso para depois. Só precisamos agora das roupas de banho, pelo menos até a hora do almoço.
– De jeito nenhum! — protestou a Sra. Murgatroyd. — Não pretendo almoçar como uma nativa. Aqui estão o seu short e sua camisa.
Em dois dias, Murgatroyd integrara-se no ritmo da vida de férias nos trópicos. Ou pelo menos na medida em que lhe era permitido. Levantava cedo, como sempre fazia, mesmo quando estava em casa. Mas em vez de ser saudado pela perspectiva de ruas molhadas além das cortinas, sentava-se no balcão e ficava contemplando o sol se levantar do Oceano Índico, além dos recifes, fazendo as águas escuras e serenas brilharem subitamente, como vidro estilhaçado. Às sete horas ele descia para nadar um pouco, deixando Edna Murgatroyd na cama, com rolinhos nos cabelos, reclamando da lentidão no serviço do café da manhã, que, na verdade, era extremamente rápido e eficiente.
Ele passava uma hora na água quente. Em determinada ocasião, chegou a nadar quase 200 metros além da praia, ficando surpreso com a própria audácia. Nunca fora um grande nadador, mas estava melho­rando rapidamente. Felizmente, a mulher não testemunhou a façanha, pois ela estava convencida de que tubarões e barracudas infestavam a enseada e nada era capaz de convencê-la que tais animais não podiam atravessar os recifes, que toda aquela área era tão segura quanto uma piscina.
Murgatroyd começou a tomar o café da manhã no terraço ao lado da piscina, juntando-se aos outros hóspedes madrugadores na escolha de melões, mangas e papaias, esquecendo os ovos com bacon, apesar de constarem do cardápio. Àquela hora, a maioria dos homens estava de calção e camisa de praia, enquanto as mulheres usavam túnicas de algodão ou pareôs por cima dos biquínis. Murgatroyd apegava-se a seus shorts, que desciam até os joelhos, e camisas detênis, que trouxera da Inglaterra. A mulher se encontrava com ele na cabana de teto de colmo pouco antes das 10 horas, iniciando uma sucessão interminável de exigências de refrigerantes e aplicação de loção de bronzear, embora quase nunca se expusesse aos raios solares.
Ocasionalmente, ela baixava o corpo rosado na piscina do hotel, uma touca de babados protegendo a ondulação permanente. Nadava lentamente por alguns metros e logo saía da piscina.
Higgins, ficando sozinho, logo envolveu-se com um outro grupo de ingleses bem mais jovens. Os Murgatroyds quase nunca o encontravam. Higgins considerava-se um homem avançado e comprou na boutique do hotel um chapéu de palha de aba larga, como o que vira Hemingway usar numa fotografia. Também passava o dia de calção e camisa, aparecendo para jantar vestido com os outros, de calça esporte clara e blusãosafári, de bolsos no peito. Depois do jantar, ele ia para o cassino ou a discoteca. E Murgatroyd ficava imaginando como seriam tais lugares.
Infelizmente, Harry Foster não guardara para si mesmo o seu senso de humor. Para os sul-africanos, australianos e britânicos, que constituíam o grosso da clientela, Murgatroyd do Middland tornou-se rapidamente conhecido. Higgins, no entanto, deu um jeito de perder o rótulo “da Matriz”, através da assimilação dos hábitos locais. Invo­luntariamente, Murgatroyd tornou-se bastante popular. Ao atravessar o pátio na hora do café da manhã, de short comprido e sapatos de lona com solas de borracha, despertava alguns sorrisos e gritos joviais de “Bom-dia, Murgatroyd”.
Encontrava-se de vez em quando com o inventor de seu rótulo. Harry Foster acenou-lhe por diversas vezes na passagem, absorvido numa nuvem pessoal. A mão direita parecia se abrir apenas para largar uma cerveja e pegar outra. A cada vez, o jovial australiano sorria efusivamente, levantava a mão livre num cumprimento e gritava:
– Prazer em vê-lo, Murgatroyd.
Na terceira manhã, Murgatroyd saiu do mar depois do mergulho após a primeira refeição e foi se acomodar na cabana, apoiando as costas na estaca central. Olhou ao redor. O sol estava bem alto agora, o calor aumentava rapidamente, embora ainda fosse nove e meia. Murgatroyd examinou o seu corpo, que estava adquirindo uma tona­lidade atraente de lagosta, apesar de todas as precauções e das adver­tências da mulher. Invejava as pessoas que conseguiam adquirir um bronzeado saudável a curto prazo. Ele sabia que a solução era manter o bronzeado, depois de adquirido, não revertendo ao branco de mármore entre as férias. Só que não havia a menor possibilidade em Bognor, pensou ele. As últimas três férias que lá haviam passado apenas lhes proporcionaram céus cinzentos e quantidades variáveis de chuva.
As pernas projetavam-se do calção grande, finas e cabeludas. Eram encimadas por uma barriga estofada. Os músculos do peito estavam flácidos. Anos sentados a uma mesa haviam lhe ampliado o traseiro, enquanto os cabelosescasseavam. Os dentes ainda eram todos seus e usava óculos apenas para ler, numa dieta que consistia quase que exclusivamente de relatórios de companhias e contas bancáriasboutique do hotel um chapéu de palha de aba larga, como o que vira Hemingway usar numa fotografia. Também passava o dia de calção e camisa, aparecendo para jantar vestido com os outros, de calça esporte clara e blusão safári, de bolsos no peito. Depois do jantar, ele ia para o cassino ou a discoteca. E Murgatroyd ficava imaginando como seriam tais lugares.
Infelizmente, Harry Foster não guardara para si mesmo o seu senso de humor. Para os sul-africanos, australianos e britânicos, que constituíam o grosso da clientela, Murgatroyd do Middland tornou-se rapidamente conhecido. Higgins, no entanto, deu um jeito de perder o rótulo “da Matriz”, através da assimilação dos hábitos locais. Invo­luntariamente, Murgatroyd tornou-se bastante popular. Ao atravessar o pátio na hora do café da manhã, de short comprido e sapatos de lona com solas de borracha, despertava alguns sorrisos e gritos joviais de “Bom-dia, Murgatroyd”.
Encontrava-se de vez em quando com o inventor de seu rótulo. Harry Foster acenou-lhe por diversas vezes na passagem, absorvido numa nuvem pessoal. A mão direita parecia se abrir apenas para largar uma cerveja e pegar outra. A cada vez, o jovial australiano sorria efusivamente, levantava a mão livre num cumprimento e gritava:
– Prazer em vê-lo, Murgatroyd.
Na terceira manhã, Murgatroyd saiu do mar depois do mergulho após a primeira refeição e foi se acomodar na cabana, apoiando as costas na estaca central. Olhou ao redor. O sol estava bem alto agora, o calor aumentava rapidamente, embora ainda fosse nove e meia. Murgatroyd examinou o seu corpo, que estava adquirindo uma tona­lidade atraente de lagosta, apesar de todas as precauções e das adver­tências da mulher. Invejava as pessoas que conseguiam adquirir um bronzeado saudável a curto prazo. Ele sabia que a solução era manter o bronzeado, depois de adquirido, não revertendo ao branco de mármore entre as férias. Só que não havia a menor possibilidade em Bognor, pensou ele. As últimas três férias que lá haviam passado apenas lhes proporcionaram céus cinzentos e quantidades variáveis de chuva.
As pernas projetavam-se do calção grande, finas e cabeludas. Eram encimadas por uma barriga estofada. Os músculos do peito estavam flácidos. Anos sentados a uma mesa haviam lhe ampliado o traseiro, enquanto os cabelosescasseavam. Os dentes ainda eram todos seus e usava óculos apenas para ler, numa dieta que consistia quase que exclusivamente de relatórios de companhias e contas bancárias.
O rugido de um motor espalhou-se pela água. Murgatroyd levan­tou a cabeça e avistou uma pequena lancha aumentando a velocidade. Uma corda pendia na esteira da lancha, uma cabeça boiando na água ao final. Enquanto Murgatroyd observava, a corda ficou subitamente esticada e o esquiador emergiu da água, um jovem hóspede do hotel, espalhando espuma para os lados, deslizando pela água. Usava um único esqui, um pé na frente do outro, deixando para trás uma esteira de espuma. O homem na lancha virou a roda do leme e o esquiador descreveu uma grande curva, passando perto da praia, diante de Murgatroyd. Os músculos retesados, o corpo se equilibrando contra as ondulações produzidas pela lancha, ele parecia esculpido em carvalho. O som de sua risada triunfante estendeu-se pela água, enquanto a lancha aumentava a velocidade. Murgatroyd ficou contemplando e invejando o rapaz.
Sabia que, aos 50 anos, era baixo, gordo e fora de forma, apesar das tardes de verão no clube de tênis. Faltavam apenas quatro dias para o domingo, quando ele embarcaria num avião e iria embora, para nunca mais voltar. Provavelmente passaria mais dez anos em Ponder’s End e depois se aposentaria, talvez indo viver em Bognor.
Ele olhou ao redor e divisou uma moça andando pela praia, à sua esquerda. A boa educação deveria impedi-lo de ficar olhando para a moça. Mas ele não pôde evitar. Ela estava descalça, caminhava empertigada, com a graça intensa das moças da ilha. A pele era de um dourado intenso, sem a ajuda de óleos ou loções. Usava um pareô branco de algodão, com desenhos em vermelho, amarrado sob o braço esquerdo e caindo até pouco abaixo dos quadris. Murgatroyd calculou que ela devia estar usando alguma coisa por baixo. Uma lufada de vento grudou o pareô no corpo, delineando por um mo­mento os seios firmes e a cintura estreita. Mas logo o vento se desvaneceu e o algodão se separou do corpo.
Murgatroyd percebeu que se tratava de uma creole clara, de olhos escuros, malares salientes, cabelos escuros lustrosos,que caíam em ondas pelas costas. Ao passar por ele, a moça virou-se e presenteou alguém com um sorriso feliz. Murgatroyd ficou aturdido. Não sabia que havia mais alguém por ali. Olhou ao redor, frenetica­mente, procurando a pessoa para quem a moça sorrira. Só que não havia ninguém. Quando ele tornou avirar-se para o mar, a moça sorriu outra vez, os dentes brancosrebrilhando ao sol da manhã. Ele tinha certeza de que não haviam sido apresentados. Portanto, o sorriso devia ser espontâneo. Para um estranho. Murgatroyd tirou os óculos e retribuiu o sorriso, gritando:
– Bom-dia.
– Bonjour, m’sieu.
A moça seguiu adiante e Murgatroyd continuou a observá-la. Os cabelos escuros desciam até os quadris, que ondulavam gentilmente sob o algodão branco.
– Para começar, pode parar de pensar nessas coisas — disse uma voz por trás dele.
A Sra. Murgatroyd chegara e estava também olhando para a moça que se afastava.
– Que garotinha vulgar! — acrescentou ela, sentando-se à sombra em seguida.
Dez minutos depois, Murgatroyd olhou para a mulher. Ela estava absorvida em mais um romance histórico, de uma autora popular, dos quais trouxera um amplo suprimento. Murgatroyd olhou novamente para o mar, imaginando como era possível que a mulher demonstrasse um apetite tão insaciável pelo romance de ficção, ao mesmo tempo em que o desaprovava intensamente na vida real. Era uma indagação que já se fizera muitas vezes antes. O casamento deles jamais se destacara por um amor ardente, mesmo nos primeiros dias, antes da mulher declarar que desaprovava aquele tipo de coisa e que ele estava redondamente enganado se pensava que havia alguma necessidade de insistir. Desde então, por mais de 20 anos, Murgatroyd ficara escravizado a um casamento sem amor, o tédio sufocante só animado ocasionalmente por uma aversão intensa.
Certa ocasião, ouvira alguém dizer a outro sócio, no vestiário do clube de tênis, que ele já deveria ter dado uma surra na mulher há muitos anos. Murgatroyd ficara furioso naquele momento, pensando inclusive em sair de trás dos armários e censurar com veemência o autor do comentário. Mas se controlara, reconhecendo que o homem provavelmente estava certo. O problema era que ele nunca fora o tipo de homem de dar uma surra em quem quer que fosse. Além do mais, duvidava muito que isso fosse melhorar sua mulher de alguma forma. Sempre fora sossegado e manso, mesmo quando rapaz. Era perfeita­mente capaz de dirigir um banco, mas em casa a mansidão degenerara em passividade e depois em submissão. O fardo dos pensamentos íntimos acabou por se manifestar num suspiro prolongado.
Edna Murgatroyd fitou-o por cima dos óculos e disse:
– Se está com gases, é melhor tomar logo um remédio.
Foi ao final da tarde de sexta-feira que Higgins abordou-o no saguão, enquanto ele esperava que a mulher saísse do banheiro.
– Preciso falar com você.... a sós — sussurrou Higgins, pelo canto da boca, com um ar furtivo suficiente para atrair as atenções gerais por quilômetros ao redor Não pode falar aqui?
– Não — sussurrou Higgins, contemplando umasamambaia.
– Sua mulher pode voltar a qualquer momento. Siga-me.
Ele afastou-se com uma exibição ostensiva de indiferença, avan­çando vários metros pelo jardim, indo postar-se atrás de uma árvore, na qual se encostou e ficou esperando. Murgatroyd foi atrás dele.
– Qual é o problema? — perguntou ele, ao alcançarHiggins, na escuridão do jardim.
Higgins olhou para o saguão iluminado, afim de certificar-se que a cara-metade de Murgatroyd não o estava seguindo.
– O negócio é uma pescaria em alto-mar—disse ele finalmente.
– Já fez alguma?
– Claro que não.
– Nem eu. Mas gostaria muito. Por uma vez que fosse. Só para experimentar. Três empresários de Johannesburgreservaram um barco para amanhã de manhã. Mas não poderão mais sair. O barco está disponível, com a metade do custo paga. porque eles perderam o direito ao depósito adiantado. O que acha da ideia? Vamos aprovei­tar?
Murgatroyd ficou surpreso por ter sido convidado. E perguntou:
– Por que não procura dois companheiros do grupo com quem está se divertindo?
Higgins deu de ombros.
– Eles preferem passar o último dia com suas garotas e elas não querem ir. Vamos experimentar, Murgatroyd.
– Quanto custa?
– Normalmente, o preço é de cem dólares por cabeça. Mas como a metade do custo já foi paga, dá apenas 50 dólares para cada um.
– Por algumas horas? Isso dá 25 libras.
– Exatamente 25 libras e 75 pence — disse Higgins,automati­camente, pois trabalhava em câmbio.
Murgatroyd fez alguns cálculos rápidos. Com o táxi de volta ao aeroporto e as várias despesas extras para levá-lo até sua casa em Ponder’s End, só lhe restava pouco mais do que essa quantia. O saldo seria requisitado pela Sra. Murgatroyd para compras livres de impos­tos e presentes para a irmã em Bognor. Ele sacudiu a cabeça.
– Edna jamais concordaria.
– Não conte a ela.
– Não contar?
Murgatroyd ficou consternado com a ideia, mas Higginsinsistiu:
– Isso mesmo. — Ele inclinou-se para a frente e Murgatroyd pôde sentir o cheiro de álcool. — Ela fará o diabo depois, mas isso sempre acontece, de qualquer maneira. Pense nisso. Provavelmente nunca mais voltaremos aqui. Provavelmente nunca mais tornaremos a ver o Oceano Índico. Sendo assim, por que não?
– Não sei...
– Será apenas uma manhã em alto-mar, numa pequena embar­cação O vento em seus cabelos, as linhas estendidas para o bonito, atum e papa-terra. Podemos até pegar um peixe. Na pior das hipóte­ses, será uma aventura para contarmos a todos os amigos e conheci­dos, quando voltarmos a Londres.
Murgatroyd empertigou-se. Estava pensando no rapaz do esqui, deslizando pela água.
– Está certo — disse ele. — Pode contar comigo. Quando vamos sair?
Ele pegou a carteira e tirou três cheques de viagem no valor de 10 libras cada um, deixando apenas mais dois. Assinou na última linha e entregou a Higgins.
– Vamos partir bem cedo — sussurrou Higgins. — Temos de nos levantar às quatro horas da madrugada. Saímos daqui de carro às quatro e meia. Chegamos no porto às cinco horas. Zarpamos quando faltarem 15 minutos para seis horas, afim de chegarmos aos pesquei­ros pouco antes das sete horas. É a melhor ocasião, ao amanhecer. O gerente de atividades especiais do hotel vai nos acompanhar. Ele sabe de tudo. Tornaremos a nos encontrar no saguão, às quatro e meia.
Ele voltou para o saguão e encaminhou-se para o bar. Murga­troyd seguiu-o, espantado com a própria ousadia. Encontrou a mu­lher a esperá-lo, irritada. Acompanhou-a ao restaurante.
Murgatroyd quase não dormiu naquela noite. Embora tivesse um pequeno despertador, não se atreveu a usá-lo, com receio de que a mulher pudesse acordar. Também não podia dormir demais e deixar que Higgins batesse na porta às quatro e meia. Cochilou por diversas vezes, até que viu os ponteiros luminosos se aproximando das quatro horas. Além das cortinas, a escuridão ainda era total.
Ele saiu da cama sem fazer qualquer barulho e olhou para a Sra. Murgatroyd. Ele estava de costas, como sempre, respirando ruido­samente, o arsenal de rolinhos mantidos no lugar por uma rede. Ele largou o pijama na cama silenciosamente e vestiu a cueca. Pegou os sapatos de lona, oshort e a camisa, saiu do quarto e fechou a porta. Terminou de vestir-se no corredor às escuras, estremecendo com o frio inesperado.
No saguão, encontrou Higgins e o guia, um sul-africano alto e magro, chamado André Kilian, que estava encarregado de todas as atividades esportivas para os hóspedes. Kilian olhou para os trajes dele e disse:
– Faz muito frio no mar antes do amanhecer e fica terrivel­mente quente depois que o sol aparece. O sol pode fritá-lo por lá. Não tem uma calça comprida e um blusão de mangas compridas?
– Não pensei que fosse necessário — murmurou Murgatroyd. – De qualquer forma, não tenho.
Ele não se atrevia a voltar ao quarto agora.
– Tenho um de sobra — disse Kilian, entregando-lhe um pulô­ver. — Vamos embora.
Viajaram por 15 minutos pelos campos às escuras, passando por cabanas em que uma luz indicava que alguém mais já estava desperto. Saíram finalmente da estrada principal para o pequeno porto de Trou d’Eau Douce, a Enseada da Água Doce, assim chamado por algum capitão francês há muito desaparecido, que devia ter encontrado uma fonte de água potável ali. As casas da aldeia estavam às escuras e silenciosas, mas Murgatroyd pôde divisar os contornos de uma em­barcação no porto, com vultos trabalhando no convés, à luz de tochas. Pararam perto do cais de madeira. Kilian tirou um frasco de café quente do porta-luvas e ofereceu-o. O café caiu agradavelmente.
O sul-africano saltou do carro e foi até o barco atracado. Trechos de conversa em voz baixa, em francês creole, flutuaram até o carro. É estranho como as pessoas sempre falam em voz baixa na escuridão que antecede o amanhecer.
Ele voltou dez minutos depois. Havia agora uma listra pálida no horizonte a leste, umas poucas nuvens baixas brilhando debilmente por lá.
– Podemos embarcar agora— comunicou Kilian.
Ele pegou uma caixa refrigerada na traseira do carro, que mais tarde proporcionaria a cerveja gelada. Levou-a para o cais, junto com Higgins. Murgatroyd levou as mochilas com o lanche e mais dois frascos de café.
O barco não era um dos modelos novos, luxuosos, de fibra de vidro, mas sim uma velha embarcação, de casco de madeira e convés de tábuas de compensado. Tinha uma pequena cabine perto da proa, que parecia estar apinhada com os equipamentos mais diversos. A estibordo da porta da cabine havia uma cadeira estofada, de frente para a roda do leme e os controles básicos. Essa área era coberta. A área posterior era descoberta, com bancos de madeira nos dois lados. Na popa havia uma cadeira giratória, como as que se pode encontrar num escritório, só que esta tinha diversas correias pendendo soltas e estavaaparafusada ao convés.
Nos lados do convés de popa havia duas varas projetando-se para fora, inclinadas. Murgatroyd pensou a princípio que fossem caniços de pesca, mas soube posteriormente que eramoutriggers para evitar que as linhas se emaranhassem.
Um velho estava sentado na cadeira do comandante, uma das mãos na roda do leme, observando em silêncio os últimos preparati­vos. Kilian ajeitou a caixa com a cerveja debaixo de um banco e gesticulou para que os outros sentassem. Um garoto mal entrado na adolescência desprendeu o cabo de atracação da popa e jogou-o no convés. Um aldeão fez a mesma coisa na proa e depois empurrou o barco para longe do cais. O velho ligou os motores e se pôde sentir um tremor intenso sob os pés. O barco virou a proa lentamente.
O sol subia depressa agora, estando apenas um pouco abaixo da linha do horizonte. Murgatroyd podia ver claramente agora as casas da aldeia, à beira da enseada, a fumaça se elevando, enquanto as mulheres preparavam o café da manhã. Mais alguns minutos e as últimas estrelas se desvaneceram. O céu adquiriu uma tonalidade azul-clara, hastes de luz projetaram-se pela água. Uma brisa repen­tina, procedendo de lugar nenhum e indo para lugar nenhum, agitou a superfície da enseada, fazendo com que a luz se rompesse em frag­mentos prateados. E logo a brisa desapareceu. A superfície voltou a ficar serena, rompida apenas pela longa esteira do barco, saindo da proa e estendendo-se até o cais. Murgatroyd olhou para o lado e pôde divisar as formações de corais, a quatro braças de profundidade.
– E agora vou fazer as apresentações. — Com a claridade aumentando, a voz de Kilian soava mais forte. — Este barco é oAvant, que em francês significa Para Frente. É velho, mas firme como um rochedo; já contribuiu para se pegar muitos peixes. O capitão é Monsieur Patient e esse é o seu neto, Jean-Paul,
O velho virou-se e acenou com a cabeça, cumprimentando os passageiros. Ele vestia uma camisa azul de lona e uma calça igual, da qual saíam os pés descalços e curtidos. O rosto era escuro e encarqui­lhado, como uma nogueira velha, encimado por um velho chapéu. Contemplava o mar com olhos envoltos por coroas de rugas, de uma vida inteira observando as águas de uma claridade intensa.
– Monsieur Patient vem pescando nestas águas pelo menos há 60 anos — disse Kilian. — Nem ele próprio sabe com certeza há quanto tempo e ninguém mais é capaz de lembrar. Conhece o mar e conhece o peixe. Esse é o segredo para apanhá-lo.
Higgins tirou uma câmara da sacola a tiracolo e disse:
– Eu gostaria de tirar uma foto.
– Acho melhor esperar alguns minutos — sugeriu Kilian. — E segure-se firme. Estaremos passando pelos recifes daqui a pouco.
Murgatroyd olhava fixamente para os recifes que se aproxima­vam. Do balcão do seu quarto no hotel, parecia aprazível, a espuma como leite. De perto agora, no entanto, podia ouvir o rumor das ondas a se chocarem contra as formações de coral, desfazendo-se nas pontas afiadas que afloravam logo abaixo da superfície. Ele não conseguiu divisar qualquer abertura na linha dos recifes.
Pouco antes de chegar à linha dos recifes, o velho Patient deu uma guinada para a direita na roda do leme. O Avant ficou paralelo à espuma branca, a cerca de 20 metros de distância. E de repente ele avistou o canal. Ficava entre duas formações de coral que se esten­diam paralelas, com uma passagem estreita separando-as. Cinco segundos depois, estavam no canal, com ondas à esquerda e à direita, avançando paralelos à praia, para leste. Quando as ondas se esbatiam, o Avant sacudia-se todo.
Murgatroyd olhou para baixo. Havia ondas espumantes nos dois lados agora. Mas quando a espuma se retirava, no seu lado, podia divisar a formação de coral, a três metros de distância, parecendo muito frágil, mas afiada como navalha ao contato. Bastava roçar e era capaz de cortar ao meio barco ou homem, com uma facilidade desdenhosa. O capitão parecia nem estar olhando. Continuava sentado, uma das mãos na roda do leme, a outra na alavanca de controle, olhando fixamente para a frente através do para-brisa, como se recebesse sinais de algum farol no horizonte, que apenas ele conhecia. Ocasionalmente, ele dava uma guinada na roda ou empurrava a alavanca para a frente, aumentando a velocidade e fazendo com que o Avantescapasse a alguma nova ameaça. Murgatroyd podia ver apenas as ameaças, que passavam, frustradas, diante de seus olhos.
Tudo acabou em 60 segundos que pareceram uma eternidade. À direita, a linha dos recifes continuava. No lado esquerdo, porém, terminava abruptamente. Haviam passado pela abertura. O coman­dante do Avant virou a roda do leme, apontando a proa para alto-mar. No mesmo instante, foram apanhados pela terrível ondulação do Oceano Índico. Murgatroyd compreendeu que aquele não era um barco para homens de estômago delicado e rezou para não se desgraçar.
– Observou bem aquele maldito coral, Murgatroyd? — indagou Higgins.
Kilian sorriu.
– Uma coisa espetacular, não é mesmo? Querem café?
– Acho que gostaria agora de algo mais forte — comentou Higgins.
– Pensamos em tudo — informou Kilian. — Há conhaque aqui dentro.
Ele destampou o segundo frasco térmico. O garoto começou a preparar os caniços. Eram quatro, que ele tirou da cabine, caniços resistentes, de fibra de vidro, com cerca de dois metros e meio de comprimento, o meio metro inferior envolto em cortiça, para que se pudesse pegar mais firmemente. Cadacaniço tinha uma imensa carre­tilha, contendo 800 metros de linha de náilon. As pontas eram de latão, com uma depressão no meio para se ajustar aos encaixes na amurada, a fim de não girar. O garoto ajeitou cada caniço em seu encaixe, prendendo com cordas, para que não caíssem no mar.
A primeira beirada do sol ergueu-se do oceano e espalhou seus raios pelo mar revolto. Em poucos minutos, a água escura tornou-se azul, ficando mais clara e verde à medida que o sol subia.
Murgatroyd equilibrou-se contra o balanço do barco, enquanto tentava tomar o café, observando fascinado os preparativos que o garoto fazia. Ele pegou numa mesa vários pedaços de fio de aço, de comprimentos diversos, e uma seleção de iscas diferentes. Algumas pareciam como filhotes rosas ou verdes de lula, feitas em borracha mole. Havia penas de frango vermelhas e brancas, iscas que faisca­vam na água a fim de atrair as atenções de predadores. Havia também chumbadas grossas, em formato de charuto, com um gancho na ponta, por onde se prendiam na linha.
O garoto perguntou alguma coisa em creole ao avô e o velho grunhiu uma resposta. O garoto selecionou duas iscas de lula, uma pena e uma isca que lembrava uma colher. Cada uma tinha um fio de aço a prendê-la, com cerca de um palmo de comprimento, tendo um ou três anzóis na outra extremidade. Havia também em cada anzol uma chumbada, a fim de manter a isca logo abaixo da superfície, enquanto corria pela água. Kilian notou as iscas que estavam sendo usadas e explicou:
– Aquela spinner, a que está faiscando, serve para pegar alguma barracuda. As lulas e a pena servem para os dourados e bonitos, talvez mesmo um grande atum.
Monsieur Patient alterou subitamente o curso e todos se inclina­ram para descobrir o motivo. Não havia nada à frente, até o horizonte. Sessenta segundos depois, no entanto, eles divisaram o que o velho já havia percebido. Ao longe, pássaros marinhos mergulhavam e circulavam sobre o mar, pequenos pontos prateados na distância.
– São trinta-réis — explicou Kilian. — Avistaram um cardume de peixes pequenos e estão mergulhando para pegá-los.
– E nós estamos interessados em peixes pequenos? — indagou Higgins.
– Claro que não. Mas outros peixes estão. Os pássaros constituem o nosso aviso do cardume. Mas o bonito caça espadilha e o mesmo acontece com o atum.
O capitão virou-se e acenou com a cabeça para o garoto, que começou a lançar as linhas preparadas na esteira do barco. Enquanto cada uma balançava freneticamente na espuma, o garoto desprendia a carretilha a que estava ligada, deixando-a rodar livremente. A isca e a chumbada se afastavam pela esteira, até desaparecerem por completo. Q garoto deixou a linha correr, até ter certeza de que estava a mais de 30 metros do barco. Depois, tornou a trancar a carretilha. A ponta docaniço inclinou-se ligeiramente, aguentando a pressão e pondo-se a rebocar a isca. Em algum ponto muito além, na água esverdeada, as iscas e os anzóis estavam correndo firmemente logo abaixo da superfície, como um peixe a nadar velozmente.
Havia dois caniços em encaixes na popa do barco, um no canto - esquerdo, outro no direito. Os dois restantes estavam em encaixes nos lados. As linhas estavam presas a argolas grandes, ajustadas no alto dos outriggers. O garoto passara a linha por essas argolas, abertas, antes de lançá-la ao mar. Prendera depois as argolas no alto dos outriggers. A inclinação dos outriggers evitaria que as linhas externas se misturassem com as internas, todas correndo paralelas pela água. Se um peixe mordesse a isca e houvesse um puxão, a linha se soltaria da argola. A pressão seria diretamente da carretilha para o peixe.
– Algum de vocês já pescou antes? — indagou Kilian. — Murgatroyd e Kilian sacudiram a cabeça e ele então acrescentou:
– Neste caso, é melhor eu mostrar o que acontece quando um peixe morde a isca. Não vai demorar a acontecer. Venham dar uma olhada.
O sul-africano sentou na cadeira de pescaria e pegou um dos caniços.
– Quando um peixe morde a isca, a linha é bruscamente puxada pela carretilha, que emite um grito estridente. E assim que sabemos. Quando isso acontece, o homem que está na vez senta aqui e Jean Paul ou eu lhe entregamos o caniço.Entendido?
Os ingleses assentiram.
– A ponta do caniço é colocada neste encaixe entre as coxas. Prende-se o caniço em seguida à cadeira, com esta corda. Assim, se o caniço for arrancado das mãos de quem estiver pescando no momento, não o perderemos e o resto do equipamento. E agora olhem para isto aqui...
Kilian apontou para uma roda de latão com aros, no lado da carretilha. Murgatroyd e Higgins acenaram com a cabeça.
– Este é o controle. No momento, está armado para uma pressão muito leve, em torno de três quilos. Assim, quando o peixe morde a isca, a linha vai correr. A carretilha gira rapidamente e o som que produz se assemelha a um grito. Quando um de vocês estiver em posição... e é melhor fazê-lorapidamente, pois assim terá de puxar menos linha depois... deve empurrar o controle para a frente, bem devagar, deste jeito. O efeito é endurecer a carretilha, até que a linha para de correr. O peixe passa a ser rebocado pelo barco, ao invés de ficar puxando a linha.
Kilian fez uma pausa, olhando para os dois ingleses, antes de continuar:
– Depois disso, começa-se a recolher o peixe. Segurem na cortiça aqui com a mão esquerda e rodem a carretilha. Se estiver muito pesado, segurem na cortiça com as duas mãos e levantem o caniço, até colocá-lo na vertical. Baixem então a mão direita para a carretilha e comecem a enrolar a linha, ao mesmo tempo em que descem lentamente a ponta do caniço, na direçãoda popa. Isso facilita tudo. Se necessário, repitam o processo, segurando na cortiça comas duas mãos, suspendendo o caniço, inclinando para afrente em seguida, ao mesmo tempo em que recolhem a linha. Acabarão vendo o peixe surgir na espuma por trás da popa. O garoto vai então arpoar o peixe e puxá-lo para bordo.
– O que representam as marcações na carretilha? — perguntou Higgins.
– Indicam o máximo de pressão possível — informou Kilian.— Estas linhas têm uma tensão máxima de 60 quilos. Com a linha molhada, podem fazer uma redução de 10 por cento. Como medida de segurança, a carretilha está armada de forma a que, quando as marcas opostas estiverem no mesmo ponto, só dê linha quando a pressão na outra extremidade for de 45 quilos. Mas aguentar uma pressão de 45 quilos por muito tempo, para não falar de puxá-lo, é suficiente para quase lhes arrancar os braços fora. Assim, acho que não precisamos nos preocupar com isso.
– Mas o que acontece se pegarmos um peixe grande? — insistiu Higgins.
– Neste caso, a única coisa a fazer é tentar cansá-lo — respon­deu Kilian. — É o momento em que a batalha começa. E preciso dar linha, depois puxar, dar mais linha, puxar novamente, assim por diante, até que o peixe esteja tão exausto que não possa mais fazer força. Mas cuidaremos disso, se acontecer.
Enquanto ele falava, o Avant alcançou a área sobrevoada pelas aves marinhas, tendo percorrido a distância de cincoquilômetros em 30 minutos. Monsieur Patient reduziu a velocidade e foram deslizando através do cardume invisível lá em baixo. As pequenas aves circulavam incansavelmente a seis ou sete metros acima do mar, cabeças abaixadas, asas esticadas, até que os olhos aguçados divisavam algum brilho entre as colinas de água. Mergulhavam então, as asas esticadas para trás, o bico penetrando primeiro na água. Um segundo depois, a mesma ave emergia com uma mancha prateada a se debater no bico e desaparecendo pela goela um instante mais tarde. A busca daquelas aves era tão interminável quanto sua energia.
– Vamos decidir quem fica com o primeiro peixe, Murgatroyd – disse Higgins. — Vamos tirar a sorte.
Ele tirou uma rupia mauriciana do bolso. A moeda foi jogada para o alto e Higgins ganhou. Poucos segundos depois, um dos caniços interiores balançou violentamente. A carretilha emitiu um som que elevou-se de um ganido para um grito alto.
– É meu! — berrou Higgins, deliciado, acomodando-se rapi­damente na cadeira giratória,
Jean-Paul entregou-lhe o caniço, a linha ainda se desenrolando, só que mais devagar agora. Higgins ajeitou a ponta do caniço no encaixe e prendeu-o com a corda na cadeira. Depois, começou a fechar o controle da carretilha. A linha que se desenrolava parou quase que no mesmo instante. A ponta do caniço se inclinou. Segurando na cortiça com a mão esquerda, Higgins começou a rodar a carretilha, recolhendo a linha, com a mão direita. O caniço inclinou- se mais um pouco, mas ele continuou a recolher a linha.
– Posso sentir a pressão na linha! — balbuciou Higgins.
Ele continuou a girar a carretilha. A linha era recolhida sem qualquer objeção. Jean-Paul inclinou-se sobre a popa. Pegando a linha, ele suspendeu um pequeno peixe prateado para bordo,
– Um bonito, com quase dois quilos — comentou Kilian.
O garoto pegou um alicate e tirou o anzol da boca do bonito. Murgatroyd viu que por cima da barriga prateada o peixe era listrado, em azul e preto, como uma cavala. Higgins parecia desapontado. A nuvem de trinta-réis ficou para trás. Tinham passado pelo cardume. Passava um pouco das oito horas e o convés estava esquentando, embora ainda fosse bastante agradável. Monsieur Patient virou o Avant lentamente, descrevendo um círculo, a fim de voltar para o meio do cardume e a nuvem de aves a sobrevoá-lo, enquanto o neto tornava a lançar a isca e o anzol no mar, para outra tentativa.
– Talvez possamos comê-lo no almoço — disse Higgins.
Kilian sacudiu a cabeça, com uma expressão pesarosa, e explicou:
– O bonito serve para isca. Os nativos comem em sopa, mas o gosto não é dos melhores.
Passaram novamente pelo cardume e outro peixe mordeu a isca. Murgatroyd pegou o caniço com uma emoção intensa. Era a primeira vez que fazia aquilo e talvez nunca mais tornasse a fazer. Quando segurou na cortiça, pôde sentir a pressão do peixe 70 metros abaixo, como se estivesse bem perto dele. Empurrou para a frente o controle da carretilha, lentamente, até que a linha de correr ficou imóvel e silenciosa. A ponta do caniçocurvou-se para a frente, na direção do mar. Com o braço esquerdo, aguentou a pressão, ficando surpreso com a força que era necessária para recolher a linha.
Retesando os músculos do braço esquerdo, ele começou a girar a carretilha metodicamente, com a mão direita. Foi recolhendo a linha, mas com um grande esforço. A força que puxava no outro lado surpreendeu-o. Talvez fosse um peixe grande, pensou ele, um peixe até muito grande. Compreendeu que era justamente essa a emoção. Nunca saber com certeza como era o gigante das profundezas que estava lutando freneticamente na esteira do barco. E se não fosse grande coisa, algo como o bonito que Higgins já pescara, então o próximo poderia ser um monstro. Murgatroyd continuou a girar acarretilha lentamente, sentindo o peito arfar com o esforço. Quando o peixe estava a 200 metros do barco, pareceu desistir abruptamente. Murgatroyd recolheu o resto da linha com a maior facilidade. Pensava ter perdido o peixe, mas lá estava. Deu um último puxão, ao chegar perto da popa, depois a luta acabou. Jean-Paul arpoou-o e suspendeu-o. Era outro bonito, maior, com mais de quatro quilos.
– Bem grande, não é mesmo?—disse Higgins, muito excitado.
Murgatroyd acenou com a cabeça e sorriu. Seria algo para contar quando voltasse a Ponder’s End. No leme, o velho Patientfixou um novo curso, seguindo para um trecho de água azul profunda, que podia divisar, a vários quilômetros de distância. Observou o neto tirar o anzol da boca do bonito e resmungou-lhe alguma coisa. O garoto tirou o fio de aço com a isca e guardou na caixa. Foi colocar o caniço no encaixe, a extremidade da linha solta. Adiantou-se em seguida e foi assumir a roda do leme. O avô disse-lhe mais alguma coisa e apontou pelo para-brisa. O garoto assentiu.
– Não vamos mais usar aquele caniço? — perguntou Higgins.
– Monsieur Patient deve ter outra ideia — disse Kilian. — Deixe tudo com ele. É um homem que sabe o que faz.
O velho avançou com a maior facilidade pelo balouçante convés até o lugar em que eles estavam. Sem dizer nada, sentou-se ao lado do embornal, de pernas cruzadas, pegando o bonito menor e começando a prepará-lo como isca. O pequeno peixe estava duro como uma tábua na morte, as barbatanas na cauda esticadas para cima e para baixo, a boca entreaberta, os olhinhos pretos fitando o nada.
Monsieur Patient tirou da caixa um anzol grande, cuja haste estava presa a um fio de aço com cerca de meio metro de comprimento, além de uma agulha de aço, com 30 centímetros de comprimento, parecendo uma agulha de tricô. Enfiou a ponta da agulha pelo orifício anal do peixe. Continuou a empurrar até que a ponta ensanguentada saiu pela boca. Prendeu na outra extremidade da agulha o fio de aço e com um alicate puxou a agulha pelo corpo do bonito, até que a ponta do fio saiu pela boca.
O velho empurrou a haste do anzol bem fundo na barriga do peixe, até que tudo desapareceu, exceto a ponta curva e afiada do anzol. Ficou sobressaindo para fora e para baixo na base da cauda, a ponta virada para a frente. Puxou o resto do fio pela boca do peixe, até ficar esticado.
Pegou em seguida uma agulha bem menor, mais ou menos do tamanho que uma dona-de-casa usaria para cerzir asmeias do marido, junto com um metro de fio de algodão. A barbatana dorsal única e as duas barbatanas ventrais do bonitoestavam caídas. O velho passou a linha de algodão pela espinha levando à barbatana dorsal, por diversas vezes, depois passou a agulha pelos músculos por trás da cabeça. Ao puxar o fio, a barbatana dorsal se ergueu, assim como as diversas espinhas e membranas que proporcionavam estabilidade vertical na água. Fez a mesma coisa com as barbatanas ventrais e finalmente fechou a boca, costurando-a com pontos pequenos e perfeitos.
Quando acabou, o bonito parecia quase igual ao que fora em vida. As três barbatanas se projetavam numa simetria perfeita, impedindo que rolasse para a frente ou girasse. A cauda vertical proporcionava direção e velocidade. A boca fechada impediria a turbulência e borbulhas. Somente o fio de aço passando entre os dentes cerrados e o anzol sinistro, pendendo da base do rabo, indicavam que se tratava de uma isca. Finalmente, o velho pescador prendeu o fio de aço pendente da boca do bonito ao outro fio que pendia da extremidade do caniço. Jogou a nova isca no mar. Ainda de olhos abertos, o bonito ricocheteou duas vezes na esteira da lancha e depois afundou, puxando pela chumbada, a fim de iniciar a sua última jornada pelo mar.
Ele deixou que o bonito na ponta da linha ficasse cerca de 70 metros além das outras iscas, antes de prendê-la. Voltou então para o seu posto de comando. A água em torno da lancha passara de um azul- cinzento para um azul-esverdeado brilhante.
Dez minutos depois, Higgins teve outro peixe a morder a isca. Ele puxou o caniço e recolheu a linha por mais de dez minutos. Qualquer que fosse o peixe que fisgara, estava lutando com uma fúria frenética para se desvencilhar. Todos pensavam que podia ser um atum de bom tamanho, pela pressão na linha. Quando o peixe foi içado para bordo, no entanto, descobriram que tinha quase um metro de comprimento, de corpo estreito, com uma coloração dourada na parte superior do corpo e nas barbatanas.
– Um dourado — disse Kilian. — Trabalhou muito bem. Esses peixes lutam de verdade. E são deliciosos. Vamos pedirão cozinheiro do St. Geran que o prepare para o jantar.
Higgins estava corado e feliz, comentando:
– A sensação que tive foi a de que estava tentando puxar um caminhão em alta velocidade.
O garoto tornou a ajustar a isca e jogou-a novamente no mar. Agora, o mar parecia mais turbulento. Murgatroyd segurou um dos suportes do toldo de madeira, a fim de poder ver melhor. O Avant avançava entre grandes ondas. Ao baixarem, ficavam olhando para grandes muralhas de água por todos os lados, encostas em movimento, alegremente iluminadas pelo sol, parecendo negar a força terrível que havia por baixo. Nas cristas, podiam contemplar o mar por quilômetros ao redor, as espumas brancas no alto de cada onda. Para oeste, quase na linha do horizonte, podiam divisar os contornos de Maurício.
As ondas estavam vindo de leste, uma depois da outra, como gigantescos soldados esverdeados marchando contra a ilha e indo morrer na artilharia dos recifes. Murgatroyd ficou surpreso por des­cobrir que não estava enjoado, pois isso já lhe acontecera numa prosaica viagem de lancha de Dover a Boulogne. Mas acontecera numa embarcação bem maior, avançando pelas ondas com um barulho infernal, os passageiros respirando os odores de óleo, gordura da comida, vapores que saíam do bar e outras coisas. O Avant, um barco menor, não desafiava o mar. Ao contrário, navegava com ele, cedendo quando era preciso, para tornar a se erguer um instante depois.
Murgatroyd contemplou as águas e sentiu o respeito que paira à beira do medo, um companheiro quase constante dos homens que viajam em pequenas embarcações. Uma embarcação pode ser orgulhosa, impressiva, luxuosa e forte nas águas serenas de um porto elegante, admirada pela multidão que passa, a ostentação de seu rico proprietário. Em pleno oceano, no entanto, é irmã da traineira malcheirosa, do cargueiro enferrujado, uma pobre criatura unida por soldas e parafusos, um frágil casulo lançando a sua força mínima contra um poder inconcebível, um brinquedo na palma de um gigante. Mesmo com quatro outros seres humanos ah perto, Murgatroyd pôde sentir a própria insignificância, a pequenez impertinente do barco, a solidão que o mar sempre inspira. Os que já viajaram sozinhos pelo mar ou pelo céu, através de grandes planícies cobertas de neve ou por desertos intermináveis, conhecem a sensação. Tudo é vasto, implacável, mas o mais terrível é o mar, porque se mexe.
Pouco depois das nove horas, Monsieur Patient murmurou, sem se dirigir a ninguém em particular:
– Y’a quelque chose. Nous suit.
– O que ele disse? — perguntou Higgins.
– Disse que há alguma coisa lá atrás — explicou Kilian. — E está nos seguindo.
Higgins correu os olhos pelas águas turbulentas. Não havia coisa alguma além das águas.
– Como ele pode saber?
Kilian deu de ombros.
– Da mesma forma como você sabe que há alguma coisa errada com uma coluna de cifras. Instinto.
O velho reduziu um pouco a velocidade e o Avant dava a impres­são de não estar se mexendo. O balanço parecia aumentar com a queda da velocidade. Higgins engoliu em seco por diversas vezes, a boca se enchendo de saliva. Passavam 15 minutos das nove horas quando um dos caniços vergou bruscamente e a linha começou a correr, não muito depressa, mas vigorosamente, o barulho da carretilha se transformando num troar cada vez mais alto.
– É seu — disse Kilian para Murgatroyd, tirando o caniço do encaixe na amurada e ajeitando-o na cadeira de pesca.
Murgatroyd deixou a sombra e foi sentar-se na cadeira. Prendeu o caniço com a corda e segurou na cortiça com a mão esquerda, firmemente. A carretilha, uma Penn Senator grande, como um barrilete de cerveja, ainda estava girando. Ele foi fechando o controle, lentamente.
A tensão em seu braço aumentou e o caniço vergou. Mas a linha continuava a correr.
– Segure firme ou o peixe vai levar toda a sua linha — disse Kilian.
0 gerente de banco retesou os músculos do bíceps e prendeu o controle com toda força. A ponta do caniço foi abaixando, cada vez mais, até ficar no nível de seus olhos. A velocidade da linha que corria diminuiu um pouco, parou por um instante, tomou a correr. Kilian inclinou-se para olhar os marcadores da carretilha. As marcas nos aros externo e interno estavam quase opostas.
– O peixe está puxando com uma pressão de 40 quilos — disse ele. — Terá de prender com mais força.
O braço de Murgatroyd começava a doer e os dedos que segura­vam na cortiça ficaram dormentes. Foi virando o controle, até que as marcas opostas ficaram no mesmo nível.
– Não vai além disso — informou Kilian. — A pressão é de 45 quilos. O limite. Segure o caniço com as duas mãos eaguente firme.
Com algum alívio, Murgatroyd pôs a outra mão no caniço, aper­tando com toda força, ao mesmo tempo em que apoiava as solas de borracha na amurada, contraindo os músculos das coxas e das pernas, inclinando o corpo para trás. Nada aconteceu. A base do caniço estava vertical entre as suas coxas, mas a ponta dirigia-se diretamente para a esteira do barco. E a linha continuava a correr, lenta, inexoravelmente. A reserva na carretilha diminuía com rapidez diante de seus olhos.
– Santo Deus, ele é mesmo grande! — exclamou Kilian. — Está puxando com uma pressão de mais de 45 quilos! Aguentefirme!
O sotaque sul-africano de Kilian estava se tornando cada vez mais acentuado, com o seu excitamento. Murgatroyd tornou a contrair os músculos das pernas, fazendo força com os dedos, pulsos, antebraços e bíceps, os ombros encolhidos, a cabeça inclinada. E resistiu. Nunca antes ninguém lhe pedira queaguentasse uma pressão de 45 quilos. Depois de três minutos, a carretilha finalmente parou de correr. O que quer que estivesse lá em baixo puxara mais de 600 metros de linha.
– É melhor prendê-lo nas correias — disse Kilian.
Um braço depois do outro, ele prendeu as correias por cima dos ombros de Murgatroyd. Mais duas correias contornaram a cintura e outra mais larga passou entre as coxas. Todas as cinco se prendiam em seu peito. Kilian apertou a todas firmemente. Houve algum alívio para as pernas, mas o couro esfolava Murgatroyd, através da camisa de tênis de algodão, na frente dos ombros. Pela primeira vez, ele percebeu como o sol estava quente ali. A parte superior de suas coxas começou a arder.
O velho Patient se virara, manejando a roda do leme com apenasuma das mãos. Observara a linha correr desde o início e disse de repente, inesperadamente:
– Marlin.
– Você está com sorte—comentou Kilian para Murgatroyd. — Parece que fisgou um marlin.
– E isso é bom? — perguntou Higgins, que empalidecera consi­deravelmente.
– O marlin é o rei da pesca oceânica — explicou Kilian. — Homens ricos vêm para cá ano após ano, gastando muito dinheiro no esporte, sem jamais conseguirem pegar um marlin.Mas ele vai lutar obstinadamente, como você nunca viu nada lutar tanto, em toda a sua vida.
Embora a linha tivesse parado de correr e o peixe nadasse junto com o barco, a pressão não cessara. A ponta do caniçocontinuava vergada para baixo, na direção da esteira. O peixe continuava a puxar, com uma pressão entre 30 e 40 quilos.
Os quatro homens ficaram observando em silêncio, enquanto Murgatroyd resistia à pressão. Ele ficou segurando ocaniço, quase imóvel, por cerca de cinco minutos, o suorporejando da testa e das faces, escorrendo em gotas para o queixo. Lentamente, a ponta do caniço se levantou, enquanto o peixe aumentava a velocidade, a fim de aliviar a pressão na boca. Kilian agachou-se ao lado de Murgatroyd e passou a orientá-lo, como um instrutor de voo faz com um aluno que se prepara para decolar sozinho pela primeira vez.
– Puxe a linha agora, devagar, mas com firmeza. Reduza a pressão na carretilha para 40 quilos, para o seu próprio bem e não por ele. Quando ele tentar novamente escapar, o que vai acontecer, não tenha a menor dúvida, deixe-o ir e leve a pressão na carretilha de volta a 45. Jamais tente recolher a linha enquanto ele estiver lutando, pois poderia rompê-la facilmente. E se ele se aproximar do barco, enrole a linha o mais depressa que puder. Nunca lhe dê uma linha folgada, pois ele tentará cuspir o anzol.
Murgatroyd seguiu as instruções. Conseguiu recolher 50 metros de linha, antes que o peixe tentasse novamente escapar. E quando isso aconteceu, a força imensa quase lhe arrancou ocaniço das mãos. Murgatroyd mal teve tempo de levar a outra mão para a cortiça e segurar com toda firmeza. O peixe levou outros cem metros de linha, antes de parar a corrida e recomeçar a seguir o barco.
– Ele já levou 650 metros de linha até agora— disse Kilian. — Você só tem 800 metros.
– E o que vou fazer? — perguntou Murgatroyd, entre os dentes cerrados.
A pressão diminuiu e ele tratou de recolher a linha outra vez, enquanto Kilian respondia:
– Reze. Não pode aguenta-lo além de uma pressão de 45 quilos. Assim, se ele chegar ao fim da linha na carretilha, vai rompê-la sem muita dificuldade.
– Está ficando muito quente — murmurou Murgatroyd.
Kilian olhou para o short e a camisa fina.
– Você vai fritar aqui fora — disse ele. — Espere um instante.
Ele tirou a própria calça do traje de ginástica e meteu-a em
Murgatroyd, uma perna de cada vez. Levantou a calça ao máximo que podia. As correias impediam que a calça chegasse à cintura de Murgatroyd, mas pelo menos as coxas e as pernasestavam cobertas. O alívio do sol foi imediato. Kilian foi pegar uma suéter de manga comprida na cabine. Recendia a suor e peixe.
– Vou meter a suéter por sua cabeça—disse ele a Murgatroyd.
– Mas o único meio de baixar mais é abrir as correias por alguns segundos. Vamos torcer para que o marlin não tente escapar nesses segundos.
Tiveram sorte. Kilian abriu as duas correias dos ombros e baixou a suéter até a cintura de Murgatroyd, depois tornou a prendê-las. O peixe continuava a correr com o barco, a linha esticada, mas sem muita pressão. Com a suéter os braços de Murgatroyd já não doíam tanto. Kilian virou-se. Em sua cadeira, junto à roda do leme, o velho Patient estava estendendo o seu chapéu velho, de aba larga. Kilian colocou-o na cabeça de Murgatroyd. A sombra protegeu-lhe os olhos e proporcionou mais alívio. Mas a pele do rosto já estava quente e causticada. O reflexo do sol no mar podia queimar bem mais do que o sol propriamente dito.
Murgatroyd aproveitou a passividade do marlin para recolher mais um pouco da linha. Recolhera cem metros, cada metro fazendo os dedos doerem na manivela da carretilha, pois ainda havia uma pressão de 20 quilos na linha, quando o peixe tornou a tentar se libertar. O marlin recuperou os cem metros em apenas 30 segundos, com uma pressão de 45 quilos nacarretilha. Murgatroyd simplesmente se retesou todo e aguentou firme. As correias ardiam intensamente em seu corpo. Eram dez horas da manhã.
Durante a hora seguinte, ele começou a aprender o sentido da dor. Os dedos estavam dormentes, doíamintensamente. Os pulsos latejavam e os antebraços irradiavam espasmos de dor. Os bíceps estavam contraídos, os ombros pareciam prestes a estourar. Mesmo sob a calça e a suéter, o sol implacável estava outra vez lhe escaldando a pele. Por três vezes, nessa hora, ele recuperou cem metros de linha do peixe; por três vezes, o peixe tentou escapar, tomando de volta os cem metros.
– Acho que não vou conseguir aguentar por muito mais temp0 – murmurou Murgatroyd, entre os dentes cerrados.
Kilian estava de pé ao lado dele, tendo na mão uma lata aberta de cerveja gelada. Ele estava com as pernas expostas, só que curtidas em muitos anos ao sol. Parecia não se queimar.
– Aguente firme, homem. A batalha é justamente isso. Ele tem a força, você conta com os equipamentos e a astúcia. Depois disso, é apenas uma questão de resistência, a sua contra a dele.
Pouco depois das 11 horas, o marlin aflorou à superfície pela primeira vez. Murgatroyd trouxera-o para 500 metros de distância. O barco ficou por um segundo na crista de uma onda. Lá em baixo, o peixe elevou-se pelo lado de uma muralha de água verde. Murgatroyd ficou atordoado. O bico afiado e comprido da mandíbula superior arremeteu para o céu. A mandíbula inferior, menor, estava entreaberta. Por cima e por trás do olho, a barbatana dorsal, lembrando uma crista de galo, estava estendida e ereta. A massa reluzente do corpo vinha atrás. Enquanto a onda se desvanecia, o marlin pareceu ficar suspenso por um instante sobre a cauda em formato de crescente, olhando para eles através das cristas espumantes. E depois tornou a cair, em outra muralha em movimento, mergulhando para o seu mundo, escuro e frio. O velho Patient foi o primeiro a falar, rompendo o silêncio:
– C’est l’Empereur.
Kilian virou-se rapidamente para fitá-lo.
– Vous êtes sur?
O velho limitou-se a assentir.
– O que ele disse? — perguntou Higgins.
Murgatroyd olhava para o local em que o peixe desaparecera. Depois, lentamente, voltou a recolher a linha.
– Eles conhecem aquele peixe por aqui — explicou Kilian. — Se é o mesmo ... e ao que eu saiba, o velho nunca se enganou nessas coisas ... trata-se de um marlin azul, que se calcula ser maior do que o recorde registrado de 500 quilos. O que significa que deve ser velho e astuto. Chamam-no de O Imperador. É um verdadeiro mito entre os pescadores.
– Mas como podem distinguir um peixe determinado? — insistiu Higgins. — Afinal, todos são iguais.
– Este marlin já foi fisgado duas vezes — disse Kilian. — E por duas vezes partiu a linha. Na segunda, porém, estava perto do barco, ao largo de Rivière Noire. Viram o primeiro anzol pendendo de sua boca. Depois, ele rompeu a linha no último minuto e ficou com outro anzol. Em cada vez que foi fisgado, ele se elevou acima da superfície por várias vezes, permitindo que todos o olhassem bem. Alguém chegou mesmo a tirar uma fotografia dele em pleno ar. Por isso é que se tornou tão conhecido. Eu não poderia identificá-lo a 500 metros de distância, mas Patient tem olhos aguçados como os de uma gaivota, depois de tantos anos no mar.
Por volta do meio-dia, Murgatroyd parecia velho e extenuado. Estava encurvado sobre o caniço, num mundo exclusivamente seu, isolado em sua dor e uma determinação interior que nunca antes experimentara. A água escorria das bolhas estouradas nas palmas, as correias úmidas de suorlaceravam horrivelmente os ombros fustigados pelo sol. Ele abaixava a cabeça e recolhia a linha.
Às vezes vinha fácil, como se o peixe estivesse descansando. Quando a tensão se desvanecia da linha, o alívio era um prazer tão intenso que mais tarde não foi capaz de descrevê-lo. Quando o caniço estava encurvado e todos os músculos doloridos se contraíam para resistir ao peixe, o sofrimento era diferente de tudo o que já imaginara.
Pouco depois do meio-dia, Kilian agachou-se ao lado dele e ofereceu-lhe outra cerveja.
– Escute, homem, você está extenuado. Já se passaram três horas e não está realmente em boas condições. Não há necessidade de matar-se. Se precisar de alguma ajuda, um pequeno descanso, basta dizer.
Murgatroyd sacudiu a cabeça. Os lábios estavam rachados do sol e do sal.
– Meu peixe — murmurou ele. — Deixem-me em paz.
A batalha prosseguiu, enquanto o sol martelava o convés. O velho Patient estava empoleirado como um velho e sábio corvo-marinho em sua cadeira, uma das mãos na roda do leme, os motores um pouco acima do ponto morto, virando a cabeça para esquadrinhar a esteira do barco, à procura de algum sinal do Imperador. Jean-Paul estava acocorado à sombra do toldo de madeira, tendo há muito recolhido as linhas e guardado os outros três caniços. Ninguém estava querendo pegar um bonito agora e as linhas extras poderiam se emaranhar com a mais importante. Higgins finalmente sucumbira ao balanço do barco e estava sentado, desesperado, a cabeça suspensa por cima de um balde, em que depositara os sanduíches que comera e mais duas latas de cerveja. Kilian estava sentado de frente para ele, tomando a sua quinta lata. De vez em quando, eles olhavam para o vulto encolhido na cadeira giratória, com o chapéu imenso na cabeça. Ficavam ou- vindo o barulho da linha ao ser recolhida ou o zunido desesperador quando o marlin tornava arecuperá-la.
O marlin estava a 300 metros do barco quando tornou a emergir. Desta vez, o barco estava numa depressão e o Imperador aflorou à superfície, apontando para eles. Elevou-senum salto prodigioso, a espuma respingando de seu dorso. O salto foi na esteira do barco e a linha ficou de súbito completamente frouxa. No mesmo instante, Kilian estava de pé.
– Recolha a linha! — gritou ele. — O Imperador vai cuspir o anzol!
Os dedos cansados de Murgatroyd trabalharam freneticamente na manivela da carretilha para esticar a linha. Conseguiu fazê-lo bem a tempo. A linha. estava esticada quando o marlin tornou a mergulhar para as profundezas e ele ganhara 50 metros. Mas o peixe prontamente recuperou tudo. Nas profundezas escuras e paradas, várias braças abaixo da superfície e do sol, o grande caçador pelágico, os instintos aguçados por um milhão de anos de evolução, voltou-se contra a pressão de seu inimigo, absorvendo tudo no canto da boca óssea e mergulhando.
Em sua cadeira, o pequeno gerente de banco contraiu-se todo no esforço, apertando os dedos doloridos sobre a cortiçaúmida, sentindo as correias se comprimirem contra a sua carne, como se fossem arames em brasa. E aguentou firme, observando a linha de náilon ainda molhada correr diante de seus olhos. Cinquenta metros se foram rapidamente e o peixe continuava a mergulhar.
– Ele terá de subir novamente — comentou Kilian, observando por cima do ombro de Murgatroyd. — Será a ocasião para recolher a linha.
Ele inclinou-se e observou o rosto avermelhado, já descasando. Duas lágrimas saíram dos olhos semicerrados e escorreram pelo rosto flácido de Murgatroyd. O sul-africano pôs a mão gentil­mente no ombro dele e disse:
– Você não pode mais aguentar. Por que não descansa um pouco? Apenas por uma hora, está bem? Poderá então reassumir, para a última parte da batalha, quando o peixe chega perto e se torna prestes a desistir.
Murgatroyd observava a linha a correr mais devagar agora. Abriu a boca para falar. Uma rachadura no lábio se abriu ainda mais e uma gota de sangue escorreu para o queixo. A empunhadura de cortiça estava ficando escorregadia, devido ao sangue que escorria de suas palmas.
– Meu peixe — balbuciou ele. — Meu peixe.
Kilian levantou-se.
– Está certo, inglês, é o seu peixe.
Eram duas horas da tarde. O sol estava usando o convés posterior do Avant, como se fosse a sua bigorna particular. O Imperador parou de mergulhar e a tensão na linha se atenuou para 20 quilos. Murgatroyd recomeçou a recolher a linha.
Uma hora depois, o marlin saltou do mar pela última vez. Estava a apenas cem metros de distância. O salto fez com que Kilian e Jean-Paul se adiantassem rapidamente para observar. Por dois segundos, o peixe ficou suspenso acima da espuma, sacudindo a cabeça de um lado para outro, tentando se livrar do anzol que o atraía inexoravelmente para junto de seus inimigos. Num canto da boca, um fio de aço faiscou ao sol, enquanto o peixe estremecia todo. Depois, com um estrondo de carne a se chocar com a água, ele tornou a mergulhar e desapareceu.
– E mesmo O Imperador — murmurou Kilian, com extrema reverência. — Pesa 550 quilos, tem mais de seis metros de uma extremidade a outra, aquele bico pode furar uma madeira de 25 centímetros, quando está se deslocando a toda velocidade de que é capaz, cerca de 40 nós. Um animal espetacular.
Ele virou-se e gritou para Monsieur Patient:
– Vous avez vu?
O velho assentiu.
– Que pensez vous? II va venir vite?
– Deux heures encore — respondeu o velho. — Mais il est fatigué.
Kilian agachou-se ao lado de Murgatroyd.
– O velho diz que ele está cansado agora. Mas ainda vai lutar, talvez por mais duas horas. Quer continuar?
Murgatroyd olhava fixamente para o ponto em que o peixe desaparecera. Sua visão estava toldada pelo cansaço e todo o seu corpo era uma única dor lancinante. Pontadas de dor mais intensas espalhavam-se pelo ombro direito, onde distendera um músculo. Nunca antes fora obrigado a recorrer às suas últimas e supremas reservas de vontade e, por isso, não sabia. Eleassentiu. A linha não estava mais correndo, o caniço seenvergara um pouco. O Imperador continuava a puxar, mas não mais com a pressão de 45 quilos. O banqueiro continuou sentado, segurando o caniço firmemente.
Prosseguiram na luta por mais 90 minutos, o homem dePonder’s End e o grande marlin. Por quatro vezes, o peixearremeteu e recuperou uma parte da linha. Mas seus arrancosestavam se tornando mais curtos, à medida que o esforço de puxar 45 quilos ia minando até mesmo a sua força primitiva. Por quatro vezes, Murgatroyd recolheu a linha desesperadamente, ganhando uns poucos metros a cada vez. Sua exaustão estava beirando o delírio. Os músculos das pernas e das coxas tremiam incontrolavelmente. A visão se toldava com uma frequência cada vez maior. Às quatro e meia, ele já estava lutando há sete horas e meia, algo que não se podia pedir nem mesmo de um homem nas melhores condições físicas. Era apenas uma questão de tempo e não seria muito. Um deles teria de se render.
Quando faltavam 20 minutos para as cinco horas, a linha ficou frouxa de repente. Murgatroyd foi apanhado de surpresa. Começou a recolher rapidamente. E a linha vinha com bastante facilidade. O peso ainda estava ali, mas agora se tornara passivo. O tremor cessara. Kilian ouviu o barulho ritmado da carretilha e saiu da sombra, indo até a amurada da popa. Espiou para esteira e gritou:
– Ele está vindo! O Imperador está vindo!
O mar se acalmara com o final da tarde. As cristas brancas haviam desaparecido, substituídas por uma ondulação suave. Jean Paul e Higgins, que ainda estava enjoado, mas pelo menos parara de vomitar, adiantaram-se para observar. Monsieur Patient desligou os motores e prendeu a roda do leme. Desceu do seu posto e foi juntar-se aos outros. Em silêncio, o grupo observava atentamente a água além da popa.
Algo aflorou à superfície, rolando e balançando, masdeslocando-se na direção do barco, puxado pela linha de náilon.A barbatana serrilhada emergiu por um momento, depois rolou para o lado. O bico comprido e pontudo apontou para cima e depois tornou a afundar abaixo da superfície.
A 20 metros, todos puderam divisar o corpo imenso do Imperador. A menos que ainda restasse uma última e violenta reserva de força em seus ossos e tendões, ele não mais lutaria pela liberdade. O Imperador se rendera. A seis metros de distância, a extremidade do fio de aço levantou-se na ponta do caniço. Kilian pôs uma luva grossa de couro e pegou-o. Foi puxando manualmente. Todos ignoraram Murgatroyd, arriado na cadeira.
Ele largou o caniço, pela primeira vez em oito horas, tombando para a frente. Lentamente, dolorosamente, abriu as correias. Apoiou o peso do corpo nos pés, tentou se levantar. As pantorrilhas e as coxas estavam fracas demais e ele arriou ao lado do dourado morto. Os outros quatro estavam espiando por cima da amurada para o peixe que boiava na popa. Enquanto Kilian puxava lentamente o fio de aço com a mão enluvada, Jean-Paul pegou um gancho comprido e suspendeu-o por cima da cabeça, equilibrado na amurada. Murgatroyd olhou para o garoto suspenso ali, o gancho erguido.
E sua voz soou mais como um rangido rouco do que como um grito:
– Não.
O garoto ficou paralisado, olhou para baixo. Murgatroyd estava de quatro, olhando para a caixa de equipamentos. Logo por cima havia um alicate de cortar arame. Pegou-o com o polegar e o indicador da mão esquerda, comprimiu-o contra a palma em carne viva da mão direita. Lentamente, os dedos empunharam o alicate. Com a mão livre, ele apoiou-se na amurada e ergueu o corpo.
O Imperador estava logo abaixo da popa, exausto quase ao ponto da morte. O corpo imenso estava de lado na esteira do barco, a boca entreaberta. Pendendo do canto da boca estava o fio de aço de uma luta anterior com pescadores. Na mandíbulainferior havia outro anzol, já enferrujado. O fio de aço estendia-se da mão de Kilian para o terceiro anzol, encravado na cartilagem da mandíbula superior. Apenas uma parte da haste do anzol estava à vista.
Ondas sucessivas passavam pelo corpo azul-escuro domarlin. A meio metro de distância, o peixe olhava para Murgatroyd, com um olho imenso. Estava vivo, mas não lhe restavam mais forças para lutar. O fio, de sua boca até a mão de Kilian, estava esticado. Murga­troyd inclinou-se para baixo, lentamente, estendo a mão direita até a boca do marlin.
– Pode afagá-lo depois, homem — disse Kilian. —; Vamos tratar de suspendê-lo agora.
Deliberadamente, Murgatroyd ajeitou o alicate no fio de aço, no ponto em que se ligava à haste do anzol. E apertou. O sangue esguichou da palma e se derramou sobre a água salgada que cobria a cabeça do marlin. Tornou-a apertar e o fio de aço se partiu.
– O que está fazendo? — gritou Higgins. — Ele vai escapar!
O Imperador ficou olhando para Murgatroyd, enquanto outra onda passava por seu corpo. Sacudiu a cabeça velha e cansada, afundou o bico na água fria. A onda seguinte rolou-o de barriga e ele afundou a cabeça ainda mais. A cauda grande se ergueu e tornou a cair, movimentando-se cansada na água. Impeliu o corpo para a frente e para baixo. A cauda foi a última coisa que eles viram, movimentando-se lentamente na fadiga, levando o marlin de volta à escuridão fria do seu lar.
– Mas que diabo! — explodiu Kilian.
Murgatroyd tentou se levantar, mas sangue demais afluíraà sua cabeça. Lembrou-se depois do céu girando lentamente e a escuridão se aproximando muito depressa. O convés elevou-se ao seu encontro, primeiro contra os joelhos e depois o rosto. Ele desmaiou. O sol estava suspenso sobre as montanhas de Maurício, a oeste.
O sol já se pusera há cerca de uma hora quando o Avantfinal­mente atravessou a enseada e atracou. A esta altura, Murgatroyd já recuperara os sentidos. Durante a viagem de volta, Kilian tirara a calça e a suéter que lhe emprestara, a fim de que o ar fresco do crepúsculo pudesse revigorar a pele escaldada. Murgatroyd tomara três cervejas seguidas e estava agora sentado num dos bancos, os ombros vergados, as mãos num balde de água salgada. Não deu a menor atenção quando o barco atracou e Jean Paul saiu correndo para a aldeia.
O velho Monsieur Patient desligou os motores e verificou se os cabos de atracação estavam bem presos. Jogou o dourado grande e o bonito no cais, guardou a caixa de ferramentas e iscas. Kilian levantou a caixa refrigerada para o cais e depois voltou ao convés.
– Está na hora de irmos — disse ele.
Murgatroyd se levantou e Kilian ajudou-o a desembarcar. A bainha do short caíra abaixo dos joelhos, a camisa estava aberta, escura do suor ressequido. Os sapatos de lona rangiam. Diversos habitantes da aldeia se agrupavam no cais estreito e por isso tiveram de avançar em fila indiana. Higgins seguiu na frente.
E a primeira pessoa com que depararam foi Monsieur Patient. Murgatroyd teria apertado a mão dele, se a sua não estivesse doendo tanto. Ele acenou com a cabeça e sorriu para o velho, murmurando:
– Merci.
O velho, que recuperara o seu chapéu, tirou-o da cabeça naquele momento e disse:
– Salut, Maître.
Murgatroyd foi avançando lentamente pelo cais. Todos os aldeões sacudiam a cabeça e murmuravam:
– Salut, Maître.
Chegaram ao final do cais e começaram a subir pela rua de cascalho da aldeia. Havia uma multidão maior agrupada em torno do carro e todos murmuraram respeitosamente “Salut, salut, salut, Maître”.
Higgins estava guardando as roupas de reserva e a caixa vazia de comida. Kilian colocou a caixa refrigerada na traseira do carro e fechou-a. Encaminhou-se para o lado em que Murgatroyd esperava.
– O que eles estão dizendo? — sussurrou Murgatroyd.
– Estão saudando-o — disse Kilian. — Chamando-o de mestre-pescador.
– Por causa do Imperador?
– Ele é um verdadeiro mito por aqui.
– Porque eu peguei O Imperador?
Kilian riu baixinho.
– Não, inglês. Porque você devolveu-lhe a vida.
Entraram no carro, Murgatroyd no banco traseiro, onde arriou agradecido nas almofadas, as mãos em concha no colo, com as palmas ardendo terrivelmente. Kilian sentou-se ao volante, com Higgins ao seu lado.
– Ei, Murgatroyd, esses aldeões parecem pensar que você é algum astro! — disse Higgins.
Murgatroyd olhou pela janela para os rostos morenos sorridentes e as crianças que acenavam.
– Antes de voltarmos ao hotel, é melhor passarmos pelo hospital em Flacq e deixar que o médico dê uma olhada em você — sugeriu Kilian.
O jovem médico indiano pediu a Murgatroyd que se despisse e estalou a língua de preocupação pelo que viu. As nádegas estavam em carne viva dos movimentos para frente e para trás no assento da cadeira de pescaria. Vergões roxos profundos estendiam-se pelos ombros e costas, nos pontos contra os quais as correias se comprimiram. Braços, coxas e pernas estavam vermelhos e descascando das queimaduras de sol, o rosto estava inchado do calor. As duas palmas pareciam carne crua.
– Isso vai demorar algum tempo — murmurou o médico.
– Posso vir buscá-lo dentro de duas horas? — perguntou Kilian.
– Não precisa — respondeu o médico. — O Hotel St. Geran fica perto da minha casa Eu o levarei até lá quando acabar.
Já eram quase 10 horas quando Murgatroyd passou pela porta principal do St. Geran, entrando no saguão bem iluminado. O médico ainda estava em sua companhia. Um dos hóspedes viu-o entrar e correu para o restaurante, avisando aos outros que ainda estavam jantando. A notícia espalhou-se até o bar da piscina no terraço. Houve um barulho de arrastar de cadeiras, o retinido de talheres. Uma multidão avançou pelo saguão para saudar Murgatroyd. E todos pararam abruptamente.
Murgatroyd era uma estranha visão. Os braços e pernasestavam cobertos de loção de calamina, que já secara, transformando-se num branco opaco. As mãos estavam envoltas por ataduras brancas. O rosto estava vermelho e brilhando do creme que lhe fora aplicado. Os cabelos formavam um halo desgrenhado em torno do rosto, o short cáqui ainda estava caído até os joelhos. Parecia um negativo fotográfico. Recomeçou a andar, avançando para a multidão, lentamente, todos se afastando para lhe dar passagem.
– Muito bem-feito, meu velho — disse alguém.
– Uma atitude admirável — comentou outra pessoa.
Apertos de mão era algo impossível. Alguém pensou em dar-lhe uma pancadinha nas costas quando passou, mas o médico acenou, para que não o fizesse. Algumas pessoas seguravam copos e levantaram-nos num brinde. Murgatroyd chegou à base da escada de pedra para o segundo andar e começou a subir.
Foi nesse momento que a Sra. Murgatroyd emergiu do cabeleireiro, atraída pelos comentários sobre a volta de seu marido. Passara o dia remoendo uma raiva monumental, desde a metade da manhã, quando ficara surpresa com a ausência do marido no lugar da praia em que geralmente se encontravam, saíra a procurá-lo e soubera que ele se fora. Ela estava com o rosto vermelho, embora mais de raiva do que de queimadura do sol. O permanente com que voltaria para casa ainda não ficara pronto e os rolinhos sobressaíam em sua cabeça.
– Murgatroyd! — Ela sempre o chamava pelo sobrenome, quando estava furiosa. — Onde você pensa que vai?
No patamar do meio da escada, Murgatroyd virou-se, olhou para a multidão e a mulher. Kilian contaria mais tarde que havia uma estranha expressão nos olhos dele. A multidão ficou silenciosa.
– E como você pensa que está parecendo? — gritou Edna Murgatroyd, cada vez mais indignada.
O gerente de banco fez então uma coisa que não fizera por muitos anos. Ele gritou:
– Cale-se!
Edna Murgatroyd abriu a boca, tão escancarada quanto a do peixe, mas não com tanta dignidade.
– Há 25 anos que você vem ameaçando sair de casa e ir viver com a sua irmã em Bognor — disse Murgatroyd, calmamente. — Ficará feliz em saber que não vou mais impedi-la. Não voltarei com você amanhã. Vou ficar aqui, nesta ilha.
A multidão olhava para ele, aturdida.
– Não passará por qualquer necessidade — continuou Murgatroyd. — Ficará com a nossa casa e com as minhas economias investidas. Mas eu ficarei com os fundos da pensão e com o dinheiro da liquidação de meu exorbitante seguro de vida.
Harry Foster tomou um gole da sua lata de cerveja e arrotou. Higgins balbuciou:
– Não pode se afastar de Londres, meu velho. Não terá como viver.
– Claro que terei — garantiu o gerente de banco. — Tomei uma decisão e não pretendo voltar atrás. Pensei em tudo no hospital, quando Monsieur Patient foi me visitar. Fizemos um trato. Ele me venderá o barco e ainda terei o suficiente para comprar uma cabana na beira da praia. Ele continuará como Capitão e mandará o neto para a universidade. Serei o seu ajudante e por dois anos ele me ensinará tudo o que sabe do mar e dos peixes. Depois disso, passarei a levar os turistas em pescarias, ganhando a vida assim.
A multidão de hóspedes continuava a fitá-lo fixamente, todos espantados. E foi Higgins quem tornou a romper o silêncio:
– E o banco, meu caro Murgatroyd? E Ponder’s End?
– E eu? — gemeu Edna Murgatroyd.
Ele pensou em cada pergunta criteriosamente.
– O banco que vá para o inferno — disse ele, finalmente. — Ponder’s End que vá para o inferno. E você também, madame, pode ir para o inferno.
Com isso, virou-se e subiu os últimos degraus. Houve uma explosão de aclamações por trás dele. Ao avançar pelo corredor, a caminho de seu quarto, foi perseguido por uma despedida de bêbado:
– Prazer em conhecê-lo, Murgatroyd.



















































































































































































































































































































































































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