Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

31 de mai de 2015

Temporais, com Rogério Germani


TEMPORAIS

Dentro de mim,
raso feito segunda camada,
há um poço
lugar discreto onde guardo lágrimas

há em suas escoras
algumas lembranças tristes
alguns cantos íntimos
onde a alma( quando lança-
se
em temporais)
não mais chora

evapora.

Rogério Germani

Precisa-se!, por Márcia Poesia de Sá



Precisa-se !

Precisa-se de pão
e água para fazê-lo descer
os abismos da traqueia
Precisa-se de rios e matas
para ter a água
que fará descer o pão
Precisa-se de terras
para plantar o trigo que
fará o pão
bem,
Precisa-se de flores
para colorir os olhos
já as flores
precisam de espinhos
para protegê-las
os espinhos?
precisam de dedos
para perfurarem-se neles...
Precisa-se
de manga para cobrir
os braços do sol
Precisa-se de sol !
Ufa, precisa-se
da galáxia
para se ter sol
que vai dourar o trigo
que fará o pão
que irá entalar
na goela do mundo.
Precisa-se de coragem
para erguer o manto da noite
e depois de sonhos
para fazer os buraquinhos nele
que ao vermos de longe
parecem estrelas
É, precisa-se de estrelas
e de cometas
...e de piões
e lampiões!
Precisa-se de tudo
para ao final
não se precisar de nada
Precisa-se do toque
do buquê
dos beijos
das bençãos
Precisa-se de algo para abençoar
Precisa-se de mar
o mar, precisa dos pescadores
os pescadores, dos peixes
os peixes, precisam das sereias
e as sereias precisam
dos navegantes desavisados.
Os cargueiros precisam de profundidade
o fundo precisa de escuridão
a vida precisa é de perdão
e o poeta precisa da dor
a dor, precisa do relógio
o relógio ...
precisa muito mesmo do tempo !
já o tempo
é um tanto atrevido
e vive dizendo
que não precisa de ninguém
mas mente!
O tempo precisa do pão
E o pão precisa do tempo
desde quando era só massa crua
até dourar ...
O dourado
precisa do luar
e um luar perfumado
igual aquele
que vou pintar num quadro
quando eu finalmente decidir
o que preciso.
É difícil listar
o que eu preciso ...
acho que ando
muito precisada
de quando...

Márcia Poesia de Sá

28 de mai de 2015

Chuvisco, por Marisa Schmidt


CHUVISCO

Tempo passa, passatempo
chuva cai em modo lento
coração em fogo brando
cria fumaça e brumas
chuvisco é tênue espuma
se desmanchando na areia

Passa o tempo neste dia
no ritmo da garoa fria
no compasso da lembrança
enquanto o escuro avança
no jardim molhado e sem lua
uma flor noturna insinua
o perfume de um velho poema.

Noite chuvosa sempre é tema
de misteriosa volta ao passado
numa viagem estática e silenciosa
cujo trem é a alma ociosa,
a saudade solitária passageira
e a paisagem é a vida inteira...

Marisa Schmidt


25 de mai de 2015

Marisa Schmidt em "Eterno Fogo"

ETERNO FOGO

Percorro os velhos caminhos
salpicados de novas pedras
entre a paz e o desassossego
que por conhecido não medra
o medo, ancestral torvelinho
pondo ondas em estreito rego

São os caminhos de sempre
onde situo cada facho de luz
e suas veredas assombrosas
Tudo está lá,e conforme supus
o eterno fogo em seu trempe
cozinha esperanças saborosas

Nos tempos vários, nada é novo
para quem é velha caminhante
deste mundo vivido por dentro
onde sempre se segue adiante
e na tangência que se faz centro
a cada passo uma pedra removo...

Marisa Schmidt


Márcia Poesia de Sá em "Anzol"



Anzol

Pois é, hoje decidi que morro, morro da morte visceral e da qual ha anos acalento como prioridade absoluta de escolhas abstratas. Canso fácil de coisas difíceis e me é imperativo prever um futuro mesmo que este, seja apenas uma utópica linha repleta de palavras, virgulas, exclamações, contudo, quando as interrogações se avolumam, se enroscam todas provocando uma bagunça no mínimo, desagradável, provavelmente pelo seu formato de gancho, na verdade não era a palavra gancho que eu queria usar, mas esqueci como se chama aquilo que fisga os peixinhos mais desavisados, e que carrega espetado nele, uma minhoca estúpida.

Já gostei de pensar que pertencia a algum enígma escrito por algum Deus profundamente sádico e com óbvios distúrbios de repetições. Mas na verdade esta ideia e tantas outras, andam despencando vertiginosamente da minha mente ha algum tempo, na verdade na minha mente neste momento tudo despenca, tudo simplesmente cai, gostaria muito que pudessem ver a imagem que vejo agora, é um misto aterrorizador de um terremoto numa escala indizível na livraria de Londres com a hora da xêpa de alguma imunda feira do interior da Índia. Enfim, livros sujos de legumes e frutas, e no meio deles algo escorre e parece-me daqui, ter um tom de verde, ou seria marrom? não sei e nem vem ao caso.

Mas escorre, e molha as páginas, e estraga as antigas e tão amadas coleções de capa dura assim como os gibis dos anos setenta que eu colecionava. Isso não está me incomodando em nada, e este desapego na verdade me incomoda, a única coisa que eu gostava nesta minha mente era isso, e agora parece que só ha um vazio. Um eco que ecoa de lá para cá sem nada dizer. É, definitivamente hoje eu morro.

Morro a fantasia, morro o sonho e seguro firme este copo cheio de desilusão no qual acrescento duas pedras de gelo e mesmo sem querer, acrescentei uma pitada de pimenta do reino! Nossa! acho que exagerei na pimenta e isso me faz espirrar muito!

Pois é, agora vou tentar desafiar o absurdo! quem é o absurdo? bem, o absurdo é um cara que conheço ha muitos anos, na verdade acho que quando eu nasci ele estava na sala de parto, de braços cruzados e vestia uma terrível roupa vinho, que lhe dava um ar tétrico dos contos ingleses. Ele baforava um charuto e sorria da minha cara melada de sangue, acho que foi a segunda pessoa que vi ao nascer. A primeira foi o médico, devia ser médico, usava aquela toquinha ridícula verde.

Ele vem me acompanhando a vida toda, tem um riso muito chato e um sarcasmo intolerável que usa sempre quando eu quebro a cara em quatro pela vida. Nos últimos anos ganhei várias partidas de canastra para ele e isso o deixou furioso! Então, ele decidiu me arranjar uma esparrela na qual escorreguei e cai de quatro mais uma vez. Mas desta vez serei mais esperta que ele, não é possível que com todos estes anos eu não tenha aprendido nada com este calhorda, vou matar um monte de coisa em mim e isto ele jamais esperou ou ousou sonhar.

Então, depois disso irei abrir a janela e gritar para ele: Oh! absurdo! vem cá que eu tenho uns segredinhos para te contar. Ele é muito curioso e a demora em revelá-lo os tais fictícios segredos, o matará de raiva, provocando a fúria de sua ulcera, também tentarei servi-lo algo que piore esta dorzinha que tanto o perturba.

Como já não haverá em mim qualquer resquício do eu, que ele conhece e reconhece tão bem, fazendo com que me manipule com a facilidade com que manipulamos um mamulengo pastel, creio que isto o deixará perplexo ao ponto de enlouquecer, então, um absurdo louco será meu companheiro de jornada, e a isto eu conheço bem, me valeram muito, os anos de estudo deste assunto e aquelas viagens malucas que fiz de trem pela Europa, além de é claro, as outras viagens que neste instante me vem a mente como um carrossel de parque infantil, só que ao invés de cavalinhos girando, o que gira é um animal pré-histórico, provavelmente do qual, descenderam os cavalos marinhos.

Hoje, tem de ser hoje, nem ontem nem amanhã. Hoje, eu morro de mim, e de toda esta minha cruel imaginação, que devora com a fome dos felinos minhas horas, e o pouco da minha insanidade. Jamais novamente vou embargar a voz, jamais me deixarei triste, e se um dia, seja lá quando for, eu voltar a amolecer esta infernal bomba que não me deixam arrancar do peito, juro que a espetarei com uma daquelas seringas de anestesia, aquelas bem longas, e dentro dela farei uma mistura de ácido sulfúrico com uma ou duas doses de curaçao blue.

Ainda hoje, também preciso arrumar as malas, mandar lavar os sobretudos e as máscaras, pegar na casa da tia aquele casaco preto e deixa-lo na lavanderia do senhor Yoshiro. Desencaixotar as botas, as luvas negras, e aquele lenço de seda. Também não posso esquecer de procurar meu passaporte, mas acho que ele nem vale mais, bom! se não valer não faz mal, tiro outro, afinal é sempre assim, quando algo não vale mais, a gente só o substitui por algo que valha, ou que igualmente nada valha, mas é novo não é?!

E o novo é sempre brilhante, mais bonito, mais macio, mais cheiroso ou seja lá o que a nossa vã ignorância deseje acreditar naquele momento.

E depois de tudo pronto e comprado, inclusive a passagem para o inferno gelado, sentarei com meu inseparável absurdo enlouquecido em uma daquelas cadeiras apertadas de algum avião, de qualquer companhia que me tire do chão, e depois de um duplo entorpecimento das lágrimas que jamais nascerão, sei que vou por fim, puxar o bloco de nulidades e riscar com tinta preta em linhas docemente abandonadas no papel, uma breve poesia sem qualquer rima, que fale do quanto vai doer este momento, comentarei da visceral saudade que me acometerá, e de todos os momentos que me foram inesquecíveis, provavelmente lá pela terceira estrofe, eu tente acrescentar um terremoto, ou um vulcão que nasce em minha garganta e morre nos tímpanos do abismo surdo, e que de lá retorna como um eco avassalador, falarei dos beijos, do ouvir o sono ressonar, falarei das nuvens e do mar, e nesta hora o meu amigo absurdo já estará com aquele riso maldoso na cara, então e mesmo assim, eu vou continuar a escrever até esvaziar de vez o que neste momento, me ferve a verve. No final, vou deixar o poema sem assinatura, amassar muito bem ele nas mãos, uma, duas, três vezes ou até que assim eu me despeça deste sentimento, depois abri-lo delicadamente, coloca-lo dentro daquele vão da cadeira á frente, e este será o final desta história. Tudo apenas se resume a isso, um poema abandonado em uma poltrona vazia.

E enfim, vou permitir que meu olho vague vago, por sobre as abstratas nuvens de vento, umidade, brancura e silêncio. Que agora frias, acarinham as asas do avião.

Márcia Poesia de Sá. - 2014

Rogério Germani em "Espécie de Nuvem"

Espécie de nuvem

Se todos os peixes soubessem da verdade que desemboca
na foz das lágrimas dos seres
talvez eles ( por piedade) viveriam na copa das árvores
longe das águas salobras e do triste reflexo de seus criadores.
De fato, as marés se alimentam de luas
mas são as criaturas e suas almas em fases que põem canto e sabor
no ilogismo dos pingos bravios.
Também pertenço a mesma espécie de nuvem
e, quando chovo, além de aquários que transbordam versos
no fim de cada fado, estendo imprecisos arco-íris nas margens cúmplices
[dos rios
só para que os vermes de Deus abençoem os dias sombrios que estendem
brancas toalhas em piqueniques solitários.

Rogério Germani




Nenhum Roberto

Nenhum Roberto

Eu, coisa
Uma coisa qualquer
Coisa disforme, incolor
E acho até que não tenho sabor
E se o tiver
Não há de ser dos melhores
Não tenho bandeira
E nem uma crença que me roube a razão
Não rimo com coisa alguma
Não sou sinal de sangue
E nem tatuagem
Não sou nenhum Roberto

Mas ás vezes, chego perto!

Tim Soares 


24 de mai de 2015

Não há sentido para o sentido - Márcia Poesia de Sá


Não há sentido
para o sentido.

O sentido, sente ao contrário
é subterfúgio de dentro do armário
- Coisas acumuladas e poeiras?

- Não, o sentido se perde
por não compreender de eternidades...

Não há sentido para o sentido
pois se tivestes, sempre terás
não existe o ter tido!

Como memória de um perfume
exala por séculos e séculos
corre campos abertos
quando a saudade a proclama

Não há sentido para o sentido
quando o sentido é tão profundo
que enraizado no umbigo do mundo
floresce todos os dias, um novo botão

Sentir é maior que o simples ter
tem magia escorrendo pelas paredes
pelas portas que se abriram e abrem
pelos lençóis, lenços e talheres
e até por debaixo das mesas
(só para mim, isto fez sentido)

E uma profundidade abissal nos olhares...

Não há sentido só quando
não foi inteiramente sentido...

Os sentimentos são flechas
que navegam nossos infinitos.
(Há) de se saber sentir
e compreender intimamente o que é sentido
sem ficar sentido com grãos de areia
quando há um mar esperando
o nosso sentir...

Ser um ser sentido
tem vários sentidos...

Márcia Poesia de Sá.

Rogério Germani em “Inverno”

Inverno

Dependurado no galho de uma árvore, no alto da colina, ele admira a placidez da cidade. Nem mesmo a corda envolta em seu pescoço se destoa do silêncio que invade a noite e as entranhas das casas que abrigam o povoadoque, crédulo, hiberna por ventos de nova esperança.

As ruas estão vazias. As folhas secas dançam nos olhos dos gatos que miam, ouriçados, ao toque de recolher da lua. Fechadas as portas, as lojas lembram tristes mausoléus esperando a voz de seus donos para novamente alimentarem seus cômodos com a presença viva de seus clientes.

Neste cenário onde a sombra do voo deuma ave seria uma milagre rasgando o deserto, seus olhos passeiam livres de pecados. Sua alma corre solta, rente às nuvens, e pousa nas frestas das janelas trancafiadas. Não há furtos ou assombros; apenas um último olhar às suas origens, seus pactos de infância que, por ironia da vida, jamais serão cumpridos na fase adulta.

Ao lado da árvore onde, agora, seu corpo balança feito um aceno de um farol a um barco de sonhos, uma fotografia rasgada, um nome de menina riscado com sangue e perfume de lágrimas recentes: tesouros de um amor ceifado aos doze anos.

Enquanto ele se despede da terra que fez brotar versos, flores e dor em seu peito, outros anjos o aguardamem meio a uma chuva que se inicia. Não há sorrisos ou luz divina em seus semblantes; de seus dedos, correm fúria e neve. E quando estão zangados, os ossos da cidade congelam.

Rogério Germani

Rogério Germani em “Ausência”


Ausência

Tatuado nas nuvens
seu sorriso ainda transita em meus silêncios

encontro na plumagem de certos pássaros
o hálito de seus suspiros,
atento no sol a leveza de seus gestos numa dança
de alma nua

cada flor ainda assimila os versos de seus olhos
do mesmo modo que meu corpo reflete nas águas calmas
a imagem de sua ausência.

Rogério Germani


Tim Soares em "Da libertação do corpo"



Da libertação do corpo

Livre,
ser livre da prisão matéria
Da dor
que me é contemporânea
Do navegar
na cólera instantânea
Que pulsa
e arde na vulgar artéria

É o eufórico
e calmo fim da linha
Minha renúncia
é sedutora urgência
E o despertar
da pura essência
Que minha carne
refém mantinha.

Tim Soares

23 de mai de 2015

Marisa Schmidt em "É preciso o silêncio"



É PRECISO O SILÊNCIO

O silêncio ainda espreitando o vozerio
pede uma trégua no zumzum constante
apenas um hiato no desconforto gritante
onde o silêncio seja um calmante desafio


Que seja só um momento sem palavras
sem ruídos sem gritos ou rumores vãos
em que se repousem serenas as mãos
e o olhar vagueie por silentes aldravas

É preciso que se ouça cada folha que cai
e o mar que abraça os rochedos em gozo
nas límpidas manhãs do começo do outono

Uma canção ancestral que pela mente vai
servirá de guia a esse encontro silencioso
entre a alma e o universo, a casa sem dono.

Marisa Schmidt

Por onde andei? - e-book de vários escritores do Balcão de Poemas





O Arquivo e a Verve - e-book de Wasil Sacharuk

poemas de Wasil Sacharuk

“O poeta não é demagogo e vai vomitar emoção.”
Foi assim que a poesia se fez para mim.
Passados os anos e agora cada palavra sustenta o verso ao encontro de um silêncio. E esse silêncio, ainda mudo, tagarela pelas imagens.
Eis a poesia:
ágil como a língua
estanque como a fotografia..


Escorpião - versos autobiográficos - e-book de Wasil Sacharuk

"Talvez tenha sido por volta 2008 a primeira vez que o li, aliás, o vi comentando algum poeta numa comunidade de Orkut chamada Bar do Escritor.

Lembro que olhei atentamente para aquele avatar de cabelos longos, olhar severo e o conjunto me levou a um desses guerrilheiros que se perderam nas selvas da América do Sul à década de 70, afinal sempre fora desconfiados com os cabeludos apesar de ter sido um nos tempos do Led Zeppelin.

Olhei novamente para a pequena foto que carregava abaixo o nome de Wasil Sacharuk. e me pareceu evidente que ali o intelecto de um revolucionário se mantinha oculto sob a vastidão dos cabelos castanhos.

Porém Wasil não era um revolucionário das armas assim como os uruguaios do Tupamaros. Não, na guerrilha de Sacharuk não se deflagravam tiros e nem se era picado por cobras ou saciado da sede por riachos que riscavam as florestas, pois os projéteis da revolução de Wasil nada mais são que as linhas da poesia.

Recordo ainda que nos primeiros textos ali postados pude perceber-lhe o traço e a verve do inspirado, uma escrita pujante e contundente grafando prosas e poesias por vezes no esmero do sotaque sulista do seu Rio Grande do Sul.

Sim, não seria menos verdadeiro confessar que em algumas oportunidades procurei na internet a tradução paras alguns termos gauchescos para poder compreender e a assimilar a grandeza das suas construções.

Lembro também que Wasil foi o primeiro artista a quem me interessou o trabalho com a produção de vídeo-poema. Recordo também que o primeiro seu que vi foi (É a verve) e o seu trabalho me deixou maluco tal o esmero que fora produzido, pois além das filmagens e edições ficava por sua conta a declamação, efeitos sonoros e a trilha musical. E fiquei tão impressionado que pedi para ele que fizesse um vídeo para um poema meu, diga-se, generosamente ele o fez e me presenteou, e é algo que até hoje me encanta e honra tal a perfeição do aspecto visual, narrativo e a trilha sonora composta por ele.

Enfim, não há como falar de Wasil Sacharuk sem traduzi-lo em arte, afinal ele é uma das prazerosas manifestações dela.

Pois, imenso é meu orgulho ao ser companheiro de letras deste magnífico poeta e prosador.

Parabéns Wasil Sacharuk!"

Veio china

Ter nascido sob o sol em escorpião não foi dádiva
sequer foi castigo
Desde muito cedo aprendi a gostar das minhas singularidades
e treinei usá-las em meu favor
E sou abertamente identificado com elas.
Dizem que escorpianos são determinados... pura mentira!
São teimosos.
No entanto, adoro cebolas, preferencialmente as cruas.
O que mais encanta nessa condição astral é a fatalidade,
da vida e do veneno.
Para um bom escorpiano,
a vida é um veneno.



e-book “Escorpião – versos autobiográficos, de WASIL SACHARUK
R$ 8,88


livro “Escorpião – versos autobiográficos, de WASIL SACHARUK
R$ 28,88

Cover_front_perspective
Número de páginas: 112
Edição: 1(2013)
Formato: A5 148x210
Coloração: Preto e branco
Acabamento: Brochura c/ orelha
Tipo de papel: Offset 75g

Acrósticos - e-book de Wasil Sacharuk


Águas Claras

Ah, se as marés são das luas
Gelarás bem coesa em cristais
Utópicas moléculas espúrias
Águas sujas em mananciais
Sequestradas na boca das ruas

Claras não são sempre as águas
Lacrimais vertentes de oceanos
Águas que empurram as mágoas
Rompendo ribeirões pelos canos
Assim que somente deságuas
Seus correntes instintos insanos.


E-book “Acrósticos”, de Wasil Sacharuk
R$ 6,66
73 páginas
receba diretamente em seu e-mail


22 de mai de 2015

ENVIE SEU TEXTO - Venha escrever conosco

INSPIRATURAS quer compor um pequeno time de escritores fixos, em prosa e poesia. Para tal, inicalmente receberemos material para publicação em nosso site com a finalidade de selecionar um pequeno grupo para colaborar efetivamente em www.inspiraturas.com.

Alguns critérios devem ser considerados:

Os textos devem ser enviados PELO PRÓPRIO AUTOR (detentor dos direitos de autoria) para o e-mail oficinainspiraturas@gmail.com, acompanhado de uma fotografia do autor e do endereço de seu site ou blog;

É possível que nem todas as obras enviadas sejam aproveitadas para publicação, em virtude das nossas limitações de espaço editorial. Não opinaremos acerca da qualidade dos textos enviados:

Não é necessário que o texto seja inédito.

Os textos publicados serão compartilhados no Facebook nas nossas páginas INSPIRATURAS e NOPZINE; e nos grupos INSPIRATURAS PORTFOLIO e NOVA ORDEM DA POESIA.

Sejam bem-vindos á INSPIRATURAS – Escrita Criativa!

15 de mai de 2015

E O PALHAÇO O QUE É?...


E O PALHAÇO O QUE É?...


“Acordei com recordações, enchendo meus olhos.
Nesse momento vi a saudade viver em mim”. Danilo Mendes

Drapejava, no topo do mastro, imponente pendão escarlate. Ao sopro da brisa estival, a flâmula exercitava-se, demarcando fronteiras. O ostentoso manto de lona, circular, pespontado em gomos vermelhos e amarelos, debruçava-se sobre cabos, barras, hastes, mastros e cordas. À força do braço, o vigor da batida, definia a cadência da marreta à estaca. Estais embrenhavam-se ao solo, violentando castas vertentes, alastrando raízes. Ao alumbramento de um matizado colar, sucumbira o negrume. A cintilação intermitente das contas emprestava à mantilha ar juvenil.

Trêileres, carros-reboque, caminhões, ônibus, circundavam, vigilantes, a praça de espetáculos. Cada núcleo familiar concorria à consonância e integridade coletiva: uma só confraria. Religiões distintas, raças e povos diversos, múltiplos mananciais de linguagem. Uma única expressão: a da milenar arte circense. Vestes requintadas e pequenas peças repousavam na cuidadosa rouparia. A sensibilidade das mãos, imersa no fascínio dos cosméticos, acentuava a beleza dos corpos e traços faciais. A conservação do vestuário, a alimentação coletiva e atividades especiais recebiam o concurso de profissionais da comunidade. A manutenção, revisão e disponibilidade de halteres, redes e trapézios exigiam o desvelo de peritos de longo curso.

Saudavam a alvorada rugidos, guinchos, bramidos, latidos e relinchos, que se contraditavam a sonoros trinados, gorjeios e chilreados. Punha-se a mesa ao café matinal. Na alvura dos lençóis, o cansaço ainda dormitava. Nos varais, a intimidade desnuda: o segredo dos talhes, a insinuação dos perfis. Criançada a caminho da escola. Garante-se a vaga em ato legal. À perfeição, busca incessante. Ao bom desempenho, ensaios constantes.

O cortejo incitava, pelas ruas centrais, multidões às calçadas. A experiência do idoso harmonizava-se à ousadia e curiosidade dos jovens. Por trás de janelas, olhares discretos, mãos comedidas afastavam leves cortinas. A banda, entusiasticamente, ao som de dobrados, musicava convites. A trupe reunia, indiferente a cores, credos e raças, esbeltas mulheres, vigorosos ginastas e personagens excêntricas. Desfilavam, arrancando aplausos e risos, hábeis malabaristas, arrojados acrobatas, elegantes e graciosas bailarinas, a gigantesca mulher barbada, Hércules – o senhor dos músculos de ferro –, índios norte-americanos – com vistosos cocares –, o enigmático senhor da magia, e pilares da arte circense: palhaços e anões.

Na face inocente, o olhar inquietante. Ao rosto marcado retornavam lembranças. A mão pequenina, revelava temor, e se amparava nas mãos maternais. O trator pachorrento arrastava gaiolas e jaulas. Inquietavam-se as feras ao ribombar dos foguetes. O chicote estalava, impondo obediência. O atavismo curvava-se à doma e o selvagem tornava-se dócil. Domesticava-se o tigre. Adestrava-se o pônei. Distribuíam-se ingressos à noite de estréia, tornando inviável recusar cortesias.

Palhaços em pernas de pau e monociclos equilibravam-se na audácia. O som amplificado passeava com o vento. Intercalava-se, a composições musicais, a programação com sotaque espanhol. Na bilheteria, a simpática senhora, comercializava ingressos e distribuía amabilidades. Ambulantes regalavam-se, aumentando vendas e acrescendo rendas. Aromas, bálsamos e cheiros confundiam-se no assar das carnes, no molho do cachorro-quente e no estalar de pipocas. Cestos e balaios ziguezagueavam, oferecendo algodão-doce róseo e azul, amendoim com cobertura salgada e caseiras balas de mel. A sirene ecoara pela terceira vez: estava próximo o descerrar da cortina. Um pequeno atraso aumentava a expectativa. Consumira-se o primeiro saquinho com pipocas. A sede e a premência de ir ao banheiro eram quase incontroláveis. Crianças... A ousadia sobrepunha-se ao temor. Por baixo da lona traquinas se esgueiravam sem receio a reprimendas.

A luz intensa dava lugar ao insulamento. Os holofotes derramavam fluxos de claridade no mestre de cerimônias: orgulhosamente, postava-se no meio do picadeiro, vestia smoking vermelho com caudas longas, calças de equitação, colete chamativo, cartola preta, gravata borboleta vermelha, chicote, botas até o joelho e destacado bigode preto. E o brado empolgante, ecoava, provocando arrepios:

– “Damas y cabelleros, respeitável público, com vocês: o mundo encantado do circo!”

Ao som de ‘The Circus Bee’, composto por Henry Fillmore, afastavam-se as faces do cortinado carmim. Ressoava um silvo estridente, dando ao corso passagem à arena. À frente, garbosos cavalos brancos, e venustas amazonas com longos cabelos. Ao término, astutos macacos traziam pôneis à rédea.

Fechavam-se os olhos a voos audazes. Na corda estendida, a intrepidez caminhava. No impulso dos corpos: o aéreo bailado. De um lado a confiança da espera, de outro a esperança na entrega. E no trapézio voejavam bravura e temores. Ouvidos cobertos, temia-se o estrondo. Fumegava o canhão, homem-bala lançado. E a rede aparava o humano projétil. Diminuía a tensão, imperava a galhofa; cambalhotas, cabriolas: hilários palhaços. E a inocência aflorava no riso pueril. No arremesso de facas, a caixa rufava. O disco rodava, acentuando o perigo. Olhos vendados, nervos de aço. E tracejavam silhuetas, arrancando murmúrios. Na destreza das mãos, lenços, esferas e cartas. Da cartola encantada saiam coelhos, ovos e pombas. Serrava-se ao meio a formosa assistente. Espadas varavam suspeitos baús. E o mágico sumia à varinha de condão. Na ponta das hastes os pratos giravam. Pirâmide humana, tochas ardendo. Longa barra de ferro, pedaladas no ar. E o cabo de aço era o chão do equilíbrio. Numa estrada sem retas, quatro motos roncavam. Tresloucadas manobras tangenciavam o perigo. E celebrava-se a vida no globo da morte.

Sucederam-se manhãs primaveris e tardes hibernais. A divulgação da chegada de um circo francês leva-me à infância. As recordações me entorpecem. No meu circo o palhaço foi rejeitado pela bailarina. Nosso destino, por vezes, embalou-se na ‘corda bamba’. Lançamo-nos em ‘saltos no escuro’. Mesmo assim, a lágrima incontida apanhou-me sem máscara, e a brisa sussurrou, saudosamente:

– “Hoje tem marmelada?”

– “Tem, sim senhor!”

– “Hoje tem goiabada?”

– “Tem, sim senhor!”

– “E o palhaço, que é?”

– “Ladrão de mulher” .

Jorge Moraes - jorgemoraes_pel@hotmail.com - maio de 2015
 
Jorge Moraes, natural de Rosário do Sul RS, cidadão pelotense; Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira; Membro das academias Sul-brasileira de Letras e Pelotense de Letras.


3 de mai de 2015

O limpador de chaminés

O limpador de chaminés

Isaac Bashevis Singer

Tradução Mirra Ginsburg


Há pancadas e pancadas. Uma pancada na cabeça não é brincadeira. O cérebro e um órgão delicado, se não fosse assim, por que a alma estaria localizada no cérebro? Por que não no fígado ou, se me perdoam, nas tripas? Pode-se ver a alma nos olhos. Os olhos são janelinhas pelas quais a alma espia.
Tínhamos um limpador de chaminés na cidade, cujo apelido era Yash Preto. Todos os limpadores de chaminé são pretos - que mais podem ser? mas Yash parecia ter nascido preto. Seu cabelo era eriçado e negro como o piche. Os olhos eram negros e a pele nunca estava limpa da fuligem. Só os dentes eram brancos. O pai tinha sido limpador de chaminés da cidade e Yash herdara o oficio. Já era um homem adulto, mas continuava solteiro e morava com a velha mãe, Maciechowa.
Vinha a nossa casa uma vez por mês, descalço, e a cada passo deixava uma marca negra no chão. Minha mãe, que ela descanse em paz, corria para recebe-lo e não deixa-lo ir além. Era pago pela cidade, mas as mulheres lhe davam um groschen ou uma fatia de pão quando acabava o serviço. Era o costume. As crianças tinham terror dele, embora nunca fizesse mal a ninguém. E enquanto foi limpador de chaminés, as chaminés nunca pegaram fogo. Aos domingos, como todos os cristãos, ele se lavava e ia a igreja com a mãe. Mas, lavado, parecia ainda mais negro do que antes; talvez por isso nunca encontrasse esposa.
Uma segunda-feira - lembro-me como se fosse ontem -, Feitel, o aguadeiro, entrou e nos contou que Yash caíra do telhado de Tevye Boruch. Tevye Boruch era dono de um sobrado na praça do mercado. Todos sentiram pena do limpador de chaminés. Yash sempre trepara pelos telhados com a agilidade de um gato, mas se um homem esta predestinado a sofrer um acidente, não há como evitá-lo. E tinha que ser no prédio mais alto da cidade. Feitel disse que Yash batera com a cabeça, mas não quebrara nenhum membro. Alguém o levara para casa. Ele morava nos arredores da cidade, próximo as matas, num casebre decrépito.
Durante algum tempo ninguém soube notícias de Yash. Mas que importava um limpador de chaminés? Se não podia mais trabalhar, a cidade contratava outro. Então um dia Feitel voltou, com dois baldes de agua no balancim e disse a minha mãe:
– Feige Braine, soube das notícias? Yash, o limpador de chaminés agora lê pensamentos.
Minha mãe riu e cuspiu.
– Que brincadeira é essa? - perguntou.
– Não é brincadeira, Feige Braine. Não é brincadeira mesmo. Ele está deitado no catre com a cabeça enfaixada adivinhando os segredos de todo mundo.
– Você ficou maluco? – ralhou minha mãe.
Não tardou e a cidade inteira estava comentando. A pancada na cabeça de Yash afrouxara algum parafuso em seu cérebro e ele se tornara vidente.
Tínhamos um professor na cidade, Nochem Mecheles, e ele chamava Yash de adivinho. Quem já ouvira falar numa coisa dessas? Se uma pancada na cabeça podia tornar um homem vidente, deveria haver centenas deles em cada cidade. Mas as pessoas tinham ido lá e presenciado com os próprios olhos. Um homem podia pegar um punhado de moedas no bolso e perguntar: “Yash, o que tenho na mão?”. E Yash respondia: “Tantas moedas de trêsgroschen, tantas de quatro e de seis copeques”. Contavam as moedas e estava tudo certinho até o ultimo groschen. Outro homem perguntava: “Que foi que fiz na semana passada a essa hora em Lublin?”. E Yash dizia que fora a uma taverna com dois homens. E os descrevia como se estivessem diante dele.
Quando o médico e as autoridades da cidade ouviram a história, foram correndo ver. O casebre de Maciechowa era tão minúsculo e tão baixo que os chapéus dos visitantes tocavam no teto. Começaram a interrogá-Io e ele respondia tudo certo. O padre se alarmou; os camponeses estavam dizendo que Yash era santo. Um pouquinho mais, e principiariam a sair com ele em peregrinação como se fosse um ícone. Mas o médico dizia que não deviam removê-lo. Além do mais, ninguém nunca vira Yash na igreja exceto aos domingos.
Bem, lá estava ele deitado na enxerga, falando como uma pessoa normal - comendo, bebendo, brincando com o cachorro que a mãe criava. Mas sabia tudo: o que as pessoas traziam nos bolsos do casaco e nos bolsos das calças; onde esse tinha escondido o dinheiro; quanto aquele gastara em bebidas anteontem.
Quando a mãe viu o afluxo de visitantes, começou a cobrar um copeque de entrada por pessoa. E elas pagavam. O médico escreveu uma carta para Lublin. O prefeito da cidade mandou - como chamam agora? - um relatório, e vieram personagens em altos postos de Zamosc e Lublin. Diziam que o próprio governador enviara um representante. O prefeito se assustou e mandou limpar todas as ruas. A praça do mercado ficou tão limpa que não se via nenhum graveto ou palha no chão. A prefeitura foi rapidamente caiada. E tudo por causa de quem? De Yash, o limpador de chaminés. A casa de Gitel, o estalajadeiro, estava num alvoroço - quem alguma vez sonhara com hospedes tão importantes?
A comitiva inteira partiu para ver Yash em seu casebre. Interrogaram-no, e as coisas que disse encheram de medo os corações dos funcionários. Quem sabe as culpas que pessoas assim carregam? Todas recebiam suborno, e ele lhes disse. Do que entende um limpador de chaminés? O visitante mais ilustre - esqueço seu nome - insistiu que Yash estava doido e devia ser mandado para um hospício. Mas o nosso médico argumentou que o paciente não podia viajar, isso o mataria.
Corria o boato de que o médico e o representante do governador tinham trocado palavras ásperas e quase chegaram as vias de fato. Mas o nosso médico também era funcionário publico; era o médico da municipalidade e fazia parte da junta de alistamento. Era um homem inflexível - ninguém conseguia compra-lo, por isso não temia a clarividência de Yash. Seja como for, o médico venceu. Mas depois o representante informou que Yash estava louco, e deve ter se queixado do médico, porque não tardou e ele foi transferido para outro distrito.
Nesse meio tempo, a cabeça de Yash sarou e ele voltou a limpar chaminés. Mas conservou os seus estranhos poderes. Entrava numa casa para receber o seu groschen e a mulher lhe perguntava: “Yash, o que esta guardado na gaveta do lado esquerdo?”, ou: “O que tenho na mão?”, ou: “O que ceei ontem a noite?”. E ele dizia tudo. Perguntavam:
“Yash, como e que você sabe disso?” Ele dava de ombros: “Sei. Foi a pancada na cabeça”. E apontava para a têmpora. Poderia ter sido levado para as grandes cidades e as pessoas comprariam entradas para vê-lo, mas quem se preocupava com essas coisas.
Havia diversos ladrões na cidade. Roubavam roupa dos sótãos e tudo o mais em que pudessem por as mãos. Agora já não podiam roubar. A vítima procurava Yash e ele dizia o nome do ladrão e o lugar onde o produto do roubo estava escondido. Os camponeses das aldeias próximas ouviram falar de Yash e sempre que um cavalo era roubado, o dono vinha vê-lo para descobrir onde se encontrava. Muitos ladrões já estavam na cadeia. Os ladrões ficaram de olho nele e diziam abertamente que era um homem marcado. Mas Yash sabia de seus pianos com antecedência. Foram espanca-lo certa noite, mas ele se escondera no celeiro do vizinho. Atiravam pedras, mas ele pulava de lado ou se abaixava bem antes da pedra passar voando.
As pessoas esqueciam onde punham as coisas - dinheiro, joias - e Yash sempre lhes dizia onde acha-las. Nem parava para pensar. Se uma criança se perdia, a mãe corria para Yash, e ele a levava até a criança. Os ladroes começaram a dizer que ele próprio sequestrara a criança, mas ninguém lhes dava credito. Ele nem mesmo recebia pela consulta. A mãe exigia dinheiro, mas ele era um bobalhão. Nunca aprendera muito bem o valor de uma moeda.
Tínhamos um rabino na cidade, Reb Arele. Viera de uma cidade grande. No Grande Sabá antes da Pascoa ele pregou na sinagoga. E qual foi o tema? Yash, o limpador de chaminés. Os céticos, disse, negam que Moises seja profeta. Dizem que tudo deve ser explicado pela razão. No entanto, como e que Yash, o limpador de chaminés, sabe que Itte Chaye, a padeira, deixou cair a aliança no poço? E se Yash, o limpador de chaminés, sabe das coisas ocultas, como alguém pode duvidar dos poderes dos santos? Havia alguns hereges na cidade, mas nem eles tinham resposta.
Nesse interim, as noticias sobre Yash tinham chegado a Varsóvia, e outras cidades. Os jornais escreveram sobre ele, e de Varsóvia enviaram uma comissão. Mais uma vez o prefeito despachou o pregoeiro da cidade para avisar que as casas e quintais deviam ser limpos. A praça do mercado foi novamente varrida ate ficar tinindo. Depois do Sukkoth[1] vieram as chuvas. Só tínhamos uma rua calcada - a da igreja. Tábuas e toras foram estendidas por toda a parte para que as pessoas importantes de Varsóvia não precisassem andar na lama. Gitel, o estalajadeiro, preparou camas e acomodações. A cidade inteira se alvoroçou. Yash era o único que não ligava. Continuava a correr as casas e a limpar chaminés, como de costume. Nem tinha o bom senso de recear os funcionários de Varsóvia.
Mas escutem só: um dia antes da comissão chegar, houve uma nevada e uma súbita geada. Na noite anterior, viram faíscas e até línguas de fogo voando da chaminé de Chaim, o padeiro. Chaim, preocupado que irrompesse um incêndio, mandou buscar Yash, o limpador de chaminés. Yash veio com a vassoura e limpou a chaminé. O forno de um padeiro permanece aceso muitas horas e uma grande quantidade de fuligem se prende a chaminé. Quando Yash estava descendo, escorregou e tornou a cair. Bateu mais uma vez com a cabeça, mas não com tanta força quanto da primeira vez. Nem saiu sangue. Ele se levantou e foi para casa.
Meus queridos amigos, no dia seguinte, quando a comissão chegou e começou a interrogar Yash, ele não sabia nada. A primeira pancada abrira alguma coisa, e a segunda a fechara. Os figurões perguntaram quanto dinheiro traziam, o que fizeram no dia anterior, o que comeram uma semana atrás aquela hora, mas Yash apenas sorria como um tolo e respondia: “Não sei”.
Os funcionários se enfureceram. Repreenderam o chefe de polícia e o novo médico. Exigiram saber por que tinham vindo de tão longe para ver aquele parvo, aquele campônio que não passava de um limpador de chaminés comum.
O chefe de polícia e os outros juraram que Yash sabia de tudo ha um ou dois dias atrás, mas os visitantes não quiseram escutar. Alguém lhes disse que Yash caíra de um telhado e tornara a bater com a cabeça, vocês sabem como as pessoas são: só acreditam no que veem. O chefe de polícia se aproximou de Yash e começou a bater com os punhos na cabeça dele. Talvez o parafuso se soltasse outra vez. Mas, uma vez que a portinhola no cérebro se fecha, permanece fechada.
A comissão regressou a Varsóvia e negou a historia do princípio ao fim. Yash continuou a limpar chaminés mais um ou dois anos. Então irrompeu uma epidemia na cidade e ele morreu.
O cérebro é cheio de todo tipo de portinholas e câmaras. As vezes uma pancada na cabeça desarruma tudo. Ainda assim, tudo isso tem relação com a alma. Sem a alma, a cabeça seria tão sabia quanto o pé.


[1] Festa religiosa judaica que comemora a colheita de outono, também chamada Festa dos Tabernáculos. (N. do T.)


http://contosquevalemapena.blogspot.com.br/2015/05/45-o-limpador-de-chamines-i-b-singer_1.html

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