Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

25 de mai de 2015

Márcia Poesia de Sá em "Anzol"



Anzol

Pois é, hoje decidi que morro, morro da morte visceral e da qual ha anos acalento como prioridade absoluta de escolhas abstratas. Canso fácil de coisas difíceis e me é imperativo prever um futuro mesmo que este, seja apenas uma utópica linha repleta de palavras, virgulas, exclamações, contudo, quando as interrogações se avolumam, se enroscam todas provocando uma bagunça no mínimo, desagradável, provavelmente pelo seu formato de gancho, na verdade não era a palavra gancho que eu queria usar, mas esqueci como se chama aquilo que fisga os peixinhos mais desavisados, e que carrega espetado nele, uma minhoca estúpida.

Já gostei de pensar que pertencia a algum enígma escrito por algum Deus profundamente sádico e com óbvios distúrbios de repetições. Mas na verdade esta ideia e tantas outras, andam despencando vertiginosamente da minha mente ha algum tempo, na verdade na minha mente neste momento tudo despenca, tudo simplesmente cai, gostaria muito que pudessem ver a imagem que vejo agora, é um misto aterrorizador de um terremoto numa escala indizível na livraria de Londres com a hora da xêpa de alguma imunda feira do interior da Índia. Enfim, livros sujos de legumes e frutas, e no meio deles algo escorre e parece-me daqui, ter um tom de verde, ou seria marrom? não sei e nem vem ao caso.

Mas escorre, e molha as páginas, e estraga as antigas e tão amadas coleções de capa dura assim como os gibis dos anos setenta que eu colecionava. Isso não está me incomodando em nada, e este desapego na verdade me incomoda, a única coisa que eu gostava nesta minha mente era isso, e agora parece que só ha um vazio. Um eco que ecoa de lá para cá sem nada dizer. É, definitivamente hoje eu morro.

Morro a fantasia, morro o sonho e seguro firme este copo cheio de desilusão no qual acrescento duas pedras de gelo e mesmo sem querer, acrescentei uma pitada de pimenta do reino! Nossa! acho que exagerei na pimenta e isso me faz espirrar muito!

Pois é, agora vou tentar desafiar o absurdo! quem é o absurdo? bem, o absurdo é um cara que conheço ha muitos anos, na verdade acho que quando eu nasci ele estava na sala de parto, de braços cruzados e vestia uma terrível roupa vinho, que lhe dava um ar tétrico dos contos ingleses. Ele baforava um charuto e sorria da minha cara melada de sangue, acho que foi a segunda pessoa que vi ao nascer. A primeira foi o médico, devia ser médico, usava aquela toquinha ridícula verde.

Ele vem me acompanhando a vida toda, tem um riso muito chato e um sarcasmo intolerável que usa sempre quando eu quebro a cara em quatro pela vida. Nos últimos anos ganhei várias partidas de canastra para ele e isso o deixou furioso! Então, ele decidiu me arranjar uma esparrela na qual escorreguei e cai de quatro mais uma vez. Mas desta vez serei mais esperta que ele, não é possível que com todos estes anos eu não tenha aprendido nada com este calhorda, vou matar um monte de coisa em mim e isto ele jamais esperou ou ousou sonhar.

Então, depois disso irei abrir a janela e gritar para ele: Oh! absurdo! vem cá que eu tenho uns segredinhos para te contar. Ele é muito curioso e a demora em revelá-lo os tais fictícios segredos, o matará de raiva, provocando a fúria de sua ulcera, também tentarei servi-lo algo que piore esta dorzinha que tanto o perturba.

Como já não haverá em mim qualquer resquício do eu, que ele conhece e reconhece tão bem, fazendo com que me manipule com a facilidade com que manipulamos um mamulengo pastel, creio que isto o deixará perplexo ao ponto de enlouquecer, então, um absurdo louco será meu companheiro de jornada, e a isto eu conheço bem, me valeram muito, os anos de estudo deste assunto e aquelas viagens malucas que fiz de trem pela Europa, além de é claro, as outras viagens que neste instante me vem a mente como um carrossel de parque infantil, só que ao invés de cavalinhos girando, o que gira é um animal pré-histórico, provavelmente do qual, descenderam os cavalos marinhos.

Hoje, tem de ser hoje, nem ontem nem amanhã. Hoje, eu morro de mim, e de toda esta minha cruel imaginação, que devora com a fome dos felinos minhas horas, e o pouco da minha insanidade. Jamais novamente vou embargar a voz, jamais me deixarei triste, e se um dia, seja lá quando for, eu voltar a amolecer esta infernal bomba que não me deixam arrancar do peito, juro que a espetarei com uma daquelas seringas de anestesia, aquelas bem longas, e dentro dela farei uma mistura de ácido sulfúrico com uma ou duas doses de curaçao blue.

Ainda hoje, também preciso arrumar as malas, mandar lavar os sobretudos e as máscaras, pegar na casa da tia aquele casaco preto e deixa-lo na lavanderia do senhor Yoshiro. Desencaixotar as botas, as luvas negras, e aquele lenço de seda. Também não posso esquecer de procurar meu passaporte, mas acho que ele nem vale mais, bom! se não valer não faz mal, tiro outro, afinal é sempre assim, quando algo não vale mais, a gente só o substitui por algo que valha, ou que igualmente nada valha, mas é novo não é?!

E o novo é sempre brilhante, mais bonito, mais macio, mais cheiroso ou seja lá o que a nossa vã ignorância deseje acreditar naquele momento.

E depois de tudo pronto e comprado, inclusive a passagem para o inferno gelado, sentarei com meu inseparável absurdo enlouquecido em uma daquelas cadeiras apertadas de algum avião, de qualquer companhia que me tire do chão, e depois de um duplo entorpecimento das lágrimas que jamais nascerão, sei que vou por fim, puxar o bloco de nulidades e riscar com tinta preta em linhas docemente abandonadas no papel, uma breve poesia sem qualquer rima, que fale do quanto vai doer este momento, comentarei da visceral saudade que me acometerá, e de todos os momentos que me foram inesquecíveis, provavelmente lá pela terceira estrofe, eu tente acrescentar um terremoto, ou um vulcão que nasce em minha garganta e morre nos tímpanos do abismo surdo, e que de lá retorna como um eco avassalador, falarei dos beijos, do ouvir o sono ressonar, falarei das nuvens e do mar, e nesta hora o meu amigo absurdo já estará com aquele riso maldoso na cara, então e mesmo assim, eu vou continuar a escrever até esvaziar de vez o que neste momento, me ferve a verve. No final, vou deixar o poema sem assinatura, amassar muito bem ele nas mãos, uma, duas, três vezes ou até que assim eu me despeça deste sentimento, depois abri-lo delicadamente, coloca-lo dentro daquele vão da cadeira á frente, e este será o final desta história. Tudo apenas se resume a isso, um poema abandonado em uma poltrona vazia.

E enfim, vou permitir que meu olho vague vago, por sobre as abstratas nuvens de vento, umidade, brancura e silêncio. Que agora frias, acarinham as asas do avião.

Márcia Poesia de Sá. - 2014

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