Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

25 de jun de 2015






Bons tempos

Gostava mais quando a verdade habitava os olhares
e cada lágrima era um pássaro aflito a sangrar diante da injustiça
quando os diálogos se faziam pontes entre as almas que se abraçavam
no lago dos sorrisos
(sem dolo de consciência ou desnecessária cobrança)

gostava quando cada ser humano era livre de espírito, criança sem mácula de
[maldade
nuvem que deposita sonhos nas pétalas do peito sedento
tempo em que família era a palavra de maior peso nas veias
e dela os valores germinavam feito os múltiplos girassóis de Van Gogh

gostava mais quando as estrelas abençoavam o fruto do trabalho
e a humanidade, feito um prisma compartilhado
dia após dia
deixava nas paisagens ainda intactas contornos de esperança

voz de anjo que nos chama pelo nome quando o coração leve ainda se comove.

Rogério Germani

14 de jun de 2015

Compreendo pouco...mas sinto muito



Um espaço diferente. Sinta-o e não tente compreendê-lo.

Para derramar:

-o fluxo da consciência;
-o fluxo da inconsciência;
-sentimentos e sentidos, com ou sem direção.

--------------------------------------------------------------------------------
Trata-se de uma proposta para extravasar o que se tem por dentro, tirando qualquer tipo de barreira ou mito sobre o que se passa conosco sem precisar ser totalmente cognitivo ou algo parecido. 

Então, se para você as palavras ainda são pouco, porque não é bom entendedor e sim um SENTIDOR, esteja aqui conosco e derrame a sua ideia. 

Nada é insano e despropositado, apenas os olhares são diferentes e talvez a estética.

Então estamos combinados: se for mergulhar, suba de vez em quando e nos conte como foi.

(proposta original da NOP por José Humberto Ribeiro)

13 de jun de 2015

Marisa Schmidt em Uma Nova Lição


layout por Dinorá Bueno

Cadente, com Márcia Poesia de Sá


Cadente

Definitivamente algo esta cadente, suspenso por finíssimos fios que balançam abandonados. Um tom acobreado persegue os fios de baixo para cima, e ao chegar ao topo desaparecem sem aviso. Um tempo sem mundo, sem vísceras e sem veias, roda assoberbadamente inerte pelo relógio trincado, pelos percalços.

Ela ouve sussurros, e palavras que não compreende, mas sente que irá compreender quando os tons de azul começarem a escurecer. O arrepio que a corroí é gélido e silente, não o posso tocar nem com os olhos, é uma injustiça combinada. Tão cansada...tão cansada...

quanto quem esfregou com escova todo o horizonte, ou enxugou com um cotonete todas as lágrimas do mundo. Sopra a chama do dia e implora sonhos que jamais virão. Ela não percebe que sua pele vai lentamente desaparecendo na paisagem, e é ela também os troncos que se contorcem inúteis e sozinhos. 

Nada cresce nada brota, apenas as suas tediosas e roucas orações a ninguém, ela emana vibrações que curam, e isto a aquece um pouco dos pavorosos pesadelos nos quais portais e escadarias a perseguem. 

Ela riscava traços aureolados nas areias das praias vazias, ela picava desesperos e pulverizava a vida alheia de estrelas, enquanto afundava vertiginosamente em seu mar verde esmeralda. 

Guardava no olhar os invernos obsoletos e os verões de mentiras. Tinha nas estantes as provas abissais de seus mergulhos, e eram eles as passagens que ela sempre reutilizava quando precisava se curar das feridas que repentinamente e insistentemente se abriam outra, e outra vez, indefinidamente.
Hoje algo está cadente, inclusive na negação clara, de seu habitual riso, ou no olhar dela que teima em fechar-se como uma janela pesada de madeira maciça em cujas fibras já não mais aparecem as antigas cores, hoje, descascada de tanto sol e chuva, é de cinza que veste-se a janela de seus olhos. 

Tão cansada...tão cansada! que tudo que ela pode sonhar, é apenas acordar numa outra história, cujas paredes não sejam de grades e pedra. Enfim, adormeceu e creio eu, pela imagem que me aparece, que ela não sonha, apenas descamba ribanceira abaixo como feno seco, esturricado e esquecido de algum paiol do desencanto. Enquanto a noite se esgarça em fios que daqui há algum tempo vão a suspender até o ponto onde o silêncio dorme.

Márcia Poesia de Sá - 2015.

11 de jun de 2015

Gravidade

Em meus sonhos
não há gravidade
Os braços seculares
nada agarram,
nada erguem
e nada afagam
Condenados
à eterna imobilidade
Diante
a magnânima alquimia
nada podem
e atrofiam
Se tornam

apenas vontade


Tim Soares

8 de jun de 2015

Dig a pony

Dig a pony

Façamos um brinde
Ao desenfreado desejo de um pouco de tudo ao mesmo tempo
Façamos um brinde
Á demência maquiada nas faces cínicas
Façamos um brinde
Á essa vã filosofia capenga tratada como puta barata
Façamos um brinde
Ao fanatismo que cria densas muralhas
Façamos um brinde
Às conjecturas absurdas sobre a vida
Façamos um brinde
Ao amor mal feito e à banal troca de fluídos
Façamos um brinde
Ao ensaio diário das nossas mortes
Façamos um brinde

Com as taças cheias de uma boa melancolia suave.

Tim Soares

2 de jun de 2015

NAS MANHÃS VERDES AINDA, Lena Ferreira



Nas manhãs verdes ainda
os seios das sementes trazidas pelas aves
amamentam a sutilíssima promessa
em juras de colher diálogos claros

de vento isentas, assistem ao ensaio
de uma brisa que adolesce, risonha e macia
enquanto sussurra umidades para o campo
ervado estranhamente em brevidades e hiatos

tudo é espera suave
- adubo, rega, zelo e capina -

Nas manhãs verdes ainda
o sol, preocupado, se ocupa a mais nessa campina:
amadurece a brisa e, amortecendo os silêncios graves,
a promessa da colheita logo está pronta a ser cumprida

NAS MANHÃS VERDES AINDA - Lena Ferreira -

www.parescencias-lenaferreira.blogspot.com.br

1 de jun de 2015

Marisa Schmidt em "Degredo"




DEGREDO

Não me tires a solidão
velha irmã companheira
que durante a vida inteira
me teve à palma da mão

Não me roubes o silêncio
tão pleno em sua quietude
pois que o vozerio só ilude
o coração sempre pênsil

Não caminhe ao meu lado
nem me conte seu segredo
que só sei mesmo de mim

Sou como um bicho alado
voando em auto degredo
numa rota sem meio ou fim.

Marisa Schmidt

Oficina de escrita literária Inspiraturas, em Pelotas

Oficina de escrita literária Inspiraturas - o fim da página em branco - A ti, que ainda acreditas na escrita, em especial a Poesia, como ...

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