Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

13 de jun de 2015

Cadente, com Márcia Poesia de Sá


Cadente

Definitivamente algo esta cadente, suspenso por finíssimos fios que balançam abandonados. Um tom acobreado persegue os fios de baixo para cima, e ao chegar ao topo desaparecem sem aviso. Um tempo sem mundo, sem vísceras e sem veias, roda assoberbadamente inerte pelo relógio trincado, pelos percalços.

Ela ouve sussurros, e palavras que não compreende, mas sente que irá compreender quando os tons de azul começarem a escurecer. O arrepio que a corroí é gélido e silente, não o posso tocar nem com os olhos, é uma injustiça combinada. Tão cansada...tão cansada...

quanto quem esfregou com escova todo o horizonte, ou enxugou com um cotonete todas as lágrimas do mundo. Sopra a chama do dia e implora sonhos que jamais virão. Ela não percebe que sua pele vai lentamente desaparecendo na paisagem, e é ela também os troncos que se contorcem inúteis e sozinhos. 

Nada cresce nada brota, apenas as suas tediosas e roucas orações a ninguém, ela emana vibrações que curam, e isto a aquece um pouco dos pavorosos pesadelos nos quais portais e escadarias a perseguem. 

Ela riscava traços aureolados nas areias das praias vazias, ela picava desesperos e pulverizava a vida alheia de estrelas, enquanto afundava vertiginosamente em seu mar verde esmeralda. 

Guardava no olhar os invernos obsoletos e os verões de mentiras. Tinha nas estantes as provas abissais de seus mergulhos, e eram eles as passagens que ela sempre reutilizava quando precisava se curar das feridas que repentinamente e insistentemente se abriam outra, e outra vez, indefinidamente.
Hoje algo está cadente, inclusive na negação clara, de seu habitual riso, ou no olhar dela que teima em fechar-se como uma janela pesada de madeira maciça em cujas fibras já não mais aparecem as antigas cores, hoje, descascada de tanto sol e chuva, é de cinza que veste-se a janela de seus olhos. 

Tão cansada...tão cansada! que tudo que ela pode sonhar, é apenas acordar numa outra história, cujas paredes não sejam de grades e pedra. Enfim, adormeceu e creio eu, pela imagem que me aparece, que ela não sonha, apenas descamba ribanceira abaixo como feno seco, esturricado e esquecido de algum paiol do desencanto. Enquanto a noite se esgarça em fios que daqui há algum tempo vão a suspender até o ponto onde o silêncio dorme.

Márcia Poesia de Sá - 2015.

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