Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

31 de out de 2015

Voz de brisa, por Rogério Germani




Voz de brisa


Eis que nos pampas a brisa toca sinos

na língua das plantas

o amor passeia na orla da vida

como o cão que brinca livre na praia

como a nuvem que molda sonhos ao redor dos nomes


os segredos nas translúcidas águas se banham

estrelas confidenciam olhares

esvaziam-se nas conchas os silêncios


a alma experimenta novo sentimento:

voz de brisa que e acaricia e perdoa as falhas humanas.


Rogério Germani

30 de out de 2015

Corolas

A tarde morna avança e o céu, antes nublado,
apresenta um tom rosáceo, tão doce, tão doce
como se as nuvens fossem corolas suaves
que, desprendidas das sépalas pelo vento,
sobrevoam as acinzentadas estruturas
derramando o seu aroma almiscarado
que prepara mãos e olhos, atentos,
para que recebam a noite, calma
por dentro,
serena e azul


- Lena Ferreira -

Nem as pedras





Nem as pedras

Peles, poros, cabelos, sentimentos
arrepiam com sua desenvoltura
não lhes escapam os comprometimentos

pois nem as pedras ficam imunes ao vento

Folhas, flâmulas, plumas, inventos
rodopiam com nova textura
não desviam ao seu movimento

pois nem as pedras ficam imunes ao vento

Poemas, pressupostos, luas, segredos
estremecem ao vê-lo passar
não lhes recusam folguedos

pois nem as pedras ficam imunes ao vento

Passos, pesos, ombros, medos
emudecem ao vê-lo cessar
e a cessação é como degredo

pois nem as pedras ficam imunes ao vento


Anorkinda e Lena Ferreira


.

26 de out de 2015

O voo das saudades


O voo das saudades

Delicadamente
o dia dá adeus
com promessas
de proteção
e breve volta

Levemente
balançam
as penas
ao sabor
da brisa 

Docemente
as saudades
em remessas
de ar quente
vão soltas

Lindamente
avançam
por entre
sombras
e divisas

Anorkinda

.

25 de out de 2015

Palavrinventada®



Palavrinventada®


INSPIRATURAS - "palavrinventada"®

Oficina para o desenvolvimento de uma escrita despojada e criativa, a partir do uso de inovações lexicais. (por Dhenova, Leh Lopes e Wasil Sacharuk).

De uma palavra inventada, absurdamente possível, escreva um poema ou narrativa curta. O desafio é produzir um texto original.


Não esqueça de deixar uma palavra inventada para o próximo escritor.


24 de out de 2015

Dança

Coisa que gosto
é essa dança lúdica
da língua
na derme
que
sua
e chama
o nome
do verbo
no imperativo
do pronome
possessivo



 - Lena Ferreira -

21 de out de 2015

e-book "Uma Outra Gnose", de Wasil Sacharuk

Muitos não acreditam quando ele diz que entrou em contato com poesia, em 2003, através de um livro de Bruna Lombardi. Mas é verdade, Sacharuk não era poeta... mas já era escritor. E dos bons.

As primeiras leituras que fiz da escrita de Sacharuk foram os artigos (muitos publicados em jornais locais) e me apaixonei pela forma incisiva e coerente, além de extremamente clara, da sua expressão. Lembro de uma brincadeira que estimulava a nossa escrita, na época só de narrativas curtas, eu deixava ‘uma imagem’ (pequeno trecho escrito) e ele escrevia um conto... foram poucos os contos, mas a marca ‘Sacharuk’ foi intensa e o conteúdo trabalhado muito inteligente.

Foi a internet, todavia, o meio que serviu de estímulo para o surgimento do poeta Wasil Sacharuk, a interação com vários poetas virtuais e as comunidades de poesia do Orkut foram bases para a nem tão extensa mas rica obra deste escritor nato.

A criação da NOP – NOVA ORDEM DA POESIA consistiu para os poetas que, como eu, tinham o ‘caderninho’ guardado numa gaveta pegando poeira numa oportunidade única de compartilhar versos.

‘E a poesia, então, ressurgiu pela internet’... e agora sai em versos escritos neste livro.

Dhenova

e-book “Uma Outra Gnose”, de Wasil Sacharuk
69 páginas
R$ 6,66
receba diretamente em seu e-mail

A batalha silente de Márcia Poesia de Sá



A batalha silente

E as cobras armaram-se para o bote !
Ampliando guelras imaginarias
descem os abismos ingrimes
rastejando suas pequenices
por entre pedregulhos transparentes

Os pontos de fogueiras acesas
em labaredas gritantes
azulam e avermelham
os olhos já não mais faiscantes

Sopra no vento as vicissitudes
e vestem um manto de voal azul...
englobam sonhos rasurados
prostrado no canto, o uivo rouco
do tempo já totalmente empoeirado...

Telhas revoam caminhos
papiros são apagados,
como por encanto !
alados cavalos bailarinos
cantam os sons espelhados
entre dentes branquíssimos

Nos caminhos tortuosos
que cortam sorrateiros
os veio da mata,
notas de uma fragrância exótica
denotam a passagem da magia
há poucos minutos de agora

Trancafio as porteiras abissais
com cadeados sem chaves e sem brilho
amarrado a eles, as folhas das heras
enquanto o frio agiganta-se
na alma fluida do tempo perdido.

Márcia Poesia de Sá

gramando



eles gramam,
 eu supiro,
 poesia nos poema segredos,
 e o dia nasce perfeito para vôo

gramemo-nos também.

carpe diem



Bia Cunha


    meninos, meninos
     que brincam na rua sem asfalto
     o entardecer lhes é o riso, o grito
     o artefato foi feito da folha da tarefa
     as sacolas plásticas do mercado deram para rabiolas
     as latas vazias de cerveja viraram carretéis

    meninos, meninos
     que se dividem em pressa
     um vai na frente, desajeitado no soltar da linha
     o menor está atrás, mas esse tem jeito pra voo, a pipa é uma dançarina em suas pequenas mãos e seu sorriso largo
     o último segue lento e tristonho, grita, "minha pipa raigou, raigou"

    meninos, meninos
     que correm na rua desasfaltada da minha memória
     raigam meus pensamentos
     me conduzem por passos espiralados dos tempos de antes
     salto por entre as linhas e vou, voo

    meninos, meninos
     já fui catadora de infância
     o meio fio me contou tantos segredos
     meu riso estava no chão
     meu voo era rasteiro
     os azulejos quebrados me serviam para amarelinha
     as castanhas para formar cidades encantadas
     o giz para rabiscar poemas nas calçadas
     das sobras de casa guardei elásticos e quando não havia pernas amigas
     as cadeiras foram bem utilizadas
     as garrafas de plásticos serviam para guardar as bolinhas de gude
     meu ser criança terminava na hora que painho assobiava
     era o momento de escorrer a meninice pelo ralo
     quase sempre o ardor do methiolate para carimbar o dia
     depois era só apagar as estrelas exaustas e ofegantes
     até o novo amanhecer

    meninos, meninos
     não me canso dos amanheceres
     !

    Bia Cunha

Conversa com minha mãe



CONVERSA COM A MINHA MÃE

Sabe mãe, eu não sabia
que um dia após outro dia
formasse o nosso rosário

e não sabia também
que todo o amor que se tem
forma enfim o corolário

que quem ama, sente saudade
e que mãe é na verdade
Deus em forma de gente

porque está sempre presente
mesmo quando não se vê
comigo está sempre você

Sabe mãe, eu não sabia
como é grande a serventia
de conversar em pensamento

e, até lhe peço desculpa
se esta filha sempre a ocupa
com bobagens ...e algum lamento

Sabe mãe, o tempo voa
e hoje sei que é coisa à toa
a morte que tanto apavora

pois essa velha senhora,
como a vida, é só ilusão
já que a realidade, mora no coração!

Marisa Schmidt

Parceria



Parceria

Foi preciso um sopro de fada
ajustes na ancoragem
e emanações de luz

E a magia foi reavivada
onde antes era imagem
agora é tato e voz

Foi preciso uma jornada
ajustes na blindagem
e intenções de paz

E a poesia foi chamada
onde antes era estiagem
agora é chuva que satisfaz

Anorkinda

18 de out de 2015

Sobre a forma e o conteúdo

Sobre a forma e o conteúdo

A produção de um texto é bidimensional. Há que se estar atento à forma e ao conteúdo. Enquanto proposta oficinal, a escrita criativa não busca mais do que o desenvolvimento de uma escrita personalizada e eficiente, de forma a abranger as duas dimensões.

A redação deve ser um exercício constante e gradual em busca de uma autonomia. E a principal competência necessária ao escritor é habilidade de leitura oriundo do desenvolvimento da avaliação crítica dos textos.

Cada obra que o escriba pretende concluir deve contemplar um leque amplo de possibilidades. É necessário trabalhar O QUE se pretende dizer e também COMO dizer. O tratamento de um texto deve estar ancorado em alguma metodologia que permita ao leitor empreender uma relação eficaz com o texto escrito. Esse é um bom desafio que demanda a tomada de decisões.

Wasil Sacharuk

17 de out de 2015

Navegar é preciso

Navegar é preciso
Pois o poeta não vive
Sem flutuar
Sem decifrar o mistério da órbita

É preciso
Pois a verve é veloz
Voa como pássaro

É preciso
Pois o poeta
Não tem lar
O poeta é do mundo
Assim como seus versos
E seus desejos de gozo

Navegar é preciso
Mesmo que não haja
Uma única gota d’água



(Tim Soares)

12 de out de 2015

Das sagas

Eis aqui as minhas sagas
Nesta confronto o meu eu mais perverso
Derroto-o e assino um pacto com todas as variáveis
Já não há mais leis de tempo/espaço
No mesmo verso, bebo vinho, gozo e sangro
Na página seguinte visito todos os Países das maravilhas
Cada um com sua Alice
Vejo o meu eu confuso 
Mergulhar nas águas pitorescas
Beijo as linhas raivosas da poetisa
E depois? Aí já é outra saga



Tim Soares

9 de out de 2015

Oficina INSPIRATURAS/APCEF Regional Sul- "Inflação"- desafio de poesia livre



Oficina INSPIRATURAS/APCEF Regional Sul- "Inflação"- desafio de poesia livre

"Se ocorresse um vendaval de moedas
faria um colar em forma de terço"
(Lu Leal)

Inflação

Moedas quedam vendaval
de euros, francos
dólares, yens
muito mais
e além

se eu contar
até aborreço

nada mal
do dinheiro fiz um colar
de metal verdadeiro
em forma de terço
e do $Real
eu só fiz um chaveiro.

Wasil Sacharuk

Oficina INSPIRATURAS/APCEF Regional Sul - "MEU EU OCULTO" aquecimento de acróstico:



Oficina INSPIRATURAS/APCEF REGIONAL SUL - aquecimento de acróstico:


MEU EU OCULTO - acróstico

Máscaras de mim
Ergui, por fim
Uma a uma

Escondi sobre as vigas
Úmidas contendas

O que sou ninguém liga
Coisa que cala a mim mesmo
Um verso solto, a esmo
Libertador das distâncias
Terra fértil das ânsias
Onde plantei meus rebentos.

Wasil Sacharuk

A Tipologia de Friedman - Narrador câmera

drone_camera-gopro  A Tipologia de Friedman - Narrador câmera

Câmera (The camera)
 
A última categoria de Friedman significa o máximo em matéria de "exclusão do autor". Esta categoria serve àquelas narrativas que tentam transmitir flashes da realidade como se apanhados por uma câmera, arbitrária e mecanicamente. No exemplo de Friedman, de Goodbye to Berlin, romance-reportagem de Isherwood (1945), o próprio narrador, desde o início, se define como tal: "Eu sou uma câmera".
O nome dessa categoria me parece um tanto impróprio. A câmara não é neutra. No cinema não há um registro sem controle, mas, pelo contrário, existe alguém por trás dela que seleciona e combina, pela montagem, as imagens a mostrar. E, também, através da câmera cinematográfica, podemos ter um ponto de vista onisciente, dominando tudo, ou o ponto de vista centrado numa ou várias personagens. O que pode acontecer é que se queira dar a impressão de neutralidade. Cristopher Isherwood, que é um repórter, descreve no livro citado por Friedman, com minúcia e exatidão, as suas experiências de Berlim, mas são as suas impressões da cidade. A exatidão não apaga, embora possa disfarçar, a subjetividade.
O noveau roman francês também se adequaria a esse estilo de narração tão afim ao cinema, não pela neutralidade, mas pelos cortes bruscos e pela montagem.
  
LEITE, Ligia Chiappini Moraes. O foco narrativo (ou A polêmica em torno da ilusão). São Paulo: ática, 1985. Série Princípios. (p. 25-70)

Read more: http://www.inspiraturas.com/2011/10/subsidios-teoricos-do-conto-tipologia.html#ixzz3o584yp00

 

Metal

Luzes vermelhas, azuis, amarelas... de mercúrio e neon.
O asfalto e a dança dos faróis.
No céu, lua cheia, noite cristalina.
A mulher anda pela direita, passadas largas, rápidas.
O homem, á esquerda, pouco atrás, ritmo equivalente.
Empunha, o homem, objeto pontiagudo, metal brilhante.
A mulher veste casaco - um grande - gorro de pele, luvas.
Os passos apressados cessam junto à parede do casarão. Manchas vermelhas.
O homem sobre o meio-fio. A mão entreaberta ainda segura o metal.
A mulher abotoa o casado, livra-se das luvas e segue.

Wasil Sacharuk

(www.wasilsacharuk.com)

3 de out de 2015

A dança

A dança

     Sempre que a chuva dança suave na folhagem submissa, meus olhos traduzem seu rosto, querida Carmen, nos vidros das janelas cúmplices do mar de silêncios que se tornou minha vida. Depois que os palcos celestiais clamaram seu nome, Carmesita, o que me salva é o pranto das nuvens ungindo a paisagem em volta da casa.

     Hoje, nem mesmo a música colhe sorrisos em minha face; sozinho, falta-me o paladar, o desejo por timbres refinados: meu coração, agora, é gaiola livre de pássaros, rochedo açoitado por ondas de perene solidão.

     Já com um pouco mais de setenta anos, corpo e mente só se nutrem de memórias. Às vezes, nas raras ocasiões em que ouso caminhar na praia, nosso quintal e moldura dos dias felizes de outrora, sinto sua alma, amada espanhola, de mãos entrelaçadas com as minhas,  indo nutrir seus versos com o balé doce das águas. E, nestas fases de encantamento poroso, ainda encontro forças para contemplar o sol que habitava seu olhar, como num sonho bom onde os anjos nos veem como crianças brincando descuidadas.

     “José!” Uma voz melíflua resgata-me dos pensamentos naufragados em melancolia. Com a mão esquerda, numa espécie de continência autônoma sobre minhas sobrancelhas trêmulas, avisto a silhueta de uma flor flamenca sussurrando meu nome em cada gota que farfalha perfume na terra molhada: Carmen!

    “José, traga o violino... a natureza suplica sua música!”

     Sim, Carmesita! Meu corpo inusitadamente ágil responde, já segurando o instrumento delicado e abrindo a porta da sala. A suavidade da chuva é um convite irrecusável, tão terno quanto à beleza de minha amada iniciando seus passos graciosos. Feito um spalla sedutor, entrego ao vento a voz mais sublime que meu arco consegue esculpir no violino escravo de minha paixão. Percebo os galhos finos das roseiras vergando, desencadeando no deslumbre de suas flores a emoção de estarem vivas.

     “Aproxime-se, José. Não tenha medo... Vamos dançar a nossa música.”

     Em transe, obedeço. Deixo cair o violino e, flutuando, abraço o enigmático corpo de Carmen. Mesmo com a praia deserta no momento do enlace de nossas almas, ouço uma familiar melodia, tão bem orquestrada que me imaginei bailando em Musikverein, ao som da filarmônica de Viena. Os longos cabelos pretos e macios de minha amada, sua pele lasciva, seus lábios tingidos de rubro pecado, a feminina obra perfeita capaz de inebriar meus sentidos.

     E assim continuei dançando. Mesmo quando as pétalas das rosas coroaram meus olhos, mesmo quando a chuva suave encobriu o tímido murmúrio de meu coração exausto no acorde de nossa última canção. Continuei dançando com Carmen até restar na brisa marítima somente o meu nome.



Rogério Germani


Oficina de Escrita Literária Online – Poesia

Oficina de Escrita Literária Online – Poesia INSPIRATURAS - Escrita Criativa - oferece aos interessados na produção de poemas uma oficina q...

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