Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

3 de out de 2015

A dança

A dança

     Sempre que a chuva dança suave na folhagem submissa, meus olhos traduzem seu rosto, querida Carmen, nos vidros das janelas cúmplices do mar de silêncios que se tornou minha vida. Depois que os palcos celestiais clamaram seu nome, Carmesita, o que me salva é o pranto das nuvens ungindo a paisagem em volta da casa.

     Hoje, nem mesmo a música colhe sorrisos em minha face; sozinho, falta-me o paladar, o desejo por timbres refinados: meu coração, agora, é gaiola livre de pássaros, rochedo açoitado por ondas de perene solidão.

     Já com um pouco mais de setenta anos, corpo e mente só se nutrem de memórias. Às vezes, nas raras ocasiões em que ouso caminhar na praia, nosso quintal e moldura dos dias felizes de outrora, sinto sua alma, amada espanhola, de mãos entrelaçadas com as minhas,  indo nutrir seus versos com o balé doce das águas. E, nestas fases de encantamento poroso, ainda encontro forças para contemplar o sol que habitava seu olhar, como num sonho bom onde os anjos nos veem como crianças brincando descuidadas.

     “José!” Uma voz melíflua resgata-me dos pensamentos naufragados em melancolia. Com a mão esquerda, numa espécie de continência autônoma sobre minhas sobrancelhas trêmulas, avisto a silhueta de uma flor flamenca sussurrando meu nome em cada gota que farfalha perfume na terra molhada: Carmen!

    “José, traga o violino... a natureza suplica sua música!”

     Sim, Carmesita! Meu corpo inusitadamente ágil responde, já segurando o instrumento delicado e abrindo a porta da sala. A suavidade da chuva é um convite irrecusável, tão terno quanto à beleza de minha amada iniciando seus passos graciosos. Feito um spalla sedutor, entrego ao vento a voz mais sublime que meu arco consegue esculpir no violino escravo de minha paixão. Percebo os galhos finos das roseiras vergando, desencadeando no deslumbre de suas flores a emoção de estarem vivas.

     “Aproxime-se, José. Não tenha medo... Vamos dançar a nossa música.”

     Em transe, obedeço. Deixo cair o violino e, flutuando, abraço o enigmático corpo de Carmen. Mesmo com a praia deserta no momento do enlace de nossas almas, ouço uma familiar melodia, tão bem orquestrada que me imaginei bailando em Musikverein, ao som da filarmônica de Viena. Os longos cabelos pretos e macios de minha amada, sua pele lasciva, seus lábios tingidos de rubro pecado, a feminina obra perfeita capaz de inebriar meus sentidos.

     E assim continuei dançando. Mesmo quando as pétalas das rosas coroaram meus olhos, mesmo quando a chuva suave encobriu o tímido murmúrio de meu coração exausto no acorde de nossa última canção. Continuei dançando com Carmen até restar na brisa marítima somente o meu nome.



Rogério Germani


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