Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

26 de nov de 2015

Hora estreita

Eivados por um mar de ardente chama
dois corpos sem castidade nenhuma
sorvendo gota a gota, uma a uma
da sede que possui quem muito ama

Nessa hora estreita e intensa que conclama
à entrega absoluta, a que consuma
a energia fluida e se resuma
num líquido efeito e se derrama

Em ondas que, entre avanço e recuo,
embalam os corpos lisos, e intuo
alimentando a sede pelo doce

Das ondas que, em explosões perfeitas,
convocam espasmos nessa hora estreita
que deita como se passar não fosse




- Lena Ferreira -

22 de nov de 2015

Admiráveis águas de março
(Inspirado na canção "Águas de março" de Tom Jobim)

É pau, é pedra...
Março traz novas águas
Agora pestilentas, raivosas
E fedendo à desgraça
Essas águas devoram cidades
Deixando apenas o inebriante
Perfume do caos
Águas que ceifam vidas
De algum João
De algum José
De um Véio China
São as águas de março
Fechando o verão

E deixando o vazio no meu coração



Tim Soares

20 de nov de 2015

De profundis

De profundis

Há um restolhal onde cai uma chuva negra.
Há uma árvore castanha que está sozinha.
Há um vento sibilante que gira à volta das cabanas vazias.
Como é triste esta noite.

Ao lado da aldeia
A doce órfã ainda colhe espigas raras.
Os seus olhos redondos e dourados percorrem o crepúsculo
E o seu colo aguarda o noivo celestial.

De regresso a casa
Os pastores encontraram o doce corpo
Decomposto no espinhal.

Eu sou uma sombra, aldeias distantes e obscuras.
Bebi o silêncio de Deus
Na fonte do bosque.

Na minha fronte galopou um metal frio
Aranhas procuram o meu coração.
Há uma luz que se extinguiu na minha boca.

À noite dei comigo numa charneca,
Cheio de lixo e poeira de estrelas.
Nas avelaneiras tilintavam de novo
anjos cristalinos.

Georg Trakl
versão em português por Luís Costa

19 de nov de 2015

Terrível inspiração

.

Terrível inspiração

Eu sempre podia vê-lo a caminhar tranquilo pelos jardins verdes e gelados no inverno, floridos e agradáveis no verão... Eu sempre podia estimulá-lo a escrever numa 'santa inspiração'... Ele era minha companhia mesmo sem saber, era minha regalia e divertimento, como outros já o foram...

Céu claro que ora me protege
de quando em quando
ruge e treme, me apavora...
Eternidade, senhora herege
que rege todo pranto
de teus filhos e os ignora...


Eu ditava e ele escrevia. O poeta desestimulado em seus ideais, o humano frágil submisso aos poderes locais... Eu ditava e ele num arroubo de emoção, versava cheio de paixão e recitava nos saraus... Ele minguava a cada dia, quanto mais escrevia e eu me divertia...

Oh... Destino que me impele
ao soluço sem amor,
goza e ri numa manobra
de crueldade e repele
a bênção do Criador,
sou nau vazia que soçobra...


Eu sempre assim fazia, a cada vez que ele nascia... A Terra é canteiro ideal para maldades... Eu sequer precisava procurá-lo, estávamos interligados por um elo eterno, uma viscosa energia de desmazelo... Ele era o melhor exemplo de 'casa vazia' onde qualquer ser pode habitar...

Triste sina a do poeta
que canta e lamenta
enche de graça os salões...
Da corte, o bobo esteta,
a si mesmo não contenta
e sangra internas emoções...

Eu comprazia nessa eterna e sádica inspiração, a ela fui condenado quando entrei nesta espiral de flagelação humana... Eu aprendi a me divertir por aqui, colocando toda a minha possível frustração e raiva na mente do poeta, alvo fácil... Ele entoava e compartilhava com os ouvintes o terrível destino...

E do meu peito bravo
um brado foi ouvido,
alcançou os céus,
enegreceu as nuvens,
atiçou raios num zumbido
fez de cada ouvinte, um escravo...


Caíam todos mortos...  Uma plateia seleta, nobreza. Por todas as eras ninguém sabia explicar repentinos golpes do tempo que dizimavam assim, amantes da arte em plena degustação de poesia...  Vez em quando.



Anorkinda

18 de nov de 2015

Molemar, com Wasil Sacharuk em INSPIRATURAS in-versos

Molemar

Adocei melamor
a amargador
dessa rimacu
sei de cor

lancei corpomol
sobromar
desandou molemar
molemar

Malamor, mintenda
vertente rebolenta
dos beiços caldeados

molemar malamor
locamor
malamor molemar
molemar

Malamor, miscuta
teu jeito disputa
sereia do mar

molemar malamor
locamor
malamor molemar
molemar

Adocei melamor
a amargador
dessa rimacu
sei de cor.

Wasil Sacharuk


15 de nov de 2015

Ozônio

Estive morto nos últimos dias,
a alma inerte,
o coração era apenas músculo.
Agora tudo que tenho é estrada
hostil, débil e vulgar.
Na maleta, um velho casaco,
um maço de cigarros meio cheio... Ou meio vazio?
Um caderno velho, Wilde e Kerouac.
E na cabeça, uma canção de Leonard Cohen
O ar é úmido e o silêncio é ozônio para o meu sangue.
Não há placas, mas estou apenas indo, flutuando por aí.
Estou vivo.
Estou viajando.

Estou caçando loucos.


Tim Soares

13 de nov de 2015

Como quem recebe a brisa

Recebo-te como quem recebe a noite
de lua adversa purpurinada de estrelas
solícita em líquidos aromando a calma
banhada em luzes, entregas e tulipas
vestida de pele e pelos e esse olhar ileso
aceso incenso em fragrante delito

Silente e, devotada, aspiro tuas rezas
embebendo o rito, perfumo o vínculo
entre a boca e o verso, espaço estreito,
disperso o vento que o alvorecer divisa
dispenso a prece, o verbo e te ajeito
no vão difuso entre o peito e o gesto

- recebo-te como quem recebe a brisa -




 - Lena Ferreira -

Oficina INSPIRATURAS/APCEF Regional Sul - Narrativa não-linear - Hoje, ele não voltou



Hoje, ele não voltou

E então, Sônia vê seus sonhos revirados. Está aos auspícios de novos tempos.

Acende outro cigarro. Sempre o faz como pretexto para pensar. Tal pensar, para Sônia, carecesse pretexto.
Bafora despudorados clichês literários mesclados às nuvens negras das longas tragadas. A mesma cena e o mesmo cenário...sempre. Os seus devaneios culminam em eventos felizes, divertidos, sensuais, junto àqueles que intimamente elege. Cria histórias transcendentais, protagonizadas por sujeitos habitantes das suas memórias, das recentes e das antigas.

Alberto trabalha tanto. Saí cedo de casa para retornar tarde da noite. Viaja, todos os dias úteis, cerca de oitenta quilômetros até chegar. Ultimamente, reclama da tristeza e do cansaço.
Sônia lembra da formatura de Alberto. Sacrifício! Na época, teve de trabalhar muito enquanto o marido concluia a faculdade de direito. Por sorte, não tiveram filhos e, consolidados e estáveis, conquistam facilmente os objetos dos seus desejos. Mas Alberto trabalhava tanto!

No mês passado, Alberto, em duas oportunidades, teve o carro enguiçado e, naquelas noites, não voltou do trabalho. Dormiu num hotel. Mas, na última semana, aconteceu mais duas vezes... e hoje, ele não voltou.

Sônia banha-se demoradamente. Quente e refrescante. Hidrata demoradamente as pernas recém depiladas. Escolhe a meia negra. Com a perda dos três quilos durante a última semana, voltou a caber na sainha.
Pega os cigarros, acende um, as chaves do carro e sai.

Wasil Sacharuk

10 de nov de 2015

Na rota do estupor com Wasil Sacharuk



Na rota do estupor

Dona Quifêrva está velha
pela casa insalubre
arrasta esfarrapadas pantufas
com odor de cachorro molhado

O seu grande legado
a essas alturas da existência
é o aprendizado
de que comer e dormir
talvez dormir e comer
evita medidas drásticas

Introjeta emoções homeopáticas
nas novelas televisivas
e nos programas de auditório
quanto mais pobres de utilidade
melhores serão
resguardam a sensibilidade
do cansado coração
que lá essas coisas
já não anda

Eis que troca as demandas
por um café reforçado
dois ou três pães franceses
quentinhos e estufados
com presuntos e queijos

O seu único desejo
habita entre a cama e a mesa
na rota do estupor
donde tem a certeza
que se um dia desses vai
nesse dia vai sem dor.

Wasil Sacharuk

Cavalgadura, com Márcia Poesia de Sá


Cavalgadura

Sento no banco
na anca fria da vida
que cavalga e engasga
trancada na lentidão de um dia
que nunca acorda !

Um gigante sendo sisudamente
devorado por vermes e formigas
bactérias de gravatas
na latrina da cegueira !

Na mídia, mentem mornamente
exalam fétidos sentidos
esdruxulo embrulho
goela a baixo

Sacolejo a cabeça
para acertar a centelha
que na telha prateada
como abóboda de um circo
vomita mentiras
escarradas

Levanto do muro indignada
que vergonha ser chamada de nada
pelo nada que tem horário pago
para falar asneiras
em meus tímpanos
surdos !

É, lá longe onde o clima é seco
secam os poços da minha paciência...
em velhas latas de manteiga
da padaria de sr, Joaquim

E até que enfim
comprei outra passagem
para o mundo dos mortos
vou nas asas dos urubus

já que esses,
de barriga estufada
se negam a comer carcaças
deste febril mundo imundo.

Márcia Poesia de Sá.

De borboletas e mariposas, por MARISA SCHMIDT


DE BORBOLETAS E MARIPOSAS

Borboletas desenhadas
nos muros da liberdade
batem as asas apressadas
abrem furos por onde o vento
leva nos braços a mensagem
e só quando muito desatenta
não se bandeia na aragem

Mariposas quedam teimosas
na lâmpada no alto da sala
ofuscadas por luzes operosas
são sombras que a nada abala
o tempo passa, a luz se apaga
e na presença do sol, ceratosas
são varridas, sem dó nem paga...

Marisa Schmidt

9 de nov de 2015

Oficina APCEF/INSPIRATURAS - Exercício de narrador Cãmera - Um texto inacabado



O portão de ferro. Na sua metade inferior, a ferrugem contempla pequenos pedaços quase soltos do ferro oxidado. O chão de cimento cru, sem revestimento, revela um vasto caminho que leva até o fundo. Na metade do percurso há uma velha porta de madeira, tal o portão de entrada, apodrece lentamente por baixo, e sua pintura branca tem manchas de sol. O teto parece ter sido branco, tal as paredes. Nessas despencam nacos de tinta velha no chão de cimento.
Paredes em farelos.
Um ventilador de teto com teias de aranha. Recostada à parede, uma estreita escadinha de madeira. Sobre seus degraus, copos, garrafas já abertas, uma carteira de documentos, chaves diversas e o aparelho celular.
O televisor antigo de onze polegadas permanece ligado. Na tela, homens discutem e vestem gravatas.
Uma poltrona funda e ampla guarnecida por travesseiros.  
O homem sentado tem a cabeça caída sobre o ombro direito parece dormir. Entre seus dedos, uma caneta. Logo a sua frente, na escrivaninha de ferro, um caderno. Nele repousa um texto inacabado.

Wasil Sacharuk

Valsa

É doce e aflito o pulsar que ora me chega
por esse vento que me vem de longe e, leve,
vem e reclama as feitas frases fracionadas
vem insistente num compasso claro e vivo
vem sussurrando em sibilantes aliterações


Como orquestrasse uma valsa vienense

os seus acordes rodopiam pelos rubros salões,
incitam intensas vibrações nas doidas cordas
e, acordando as sensações então dormentes,
valsam-me enquanto verto, em verso, ebulições



 - Lena Ferreira -

7 de nov de 2015

Quando a felicidade espia pela fresta




Quando a felicidade espia pela fresta

Ela não pede passagem.
Não percebe obstáculos
apenas cresce e vem,
desabrocha.

Ela não aceita blindagem.
Não arrefece com o frio
apenas aquece e mantém
o clima

sereno em qualquer condição.

Anorkinda

.


                     



 Sob o olhar da lua

      Minha vida é um bungee jump onde a lua sempre me traz à tona.  É esta certeza, talhada como uma estrela em meu peito, que ilumina meus passos perdidos nesta selva de rostos vazios de afeição.

     Algumas pessoas nascem em berço esplêndido, já com um roteiro pronto de sucesso na vida posto debaixo do braço, e nunca se lembram de agradecer o quanto são felizes. Nunca tive a mesma sorte. Sei-me órfã desde os meus sete anos de idade e até hoje uma plantação de lágrimas inunda meus sonhos com a imagem dos meus pais sendo mortos, “por engano”, pelos fardados que deveriam nos proteger da violência urbana. Para continuar nas ruas, tive que fazer da tristeza o meu cajado e fortaleza. A sombra que restou em cada centímetro de minha pele me protege do mundo. Herança que, todos os dias, obriga-me a dar graças à lua, depois que fugi de mim mesma.

     Minha rotina resume-se numa única palavra: sobrevivência. Vivo perambulando entre as pessoas como um fantasma que não deixa rastros. Se, involuntariamente, acabo esbarrando em alguém, sigo em frente, acelerando cada vez mais os meus passos, sem nunca olhar para trás; sem permitir que o tempo registre meu rosto nos olhos dos desconhecidos. Tática eremita que me consentiu chegar aos quinze anos, ilesa da maldade humana, quase uma ilha flutuante numa cidade sem um único farol que acene esperança às almas náufragas.

    Do mesmo modo como me infiltro nas artérias citadinas, desenvolvi um furtivo hábito de conseguir a minha alimentação. Nas feiras livres, assim que amanhece o apetite voraz que molda a sociedade, obtenho o meu sustento. Frutas e legumes que jamais desfilariam nas mesas dos afortunados, após serem colhidos no lixo ao lado das barracas, caminham saborosos no meu paladar pouco exigente. Combustível suficiente para envolver meus pensamentos com as críticas engrenagens responsáveis pela evolução das espécies, análise rápida antes da boca faminta aceitar a fria realidade do menu rotineiro. Quando não há feiras e não resta nenhuma fruta nas árvores plantadas nos canteiros da cidade, pesco migalhas nas grandes lixeiras dos condomínios, a grande represa onde os excessos da civilização pululam. Mar de entulhos onde também recolho peças de roupas usadas, livros com gravuras e até brinquedos quebrados. Banquete que aquece o corpo e os olhos cansados.

     Para aumentar a minha camada de invisibilidade perante as pessoas e nunca delas depender, de tanto enxergar – sempre camuflada atrás de algum poste ou árvore próxima – crianças bem vestidas sendo levadas pelos pais até os portões luxuosos das escolas particulares, desejei incluir o reino das letras em meu arsenal. Através de uma cartilha ilustrada de alfabetização, “por coincidência”, jogada na lixeira de uma dessas instituições de ensino por um aluno mais desatento, iniciei minha jornada solitária para galgar os degraus do conhecimento. Tamanhas eram minha fome e necessidade que, estudando em praças desertas ou em casas abandonadas, alfabetizei-me em pouquíssimos meses. Tudo para escrever e ficar remoendo com a leitura constante a palavra que ainda me dói: SAUDADE.

    Em escassas ocasiões onde a tristeza deixava de umedecer meus ouvidos com seus lamentos, sempre que possível, lia os cartazes dos filmes e eventos culturais que estavam sendo exibidos nos cineteatros da cidade. Como uma nuvem cinza em busca de uma nesga de sol, meu intuito era encontrar um rosto conhecido nos enormes expositores publicitários, Ana Botafogo, a bailarina mais famosa do Brasil. Claro que a graciosidade do ballet da celebridade carioca impressionava meus olhos já habituados a vê-la dançar em apresentações gratuitas nos parques, mas, numa espécie de encantamento, a enorme semelhança entre a face da bailarina famosa e a imagem de minha falecida mãe, carinhosamente armazenada em meus sonhos, funcionava como um ímã em meu coração.  
         Dentro do palco vermelho, enquanto um ritmo suave desenhava uma coreografia de luz nas frestas do céu, o espetáculo gerado pelos sorrisos maternos nunca saíra de cena. Miragem adocicada que, ao cair da tarde, extraía e ainda extrai minhas lágrimas mais cristalinas e pesadas, verdadeiro dilúvio para as cúmplices formigas dos dias em que a saudade une-se com a arte para afagar minha vida enevoada. E, novamente refém dos sussurros tristes trazidos pelo vento, da mesma maneira que me aproximo dos cartazes, saio sempre sem ser notada pelos transeuntes.

      Volto a me recolher do mundo.  

       
************            *************          


      Gosto da lua e suas falas maternas. Gosto da proteção que sua penumbra oferece às almas solitárias, um manto leve e sagrado que afasta as dores do dia e devolve-me à vida que carrego nos labirintos dos olhos desde o momento em que me tornei órfã, mágico cenário onde ainda sou parte de uma família reunida. 

     Diferente dos outros mortais, não temo nem mesmo as fases mais sombrias da lua; sinto, sim, um hálito de liberdade acariciando meus pelos quando ouço os passos da noite se aproximando. Com menos pessoas caminhando na cidade, o deserto das ruas alivia minhas artimanhas para fazer-me invisível. Volto à minha infância despreocupada, escalo muros, desenho anjos, fadas, bichos de pelúcia, canto alegre em total desatino e banho-me nos chafarizes das praças até não restar mais nenhuma mágoa do cotidiano em meu corpo.

     Ainda sem sono, pesquiso o interior das latas de lixo, como restos de lanches e agradeço pelo cardápio farto e colorido. Com sorte, além de alimentos, encontro verdadeiros tesouros esquecidos no lar dos descartáveis. Igual ao dia em que me deparei com um par de sapatilhas gastas jogadas na lixeira do teatro municipal, um troféu dado para quem consegue sair ileso das batalhas diárias. Mais um presente da lua, mágica ponte que me une às lembranças da mulher que me trouxe à vida e me ensinou os primeiros passos de ballet.  

     Epicentro das alegrias lunares, vago zombando da sisudez imposta às estátuas vigilantes das praças. Corro imitando o voo das moscas nas ruas pouco iluminadas, colho algumas flores no jardim das casas antigas e, próximo ao décimo segundo badalar do relógio incrustado na mais alta torre da cidade, com um sorriso mais belo que o da Mona Lisa, abro os portões do cemitério. É hora do espetáculo. 

       Protegida pelo silêncio e pela falta de guardas noturnos na acolhedora necrópole, caminho até o sepulcro onde os meus pais estão enterrados. Religiosamente, trago à luz o par de sapatilhas de ponta e, enquanto delicadamente o calço, sorrio para a foto de minha mãe fixada na fria lápide. Em seguida, numa desenvoltura clássica, subo no túmulo de mármore- único local liso que mantém a integridade do frágil calçado- e inicio meu ballet em homenagem aos meus progenitores. Sob o olhar da lua e acompanhando as batidas em meu peito, o primeiro tendu  assemelha-me a uma garça; abaixo-me em lento plié e recolho uma das flores que deixei ao lado da lápide, seguro-a com a boca e desenho nos holofotes das estrelas uma coreografia de jetés, rond de jambés, frappés, grand battements, em dehors e adágios. Danço, danço, danço até o cansaço tatuar um sorriso infinito em meu rosto em êxtase. Mesmo usando roupas velhas e rasgadas, sinto-me revestida de nuvens neste momento. Exata hora em que a zelosa lua vem recolher sua corda invisível, trazer-me de volta ao sono que perdoa as errôneas pegadas que deixam cicatrizes no caminho de todos os seus filhos.



Na cidade grande, os sonhos ceifados escorrem nas avenidas. Artistas de circo que teriam um futuro promissor oferecem seus dons de encanto por míseros trocados nos semáforos. Músicos com voz de anjo contam moedas lançadas dentro de seus chapéus em busca de migalhas celestes. Atores e bailarinas interpretam a beleza esquecida nas principais praças em troca de sorrisos e aplausos.  Meninas impúberes carregam seus filhos sem nenhuma esperança nos olhos. Moradores de rua sonham em um dia reencontrar suas famílias, reestruturar a vida órfã de alento. Sonho que também habita os ecos em minha alma solitária.

Mesmo para quem optou em abraçar as sombras em dias ensolarados, ouvir sempre a própria voz reverberando no entorno da civilização nada dignifica a existência; às vezes sinto-me moldura de um quadro vazio prestes a desmoronar nos arenosos dedos do tempo. Só ganho cores no final da tarde, quando a lua me empresta suas invisíveis asas e me convida para dançar num palco feito de caiados sepulcros e silêncio. Único momento onde a saudade de meus pais falecidos cede lugar para uma paz que revitaliza a seiva em minha árvore genealógica. Paz necessária aos meus pés cansados de tanto se esquivar do mundo.   

Indo na contramão da aridez humana, ainda bebo, por sorte, os ensinamentos deixados por meus entes queridos antes de serem assassinados. Diversos foram os tesouros filosóficos enterrados em meu caráter. Com meus progenitores, além do gosto pela arte, aprendi a ruminar esperanças: “O destino pode ser mais doce, os passos podem ser mais leves; tudo depende da coreografia que você escolher para a sua vida” é o adágio que ainda floresce em meus olhos, todos os dias, enquanto escrevo minha jornada nas frestas do destino.



Assim como um náufrago saboreia a imagem do nascer do sol num horizonte não muito longínquo, aprendi em minha ilha de solidão a idolatrar a lua. Não por sua poesia que encanta sonhadores enamorados. Amo-a por sua face acolhedora, seus conselhos e alento nas horas em que o corpo exausto necessita se recolher do mundo para não ser devorado pelos lobos; assemelho-me a um minúsculo barco que avança sobre a fúria dos mares com a certeza de, no outro lado da margem, a calmaria de um arco-íris ser o portal que resgatará os cantos de glória guardados no peito aventureiro. Enquanto alguns são adotados por famílias distintas, detentoras de status e bens patrimoniais, sou alma sem âncora. Pirata às avessas que refuta as riquezas que não nasçam primeiro no coração. Não careço de rótulos robustos ou certificados de aceitação da sociedade para minha humilde existência; minha família é a lua, sou irmã das estrelas que vagam sem destino.

Animal que lambe a cria para sanar as feridas dos pós tombos e encorajá-la em novas tentativas de manter-se em pé, a lua oferece-me os grãos que sustentam a pedra angular do meu cotidiano. Desde os alimentos e vestuário que obtenho em lixeiras até a injeção de sonhos que aplico nas veias sempre que me deparo com os prazeres da arte, a mão zelosa de minha guardiã noturna pousa em meus ombros. Pluma que tece versos de esperanças para minhas inúmeras páginas em branco na ponte do futuro.


                                 
Todo mundo tem sua rotina, seu modo de se enxergar no espelho e, com o tempo, aprender a lapidar a própria sombra projetada na face; no fundo, no fundo, não importa a forma, todos buscam novos ângulos para suavizar os tropeços diários. Eu danço sob o olhar da lua enquanto direciono meus sorrisos e beijos aos meus pais. Só lamento o desdém estático em suas fotografias eternizadas no mármore frio que agasalha suas lembranças.

A arte herdada de minha mãe é que me faz diferente na vida. O ballet me faz tocar nas estrelas sem precisar retirar os pés do chão. Um harmonioso combate que me leva e traz de volta dos palcos da infância. Dom que, também pela graça da lua, certa noite, retalhou a espessura de minha solidão nas garras do breu.

 Coincidência ou não, foi numa destas datas em que dizem que o azar é senhor dos destinos que um gato preto cruzou meu caminho. Lembro-me de sua curiosidade felina perscrutar minha alma no momento do último plié em agradecimento aos meus pais, de seus ronronares e macios passos vindos em minha direção lentamente, da maneira como cativou meu coração e dele fez seu habitat.  Acredito cegamente que foi a orfandade mútua que nos irmanou desde então.

Qualquer servo da sociedade, como num protocolo uterino, teria arranjado um nome para o novo cúmplice de minhas horas sombrias. Dispenso formalidades, não posso correr o risco de exilar-me de minha criação. Enigmática presença assim o quero: sabê-lo apenas breu é liberdade purificadora. Eu e o gato somos símbolos distintos do mesmo novelo que nos remete à lua: um labirinto de silêncios.

Nada de telepatia para celebrar nossas novas aventuras. Cada qual respeita o limite de sua jornada e as cicatrizes escondidas em cada segredo abandonado nos braços do sol. Somos irmãos se reúnem à noite, quando a voz telúrica da lua convida-nos a bailar até as dores serem esquecidas.

                              

A cidade é selva em tempos festivos, as armadilhas espreitam os transeuntes assombrados em cada lâmpada acesa nos postes curvados; caleidoscópio de cores e sabores improfícuos para quem se acostumou com a migalha dos sonhos dançando nas ruas desertas.

Naquela noite, além dos alardes sobre o festival de arte contemporânea que seria apresentado gratuitamente no parque principal da cidade, transfigurado nos rostos dos desconhecidos, o medo emitia seus grunhidos variegados. Mesmo querendo observar secretamente o espetáculo, obedeci aos clamores felinos auscultados em meu peito. Regressei mais cedo para o único local onde a escuridão era um bálsamo, o túmulo de meus pais.

Diante da entrada do cemitério, pasmei. Os portões abertos com vergalhões retorcidos eram mau presságio. Estranhamente o silêncio voava viscoso na copa das árvores, espécie de morcego embebecido em sangue de alcoólatra anônimo. Aprumei os olhos em busca de feição amiga. Sorri aliviada quando a lua indicou o esconderijo de meu gato preto. Após retirar o felino de dentro de um vaso de flor vazio e aninhá-lo em meu colo, encorajei-me a seguir os atalhos entre as tumbas.

Alguns passos adiante, já próxima do local onde as almas de meus pais descansavam, o ódio acendeu suas labaredas em meus olhos. Feito pútridos ratos tendo um banquete sobre uma mesa real, dois vultos saqueavam em extrema barbárie a última morada de meus progenitores.

A raiva era um mar que inundava meus poros contemplando os sinistros abutres. Meu primeiro desejo foi pular sobre os desconhecidos e rasgá-los com meus dentes repletos de fúria acumulada desde os meus sete anos de idade. Mas não consegui; minha alma novamente salgou-se na dor. Novamente me vi menina indefesa. Novamente chorei vendo a imagem de meus pais lançada no chão.

Ouvindo o pranto desenfreado, os profanadores souberam de minha presença na escuridão e, para desgraça maior, decidiram correr atrás de mim.    

Recolhi lágrimas e gato em meu peito em brasas e fugi como o pavio aceso de um rojão prestes a iluminar o céu com seu grito de liberdade.

Sem olhar para trás, avancei as ruas tomadas de gente interessada em assistir o festival de arte contemporânea. Ouvia pessoas gritando, rindo de minhas vestes de bailarina maltrapilha, mas não mais me importava com isto. Eu e o gato preto tínhamos oito vidas para defender. E, quando se trata de sobreviver, a aparência fica em segundo plano.

Descobri que, naquele momento, minhas sapatilhas tinham o poder de desafiar a gravidade. A cada salto no ar, podia jurar que a lua afagava meus cabelos encapelados. Energia propulsora que me levou até o parque principal da cidade. Esconderijo talhado em arte naquela noite.

No meio do festival, a música apresentada pela orquestra sinfônica relentava o coração dos espectadores. O mundo parecia dar trégua para as dores da humanidade. O público dobrável em doçura pelos acordes de Beethoven jamais desconfiaria que, naquela noite, uma bailarina anônima era a estrela maior em busca da coreografia perfeita. Uma vida nova para novos sorrisos.

Enquanto todos estavam entretidos com a apresentação no palco principal, meu desespero me levou para um canto mais afastado do parque. O gato preto ronronou uma prece em meu colo, sinal de que a lua nos guiava para a segurança. 

Após confirmar a ausência de pessoas ao redor, corri para um gigante colorido que adormecia na penumbra. De tanto vê-los nos livros e noticiários, os balões comerciais eram um encantamento tão vivo em meu âmago quanto o meu desejo de rever meus pais. Sem titubear um segundo, saltei para dentro do cesto de vime. Como o dirigível já estava pronto para decolagem, apenas atado em cordas fixadas no gramado, a tarefa de retirar as amarras e levantar voo tornou-se um lírico instinto.

Sob o olhar da lua, enquanto a cidade permanecia em transe admirando o festival, eu e o gato preto ganhávamos altura. Profanadores, assassinos e tantos outros problemas iam diminuindo, ficando no esquecimento à medida que o balão subia tatuando suas cores nas nuvens.

Mais aliviada ao perceber uma distância onde a maldade humana não mais pudesse me ferir, abri os meus braços querendo o carinho da lua. Em meus olhos, além de lágrimas de felicidade pelo sucesso na fuga, havia o esplendor de uma certeza: estava mais próxima de meus pais. Sentia-os emoldurados no aconchego do pelo macio do gato preto.

O imenso balão colorido não transportava apenas duas almas indefesas, permitia, sim, que os sonhos chegassem até a lua e, lá de cima, admirassem a beleza da Terra mergulhada na arte.
  
      
    
 Rogério Germani


 

6 de nov de 2015

Sobre a ponte estreita

Num fim de tarde sobre a ponte estreita
Os dois se encontram - obra do destino -
Lambendo a margem, o sol então se ajeita
No tempo que parece um menino

Que sobre o céu alaranjado espreita
Esse casal em laço vespertino
Como promessa há muito tempo feita
Hoje cumprida ao sabor celestino

E sobre a ponte que une os dois lados
Esse casal, antes desencontrado,
Mergulha em seus olhares de ternura

O rio então desliza mais perene
Chamando a noite com sua luz Selene
Que brinda o fim de uma longa procura


 - Lena Ferreira -


5 de nov de 2015

A4

Lança sobre mim
esse olhar de outono
e, com suas letras instintivas
na dança do impulso sobre a linha
da vida, da morte, do meio e na sina
precipita-se em inventadas verdades
abismando mágoas reativas
ilusões macias e realidades
duras, cítricas, sereno e curas
paixões fugazes e fantasias
deita amores, dores e euforias
e, com dedos de um pulso abandono
planta em minha virginal alvura
as sementes sazonais e nativas
que o vento traz, não sei de onde,
revelando enquanto, pensa, esconde
em verso avulso pelas entrelinhas,
o ramo, o remo, o rumo e a mira
que o impulso expulsa; livre ou rima


 - Lena Ferreira -


Epifania



Epifania

Tirei mofos das paredes
do coração
neles habitavam saudades
e rancores

Mirei na estrela que mais luzia
e lhe fiz pedidos
deles exalavam esperanças
e amores

Girei roldanas das memórias
buscando na infância inspirações
e sonhos multicores

Irei brotar do lodo
das frustrações
sorrindo à epifania das dores

Anorkinda

.


1 de nov de 2015

Dicionário Lírico Inspiraturas - glossário - léxico - compilação


Dicionário Lírico Inspiraturas - glossário - léxico - compilação

aqui cabem vocábulos úteis para abrir horizontes criativos em poesia, segundo o ponto de vista lírico dos nossos escritores.


Fazemos assim:

Daquele em que se sucedeu uma inusitada travessia

Aquele barqueiro já fizera inúmeras travessias durante todo esse tempo, assassinos, advogados, todo tipo de gente ruim que possa-se imaginar. Naquele dia, tudo seguia na mais perfeita normalidade, ele fumava um daqueles cubanos quando um homem surgiu e logo indagou com rispidez:
- É você que faz a travessia?
- Sim sou eu.
- Então vamos partir logo, tenho urgência nisso.
- Urgência? O senhor por um acaso sabe aonde é que essa barca irá levá-lo?
- Sei sim, e peço que não demores e que faça o teu serviço logo.
O barqueiro achando aquilo tudo muito estranho tratou de iniciar a travessia. O sujeito era um senhor com uns quarenta anos, era gordo, branquelo, trajava roupas sociais mas totalmente desalinhado, estava nitidamente nervoso e esfregava uma mão na outra compulsivamente, até que resolveu abrir a boca de novo:
- Quanto tempo até chegarmos do outro lado?
- Uma hora.
- Uma hora? Não pode ir mais rápido?
- Lamento senhor...
- Astolfo, me chamo Astolfo de Alcântara e você?
- Já não me lembro, estou aqui faz tanto tempo que já não lembro meu nome e nem quem eu era. E a propósito como foi que o senhor desencarnou?
- Como eu o quê?
- Desencarnou.
- Como assim desencarnou?
- Eu quero saber como foi que o senhor morreu?
- E quem disse que eu morri?
- O QUÊ? O senhor está vivo?
- Completamente vivo e gozando de plena saúde, exceto por uns problemas estomacais, pressão alta e uma hérnia para a qual já marquei uma cirurgia para semana que vem.
O pobre barqueiro simplesmente não podia acreditar no que estava ouvindo, havia um homem vivo no inferno e com pressa em chegar.
- Espera aí, o senhor sabe para onde essa barca está indo?
- Mas é claro que sei!
- Mas então...
- Ouça aqui, estou indo justamente para onde preciso ir. Preciso ver o seu chefe.
- O meu chefe?
- É, o Diabo, Capeta, Belzebu...
- Você quer ver o Senhor Lúcifer?
- Exato!
- E o senhor acha que é simples assim, "Ah, vou descer ao inferno para prosear com Lúcifer"
- Prosear é o cacete! Não vim aqui prosear, tenho mais o que fazer. Vim aqui cobrar uma dívida.
- Então ele está lhe devendo?
- Está sim, fiz um acordo com aquele filho da puta e ele me enganou.
O barqueiro entendia cada vez menos tudo aquilo e quando se deu por si, já tinha concluído a travessia e o tal Astolfo já tinha pulado da barca e seguido o seu rumo. O barqueiro então sentou atordoado com tudo aquilo acendeu um cubano e pensou:

- Porra, tem um cara vivo aqui no inferno e simplesmente não existe um protocolo pra isso!


Tim Soares

Oficina de escrita literária Inspiraturas, em Pelotas

Oficina de escrita literária Inspiraturas - o fim da página em branco - A ti, que ainda acreditas na escrita, em especial a Poesia, como ...

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