Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

Oficina de escrita literária Inspiraturas, em Pelotas

Oficina de escrita literária Inspiraturas - o fim da página em branco - A ti, que ainda acreditas na escrita, em especial a Poesia, como ...

7 de nov de 2015

                     



 Sob o olhar da lua

      Minha vida é um bungee jump onde a lua sempre me traz à tona.  É esta certeza, talhada como uma estrela em meu peito, que ilumina meus passos perdidos nesta selva de rostos vazios de afeição.

     Algumas pessoas nascem em berço esplêndido, já com um roteiro pronto de sucesso na vida posto debaixo do braço, e nunca se lembram de agradecer o quanto são felizes. Nunca tive a mesma sorte. Sei-me órfã desde os meus sete anos de idade e até hoje uma plantação de lágrimas inunda meus sonhos com a imagem dos meus pais sendo mortos, “por engano”, pelos fardados que deveriam nos proteger da violência urbana. Para continuar nas ruas, tive que fazer da tristeza o meu cajado e fortaleza. A sombra que restou em cada centímetro de minha pele me protege do mundo. Herança que, todos os dias, obriga-me a dar graças à lua, depois que fugi de mim mesma.

     Minha rotina resume-se numa única palavra: sobrevivência. Vivo perambulando entre as pessoas como um fantasma que não deixa rastros. Se, involuntariamente, acabo esbarrando em alguém, sigo em frente, acelerando cada vez mais os meus passos, sem nunca olhar para trás; sem permitir que o tempo registre meu rosto nos olhos dos desconhecidos. Tática eremita que me consentiu chegar aos quinze anos, ilesa da maldade humana, quase uma ilha flutuante numa cidade sem um único farol que acene esperança às almas náufragas.

    Do mesmo modo como me infiltro nas artérias citadinas, desenvolvi um furtivo hábito de conseguir a minha alimentação. Nas feiras livres, assim que amanhece o apetite voraz que molda a sociedade, obtenho o meu sustento. Frutas e legumes que jamais desfilariam nas mesas dos afortunados, após serem colhidos no lixo ao lado das barracas, caminham saborosos no meu paladar pouco exigente. Combustível suficiente para envolver meus pensamentos com as críticas engrenagens responsáveis pela evolução das espécies, análise rápida antes da boca faminta aceitar a fria realidade do menu rotineiro. Quando não há feiras e não resta nenhuma fruta nas árvores plantadas nos canteiros da cidade, pesco migalhas nas grandes lixeiras dos condomínios, a grande represa onde os excessos da civilização pululam. Mar de entulhos onde também recolho peças de roupas usadas, livros com gravuras e até brinquedos quebrados. Banquete que aquece o corpo e os olhos cansados.

     Para aumentar a minha camada de invisibilidade perante as pessoas e nunca delas depender, de tanto enxergar – sempre camuflada atrás de algum poste ou árvore próxima – crianças bem vestidas sendo levadas pelos pais até os portões luxuosos das escolas particulares, desejei incluir o reino das letras em meu arsenal. Através de uma cartilha ilustrada de alfabetização, “por coincidência”, jogada na lixeira de uma dessas instituições de ensino por um aluno mais desatento, iniciei minha jornada solitária para galgar os degraus do conhecimento. Tamanhas eram minha fome e necessidade que, estudando em praças desertas ou em casas abandonadas, alfabetizei-me em pouquíssimos meses. Tudo para escrever e ficar remoendo com a leitura constante a palavra que ainda me dói: SAUDADE.

    Em escassas ocasiões onde a tristeza deixava de umedecer meus ouvidos com seus lamentos, sempre que possível, lia os cartazes dos filmes e eventos culturais que estavam sendo exibidos nos cineteatros da cidade. Como uma nuvem cinza em busca de uma nesga de sol, meu intuito era encontrar um rosto conhecido nos enormes expositores publicitários, Ana Botafogo, a bailarina mais famosa do Brasil. Claro que a graciosidade do ballet da celebridade carioca impressionava meus olhos já habituados a vê-la dançar em apresentações gratuitas nos parques, mas, numa espécie de encantamento, a enorme semelhança entre a face da bailarina famosa e a imagem de minha falecida mãe, carinhosamente armazenada em meus sonhos, funcionava como um ímã em meu coração.  
         Dentro do palco vermelho, enquanto um ritmo suave desenhava uma coreografia de luz nas frestas do céu, o espetáculo gerado pelos sorrisos maternos nunca saíra de cena. Miragem adocicada que, ao cair da tarde, extraía e ainda extrai minhas lágrimas mais cristalinas e pesadas, verdadeiro dilúvio para as cúmplices formigas dos dias em que a saudade une-se com a arte para afagar minha vida enevoada. E, novamente refém dos sussurros tristes trazidos pelo vento, da mesma maneira que me aproximo dos cartazes, saio sempre sem ser notada pelos transeuntes.

      Volto a me recolher do mundo.  

       
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      Gosto da lua e suas falas maternas. Gosto da proteção que sua penumbra oferece às almas solitárias, um manto leve e sagrado que afasta as dores do dia e devolve-me à vida que carrego nos labirintos dos olhos desde o momento em que me tornei órfã, mágico cenário onde ainda sou parte de uma família reunida. 

     Diferente dos outros mortais, não temo nem mesmo as fases mais sombrias da lua; sinto, sim, um hálito de liberdade acariciando meus pelos quando ouço os passos da noite se aproximando. Com menos pessoas caminhando na cidade, o deserto das ruas alivia minhas artimanhas para fazer-me invisível. Volto à minha infância despreocupada, escalo muros, desenho anjos, fadas, bichos de pelúcia, canto alegre em total desatino e banho-me nos chafarizes das praças até não restar mais nenhuma mágoa do cotidiano em meu corpo.

     Ainda sem sono, pesquiso o interior das latas de lixo, como restos de lanches e agradeço pelo cardápio farto e colorido. Com sorte, além de alimentos, encontro verdadeiros tesouros esquecidos no lar dos descartáveis. Igual ao dia em que me deparei com um par de sapatilhas gastas jogadas na lixeira do teatro municipal, um troféu dado para quem consegue sair ileso das batalhas diárias. Mais um presente da lua, mágica ponte que me une às lembranças da mulher que me trouxe à vida e me ensinou os primeiros passos de ballet.  

     Epicentro das alegrias lunares, vago zombando da sisudez imposta às estátuas vigilantes das praças. Corro imitando o voo das moscas nas ruas pouco iluminadas, colho algumas flores no jardim das casas antigas e, próximo ao décimo segundo badalar do relógio incrustado na mais alta torre da cidade, com um sorriso mais belo que o da Mona Lisa, abro os portões do cemitério. É hora do espetáculo. 

       Protegida pelo silêncio e pela falta de guardas noturnos na acolhedora necrópole, caminho até o sepulcro onde os meus pais estão enterrados. Religiosamente, trago à luz o par de sapatilhas de ponta e, enquanto delicadamente o calço, sorrio para a foto de minha mãe fixada na fria lápide. Em seguida, numa desenvoltura clássica, subo no túmulo de mármore- único local liso que mantém a integridade do frágil calçado- e inicio meu ballet em homenagem aos meus progenitores. Sob o olhar da lua e acompanhando as batidas em meu peito, o primeiro tendu  assemelha-me a uma garça; abaixo-me em lento plié e recolho uma das flores que deixei ao lado da lápide, seguro-a com a boca e desenho nos holofotes das estrelas uma coreografia de jetés, rond de jambés, frappés, grand battements, em dehors e adágios. Danço, danço, danço até o cansaço tatuar um sorriso infinito em meu rosto em êxtase. Mesmo usando roupas velhas e rasgadas, sinto-me revestida de nuvens neste momento. Exata hora em que a zelosa lua vem recolher sua corda invisível, trazer-me de volta ao sono que perdoa as errôneas pegadas que deixam cicatrizes no caminho de todos os seus filhos.



Na cidade grande, os sonhos ceifados escorrem nas avenidas. Artistas de circo que teriam um futuro promissor oferecem seus dons de encanto por míseros trocados nos semáforos. Músicos com voz de anjo contam moedas lançadas dentro de seus chapéus em busca de migalhas celestes. Atores e bailarinas interpretam a beleza esquecida nas principais praças em troca de sorrisos e aplausos.  Meninas impúberes carregam seus filhos sem nenhuma esperança nos olhos. Moradores de rua sonham em um dia reencontrar suas famílias, reestruturar a vida órfã de alento. Sonho que também habita os ecos em minha alma solitária.

Mesmo para quem optou em abraçar as sombras em dias ensolarados, ouvir sempre a própria voz reverberando no entorno da civilização nada dignifica a existência; às vezes sinto-me moldura de um quadro vazio prestes a desmoronar nos arenosos dedos do tempo. Só ganho cores no final da tarde, quando a lua me empresta suas invisíveis asas e me convida para dançar num palco feito de caiados sepulcros e silêncio. Único momento onde a saudade de meus pais falecidos cede lugar para uma paz que revitaliza a seiva em minha árvore genealógica. Paz necessária aos meus pés cansados de tanto se esquivar do mundo.   

Indo na contramão da aridez humana, ainda bebo, por sorte, os ensinamentos deixados por meus entes queridos antes de serem assassinados. Diversos foram os tesouros filosóficos enterrados em meu caráter. Com meus progenitores, além do gosto pela arte, aprendi a ruminar esperanças: “O destino pode ser mais doce, os passos podem ser mais leves; tudo depende da coreografia que você escolher para a sua vida” é o adágio que ainda floresce em meus olhos, todos os dias, enquanto escrevo minha jornada nas frestas do destino.



Assim como um náufrago saboreia a imagem do nascer do sol num horizonte não muito longínquo, aprendi em minha ilha de solidão a idolatrar a lua. Não por sua poesia que encanta sonhadores enamorados. Amo-a por sua face acolhedora, seus conselhos e alento nas horas em que o corpo exausto necessita se recolher do mundo para não ser devorado pelos lobos; assemelho-me a um minúsculo barco que avança sobre a fúria dos mares com a certeza de, no outro lado da margem, a calmaria de um arco-íris ser o portal que resgatará os cantos de glória guardados no peito aventureiro. Enquanto alguns são adotados por famílias distintas, detentoras de status e bens patrimoniais, sou alma sem âncora. Pirata às avessas que refuta as riquezas que não nasçam primeiro no coração. Não careço de rótulos robustos ou certificados de aceitação da sociedade para minha humilde existência; minha família é a lua, sou irmã das estrelas que vagam sem destino.

Animal que lambe a cria para sanar as feridas dos pós tombos e encorajá-la em novas tentativas de manter-se em pé, a lua oferece-me os grãos que sustentam a pedra angular do meu cotidiano. Desde os alimentos e vestuário que obtenho em lixeiras até a injeção de sonhos que aplico nas veias sempre que me deparo com os prazeres da arte, a mão zelosa de minha guardiã noturna pousa em meus ombros. Pluma que tece versos de esperanças para minhas inúmeras páginas em branco na ponte do futuro.


                                 
Todo mundo tem sua rotina, seu modo de se enxergar no espelho e, com o tempo, aprender a lapidar a própria sombra projetada na face; no fundo, no fundo, não importa a forma, todos buscam novos ângulos para suavizar os tropeços diários. Eu danço sob o olhar da lua enquanto direciono meus sorrisos e beijos aos meus pais. Só lamento o desdém estático em suas fotografias eternizadas no mármore frio que agasalha suas lembranças.

A arte herdada de minha mãe é que me faz diferente na vida. O ballet me faz tocar nas estrelas sem precisar retirar os pés do chão. Um harmonioso combate que me leva e traz de volta dos palcos da infância. Dom que, também pela graça da lua, certa noite, retalhou a espessura de minha solidão nas garras do breu.

 Coincidência ou não, foi numa destas datas em que dizem que o azar é senhor dos destinos que um gato preto cruzou meu caminho. Lembro-me de sua curiosidade felina perscrutar minha alma no momento do último plié em agradecimento aos meus pais, de seus ronronares e macios passos vindos em minha direção lentamente, da maneira como cativou meu coração e dele fez seu habitat.  Acredito cegamente que foi a orfandade mútua que nos irmanou desde então.

Qualquer servo da sociedade, como num protocolo uterino, teria arranjado um nome para o novo cúmplice de minhas horas sombrias. Dispenso formalidades, não posso correr o risco de exilar-me de minha criação. Enigmática presença assim o quero: sabê-lo apenas breu é liberdade purificadora. Eu e o gato somos símbolos distintos do mesmo novelo que nos remete à lua: um labirinto de silêncios.

Nada de telepatia para celebrar nossas novas aventuras. Cada qual respeita o limite de sua jornada e as cicatrizes escondidas em cada segredo abandonado nos braços do sol. Somos irmãos se reúnem à noite, quando a voz telúrica da lua convida-nos a bailar até as dores serem esquecidas.

                              

A cidade é selva em tempos festivos, as armadilhas espreitam os transeuntes assombrados em cada lâmpada acesa nos postes curvados; caleidoscópio de cores e sabores improfícuos para quem se acostumou com a migalha dos sonhos dançando nas ruas desertas.

Naquela noite, além dos alardes sobre o festival de arte contemporânea que seria apresentado gratuitamente no parque principal da cidade, transfigurado nos rostos dos desconhecidos, o medo emitia seus grunhidos variegados. Mesmo querendo observar secretamente o espetáculo, obedeci aos clamores felinos auscultados em meu peito. Regressei mais cedo para o único local onde a escuridão era um bálsamo, o túmulo de meus pais.

Diante da entrada do cemitério, pasmei. Os portões abertos com vergalhões retorcidos eram mau presságio. Estranhamente o silêncio voava viscoso na copa das árvores, espécie de morcego embebecido em sangue de alcoólatra anônimo. Aprumei os olhos em busca de feição amiga. Sorri aliviada quando a lua indicou o esconderijo de meu gato preto. Após retirar o felino de dentro de um vaso de flor vazio e aninhá-lo em meu colo, encorajei-me a seguir os atalhos entre as tumbas.

Alguns passos adiante, já próxima do local onde as almas de meus pais descansavam, o ódio acendeu suas labaredas em meus olhos. Feito pútridos ratos tendo um banquete sobre uma mesa real, dois vultos saqueavam em extrema barbárie a última morada de meus progenitores.

A raiva era um mar que inundava meus poros contemplando os sinistros abutres. Meu primeiro desejo foi pular sobre os desconhecidos e rasgá-los com meus dentes repletos de fúria acumulada desde os meus sete anos de idade. Mas não consegui; minha alma novamente salgou-se na dor. Novamente me vi menina indefesa. Novamente chorei vendo a imagem de meus pais lançada no chão.

Ouvindo o pranto desenfreado, os profanadores souberam de minha presença na escuridão e, para desgraça maior, decidiram correr atrás de mim.    

Recolhi lágrimas e gato em meu peito em brasas e fugi como o pavio aceso de um rojão prestes a iluminar o céu com seu grito de liberdade.

Sem olhar para trás, avancei as ruas tomadas de gente interessada em assistir o festival de arte contemporânea. Ouvia pessoas gritando, rindo de minhas vestes de bailarina maltrapilha, mas não mais me importava com isto. Eu e o gato preto tínhamos oito vidas para defender. E, quando se trata de sobreviver, a aparência fica em segundo plano.

Descobri que, naquele momento, minhas sapatilhas tinham o poder de desafiar a gravidade. A cada salto no ar, podia jurar que a lua afagava meus cabelos encapelados. Energia propulsora que me levou até o parque principal da cidade. Esconderijo talhado em arte naquela noite.

No meio do festival, a música apresentada pela orquestra sinfônica relentava o coração dos espectadores. O mundo parecia dar trégua para as dores da humanidade. O público dobrável em doçura pelos acordes de Beethoven jamais desconfiaria que, naquela noite, uma bailarina anônima era a estrela maior em busca da coreografia perfeita. Uma vida nova para novos sorrisos.

Enquanto todos estavam entretidos com a apresentação no palco principal, meu desespero me levou para um canto mais afastado do parque. O gato preto ronronou uma prece em meu colo, sinal de que a lua nos guiava para a segurança. 

Após confirmar a ausência de pessoas ao redor, corri para um gigante colorido que adormecia na penumbra. De tanto vê-los nos livros e noticiários, os balões comerciais eram um encantamento tão vivo em meu âmago quanto o meu desejo de rever meus pais. Sem titubear um segundo, saltei para dentro do cesto de vime. Como o dirigível já estava pronto para decolagem, apenas atado em cordas fixadas no gramado, a tarefa de retirar as amarras e levantar voo tornou-se um lírico instinto.

Sob o olhar da lua, enquanto a cidade permanecia em transe admirando o festival, eu e o gato preto ganhávamos altura. Profanadores, assassinos e tantos outros problemas iam diminuindo, ficando no esquecimento à medida que o balão subia tatuando suas cores nas nuvens.

Mais aliviada ao perceber uma distância onde a maldade humana não mais pudesse me ferir, abri os meus braços querendo o carinho da lua. Em meus olhos, além de lágrimas de felicidade pelo sucesso na fuga, havia o esplendor de uma certeza: estava mais próxima de meus pais. Sentia-os emoldurados no aconchego do pelo macio do gato preto.

O imenso balão colorido não transportava apenas duas almas indefesas, permitia, sim, que os sonhos chegassem até a lua e, lá de cima, admirassem a beleza da Terra mergulhada na arte.
  
      
    
 Rogério Germani


 

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