Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

19 de nov de 2015

Terrível inspiração

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Terrível inspiração

Eu sempre podia vê-lo a caminhar tranquilo pelos jardins verdes e gelados no inverno, floridos e agradáveis no verão... Eu sempre podia estimulá-lo a escrever numa 'santa inspiração'... Ele era minha companhia mesmo sem saber, era minha regalia e divertimento, como outros já o foram...

Céu claro que ora me protege
de quando em quando
ruge e treme, me apavora...
Eternidade, senhora herege
que rege todo pranto
de teus filhos e os ignora...


Eu ditava e ele escrevia. O poeta desestimulado em seus ideais, o humano frágil submisso aos poderes locais... Eu ditava e ele num arroubo de emoção, versava cheio de paixão e recitava nos saraus... Ele minguava a cada dia, quanto mais escrevia e eu me divertia...

Oh... Destino que me impele
ao soluço sem amor,
goza e ri numa manobra
de crueldade e repele
a bênção do Criador,
sou nau vazia que soçobra...


Eu sempre assim fazia, a cada vez que ele nascia... A Terra é canteiro ideal para maldades... Eu sequer precisava procurá-lo, estávamos interligados por um elo eterno, uma viscosa energia de desmazelo... Ele era o melhor exemplo de 'casa vazia' onde qualquer ser pode habitar...

Triste sina a do poeta
que canta e lamenta
enche de graça os salões...
Da corte, o bobo esteta,
a si mesmo não contenta
e sangra internas emoções...

Eu comprazia nessa eterna e sádica inspiração, a ela fui condenado quando entrei nesta espiral de flagelação humana... Eu aprendi a me divertir por aqui, colocando toda a minha possível frustração e raiva na mente do poeta, alvo fácil... Ele entoava e compartilhava com os ouvintes o terrível destino...

E do meu peito bravo
um brado foi ouvido,
alcançou os céus,
enegreceu as nuvens,
atiçou raios num zumbido
fez de cada ouvinte, um escravo...


Caíam todos mortos...  Uma plateia seleta, nobreza. Por todas as eras ninguém sabia explicar repentinos golpes do tempo que dizimavam assim, amantes da arte em plena degustação de poesia...  Vez em quando.



Anorkinda

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