27 de dez de 2015

Hoje Rebeca fez... (I)



Hoje Rebeca fez... (I)

Hoje Rebeca fez
um pacto de amizade
e foi para valer
pois Rebeca quer ter
somente amigos de verdade

Com a nova amiga
Rebeca não quer briga
e fica muito à vontade
até sente saudade
quando estão separadas

Hoje estão encantadas
com a nova possibilidade
dessa nova amizade:

dividir boas risadas

e amar com sinceridade.

Wasil Sacharuk

A Cartomante, de Machado de Assis

A Cartomante
 
Machado de Assis
 
Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de Novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.
— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade...
— Errou! Interrompeu Camilo, rindo.
— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria...
Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois...
— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.
— Onde é a casa?
— Aqui perto, na rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca.
Camilo riu outra vez:
— Tu crês deveras nessas coisas? perguntou-lhe.
Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muito cousa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranqüila e satisfeita.
Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se, Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento; limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando.
Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda velha, olhando de passagem para a casa da cartomante.
Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura, e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo.
— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo; falava sempre do senhor.
Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vente e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.
Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor.
Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela; era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, — ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as cousas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita apenas um cartão com um vulgar comprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração; não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as cousas que o cercam.
Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas.
Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato.
Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: — a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo.
Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que era possível.
— Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com a das cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a...
Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem, em caso de necessidade, e separaram-se com lágrimas.
No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de Vilela: "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas cousas com a notícia da véspera.
— Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, — repetia ele com os olhos no papel.
Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando na pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a idéia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a idéia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais verosímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto.
Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas; ou então, — o que era ainda peior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela. "Vem já, já à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Ditas, assim, pela voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê? Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto. Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo. Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois rejeitava a idéa, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção do largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo.
— Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim...
Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar; a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a morada do indiferente Destino.
Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O cocheiro propôs-lhe voltar a primeira travessa, e ir por outro caminho; ele respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa... Depois fez um gesto incrédulo: era a idéia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos... Na rua, gritavam os homens, safando a carroça:
— Anda! agora! empurra! vá! vá!
Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensava em outras cousas; mas a voz do marido sussurrava-lhe às orelhas as palavras da carta: "Vem já, já..." E ele via as contorções do drama e tremia. A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar... Camilo achou-se diante de um longo véu opaco... pensou rapidamente no inexplicável de tantas cousas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários; e a mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: "Há mais cousas no céu e na terra do que sonha a filosofia..." Que perdia ele, se...?
Deu por si na calçada, ao pé da porta; disse ao cocheiro que esperasse, e rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve idéia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para os telhados do fundo. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio.
A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe:
— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto...
Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.
— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma coisa ou não...
— A mim e a ela, explicou vivamente ele.
A cartomante não sorriu; disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez as cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela, curioso e ansioso.
— As cartas dizem-me...
Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável mais cautela; ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita... Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta.
— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante.
Esta levantou-se, rindo.
— Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato...
E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço.
— Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar?
— Pergunte ao seu coração, respondeu ela.
Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis.
— Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá tranqüilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu...
A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele, falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante alegre com a paga, tornava acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo.
Tudo lhe parecia agora melhor, as outras cousas traziam outro aspecto, o céu estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo.
— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.
E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer cousa; parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: — Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz.
A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável.
Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.
— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há?
Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensangüentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.

Este conto foi publicado originalmente na Gazeta de Notícias - Rio de Janeiro, em 1884. Posteriormente foi incluído no livro "Várias Histórias" e em "Contos: Uma Antologia", Companhia das Letras - São Paulo, 1998, de onde foi extraído.

26 de dez de 2015

Oficina de Criação Literária em PELOTAS!!!


Oficina de Criação Literária em PELOTAS!!!INSPIRATURASOficina de Criação Literáriaem prosa e poesiaAs oficinas...
Posted by Inspiraturas on Sábado, 26 de dezembro de 2015

INSPÍRATURAS in-versos

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São Bernardo do Campo SP
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Pelotas – RS

23 de dez de 2015

MANIFESTO DE UMA POESIA NA PÓS-MODERNIDADE, por Vivian de Moraes


MANIFESTO DE UMA POESIA NA PÓS-MODERNIDADE

Vivian de Moraes

A publicação recente do meu livro Desconstrução (Patuá, novembro de 2015), levou-me a um debate livre com os participantes dos lançamentos e os leitores desse livro.

Se hoje escrevo este manifesto, é porque sinto que há lacunas importantes na poesia atual, embora haja muito material de grande qualidade sendo produzido.

Entre os autores que admiro estão nomes como Eucanaã Ferraz, Frederico Barbosa, Augusto de Campos, Arnaldo Antunes, Guilherme Gontijo Flores e muitos outros. Não pretendo, aqui, esgotar uma lista.

No entanto, o mal da poesia atual é o grande narcisismo estético que se propaga na chamada “metapoesia”. Como tenho dito aos meus leitores, acredito que escrever versos sobre versos, prática hoje corrente em demasia, especialmente entre os autores jovens, leva a um espelhamento inócuo e fragmentário. Deve-se isto, talvez, ao fato de vivermos um tempo de conflitos.

A pós-modernidade, tão bem analisada pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman em seu livro O mal-estar na pós-modernidade, que atualiza aspectos da então modernidade da época de Freud (O mal-estar na civilização foi publicado em 1930), cria indivíduos sufocados, em busca de um ar ralo, que é a necessidade de um quinhão maior de liberdade, ainda que isso custe algo mais de insegurança.

Esse traço fragmentário do ser plural encontramos hoje em diversas manifestações: nas performances sexuais que adquirem status de obras artísticas e são enviadas do mundo inteiro por militantes queer à filósofa norte-americana Judith Butler; nos defensores das quedas das fronteiras em iminência, devido à globalização; e também nos defensores de uma vida mais natural, sejam vegetarianos, veganos ou simplesmente defensores de uma natureza mais bem-preservada. Esse traço, dizia eu, ainda está ausente da maioria da literatura poética nacional.

O azulejo torto que incomodou o filósofo francês Jacques Derrida, morto há dez anos, em sua infância, é o mesmo azulejo torto que tenho no banheiro da minha casa. É ele quem impulsionou o princípio de “desconstrução” do filósofo, e o mesmo que me levou a debater essas importantes questões nos encontros com meus leitores.

Ora, a desconstrução na arte se dá pelo menos de dois modos: uma crítica nunca é única, e sim plural, na visão de Derrida, e, além disso, um texto, seja ele literário ou filosófico, jamais deve ser confinado. Por isso, o autor é livre. Mas parece não estar usufruindo dessa liberdade.

Pensando nessas questões, proponho uma reflexão sobre a poesia hoje: em termos de forma, vemos um excesso visual, seja de reticências, parênteses (que não se fecham, como no caso de Fabiano Calixto), colchetes, barras. A poesia concreta se beneficia disso, mas, para além da poesia concreta, isso semelha um pouco o excesso das grandes metrópoles. E as grandes metrópoles continuam sendo tema de poesia, como em Ademir Assunção, a quem, aliás, admiro bastante por suas metáforas inteligentes e inusitadas.

Não há mal nisso tudo, mas devemos pensar: que tal desconstruir? Desconstruir para construir de novo, do mesmo jeito ou de outro?

Para quebrar o paradigma dos excessos na forma e da metapoesia no tema, devemos ter em mente que é preciso estar sintonizado com o mundo à nossa volta.

Já mencionei as teorias queer (e a questão da mulher está nelas) e acrescento as minorias em geral, sejam étnicas ou econômicas, religiosas ou políticas. A questão LGBT e as teorias queer nos remetem à questão do desejo, e este deve ser o grande tema: o desejo por si mesmo (propriedade do indivíduo); o desejo pelo outro (alteridade do desejo).

Recentemente o casamento gay foi aprovado em todos os Estados Unidos da América, o que gerou uma onda de aprovação nas redes sociais. Isso, além do repúdio à bancada evangélica e sua política contra a família plural manifestada nas mesmas redes demonstram que a questão do desejo é um grande tema. Outro autor da Patuá, que por sinal vive na mesma cidade que eu (Araraquara/SP), Paulo Andrade, publicou no ano passado o livro Corpo arquivo. Do ponto de vista do que proponho, ele está antenado com essa questão do desejo e da alteridade do desejo. Infelizmente, não se destacou em nenhum prêmio. Outra artista da Patuá fez um processo semelhante e foi mais bem-sucedida: Suzanna Busato, com seu livro Corpos em Cena, também da Patuá, finalista do Jabuti 2014.

Um outro tema que não se deve deixar passar em branco é o da natureza. A nova onda de haicaísmo é um sinal de vitalidade dessa demanda. A natureza sempre foi tema da poesia, desde tempos imemoriais. Porém, a cada escola, a sua abordagem foi se modificando, e já chega o momento de mais uma virada: o planeta pede socorro! Escrever a natureza de maneira afinada com as novas demandas que urgem no nosso tempo é também urgente. Mas parece que pouco se percebeu isso na poesia. E me retrato aqui se esqueço de mencionar algum poeta que tenha feito esse trabalho, que pode ser lúdico e prazeroso.

Pode ser lúdico e prazeroso reconstruir o desconstruído porque jamais se fará panfleto na poesia, note-se isso! Esse é um risco de escrever uma poesia sem nenhum valor estético. O que proponho é que a sensibilidade individual crie formas e valores a serem poetizados sem a tentativa do convencimento. Isso é vital, e percebemos, na escola do Naturalismo, por exemplo, o quanto é complicado fazer uma poesia “engajada”.

Hoje em dia, o homem e a mulher têm pouco tempo para si, para seus filhos e seus animais. A exploração capitalista continua, e o espaço da arte está cada vez mais confinado. No caso da poesia, ela tem urgência em se reinventar, para não correr o risco de ter ainda menos leitores do que os que já tem. Por isso, celebro desde já o fim da metapoesia!

Sobre o meu livro, Desconstrução, não trato, ainda, de nenhum dos temas propostos. Ele é uma etapa. Nele, desconstruo sintaticamente o poema, levando-o ao grau zero, para depois reconstruí-lo. Mas como bem disseram leitores que participaram de um dos lançamentos, as reconstruções podem ser feitas de diversas formas, ad infinitum. É um jogo, mas é também a desconstrução de Derrida. É uma semente para uma poesia da pós-modernidade. A pós-modernidade é um desafio, mas é o tempo em que vivemos. Por isso, viva a pós-modernidade! Viva a desconstrução!

20 de dez de 2015

INSPIRATURAS sanctum peccatum

INSPIRATURASsanctum peccatum pode serescatológico, grotesco e violento e ainda,sadomasoquistaentre outras...

Posted by Inspiraturas on Domingo, 6 de dezembro de 2015

sanctum peccatum

Posted by Inspiraturas on Domingo, 20 de dezembro de 2015

sanctum peccatum

Posted by Inspiraturas on Domingo, 20 de dezembro de 2015

sanctum peccatum

Posted by Inspiraturas on Domingo, 20 de dezembro de 2015

Escorpião - versos autobiográficos - livro de poemas de Wasil Sacharuk

"Talvez tenha sido por volta 2008 a primeira vez que o li, aliás, o vi comentando algum poeta numa comunidade de Orkut chamada Bar do Escritor.

Lembro que olhei atentamente para aquele avatar de cabelos longos, olhar severo e o conjunto me levou a um desses guerrilheiros que se perderam nas selvas da América do Sul à década de 70, afinal sempre fora desconfiados com os cabeludos apesar de ter sido um nos tempos do Led Zeppelin.

Olhei novamente para a pequena foto que carregava abaixo o nome de Wasil Sacharuk. e me pareceu evidente que ali o intelecto de um revolucionário se mantinha oculto sob a vastidão dos cabelos castanhos.

Porém Wasil não era um revolucionário das armas assim como os uruguaios do Tupamaros. Não, na guerrilha de Sacharuk não se deflagravam tiros e nem se era picado por cobras ou saciado da sede por riachos que riscavam as florestas, pois os projéteis da revolução de Wasil nada mais são que as linhas da poesia.

Recordo ainda que nos primeiros textos ali postados pude perceber-lhe o traço e a verve do inspirado, uma escrita pujante e contundente grafando prosas e poesias por vezes no esmero do sotaque sulista do seu Rio Grande do Sul.

Sim, não seria menos verdadeiro confessar que em algumas oportunidades procurei na internet a tradução paras alguns termos gauchescos para poder compreender e a assimilar a grandeza das suas construções.

Lembro também que Wasil foi o primeiro artista a quem me interessou o trabalho com a produção de vídeo-poema. Recordo também que o primeiro seu que vi foi (É a verve) e o seu trabalho me deixou maluco tal o esmero que fora produzido, pois além das filmagens e edições ficava por sua conta a declamação, efeitos sonoros e a trilha musical. E fiquei tão impressionado que pedi para ele que fizesse um vídeo para um poema meu, diga-se, generosamente ele o fez e me presenteou, e é algo que até hoje me encanta e honra tal a perfeição do aspecto visual, narrativo e a trilha sonora composta por ele.

Enfim, não há como falar de Wasil Sacharuk sem traduzi-lo em arte, afinal ele é uma das prazerosas manifestações dela.

Pois, imenso é meu orgulho ao ser companheiro de letras deste magnífico poeta e prosador.

Parabéns Wasil Sacharuk!"

Veio china

Ter nascido sob o sol em escorpião não foi dádiva
sequer foi castigo
Desde muito cedo aprendi a gostar das minhas singularidades
e treinei usá-las em meu favor
E sou abertamente identificado com elas.
Dizem que escorpianos são determinados... pura mentira!
São teimosos.
No entanto, adoro cebolas, preferencialmente as cruas.
O que mais encanta nessa condição astral é a fatalidade,
da vida e do veneno.
Para um bom escorpiano,
a vida é um veneno.



e-book “Escorpião – versos autobiográficos, de WASIL SACHARUK
R$ 8,88


livro “Escorpião – versos autobiográficos, de WASIL SACHARUK
R$ 28,88

Cover_front_perspective
Número de páginas: 112
Edição: 1(2013)
Formato: A5 148x210
Coloração: Preto e branco
Acabamento: Brochura c/ orelha
Tipo de papel: Offset 75g

13 de dez de 2015

Oficina de Criação - INSPIRATURAS sanctum peccatum



INSPIRATURAS
sanctum peccatum

pode ser
escatológico, grotesco e violento
e ainda,
sadomasoquista
entre outras taras...
sanctum peccatum é o tabu
o sujo,
pecaminoso
tal a cultura humana...
fodam-se medos e preconceitos
na volúpia dos seus versos...
a literatura desconhece limites.

INSPIRATURAS - Oficina de Criação Literária em Pelotas RS - inscrição prévia sem compromisso


Oficina de Escrita Literária em PELOTAS!!!INSPIRATURASOficina de Escrita Literáriaem prosa e poesiaAs oficinas...
Publicado por Inspiraturas em Sexta, 8 de janeiro de 2016

Oficina de Criação Literária em PELOTAS!!!


INSPIRATURAS
Oficina de Criação Literária
em prosa e poesia

As oficinas mais charmosas da internet 
agora são presenciais... 

em PELOTAS!!! Início em fevereiro de 2016.


com os facilitadores Andréa Iunes e Sacharuk.

Faça aqui sua pré-inscrição, sem compromisso.

Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas. 

O projeto INSPIRATURAS - OFICINAS DE CRIAÇÃO LITERÁRIA oferece a oportunidade, ao público em geral, de desenvolver a prática da produção de textos literários e de conhecer os aspectos técnicos que compõem o estilo, o tipo e garantem a eficácia do texto. As oficinas Inspiraturas são fundamentadas na premissa de que escrever se aprende no exercício da leitura e da escrita. 

A QUEM INSPIRATURAS SE DESTINA:


- A quem quer começar a escrever e ainda não sabe como fazê-lo;
- A quem quer voltar a escrever;
- A quem procura novos temas, novos textos e novas ideias;
- A quem sente que o gosto pela escrita foi dilacerado pela imposição da escrita profissional;
- A quem quer “brincar com palavras” e usufruir o prazer da descoberta;
- A quem quer ler os textos contemporâneos a partir de uma nova perspectiva;
- A quem procura uma experiência criativa e de desenvolvimento pessoal através da escrita;
- A quem ama a literatura em língua portuguesa.
 
Apresentamos práticas oficinais de escrita através de exercícios e desafios criativos e inspiradores;

Cada oficineiro é estimulado a desenvolver seu estilo pessoal de autoria e tem acompanhamento individualizado de forma presencial ou pela internet, com o intuito da obtenção de respostas, percepções e insumos para a sua produção literária e o reconhecimento das nuanças autorais e únicas da sua produção;

Os alunos terão a oportunidade de ter seus textos lidos, apreciados e criticados por outros escritores aspirantes.

Após a finalização das produções, os alunos serão convidados a publicarem a coletânea dos textos em e-book para distribuição gratuita na internet, bem como no sítio www.inspiraturas.com, sem quaisquer custos adicionais.

Faça aqui sua pré-inscrição, sem compromisso.
 
Facilitadores:



Dhenova (Andréa Iunes) é escritora gaúcha, professora de Língua Portuguesa e Literaturas Brasileira e Portuguesa, especialista em produção textual de narrativas curtas, Fundadora da Nova Ordem da Poesia e do projeto Inspiraturas, ambos voltados para o compartilhamento e a troca de experiências literárias de novos escritores. Facilitadora e orientadora das oficinas presenciais de contos e poesia do projeto Inspiraturas. Dhenova publicou "InspiraturasLab" e escreve em: www.dhenova.com
 
 

Sacharuk é escritor gaúcho e professor. Membro fundador da Nova Ordem da Poesia e do projeto Inspiraturas, ambos voltados para o compartilhamento e a troca de experiências literárias de novos escritores. Facilitador das oficinas presenciais de contos e poesia do projeto Inspiraturas. 
Publicou “Uma Outra Gnose”, “Sete Sinas”, “Soneto Libertino”, "Catilinárias I", "Catilinárias II", "Da Janela Virtual", "Acrósticos", "InspiraturasLab", "O Arquivo e a Verve", "Dos pampas ao topo do céu" e "Escorpião - versos autobiográficos". Sacharuk publica em www.wasilsacharuk.com.
 
E ainda: professores e autores locais convidados.


Encontros com frequência semanal;
Investimento de cem reais mensais.

 
Inspiraturas - Escrita Criativa:
e-mail: oficinainspiraturas@gmail.com
sítio: www.inspiraturas.com
CNPJ 19.465.654/0001-28
telefones: (53) 91212552 - (53) 33051989

Oficina de Criação Literária em PELOTAS!!!INSPIRATURASOficina de Criação Literáriaem prosa e poesiaAs oficinas...
Posted by Inspiraturas on Sábado, 26 de dezembro de 2015

6 de dez de 2015

Exercício de clichê - Oficina APCEF/INSPIRATURAS - Meia tijela de versos batidos

Exercício de clichê - Oficina APCEF/INSPIRATURAS

Meia tijela de versos batidos

Quero dar meu caloroso abraço
e fazer uma colocação
aos que estão no fundo do poço
ou na rota de colisão

Quero abrir com chave de ouro
sua mente e seu coração
pelas raias da emoção
vamos quebrar o protocolo

Quero uma atuação impecável
nos palcos da vida real
que tenha importância vital
não seja perda irreparável

Quero respirar aliviado
jamais ser vítima fatal
e viver além do normal
visivelmente emocionado

Quero inserir no contexto
e logo entregar a você
o poema de versos clichês
coroado com êxito.

Wasil Sacharuk
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