Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

28 de dez de 2016

Feliz 2017!

Caros amigos oficineiros INSPIRATURAS

Iniciaremos o ano de 2017 com todas as indagações e questionamentos que um ritual de passagem dessa natureza é capaz de nos conduzir. Para nós, que buscamos interagir com o todo, fazer um balanço consiste em olhar para todas as direções, sabendo transitar entre a luz e as sombras, sentindo, ao mesmo tempo, o temor e a confiança, ao passo em que procuramos, a cada dia, retomar cuidadosamente àquilo que é essencial à vida, à solidariedade e paz frente a novos momentos que virão. Queremos ajudar a construir para a inteireza do ser e para a paz, e, para tal, nos articulamos em novos voos, abrindo novos caminhos e frentes de ação.

DSCF6229É tempo de preparar um convívio social mais harmonioso e verdadeiro, com cada um reconhecendo e assumindo sua cota de responsabilidade com o futuro da comunidade, respeitando a vida e a dignidade de cada um, sem discriminação ou preconceito.

O ser humano ainda é a maior descoberta desse século!

Poderemos integrar nossos pensamentos, a emoções e corpos em uma só unidade, constituindo um alinhamento que promove a evolução na direção do aperfeiçoamento humano e oportunizando um salto significativo no crescimento pessoal em todos os âmbitos da existência. Poderemos, ainda, despertar nossa vitalidade e resgatar a espontaneidade e a alegria de viver numa comunidade plena de paz.

“Nunca duvide da capacidade de transformação que duas ou mais pessoas juntas possam fazer no mundo. Talvez esteja aí a grande chance de realmente mudá-lo”. (Provérbio árabe)

Nós, do Projeto INSPIRATURAS, desejamos um 2017 PERFEITO!

Queremos agradecer nossa estada juntos neste ano que se vai, cultivando a semente do desenvolvimento humano. E, também,  relatar o quanto é bom estarmos juntos.

3 de dez de 2016

Comoção, por Jorge Moraes

COMOÇÃO

“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.” John Donne

Muitos de nós ignoramos não só o nome de nossos vizinhos de porta, assim como quem e quantos são? O que representam em nosso convívio? E por que saber? Entretanto, de nossos ídolos, e talvez não seja por menos, ainda que distantes e com os quais jamais tenhamos contato, dispomos de expressivo conhecimento de suas vidas. Apoderamo-nos, como se donos fôssemos, desse transparente arquivo. Cremos ter primazia. Julgamos até que as informações são confidenciais e somos um dos poucos a saber. E nessa cumplicidade absorvemos data e lugar de nascimento, parentes e familiares, acontecimentos significativos. Tomamos ciência do temperamento, dos pratos preferidos, dos sinais particulares e animais de estimação. Opinamos sobre suas vestes e a cor do cabelo. E no silêncio, dialogamos com eles. Orgulhosamente vibramos com os sucessos; sofremos e choramos com os reveses.

Reverências, quase todos prestamos: santificações, líderes religiosos, educadores, escritores, cientistas, clubes, atletas, notadamente jogadores de futebol e pilotos; políticos (raramente), cantores, músicos, atores, animais... E as revelamos, dentre outras formas, através de monumentos, de camisetas estampadas, bonés, toalhas, pôster, imagens, vídeos, áudios, impressos...

Parece-nos, e respeitamos o adverso, que em se tratando de fontes televisivas, algumas novelas, ainda que a olhos tantos sejam promíscuas ou perniciosas, monopolizam, sistematicamente, nossa atenção. Aos programas informativos ou recreativos permitimo-nos laços efêmeros e superficiais. Julgamos a fonte como prestadores de serviços: relações tênues, sem comprometimento. O vínculo se renova na celeridade dos fatos e notícias. As informações não são exclusivas de um canal e perduram na extensão da importância. A perda de um capítulo de novela, em especial na fase conclusiva, diferencia-se, substancialmente, da, de um telejornal.

As novelas voejam com asas do fascínio. Inebriam, seduzem, entorpecem, embriagam. Hora nos levam a beber nas fontes edênicas do amor, hora nos conduzem à turbulência das águas procelosas. A aprovação e o desprezo transpõem o antagonismo da antítese. Condicionam-nos à perenidade da expectativa. Muito de seu contexto, repetidamente, segue o lugar comum; com uma pitada de imaginação chega-se ao final. Cada um redige o seu epílogo. Assim convém às faces envolvidas. A complexidade de linguagem e a necessidade de reflexões afastam o grande público. Os venerados realizam nossos sonhos. E nós, como se lá estivéssemos, (e com tanto sonhamos) temos a solução. Queremos exemplares punições à vilania; aos heróis, a insígnia reluz nos louros e medalhas.

Aos ídolos perdoem-se imperfeições. As máculas encontram guarida em nossas incorreções. Ainda que neguemos a discriminação, encontramos na fisionomia de cada personagem o ajustamento à conduta. Os bons têm doçura nos lábios, no coração e no olhar; os maus nem perto. A assertiva de Joãosinho 30 leva a algumas reflexões “O povo gosta de luxo. Quem gosta de miséria é intelectual.”

O apego tem a dimensão da temporalidade e de quanto o protagonista representa ao contexto. ‘Rei morto, rei posto’. A substituição não é incondicional. Umberto Magnani, ator de Velho Chico, (Padre Romão) morreu aos 75 anos, acidente vascular encefálico, no dia de seu aniversário. No enredo, padre Romão é informado de que passará a ser sacerdote emérito. A idade e o acometimento consolaram o inevitável. Por quanto tempo foi lembrado? O consagrado ator Carlos Vereza (Padre Benício) assumiu a paróquia de Grotas.

Em setembro de 2016, aos 54 anos, Domingos Montagner, ator de Velho Chico, (Santo dos Anjos), precocemente, sucumbe às águas do rio São Francisco. Certamente, a partida foi extemporânea. Um adeus sem beijos, abraços ou mãos se agitando delimitou a ficção, imergindo à realidade. A finitude despertou a incredulidade. Havia tanto a fazer! Nossos ídolos são eternos. Se viajarem, há de ser bem tarde. E por motivo plausível. Domingos foi muito cedo, cedo demais. Não era apenas um vizinho de porta: diariamente, sem mesmo bater, tomava assento em nossa intimidade. Feneceram os esgares e caretas. Há um vazio no picadeiro. As cortinas não mais se abrirão.

Outubro – 2016

 

Jorge Moraes, natural de Rosário do Sul RS, cidadão pelotense; Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira; Membro das academias Sul-brasileira de Letras e Pelotense de Letras.

jorgemoraes_pel@hotmail.com

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2 de dez de 2016

ADEQUAÇÕES LINGUÍSTICAS, por Jorge Moraes

ADEQUAÇÕES LINGUÍSTICAS

Sem pretensões de andejar pelo preciosismo, menos ainda de ser um arauto do linguajar escorreito, até porque nossos cochilos, omissões e erros não são menores e menos intensos que os de outros tantos, mas sim objetivando, quem sabe, a adequação vocabular e linguística, tentaremos discorrer sobre algumas expressões que, hoje, transitam em nosso linguajar.

Como se sabe, mesmo respeitando o advento de neologismos, e acatando a espontaneidade da linguagem popular, a valorização e o regramento de estruturas vocabulares constituem indispensáveis suportes à cultura e enriquecimento de todo o idioma.

Em assim o sendo, vejamos: ‘ Justo agora que não tínhamos condições financeiras, ofereceram-nos o veículo a preço promocional’. ‘ Justo agora, faltou energia elétrica’. Ainda que não tenhamos domínio das classes gramaticais e de suas respectivas derivações e vinculações, percebe-se que podemos omitir a palavra ‘justo’, mas não a palavra ‘agora’. ‘Justo’ dá à estrutura frasal acentuada precisão temporal. Se invertermos – ‘Faltou energia elétrica, justo agora’. Certamente, alguns dirão, acatando o apelo fonético: ‘Faltou energia elétrica, justamente agora’. Portanto, ‘Justamente agora, faltou energia’. Se substituirmos a palavra ‘justo’ por um advérbio de sentido equivalente, teremos: ‘pontualmente agora’,‘exatamente agora’, ‘precisamente agora’. Certamente não diremos – ‘pontual agora’, ‘exato agora’, ‘preciso agora’.

Em programas dirigidos, por excelência aos jovens, alguns entrevistados, também jovens, costumam expressar sua admiração por este ou por aquele ídolo, afirmando: ‘sou muito fã desse cantor’. Sabe-se que ‘muito’ expressa uma idéia quantitativa. Dá-nos a dimensão da intensidade: advérbio ou pronome? É fundamental que saibamos pela flexão e pelo emprego.

Sendo advérbio, o ‘muito’ se refere a um verbo, adjetivo ou a outro advérbio e não sofre flexões. Ex.: Elas são (muito) fãs desse cantor. Se afirmarmos: Este cantor tem muitas fãs. Nota-se que houve flexão, por decorrência pronome indefinido. Atentemos a uma curiosa construção: Ontem, andamos muito (advérbio). Ontem, andamos muitos quarteirões (pronome indefinido).

Sintetizando: Sou ‘muito’ fã desse cantor. Somos ‘muito’ fãs desse cantor. Já sabemos que o ‘muito’, neste caso, é advérbio. Mas se vincula ao substantivo ‘fã(s)’, o que contraria a definição dos advérbios. Vejamos, ainda, empregando verbos auxiliares: Somos ’muito’ honrados (adjetivo). Estávamos ‘muito’ honrados (adjetivo). Tínhamos ‘muitos’ fãs (substantivo). Havíamos ‘muitos’ fãs (substantivo). Portanto, só deveremos usar o ‘muito’ como advérbio, com os auxiliares ser e estar, acompanhado de adjetivos. Se os auxiliares forem ter e haver, não é viável empregarmos adjetivos e o ‘muito’ será pronome indefinido.

Naturalmente, poderemos ter, com o auxiliar ‘ser’, o emprego de ‘muitos’ vinculado a substantivos (pronome indefinido). Ex.: Somos/são (nós) ‘muitos’ fãs desse cantor, à procura de ingressos para o show. Neste caso, não é intensidade e sim, quantidade. Se tivermos outros verbos, que não os auxiliares: procedimento habitual. Enfatize-se, ainda, que Somos ‘muito’ honrados (superlativo absoluto analítico), Somos honradíssimos (superlativo absoluto sintético). Salvo que tenhamos mudanças, recomenda-se, tão-somente ‘Sou fã desse cantor ’.

Não são raras as oportunidades em que se ouve, mesmo dentre quem possui discernimento ao bem falar, expressões tais como: ‘Quando soube das medidas econômicas, fiquei pasmo.’ ‘Maria ficou pasma ao receber a intimação judicial’. Curiosamente, ouve-se: ‘Elas ficaram pasmadas com a violência dos policiais’. Parece-nos, que em boa hora, a eufonia reclama e se impõe. Atentemos: pasmado/a/os/as, adjetivo. Tem como sinônimos assombrado, espantado, estarrecido... Pode ser, também, o particípio do verbo pasmar, ficar sem ação, atônito. Pasmo é o sentimento de espanto, surpresa diante de algo que não se espera; admiração, assombro, perda dos sentidos, desmaio (substantivos). E pasma? Cremos que a incorreção afirma-se na procura de construções menores, tidas como mais simples, às vezes mais agradáveis ao ouvido. Considere-se, ainda, o emprego do particípio de verbos abundantes, com os verbos auxiliares. Com ‘ser’ e ‘estar’ recomenda-se o infinitivo regular (fixado, benzido, morrido, pagado). Com ‘ter’ e ‘haver, o infinitivo irregular (fixo, bento, morto, pago).

Decerto, a muitos, ouvidos moucos; a outros tantos, difícil mudar o que está consagrado; a poucos, a possibilidade do enriquecimento; a todos, a liberdade do uso.

 

Jorge Moraes – novembro de 2016 - jorgemoraes_pel@hotmail.com

 

Jorge Moraes, natural de Rosário do Sul RS, cidadão pelotense; Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira; Membro das academias Sul-brasileira de Letras e Pelotense de Letras.

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