Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

Oficina de escrita literária Inspiraturas, em Pelotas

Oficina de escrita literária Inspiraturas - o fim da página em branco - A ti, que ainda acreditas na escrita, em especial a Poesia, como ...

2 de dez de 2016

ADEQUAÇÕES LINGUÍSTICAS, por Jorge Moraes

ADEQUAÇÕES LINGUÍSTICAS

Sem pretensões de andejar pelo preciosismo, menos ainda de ser um arauto do linguajar escorreito, até porque nossos cochilos, omissões e erros não são menores e menos intensos que os de outros tantos, mas sim objetivando, quem sabe, a adequação vocabular e linguística, tentaremos discorrer sobre algumas expressões que, hoje, transitam em nosso linguajar.

Como se sabe, mesmo respeitando o advento de neologismos, e acatando a espontaneidade da linguagem popular, a valorização e o regramento de estruturas vocabulares constituem indispensáveis suportes à cultura e enriquecimento de todo o idioma.

Em assim o sendo, vejamos: ‘ Justo agora que não tínhamos condições financeiras, ofereceram-nos o veículo a preço promocional’. ‘ Justo agora, faltou energia elétrica’. Ainda que não tenhamos domínio das classes gramaticais e de suas respectivas derivações e vinculações, percebe-se que podemos omitir a palavra ‘justo’, mas não a palavra ‘agora’. ‘Justo’ dá à estrutura frasal acentuada precisão temporal. Se invertermos – ‘Faltou energia elétrica, justo agora’. Certamente, alguns dirão, acatando o apelo fonético: ‘Faltou energia elétrica, justamente agora’. Portanto, ‘Justamente agora, faltou energia’. Se substituirmos a palavra ‘justo’ por um advérbio de sentido equivalente, teremos: ‘pontualmente agora’,‘exatamente agora’, ‘precisamente agora’. Certamente não diremos – ‘pontual agora’, ‘exato agora’, ‘preciso agora’.

Em programas dirigidos, por excelência aos jovens, alguns entrevistados, também jovens, costumam expressar sua admiração por este ou por aquele ídolo, afirmando: ‘sou muito fã desse cantor’. Sabe-se que ‘muito’ expressa uma idéia quantitativa. Dá-nos a dimensão da intensidade: advérbio ou pronome? É fundamental que saibamos pela flexão e pelo emprego.

Sendo advérbio, o ‘muito’ se refere a um verbo, adjetivo ou a outro advérbio e não sofre flexões. Ex.: Elas são (muito) fãs desse cantor. Se afirmarmos: Este cantor tem muitas fãs. Nota-se que houve flexão, por decorrência pronome indefinido. Atentemos a uma curiosa construção: Ontem, andamos muito (advérbio). Ontem, andamos muitos quarteirões (pronome indefinido).

Sintetizando: Sou ‘muito’ fã desse cantor. Somos ‘muito’ fãs desse cantor. Já sabemos que o ‘muito’, neste caso, é advérbio. Mas se vincula ao substantivo ‘fã(s)’, o que contraria a definição dos advérbios. Vejamos, ainda, empregando verbos auxiliares: Somos ’muito’ honrados (adjetivo). Estávamos ‘muito’ honrados (adjetivo). Tínhamos ‘muitos’ fãs (substantivo). Havíamos ‘muitos’ fãs (substantivo). Portanto, só deveremos usar o ‘muito’ como advérbio, com os auxiliares ser e estar, acompanhado de adjetivos. Se os auxiliares forem ter e haver, não é viável empregarmos adjetivos e o ‘muito’ será pronome indefinido.

Naturalmente, poderemos ter, com o auxiliar ‘ser’, o emprego de ‘muitos’ vinculado a substantivos (pronome indefinido). Ex.: Somos/são (nós) ‘muitos’ fãs desse cantor, à procura de ingressos para o show. Neste caso, não é intensidade e sim, quantidade. Se tivermos outros verbos, que não os auxiliares: procedimento habitual. Enfatize-se, ainda, que Somos ‘muito’ honrados (superlativo absoluto analítico), Somos honradíssimos (superlativo absoluto sintético). Salvo que tenhamos mudanças, recomenda-se, tão-somente ‘Sou fã desse cantor ’.

Não são raras as oportunidades em que se ouve, mesmo dentre quem possui discernimento ao bem falar, expressões tais como: ‘Quando soube das medidas econômicas, fiquei pasmo.’ ‘Maria ficou pasma ao receber a intimação judicial’. Curiosamente, ouve-se: ‘Elas ficaram pasmadas com a violência dos policiais’. Parece-nos, que em boa hora, a eufonia reclama e se impõe. Atentemos: pasmado/a/os/as, adjetivo. Tem como sinônimos assombrado, espantado, estarrecido... Pode ser, também, o particípio do verbo pasmar, ficar sem ação, atônito. Pasmo é o sentimento de espanto, surpresa diante de algo que não se espera; admiração, assombro, perda dos sentidos, desmaio (substantivos). E pasma? Cremos que a incorreção afirma-se na procura de construções menores, tidas como mais simples, às vezes mais agradáveis ao ouvido. Considere-se, ainda, o emprego do particípio de verbos abundantes, com os verbos auxiliares. Com ‘ser’ e ‘estar’ recomenda-se o infinitivo regular (fixado, benzido, morrido, pagado). Com ‘ter’ e ‘haver, o infinitivo irregular (fixo, bento, morto, pago).

Decerto, a muitos, ouvidos moucos; a outros tantos, difícil mudar o que está consagrado; a poucos, a possibilidade do enriquecimento; a todos, a liberdade do uso.

 

Jorge Moraes – novembro de 2016 - jorgemoraes_pel@hotmail.com

 

Jorge Moraes, natural de Rosário do Sul RS, cidadão pelotense; Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira; Membro das academias Sul-brasileira de Letras e Pelotense de Letras.

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