Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

28 de set de 2017

Segundo aniversário da oficina de escrita literária INSPIRATURAS &APCEF-RS/Regional Sul–A parceria dos bons frutos

Caros amigos oficinandos e colaboradores da Oficina de Criação Literária INSPIRATURAS & APCEF-RS/Regional Sul

Nossa oficina de escrita literária avançou mais um ano com todas as indagações e questionamentos que um ritual de passagem dessa natureza é capaz de nos conduzir. Para nós, que buscamos interagir com o todo, fazer um balanço consiste em olhar para todas as direções, sabendo transitar entre a luz e as sombras, sentindo, ao mesmo tempo, o temor e a confiança, ao passo em que procuramos, a cada dia, retomar cuidadosamente àquilo que é essencial à vida, à solidariedade e paz frente a novos momentos que virão. Queremos ajudar a construir para a inteireza do ser e para a paz, e, para tal, nos articulamos em novos voos, abrindo novos caminhos e frentes de ação.

DSCF6229É tempo de preparar um convívio social mais harmonioso e verdadeiro, com cada um reconhecendo e assumindo sua cota de responsabilidade com o futuro da comunidade, respeitando a vida e a dignidade de cada um, sem discriminação ou preconceito.

O ser humano ainda é a maior descoberta desse século!

Poderemos integrar nossos pensamentos, a emoções e corpos em uma só unidade, constituindo um alinhamento que promove a evolução na direção do aperfeiçoamento humano e oportunizando um salto significativo no crescimento pessoal em todos os âmbitos da existência. Poderemos, ainda, despertar nossa vitalidade e resgatar a espontaneidade e a alegria de viver numa comunidade plena de paz.

DSCF7250“Nunca duvide da capacidade de transformação que duas ou mais pessoas juntas possam fazer no mundo. Talvez esteja aí a grande chance de realmente muda-lo”. (Provérbio árabe)

Nós, do Projeto INSPIRATURAS, congratulamos a todos os nossos caros oficinandos.

Queremos agradecer aos nossos amigos oficinandos por mais um ano produtivo e rico, no qual cultivamos a semente do desenvolvimento humano.; e, também,  relatar o quanto é bom estarmos juntos.

Aos amigos da APCEF-RS, nossa gratidão, por todo o empenho em fazer esse projeto valer a pena.

Andréa Iunes e Sacharuk – facilitadores das oficinas INSPIRATURAS

26 de set de 2017

Metalinguagem na poesia

INSPIRATURAS - Oficina de Criação Literária

Metalinguagem na poesia

Metalinguagem é a linguagem utilizada para falar sobre outra linguagem. Ela compreende todo discurso acerca de uma língua. Na literatura, a metalinguagem é praticada por um crítico que investiga as relações e estruturas presentes na obra literária, ou por um autor que explica seu próprio fazer literário ou de outrem.

Escrever um poema é, como já dizia Drummond, “penetrar surdamente no reino das palavras”. Parece que a procura pela poesia é uma constante na vida dos poetas, que se dedicam à arte de escrever versos e também à arte de escrever versos sobre os próprios versos. Eis que surge a metalinguagem na poesia.

A metalinguagem acontece quando a linguagem se debruça sobre si mesma: a poesia feita sobre a própria poesia. Quando o poeta reflete sobre o fazer poético, parece explicar para si mesmo e para os leitores o momento catártico que permeia a criação e dá vida a um poema.

O Sentido da Poesia

O que há de belo na poesia?
poucos entendem a sua beleza
ela não segue a um padrão
sequer se conforma à razão

Seja clichê de céu turquesa
ou estrelado de idiossincrasia
recorte instantâneo do dia
com alguma ou nenhuma certeza

Poesia respira e inspira emoção
trajada na lógica ou na abstração
na sua forma revela a fineza
e até mesmo se acalma na rebeldia

Poesia que brilha na ousadia
e nos encantos da delicadeza
no colo sagrado da construção
onde a beleza apreende a lição

Mas ser poeta não põe mesa
então, qual o sentido da poesia?
É ser surpreendido algum dia
surpreso com a própria surpresa!

Sacharuk

O poeta se faz e desfaz pela própria compreensão existencial, como um ser-no-mundo que se revela pelo ato de compor e publicar. Enquanto se expõe, se desintegra para poder integrar novos recursos, na forma de informações, técnicas e do alvorecer de uma nova persona poética.

Para ser objeto de crítica, a obra do poeta se volta sobre si mesma para se autoanalisar e concorrer a impressões. Nessa nova idade da literatura, dada a vulnerabilidade educacional e cultural que preenche nossa geografia, os próprios escritores se constituem nos mais ativos leitores.

E a poesia se autocrítica para obter o feedback. Se mostra líquida para ser desvendada. Desvendada para ser compreendida e, por fim, compreendida para dissimular a pretensão catártica.

A metalingüística, enquanto função da linguagem, fala da própria linguagem enquanto se olha no espelho. Vale-se da crítica do próprio código, da sintaxe, do léxico, do estilo, da forma e de qualquer elemento que a constitua.

A poesia metalingüística quer seduzir a si mesma. Dispõe o prazer do poeta em se desnudar para a musa que o observa curiosa em posse da chave que abre a clausura dos versos.

O sentido da poesia

Soneto e métrica

Elementos da narrativa

O conto e suas demarcações

OFICINA DE ESCRITA CRIATIVA INSPIRATURAS

O conto e suas demarcações

O ato de contar histórias remonta a épocas antigas dentre a história da humanidade. A verdade é que a maioria das pessoas, em um determinado momento de sua existência, já teve a oportunidade de se entreter em meio às encantadoras ou até mesmo às horripilantes histórias contadas pelos nossos antepassados, não é mesmo?

Quando nos reportamos à referida ocorrência, sabemos que toda história se perfaz de um encadeamento de fatos, e que estes ao serem narrados vão conferindo sentido ao enredo e envolvendo o interlocutor mediante os acontecimentos. Tal particularidade permite que o conto, didaticamente, pertença ao chamado gênero narrativo consoante aos padrões estabelecidos pela Literatura.

Como dito anteriormente, o conto tem origem antiga. Sua manifestação está condicionada desde as narrativas orais dos antigos povos proferidas em noites de luar, passando pelas narrativas dos bardos gregos e romanos, lendas orientais, parábolas bíblicas, novelas medievais, fábulas de Esopo e La Fontaine, até chegar aos livros, os quais, atualmente, fazem parte do nosso conhecimento.

A título de efetivarmos nossos conhecimentos acerca do assunto em pauta, ressaltamos para o fato de que o conto, por pertencer ao gênero supracitado, assemelha-se aos demais textos no que se refere aos aspectos constitutivos, tais como: personagens, tempo, enredo, espaço, dentre outros.

Entretanto, torna-se relevante mencionar que em termos comparativos há somente um ponto em que se divergem – o da extensão. O conto revela-se como uma narrativa mais condensada e, consequentemente, apresenta poucos personagens, bem como o tempo e o espaço também são reduzidos. Como bem retrata o seguinte excerto:

Um conto é uma narrativa curta. Não faz rodeios: vai direto ao assunto.

No conto tudo importa: cada palavra é uma pista. Em uma descrição, informações valiosas; cada adjetivo é insubstituível; cada vírgula, cada ponto, cada espaço – tudo está cheio de significado. [...]

André Fiorussi, In: Antônio de Alcântara Machado et alii. De conto em conto. São Paulo; Ática, 2003. p. 103)

Analisemos, pois, de modo particular cada um dos traços demarcadores do gênero em questão:
Enredo – Trata-se da história propriamente dita, na qual os fatos são organizados de acordo com uma sequência lógica de acontecimentos. Ao nos referirmos a essa logicidade, estamos também nos reportando à ideia da verossimilhança.

Mesmo em se tratando de fatos ficcionais (inventados), o discurso requer uma certa coerência, com vistas a proporcionar no leitor uma impressão de que os fatos, situados em um dado contexto, realmente são passíveis de acontecer.

O enredo compõe-se de determinados elementos que lhe conferem a devida credibilidade, fazendo com que se instaure um clima de envolvimento entre os interlocutores para que a finalidade discursiva seja realmente concretizada. Vejamos:

O conflito  - talvez seja a parte elementar de toda essa “trama”, pois é ele que confere motivação ao leitor/ouvinte, instigando-o a se envolver cada vez mais com a história. E para que haja essa interação, os fatos se devem a uma estruturação do próprio enredo, assim delimitada:

A introdução (ou apresentação) – Geralmente, constitui o começo da história, na qual o narrador apresenta os fatos iniciais, revela os protagonistas e eventualmente demarca o tempo e/ou espaço. Trata-se de uma parte extremamente importante, haja vista que tende a atrair a atenção do leitor, situando-o diante do discurso apresentado.

A complicação (ou desenvolvimento) – Nessa parte do enredo é que começa a se instaurar o conflito.

O clímax – Trata-se do momento culminante da narrativa, aquele de maior tensão, no qual o conflito atinge seu ponto máximo.

O desfecho – Conferidos toda essa tramitação, é chegado o momento de partirmos para uma solução dos fatos apresentados. Lembrando que esse final poderá muitas vezes nos surpreender, revelando-se como trágico, cômico, triste, alegre, entre outras formas.

Tempo – Revela o momento em que tudo acontece, podendo ser classificado em cronológico e psicológico.

O tempo cronológico, como bem retrata a origem do vocábulo, é marcado pela ordem natural dos acontecimentos, ou seja, delimitado pelos ponteiros do relógio, pelos dias, meses, anos, séculos. Tendem a desencadear uma sequência linear dos fatos.

Já o psicológico é voltado para os elementos de ordem sentimental dos personagens, revelado pelas emoções, pela imaginação e pelas lembranças do passado. Notamos que nesta ocorrência, a tendência dos acontecimentos é fugir da ordem natural em que muito se aplica uma técnica denominada de flashback, a qual consiste num fluxo de consciência em voltar ao tempo, de acordo com as experiências antes vividas.

O espaço – É o lugar onde se passam os fatos. Caracteriza-se como físico (geográfico), representados por ruas, praças, avenidas, cidades, dentre outros; e psicológico, referindo-se às condições socioeconômicas, morais e psicológicas condizentes às personagens. Possibilitando, portanto, situá-las na época e no grupo social em que se passa a história.

(http://portugues.uol.com.br/literatura/o-conto-suas-demarcacoes-.html)

O enredo em sua sequência pode ser linear ou não linear.

É linear quando o tempo, o espaço e os personagens são apresentados de maneira lógica e as ações desenvolvem-se cronologicamente, assim, observa-se o começo, o meio e o fim da narrativa e não linear não segue uma sequência cronológica, desenvolve-se descontinuamente, com saltos, antecipações, retrospectivas, cortes e com rupturas do tempo e do espaço em que se desenvolvem as ações.

O tempo cronológico mistura-se ao psicológico, da duração das vivências dos personagens. O espaço exterior se mistura aos espaços interiores (memória e imaginação dos personagens). Por Marina Cabral

http://brasilescola.uol.com.br/redacao/construcao-enredo.htm

www.inspiraturas.com

Trova, cordel e martelo

CLICHÊ, CHAVÃO, FRASE FEITA

CLICHÊ, CHAVÃO, FRASE FEITA

Clichê, chavão, frase feita, cacoetes, são expressões que se tornaram vazias de sentido ou se trivializaram, por força de terem sido demasiadamente repetidas.

Tipos fundamentais de clichê

1. O da linguagem falada que se desenvolve no intercâmbio social, como resultante da própria rotina das relações entre pessoas (interpessoais).

2. O da linguagem escrita, principalmente literária, consiste na repetição abusiva de fórmulas achadas por um escritor.

O ambiente de circulação dessas duas categorias pode inverter-se mutuamente, ou seja, o clichê oral pode ser introduzido num texto literário com determinados fins, como conferir realismo ao diálogo. Por seu turno os clichês literários podem ser utilizados na fala, entre pessoas cultas, ou de maneira geral, incluindo pessoas iletradas que desconhecem a origem e o contexto em que estão os clichês.

O clichê pode enriquecer e dar expressividade a um texto, ou apenas facilitar a compreensão dele. Mas, pode também, torná-lo um agrupamento de expressões lugares-comuns, vazias de sentido, empobrecendo o texto. Assim, evite expressões pobres de valor informativo, modismos ou chavões que vulgarizam o texto. O Manual de Redação da Folha de São Paulo recomenda evitar as expressões abaixo (clichês) sempre que for possível:

Abrir com chave de ouro

Extrapolar

Antes de mais nada

Familiares inconsoláveis

Ataque fulminante

Fazer por merecer

Atirar / lançar farpas

Fazer uma colocação.

Aparar as arestas

Fonte inesgotável.

A todo vapor.

Fortuna incalculável.

A toque de caixa.

Gerar polêmica.

Atuação impecável

Importância vital.

Avançada tecnologia

Inserido no contexto.

A voz rouca das ruas

Inundar (a vida, o coração, etc.)

Bater de frente com alguém

Jóia da coroa

Caixinha de surpresas

Líder carismático

Calorosa recepção

Literalmente tomado

Caloroso abraço

Luz no fim do túnel

Calorosos aplausos

Na vida real

Caminho já trilhado

No fundo do poço

Cardápio da reunião

Os quatro cantos do mundo

Carreira meteórica

Pavoroso incêndio

Catapultar

Perda irreparável

Com direito a

Pergunta que não quer calar

Congestionamento monstro

Preencher uma lacuna

Consternar-se profundamente

Prejuízos incalculáveis

Corações e mentes

Quebrar o protocolo

Coroar-se de êxito

Requintes de crueldade

Correr por fora

Respirar aliviado

Debelar as chamas

Rota de colisão

Desabafar

Ruído ensurdecedor

Detonar um processo

Ser o azarão

Disparar (como sinônimo de dizer)

Sonora vaia

Dispensar apresentações

Trair-se pela emoção

Do oiapoque ao chuí

Trocar figurinhas

Duras (pesadas) críticas

Usina de idéias

Em nível de

Verdadeiro tesouro

Enquanto ( na condição de)

Via de regra

Erro gritante

Visivelmente emocionado

Escoriações generalizadas

Vitimas fatais

Estrondoso (retumbante) sucesso

Vitória esmagadora

Marshall McLuhan, considerado o papa da comunicação, observa que o uso do clichê é muitas vezes um impulso interior, como o uso da gíria dentro de um determinado comportamento coletivo. E de quando em quando não podemos evitar o uso do chavão, do lugar-comum.

Ricardo Sérgio

http://www.recantodasletras.com.br/teorialiteraria/1889198

Clichê é chavão, é lugar-comum. É repetição. É o oposto de criatividade!

- Sabe, amiga, ele me ganhou com aquele olhar de soslaio.

- É mesmo?

- Convidei-o para vir a minha casa. Meus batimentos estavam a mil por hora e minhas mãos estavam molhadas.

- E aí?

- Nem te conto, amiga, do hálito quente sussurrado no ouvido até a mão com pegada forte, ele é tudo de bom.

- E depois?

- Ele é um amor. No café da manhã, pegou o pote de margarina e desenhou um coração.

- Vocês se acharam, se completam. Formaram o par perfeito: Clichê e Chavão.

(Klotz, Roberto. Manual do Escritor. Brasília, 2016)

Autobiografia

clip_image002A autobiografia é um gênero literário que existe desde muito tempo e continua bastante presente na atualidade. É um fenômeno atemporal e mundial, que pode ser inteiramente literal ou possuir ingredientes ficcionais. O precursor desse modelo de escrita é Santo Agostinho, durante a Idade Média, com Confessiones (Confissões). Além deste, vale lembrar grandes obras autobiográficas conhecidas mundialmente, como por exemplo, Diário de Anne Frank.

Nada mais é do que a vida de uma pessoa relatada por ela própria e, em muitas vezes, transformada em livro e/ou filme. Mas também muita gente utiliza tal particularidade e não se dá conta, ou seja, quem usa o diário para anotar sua rotina está se autobiografando, mas nem por isso tal indivíduo intenciona publicar suas anotações. O mesmo acontece com o envio de cartas. Na maioria dos casos, quando se escreve uma correspondência para outrem fala-se de si próprio; outra situação em que a autobiografia está presente, sendo direcionada a um leitor, único ou não.

Uma das vertentes da autobiografia é o ghostwriter (escritor fantasma), ou seja, alguém que escreve a biografia de outra pessoa, passando-se por ela mesma. Normalmente o ghostwriter é contratado para tal serviço, fruto do interesse e curiosidade que os indivíduos têm em saber da vida dos outros, principalmente dos famosos. Com isso, a celebridade, muitas vezes instantânea, recorre ao trabalho do escritor fantasma para discorrer a seu respeito, atentando-se a recursos que ela usaria para falar de si própria, para não levantar suspeitas de que não foi ela que compôs sua autobiografia.

Fonte: infoescola

FIGURAS DE LINGUAGEM

“E eis que veio uma peste e acabou com todos os homens. Mas em compensação ficaram as bibliotecas. E nelas estava escrito o nome de todas as coisas. Mas as coisas podiam chamar-se agora como bem quisessem.”

(Mário Quintana)

ARTE LITERÁRIA OU LITERATURA

A arte é, indiscutivelmente, uma das formas mais antigas de comunicação entre os seres humanos. Quando usamos a palavra e os seus recursos para criar, alcançamos a arte literária ou a literatura.

LINGUAGEM LITERÁRIA E NÃO-LITERÁRIA

Uma palavra que só informa aquilo que é objetivo, concreto é chamada de denotativa, não-literária. A literatura é linguagem carregada de significado: ela é resultado de uma intenção. Por isso, a linguagem literária é conotativa, isto é, vem da experiência pessoal, subjetiva e carregada de emoções.

FIGURAS DE LINGUAGEM

FIGURAS DE PALAVRAS

FIGURAS DE PENSAMENTO

FIGURAS DE CONSTRUÇÃO

Comparação (símile) – aproxima dois seres a partir de uma característica que lhes é comum. Pedro joga xadrez como seu pai.

Metáfora – comparação implícita entre dois seres. Ela tem o rosto de porcelana.

Catacrese (abuso) – dar um novo sentido a um termo já existente. Doía-lhe a barriga da perna.

Metonímia (sinédoque) – associação de termos e idéias relacionados que provoca a substituição de um termo por outro. Eu leio Machado de Assis.

Perífrase (antonomásia) – espécie de metonímia, porque implica na substituição de um nome próprio por uma circunstância ou qualidade que a ele se refere. A Cidade-Luz continua bela e majestosa.

Sinestesia – misturam-se, numa mesma expressão, sensações percebidas por diferentes sentidos ao mesmo tempo. “Os olhos, magnetizados, escutam.” (Carlos Drummond de Andrade)

Apóstrofe – interpelação de alguém em meio ao discurso. Ó espíritos errantes sobre a terra! (Castro Alves)

Antítese (contraste) – emprego de palavras que se opõem quanto ao sentido. Chorou de tanto rir.

Hipérbole – exagero da expressão para reforçar uma idéia. Sabia de cor mil e duzentas orações.

Prosopopéia (personificação) – atribuição de atitudes inanimadas ou humanas a seres inanimados ou irracionais. Exemplo: histórias em quadrinhos.

Ironia – quando se diz algo querendo dizer exatamente o contrário. Ele é o máximo: tirou dois na prova.

Eufemismo – uso de formas mais amenas para dizer algo que choque o interlocutor. Sua tia descansou para sempre.

Amplificação – enumeração das qualidades de um ser de tal modo que elas vão se ampliando e somando. “A vida é o dia de hoje, a vida é ai que mal soa, a vida é sombra que foge, a vida é nuvem que voa.” (João de Deus)

Gradação (clímax) – apresentação de idéias em progressão ascendente ou descendente. Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. (Pe. Vieira)

Anáfora – repetição de palavra ou frase no início de versos ou frases. “É preciso casar João, é preciso suportar Antônio, é preciso odiar Melquíades, é preciso substituir nós todos” (Carlos Drummond de Andrade)

Inversão (anástrofe) – alteração da ordem normal dos termos na oração ou das orações no período com o fim de lhes dar destaque. ... imitar era o meio indicado; fingida era a inspiração, e artificial o entusiasmo (Gonçalves Dias) / quando a inversão é violenta, forma-se o hipérbatoimitar indicado o meio era.

Pleonasmo – repetição de uma idéia (com ou sem repetição de palavras) para tornar a expressão enfática. Vi, claramente visto, a raiva sentida. Obs.: pleonasmo vicioso é um vício de linguagem que consiste na redundância de palavras ou expressões: Vi com meus próprios olhos.

Polissíndeto – repetição intencional e enfática da conjunção e. O mar é calmo, e belo, e verde, e deserto.

Assíndeto – omissão da conjunção e ou dos conectivos aditivos. “É o órgão da fé, o órgão da esperança, o órgão do ideal.” (Rui Barbosa)

Elipse (zeugma) – omissão de palavras ou expressões facilmente subentendidas. “O mar é ― largo sereno; O céu ― um manto azulado” (Casimiro de Abreu)

Anacoluto – ocorre quando há interrupção na frase, iniciando-se outra sem conexão sintática com a anterior. Tua língua materna, nunca vi idioma mais complicado.

Onomatopéia – reprodução escrita ou falada de sons e ruídos. Tic-tac!” Batia, com desespero, o relógio da sala de estar.

FIGURAS DE LINGUAGEM

a) INUTILIDADES

Ninguém coça as costas da cadeira.

Ninguém chupa a manga da camisa.

O piano jamais abana a cauda.

Tem asa, porém, não voa, a xícara.

De que serve o pé da mesa se não anda?

E a boca da calça se não fala nunca?

Nem sempre o botão está em sua casa.

O dente de alho não morde coisa alguma.

Ah! se trotassem os cavalos do motor...

Ah! se fosse de circo o macaco do carro...

Então a menina dos olhos comeria

Até bolo esportivo e bala de revólver.

(PAES, José Paulo, É isso ali. RJ, 1984)

As funções do parágrafo inicial num conto

INSPIRATURAS escrita criativa – oficinainspiraturas@gmail.com

As funções do parágrafo inicial num conto

As primeiras linhas constituem o cartão-de-visita de um texto. Num conto, por exemplo, permitem:

a) Indicar o género em que a narrativa se insere;

b) Revelar o tom do texto e o estilo da escrita do autor;

c) Apresentar a personagem principal e, eventualmente, outras;

d) Interessar o leitor pelo problema enfrentado pelo protagonista ou alguém próximo a este;

e) Estabelecer o tempo e o lugar onde a ação se desenrola;

f) Criar interesse e expectativa no leitor;

g) Vislumbrar o conteúdo da história.

Quando não há nada que nos obriga a ler, é o incipit que nos leva a continuar ou a abandonar a leitura. É o que determina o pacto de leitura entre o autor e o leitor. Neste contexto, um incipit funcional atrai a atenção do leitor, prende-o à obra, convida-o para uma dança de fantasia.

Tipos de parágrafos iniciais

Seja uma narrativa de ação ou um drama íntimo, todo e qualquer elemento plausível, imaginativo e motivador que retire o protagonista do conforto quotidiano, o perturbe ou o chame para a aventura é, metaforicamente, uma bomba. Sem isso, não existe uma história, porque não se gera nem a tensão nem o conflito que desencadeiam a busca, interior ou física, da personagem.

Apresentar esse elemento no início de uma narrativa, por si só, não suscita necessariamente o interesse do leitor; um corpo não está vivo até lhe serem insufladas alma e verosimilhança. Um parágrafo inicial cativante deve cumprir um ou mais dos seguintes objetivos:

· Suscitar a curiosidade do leitor acerca de uma personagem;

· Gerar um cenário interessante para a história;

· Criar uma atmosfera.

· Chocar ou surpreender o leitor;

· Introduzir um elemento de mistério e intriga.

Suscitar a curiosidade do leitor acerca de uma personagem

Quando eu era pequena, passava às vezes pela praia um velho louco e vagabundo a quem chamavam o Búzio. O Búzio era como um monumento manuelino: tudo nele lembrava coisas marítimas. A barba branca e ondulada era igual a uma onda de espuma (Andresen, 1992: 147).

Andresen insufla vida numa personagem de papel e tinta, através do recurso a adjetivos (louco e vagabundo), a uma comparação inovadora entre o Búzio e o monumento manuelino, e a uma metáfora que, apesar de pouco original, é sugestiva e identifica o velho com o oceano (“A barba branca e ondulada era igual a uma onda de espuma”). Em escassas linhas (um parágrafo e o início do seguinte), a narradora imprime na mente do leitor a imagem de um vagabundo idoso e perturbado, uma presença intrigante sobretudo para uma rapariga atenta. A propósito deste homem, podemos perguntar-nos: quem é o Búzio? por que enlouqueceu? o que o faz percorrer as praias? de que modo marcou a narradora? qual a relação entre o Búzio e o título do conto (“Homero”)?

Gerar um cenário interessante para a história

Outra forma de começar uma narrativa consiste em gerar um cenário interessante e adequado ao enredo. A estrutura e a extensão de um romance permitem que o autor despenda vários parágrafos em descrições mais ou menos pormenorizadas de espaços, épocas, personagens, animais e objetos, para suscitar na mente do leitor uma imagem vívida destes.

Os longos retratos são de evitar sobretudo no conto, que é por definição uma narrativa breve, com uma unidade de efeito (isto é, coesa), pronta para ser lida de uma assentada, como afirmava o mestre das histórias de terror Edgar Allan Poe. O conto tem uma economia específica, onde só há espaço para o essencial, sem devaneios nem exposições que muitas vezes mergulham o enredo num oceano de irrelevâncias.

Assim, o autor não pode exceder-se ao descrever cenários ou personagens, sob pena de aborrecer o destinatário, de gerar uma desproporção entre as várias partes da história, e de subtrair ao leitor o direito e o prazer de imaginar.

Há histórias onde o cenário desempenha um papel importante, por ser simbólico ou apresentar alguma semelhança com o estado de espírito da personagem, por exemplo. O conto “A Queda da Casa de Usher” (“The Fall of the House of Usher”, 1839), de Poe, é um caso onde o aspecto sinistro de uma mansão e a atmosfera de trovoada refletem o estado de espírito de um visitante:

Durante um dia carregado, sombrio e mudo do Outono desse ano, em que as nuvens pairavam no céu opressivamente baixas, atravessava sozinho, a cavalo, uma porção de campo estranhamente lúgubre; e acabei por me encontrar, ao cairem as sombras do final da tarde, à vista da melancólica Casa de Usher. Não sei como tal aconteceu, mas, mal pousei o olhar no edifício, apossou-se-me do espírito uma insuportável tristeza. Digo insuportável porque tal sensação não era sequer mitigada por qualquer desses sentimentos meio agradáveis, porque poéticos, com que o espírito normalmente acolhe mesmo as mais sombrias imagens naturais da desolação ou do terror. Contemplei o cenário que tinha diante de mim ­— a casa solitária e as características simples da paisagem, as paredes fustigadas pelo vento, as janelas vazias que pareciam olhos, algumas junças luxuriantes e uns tantos troncos brancos de árvores definhadas — com uma extrema depressão de ânimo para a qual não encontro comparação mais adequada com alguma sensação terrena que não seja a que sobrevém ao sonho da orgia do ópio: a amarga queda na vida quaotidiana; o medonho tombar do véu. Havia uma frieza glacial, um abatimento, um mal-estar uma irremediável escuridão de pensamentos que nenhum aguilhão da imaginação poderia deturpar, transformando-o em algo de sublime. Que seria — detive-me a pensar — que seria que tanto me desalentava na contemplação da Casa de Usher? (Poe, 1998: 57, 58).

Neste excerto do primeiro parágrafo, o narrador descreve o edifício senhorial e seus arredores com um vocabulário criteriosamente escolhido para suscitar o medo e a inquietação no leitor.

Criar uma atmosfera

A atmosfera engloba uma combinação subtil em que imagens e sons, impressões subjetivas e acontecimentos, ressoam na mente do leitor, ajudando-o a entranhar-se no universo ficcional.

Na atualidade, o escritor mexicano-americano Rudolfo Anaya (1937- ) constrói em vários contos e romances uma atmosfera de realismo mágico, onde a paisagem, as tradições e as lendas do Novo México se combinam. A abertura da sua obra-prima, o romance de estreia Abençoa-me, Ultima (1972), é um exemplo trabalhado desta arte:

Ultima veio viver connosco nesse Verão em que eu tinha sete anos de idade. Quando ela chegou, a beleza do llano abriu-se perante os meus olhos e as águas gorgolejantes do rio cantaram ao ritmo do sussurro da terra em movimento. O tempo mágico da infância permanecia imóvel e o pulso da terra viva empurrava o seu mistério para dentro das minhas veias. Ela pegou na minha mão e os poderes silenciosos e mágicos que possuíam espalharam em redor uma beleza feita do llano despido e afogado no calor do sol, do vale verde do rio e da abóbada azul onde vive o sol, intenso e branco. Os meus pés descalços sentiram o pulsar da terra e o meu corpo tremeu de entusiasmo. O tempo parou e partilhou comigo tudo o que tinha vindo antes e depois, e tudo o que estava para vir... (Anaya, 2005: 17).

A beleza metafórica do texto, escorada pela aplicação de verbos enérgicos e por vários adjetivos, traduzem o ambiente de maravilhoso e de onírico que nimba o romance. O leitor é preparado, ab initio, para respeitar e acarinhar a figura de Ultima, a curandeira velha e sábia que assistirá o pequeno António na descoberta da sua identidade e da paixão pela terra-mãe.

A abertura do romance ET: O Extraterrestre (1985), do escritor norte-americano e argumentista William Kotzwinkle (1943- ) é um caso paradigmático:

A nave espacial flutuava suavemente, ancorada à terra por um feixe de luz lavanda. Se alguém fosse aparecer neste local de aterragem, poderia, durante um momento, pensar que um gigantesco ornamento de uma velha árvore de Natal caíra do céu nocturno — pois a nave era redonda, reflectiva e apresentava uma inscrição de um delicado desenho gótico (Kotzwinkle, 1982: 5).

Neste trecho, bastante breve, a comparação entre o engenho alienígena e a estrela de um pinheiro enfeitado para o Natal ajuda o leitor a visualizar a cena insólita e, portanto, a aceitar com mais facilidade esta inverosimilhança. Não é, no fim de contas, uma das qualidades de um bom escritor tornar o estranho familiar e o familiar estranho?

Como criar atmosfera num conto?

a) O escritor pode passear pelo local onde decorre a ação da sua história, se este for real, para absorver o genius loci.

b) Estudar atentamente o trabalho de outros escritores, para desvendar as técnicas que estes empregaram;

c) Imaginar uma banda sonora para a história (aliás, são inúmeros os autores que trabalham ao som da música, escolhendo melodias em consonância com a atmosfera que desejam criar);

d) Trabalhar com cores, atribuindo a cada atmosfera uma determinada tonalidade. O cor-de-rosa, deduzo, seria apropriado para um ambiente romântico; o azul-escuro para uma cena noturna; o violeta para evocar memórias, etc.

Chocar ou surpreender o leitor

Que situações criam suspense? O teórico da escrita criativa e agente literário Evan Marshall sugere que o parágrafo inicial deve apresentar uma crise (ou, acrescento, um conflito ou desafio). Uma crise, para o ser verdadeiramente, tem de cumprir três requisitos:

Ser adequada ao género literário da narrativa e ao destinatário da obra;

Virar do avesso a vida do protagonista, tornando-se numa prioridade a resolver;

Suscitar o interesse do leitor (uma crise invulgar, dilemática ou chocante, por exemplo)

Um parágrafo inicial que escandalize ou surpreenda o leitor tem sempre impacto garantido e gera um irresistível desejo de prosseguir a leitura. O escritor austríaco Franz Kafka consegue tudo isto no seu extenso conto “A Metamorfose”, em menos de quinze palavras: “Uma manhã, ao acordar de sonhos inquietos, Gregor Samsa viu-se transformado num gigantesco inseto” (Kafka, 1996: 19). A reação a este evento pode variar de leitor para leitor: muitos horrorizar-se-ão; alguns experimentarão fascínio; outros, piedade pelo protagonista. Em comum, todos se sentirão compelidos a prosseguirem a leitura depois de um início tão insólito quanto provocante.

Introduzir um elemento de mistério e intriga

Este tipo de parágrafo tem a vantagem e o risco inerentes ao imediatismo: por um lado, garra com facilidade o leitor; por outro, exige um desenvolvimento à altura do interesse suscitado, sob pena de diluir o efeito surpresa e de o desapontar, como uma promessa quebrada.

Um melhores exemplos é o parágrafo inicial do romance da escritora norte-americana Kathryn Harrison, O Beijo (The Kiss, 1997): “Encontramo-nos em aeroportos. Encontramo-nos em cidades onde nunca tínhamos estado. Encontramo-nos onde não possamos ser reconhecidos por ninguém” (Harrison, 1997: 11). As frases curtas e o paralelismo geram uma cadência quase hipnótica, em sintonia com o estilo geral da obra, feito de revelações e testemunhos íntimos sobre o amor proibido entre uma filha e um pai. O parágrafo aponta para espaços públicos e, por isso mesmo, anónimos, numa gradação cada vez mais abrangente: aeroportos, cidades desconhecidas, qualquer lugar onde ninguém identifique os amantes. A estes locais incaracterísticos, frios até, opõem-se a cumplicidade, a partilha apaixonada, e também o sentimento de culpa.

clip_image002O início de uma narrativa ficcional condiciona largamente o desejo de prosseguirmos ou abandonarmos a leitura. O escritor, tendo em conta o género do texto, deve encontrar simultaneamente uma forma clara e eficaz de captar a atenção, e de criar uma crise (tensão, conflito, desafio) que desencadeie a procura do protagonista. Nesta linha, o autor pode suscitar a curiosidade acerca de uma personagem relevante para o enredo; gerar um cenário curioso; criar uma atmosfera; chocar ou surpreender; introduzir um elemento de mistério e intriga.

A aplicação de cada uma destas técnicas requer conhecimento, sensibilidade, arte e esforço.


Cena e Sumário

Cena e Sumário

Por Norman Friedman:

- SUMÁRIO NARRATIVO: relato generalizado ou a exposição de uma série de eventos abrangendo um certo período de tempo e uma certa variedade de locais, e parece ser o modo normal, simples, de narrar.

- CENA: a cena imediata emerge assim que os detalhes específicos, sucessivos e contínuos do tempo, lugar, ação, personagem e diálogo começam a aparecer.

http://seletadeprosa.blogspot.com.br/2007/10/cena-sumrio-e-panorama.html

Cena e Sumário – exemplo:

Descrição

A casa de Madalena situava-se numa rua escura. Era um velho sobrado de alvenaria, em estilo colonial, perdido no meio de um descampado.

Narração – Sumário

Todas as noites, antes de dormir, Madalena verificava, com esmerado método, se as portas e janelas estavam bem trancadas. Consumia, nesta operação, mais de trinta minutos.

Narração – Cena

Numa noite de inverno, ouviu um leve ruído na janela do quarto. Acendeu a luz, assustada. Sacudiu o marido, que continuou a dormir profundamente. O vento, pensou. Permaneceu a noite toda em claro, rezando para Nossa Senhora dos Aflitos. Na manhã seguinte, comentou o fato com o marido. “Coisas da tua imaginação”, sentenciou ele. No entanto, uma hora mais tarde, Madalena mostrou-lhe, triunfante, pegadas de galocha sobre a terra úmida.

Narração – Sumário

Madalena redobrou os cuidados. Contratou uma firma de vigilância, que instalou alarmes de última geração em todas as entradas da casa, além de reforçar os trincos das portas e janelas. Também adquiriu um casal de cachorros filas.

Narração – Cena

Um dia, o castelo ruiu. Um ex-funcionário da firma de vigilância entrou na casa de Madalena, utilizando-se dos códigos de acesso que roubara ao ser demitido. A mulher ainda gritou, antes de ser morta com um tiro certeiro na testa. O marido teve mais sorte: morreu dormindo.

Aulus Mandagará Martins


DESAFIO:

- escreva um conto, marcando bem as passagens de cena e sumário, com o tema “Insônia”

Boas inspirações!

Transições de tempo e espaço

clip_image002TRANSIÇÕES DE TEMPO E ESPAÇO

(Conexões Narrativa)

Evitar: - as passagens abruptas de tempo ou espaço;

- as passagens muito lentas, ou confusas, com recursos a monólogos, fluxos de consciência etc.

Como fazer transições de tempo e espaço:

1-Uma divisão física no texto (espaço duplo, mudança de capítulo);

2-Uso de frases feitas, tais como “no dia seguinte”, “uma hora mais tarde” (não abusar desse recurso previsível);

3-Para evitar que as passagens acima sejam muito abruptas, dê ao leitor uma pista de que haverá uma alteração de tempo ou de espaço;

Carmelo deixou Micaela no apartamento e ela se despediu sem dizer nada.

Na manhã seguinte, ele a encontrou muito doente.

4-Deixe o leitor antecipar uma transição através do diálogo:

Carmelo estacionou o carro defronte a casa de Micaela.

- Não esqueças o nosso almoço amanhã – disse ela, fechando a porta do Fiat antigo. Sorria com uma ponta de malícia.

No restaurante, Micaela usava um vestido preto e um colar de pérolas.

5-Para indicar ao leitor que haverá uma alteração de tempo ou espaço deixe que ele antecipe a localização da próxima cena:

Carmelo estacionou o Fiat defronte a casa de Micaela.

- Não esqueças nosso almoço amanhã – disse ela, fechando a porta do carro. Sorria com uma ponta de malícia.

- Sim – completou ele. – No Águia-Negra, meio-dia e meia.

Admirando o risoto de frutos do mar, Micaela disse:

- Quando vais comprar o apartamento?

6-Uma das maneiras de realizar a transição de tempo ou espaço é através da permanência de um elemento citado ou mencionado anteriormente.

6.1-Objeto:

Carmelo chegou tarde em casa. A mulher o aguardava, furiosa. Uma discussão feroz acordou a vizinhança. Micaela, temendo a investida de Carmelo, ameaçou-o com uma faca.

Quando a polícia chegou na casa de Micaela, encontrou-a abraçada ao punhal ensanguentado.

6.2-Mudança de estado de um objeto ou produto:

Micaela decidiu preparar um risoto de frutos do mar, no aniversário de seu casamento.

Ao chegar em casa, Carmelo encontrou o risoto sobre a mesa, frio.


Desafio:

Invente um nome para a personagem e dê continuidade à história. Não esqueça de marcar bem as transições de tempo e espaço.

Meu nome é _____________________________ e levo uma vida dupla…____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

Dhenova, no sarauzinho de quinta

Oficina de escrita literária INSPIRATURAS

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Rebeca Bulcão–Oficina de Escrita LIterária INSPIRATURAS

Oficina de escrita literária INSPIRATURAS/APCEF-RS/Regional Sul

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Os demônios do esquecimento

Os demônios do esquecimento

Na noite do pensamento, diante dos trabalhos mágicos, o velho abade percorreu imagens trágicas advindas de um tempo muito distante. Nelas, soaram vívidos os gritos da agonia, reproduziram o brutal assassínio das crianças e a tomada das terras férteis, cultivada pelos seus antepassados. Desejou de volta a honra das conquistas, clamou por tardia vingança. Para tal, evocou magnífico espírito a discorrer os grimórios. Sobre o altar dos sacrifícios, derramou símbolos embebidos no sangue inocente.  Visível somente aos olhares experimentados, uma forma inconcebível, oriunda das maquinações do clérigo ocultista, pairou quase dois metros do chão, servil em seu silêncio.

Descrita nos oráculos da sacerdotisa e criptografada nos relatos sacros, a criatura exibia conformação orgânica idêntica as de outras formas humanas, de acepção comum, apenas quando assim o desejava, entretanto, subsistia imperecível a nutrir-se do fluido das memórias ancestrais.  Sua intervenção, veloz em qualquer domínio, atendia o chamado das águas, do fogo e do ar e, ainda, podia interceder juntos aos reinos sob a égide das virtudes, mas também, sob o estorvo dos enganos e dos vícios. Acaso falasse aos humanos, a criatura, asseguraria o silêncio aos campos do entorno quando desprezaria os ruídos da fala. Poderia adentrar a mente dos homens quando desejasse, para, enfim, nutrir-se do esquecimento desses.IMG_20170915_072506223~2

O velho abade entoou, entre os lábios semicerrados, incompreensível madrigal consagrado à deusa das vertentes. Da fronte de sua criação, entre três distintas cabeças, irrompeu o dragão, que rastejou, saltou e, oportunamente, se revestiu de humanas feições. Eis que o fenômeno da transmutação se revelava não apenas aos virtuosos, mas aos de espírito dedicado.

Resultou incorrupta a maravilha criada pelo abade, resistiu inabalável ao apelo das crenças, enquanto bastante em si mesma, não serviu a outro senhor que não ao seu artífice. A proximidade de outubro fazia emergir as forças que se vestiam nas fatalidades, tornando-as ainda mais evidentes. Pelos dias vindouros, não obstante se estenderia o projeto de vingança do clérigo.

O dragão que surgia daquela forma bestial perpassou, sem que o percebessem, as portas trancafiadas que encerravam as memórias humanas, até adentrar o último recôndito. Lá, depositou o tridente que arrebatava as chagas da humanidade, cujas setas erguiam o corpo da existência em permanente ascensão, sob o signo ígneo da serpente, mas também, consagrava a memória à morte das suas lembranças.

O mestre Gerard negociou a manutenção da vida dos seus juntos aos demônios personificados nas três cabeças da criatura. Como trégua, o abade aceitaria a oferta de dez cabeças dos melhores profetas da aldeia e, cada qual, verteria suas memórias pelo breu do esquecimento fatal. Em troca, os nativos da aldeia teriam preservada a capacidade de lembrar.

Diante da relutância do líder humano, a criatura dos grimórios evocou o início de um tempo de indiferença. Não poderia, o povo de Gerard, no esquecimento das suas máculas, almejar a misericórdia. Seria necessária a consciência viva do seu passado algoz, da essência retida na experimentação dos caminhos malfadados. A administração do futuro dependia da preservação das suas experiências.

Gerard sentiu medo. Estava solitário no curso do seu destino ingrato que o obrigava a decidir entre extirpar as cabeças de seus profetas ou, então, permitir o advento da indiferença de seu povo. E sua incapacidade de contrapor a personificação do malefício do abade deixou deflagrar longo período de trevas.

Dos píncaros da cadeia montanhosa podia-se avistar a longitude do vale. As reminiscências se estenderam secas tal a vegetação local e o povo de Gerard suplicou pelo fim da grande estiagem. O mar já não mais precipitou o pensamento dos sábios e profetas. O causticante sol fez evaporar as últimas lembranças. Gerard proclamou dias de desespero. Seu povo esquecido a nada mais respondeu. Apenas sucumbiu inutilmente pelas montanhas do Velho Mundo, escoltado pelo olhar vigilante dos demônios do esquecimento. Em oração, os populares dispenderam o último discernimento que lhes restara, num transe místico de religiosidade que parecia irromper ao eterno. Com as rochas pontiagudas, rasgaram suas próprias carnes, romperam suas artérias, até seu sangue escorrer sobre as terras do vale. Em plena amnésia, o povo de Gerard encontrou sua ruína.

No vale das memórias apagadas, a terra lavada em sangue e esquecimento expiou o perdão. Sem memória, não houve mais o resguardo diante dos erros, não evocaram mais as fórmulas fadadas ao sucesso da agricultura, das artes e da felicidade. Sem a memória, não houve alimento.

E Gerard foi, então, diante dos estúpidos, o culpado, ainda que sequer disso lembrassem.

wasil sacharuk


Olhos de Vidro, por Véio China

Olhos de Vidro

Eu tive tudo para ser feliz, aliás, em termos até que fui, entretanto, não mais estou aqui. Lembro-me daquele tempo e do apartamento, e de que nele havia um grande quarto, e na sala o conforto dum desgastado sofá de couro, e atrás dele uma ensolarada janela de vidros largos, onde em alguns dias do mês eu aproveitava os raios e banhava os meus pelos. O edifício em que morávamos deveria ter, talvez, uns 30 anos de vida, e dentro daquele dormitório com as pinturas descascadas jamais me foi dado o castigo da solidão, pois ao meu lado tinha amigos como o Pateta e o manso Leão da Montanha, personas inseparáveis e que sempre me foram gratas. Provavelmente estejam pensando a confusão que deveria existir entre tão distintas figuras, porém garanto; jamais ocorreram problemas de ordem física entre o Leão e eu, assim como nunca me favoreci das garras afiadas, mesmo que plásticas, para cravá-las nos fundilhos das calças do risonho Pateta, mesmo que eu o estivesse incomodando. Assim posto, é verdadeiro o quanto vivianos pacificamente e numa camaradagem respeitosa, e acima de tudo, engraçada. Contudo é bom frisar que não estávamos ali gratuitamente, arrematados que fôramos numa loja de brinquedos usados, ali na rua 25 de Março, em pleno pulmão de São Paulo.

E hoje,  passados pouco mais de 10 anos ainda se mantém em meu espírito a lembrança do dia que aquele senhor de óculos escuros nos comprou. Talvez à época ele já estivesse beirando a casa dos 50, e ele entrou na loja e nos viu sentados numa empoeirada prateleira de uma das vitrinas internas.

- Garota, quanto estão pedindo por esse botafoguense? –  Ele perguntou para a vendedora apontando o dedo para mim.

Talvez não se apercebera, mas eu era um Urso Panda, e não um jogador de futebol, e só um tempo mais tarde é que fui a saber que o termo "botafoguense" motivou-se na alva estrela solitária que trazia estampada no meio do meu .peito.

-Este urso está saindo por 20 reais, meu senhor! – Foi a gentil resposta da moça.

-Que merda! 20 reais por um bicho de pelúcia amorfanhado e de segunda-mão? – Grosseiramente o sujeito devolveu. Ela o olhou surpresa, pois algo dizia que poderia estar à frente dum legítimo chato de galochas.

Os seus maus modos e o achincalhe com a minha aparência contribuíram para me deixar pensativo, pois não há nada pior para um urso de pelos mofados saber por boca de outra pessoa que se está a caminho do velho e amorfanhado. Olhei para o sujeito com certa revolta, e meu senso de auto-preservação passou a estudá-lo, minucioso, linha por linha do seu corpo; Estava lá e era evidente o enrugamento da pele, alguns pés de galinha, os cabelos em franco processo grisalho, além da baixa estatura e um indisfarçável grau de obesidade. Claro, a inspeção me confortou, pois  seria do meu direito e faria justiça se lhe devolvesse, não os mesmos, mas predicados piores. No entanto sabia que seria perda de tempo, afinal, os ursos de pelúcias não falam, apenas pensam. Em seguida ele olhou para outros bichos de pelúcia que me ladeavam, e meneou negativamente a cabeça. Os seus passos iam e vinham, ansiosos; talvez ainda não tivesse achado aquilo procurava.

-Ah! E esse Leão? E o Pateta. Qual é o preço? – Perguntou lacônico ao notá-los na prateleira abaixo. Antes de responder a moça ainda tentou cativá-lo:

-Por favor senhor, poderia me dizer seu nome? – Óbvio, a sua intenção era de quebrar o gelo, suavizar as riscas daquela testa franzida. O sujeito a olhou de baixo à cima, e sisudamente respondeu.

-Mocinha, não estou aqui para que saiba o meu nome, mas apenas para comprar essa coisa! – Protestou numa tonalidade moderada batendo a ponta do indicador no vidro, e em minha direção. 

Definitivamente olhei para o homem, e ele não me parecia uma dessas pessoas que envelhecem à bordo das frases compreensíveis ou gentis. Diante da sua rudeza a moça apenas desviou-se do seu olhar furtando o sorriso que  instantes antes impregnava os seus lábios. Assim,  deu-lhe apenas a ciência dos valores:

-O leão está por 25 reais, e o Pateta, 30. – Ele ouviu calado e persistiu com o olhar no par de pelúcias. Após alguma avaliação cravou os olhos em mim e decidiu:

-Levarei os três. 

Sim! Não havia como negar, o fato de ter nos comprado me feriu em particular, pois me senti  discriminado, já que não coube ao Leão e o Pateta qualquer fator de depreciação, inclusive nenhuma pechincha no preço. Refleti sobre aquilo por instantes e percebi algo novo em minha natureza; a vaidade.Talvez Freud explicasse, o que não impediu que durante algum tempo eu sentisse  um certo grau de inferioridade com referência a eles, entretanto,  pouco mais tarde o fato foi esquecido. Mas, retomando o momento da compra recordo que o homem pegou a sua nota de compra, e dirigindo-se ao caixa quitou os 85 reais por três vidas de pelúcia. A vendedora ainda pareceu preocupada quando o sujeito disse que gostaria de dar uma palavra com o gerente.  Receosa ela apontou para o fundo da loja onde um senhor de aparência severa conferia algumas mercadorias.  Lembro também de ter ouvido o lamento da vendedora ao confidenciar para a colega de serviço tão logo o homem ter se distanciado:

-Poxa vida, Antonieta, hoje não é mesmo o meu dia de sorte. Fiz tudo para atendê-lo com delicadeza, e lá está o homem falando com o chefe. Certamente deve estar se queixando do meu atendimento. – Balbuciou para a outra num tom de desânimo.

Evidente, talvez estivesse certa, pois ela olhava para eles e percebia que o sujeito gesticulava ostensivamente para o seu superior. Depois, e ainda com os mesmos olhos ansiosos viu o cliente retornar e passar por ela meneando discretamente a cabeça. Assim, e com os passos apressados foi que o homem saiu da loja levando numa grande sacola plástica todos nós, seus futuros amigos do nada. E tão logo desapareceu pela porta o gerente chamou a funcionária, e ela foi ter com ele esperando o pior, talvez a demissão.

-Marta, o senhor que acabou de sair veio falar sobre você, e disse que ficou satisfeito com o seu atendimento. Parabéns, continue assim! – Disse a ela num tom de comemoração. A garota abriu um sorriso de surpresa e feliz voltou para a sua função.

Foi ali naquele momento que reparei também que o sujeito surfava a vida nos mares dos enfrentamentos e contradições. E esta era a sua marca, nada mais que linha mestra do seu perfil, pois há anos convivi com ele, e assim sempre foi, e assim sempre seria assim.

Agora, deixemos o passado atrás das velhas linhas do horizonte e passemos a falar das contemporaneidades que vivenciei ao lado dele. E começando vou contar-lhes algo que ainda não sabem; O meu verdadeiro nome foi dado por ele - “Doutor Panda”  - E assim me batizou por sempre me carregar pelos braços e  levar-me ao seu quarto afim que eu escutasse as suas histórias. Por motivos que jamais poderia elucidar, ele se apegou a mim, deixando de lado os meus amigos. Talvez fosse carência, essa carência dependente de atenções, essa que faz algumas pessoas, principalmente as solitárias, a agarrarem-se a algo. Portanto será comum vermos muitas dessas pessoas tratando os seus cães, gatos, e outros animais menos domesticáveis como se fossem membros do seu clã. Não que a comparação me seja pertinente, mas o meu dono houve por bem eleger-me como o seu bichinho de estimação, afinal, eu era o seu bom psicanalista, o analista que ele precisa, um urso de pelúcia isento de voz, mas com um  bom par de peludas orelhas para escutá-lo.

Ele estava muito dependente de mim quanto tivemos a nossa última conversa, aliás, a mais importante delas. E por ironia ela ocorreu numa noite onde me foi concedido e retirado o dom da vida. Ah vida...e por falar nela sempre a vida se reverenciará às pinceladas do tempo, para alguns, muito longa, para outros, essencialmente breve. Sim,  não a concebo assim como vocês; carne, pele, ossos e deslocamentos, já que a vida nada mais é que movimento e decisão. E decisão foi o que esteve  presentes naquela noite em que chegou chapado de bebida e pegou-me pelo braço e fomos para o  seu quarto. Ali, deitou-se colocando-me sentado em sua barriga. Ele estava muito mal, nunca o vi tão devastado.

-Porra! Por que você não fala comigo, Doutor Panda? Estava irritado e se embaralhava com as palavras.

Óbvio, no momento eu entraria numa fria ao reafirmar, e talvez pela centésima vez que, ursos de pelúcias jamais falam, mas, apenas pensam. Portanto fiquei olhando para ele, assim como também fizeram o da Montanha e o Pateta, ambos sentados à estante bem defronte da sua cama.

-Porque você está me olhando com essa cara de idiota? – Inquiriu ao olhar para a mobília e dar de cara com o amigo do Mickey.

Pateta persistiu com aquela sua cara de bobo e divertido. Depois olhou para mim com os olhares que só os brinquedos entendem, pois mesmo a resignação em seu olhar não evitava que eu captasse a bondade em sua alma, apesar de vocês jamais suporem que bichos de pelúcia possam levar uma. Sem respostas e ainda irritado, tirou-me de sua barriga, e colocando-me de lado levantou-se. De pé a sua coordenação era quase nula, mas mesmo assim pousou os olhos no Leão da Montanha e fez algumas micagens para ele. A relação desses dois sempre foi estranha, assim, como se um não confiasse no outro. Então para finalizar o show apenas rodopiou o corpo ébrio e obeso para o lado direito na direção onde estava o Leão, e exclamou:

-Saída pela esquerda! –

O tombo foi inevitável, e foi muito engraçado ver o velhote perder o equilíbrio e estatelar-se ao chão, arremessando o par de lentes escuras para debaixo da estante. Constrangido pelo tombo a lamúria foi inevitável:

-Que merda! Esse leão não serve pra porra nenhuma -Após, e com algum esforço levantou-se apoiando a mão direita na estante.

Lá da cama fiquei olhando para ele, e sinceramente nem sempre foi assim. Porém, com o passar dos anos algo foi se quebrando dentro dele, talvez a esperança, ou mesmo, o encanto. Recordo que logo que viemos morar aqui era comum ver algumas garotas zanzando pela casa. Muitas vezes eu as ouvi insistes, dedo na campainha, querendo ter com o escritor. Sim, não também não lhes contei; Ele era um escritor, autor de quase nenhum sucesso, é verdade, um desses sujeitos que escrevem sobre histórias sórdidas, coisas dos subterrâneos existenciais, e lido, principalmente, por alguns garotos desajustados, geralmente, universitários. Entretanto, por vezes a sua escrita tentava ser divertida, sarcástica, e isso chamava a atenção das pessoas, principalmente das garotas que o imaginavam um Che Guevara das letras. Todavia, muitas vieram e transitaram por sua vida, porém, nenhuma ficou. E foi no intervalo dessas carências que ele se apegou a mim. Talvez porque eu fosse o único a olhá-lo de forma única, penetrante, como se eu pudesse ler as entrelinhas dos seus pensamentos. Foi exatamente naquela noite de muito álcool que insistiu o seu olhar nos meus olhos de vidro:

-Seu filho da puta, ainda espero a tua resposta – E eu não pude fazer a não ser saber das suas angústias.

Depois de algum tempo, desistiu de mim e foi para a cozinha e voltou com um enorme copo de vodca.  Evidente, e o que já não estava bom, tinha tudo para piorar miseravelmente. Por meu lado, fazia de tudo para conter o riso, pois mesmo que não me ouvisse rir, a minha consciência me incriminaria, pois os bêbados não merecem zombarias, mas, comiseração.

E esse eu risse, certamente o meu riso estaria concentrado nos contrastes de suas pernas, onde algumas veias em alto relevo e duma coloração azul esmaecida lembravam as rotas de assalto entre o México e a terra do Tio Sam. Porém o mais engraçado não ficava por conta das pernas azuladas e flácidas, mas sim objetivava a sua cueca samba-canção verde-limão com bolinhas vermelhas. Aliás, ele tinha outras cuecas divertidas, como uma num tom azul-bebê com triângulos alaranjados, e outra num vermelho vivo, onde sobressaiam algumas nuvens brancas e um abrasador sol num tom amarelado. Todavia ele não abria mão das suas campeãs, e elas me divertiam a valer; uma, estampava o rosto e os seios de Brigitte Bardot. Para quem não sabe, ela era francesa, deusa nas telas dos cinemas nos anos 60. E a outra? Bem, a outra era ridícula, pois em azul pavão levava na frente a gravura dum peru, onde acima líamos “Glu Glu Glu”

Enfim...para mim sempre foi normal aquele festival de aberrações, portanto olhei-o ao chegar no quarto com o copo de bebida na mão. Ele sorveu um longo gole, descansou o copo na mesinha de cabeceira e novamente ele se deitou e me colocou em sua barriga.  Definitivamente, naquela noite algo o incomodava terrivelmente:

-Vamos, Doutor Panda! Não desista de mim. Aqui estamos apenas eu e você, e talvez por ser inexperiente não saiba que na vida tudo é possível. A vida é repleta de mentiras, verdades. Há o feio e o bonito, sem esquecermos a água e o fogo. Mas...será que posso ser sincero com você? – Ele inquiriu.

Olhei pare ele, e dessa vez o sentia conflitante. Não era apenas o seu estado alcoólico, pois com aquele eu estava acostumado. Eu o percebia oposto a ele mesmo, assim como se no seu olhar nada existisse, como se a esperança estivesse a nado e contrária a correnteza. E as minhas impressões se confirmaram diante da sua quase súplica:

-Vamos Doutor Panda. Diga para mim por onde anda essa tal felicidade? Por acaso ela gosta de nos pregar peças? Será que ela se sente menos infeliz ao esconder-se de nós? – Ele insistia.

Sua aparência estava péssima, e ele transpirava muito, e a melancolia era tanta que, se o escritor não houvesse morrido há séculos seria capaz de jurar que estava diante do próprio Shakespeare.

Bem, tanto quanto o “Ser ou não Ser” aquela questão sobre a felicidade me era difícil, pois para mim ela se resumia pouca, pois aprendi a me contentar com quase nada, com coisas tolas, mas que significavam muito para mim, assim como poder sentar ao sofá e jogar conversa fora com aqueles dois. Não, minha conclusão não era queixa, mesmo que, pouco ou quase nada tivesse aprendido com eles, mas levava a gratidão nos sorrisos límpidos do Pateta, desses calmos, serenos, e que jamais verão o lado ruim das coisas, ou mesmo que, vendo, jamais o admitirão. Quanto ao velho Leão da Montanha, era apenas zero, não havia as garras e nem os rugidos, mas apenas a melancólica nostalgia, a saudades dos tempos tenros, duma era que lhe foi dado a majestade, um cravar de garras e o fincar dos dentes.

E pensando nesses fatos por alguns instantes fiquei imaginando que talvez ocorria ao velho algo muito próximo da sina do Leão. Porém sempre é bom dividir responsabilidades, e também era necessário que meu dono assumisse as suas culpas, já que existiram boas mulheres na sua trajetória. Obviamente não estou me referindo aquelas garotas que chegavam chapadas de maconha ou bebidas, e que estavam ali simplesmente para serem fodidas por um escritor “underground”. Assim como também não levo em conta as cosias que inflavam o seu ego, suas alegrias transitórias ao se postar ao lado duma bela garota que lhe fizesse carinho na barba ou mordiscasse suas orelhas. Não, não são essas as referências; Falo do amor, dos sentimentos, assim como lhe foi doado por uma dona, talvez uns quinze anos mais jovem, e que esteve tantas vezes nesse quarto, num caso que durou pouco mais de seis meses. Lembro-me do início e que, entusiasmado por ela os olhos se iluminavam ao simples toque da campainha. Geralmente ela e o seu perfume de mulher vinham nas sextas-feiras á noite, deixando um rastro de beleza e do cheiro bom. E eles sorriam, pois se gostavam, e assim que ela chegava o velho pedia uma suculenta pizza e uma garrafa do vinho do bom, ou mesmo, se não comessem em casa saiam abraçados e na direção de algum restaurante próximo. Naquela época eu gostava do brilho impregnado em eu olhar, e ele era feliz, principalmente ao fim da noite, quando em lençóis limpos os gemidos e palavras de amor penetravam nos descascados das paredes.

No entanto, com ele o bom jamais perdurou, e Silvia também não, e tudo terminou numa noite que ela veio aqui e não o encontrou, pois ele tinha ido à farmácia à procura de medicamentos para uma daquelas meninas. E Silvia, encontrando a porta entreaberta ganhou a sala e deu de cara com três jovens alcoolizadas, todas aparentando um quê de vulgaridade. Claro, eram as fãs do escritor que surgiam do nada e nas horas mais impróprias, inclusive testemunhei ocasiões em que elas apareciam por lá e levavam bebidas para ele,  algumas ofereciam-lhe drogas, mas esse lance de entorpecentes jamais foi com ele, portanto as coloca para correr quando o lance redundava em maconha ou em papelote da cocaína. Entretanto, Silvia, jamais imaginaria tais fatos, e assim, instintivamente se dirigiu para o quarto, e ao se deparar com a jovem esparramada na sua cama acabou por ter um acesso de fúria, atirando ao chão os enfeites da estante. Sim, os meus amigos a olharam-na assustados, e sabiam tanto quanto eu que não houve qualquer traição do velho que, já que a garota e as amigas chegaram em estado de embriaguez, e ele foi até cuidadoso ao ceder o quarto e ir a farmácia. E foi assim que Silvia se foi, bateu a porta e jamais voltou. Depois do abandono eu o vi sofrer e sofrer, mas jamais a procurou para elucidar os fatos, pois o orgulho sempre foi o seu defeito maior.

E eram esses os fatos que recordava quando fui interrompido por sua voz pastosa. Dessa vez havia ódio em suas palavras:

-Foi essa merda que você pensou aí Doutor Panda! Não houve culpa minha, mas sim daquela desnaturada. Eu apenas tinha ido à farmácia... E agora é com você, já que isso te diz respeito; Orgulhoso é a puta que pariu! Ta?

Fitei- o com os olhos do inacreditável! Seria possível que estivesse acontecendo aquilo?  Por acaso ele estaria me ouvindo?

-Ouço sim, seu porra! E você pensa num tom exageradamente elevado, em alta frequência de pensamentos – Resmungou tão embolado que tive que me esforçar para compreender o fim da frase.

Deus do céu! Aquilo só poderia ser Delirium Tremens! Só não sabia se dele ou meu.

-E outra seu urso ignorante! Aprenda! Ursos não deliram e nem desenham nas aquarelas surreais.... Ursos, bem...ursos apenas hibernam! – Devolveu com a fala amolecida Mesmo perplexo diante do fato fui obrigado a rir.

-Ursos apenas hibernam! – Eu repeti e ri comigo por diversas vezes. Talvez eu tivesse rido alto demais.

-Que merda Doutor Panda! Quer interagir em baixa frequência! É isso, ou a estante! O que me diz? – Ameaçou

-Desculpe! Na próxima tentarei melhorar –  respondi sem graça, afinal, eu não queria ir para a estante.

-Vai melhorar uma porra, urso imbecil! – Ele berrou – Jamais imaginei que você me olhasse com olhos tão críticos – Ele disse. Era estranho, pois suas palavras agora eram de puro ódio.

-Desculpe, eu não pensei que.... –  Não me deixou terminar.

-Se arrependimento matasse, há essas horas eu estaria numa cova profunda – Deveria ter deixado vocês mofarem naquela maldita vitrina empoeirada. Mas não...eu tinha que ter compaixão...Ele ruminou chacoalhando os meus braços violentamente.

-Desculpe, desculpe, eu jamais imaginei que pudesse ler os meus pensamentos.

-Leio sim, leio agora, e não somente os teus, mas também os daqueles dois idiotas que cochicham na estante por acharem que não posso escutá-los. EU ESTOU OUVINDO VOCÊS –  Berrou. Olhei para ele e agora os seus olhos me causavam pavor.

-Hey, não xinga meu amigo não! Não xinga a gente não! O imbecil é você! – Surpreendentemente Pateta reagiu em nossa defesa., e mesmo que ele estivesse bravo, ninguém exporia a sua raiva de forma tão divertida.

-É, isso mesmo! Penso exatamente como o Pateta! Se há algum idiota aqui, esse idiota é você! – Juntou-se a nós o Leão da Montanha - E quer mesmo saber seu escritor de meia pataca? – O Leão continuava a desafiá-lo– Você é tão imbecil que nem conseguiu cair para o lado certo quando disse: Saída pela esquerda! Aprenda seu ignorante; quando sair pela esquerda, jamais tombe para a direita! – Finalizou o montanhês com um sorriso vitorioso..

-Ah, é assim que me agradecem cambada de viados? Ao acaso é um lavante, é a revolução dos bichos de pelúcia? - Que medo! - Devolveu ao gargalhar zombeteiramente. Repentinamente sua expressão reassumiu o ódio.
-  Todos verão do que o imbecil  é capaz -   Gritou atirando-me ao chão.

Em seguida ergueu-se, trôpego, se equilibrava nas pernas, mas mesmo assim ainda conseguiu desferir um chute nas minhas costas. Eu pude sentir a dor. Depois, com a parte interna do pé direito empurrou-me para próximo da parede, e dirigiu-se à estante e recolheu os meus amigos com inequívoca rudeza. Por fim e com a dupla nos braços catou-me no canto, e num grande abraço acolheu-nos no peito e nos  levou à janela.

-Então vejam o que esse imbecil é capaz de fazer! – Sua voz soou como um estouro de canhão ao atirar-nos por através dela. Estávamos no 13o andar.

Nada mais poderia ser feito, e ao sentirmos no corpo o vento da noite percebemos que seri o fim, caminho sem volta, rota da morte. E mesmo despencando sorríamos uns para os outros enquanto a brisa gélida  acariciava as felpas dos nossos corpos, resvalando suavemente nos olhos de vidro. E foi diante dessa cumplicidade que nos demos as mãos, velhos companheiros unidos até o ato derradeiro e diante da insensibilidade do asfalto que nos aguardava. Seríamos destroçados pelas rodas dos automóveis, ônibus, caminhões? Não sabíamos, e só gostaríamos que tudo fosse tão rápido quanto as pernas de Usain Bolt, a bala humana.

-Saída pela esquerda! O Leão urrou e sorriu resignado.
E o Pateta, aquele que jamais deixou de sorrir persistiu gargalhando, provavelmente sem saber dos motivos, mas achando ótima a sensação do vento lhe tocando as faces.

As horas sempre se acometem rápidas, e a manhã logo chegaria, e ao acordar como se fosse dum pesadelo, o velho traria na boca o amargo sabor da bebida e solidão, e seríamos por ele procurados e ele nem se lembraria daquilo que fez e o porque fez,  pois assassinamos a consciência não uma, mas muitas vezes, e a partir da segunda, todas nos parecem iguais.

Foi assim que tudo aconteceu, e mesmo morrendo ainda me houve tempo para sorrir e perdoar.

Era um ciclo que chegara ao fim.

Copirraiti27Nov2013

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Amour & Amour (Contradições), por Véio China

Amour & Amour (Contradições)

Talvez seja-me desafiador falar dos amores
Pois busco na amplitude do Id melancólico
A lírica textura dum poeta oculto nas frases
A justificar as frivolidades do seu sentimento

O poeta é um mentiroso, é a lágrima seca
É o olhar  dissimulados a dizer que chora
São covardias que  farsa poética disseca
Sem  traduzir dos olhos o tom que  ama

O poeta fará da alegria e tristeza o poema, morfologia
Cultas frases lapidadas à mercê de sorrisos e lamentos
Então saiba; Olhos são mais fiéis que a sensível poesia
Pois as letras não ordenam  lealdades nos sentimentos

E esse é o motivo de ser-me difícil escrever o amor
Mas se te aprazas o mel sorvido no relacionamento
Eu o te darei, pois sou as tantas infinidades do ator
Dantes ouças  meu coração e decifres o batimento

Já que poesia alguma irá confessar o quanto ama
Assim como revelado nos tons da minha pulsação

Copirraiti17Fev2014
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18 de jul de 2017

Cem poemas da NOP 2017

Verbos Abundantes, por Jorge Moraes

VERBOS ABUNDANTES

Por certo, muitas vezes, hesitamos no emprego de alguns verbos considerados abundantes, ou seja, que apresentam particípio duplo (particípio passado), tendo duas formas equivalentes, uma regular e outra irregular. O particípio, juntamente com o infinitivo e o gerúndio, é uma das chamadas formas nominais do verbo. E assim o é por não apresentar desinência modo-temporal ou número-pessoal. Reserva-se o uso a todas as pessoas, flexionando-se em gênero e número. Assemelha-se mais com um adjetivo do que com um verbo, razão para ser chamado de forma nominal.

O uso, conforme se constata, ainda que ao domínio e à força de vertentes gramaticais e linguísticas, maciçamente consagrou a forma irregular. E a tantos foi, é e será, mesmo infringindo procedimentos normativos. Vez por outra, o bom senso e a eufonia nos conduzem, automaticamente, a formas corretas. Vejamos: usemos os verbos auxiliares – ser/estar – ter/haver. ‘A galinha foi morta. (por algo ou alguém) – passiva.’ , ‘A galinha está morta (fria, inerte) – estado: adjetivo.’, ‘Eles haviam matado a galinha.’, ‘Eles tinham matado a galinha.’ Nota-se o uso do particípio irregular (o menor) com os auxiliares ser e estar e o emprego do particípio regular (o maior) com os verbos ter e haver. São consideradas, também, como formas sintética a (menor) e analítica a (maior).

O particípio irregular termina, habitualmente, em –to ou –so e tem sua origem na língua latina ou em um substantivo que passou a ser empregado como verbo, preferencialmente na voz passiva.

Entretanto, ao empregarmos o verbo pagar, percebe-se quebra no preconizado. Vamos encontrar ‘A conta foi paga. (por alguém) – passiva’ , ‘A conta está paga (ressarcida) – estado: adjetivo.’ Deveríamos consignar: ‘Eles tinham pagado a conta.’, ‘Eles haviam pagado a conta.’ É óbvio que somente os puristas , e olhe lá, valer-se-ão do fundamento gramatical. E, por decorrência do vacilo, teremos: ‘Eles tinham pago a conta’. ‘Eles haviam pago a conta’.

Quem, salvo os doutos, ao conjugar o verbo ‘eleger’, chegariam a: ‘Eles tinham elegido seus candidatos.’ ,’ Eles haviam elegido seus candidatos.’? Diremos, por força do hábito e da eufonia, ainda que incorretos, ‘Eles tinham eleito seus candidatos.’, ‘Eles haviam eleito seus candidatos’. O contrário igualmente se observa: ‘Ele foi incluso na lista dos pretendentes.’, ‘Ele está incluso na lista dos pretendentes’. É indiscutível que usaremos ‘Ele foi incluído na lista dos candidatos.’ , ‘Ele está incluído na lista dos candidatos.’ ‘Tinham-no incluído na lista dos candidatos.’ ,’Haviam-no incluído na lista dos candidatos.’ Embora seja verbo abundante, não se o emprega como tal.

Uma gama considerável de verbos situam-se na mesma situação, ou seja, predomina a eufonia e o hábito sobre a correção. Permitam-nos abordar, ainda, o verbo imprimir. Deveremos ter: ‘Os documentos estão impressos. (estado: adjetivo)’, ‘Os diplomas já foram impressos (por alguém) passiva.‘, Seria correto ‘Tinham (eles ou elas) imprimido os documentos.’,’ Haviam (eles ou elas) imprimido as faturas. Contudo, emprega-se, por força do bom som, a forma sintética impresso/a/os/as.

Enfatizemos que os verbos abundantes possuem, para o particípio, duas formas equivalentes. A irregular só será verbo quando tivermos ‘ação’, do contrário, teremos ‘estado’, por consequência, adjetivo.

O verbo ‘benzer’, dispõe dos particípios bento forma irregular, e benzido como forma regular. Destarte, o recomendável será: ‘Este pão foi bento (alguém o benzeu) ’, ’ Este pão está bento. (abençoado) – estado: adjetivo.’, ‘ Tinham (eles ou elas) benzido o pão. , ‘Haviam (eles ou elas) benzido o pão.’ Ainda que as duas formas do particípio devam ser equivalentes, quando a referência é pertinente à gasolina, uísque, vinho ou produtos que foram adulterados, o ‘benzer’ perde a santificação.

Também merecem consideração os verbos ‘suspender’ e acender. Vejamos: ‘Face ao mau comportamento, foram suspensos’. ‘ Sem que soubessem, estavam suspensos das atividades’. ‘Tendo em vista a saúde do artista, haviam suspendido o espetáculo’ . ’Nem bem tinham suspendido a reunião, e o temporal chegou avassalador’. ‘O fogo foi aceso’, ‘O fogo está aceso’. ‘Eles haviam acendido o fogo’. ‘Eles tinham acendido o fogo’.

Especial carinho com alguns verbos que não são abundantes, consequentemente apresentam somente uma forma e apenas são conjugados com os auxiliares ter/haver. Verbo ‘escapulir’. ‘Num vacilo e haviam escapulido. ‘Mesmo aos vigilantes cuidados, tinham escapulido’.

Conforme se vislumbra, o repertório é expressivo e copioso. Por ora, em se evitando a fadiga, fiquemos, por derradeiro, com o verbo fritar. ‘Os pastéis foram fritos.’, Não se apressem, pois a carne está frita.’, ‘Os cozinheiros haviam fritado, bem cedo, os pastéis’. ‘Sem motivo, os veteranos tinham ‘fritado’ os jovens calouros.’ (mudança de sentido).

Alguns autores contemporâneos registram que este ou aquele cientista ou escritor, nascido na cidade de ..., no ano...’morto’ em... Mesmo que não apareça verbo auxiliar, está implícito ser ou estar. Ora, é inviável e despropositado ‘está morto’. Não sendo ‘está’, resta-nos ‘foi morto’. Se o foi, alguém ou alguma coisa o matou. Não ocorrendo, para evitar eventuais ambiguidades, o registro deverá ser ‘morreu’.

Esperando ter contribuído, somos gratos; uma vez que outros ‘houveram-se agradecidos’.

Jorge Moraes - julho de 2017 - jorgemoraes_pel@hotmail.com

Porfírio - Um detetive dos diabos, por Véio China

Porfírio - Um detetive dos diabos

Eram precisamente vinte e duas horas e trinta minutos quando parei debaixo de um poste. Estávamos em pleno inverno e a luz ofuscada por um ainda discreto nevoeiro dava certa notoriedade ao meu terno de corte panamenho. Certamente para mim a noite é e sempre será uma linda mulher que adormece e se acordada com um beijo, e eu estava ali priorizando trabalho que me fazia mergulhar em seus seios, e eu e os meus olhos de lince permanecíamos atentos e.à disposição de causas boas ou ruins, não importava, desde que resultasse em algum dinheiro. E após cada serviço executado o comum era verme-me num bar e encostar o umbigo no balcão e beber. Depois e de cara cheia tentava apenas não morrer espatifado num poste ao deslizar os pneus do carro nas esburacadas ruas de Sampa.

Enfim, eu gostava dos odores da madrugada.e de sentir o cheiro do asfalto molhado numa cidade que necessitava ser limpa, enquanto, na mesma hora a maioria dos mortais aguardava em seus leitos a alarme dos despertadores nas primeiras horas da manhã. E agora, ali plantado com a minha garota de vapores gélidos e olhar desestrelado  jogava a bituca do meu cigarro na calçada quando repentinamente surgem três ou quatro prostitutas que, provavelmente faziam ponto nas imediações. Elas tagarelavam e riam alto quando uma de voz estridente me propõe:

-E aê, tiozinho, tas afim dum programinha legal?

Olhei para a criatura e ela não era de se jogar fora, porém eu não estava ali para trepar, mas sim para dar cabo às minhas responsabilidades, apesar do tesão que me causou aquelas pernas otimamente torneadas.  Pigarrei, olhei-a com alguma simpatia, mas acenei negativamente a cabeça, porém sem perder do olhar a janela do 3° andar do prédio em frente.
E sobre estar ali às vezes me perguntava meus motivos para abraçar aquela profissão, ainda mais porque ser detetive é prostituir-se diariamente tanto quanto a puta de coxas grossas. Sobre essa questão digo apenas que jamais desprezei a profissão de qualquer pessoa, mas nunca me dobrei à falsidade, já que muitos não se dão aquilo me que dou, a mão à palmatória, afinal entendia que poderiam sentir repugnância pelo que eu era; um safado alcaguete. E quando você se torna um dedo duro profissional perde um pouco do amor próprio e somatiza para si a antipatia da maioria das pessoas, pois qual de nós gostaria de ter sua privacidade vasculhada?
Bem, gostassem ou não era essa a minha profissão, e se detetive sou a culpa cabe a mim, pois sempre viverá em minha memória os meus tempos de juventude e os insistentes apelos dos meus velhos; “Filho, estude! -  Eles rogavam. Entretanto jamais dei ouvidos a eles, e eles queriam apenas que eu fosse um bom advogado. E talvez essa urgência fosse a do meu pai, hoje um humilde octogenário aposentado. Certamente ele pretendeu realizar em mim aquilo que não conseguiu ao cursar até o 2° do Direito, abandonando os estudos para sustentar irmãos em fase escolar e a mãe que acabara de enviuvar, isso quando era noivo de mamãe. Lógico, tal qual ele no começo tentei saciar suas vontades ao concluir os dois primeiros semestres numa faculdade privada. E sobre ela recordo-me do correr daquele ano, e lá estando aos poucos fui percebendo que não era a minha intenção tornar-me um homem das leis, ser o justo da balança, pois as aptidões para um bom advogado jamais tive. E assim concluí ao notar que o que me prendia naqueles bancos eram aquelas garotas com sorrisos malandros e toda a viabilidade de algumas trepadas gratuitas.
Bem, e já que estou aqui num jogo da verdade e de confessar a  mea-culpa é bom que eu seja mais íntegro e revele duas das principais verdades; A primeira é que à época o meu grande sonho foi o de ser motorista de caminhão. Claro, podem achar engraçado, mas eu me imaginava na boleia daqueles brutamontes como os Mercedes ou os FNM. E a segunda é que os dois semestres na faculdade trazem-me ótimas lembranças, notadamente as festas patrocinadas pelos filhinhos de papai que lá estudavam. Festas que sempre contavam com a presença das garotas do curso e outras levadas dos inferninhos que frequentavam. Festas celebradas em bairros nobres e em mansões de jardins suntuosos. E ali, entre brados da mocidade rolava whisky do bom, 25 anos, além de farta putaria. E uma coisa sempre levava a outra, então nos embebedávamos e semi desnudos nadávamos em suas piscinas de 10 por 15, para ao  fim ser as mesmas sacanagens de sempre, inclusive algumas trepadas relâmpago que, sem qualquer cerimônia se expunham nos gramados, banheiros de empregados,  ou, no melhor das hipóteses nos bancos traseiros dos carrões estacionados em suas garagens.

Porém este universo de devassidão não foi o bastante para segurar-me lá, e eu, obrigado a trabalhar para manter os estudos, e o pior, ganhando pouco, acabei por me estressar e mandar tudo e a todos à puta que pariu. E ao abandonar a faculdade, jovem e inexperiente, houve a certeza que me livrara de toda futilidade, além do massacre psicológico que me era imposto por  aqueles presunçosos professores.
Enfim, o que não faço é chorar o leite derramado, e eu exerço apenas a minha profissão,  e com ela me defendendo de unhas e dentes, pois sempre haverá gente melhor em serviços piores que o meu. Bem, deixando as lembranças de lado aguardo por mais 40 minutos com os olhos grudados na janela do 3° andar sem que surja qualquer novidade. Eu estava cansado, as putas também pareciam exaustas, e as minhas pernas doíam e estavam num estágio de dormência, enquanto elas, coitadas, arrastavam seus saltos no asfalto, acenando ou correndo atrás de cada todo carro que passava. Não demorou muito, e elas acabaram por sentar-se numa mureta do terreno da esquina.
Pelo meu lado as pernas formigavam causando-me incômodo, portanto bati vigorosamente as solas dos sapatos na calçada, e tão logo as penas se sentiram donas de si próprias caminhei uns 30 metros até o boteco mais próximo. Entrando pude sentir o cheiro a coisa podre vindo pelo corredor, certamente do banheiro que nele se findava. Olhei bem para as dependências do boteco, e ali numa das três mesas existentes uma negra bebia algo de uma forte coloração ferrugem, talvez “Fogo Paulista” uma bebida rampeira e de absurdo teor alcoólico. Aliás, não só a negra bebia, mas também os dois sujeitos que e sentavam ao seu lado.  Acomodei-me no balcão da frente sem descuidar-me da  janela do apartamento, pois a visão dali era excelente.

Fiquei sambando os dedos no tampo do balcão imitativo dum o mármore italiano enquanto espantava o pouco que sobrara da dormência das pernas. Eu olhava para o sujeito atrás do balcão.

-Por favor meu chapa, quero um conhaque, e meia cerveja quente e outra meia da gelada –  Pedi - O dono do bar me olha de forma estranha. Firmo os olhos em sua figura e ele parece carregar nos traços algo da herança portuguesa, fato que confirmo ao seu comentário inoportuno.

-Ai Jesus! Será que é mais um gajo para encher o rabo de pinga e me torrar as paciências? –  Ele reclamou  justificando a sua preocupação apontando o indicador para a crioula e para os dois sujeitos, assim como me dissesse: "Olhe a merda aí".  Evidente, mesmo que bêbada a mulher se ligava nas atitudes do português, e claramente se sentiu ofendida.

-Porra! Do que você tá falando portuga? Por acaso num to pagando a despesa? – Retruca aborrecida e  escandalosa.  E o seu protesto foi o suficiente para um dos sujeitos também se sentir  golpeado.

-Isso mesmo, Lustosa! A dama está pagando a conta, e a sua obrigação é servir a gente, e não ficar aí com esse papo furado! Um deles devolve. Foi o necessário para que o outro companheiro de copo criasse coragem e também se manifestasse:
-É isso mesmo, Lutosa! Está tudo lá no Código do Consumidor!  –  Apelou o segundo, inclusive o que estava em piores condições. que me obrigou a apurar os ouvidos  para entender as suas  falas embaralhadas.

A fala enrolada do sujeito me obrigou a apurar ou ouvidos. Pensei por segundos sobre a veemência bêbada e me questionei; Será que o ouvi direito? Foi mesmo o Código de Defesa do Consumidor que o bebum alardeou? –  Puta que pariu! Era, não havia dúvida, pois mesmo com a dificuldade fora exatamente o que ele dissera.
-Código do consumidor é a puta que te pariu! - Vociferou o português. Ele estava irado, pois senti no timbre da sua voz.
Fiquei olhando para a cena e tive vontade de gargalhar; o bebum só podia estar doido, ainda mais ao enfrentar aquele português, nada mais e nada menos que fera de seus 120 quilos distribuídos em provável metro e oitenta e cinco de estatura  – Entretanto eu nada tinha com aquilo, e assim segurei a minha onda.  Todavia, o portuga que de bobo nada tinha, afinal, e aliado à sua experiente de balcão sabia e muito bem dos levantes e das malandragens dos bêbados, e tanto que sumiu das minhas vistas ao procurar algo debaixo do balcão.

-Ó aqui o bebunzada do carálios! Vocês vão querer encarar? – Berrou para eles surgindo com um daqueles cassetetes de borracha maciça, provavelmente auferido da Guarda Municipal, afinal, esses malacos arrumam tudo e por todos os preço.

Os bebuns, assustados olharam para ele e nada mais protestaram. Também olhei e achei a sua ameaça física algo desproporcional, mas nada comentei, pois a minha vida já era demasiadamente problemática  para arrumar novas aporrinhações. Com as bebidas servidas matei o conhaque numa tragada só. Depois o homem abriu ambas as cervejas e eu intercalava os goles entre a quente e a fria. Na extensão do balcão outras três ou quatro pessoas tragavam suas bebidas e me olhavam curiosos. Eu sabia que o meu jeito de beber chamava a atenção das pessoas, já que era um estranho ritual aquele que eu praticava. Óbvio, e isso não era ferramenta do meu ofício, pois o que menos um detetive necessita é que prestem atenção em sua estampa. Não, não foi essa a minha intenção, contrário, pois seria eu a me ater deveria aos mínimos detalhes de um flagrante, e nisso podia garantir, era bom e nada escapava aos meus olhos de lince.

Logo, fiquei por ali terminando as minha as bebidas enquanto ouvia as conversas fiadas daqueles três bebuns. E lá vinham eles, o que parecia estar em situação melhor:

-Hei, sabiam que noutro dia fui no enterro dum amigo meu? - Ele pergunta para a negra e o outro, e eles olham perplexo para ele. E o bêbado continua: - Sim, fui eu e um amigo meu, bebum também.Aliás, éramos todos bebuns, até o morto era, e eu nem sabia que ele tinha morrido, e assim que chegamos lá, olhei pra ele no caixão, e a mulher dele chorava muito. Perguntei para ela de que ele tinha morrido e a mulher dele apenas chorava, chorava, e aí respondeu “ Olha moço, ele morreu como um passarinho” - A crioula e o amigo ouviam a narrativa espantados, até que ela, curiosa,  perguntou num atropelo de palavras - "Como assim; o seu amigo morreu como passarinho? – Sim, definitivamente a negra mergulhara de cabeça naquela louca história de velório, tanto que deixou escapar da mesa o cotovelo direito que lhe sustentava o rosto.  O narrador da história cinematograficamente exprimia um ar condoído quando lhe respondeu: - Bem, nem eu e nem meu amigo entendemos  muito bem aquela história de se morrer como passarinho, portanto ficamos por lá olhando pro defunto até que surgiu do nada um outro amigo nosso,  bebum também, e nos reconhecendo perguntou para o amigo que estava ao meu lado: “Sebastião, que coisa, que notícia horrível! Por acaso você sabe de que morreu o Odorico?” – Bem, como a pergunta não foi feita para mim achei melhor ficar quietinho, e meu amigo ficou lá matutando o que responder  para o outro, até que se saiu com algo que lhe pareceu lógico; "Morreu duma estilingada!"  – Sim! acreditem amigos, foi isso mesmo o que ele respondeu. – A negra o olhava perplexa, o outro também, foi então que o narrador da história caiu na mais profunda gargalhada. E assim eles perceberam que estavam sendo sacaneados

-Duma estilingada é, seu filho da puta? Duma estilingada vai morrer tu, tá saben....  –  A negra foi interrompida por um grave barulho de algo que se chocava contra uma superfície lisa.
-Cês vão encarar? - Era o portuga ressurgindo com o cassetete em punho.

Foi o suficiente para os três voltarem para as suas bebidas, e em silêncio. Depois olharam uns para os outros, e seus olhares eram tão marotos que não impossível conterem o riso, risos que logo após se transformaram em gargalhada, e para desespero do português:.

-Ai carálios, acho que  devo merecer! – Reclamou devolvendo o cassetete para o lugar de origem.
Eu ri, discretamente, era uma piada manjada, de bêbado, mas foi engraçado a naturalidade de ver uma piada de bêbado ser contada para outros bêbados. Peço mais uma cerveja e percebo as luzes da janela do terceiro andar se acenderem. Pouco adiantou a safada ter saído de casa com sua naturalidade morena e seus cabelos acastanhados, ter trocado de carro no estacionamento, e agora estar loira e fodendo com um zé mané num prédio de apartamentos de classe média baixa, e que nem elevador possuía. Eu não era aquilo que poderiam rotular dum Zé Arruela qualquer, e ela que fosse enganar outros otários, mas não eu, portanto corro para o prédio e subo os degraus pulando-os de dois em dois, e me escondo atrás de uma das pequenas coluna que dividiam todos os oito apartamentos de cada andar andar. Permaneci atento, e um pouco mais ouço vozes que brincam com a outra, e barulhos de saltos de sapatos que descem do pavimento superior. Uau! Foi então que a pude ver direito, carne e osso, aliás, pecaminosamente mais carne que osso. Pessoalmente o deslumbramento loiro da mulher resplandeceu mesmo que falsificado, porém o fato de estar tingida parecia deixar suas pernas mais apetitosas, ainda mais na posse daquele rabo que faria qualquer demônio gemer. Sem que me vissem, e antes que alcançassem o primeiro pavimento eu registrei o fato na minha ótima Polaroid comprada numa feira de segunda mão, isso no ano de 1975.

Assim que saíram pelo andar térreo desci e rumei diretamente para o bar. Já estava postado na porta do boteco quando os vi se separarem com um beijo e eles se dividiram e ela rumou para o seu automóvel estacionado um pouco mais adiante do cruzamento. Postada à frente dele a mulher abriu a porta e fez menção de entrar, no entanto não entrou. Em seguida fechou a porta, acionou o alarme e atravessou a rua vindo na direção do bar. Por questões da segurança do caso dei as costas para a rua, pois o que mais preza no verdadeiro detetive é o seu rosto jamais ser conhecido pelo objeto da investigação, já que obrigatoriamente ela teria que passar por mim. Repentinamente uma fragrância de um suave perfume feminino ganha o espaço em que estava, e sinto alguém tocar os meus ombros. Olho e lá está ela; a mágica loira dona do rabo descomunal

- Porfírio, que porra de detetive é você? - Ela me ri zombeteira

Eu nada disse. Os bêbados nos olham assustados, o portuga cola os cotovelos no tampo do balcão, e todos prestam atenção em nós. Não havia qualquer saída, e ela me fez sentir constrangido. Novamente os seus olhos faiscavam como os curtos circuitos que incendiam residências e estabelecimentos comerciais. Ela continua me olhando, e então joga os seus cabelos para trás e seus lábios carnudos e tingidos num batom grená se abrem devoradores:

-Porfírio, toma lá. É isso é para você!  Ah...e mande um beijo para a Aurélia! – Diz numa expressão  de quem sabe das coisas do mundo.

Um beijo para Aurélia? - Pergunto-me incrédulo. Caracoles! Eu estava amasiado com Aurélia há menos de três dias! Como ela poderia ter sabido?

Bem...depois abriu a sua bolsa de couro de crocodilo australiano e dentro dela retirou 8.000 pratas, as quais colocou em minhas mãos. Aliás, o valor que ela me dava correspondia à quase duas vezes e meia o preço que o seu marido me contratara.

-Entendeu tudo mesmo, Senhor Porfírio? – Questionou num induzido sorriso biscate – E agora ouça-me com atenção – Ela continuou ao chamar-me mais próximo. Então sussurrou para que os curiosos da mesa não a ouvissem; -Agora nós vamos inverter o jogo e o meu marido será a caça, e você o seu caçador. Há coisas importantes que quero que descubra sobre ele, e te aviso; essas coisas valem uma boa grana. Portanto senhor Porfírio, considere-se contratado, já que jamais levantaria suspeita. - Finalizou

-Sim, entendi tudo e muito bem minha senhora! Conte comigo, um criado ao seu dispor– Respondi da mesma forma que Humprey Bogart  faria, algo no estilo e olhares dos anos 50, truque que sempre causou algum efeito.

-Ah...E por favor, a Polaroid de 1975 agora é minha e fica comigo. Ah, claro, as fotos também, pois estão inclusas no preço – Disse-me ao retirar a mochila das minhas costas, lugar onde eu guardava a máquina Porém ela ainda não tinha terminado - E outra coisa Porfírio...Pare de me olhar desse jeito, já que não há nada mais cafona que este seu olhar! Modernize-se, homem! Há tantos caras interessantes por aí, Tarantino, Brad Pitt, Banderas, Pacino, De Niro, pô! Mas..Humprey Bogart não, pelo amor de Deus! – Disse-me num tom de gozação. Caracas! Aquela mulher devia ter parte com o diabo - Imaginei.

-E agora...finalizando... Aguarde minhas instruções, pois em hora apropriada farei contato com você - Sentenciou num sorriso que não mostrava a perfeição dos seus dentes. Em seguida me passou seu cartão de visita e lá constava o celular.

Poxa, nada mal! Eu acabara de arrumar uma nova patroa, e se os espiões mais competentes desse planeta f fizeram jogo duplo, triplo, quádruplo, por que um mero detetive não faria? Olhamo-nos por mais alguns instantes, e ela chamou-me mais intimamente ainda como se quisesse dizer-me algo no ouvido. Talvez o meu olhar de Humprey Bogart estivesse surtindo efeitos retardados.

-Porfírio, sinceramente, o melhor para você teria sido o motorista de caminhão, pois seria um péssimo advogado tanto quanto o sofrível detetive  que é. O diabo é que tu está acima de qualquer suspeita, logo, você é imprescindível –

Como? Motorista de caminhão?  - Por Jesus Cristo! - Sim, foi o que ela falou. Definitivamente, aquela mulher só podia ser coisa do mal, pois jamais confessei a alguém que meu sonho foi o de estar na boleia dum colossal  FNM.

Bem, ela falava e a sua voz soava como veludo, e após escancarar a minha fantasia sorriu dum jeito ordinário, desses de quem sabe que está com dois pássaros voadores na mão.

Em seguida deu-me as costas e eu a vi rebolar aquelas nádegas de outra galáxia, e elas teriam enfeitiçado o próprio John Kennedy, sem dúvida. Pouco mais adiante ela parou em frente da porta do seu  Chevrolet Ômega importado, acenou-me com a mão, entrou e partiu.

Copirraiti16Dez2013

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