Oficina de escrita literária Inspiraturas, em Pelotas

Oficina de escrita literária Inspiraturas - o fim da página em branco - A ti, que ainda acreditas na escrita, em especial a Poesia, como ...

13 de jun de 2017

Frágil

Frágil

Há algo que no dentro de mim conspira
Um exército de mesquinhez e malfeitores
Alardeando que por hora não se inspira
Nos contos de fadas ou eternos amores

Há algo além, vago, à caminho do cerne
Que se ajoelha diante da batalha perdida
E ao corte da navalha que expõe a carne
Do reinado de um rei devastado em vida

Há algo frágil, e do meio pros cantos
Faminto de rubro vinho embrutecido
E da embriagada luxúria dos prantos
Dum Eu posto em taça, desconhecido

Copirraiti08Mar2014
Véio China©


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Véio China, um poeta? Contista? Talvez nem um, nem outro. Mas apenas se diverte escrevendo

Reminiscências Contemporâneas (Hippies, Black Blocs & Iphones e muito mais), por Véio China

Reminiscências Contemporâneas (Hippies, Black Blocs & Iphones e muito mais)

Olhando em seus olhos logo percebi que seria um desses garotos que jamais saberão o que é o mar.
Talvez estivesse lembrando do mar por estar vindo dum domingo de praia e de um ótimo quarto de pousada. Como todo bom paulistano  procurei esquecer o solado dos sapatos sociais raspando no concreto e fiquei os pés  nas areias macias e cravei a vista tão distante quanto a idade podia me permitir, já que sempre me causou inveja essas lanchas de rico  ancoradas próximas á praia. Entretanto como jamais fui um comandante ou lobo domar retornei a São Paulo na segunda de manha e cá estou eu numa estação de metrô  às seis e meia da tarde, hora de rush, instante que o deixei  junto de suas parafernálias urbanas. 

Logo, ele e eu e outros milhões de usuários somos trens de metrô e estamos na estação Estação Sé apinhada de gente, enfim, uma raça humana que, plagiando o gado retorna para os seus lares.Talvez o garoto não soubesse, mas eu fora tão jovem quanto ele, desses sujeitos normais   que se flagram nas feiras livres consumindo porções de yakisoba e pastéis de palmito. E como não sabia dos pastéis, não haveria de saber que eu fora um sujeito posto à prova pela vida, apesar de minha inequívoca vontade de progredir. Porém, mesmo que houvesse a vontade, a verdade  é que nunca dei muita sorte com qualquer coisa, inclusive com os empregos,  pois  raras foram as respostas dos curriculum vitae que enviei pela existência toda. E o fato  não me espanta, pois talvez à época os engomadinhos daqueles escritórios de poltronas confortáveis acreditassem que eu fosse meramente um preenchedor de formulários.

E por falarmos em fichas para emprego lembro uma daquelas ocasiões que levantei ainda de madrugada e peguei dois ônibus lotados para tentar uma boa vaga numa multinacional. Bem, ao fim de duas horas e meia espremido como laranja prestes a se tornar suco, desci próximo da empresa, mas acabei me dando mal, já que não conhecendo o lugar adentrei por numa viela com casas desocupadas, talvez até pelo fato de algum grande empreendimento estivesse sendo planejado para o local.

Então continuei seguindo pela viela com os passos apertados, e era mais que certo que  alguns dos meus concorrentes  já andavam pelos corredores da empresa entregando suas qualificações. Lembro que ao passar pelas casas eu as olhava rapidamente, porém  não tardou e  vigorosos passos de dois sujeitos logo se aproximaram. Assim que me alcançaram alinharam-se  um de cada lado - "Devagar irmãzinho!" Um deles disse ao surgir com um calibre 22 na mão direita e retirado às pressas por debaixo do seu enorme camisão de flanela. Bom, exposto à arma de bandido, que poderia ser até plástica, não me surgiu outra ideia que não a de me ajoelhar na tentativa de salvar a minha pele. "Por favor, não me mate" - Roguei com os mesmos olhos piedosos dos mendigos -

Claro, nós os comuns sempre tivemos medo, muito medo, portanto nada mais previsível que nos subjugamos à ousadia dos marginais, ou às suas eventuais armas de PVC ou de ferro pintado.
Sem saída e naquela circunstância só me restou venerar o marginal como se fosse ele  o Jesus Cristo, afinal, eu jamais acreditaria que e o  filho de Deus atirasse contra um dos seus irmãos.

O que se postava à esquerda e que parecia ser o mais calmo olhou para mim e me mandou levantar do chão com uma frase que nunca mais esquecerei. Ele disse - "Calma irmãozinho, não matamos ninguém antes da hora do almoço. Apenas me passe o que tem nos bolsos e estará tudo bem" - Depois ainda enfiou no meu bolso o dinheiro da passagem e me mandou andar. E eu andei, andando, trêmulo, passo após passo até novamente sentir as pernas firmes e me dirigi à empresa que, até hoje não me convocou para uma segunda entrevista ( E olha que lá se vão mais de 32 anos)

Sim,  são coisas como estas que me deixam farto da vida. A impaciência se torna fúria, não só com a bandidagem estabelecida, das armas ou da política,  mas também com  aquele garoto que destilava ódio em sua expressão, a qual respondi com uma fisionomia acabrunhada, dessas que dizem o quanto andamos de saco com todos. Talvez alguns me julguem ranzinza, mas se há coisa que não suporto são esses olhares  que te olham como estivessem vendo um monte de estrume E era essa a impressão que ele me causava, e eu o achava imbecil, e odiava o fato tanto quanto os gatunos que nos rouba, lesam,  e agem como se fôssemos uns otários, e que estão fazendo um grande favor ao nos assaltar.

Sobre isso, e apesar de ser revoltante engolir sapos, é bom que saibamos da necessidade de, vez ou outra nos munirmos de  paciências, pois há ocasiões que as esperas são sábias ao apontarem que a existência não se sublima no valor das posses, no calor do sol,  ou nas fases da lua. Não, definitivamente não, pois a vida é muito mais que palavras bonitas ou  os mimos num rosto de mulher, pois também resplandecemos nas dificuldades, nos patamares difíceis e nos degraus mais altos,  já que existirão coisas que poderão nos marcar, assim como o amor bem feito com a mulher que se quer, mesmo que no derradeiro murmúrio da madrugada.

E assim é a vida e o exercício continua, e não será fácil para quem quer que seja, pois às vezes ela nos maltrata e coloca-nos para fora da cama ás 5,30 da manhã através do despertador que tocará irritantemente, e fazendo lembrar que há trabalho lá fora. Portanto você se levantará e irá ao banheiro e constatará que a sua respiração embaçou o espelho, e isso significa que há  batimentos em seu coração, apesar duma aparência horrível. Depois é só tomar a ducha, escovar os dentes, pentear os cabelos e sair para a rua sabendo que a vida está de olho em você, mesmo que não sejam aquelas as sua últimas horas, assim por dizer; o dia da tua paz definitiva.

Todavia é esta isenção de paz  que não me deixa acomodar para as coisas  que não fazem sentido,  assim como a prostituição e um bando de garotas com o rabo de fora   congestionando as esquinas com  michês de 50 pratas.

Evidente, há outras tantas aberrações, e uma delas é este desprezível quebra-quebra generalizado que vivemos, assim  como a abundante bandalheira praticada,  e tão comum às pessoas poderosas.  E a maior das verdades seja dita, pois a sociedade pensante está anestesiada, prostrada diante da anarquia que  reina absoluta, estupefata  com governantes que afundam um país à custas das esmolas clientelistas.

Sim, por outro lado também estou perplexo com os atos desses garotos mascarados, e eles  poderiam estar produzindo, estudando, amando, ou sei lá o que nais, porém, tempo perdido, já que  não se despem da violência ou do vandalismo, pois  lhes deve parecer "um negócio da China" depredar não só o patrimônio privado, mas igualmente o público, um evidente “foda-se” às instituições.

E isso me deixa puto da vida, pois talvez os black blocks tenham nascido numa época imprópria, pois a minha era foi duma geração submissa, mas que acabou herdando o mundo, e tudo num piscar de olhos. E essa herança não nos veio de graça,  foi com luta, com protestos, mas sem que promovêssemos destruições ou aniquilássemos pessoas. Todavia isso é uma outra história, coisas do meu tempo e duma velha guarda fascinada pela retórica dos grandes pacifistas, e que fazem lembrar do mundo jovem dizendo  NÂO à guerra do Vietnã, além do repudiar o preconceito e as questões racistas.

Logo, o garoto do metrô jamais imaginaria que esse foi o quadro pintado na minha geração, e que daquele ponto em diante foi um juntar de  forças, inclusive com os imensos dinossauros da mídia, gente assim como os Beatles, Rolling Stones, Morrison, Dylan, e tantos outros,  para enfim chegarmos onde chegamos, praticamente a lugar algum. Enfim, algo de errado aconteceu lá atras, e mesmo ansiando por mundo melhor e mais justo os jovens da época se perderam pelo caminho, dispersaram santificando e consumindo drogas que mataram não só a eles, mas também muitos de nossos ídolos.

Finalizando o resumo diria que fomos o estardalhaço jovem que pouco ou quase nada soube fazer com o poder da própria voz.

Ah, e já que estou passeando pelo passado volto aos pequenos detalhes daquela época e relembro a Praça da República e as feiras hippies, e à um domingo especial, onde ao percorrer as curtas alamedas ouvi e pela primeira vez o inacreditável Jimi Hendrix. Ainda me era um tempo intermediário, dividido entre o garoto que saia da infância para ganhar a juventude, e eu à época no cargo de office boy e junto do meu tênis Rainha  percorria que nem louco as ruas de São Paulo enfrentando filas, encarando ônibus lotados, desafiando enchentes que, por vezes me tinham-me pela cintura. Ah, e como esquecer dos almoços à preços módicos num imenso salão no centro da cidade, lugar mais conhecido como o  "Bandejão da Juventude Católica". E tudo me parecia tão claro e justo, e no fim do mês havia aquilo que eu julgava a recompensa, então corria à Galeria Pajé, e meus olhos se mantinham  frenéticos, era como  procurassem uma miss, talvez até a de São Paulo, mas não era uma garota de corpo escultural o motim do meu desejo, mas sim uma calça de um jeans diferenciado e de sucesso global; Levi Strauss era a marca. E ela me deixava feliz, e com ela dobrada no interior duma sacola plástica é que deixava no bolso do comerciante todo o meu salário do mês, pois usar uma daquelas era  sinal de status, e as garotas amavam os garotos enturmados.

Sim, é verdade, e uma coisa levando à outra relembro o romantismo do tempo e a excitação ao tocar a mão da namorada, a ansiedade nos dedos umedecidos de suor, depois o rubor corando meu rosto ao toque mais ousado, sem esquecer do coração que batia afoito, afinal era tão fácil se apaixonar naquela época. Talvez nem acreditem, mas essa coisa da ansiedade sexual me foi cobrada pouco antes das calças favoritas. Sim, surgiu na frequência das missas dominicais celebradas pelo Padre Damião. Talvez eu estivesse na casa dos 12 ou 13, o que não apaga de minha memória as pernas jovens no interior das recentes minissaias, um mundo de hábitos novos, e essas pernas ali na presença de Cristo me deixavam agitado. Entretanto nem nesses momentos escapei impune, já que persistiam em mim os resquícios duma severa educação cristã, ensinamentos que foram ministrados num colégio de padres que estudei até os 10 anos. E sendo eu o pecador carregava tantas culpas, e elas precisavam ser redimidas, portanto me aproveitava de estar na casa do Senhor e caminhava até ao confessionário, e lá acertava as minhas contas com um daqueles que me diziam ser o representante do Pai aqui na terra. E assim eu saia de lá leve e carregando na consciência a obrigação de rezar não sei quantas Aves-Maria e  Padres-Nosso, e agora eu podia tocar as asas dos anjos, pois quase nada devia a Deus.
E quando divago sobre o fim da infância e o início da fase jovem faço-me as mesmas perguntas de sempre: A minha alma já estava perdida? E por onde andariam os meus amigos da "divisão dos menores" do Liceu Salesiano de Campinas, junto das lembrança de tudo que vivenciei por lá?

Eu nunca mais soube, mas deduzo que muitos estão por aí com suas famílias, avôs em situações estáveis, instáveis, talvez em asilos, ou mortos, nem eu mesmo sei.

Bem, depois do colégio interno e já em Sampa adentrei a fase musical e só pensava em canções e nos cabelos iguais aos dos rapazes de Liverpool. E sobre as canções muitas delas me marcaram (Poucos devem lembrar de Vandré e a Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores) Não há como negar, e já naquela época demonstrava algum inconformismo, e isso se percebia nos meus gostos musicais, nas revistas em quadrinhos que devorava, principalmente aquela produzida por gente que tirava um barato do autoritarismo, portanto, do Regime Militar, já que esses jamais excluirei da lembrança (beijos, Fradim, Bode Orelana, Graúna, Henfil, Jaguar e Ziraldo)

E estando em tempos difíceis o normal era aceitar que o pior andava à espreita, assim como nos dias
de hoje,  pois o o mal destrói como traição entre marido ou mulher. Todavia o tempo foi caminhando, e ao fim daquela década o Regime jogou pesado coibindo manifestações, principalmente as estudantis. Mas elas persistiram e foi um festival de borrachadas, e a polícia, sem dó ou piedade desceu o cassetete na juventude. Com o movimento de rebeldia (principalmente dentro das faculdades) vieram grupos e foi formada a célula guerrilheira e um projeto que supomos clamar por liberdades e direitos civis.

Convenientemente se anota que as camadas mais esclarecidas apoiaram  irrestrita  tais movimentos (mesmo estando longe da militância) e fomos muitos os que acreditaram em seus ideais, e eu,  mesmo sendo jovem e inexperiente apoiei, pois jamais acreditei em liberdade tendo os militares e os atos de força no comando do país.

A guerrilha desenvolveu e em que pese as patentes militares envolvidas, mas la estava o anonimato dos nossos heróis perdido entre as matas, lutando por algo que nem mais sabia o que era. Evidente, houve o rastro da morte, e alguns se foram até pelo próprio e desconhecido habitat que enfrentavam. Passou-se pouco tempo e os militares dizimaram a guerrilha, afinal, a maioria daqueles garotos jamais tinha tocado numa arma de fogo.

Depois de vencidos muitos dos guerrilheiros se exilaram por aí, e é neste ponto que reside a triste ironia dos fatos; Alguns desses sobreviventes estão hoje por cima da carne seca. E a decepção fica por conta de agora sabermos que foi a guerrilha mentirosa, combatentes acoitando entre si um bando de falsos revolucionários.

E agora tudo me parece tão claro apesar da ficha ter demorado para cair, pois a mentira é tão contundente, e os pseudos guerrilheiros tinham por único objetivo a tomada do poder e se dar bem na vida, um poder que, diga-se, hoje  se mostra quase tão totalitário quanto o dos tempos militares..

Logo, muitos de nós nos dias atuais têm a consciência que pagamos demasiadamente caro por termos acreditado e colocado no poder a ignorância demagógica de um semi analfabeto. Assim é que nos sentimos, impotentes,  e eles se multiplicam e dividem o produto das falcatruas entre si num vilipêndio do erário público que mal deixa as digitais dos dedos inescrupulosas, mas que sabemos;  transferem boa parte dos seus golpes milionários para seletas carteiras abarrotadas de testas de ferro.
Bem, como política é algo que me causa nojo, a deixo de lado e retorno ao garoto de olhar duro, e ele continua me olhando, empinado, e seu nariz parece ter alcançado o mesmo status das nuvens no céu.
E esses olhares atravessados aconteceram pelo nosso resvalo acidental à porta da saída do metrô. Evidente, velhos carregam guarda-chuvas nas mãos, e não Ipods ou Iphones. E o estrago se fez no instante do choque, porém meu guarda-chuva escapou ileso. Ainda na intenção de ajudá-lo me agachei e peguei o seu aparelho, sem não antes notar que o vidro frontal do Aplle havia se espatifado, e duas ou três peças juntas da bateria se esparramaram pelo piso. Olhei atentamente para os pequenos pedaços e se eu fosse alguém confiável na área de assistência técnica de celulares lhe diria sem constrangimento que talvez o caso fosse o da perda total. Entretanto o momento e as circunstâncias não me pareceram apropriadas para alertá-lo, portanto silenciei.

-E aí tio! Tu vai ressarcir o meu aparelho? – Ele perguntou aproximando o rosto, resvalando seu tórax em meu peito.

-Como assim? Você está ficando louco, guri? – Respondo. O que mais podia dizer?

Logo o bonitão percebeu que do meu mato não sairia coelho

-Tio, quer mesmo saber? – Ele me fulminou. Eu sinto sua ira

-Quero! É justo que digas! – Devolvi, afinal é assim que nos fortalecemos para a democracia.

-Tu é um babaca reacionário – Ele devolveu com todas as letras. É estranho, mas os jovens de hoje sempre acham que os sujeitos com mais de 60 anos são reacionários, de direita, fascistas, ou do TFP e outras barbaridades. Eu apenas sorri para ele.

-E tu, sabes o que acho? Tu és nada mais que um filho de camundongo! – Replico com um risinho de desdem impregnado nos lábios.

O garoto apenas me olhou, e agora o seu ódio era mortal. Talvez estivesse lá pelos 20 ou 21 anos, um touro de academia, a montanha de músculos talvez adquirida nos anabolizantes, "ou não", como sempre dirá o sábio Caetano.

Seu olhar continuava desafiador, porém eu sabia que se tratava de reles pressão psicológica, pois poderia me trucidar se assim o quisesse.

Mas não o fez, talvez porque seus músculos pensassem, talvez pelo Estatuto do Idoso, ou por ter desconfiança que acabaria se metendo em mais complicações das que provavelmente estava.
-Garoto, escute! Vamos colher lagostas e mergulhar com as sereias? – Propus para ele num tom amistoso, fornecendo um sorriso mais que aceitável

-Hããã? Você está louco, velhote? – Foi a sua resposta-pergunta. Tudo bem, inclusive eu a previa.
Antes de desistirmos olhamos um para o outro pela última vez.

Ele, talvez pensando na reposição do aparelho, e de como chegaria no pai com a melindrosa conversa que um bando de “reacionários" quebrou o seu Ipod" intencionalmente ao darem conta da vermelha estrela petista cravada no peito da negra camiseta (à esquerda,bem  próxima ao coração)

Eu, por meu lado apenas abandonei as dependências do metrô e olhei para o firmamento à procura de tempestade.

Como o céu estava repleto de nuvens negras que não desaguavam suas lágrimas, pensei nas lagostas e nas tais sereias que, por aquela hora poderiam estar me aguardando nas profundezas do mar.
Eu apenas sorri quando voltei com o corpo e o vi recolhendo os pedaços do aparelho para guardá-los em sua mochila de grife.

De fato! Aquele Mister Qualquer Coisa jamais saberia o que era o mar.

Copirraiti16Fav2014
Véio China©

A dama do cachorrinho

A dama do cachorrinho

A. Tchekov

I

Comentava-se que na avenida à beira-mar tinha surgido uma cara nova: uma dama com um cachorrinho. Dmítri Dmítritch Gúrov, que estava em Ialta havia duas semanas e já se acostumara ao lugar, começou também a se interessar por gente nova. Sentado no pavilhão do Vernais, viu passar pela calçada da praia uma jovem senhora, loura, baixa, de boina; atrás dela corria um lulu da Pomerânia branco.

Depois ele a encontrou no jardim municipal e na praça várias vezes ao dia. Ela passeava sozinha, sempre com a mesma boina e o lulu branco; ninguém sabia quem ela era e a chamavam simplesmente de “a dama do cachorrinho”.

“Se ela está aqui sem marido e sem conhecidos”, pensava Gúrov, “não seria demais conhecê-la.”

Ele ainda não completara quarenta anos, tinha uma filha de doze e dois filhos no ginásio. Fizeram-no casar cedo, quando ainda estava no segundo ano da faculdade, e agora sua esposa parecia ter o dobro de sua idade. Ela era uma mulher alta, de sobrancelhas escuras, ereta, importante, sólida e, como ela se autodenominava, pensante. Lia muito, em suas cartas não usava o sinal duro[57], chamava o marido de Dimítri, e não Dmítri[58], e secretamente ele a considerava uma pessoa medíocre, estreita, sem graça; tinha medo dela e não gostava de ficar em casa. Começara a traí-la há muito tempo; traía com freqüência, e talvez por isso quase sempre falava mal das mulheres; e quando na sua presença a conversa girava em torno delas, ele as chamava assim:

– Raça inferior!

Parecia-lhe que o que ele aprendera com experiências amargas lhe dava o direito de chamá-las como quisesse, porém não conseguia passar nem dois dias sem a “raça inferior”. Na companhia dos homens ele se sentia entediado, pouco à vontade, ficava calado e frio; mas, no meio das mulheres, sentia-se livre e sabia o que dizer e como se comportar. Era-lhe fácil até mesmo ficar calado na presença delas. Na sua aparência, no seu caráter, em todo o seu modo de ser havia algo sedutor, imperceptível, que predispunha favoravelmente as mulheres em relação a ele e as atraía.

Sua farta experiência, na realidade uma experiência amarga, há muito lhe ensinara que toda aproximação, que no início traz uma agradável variedade à vida e que promete ser uma aventura leve e divertida, no caso de pessoas da alta sociedade, especialmente os moscovitas, indecisos e lentos na ação, fatalmente se transforma num problema terrivelmente complexo, e no final a situação se torna muito penosa. Porém, a cada novo encontro com uma mulher interessante era como se essa experiência escapasse da memória; dava vontade de viver, e tudo parecia simples e divertido.

E então, uma tarde, aconteceu que ele estava almoçando no jardim, e a dama com a boina aproximou-se devagar para ocupar a mesa vizinha. Sua expressão, a maneira de caminhar, o vestido, o penteado, tudo lhe dizia que ela era da boa sociedade, casada, estava em Ialta pela primeira vez e sozinha, e que se sentia entediada ali... As narrativas sobre a imoralidade dos costumes locais continham muitas inverdades, e ele as desprezava por saber que tais relatos eram criados por pessoas que de bom grado pecariam se soubessem fazê-lo. Mas, quando a dama se sentou à mesa vizinha a três passos dele, vieram à sua lembrança aquelas histórias de conquistas fáceis, de excursões às montanhas, e a atraente ideia de um relacionamento rápido, efêmero, de um romance com uma mulher desconhecida, de quem não se sabe nem nome nem sobrenome, de repente tomou conta dele.

Gúrov chamou carinhosamente o cachorrinho e, quando este se aproximou, fez- lhe um gesto de repreensão com o dedo. O cachorro rosnou; Gúrov tornou a repreendê-lo com o dedo.

A dama lançou-lhe um olhar e imediatamente baixou os olhos.
– Ele não morde – disse corando.
– Posso dar um osso a ele? – perguntou Gúrov e, quando ela balançou a cabeça afirmativamente, perguntou em tom amistoso: – A senhora está em Ialta há muito tempo?

– Uns cinco dias.
– Quanto a mim, já me arrasto aqui faz duas semanas.
Calaram-se por um instante.
– O tempo passa depressa, mas, ao mesmo tempo, isto aqui é um tédio! – disse ela sem olhar para ele.
– Não passa de um hábito dizer que aqui é um tédio – disse ele. – O burguês leva sua vida em algum lugar, em Beliov ou Jizdra[59], e não sente tédio, mas quando chega aqui: “Ai, que tédio! Ai, quanta poeira!”. Pode-se até pensar que ele veio de Granada.

Ela riu. Depois ambos continuaram a comer em silêncio, como dois desconhecidos. Porém, quando terminaram, puseram-se a caminhar juntos, iniciando uma conversa bem-humorada, leve, de pessoas livres e felizes, para quem não importava para onde ir nem sobre o que falar. Ficaram passeando e fazendo comentários sobre a estranha luminosidade do mar. A água tinha um tom lilás, suave e quente, e por ela se estendia uma faixa dourada de luar. Comentaram que ficava abafado depois de um dia de calor. Gúrov contou que era moscovita, formado em filologia, mas trabalhava num banco. Em certa época se preparou para cantar numa companhia privada de ópera, mas desistiu; tinha duas casas em Moscou... E dela, ele soube que crescera em Petersburgo, mas se casara em S., onde vivia já há dois anos, que ficaria em Ialta cerca de um mês e que talvez o marido viesse se juntar a ela, pois ele também queria descansar. Ela não soube dizer onde seu marido trabalhava – se no governo da província ou no zemstvo provincial – e ela mesma achou graça nisso. E Gúrov ainda ficou sabendo que ela se chamava Anna Serguêievna.

AVT_Anton-Pavlovitch-Tchekhov_2261Mais tarde, no quarto do hotel, ficou pensando nela e imaginou que na certa eles se encontrariam no dia seguinte. Era o que deveria acontecer. Ao se deitar, passou-lhe pela cabeça que há muito pouco tempo ela ainda era uma colegial, estudava, como agora fazia a sua filha, e lembrou-se de quanto havia de timidez e falta de traquejo no seu riso, na conversa com um desconhecido – essa devia ser a primeira vez na sua vida que ela ficava sozinha numa situação como aquela, com pessoas que a procuravam e olhavam para ela com um único e secreto objetivo, o qual era impossível que ela não adivinhasse. Ele se lembrou de seu pescoço fino e frágil e de seus belos olhos cinzentos.

II

Passou-se uma semana desde que se conheceram. Era um feriado. Nos quartos estava abafado e, nas ruas, o vendaval levantava poeira, arrancava os chapéus. A sede atormentou durante todo o dia; Gúrov volta e meia ia ao pavilhão e oferecia a Anna Serguêievna ora água gasosa com xarope, ora sorvete. Não havia onde se refugiar.

À tardinha, quando o vento amainou um pouco, eles foram para o cais ver a chegada do vapor. No embarcadouro, muitas pessoas passeavam; estavam ali à espera de alguém e carregavam flores. Naquele lugar, nitidamente chamavam a atenção duas características da elegante multidão ialtense: as senhoras maduras vestiam-se como as jovens e havia muitos generais.

Devido à agitação do mar, o vapor chegou tarde, quando o sol já se havia posto, e, antes de atracar, ficou muito tempo virando-se. Anna Serguêievna olhava através do lorgnon para o vapor e para os passageiros como a procurar algum conhecido, e seus olhos brilhavam quando se dirigia a Gúrov. Falava muito, suas perguntas eram entrecortadas, ela mesma logo se esquecia do que havia perguntado. Mais tarde perdeu seu lorgnon no meio da aglomeração.

A multidão bem-vestida se dispersou, os rostos já não eram visíveis, o vento cessou totalmente, mas Gúrov e Anna Serguêievna continuavam parados, como se esperassem para ver se não sairia mais alguém do vapor. Anna Serguêievna já não falava e cheirava as flores, sem olhar para Gúrov.

– O tempo à noite melhorou – disse ele. – Aonde vamos agora? Que acha de irmos a algum lugar?

Ela não respondeu.

Então ele a olhou fixamente, abraçou-a de repente e lhe deu um beijo na boca, envolvido pelo aroma e pela umidade das flores, mas logo depois olhou em volta assustado: não teria alguém visto?

– Vamos para o seu quarto... – disse ele baixinho.
E ambos partiram apressados.
O quarto dela estava abafado e havia cheiro dos perfumes que ela comprara numa loja japonesa. Vendo-a naquele momento, Gúrov pensava: “Que encontros não acontecem na vida!”. Do seu passado ele guardava a lembrança de mulheres despreocupadas, afáveis, contentes pelo amor, gratas a ele pela felicidade – embora muito curta – e também a de outras, como sua esposa, por exemplo, que amavam sem sinceridade, com discursos desnecessários, com afetação, histeria e uma expressão tal, como se aquilo não fosse amor, não fosse paixão, e sim algo mais significativo; e também duas ou três muito belas, frias, em cujo rosto perpassava um ar obstinado de ave de rapina, como se desejassem arrebatar da vida mais do que ela pode dar; tais mulheres já haviam passado da primeira juventude, eram caprichosas, avessas ao raciocínio, autoritárias e burras, e quando Gúrov esfriava em relação a elas, sua beleza começava a despertar ódio nele, e as rendas de sua lingerie lembravam-lhe escamas.

Mas, no caso atual, permanecia aquela timidez, a falta de traquejo da
juventude inexperiente, a sensação de embaraço; havia um ar de desnorteamento, como se alguém de repente tivesse batido à porta. Anna Serguêievna, a dama do cachorrinho, em relação ao que acontecera reagiu de um modo um tanto especial, com muita seriedade, como se aquilo significasse sua queda – era a impressão que dava, e isso era estranho e descabido. Seu rosto ficou abatido, murcho; seus longos cabelos pendiam dos lados do rosto; ela ficou meditativa, numa pose de desalento, parecia uma pecadora de uma gravura antiga.

– Foi errado – disse ela. – Agora o senhor será o primeiro a não me respeitar.

Havia sobre a mesa uma melancia. Gúrov cortou um pedaço e pôs-se a comer sem pressa. O silêncio durou pelo menos meia hora.

Anna Serguêievna estava comovente e exalava a pureza da mulher decente, ingênua e inexperiente; a vela solitária que ardia sobre a mesa mal iluminava seu rosto, mas era visível que ela estava sofrendo.

– Por que motivo eu deixaria de respeitá-la? – perguntou Gúrov. – Você não sabe o que está dizendo.

– Que Deus me perdoe! – disse ela, e seus olhos encheram-se de lágrimas. – Isto é terrível!

– Parece que você está se justificando.

– Como poderia me justificar? Sou uma mulher ruim, baixa, eu me desprezo e não penso em me justificar. Traí não o meu marido, mas a mim mesma. E não foi somente agora, já o traio há muito tempo. Meu marido talvez seja um homem bom e honrado, mas é um lacaio! Não sei o que ele faz lá, em que trabalha, só sei que é um lacaio. Quando me casei, eu tinha vinte anos, ardia de curiosidade, ansiava por algo melhor. Pois existe, dizia para mim, uma outra vida. Eu queria viver! Viver, viver... A curiosidade me queimava... O senhor não entende isso, mas, juro por Deus, eu já não conseguia me controlar, algo me aconteceu e eu fiquei fora de mim, então disse ao meu marido que estava doente e vim para cá... E, aqui, andava todo o tempo como se estivesse embriagada, como uma louca... e então me tornei uma mulher vulgar, sem valor, que qualquer um pode desprezar.

Gúrov já estava aborrecido de ouvir aquilo; irritava-o o tom ingênuo, o arrependimento tão inesperado e inoportuno; se não fossem as lágrimas em seus olhos, seria possível pensar que ela estava brincando ou representando um papel.

– Não entendo – disse ele baixinho –, o que você quer?

Ela escondeu o rosto no peito dele e ali permaneceu, agarrada a ele.

– Acredite em mim, acredite, eu lhe suplico... – disse ela. – Eu amo uma vida honesta, pura, tenho horror ao pecado, mas eu mesma não sei o que estou fazendo. As pessoas simples dizem: foi tentação do demônio. Eu também posso dizer agora que o demônio me tentou.

– Já chega, já chega... – balbuciou ele.

Olhando-a nos olhos imóveis e assustados, beijou-a, conversou com ela em voz baixa e com carinho, e pouco a pouco ela se acalmou, recuperou a alegria e ambos puseram-se a rir.

Mais tarde saíram. Na avenida à beira-mar não havia ninguém; a cidade, com seus ciprestes, parecia totalmente morta, mas o mar estava barulhento e batia contra a margem; uma barcaça solitária oscilava nas ondas e nela piscava uma lanterna.

Conseguiram encontrar uma charrete e foram para Oreanda.[60]

– Há pouco, lá em baixo, na portaria, fiquei sabendo seu sobrenome: no quadro está escrito von Dideritz – disse Gúrov. – Seu marido é alemão?

– Não, o avô dele, parece, era alemão, mas ele mesmo é ortodoxo.

Em Oreanda, sentaram-se num banco perto da igreja e ficaram calados, olhando o mar embaixo. Mal se avistava Ialta através da névoa matutina, e nos cumes das montanhas nuvens brancas pairavam imóveis. A folhagem das árvores estava quieta, cigarras cantavam e o ruído surdo e monótono do mar, vindo de baixo, falava de repouso, do sono eterno que nos espera. Esse barulho já se fazia ouvir ali quando não havia nem Ialta, nem Oreanda; ele se faz ouvir agora e será assim também no futuro, surdo e indiferente, quando nós não mais existirmos. E nessa constância, nessa completa indiferença em relação à vida e à morte de cada um de nós, esconde-se, talvez, a garantia de nossa salvação eterna, do incessante movimento da vida na terra, do seu contínuo aperfeiçoamento. Sentado ao lado de uma jovem mulher, que no amanhecer parecia tão bela, tranquilizado e enfeitiçado pela visão desse panorama fantástico – o mar, as montanhas, as nuvens, o amplo céu –, Gúrov pensava que, no fundo, se refletirmos bem, tudo neste mundo é maravilhoso; tudo, exceto aquilo que nós mesmos pensamos e fazemos quando esquecemos das finalidades supremas da existência e da nossa dignidade como homens.

Alguém se aproximou – devia ser um vigia –, olhou para eles e foi embora. Esse detalhe também lhe pareceu misterioso e belo. Via-se a chegada do vapor que vinha de Feodócia, iluminado pela aurora matutina e já de luzes apagadas.

– Há orvalho sobre a relva – disse Anna Serguêievna, quebrando o silêncio. – É, já é hora de ir para casa.
Voltaram para a cidade.
Daí em diante, todos os dias eles se encontravam ao meio-dia na avenida à beira-mar, almoçavam juntos, passeavam, admiravam o mar. Ela se queixava de que dormia mal, de que seu coração batia de maneira angustiada, e fazia sempre as mesmas perguntas, preocupada ora pelo ciúme, ora pelo pavor de que ele não a respeitasse o suficiente. E frequentemente, na praça ou no jardim, quando não havia ninguém por perto, ele a puxava para si e a beijava com paixão. O ócio total, os beijos em plena luz do dia, cheios de cautela e do medo de que alguém os pudesse ver, o calor, o cheiro do mar, o perpassar incessante de pessoas bem- vestidas, festivas e bem-alimentadas pareciam havê-lo transformado. Ele dizia a Anna Serguêievna o quanto ela era bonita, sedutora; demonstrava uma paixão impaciente, não saía do seu lado; já ela, ficava muitas vezes pensativa e continuava a lhe pedir que reconhecesse que ele não a respeitava, não a amava nem um pouco e só via nela uma mulher vulgar. Quase todas as noites, mais tarde, eles iam para algum lugar fora da cidade, para Oreanda ou para a cachoeira. E o passeio era sempre um sucesso, as impressões eram invariavelmente maravilhosas, grandiosas.

Aguardavam a vinda do marido, mas chegou uma carta dele na qual comunicava que adoecera da vista e suplicava à esposa que voltasse para casa o mais rápido possível. Anna Serguêievna se apressou em partir.

– É bom que eu vá embora – disse a Gúrov. – Deve ser o destino.

Ela partiu numa carruagem e ele a acompanhou. Viajaram um dia inteiro. Já acomodada no vagão do trem expresso, depois do segundo sinal ela disse:

– Deixe-me olhar mais uma vez para o senhor... Mais uma vez. Assim.
Ela não chorava, mas estava triste, parecia doente, e seu rosto tremia.
– Vou pensar no senhor... Vou me lembrar – dizia. – Fique com Deus. Não pense mal de mim. Estamos nos despedindo para sempre, isso é necessário, pois nunca deveríamos ter nos encontrado. Bem, fique com Deus.

O trem partiu rapidamente, suas luzes logo sumiram, e um minuto depois não havia mais nem um ruído, como se tudo houvesse sido tramado de propósito para interromper rapidamente aquele sonho, aquela loucura. Sozinho na plataforma, olhando a escuridão distante, Gúrov ouvia o cricrilar dos grilos e o zumbido dos fios telegráficos, com a sensação de que acabava de despertar. Veio-lhe à mente que na sua vida acontecera mais uma conquista ou uma aventura, e que também esta havia terminado, restando agora uma recordação... Ele estava emocionado, triste, e sentia um leve remorso: pois aquela jovem, que ele nunca mais veria, não fora feliz na sua companhia. Ele tinha sido amistoso e gentil com ela; entretanto, no seu modo de tratá-la, no seu tom e nos seus carinhos, como uma sombra transparecia uma leve caçoada, uma arrogância meio rude do homem feliz que, além do mais, tinha o dobro de sua idade. Todo o tempo ela dizia que ele era bondoso, extraordinário, superior; era evidente que ele lhe parecia diferente do que era na realidade; portanto, sem querer ele a enganou...

Ali, na estação, já se sentia o cheiro do outono e à noite começava a fazer um friozinho.

“Está na hora de voltar para o norte” – pensava Gúrov, deixando a plataforma. “Está na hora!”

III

Em casa, em Moscou, tudo já funcionava como no inverno: acendia-se o fogo nas estufas e, de manhã, quando as crianças se arrumavam para a escola e era servido o chá, ainda estava escuro, e a babá acendia as luzes por pouco tempo. O frio chegara. Quando cai a primeira neve, no primeiro passeio de trenó, é agradável ver o chão e os telhados brancos; a respiração fica leve, agradável, e nesse momento vêm à lembrança os anos de juventude. As velhas tílias e bétulas, brancas de geada, têm uma aparência acolhedora, são mais próximas ao coração do que os ciprestes e palmeiras, e junto a elas já não há vontade de pensar em montanhas e mar.

Gúrov era moscovita e regressou a Moscou num belo dia de inverno. Quando vestiu seu casaco de pele e luvas grossas e saiu para um passeio pela Petrovka[63], e quando, mais tarde, no sábado à noite, ouviu o repique dos sinos, sua recente viagem e os lugares onde estivera perderam para ele todo o encanto. Mergulhou aos poucos na vida moscovita, já lia com avidez três jornais diariamente e dizia que, por princípio, não lia jornais de Moscou.

Já tinha vontade de ir aos restaurantes, aos clubes, aos almoços festivos e jubileus, e novamente se sentia lisonjeado por receber em sua casa advogados e artistas famosos e por jogar cartas com um catedrático no clube dos doutores. E já conseguia comer uma porção inteira de caçarola de peixe ou carne, com chucrute...

Gúrov pensava que, passado um mês, Anna Serguêievna ficaria coberta de névoa na sua lembrança e só raramente apareceria em seus sonhos, com seu sorriso comovente, como as outras apareciam. Porém, mais de um mês havia passado, o inverno estava no auge e na sua memória tudo permanecia tão claro como se ele tivesse se separado de Anna Serguêievna apenas na véspera. As recordações avivavam-se cada vez com mais força. Se no silêncio da tarde chegavam ao seu gabinete as vozes das crianças que faziam seus deveres de casa, se ele ouvia uma romança ou o órgão num restaurante ou se a nevasca começava a uivar na chaminé da lareira – de repente tudo ressuscitava na sua memória: o que acontecera no cais, a madrugada na bruma das montanhas, o vapor de Feodócia, os beijos... Ele caminhava muito tempo pelo aposento, recordando, sorrindo; mais tarde, as lembranças se transformavam em sonhos e na sua imaginação o passado se misturava com o que ainda viria. Anna Serguêievna não era um sonho, ela o seguia por toda parte como uma sombra, observando-o. De olhos fechados, ele a via como uma pessoa viva, e ela lhe parecia mais bonita, mais jovem, mais delicada do que na realidade; também ele próprio se via melhor do que fora em Ialta. À noite, lá estava ela na estante de livros, na lareira, no canto do gabinete, olhando-o; ele ouvia sua respiração e o suave farfalhar de sua roupa. Na rua, ele acompanhava as mulheres com o olhar, procurando alguma parecida com ela...

Gúrov já se sentia angustiado e queria compartilhar com alguém suas lembranças, mas em casa era impossível falar do seu amor, e fora de casa não havia com quem. Não haveria de ser com os inquilinos nem no banco. E sobre o que ele poderia falar? Por acaso naquela ocasião ele sentiu amor? Houve, por acaso, alguma coisa bonita, poética, instrutiva ou simplesmente interessante em sua relação com Anna Serguêievna? O único jeito era falar de maneira indeterminada sobre o amor, as mulheres, e ninguém desconfiava da verdade. Apenas sua esposa levantava as sobrancelhas escuras e dizia:

– O papel de fátuo não combina nem um pouco com você, Dimítri.

Certa vez, à noite, saindo do clube dos doutores na companhia de um funcionário público, seu parceiro no jogo, ele não se conteve e disse:

– Se o senhor tivesse ideia da mulher fascinante que conheci em Ialta!
O funcionário sentou-se no trenó e partiu, mas de repente virou-se e gritou: – Dmítri Dmítritch!
– O quê?
– O senhor estava certo hoje cedo. O esturjão estava estragado.
De repente, essas palavras, tão comuns, por algum motivo deixaram Gúrov indignado e lhe pareceram humilhantes, impuras. Que costumes selvagens, que caras! Que noites sem sentido, que dias desinteressantes, sem nada de importante! Frenéticos jogos de cartas, comilança, bebedeira, conversas sempre sobre o mesmo assunto. Essas atividades inúteis e as discussões consumiam as melhores parcelas do tempo, as melhores forças, e, no final, restava uma vida limitada, prosaica, uma idiotice, mas sair dela, fugir, era impossível, como se a pessoa estivesse trancada num hospício ou numa penitenciária!

Gúrov não dormiu aquela noite, indignado, e depois passou o dia inteiro com dor de cabeça. Nas noites seguintes também dormiu mal, ficava sentado o tempo todo na cama, pensando, ou caminhava de um lado para o outro. As crianças o entediavam, o banco também, não queria ir a lugar nenhum nem conversar sobre nada.

Em dezembro, nos feriados, ele se preparou para viajar. Disse à mulher que ia a Petersburgo resolver um assunto para um rapaz e foi para S. Para quê? Ele mesmo não sabia bem. Queria ver Anna Serguêievna, falar com ela, marcar um encontro, se possível.

Chegou a S. pela manhã e ocupou o melhor quarto do hotel. O chão era forrado de lã cinzenta grosseira, igual à dos casacões dos soldados; sobre a mesa havia um tinteiro coberto de pó, com um cavaleiro de braço levantado, segurando uma espada e sem cabeça. O porteiro do hotel lhe deu as informações necessárias: von Dideritz morava na rua Staro-Gontchárnaia, em casa própria, perto do hotel. Vivia bem, era rico, tinha carruagem, todos o conheciam na cidade. O porteiro pronunciava Dríderitz.

Gúrov caminhou sem pressa para a rua Staro-Gontchárnaia, procurando a casa. Exatamente na frente dela havia uma longa cerca cinzenta com pregos.

“Qualquer um fugiria dessa cerca” – pensou Gúrov, olhando ora para as janelas, ora para a cerca. E refletia: “Hoje é feriado e o marido provavelmente está em casa. E, de qualquer modo, seria falta de tato entrar na casa e causar um constrangimento. Se eu enviar um bilhete, ele pode cair nas mãos do marido, estragando tudo. O melhor é confiar no acaso.” E continuou a caminhar pela rua, perto da casa, esperando por esse acaso... Viu um mendigo entrar no portão e os cachorros o atacarem. Uma hora depois, ouviu um piano, e os sons chegaram até ele fracos, confusos. Provavelmente era Anna Serguêievna quem tocava. De repente, a porta principal se abriu e por ela saiu uma velha; atrás dela corria o lulu branco, seu conhecido. Gúrov quis chamar o cãozinho, mas seu coração disparou e, com a emoção, não conseguiu lembrar o nome do cachorro.

Continuou a caminhar, odiando cada vez mais a cerca cinzenta e, irritado, já pensava que Anna Serguêievna o esquecera, que talvez ela já estivesse se divertindo com outro, o que era perfeitamente natural na situação de uma mulher jovem que era obrigada a ver aquela maldita cerca da manhã à noite. Regressou ao seu quarto de hotel e ficou sentado no divã durante muito tempo, sem saber o que fazer; depois almoçou e em seguida dormiu longamente.

“Como tudo isso é tolo e agitado!” – pensava ele, ao acordar, vendo as janelas escuras: já era noite. “Aí está, dormi demais. E agora, o que vou fazer à noite?”

Ficou sentado na cama forrada com um cobertor cinzento barato, como os de hospital, e se recriminava, aborrecido: “Aí está sua dama do cachorrinho... Aí está sua aventura... Agora fique aqui sentado!”

Naquela mesma manhã, na estação, ele notara um cartaz com letras enormes: pela primeira vez na cidade seria apresentada A gueixa. Lembrou-se disso e rumou para o teatro. “É muito provável que ela vá às estreias” – pensou.

O teatro estava lotado. Ali, como em geral em todos os teatros de província, uma névoa subia acima do lustre e havia muito ruído e agitação na galeria. Na primeira fila, antes do início do espetáculo, os janotas locais esperavam de pé, com as mãos nas costas; no camarote do governador, na cadeira da frente, estava sentada sua filha, de boá; já ele próprio se escondera discretamente atrás da cortina e só eram visíveis suas mãos. No palco a cortina balançava, a orquestra afinava demoradamente os instrumentos. Gúrov o tempo todo procurava avidamente com os olhos, enquanto o público entrava e ocupava seus lugares.

Entrou também Anna Serguêievna. Sentou-se na terceira fila, e quando Gúrov olhou para ela sentiu um aperto no coração, compreendendo claramente que, para ele, naquele momento não existia no mundo ninguém mais próximo, caro e importante. Perdida na multidão provinciana, aquela pequena mulher, sem nada de especial, com um lorgnon vulgar na mão, enchia agora toda a sua vida, era a sua dor, a sua alegria, a única felicidade que ele desejava para si; e, ao som de uma orquestra ruim, de violinos mal tocados e simplórios, ele pensava em como ela era bonita. Pensava e sonhava.

Junto com Anna Serguêievna, entrou e sentou-se um homem jovem com pequenas suíças, muito alto e meio curvado; a cada passo ele baixava a cabeça, dando a impressão de estar constantemente fazendo reverências. Era com certeza o marido, que, num acesso de amargura, em Ialta, ela chamara de lacaio. De fato, na sua figura esguia, nas suíças, na pequena calva, havia um quê de discrição de lacaio; ele sorria com doçura e em sua lapela brilhava um distintivo de alguma sociedade científica que lembrava uma plaquinha com número de lacaio.

No primeiro intervalo, o marido saiu para fumar e Anna permaneceu na poltrona. Gúrov, que também estava na plateia, aproximou-se dela e disse com voz trêmula, sorrindo forçado:

– Boa noite.

Ela olhou para ele e empalideceu, depois olhou novamente com pavor, sem crer nos seus olhos, e apertou nas mãos o leque junto com o lorgnon, aparentemente lutando consigo mesma para não desmaiar. Ficaram calados: ela, sentada; ele, de pé, assustado com o constrangimento dela e sem coragem de se sentar ao seu lado. Soaram as afinações dos violinos e das flautas; de repente os dois ficaram apavorados, pois parecia que de todos os camarotes olhavam para eles. Ela se levantou bruscamente e caminhou depressa para a saída; ele a seguiu e eles foram andando sem saber para onde, pelos corredores, pelas escadas, ora subindo, ora descendo, e na sua frente perpassavam uniformes de funcionários do judiciário, de professores de escolas, de servidores do udel, todos com distintivos; vislumbravam-se rapidamente senhoras andando, casacos de pele pendurados nos cabides, e soprava um vento encanado que espalhava o cheiro de tabaco das pontas de cigarros. Gúrov, com o coração batendo apressado, pensava: “Ó Deus, para que essas pessoas, essa orquestra...”.

Nesse momento, de repente ele se lembrou que naquela noite, na estação, ao se despedir de Anna Serguêievna, ele dissera a si mesmo que tudo estava terminado e que eles não se veriam mais. Mas como ainda estava distante o fim!

Numa escada estreita, sombria, onde estava escrito “Entrada para o anfiteatro”, ela parou.

– Que susto o senhor me deu! – disse ela ofegante, ainda pálida e aturdida. – Ai, como me assustou! Estou quase morta. Para que veio aqui? Para quê?

– Me entenda, Anna, me entenda... – disse ele rápido e em voz baixa. – Eu lhe imploro, me entenda...

Ela olhava para ele com terror, com súplica, com amor, olhava fixamente para gravar com firmeza na memória o seu rosto.

– Eu sofro tanto! – continuou ela, sem ouvi-lo. – Todo o tempo só penso no senhor, minha vida é pensar no senhor. E só o que eu queria era esquecer, apenas esquecer. Mas por que, por que o senhor veio?

Num patamar acima deles, dois alunos do ginásio fumavam e olhavam para baixo, mas Gúrov não se importou, puxou Anna Serguêievna para si e começou a beijar seu rosto, suas mãos.

– Que está fazendo, que está fazendo! – dizia ela aterrorizada, afastando-o de si. – Nós dois enlouquecemos. Parta hoje mesmo, parta agora... Eu lhe suplico, por todos os santos, eu lhe imploro... Vem vindo gente!

Alguém vinha subindo a escada.

– O senhor deve ir embora... – sussurrou Anna Serguêievna. – Está ouvindo, Dmítri Dmítritch? Vou me encontrar com o senhor em Moscou. Eu nunca fui feliz, sou infeliz agora, e nunca, nunca serei feliz, nunca! Não me faça sofrer ainda mais! Juro que vou a Moscou. Mas agora vamos nos separar. Meu querido, meu bom amigo, meu amor, vamos nos separar!

Ela apertou a mão dele e desceu rapidamente a escada, voltando-se o tempo todo para olhá-lo, e nos seus olhos via-se que realmente ela não era feliz... Gúrov ficou ali de pé por algum tempo, de ouvido atento, depois, quando tudo silenciou, pegou seu casaco e saiu do teatro.

IV

Anna Serguêievna passou a encontrá-lo em Moscou. Uma vez a cada dois ou três meses, ela partia de S. e dizia ao marido que ia consultar um professor por causa de um problema ginecológico – o marido acreditava e não acreditava. Em Moscou, ela se hospedava no Slaviánski Bazar[66] e imediatamente enviava a Gúrov um mensageiro. Gúrov ia vê-la e ninguém em Moscou sabia disso.

Ele caminhava ao encontro dela no hotel, em certa manhã de inverno (o mensageiro estivera em sua casa na noite anterior, mas não o encontrara), e com ele ia sua filha, que ele tivera vontade de acompanhar até o ginásio, localizado no caminho. Caía uma neve graúda e úmida.

– Está fazendo três graus acima de zero e mesmo assim está nevando – dizia Gúrov à filha. – É porque está quente apenas na superfície da terra. Já nas camadas mais altas da atmosfera a temperatura é completamente diferente.

– Papai, por que não há trovões no inverno?

Ele explicou isso também. Enquanto falava, ele pensava que estava indo para um encontro e que ninguém sabia disso, e provavelmente ninguém jamais saberia. Ele tinha duas vidas: uma evidente, que aqueles que achavam isso importante viam e conheciam, uma vida cheia de verdades convencionais e de mentiras convencionais, exatamente igual à vida de seus conhecidos e amigos; e outra vida que transcorria em segredo. Por uma estranha e talvez fortuita coincidência, tudo o que para ele era relevante, interessante, indispensável, aquilo em que ele era sincero e não enganava a si mesmo, que constituía o âmago de sua vida, não era do conhecimento das outras pessoas, e tudo o que era sua mentira, sua casca, na qual ele se escondia para encobrir a verdade, como, por exemplo, seu trabalho no banco, as discussões no clube, sua “raça inferior”, o comparecimento com a esposa aos jubileus, tudo isso transcorria às claras. E ele julgava os outros por si mesmo, não acreditava no que via, supondo sempre que para cada pessoa, sob o manto do segredo, assim como sob o manto da noite, se passava a sua verdadeira vida, a mais interessante. Cada existência pessoal sustenta-se no segredo, e talvez seja por isso que o homem educado exige tão nervosamente respeito à sua privacidade.

Depois de deixar a filha no ginásio, Gúrov se dirigiu ao Slaviánski Bazar. Ainda na portaria tirou o casaco de pele, subiu e bateu levemente na porta. Anna Serguêievna, com o vestido cinza de que ele mais gostava, cansada da viagem e da espera, aguardava-o desde a noite anterior; estava pálida, olhava para ele sem sorrir e, assim que ele entrou, apertou-se contra o seu peito. Como se tivessem passado uns dois anos sem se ver, seu beijo foi longo, demorado.

– Então, como vai a vida lá? – perguntou ele. – Quais as novidades?
– Espere, já vou dizer... Não consigo.
Ela não conseguia falar porque estava chorando. Ficou de costas para ele e cobriu os olhos com o lenço. “Bem, que chore um pouco, enquanto isso vou me sentar” – pensou ele, acomodando-se na poltrona.

Depois tocou a sineta e pediu que trouxessem chá; e enquanto ele bebia o chá, ela continuava de pé, voltada para a janela... Ela chorava porque sentia angústia e também porque tinha a amarga consciência do rumo triste que suas vidas haviam tomado; eles se viam apenas às escondidas, ocultavam-se dos demais como se fossem ladrões! Por acaso as suas vidas não estavam destruídas?

– Ora, vamos, pare de chorar! – disse ele.

Estava evidente para ele que aquele amor não terminaria tão cedo, mas quando, isso era impossível saber. Anna Serguêievna apegava-se a ele cada vez mais, adorava-o, e seria inconcebível dizer a ela que aquilo algum dia deveria ter um fim; e ela nem acreditaria nisso.

Ele se aproximou e pôs as mãos nos seus ombros, para fazer um carinho, um gracejo, e nesse momento viu-se no espelho.

Seus cabelos já começavam a ficar grisalhos. Ele achou estranho que tivesse envelhecido tanto ultimamente e que estivesse com tão má aparência. Os ombros em que descansavam suas mãos estavam quentes e tremiam. Sentiu compaixão por essa vida que ainda tinha calor e beleza, mas que provavelmente já estava próxima de começar a perder a cor e a murchar, do mesmo modo que a vida dele. Por que ela o amava daquela maneira? Ele sempre parecera às mulheres ser outra pessoa, diferente do que era na realidade, e elas amavam não a ele, mas alguém que sua imaginação havia criado, alguém que elas procuravam ansiosamente em suas vidas. E, mais tarde, quando percebiam seu engano, ainda continuavam a amá-lo. E nenhuma fora feliz com ele. O tempo passava, ele conhecia outra mulher, começava uma nova relação, depois se afastava, mas não amou nem uma vez; chame-se aquilo como se quiser, apenas não era amor. E somente agora, quando sua cabeça já estava ficando grisalha, ele começou a amar de verdade, como deveria – e pela primeira vez em sua vida.

Anna Serguêievna e Gúrov amavam-se como duas pessoas muito íntimas, como marido e mulher, como ternos amigos; parecia-lhes que o próprio destino escolhera um para o outro, e não entendiam por que ele tinha uma esposa e ela um marido; era como se eles fossem duas aves migratórias, macho e fêmea, que foram capturadas e obrigadas a viver em gaiolas separadas. Eles perdoaram um ao outro aquilo de que se envergonhavam no seu passado, perdoaram tudo do presente e sentiam que seu amor havia transformado a ambos.

Antes, nos momentos tristes, ele se tranquilizava com todo tipo de racionalizações que viessem à sua cabeça, mas agora ele não queria ser racional, pois a compaixão que sentia era profunda e ele queria ser sincero, carinhoso.

– Pare de chorar, minha querida – dizia ele –, chorou um pouco, já chega... Agora vamos conversar, pensar em alguma coisa...

Eles ficaram longamente trocando conselhos, falaram de como se livrar da necessidade de se esconder, de enganar, de viver em cidades diferentes, de ficar muito tempo sem se ver. Como se livrar dessas cadeias insuportáveis?

– Como? Como? – perguntava ele com as mãos na cabeça. – Como?

E parecia que, mais um pouquinho, a solução seria encontrada, e então uma nova vida começaria, uma vida maravilhosa; porém, para ambos estava claro que ainda estava muito longe o fim e que o mais complicado e difícil estava apenas começando.

Dezembro de 1899

RECUERDO CALIENTE, por Jorge Moraes

RECUERDO CALIENTE

Fez-se o solo intumescido,
Fertilizando sementes;
E elevaram-se imponentes
Como guardas perfilados;
E os tenros botões dourados
Transmutaram-se em pingentes:
De verde em rubro “caliente”
De frutos já sazonados.

Há neste simples recuerdo,
Cultivado com esmero
Não apenas um tempero
Para aguçar paladares;
Notarás, ao degustares,
Que a vida requer prudência,
Mas é soberba a existência
Apesar de seus pesares.

Sê comedido na ingesta;
Bota tenência ao alarde
Em excesso, a língua arde
E o calorão atropela;
Portanto, mantém cautela
E sorve de vagarinho
Gelados, água ou vinho
Pra refrescar a goela.

Se por ventura a estirpe
For ferida no seu brio,
Não é qualquer desafio
Que um índio macho rejeita:
“Prende o dente” e te deleita,
Mas cuida que não te traia
Uma lágrima que caia
E a bravura ser desfeita.

Convém destacar ainda
Que, dentre seus componentes,
Há valiosos nutrientes
Ao fluxo circulatório;
E, é público e notório,
Assim prega a medicina
Que ela também elimina
Processos inflamatórios.

As fronteiras se ampliaram
Na mais recente pesquisa,
E a ciência a preconiza
No tratamento ao obeso,
E não só reduz o peso:
Colesterol também cede,
E o benefício procede
Se quiser ficar reteso.

Seria dedo-de-moça,
Se não fosse a transgenia,
E até parece ironia,
Mas é a mais pura verdade;
Quem sabe esta variedade
Cujo nome desconheço
Batiza-se pelo apreço
De pimenta da amizade.

Inspirou-me o jardineiro
Com o lavor que o deleita;
E ao proceder à colheita
Cada fruto o gratifica;
E jubiloso o dedica
Aos amigos, com estima
E num gesto que o sublima
Quem divide, multiplica.

Jorge Moraes

25 de mai de 2017

Nunca antes na história deste país... (Avô & Neto em simplismos políticos), por Véio China

Nunca antes na história deste país... (Avô & Neto em simplismos políticos)

-Vô, sabe, ouvi dizer lá na escola que a presidente foi terrorista. Se foi terrorista, como pode ser nossa presidente? – Pergunta o garoto, talvez uns 13 ou 14 anos.

Sobre o menino podemos considerar que é um desses como muitos que andam por aí, e que estão numa fase de desinteresse pelo futebol, entretanto antenados e de olhos bem abertos para as garotas na escola, o Facebook, e surpreendentemente, no universo político tupiniquim, talvez até pelo fator "Black Blocs" o qual, sem discernimentos diz achar  "movimento firmeza”

-Inácio, leve a mal não, mas não acha que és muito garoto para tanto interesse político? – Questiona o avô ao olhá-lo firmemente nos olhos.

-Assim, sabe vô, lá na nossa classe a dona Izilda estava falando sobre a vida de Che Guevara, e a professora disse que o PT e a presidente tem tudo tem a ver com ele, pois todos militaram na esquerda. Perguntei a ela o que era ser de esquerda, direita, e ela explicou, portanto me interessei.

-Eita! E por que esse interesse repentino por esquerda, direita, e ainda mais pela dona Vilma? – O avô insiste, surpreso.

-Ah vô, nem é tanto o interesse por ela, pois do jeito que o pessoal mete o pau nela no Face, acho que deve ser por não estar fazendo grande coisa pelas pessoas....

-Hum, entendi...então vocês acham que ela não está lá fazendo aquelas coisas...sei. Mas, me diga Inácio, lá na tua escola estudam a política nacional?

-Ah vô, não! Não há aula falando de política não. É que a dona Izilda parece ser plugada nesses lances e gosta de descer o pau no governo. Sabe, gosto dela!

-Hum, e é bonita a sua professora de história?

-Eee vô! Tu sempre querendo saber se as mulheres são bonitas! Certo, o que posso dizer é que ela é  de geografia, e que também é meio barrilzinho, mas tem uns olhos azuis maravilhosos!

-Eita! Dos olhos azuis, além de ser gordinha  até que entendi, mas, como assim... professora de geografia? – Surpreende-se o velho.

-Uai, como assim....ora! geografia, vô...Ge o gra fi a! - O fedelho responde separando as sílabas

-Nossa, que coisa! Imagino então que nas aulas de história vocês aprenderão sobre o curso do Rio Amazonas, o quanto é pitoresco o Sena, e ainda as rotas das pirâmides no Egito. Pelo amor de Deus, o ensino neste país tá de brincadeira! O que pode ter a ver o cu com as calças? – O velho resmunga demonstrando seu descontentamento com a qualidade dos professores do país.

-Ô vô, vê se não me enrola! Para com esse papo sobre rios e rotas e me diga; A presidente Vilma foi ou não foi terrorista? – O garoto insistiu na pergunta. O velho o olha aturdido; Que assunto chato fui me meter! – Ruminou em pensamento. Depois muniu-se de alguma coragem e seguiu adiante.

-Assim meu filho, vamos por parte. Primeiro, a presidente não foi terrorista, mas, revolucionária, guerrilheira, apesar de muitos verem terrorismo nas atitudes tomadas por aqueles grupos. Claro, naquele tempo ela jamais se imaginou detentora de algum poder, afinal as esquerdas não tinham voz e nem vez no país... – O velho relata. Entretanto, antes mesmo de terminar as suas falas é bruscamente interrompido pelo neto.

-Uai, como é que pode isso, vô? Uma esquerda ser fraca e eleger um presidente? – O menino questiona de olhos arregalados –

O avô o olha e coça a cabeça e murmura entre dentes. “E agora José, como explicar isso pra esse fedelho curioso que o curso da história mudou?” – Depois decide; “Já que entrei no jogo não é justo deixa-lo na metade. Decide antes de disparar suas costumeiras metáforas.

-Bom...é que no meio do caminho surgiu um barbudinho que encantou a mídia e os intelectuais desse país. Já ouviu falar sobre uma poesia de Drummond, chamada “No meio do caminho?”

-Ah, já sim, vô! Aquela que diz  " E agora José/A festa acabou/A luz apagou" A professora de matemática vive recitando essa daí e muitos outros poemas.

-Hum...professora de matemática recitando "José"? – Outra vez o velho se surpreende, primeiro, pela confusão do garoto ao vê-lo referir-se a outro poema do imortal Drummond. Segundo, porque também não entendia a mestra de matemática ministrando aulas de literatura no lugar daqueles, para ele, incompreensíveis cálculos.

-É sim, vô! Ela é a nossa professora de matemática! - O garoto confirma

-Tá certo, Inácio. Apesar de você não estar se referindo ao poema que mencionei, confesso, o efeito é praticamente o mesmo. Portanto pegue a "No meio do caminho tinha uma pedra/Tinha uma pedra no meio do caminho" e substitua a palavra pedra e no seu lugar coloque“barbudinho” e aí sim terá uma poesia política afeita ao nosso tempo.

-Ta bom vô, vamos ver como fica; "No meio do caminha tinha um barbudinho/Tinha um barbudinho no meio do caminho" – O garoto ouve o som da própria frase. Porém, repentinamente o sobressalta: Mas...epa! O que pode ter a ver entre o barbudinho, o poder e a pedra? – Protesta o garoto num espanto que se fez cristalino.

- A princípio, nada, Inácio. É apenas brincadeira minha. Já reparou como um dos seus nomes é idêntico ao do barbudo? De diferente só o Ruis e o Nilva? – O velho compartilha num tom professoral.

-Ah é mesmo vô! Quem ainda não ouviu falar no nome de Ruis Inácio da Nilva? – O menino consente.

-Sim, mas voltando ao assunto o fato é que esse barbudinho se tornou conhecido nacionalmente por Tula. Ele foi um obstinado, e  mesmo semi analfabeto já lhe sentíamos o dom da esperteza, pois sabia estar na mídia como ninguém, inclusive, evidência que se deu na conta dos levantes da classe metalurgica, isso no ABC, e em plena década de 70.

-Mas, o que ele pretendia, vô? – Evidente, o garoto se mostrava interessadíssimo pelo assunto.

- O que posso dizer Inácio, é que à época ele brigava por melhores salários, direitos e melhores condições de trabalho.

-Nossa vô, então podemos concluir que ele foi um sujeito corajoso?

-Podemos sim Inácio! Pra falar a verdade, esse barbudinho foi um osso duro de roer, um grevista de mão cheia que lotava os estádios com as assembleias que promovia com a sua classe.

-Ah, que legal! O vô, é verdade que Tula não tem um dos dedos?

-É verdade sim Inácio. Inclusive sobre ele contam algumas línguas que ele decepou propositadamente o dedo numa prensa da fábrica onde trabalhava.

-Como assim vô, quem seria louco de cortar o próprio dedo? Mas... por que ele faria isso? – O garoto questiona intrigado.

-Bem, nem eu sei, pois com ele parece que tudo sempre foi e será possível – O velho devolveu num tom tão sarcástico que acabou por gerar dúvidas no guri.

-Ô vô, te conheço, né! Para de esconder o ouro de mim! – Ele olhava firmemente para o avô, e como esse nada respondeu, continuou -

-Sabe, a minha professora revelou que admirava muito esse tal de Tula, mas que agora não admira mais. Ela diz que ele traiu diversas promessas e princípios que fizeram ele chegar no poder. Ela disse ainda mais... Disse que hoje ele posa dando tapinhas nas costas de parceiros políticos, pessoas que no passado sempre alcunhou de corruptas e que lesavam o Brasil.

-Pois é Inácio. Assim como a tua professora há milhões de brasileiros que tem a mesma impressão sobre ele, e não são poucos os que não suportam nem que lhes digam o nome.

-Tô sabendo vô! – O guri respondeu divertido – Sabe, tenho um colega de classe que disse que o vô dele contou que à época muita gente tinha medo do barbudinho, e que os militares pregavam que ele seria capaz de comer criancinhas vivas, se essas dessem moleza! Cada louco, né vô? – O menino finalizou num riso divertido.

-Então, Inácio, foi mais ou menos isso. É que à época tanto a direita como o centro morriam de medo dele. Bem, mas isso não importa, e o que a história conta é que que ele acabou se elegendo e se tornou o nosso presidente.

-Caraca vô, então esse tal de Lula era um sujeito porreta, mesmo!

-Era sim, Inácio. E me lembro do dia da sua posse, e foi uma tarde de muitas festas, e o povo saiu à rua, pois pela primeira vez um homem do povo, miserável, se tornava o presidente do Brasil.

- E o senhor, vô? Acha que ele foi um bom presidente? –

-O que posso responder? Assim, diria que fez alguma coisa pelas pessoas mais carentes. Entretanto, a partir do 2º ano do seu governo começou a mostrar suas verdadeiras intenções ao lutar tenazmente contra tudo que defendeu. Inclusive contra o plano vigente das aposentadorias. Sobre isso ele modificou prazos, estendeu contribuições, faixas etárias.

-Nossa vô! Fale numa língua que eu possa entender, né! Mas, em todo o caso, e se foi o que entendi, é muito doido isso de ser trabalhador e lutar contra os interesses do próprio trabalhador? – O garoto raciocinou alarmado

-Então Inácio, foi assim mesmo. Ah, ele também sempre foi fã de aviões e viagens, inclusive fez a União comprar aviãozinho que nos custou os olhos da cara! - O velho respondeu indignado.

- Epa, espera, to me esquecendo de contar algo bobo...O Tula adorava entornar umas branquinhas.
Dizem que foi sob o efeito do álcool que pretendeu expulsar do país um jornalista estrangeiro que o taxou de alcoólatra. Entretanto, fora as cachaças procedeu algumas medidas no âmbito social, estendendo bolsas esmolas para uma legião de miseráveis, aliás, ideia que nem do seu governo partiu,  mas do anterior.
Mas foi aí que demonstrou o quanto era sabichão ao perceber que seria ali onde se concentraria o poder de barganha com um povo sofrido. E essa barganha é que os mantém no poder até hoje, já que ganham as eleições às custas da miséria e das esmolas dadas aos miseráveis.

-Puxa vô! É verdade isso?

-É sim. Quem olha de fora seria capaz de imaginar que isso traz felicidade e bem estar para esse povo. É mentira, não traz, pois não há planos para a educação  e nem oportunidades pera eles, infelizmente! Claro, é de pura demagogia, pois ele sempre soube que jamais resolveria a questão da pobreza, assim como a educação, saúde e moradia. Portanto criou esses auxílios esmolas e os distribuiu aos milhões para essas pessoas. E todos sabemos que foi golpe eleitoreiro para se perpetuar no poder, pois para os miseráveis qualquer quantia é uma benção.

-Poxa, que sujeito esperto, eim vô? – O garoto sorri.

-Sim, espertíssimo! Entretanto ele decepcionou as pessoas que detém algum grau de conhecimento, brasileiros que, como eu acreditaram piamente em suas promessas dum governo comprometido com moralidade, e à caça de corruptos e corruptores. E a maior das verdades é que, lamentavelmente o barbudo não combateu aqueles que assaltaram o povo, ao contrário, parece ter se aliado a eles, cerrando os olhos para isso e pra quilo, para depois, mesmo que descobertos os golpes implantados por seu guru político, ter a coragem de vir a nação e confessar que foi traído e de que nada sabia. Foi lamentável o fato.

-Uauu, que bacana! Gostei do esquemão! Um presidente que nada sabe deve ser um cara fantástico! Bem que poderia ser assim na escola, né?

-Como assim Inácio, não entendi! Explique melhor. –

-Assim vô; Quando há prova oral e fico com cara de besta ao não ter a resposta para certas perguntas. E assim sou obrigado a ouvir o riso dos que se julgam mais inteligentes,e eles me chamam de burro na cara dura, de toupeira, e essas coisas assim. Portanto seria bacana logo ir dizendo; Professora, eu nada sei! E todos me olhariam compreensivos diante a manifestação da professora, numa coisa tipo assim; Nossa, que bom, Inácio! Parabéns, você nunca sabe de nada, estamos orgulhosos de você! –  O menino respondeu de forma matreira, e ambos se olhando, sorriram e depois gargalharam. Amainado os risos o velho prosseguiu:

-Pois é Inácio, esse foi o mandatário que se julgou traído, aliás, traição e traidores que trabalhavam na sala ao lado da sua, ali bem diante de sua barba grisalha! E foi esse o pessoal que implantou pagamentos, uma espécie de“mensalão” para os políticos que votassem na Câmara de acordo com os interesses do governo  petista.

-Nossa vô, que trama incrível - Novamente interrompe o garoto. Depois continua: -Merecia um filme isso! – Mas, o que acabou acontecendo com esse pessoal, vô? – Intrigado o garoto questionou.

-Bem...o esquema foi descoberto porque um desses políticos parece não ter recebido o que lhe prometeram, e então ele botou a boca no trombone. Depois que o escândalo estourou, o traidor da sala ao lado, junto de muitos outros pegos com a boca na botija foram julgados e condenados pela mais alta corte da justiça nacional. Entretanto, com uma nova composição de ministros os quadrilheiros conseguiram um novo julgamento e O STF absolveu alguns da acusação de formação de quadrilha. Entendeu?

-Eu não, vô! Não entendi muito bem esse negócio de “quadrilha” ser absolvida pelo crime de “formação de quadrilha” Isso não me pareceu nada lógico. E outra, nem sei o que quer dizer esse ST e mais alguma coisa, esse que o senhor acabou de se referir.

-Ah, é a sigla do Supremo Tribunal Federal. Como eu disse, é um colegiado que reúne diversos juízes, e eles se tornam ministros e são nomeados pelo presidente da república. No caso do novo julgamento, e sobre a sentença absolvendo os apontados por “formação de quadrilha” aconteceu o fato dos dois novos juízes serem recentemente nomeados pela presidente Vilma. Muitos afirmam que houve "mutreta" neste novo julgamento, inclusive apontando que um dos novos empossados  recebeu uma nota preta por assessoria prestada a União. Portanto, os novos membros votaram à favor da absolvição, tornando sem efeito o julgamento anterior, e no qual haviam sido condenados.

-Nossa vô! Que rolo é esse negócio de Poder! –

-Pois é, Inácio. Pois é! – O velho solta os braços em sinal de desânimo.

-Poxa vida vô, agora to percebendo como parte das coisas andam nesse país. Acho que eu também ficaria decepcionado.

-Exatamente Inácio, Eu fiquei e muitos outros ficaram! Porém coisas estranhas acontecem diariamente nesse  Brasil. Não te espantes, ainda verás muito disso na tua jornada e nesta terra onde canta o sabiá. Ah,e por falar em coisas estranhas...por acaso você não pretende montar uma pequena empresa, sem capital, talvez até na área da informática? E por que não uma empresa onde nada se cria, nada fabrica? Empresa onde não há empregados, escritório, endereço fixo e clientes. Empresa onde verdadeiramente não haverá nada, mas que poderemos vender por milhões e milhões de reais para uma eventual compradora, quem sabe  uma concessionária do setor das telecomunicações. Sabe, Inácio, uma coisa te garanto; Ficaremos milionários do dia pra noite! Topas?

-Uauuu! Claro que topo vô! Mas... é possível uma barbada dessa? – O garoto pergunta entusiasmado.

-Aqui é totalmente possível! Sabe, Inácio, pressinto coisas boas para você. Acho que você ainda nem sabe, mas ainda serás o bambambã nos negócios de nossa família.
E não te impressiones se um dia tiveres que limpar merda de girafa num zoológico qualquer. Não te impressiones mesmo! Tudo, tudo, tudo será transitório, acredite em mim! - O velho se entusiasma, antes mesmo de desferir o bordão fatal.

-Tu Inácio, tu és um gênio, Inácio e serás o nosso "Neymar" nos negócios!


Copirraiti12Mar2014
Véio China©

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22 de mai de 2017

Oficina de escrita literária Inspiraturas, em Pelotas

Oficina de escrita literária Inspiraturas
- o fim da página em branco -
A ti, que ainda acreditas na escrita, em especial a Poesia, como fonte de cura; e  aos iniciantes ou amadores dos textos artísticos, INSPIRATURAS oferece os mais lúdicos, criativos e inspiradores desafios que, realmente, agregarão resultados positivos à produção de textos em verso ou prosa.

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Num ambiente informal e divertido, poderás transformar os teus sonhos em belas criações literárias e desenvolver o teu estilo pessoal de autoria. Tudo com atencioso acompanhamento individualizado.


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Declamação de poemas

clip_image002DECLAMAÇÃO DE POEMAS - O declamador deve compreender perfeitamente o que está dizendo, isto é conhecer o poema, saber o que significa cada termo do poema, bem como sua correta pronúncia. Também dever entender a pontuação, para poder fazer as pausas adequadamente. É comum ver-se um declamador recitando um poema verso a verso, quebrando o sentido da frase, ou da expressão. A mensagem deve ser interiorizada em sua alma. É impossível transmitir com verdade algo que você não acredita. Como falar ao outro se você mesmo não se convenceu daquela mensagem? Não tente escolher um poema famoso ou sério caso você não goste dele; qualquer tipo de poesia pode ser interpretado.

MEMORIZAÇÃO - Memorizar um poema, não é apenas decorar os seus termos. È recomendável que a memorização ocorra simultaneamente com a interpretação.

POSTURA CÊNICA, INTERPRETAÇÃO E VOZ - Os gestos não devem ser muitos, nem exagerados, devendo ser coerentes.

Uma declamação simples não consiste em ler em voz alta um poema somente, a graciosidade está na adoção de uma voz dramática para o texto assim como expressões faciais e gestos coerentes que são muito bem-vindos. É possível ler o verso e declamar parte dele olhando para a assistência quando parte dele foi decorada. Recitar um poema decorado sem expressão nenhuma é o mesmo que fazer uma leitura ruim. Importa é que, decorando, pode-se utilizar uma postura mais expressiva.

A prática de bater os pés nas sílabas fortes é muito criativa, didática e em excelente caimento para todos os tipos citados acima. Ela tem origem nos poetas antigos que seguiam o sistema greco-latino de metrificação denominado pé justamente por esta razão.

Necessariamente haverão de ser indicados o nome de seu autor e o título do poema , antes de iniciar a declamação.

Tome notas diretamente sobre o poema escrito para marcar a sua forma de lê-lo. Faça notas diretamente sobre ele para dizer a si mesmo quando pausar, retardar o ritmo, gesticular ou alterar o seu tom de voz "marcando o poema". Você pode ter que experimentar com diversos estilos diferentes antes de encontrar algo de que goste. Indague-se quanto ao que pode soar melhor, leia desse modo em voz alta e descubra se você está certo.

Pense quanto ao que combina com o poema. Um poema dramático pode ser interpretado com grandes gestos e extremas mudanças na expressão facial. Um poema referente à visão sossegada de uma colina deve ser lido lentamente e com voz calma e tranquila.

Pratique ler o poema mais lentamente do que o pretendido. Quando você está à frente de uma multidão, é fácil permitir que o nervosismo e a adrenalina lhe apressem. Mesmo no caso de um poema que deve ser lido rapidamente, pratique começar lentamente e acelerar à medida que ele se faz mais empolgante ou tenso. Pause onde for natural, de modo que a interpretação pareça mais fluída. A pontuação deve ser lida e interpretada.

Concentre-se nas palavras mais do que na atuação. Mesmo um poema dramático deve se tratar primariamente do próprio poema, e não dos gestos e das vozes produzidos. Você pode ser mais exagerado do que na vida normal e cotidiana, caso creia ser mais adequado ao estilo do poema, mas não distraia às pessoas do significado real das palavras.

Tente falar cada palavra claramente. Não "engula" o final da sentença, deixando-a pouco clara ou silenciosa.

Se você não está certo quanto a quais gestos são apropriados, mantenha os cotovelos soltos ao lado do corpo e coloque uma mão sobre a outra, à sua frente. A partir dessa posição, você pode fazer pequenos gestos que pareçam naturais, ou manter-se imóvel, mesmo que sem rigidez.

Praticar frente a um espelho é uma ótima forma de conseguir uma ideia a partir da perspectiva da audiência. Você pode também gravar um vídeo de sua interpretação e assisti-lo posteriormente para conseguir ideias quanto ao que parece natural e ao que funciona ou não.

Respire fundo diversas vezes antes da interpretação. Isso melhorará o seu som e também acalmará o nervosismo.

Mantenha uma boa postura. Além de lhe fazer parecer confiante e preparado frente à audiência, manter-se com as costas eretas lhe ajudará a falar alta e claramente, de modo que todos lhe escutem.

Faça contato visual com a audiência. Enquanto você interpreta, deve estar olhando diretamente rumo aos olhos dos membros da plateia. Mova-se entre eles com frequência.

Faça com que a sua voz transporte toda a audiência. Há formas de fazer a sua voz soar mais alto e claramente sem gritar. Mantenha o queixo levemente elevado, os ombros para trás e as costas eretas. Tente falar a partir da parte baixa do peito, e não a partir da boca e da garganta.

Pronunciar cada palavra distintamente também ajudará a sua audiência a lhe entender.

Traga um copo de água para o palco, a fim de refrescar a voz se a interpretação durar por mais de um ou dois minutos.

 

Fonte: http://pt.wikihow.com/Interpretar-um-Poema

20 de mai de 2017

Enganos, por Véio China

Enganos

A dor se manifesta, mas não se imprime
Em tonalidade de lamentos, ou se lança
Ao calor dos beijos que passado refuta
Ou aos murmúrios cálidos de um amor
Que muitos sabem, desabou fracassado

Dores não se alardeiam ou partilham
São solitudes pactuando penitencias
Ao silêncio das paredes dum quarto
Repleto de roupas, livros, cobertores
Cúmplices mudos à ordem dos fatos

Assim é a dor; um eterno desafio a autoestima
Privilegiado aquele que por ela se sentir tocado
Pois paulatinamente sem notar, os insensíveis
Amargam-se abandonados como um cão vadio
Refém da rudeza duma vida onde não há afago

Logo, dor maior é aquela que nos trancafia na redoma das inverdades
Nas mentiras ditas por nós aos nossos olhos encharcados de poeiras
A vislumbrar ansiedades que persistem, mas recusam o arfar do peito
Na farsa consentida pelo coração que ao tempo transformou cúmplice
O pulsar cruel e disrítmico diante a fragilidade nostálgica das emoções

Copirraiti17Mai2014
Véio China©

Bloody_e

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Véio China, um poeta? Contista? Talvez nem um, nem outro. Mas apenas se diverte escrevendo

19 de mai de 2017

Trova, sextilha, cordel, martelo agalopado

clip_image002TROVA - é uma composição poética que deve obedecer as seguintes características:

1.Ser uma quadra. Ter quatro versos.

2- Cada verso deve ter sete sílabas poéticas.

3- Ter sentido completo e independente. O autor da Trova deve colocar nos quatro versos toda a sua ideia.

A rima poderá ser do primeiro verso com o terceiro e o segundo com o quarto, no esquema ABAB, ou ainda, somente do segundo com o quarto, no esquema ABCB.

EXEMPLO DE TROVA:

Eu-vi-mi-nha-mãe-re-zan-do

Aos-pés-da-Vir-gem-Ma-ri-a

E-ra u-ma-San-ta-es-cu-tan-do

O-que ou-tra-San-ta-di-zi-a

Para atender à métrica, hiatos podem transformar-se em ditongos (Sinérese) e ditongos transformar-se em hiatos (Diérese) Ex Su-a-ve por Sua-ve (3 viram 2)

Sau-da-de por Sa-u-da-de (3 viram 4)

Quando duas vogais não tônicas se defrontam, faz‑se obrigatoriamente a elisão. Exemplo: Des|de o |di|a em | que | Do|lo|res (elisões na 2ª e na 4ª sílaba)

Quando, de duas vogais que se defrontam, apenas uma é tônica, recomenda‑se fazer a elisão, embora, em casos excepcionais, pelo ritmo do verso, alguns trovadores prefiram separar as sílabas, como vemos aqui:

O | co|ra|ção | mor|re an|tes

Quando duas vogais tônicas se defrontam não se pode fazer a elisão, sendo obrigatória a separação das sílabas. A |Da|dá |é |mui|to |da|da

 

 

 Literatura de cordel

Literatura de cordel também conhecida no Brasil como folheto, é um gênero literário popular originado em relatos orais e depois impresso em folhetos. Remonta ao século XVI. O nome tem origem na forma como tradicionalmente os folhetos eram expostos para venda, pendurados em cordas, cordéis ou barbantes em Portugal.

As histórias que têm como ponto central uma problemática a ser resolvida através de inteligência e astúcia para atingir um objetivo. O herói sofrerá, vivendo em desgraça e martírio, sempre fiel ao seu amor ou às suas convicções, mesmo com as intempéries. Ao fim de tudo, o herói será exaltado e os opositores humilhados. Se assim não for, haverá outro meio de equilibrar a situação, que durante quase toda a narrativa permaneceu desfavorável ao protagonista.

Poética do cordel

Sextilha - Estrofe de seis versos de sete sílabas, com o segundo, o quarto e o sexto rimados; verso de seis pés, colcheia, repente. Estilo muito usado nas cantorias.

Septilha - Estrofe (rara) de sete versos; setena (de sete em sete). Na septilha usa-se o estilo de rimar os segundo, quarto e sétimo versos e o quinto com o sexto, podendo deixar livres o primeiro e o terceiro.

Oitava - Composta de oito versos (duas quadras), com sete sílabas. A rima na oitava difere das outras. O poeta usa rimar a primeira com a segunda e terceira, a quarta com a quinta e oitava e a sexta com a sétima. Quadrão: (AAABBCCB)

Décima - Estrofe de dez versos, com dez ou sete sílabas, cujo esquema mais comum é ABBAACCDDC, empregada sobretudo na glosa dos motes e nas pelejas.

Martelo - Estrofe composta de decassílabos, muito usada nos versos heroicos ou mais satíricos, nos desafios.

Galope à beira-mar - Estrofe de 10 versos hendecassílabos (que tem 11 sílabas), com o mesmo esquema rímico da décima clássica ABBAACCDDC, e que finda com o verso "cantando galope na beira do mar" ou variações dele. Termina, sempre, com a palavra "mar". É considerado o mais difícil gênero da cantoria nordestina, obrigatoriamente tônicas as segunda, quinta, oitava e décima primeira sílabas.

Repente - (conhecido também como Cantoria) é uma arte brasileira baseada no improviso cantado, alternado por dois cantadores, daí o nome repente. Possui diversos modelos de métrica, predominando os versos heptassílabos e decassílabos. A rima usada é a rima perfeita. Há dezenas de modalidades do repente, entre elas a sextilha, o martelo agalopado e o galope à beira-mar.

Pajada - poesia oral improvisada em Décima Espinela (abbaaccddc) no estilo recitado e acompanhada de violão. A trova é uma construção poética improvisada em sextilha. Suas rimas são abcbdb e seus versos são cantados ao acompanhamento de acordeon.

Fontes: Wikipédia e Dicionário Aurélio

18 de mai de 2017

Entrevistando um grande escritor... ( Uma história forrada de nostalgias, críticas, e garrafetas de vodca)

Entrevistando um grande escritor... ( Uma história forrada de nostalgias, críticas, e garrafetas de vodca)

Tudo aconteceu muito rápido, e penas chegou e me flagrou num banco de jardim, precisamente no Parque da Luz. Mas não foi somente este o fato, e evidente, surpreendia-me  as vigorosas estocadas do seu indicador no lado esquerdo do meu ombro. Incomodado, remexi-me de um lado para outro e ele me pareceu perplexo, talvez  até por ter-me surpreender-me (antes do susto) num diálogo absurdo com a árvore cravada atrás de mim. Provavelmente o sujeito não soubesse ou, quem sabe, achara que eu enlouquecera por completo. Mas não era nada disso e apenas criava cenas e as falas das minhas novas personagens, estudando meticulosamente cada um dos movimentos, já que  fariam parte do meu próximo livro.
E em se falando do  romance, o mais provável é que contasse com o ovo no cu da galinha, pois nem mesmo me dera ao trabalho de sair à caça de algum maldito editor que tivesse a suficiente coragem de publicá-lo. Bem, deixando os editores de lado, o que importa é que o garoto aportava ali no momento que minha mente produzia frases tórridas para um imaginário casal de meia idade que se bolinava, escorados na árvore em questão.

E me sentia bem, pois a imaginação voava como há muito não fazia. E eu gostava daquilo, e colocando mais lenha à fogueira vislumbrei ações em alta temperatura, as mãos do homem deslizando pelas costas da mulher, repousando sorrateiras num bumbum bem formado e generoso. Sim, sobre a dona dos glúteos avantajados, Sophia, poderíamos considerar que ela é muito bonita, e não só ela, e assim também o elegante tailleur cinza que vestia.
Logo, insistindo nas cenas  fiz todos perceberem que ali estava uma dona de classe, fato escancarado no sofisticado  e estiloso echarpe de seda chinesa que contornava delicadamente o seu rosado pescoço.

Entretanto o seu rosto de querubim somado as outras tantas evidências dum requinte social, não escondia dos transeuntes a sua escassez de recato. E a carência dos bons modos se contrapunha aos poucos minutos anteriores, onde ela e o namorado, caminhando pelas pequenas ruas arborizadas não se desgrudavam das mãos e nem dos sorrisos.
Portanto não seria de admirar que as pessoas que zanzassem pelo local apostassem suas fichas na compostura daquela mulher de fino trato, e que o atrevimento do namorado seria passível  duma  descompostura em regra. Mas assim não ocorreu, pois não se percebeu nela a inocência dos amantes incautas, já que as mãos do homem pareciam estimula-la, fato cristalizado diante os gemidos da mulher e de suas mãos de unhas encarnadas acariciando as nádegas do homem, excitadas.
E assim fiz as cenas persistirem, e eles se sussurravam obscenidades, beijando-se,  tocando a crueza de suas línguas sem se importarem com os protestos de um grupo de quatro velhotas que há poucos metros dali tagarelavam suas fofocas.

-Senhor Oldman! Senhor. Oldman! O zelador do seu prédio disse que eu o encontraria aqui  – O rapaz insiste e interrompe o exercício de minha imaginação. O tom de sua voz é jovial e entusiasmado. Claro, sua interrupção me irrita.

-Sim, ele disse, mas, o que posso a ter com isso, rapaz? – Devolvo com feição de poucos amigos. Evidente,  não me ocorriam os motivos de estar me cutucando daquele modo.

-Ah sim, desculpe-me senhor Oldman! Falha minha em não apresentar-me!  - Ele exclama.
-Sim, e quem você é? - Questiono
-Ah, o  meu nome é Arlindo Augusto, e estou aqui para um trabalho do meu grupo de Universidade - Ele devolve

-Hã? Universidade? Sim! Mas.. o que tem a ver comigo? –  Insisto contrariado enquanto o garoto retira o dedo do meu ombro.

-Bem, é que o trabalho vale uma ótima nota. Inclusive a ideia de entrevistá-lo foi minha. Sabe senhor Oldman, sou seu fã número um, e ficaremos felizes ao nos concedesse a entrevista.

-Ai meu Deus! Universitários não! – Gemo para ele.  Se havia coisa que me deixava acabrunhado eram esses fanfarrões universitários. Porém eu não podia simplesmente desaparecer com a sua imagem assim como fazia com as personagens. Retorno à carga.

-Tá bom meu rapaz! Mas..já que tinham que enviar alguém, porque não mandaram uma daquelas gostosas que certamente há em seu grupo ? -  Ele pensa por instantes e sorri sem graça.

-Bem senhor Oldman...a culpa não foi minha, juro! Até que tentei trazer uma delas, pois sei das suas facilidades quando estás diante dum bom par de pernas! - Ele se justifica, e completa: -Sei de tudo, pois tudo está nos seus livros.
-Nos meus livros, é?  Sim...Mas..por que eu? - Replico  - De fato eu estava curioso para saber como chegaram até mim.

-Bem, senhor Oldman, foi assim que aconteceu...Numa lista prévia de escritores sobraram três, e o senhor entre eles. E o seu nome foi à votação, e... - Ele explica, reticente, talvez acreditando que devesse me sentir feliz com a escolha.  Acho o fato engraçado e resolvo fazer parte da brincadeira.

-Nossa que ótimo! Olha...Eu lhes fico muito grato pela unanimidade,  e pelo reconhecimento! - Dissimulo com certo orgulho.

-Bem senhor Oldman, também não foi bem assim - Ele devolve timidamente e conclui: É que um deles morava em Recife, o outro em Maceió, e ambos afirmaram que só concederiam a entrevista se estivéssemos lá, pessoalmente.
-Uai! E por que não foram? - Replico desencantado e já sem o orgulho.
-Bem.. Sabe como é, né senhor Oldman...A vida de estudante é dura... mal sobra grana pros cineminhas de domingo, imagine então para as viagens... - Arlindo divaga. Merda! Sei que não deveria, mas a justificativa me irrita profundamente

Puta que pariu, odeio universitário! - Obviamente eu fora eleito por exclusão.
Arlindo percebe a minha irritação, talvez preocupado que a entrevista terminasse antes mesmo de iniciar. Ele me olha constrangido, e sei lá por qual cargas dágua resolve reportar os bastidores da votação do Prêmio Nobel de Literatura Universitária.

-Sabe senhor Oldman, nós os homens, éramos a maioria dos votantes, e só foi fecharmos com o seu nome e as garotas tirarem o corpo fora da escolha. Elas disseram assim "Já que querem esse sujeito...Então o problema é totalmente de vocês!" – Arlindo relata impregnado dum risinho imbecil. Aquilo me deixa curioso.

-Mas...Por que tiraram o corpo fora? 

-Ora, senhor Oldman, convenhamos... Há nas tuas histórias muitas marcas de escândalos, fofocas, assim como em suas andanças os rastros de  mulheres se pegando à tapa, entre outras coisas piores. Portanto... para os que leem a sua obra é como ter aceso à xerox autenticada dos seus procedimentos... -
-Ah..entendi. E sendo assim elas... - Ele não me deixa terminar
-Fugiram deste encontro da mesma forma que o vampiro foge dos raios de sol – Arlindo conclui amorfanhado, levantando e deixando deixar cair os ombros.
Seu pensamnto me deixa perplexo. Não o que avalia a minha moral ou conduta, mas, a outro, aquele que fala do vampiro e raios de sol.

-Uauuu, garoto! Será que te ouvi direito?  Assim como o vampiro foge dos raios de sol? Que frase magnífica! - Exclamo enquanto me olha surpreso.
Claro, a exclamação era puro sarcasmo, e mesmo que levasse em conta o fato do garoto ser meu fã, tudo me pareceu cristalino, um tremendo mala.

Permaneço com o olhar cravado nele e na apatia de sua feição que, a cada frase dita insistia em repetir o meu nome. E ele era atípico, pois quem detalhasse a sua aparência logo veria um desses rapazes como tantos outros que se metem a cursar o Jornalismo. Na sua fisionomia raquítica e cheirada à indolência sobressaia suas longas pernas que mais se assemelhavam a tacos de bilhares que se metem numa calça jeans. Acima do rosto, os fartos e encaracolados cabelos destoavam do ralo cavanhaque aloirado que ostentava no rosto afunilado. Seus lábios eram largos e finos, mas havia alguma expressão em seu olhar, pois procurava nele coisas que o identificassem com o público leitor. Também analisei  seu tórax e braços, e mesmo que fosse desprovido de músculos questionei se ele não seria uma boa personagem para a minha história. Sim, e por que não? Talvez eu pudesse colocá-lo numa das cenas do “ménage à trois” com o desespero daquele duo de amantes quarentões.
Ah, sim, falemos sobre os meus amantes. Bem...Sobre eles poderíamos concluir que são fruto dum casamento igual a tantos outros que, em certa fase convive com o conformismo dos beijos e trepadas que não mais carregam ranços de paixão. Logo, não há as bolhas provenientes de fervura, pois estão atolados à mediocridade da rotina destrutiva e do "nada eu faço, nada tu fazes, e nada faremos nós". E é justamente o que se dá com meu casal. Entretanto há alguma luz, e os faço perceber o que se ocorre á volta e os faço empreender mudanças. Claro, algumas delas são drásticas,  radicais até, aliás, como ocorre com eles ao tratarem dum limoeiro doente, no entanto, esperançosos que,  mesmos caídos, os limões debilitados ainda resultem na limonada que amaina a sede.
Certamente, tais fatores são aflorados à minha percepção de vida, principalmente aqueles que dizem sobre os sentimentos, pois para mim o amor se assemelha a um bólido que desaparece das vistas numa  auto-estrada sem  fiscalização. E penso assim, já que experiência não me torna ignorante, e nem me obriga a desconhecer que é preciso muita perícia para que o amor alcance o seu destino, isento de acidentes.
Assim reputo, pois agora sei que o amor  requerer calma e muita prudência, desafeto que é  do grotesco das nossas falhas e desacertos que, dependendo da conjuntura poderá nos  inviabilizar outra oportunidade.
E essa era parte da trama, e eles mereciam outra chance. E um deles é Marcos, talvez 43, um advogado criminalista que jamais enfrentou  o tribunal do júri, quer fosse defendendo os milionários do narcotráfico ou os apelos dramáticos dos crimes passionais.  Não, com ele tais defensorias jamais ocorreram, pois logo após  a formatura e num raro golpe de sorte assumiu por bagatela  e por prazo estendido uma pequena loja no ramo das peças. Agora, passados  15 anos seus negócios prosperaram e há um imóvel de sua propriedade que  ocupa meio quarteirão numa caríssima avenida comercial, um dos campeões nacionais no segmento das autopeças.
Com a esposa as coisas não foram muito diferentes. Ela é dois anos mais nova, psicóloga, uma dessas que jamais clinicaram ou mantiveram consultório próprio. Sim, é a verdade, pois igualmente saiu dos bancos da universidade para uma noite de núpcias numa humilde pousada  do interior de Minas Gerais. Não, não estranhem a situação, já que à época não tinha um gato para puxar pelo rabo. Entretanto, inteligentes e com ótimo aproveitamento diplomaram-se às custas da União. Agora pasmem, ela, Sofia, casou na plenitude da virgindade.

- Senhor Oldman, senhor Oldman.. Pode ou não pode nos conceder a entrevista? – Outra vez suplica ao enfiar (de novo) o dedo no meu ombro. Outra vez me vejo extraído do surto criativo. Obviamente, tinha que ficar puto da vida.

-Moleque do cacete, por que tu não abaixa essas calças e enfia a ponta desse teu dedo no rabo? – Esbravejo retirando bruscamente seu dedo da minha pele.

-Oh senhor Oldman, por favor, me perdoe! Não tive a intenção de machuca-lo – Ele justifica desapontado. E desta vez me pareceu tão desalentado que levou o seu olhar para o desgastado par de coturnos.

Depois da bronca me arrependi, e assim abrandei a raiva nas linhas do meu rosto. Subitamente Arlindo levanta o olhar e ele  parece ser frágil como a alma artista, igual a esses que brincam  com malabares de fogo nas noites frias de inverno. Repenso em sua participação em meu livro e definitivamente concluo que tanto seu biotipo como o espírito não condizem com o erotismo das cenas, portando, decido descarto-lo da cena que ocorreria num lugar próximo e por mim conhecido. Bem, talvez Arlindo Augusto nem quisesse estar naquele quarto miserável de um hotel vagabundo e destinado às prostitutas. Talvez fosse essa a forma encontrada encontrada por mim para punir o abastado casal. E já decido pronuncio:

-Bom, paciência, Arlindo! Não será desta vez que você atuará em meu romance – Sentencio antes que retorne  ao meu juízo perfeito. O garoto me olha surpreso e eu peço que inicie a entrevista. Entretanto parece que minhas falas o deixei bolado.

-Incluir-me no romance?  Como assim senhor Oldman? – Ele pergunta. 

-Ai meu Deus, tinha que arrumar sarna pra me coçar? - Recrimino a mim mesmo.
-Diga, diga senhor Oldman! O que o senhor pensou para mim? - Ele insiste
-Ai Jesus! Nada não, Arlindo Augusto, deixemos essa conversa para lá! - Ele parece compreender meu tom decisivo, mesmo que não saiba o por que.

Ainda surpreso, solicita a permissão para sentar ao meu lado, e damos início ao seu trabalho. Permito  que sente e escorrego para a beirada do banco no aguardo das perguntas. Arlindo assenta as nádegas na porosidade do concreto e abre a  sua mochila retirando do interior o aparelho celular. Em seguida aperta algumas teclas de comando e num gesto brusco e desajeitado o coloca bem rente minha boca, quase tocando-me os lábios. Faltou-me pouco para manda-lo à merda, entretanto  relembro a bronca  e refreio minha intenção. Repentinamente retira o aparelho de minha boca e o move para a sua e exclama algumas palavras. Para mim foi demais;  Ele esquecera de testar o nível da gravação

-Um, dois, três, testando! Som, som, som! –  É o que ele fala para um minúsculo orifício no celular. Meu Deus! “Um dois três testando..som..som..som”  Repito comigo e continuo a rir. Definitivamente, Arlindo Augusto era mais que mala, talvez,  babaca fosse pouco. Bem, depois de verificar que estava tudo em ordem deu a partida para a sua entrevista.

-Senhor Oldman, são passados cinco anos de sua última publicação. O que o faz tão ausente do mercado literário?

-Bem meu jovem...acho que a cabeça não está produzindo o suficiente

-Faltam ideias, senhor Oldman?

- Não, talvez esteja transbordando. Porém o volume de ideias é tanto que me confunde, e o meu comum é misturar as coisas ao coloca-las no papel. E o problema reside aí, pois percebo na confusão que meto as minhas idéias, um verdadeiro balaio de gatos pardos.
-Não coordena suas ideias coerentemente, senhor Oldman? - Ele pergunta, surpreso.
-Olha...não que eu seja um descoordenado, não é isso. E o mais que provável é que idade esteja pesando e eu numa estrada onde o inexorável é a velhice. De uns tempos para cá ando demasiadamente preocupado comigo, com as doenças, o alzheimer,  e esse maldito o meio que nos cerca.

-Mas...e quais seriam esse preocupações, senhor Oldman?

-Bem, ando preocupado com tantas coisas. Com os preços nos supermercados, com o desabastecimento de água. Sabe,  Arlindo, estou apreensivo e inconformado com o valor das aposentadorias, com a conta do restaurante por quilo, a falta de crédito, as orgias esparramadas pelo país, com drogas e drogados, repressores, com  os bêbados e cirroses.. - Nesse ponto faço uma pausa.
-Caraca! O senhor é mesmo preocupado com as coisas, eim senhor Oldman?
-Ah, isso eu sou! Hum...E com as balas perdidas, e com  sujeitos que possam me "acertar" nos cruzamentos do país - Replico num tom alarmista, dramático até.
-Poxa! como o senhor é pessimista, senhor Oldman! - Ele diz recolhendo os ombros e arregalando os olhos. Entretanto era bom que ele soubesse que minhas lamúrias ainda não tinham terminado. Continuei.
-E agora há o pior, Arlindo Augusto...Você sabia que o Viagra parece não ser eficaz tanto quanto antes? 

- Hã! Com assim, senhor Oldman... O Viagra deixou de ser eficaz! Ora! Mas qual é a correlação que existe entre o medicamento e a literatura,  ou mesmo com com o processo criativo? Não entendi, senhor Oldman! - Ele devolve, perplexo.

-Ora, meu jovem! Em minha opinião tem tudo a ver, meu rapaz! A pílula azul já foi mais eficiente ao manter elevada a autoestima de sujeitos como eu. Logo, o que me preocupa é a eficiência do medicamento, pois se de fato nada mudou em sua fórmula, significa que a droga sou eu! - Depois de ter soltado essa preciosidade, óbvio, me arrependi, pois não existia qualquer necessidade de deixá-lo a par do meu problema eréctil. E isso foi um erro, já que não deixou passar em branco:

-Hahaha! A droga é o senhor! Essa foi muito boa, senhor Oldaman!  - Ele ri divertido, enquanto curva o dedo polegar para baixo. Depois assume a feição séria e diz: - Olha, não encuca com isso senhor Oldman. Talvez seja apenas fase, passageiro, e tudo voltará ao normal. Provavelmente é algo que esteja prejudicando a absorção medicamentosa – Ele ameniza com  algumas reticências. Porém percebo nele  o incentivo. 

- Bem, Augusto, obrigado. Mas carrego as minhas culpas, pois aos  65 continuo fumando mais de duas carteiras de cigarros por dia, e isso há mais de meio século.  Sabe...talvez  eu esteja no fim da validade, ou coisa assim. Entretanto ouça com a máxima atenção aquilo que vou dizer; Entre a Terra e o espaço sideral sempre haverá mais mistérios que a  nossa inútil filosofia possa decifrar.. - 

-Opa! Já conheço esse bordão, senhor Oldman, aliás, não exatamente com essas palavras. Porém não compreendi  essa coisa dos “planetas e as estrelas e nem a sua desistência em produzir algo  relevante nesses anos de ostracismos –  Ele devolve numa tonalidade abafada. Olho para ele, e ele está entretido com alguns pombos apressados, pezinhos lépidos, daqui pra lá, de lá pra cá à procura de algum alimento. Talvez fosse esse o momento dele saber o real motivo de me distanciar da literatura:

- Bem, senhor universitário, vou explicitar para que a ficha te caia melhor; Quando uma cabeça não funciona dizem que o corpo padece. Quando ambas cabeças não funcionam, bem, ou estão em pane, ou refém de outra possibilidade. Logo, no meu caso, ou escrevo um monte de asneiras, ou limpo as lentes bifocais com detergentes poderosos para me esbaldar em filmes de putaria na internet. E pelo jeito tenho optado pelas duas... -  Depois de soltas as palavras fiquei pensando porque dissera aquilo. Novamente ele não me poupa:

-Hahaha... O senhor ainda assiste a esse tipo de filme, senhor Oldman? Por acaso é carência?

-Quer saber garoto? Carentes todos somos e seremos sempre, pois a carência é implícita à natureza humana! Poderia até estar mais se não me fosse  a pródiga memória. Sabe, não sou sambista, aliás, detesto o samba, mas há uma letra de um desses sujeitos que é espetacularmente sábia.

-E u também não gosto de samba, mas, o senhor se lembra do título ou quem canta?

-Não, não me lembro, só de parte da música, principalmente o trecho que diz “Recordar é viver, eu ontem sonhei com você”  E é assim que funciona a vida, garoto, logo, vivemos mais  para as recordações que para as realidades, talvez até porque poucos de nós aceitem envelhecer  sem um olhar sedutor no passado.

-Opa! Será que o seu pensamento anda largado em alguma de suas mulheres daquele tempo Sr. Oldman? E digo isso pelo fato de todos sabermos o quanto o senhor foi mulherengo...

-Mulherengo? Ô garoto, acredito que esteja  me confundindo  com o falecido Jesse Valadão! Então...Mas não há nada de abandonos em mulheres do passado, mas apenas no status quo de outrora. Há a saudade dos meus cabelos negros e fartos. Há a saudade das calças “Levis” boca-de-pito. Há saudade até do tênis “Bamba”, branco, assim como toda lembrança das minhas camisas rendadas e coloridas, que combinavam perfeitamente como os meus sapatos Cougar. Lembro que tinha três pares de cores diferentes; verde, vermelho e amarelo.

- Nossa senhor Oldman! Sapatos verdes, vermelhos e amarelos, e ainda por cima camisas rendadas? Isso que é ser antigo, eim?  As suas lembranças devem fazer parte dum antiquário! – Ele devolve com chacota.

-Sim, eu sou o antiquário em pessoa! E isso porque ainda não falei dos Beatles e nem de “Let it Be”. Não te segredei o que era subir a Rua Augusta grudado na cintura de uma garota de peitos  GG. Você já assobiou “Its too late” da Carole King ou “Atlantis” do Donavan? Não, né? Então...  e também sinto saudades dos  “cremes rinses” daquela época. É sim, pois eles nada tem a ver com essas porcarias de condicionadores de cabelos que são fabricados nos dias de hoje.  Eles sim conferiam  um look todo especial . 

-Nossa, creme rinse? Nunca ouvi falar - Ele tripudia - Bom..apesar que acho que o seu passado  deve ter sido um lance bacanérrimo, né senhor Oldman?

-Sim, foi....e outra... - Novamente me interrompe já engatado numa nova pergunta
-Senhor Oldman, poderia nos dizer quais eram as curtições daquele tempo, inclusive, as mais quentes? -  Ele pergunta e olha pra mim com certa malícia. Óbvio, percebo o que ele quer, mas decido deixá-lo ansioso e relato fatos mais amenos.

-É assim meu rapaz, muitas foram as curtições.  Uma delas era que a minha geração adorava tomar café no Aeroporto de Congonhas durante as madrugadas. A outra, degustar uma boa sopa de cebola num restaurante simples e próximo ao Ceasa. Entretanto os lances mais badaladas eram os bailes de bairro. Neles predominavam os efeitos das luzes. Eram bailes cobrados, alguns com conjuntos tocando ao vivo. Mas a diferença estava mesmo naquelas lampadas mágicas, luzes negras e estroboscópicas causando efeitos que deixavam nossas roupas brancas e os dentes com uma aparência fosforescente, algo quase azul neon, assim como os letreiros dos Pubs de hoje.

- Nossa senhor Oldman, acho que o senhor foi um arraso! Imaginando aqui o senhor dançando com uma ninfeta da época, colando o rosto, pernas, seios... - La vinha ele novamente.

- Ah meu rapaz, nem tanto... – Respondo demonstrando a humildade que não possuo. 

- E o senhor se recorda de algumas passagens pitorescas? – Os olhos dele brilham. Foi então que notei que ele pretendia que entrássemos diretamente ao assunto.

-Ta certo, entendi, garoto! Bem...Lembro de uma ou outra. Certa vez dei uma trepada  rapidinha com uma garota que conhecera dentro do ônibus da Breda Turismo. Era uma viação que fazia  a linha no litoral sul do estado de São Paulo e tinha por destino a cidade de Peruíbe

-Nossa! E como foi isso de fazer amor dentro de um ônibus? Deu certo?

-Para nós deu. Talvez nos assentos do carro houvesse meia dúzia de pessoas. Logo após a partida uns rocavam aqui, outros ressonavam acolá, pois é comum às linhas noturnas partirem com poucos lugares ocupados. Como de hábito comprei o último assento, solitário. Ao entrar no ônibus vejo uma  garota sentada na terceira ou quarta fila. Ela era bem bonita e tinha em sua cabeça uma dessas faixas que trazem frases do mundo do rock, coisa bem comum nos anos 70.  Era uma com frase de Jim Morrison, tipo assim - “Alguns nascem para o suave deleite; outros para os confins da noite”. Conclusão; Eu adorava Morrison, portanto me amarrei nela e no seu adorno... 

-Ah, certamente ela também deveria ser fã do Jimi Hendrix e da Janis Joplin! – Ele me interrompe, brilhantemente, diga-se.

-Cara, estou perplexo! Você deve ser um gênio! Que dedução magnífica! – Replico entusiasmado. Ele sorri sem jeito, talvez levando ao pé da letra a falsa lisonja. Porém não me senti um crítico solitário, pois naquele instante os pombos arrulharam em grupo, espalhafatosos.

-Sim, e o que aconteceu, senhor Oldman? – Ele me parecia frenético ao esfregar a mão com rapidez no tecido da perna direita.

-Calma rapaz, já te conto. Bem, não sei se sabe, mas sempre fui um cara de pau, logo, sentei-me ao seu lado e puxei conversa. Foi mágico! O papo fluiu como nos conhecêssemos há anos. Estávamos falando há uns 10 ou 15 minutos e passava um pouco da uma da manhã quando a convidei para sentarmos onde tinha o assento comprado. Ela me olhou e me ofertou um sorriso incógnito e prontamente se levantou...

-Conta...conta...conta logo senhor Oldman! – Ele pediu eufórico, agora batendo o punho direito contra a perna.

-Fique tranquilo meu jovem – Acalmei-o e continuei; Bem...já sentados nos últimos bancos e após conversamos por 10 minutos reclinamos os bancos e começamos a nos acariciar. Ela era uma delícia e sussurrava baixinho e seus gemidos se fizeram tão sensuais que lembrei dos filmes estrelados por Brigite Bardot. Ah, o biquinho que ela fazia quando dizia "Mon amour" me matava! Bom, não demorou muito e pulei para o banco ao lado e me deitei sobre ela. Daí ficamos num rala e roça insano, até que, com alguma dificuldade arriei a calça jeans. Para ela foi mais fácil, já que estava de mini-saia, e ela só teve o trabalho de desabotoar a blusa floral e para os seios saltarem ansiosos, escondidos que estavam num sutiã meia-taça. Sim, os peitos dela eram lindos! Um pouco mais de excitação e foi inevitável deixarmos de dar uma trepada das boas. Evidente que tomamos alguns cuidados, como o de gemermos baixinho para não acordarmos o pessoal dos bancos da frente. 

-Uauuuu! Que bárbaro senhor Oldman! Ah como gostaria de estar sentando no banco ao lado, incógnito, invisível. Ah, como gostaria de ter assistido tudo! – Ele exclama excitado. 

-Bom, foi isso, meu jovem. Depois nos limpamos com alguns lenços umedecidos que ela trouxera na bolsa. Agora...o estranho mesmo ficou por conta do meu rabo, de fora, indo de um lado para o outro conforme as curvas efetuadas, pois a Serra do Mar é um festival delas, fechadas...Ah, e isso sem falar na maldita pressão nos ouvidos, algo que tem relação com o nível do mar.

-Poxa vida senhor Oldman! Acredito que foi uma aventura e tanto! – Ele concorda extasiado. Depois emenda outra pergunta: Ah, assim, Já que estamos falando em “fazer amor” recorda de algum outro caso inusitado?

-Garoto, vamos parar com esse papinho frouxo de “fazer amor”? Use uma linguagem menos coloquial, porra!

-Epa! Desculpe senhor Oldman. Tentarei me adequar! – Ele assente num risinho safado.

-Isso! Assim que se fala, garoto! 

-Então vamos lá senhor Oldman! Existiram outras trepadas tão  incomuns quanto essa?

- Sim existiram algumas. Tô lembrando aqui de algumas. Teve a da escada de incêndio, na sala do arquivo morto duma firma que trabalhei, algumas me aproveitando do "vai-e-vem" das ondas do mar. Você não vai acreditar, mas trepei até em sala de cinema!
-Caraca! Em sala de cinema, senhor Oldman?
-Sim, bum cine-teatro bem fuleirão. Pra falar a verdade eu era bem garotão e foi numa sessão das 3 da tarde ao dar o meu maço de cigarro praticamente cheio para uma strepper balzaqueana que fazia show no local.
-Nossa! Que barra eim, senhor Oldman!
-Pois é, foi barra. E, ah, teve uma ocasião muito esquisita. Só que nessa entrou areia! Acredita?.

-Hã? Como assim? O senhor foi flagrado com a boca na botija? Foi pego pelo pai, mãe, ou pelo irmão da garota?

-Não, não! Não foi nada disso! O problema não foi esse! Nessa entrou areia, mesmo, literalmente falando. Era também madrugada e transamos num areal de Copacabana, num terreno desocupado, logo atrás do parquinho de diversões em que ficamos boa parte da noite. Apagadas as luzes do parquinho, ficamos por ali e nos ocultamos em alguns arbustos e nos misturados às embalagens de sorvetes e de amendoins torrados demos cabo ao serviço. Naquela época eu curtia uma de ser mochileiro, e estava ali com a namorada para ver as escolas de samba no carnaval carioca. Porém a grana era curta, e a decisão era a de; Ou comprávamos os ingressos, ou dormíamos naquelas espeluncas do centro. Claro, optamos por ver as escolas, além, óbvio, de tomarmos banho de gato naqueles famosos chuveirinhos de praia.

-Caraca! Não imagina como seus fãs ficarão felizes por lerem essas preciosidades...

-Ah sim! Posso imaginar o riso estampado no rosto de meia dúzia de sujeito que perde tempo em me ler!- Devolvo com sorriso cretino e conformado. Eu também era filho de Deus.

-Poxa vida, senhor Oldman! Que relatos canas! Podemos finalizar a nossa entrevista com um bate pronto?

-Claro garoto! Mas vamos inverter a ordem; Agora sou eu que respondo enquanto você pergunta! Ok?

-Hahaha! O senhor é mesmo um grande gozador, senhor Oldman – Ele riu farto e inocente. Pra falar a verdade, começava a ir com a cara daquele garoto.

-Ok, ok! Você venceu baby! E para os vencedores batatas fritas! Manda ver, guri! – Ele sorriu novamente, encostou o celular próximo dos lábios e sapecou:

-Uma bunda!

-Ah sim, a bunda de Carla Perez - Rebato

-A bunda das bundas? – Ele pergunta, agora mais desinibido

-Bem garoto, olha que já vi muita bunda bonita, mas a de  Da Rita Cadillac era imbatível!

-Puta que pariu! A de Rita Cadillac? Por acaso é uma velhota que há uns 8 anos atrás fez um filme pornô  deitada sobre o  capô dum cadillac vermelho?

-Sim! Ela mesmo!

-Hum..entendi. Bem, e a sua maior decepção, senhor Oldman?

-Hum... talvez a minha maior decepção foi jamais ter visto os peitos de Grace Kelly

-Quem? Grace o que? Quem é, senhor Oldman ?

-Ah foi uma atriz dos anos...Ah, deixa pra lá garoto!

-Ok, não vou insistir. Ah, agora me diga; Há muitos enganadores nesse país?

-Ih meu rapaz! Esse país está abarrotado de enganadores. Mas, o maior deles é o governo! – Ele me olha assustado. Aquilo me preocupa, pois talvez eu estivesse na presença de um desses esquerdistas alienados e que não enxergam um elefante à frente do próprio nariz. Se fosse o caso a entrevista corria o risco de interrupção.

-É... nessa vou ter que concordar com o senhor, senhor Oldman! – Eu o ouvi quieto e com um certo alivio. E ele continuou:

-Deduzindo, senhor Oldman. Se existe enganador, existe quem se deixa enganar. Por acaso seria a tal  "Elite branca" o grande bobo desta nação?

-Elite branca? Bah, guri! Isso é conversa pra boi dormir! O grande otário é o povo brasileiro como um todo, principalmente os mais humildes que se deixam seduzir por alguns míseros trocados – Devolvo convicto.

-Hum, certo, certo – Ele assente. Depois me desafia; Senhor Oldman, vale um bloodmary a sua convicção política mais contundente.

-Ah garoto... Essa é muito é a mais fácil de todas!

-É? – Ele questiona

-É! - Confirmo  

-Então diga senhor Oldman!

-Fora Petralhas! – Exalto-me. Talvez a tonalidade da voz tenha sido tão contundente que todas as árvores do parque me ouviram. E não só elas, pois as pessoas que passavam nos olharam, até os pombos nos olharam, e arrulharam ainda mais alto, não sei se a pró ou contra a minha convicção política.

Ele me olha e sorri. Eu olho pra ele e devolvo o sorriso. Depois o convido para um drink. Ele parece não entender. Então tiro do bolso do paletó de lãzinha cinza duas pequenas miniaturas de vodca. Ele aceita de pronto.

-A nós –  Eu digo

-A nós –  Ele Retribue

Terminadas, repetimos os goles com outro par de garrafetas. Repentinamente ele dá um tapa na própria testa e diz "Que cabeça essa minha" Eu apenas olho sem nada compreender. Ele me comunica "Senhor Oldman, tenho um presente para o senhor" Agora quem é pego de surpresa sou eu.  Pego mais duas miniaturas e outra vez consumimos o conteúdo. Apalpo um dos bolsos e noto que ainda sobrara um par delas no paletó-adega. Então ouço o barulho do zíper de sua mochila, e ele saca do interior um estojo embrulhado num bonito papel laminado. Estou ansioso e ele me faz a entrega. Assim que me desfaço da embalagem os meus olhos brilham diante dum belo par de lentes negras. Olho o estojo com atenção e nele há a marca Ray Ban. Talvez os óculos fossem legítimos, talvez não,  e isso não me importou. Retiro da caixa e me desfaço da velha armação que estava em meu rosto e a substituo pelo novo presente.

-Demais, senhor Oldman! Ficou muito bom, bom mesmo! O Senhor ficou parecendo com Charles Bukowski! Ta igualzinho a uma foto dele nos anos 80 em Los Angeles – Ele exclama
-Quem é Charles Bukowski? - Brinco com ele.

Ele sorri e eu devolvo. Depois levanta-se para ir embora. Já em pé  me dá um forte abraço, caloroso, cheio de afeto, e aquilo me fez sentir importante, pois há muito tempo não me afagavam daquela forma.  Talvez achem que sou piegas, mas repentinamente tudo à minha volta pareceu ganhar vida, pois há um dia ou um momento na vida da gente que as coisas, por mais pequenas que sejam, tornam-se imensuráveis.
E aquele era o dia e o momento. As flores pareciam adquirir um novo colorido, e no rosto das pessoas mais alegria, e até os pombos e seus incontroláveis apetites pareciam outros, diferentes, arrulhos inquietos, mas que sugeriam paz.
Surpreendentemente sinto algo aguar os meus olhos,. Era como tivessem pingado gotas de colírio, que ameaçavam desabar. Entretanto eu era duro, portanto arregalei  bem os olhos e as consegui reter, não possibilitando ao rapaz ver o quanto havia de humano em mim. E com as lágrimas dominadas assim como os velhos e cansados leões, enfio a mão no bolso do paletó-adega e resgato as derradeiras miniaturas. Ele acolhe a sua com galhardia e a entorna numa outra única golada, enquanto consumo a minhas em goles mais comedidos. Terminadas, civilizadamente ele recolhe todos os frascos vazios que deixamos sobre o banco e os leva até a lixeira mais próxima. Depois volta e pega a sua mochila e verifica se não está deixando algo para trás. Com tudo em ordem  enfia o celular no interior e me dá um “Até breve” e eu devolvo num “Até a próxima” . E ele toma o seu caminho e segue em linha reta.

Eu o acompanhei por uma daquelas ruazinhas até onde meus olhos puderam distingui-lo. E no caminho ele brinca no cocuruto de algumas crianças, e ajuda um senhor de severa idade a se erguer do banco. Porém eu notava nele algo não sincronizado. E conforme ele segue pela alameda eu sorrio prazeroso, pois Arlindo Augusto dava evidentes sinas de confusão motora. Eu sabia que não demoraria para que tropeçasse nas próprias pernas num inequívoco estado de embriaguez,  mesmo que, por sorte, ainda em estágio inicial.

Sim! Não existia qualquer dúvida agora; Arlindo Augusto era um garoto legal.

Copirraiti26Jun2014

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Véio China, contista? Poeta?  Nada! Apenas escreve.Véio China, contista? Poeta? Nada! Apenas escreve.

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