Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

Oficina de escrita literária Inspiraturas, em Pelotas

Oficina de escrita literária Inspiraturas - o fim da página em branco - A ti, que ainda acreditas na escrita, em especial a Poesia, como ...

18 de jul de 2017

Cem poemas da NOP 2017

Verbos Abundantes, por Jorge Moraes

VERBOS ABUNDANTES

Por certo, muitas vezes, hesitamos no emprego de alguns verbos considerados abundantes, ou seja, que apresentam particípio duplo (particípio passado), tendo duas formas equivalentes, uma regular e outra irregular. O particípio, juntamente com o infinitivo e o gerúndio, é uma das chamadas formas nominais do verbo. E assim o é por não apresentar desinência modo-temporal ou número-pessoal. Reserva-se o uso a todas as pessoas, flexionando-se em gênero e número. Assemelha-se mais com um adjetivo do que com um verbo, razão para ser chamado de forma nominal.

O uso, conforme se constata, ainda que ao domínio e à força de vertentes gramaticais e linguísticas, maciçamente consagrou a forma irregular. E a tantos foi, é e será, mesmo infringindo procedimentos normativos. Vez por outra, o bom senso e a eufonia nos conduzem, automaticamente, a formas corretas. Vejamos: usemos os verbos auxiliares – ser/estar – ter/haver. ‘A galinha foi morta. (por algo ou alguém) – passiva.’ , ‘A galinha está morta (fria, inerte) – estado: adjetivo.’, ‘Eles haviam matado a galinha.’, ‘Eles tinham matado a galinha.’ Nota-se o uso do particípio irregular (o menor) com os auxiliares ser e estar e o emprego do particípio regular (o maior) com os verbos ter e haver. São consideradas, também, como formas sintética a (menor) e analítica a (maior).

O particípio irregular termina, habitualmente, em –to ou –so e tem sua origem na língua latina ou em um substantivo que passou a ser empregado como verbo, preferencialmente na voz passiva.

Entretanto, ao empregarmos o verbo pagar, percebe-se quebra no preconizado. Vamos encontrar ‘A conta foi paga. (por alguém) – passiva’ , ‘A conta está paga (ressarcida) – estado: adjetivo.’ Deveríamos consignar: ‘Eles tinham pagado a conta.’, ‘Eles haviam pagado a conta.’ É óbvio que somente os puristas , e olhe lá, valer-se-ão do fundamento gramatical. E, por decorrência do vacilo, teremos: ‘Eles tinham pago a conta’. ‘Eles haviam pago a conta’.

Quem, salvo os doutos, ao conjugar o verbo ‘eleger’, chegariam a: ‘Eles tinham elegido seus candidatos.’ ,’ Eles haviam elegido seus candidatos.’? Diremos, por força do hábito e da eufonia, ainda que incorretos, ‘Eles tinham eleito seus candidatos.’, ‘Eles haviam eleito seus candidatos’. O contrário igualmente se observa: ‘Ele foi incluso na lista dos pretendentes.’, ‘Ele está incluso na lista dos pretendentes’. É indiscutível que usaremos ‘Ele foi incluído na lista dos candidatos.’ , ‘Ele está incluído na lista dos candidatos.’ ‘Tinham-no incluído na lista dos candidatos.’ ,’Haviam-no incluído na lista dos candidatos.’ Embora seja verbo abundante, não se o emprega como tal.

Uma gama considerável de verbos situam-se na mesma situação, ou seja, predomina a eufonia e o hábito sobre a correção. Permitam-nos abordar, ainda, o verbo imprimir. Deveremos ter: ‘Os documentos estão impressos. (estado: adjetivo)’, ‘Os diplomas já foram impressos (por alguém) passiva.‘, Seria correto ‘Tinham (eles ou elas) imprimido os documentos.’,’ Haviam (eles ou elas) imprimido as faturas. Contudo, emprega-se, por força do bom som, a forma sintética impresso/a/os/as.

Enfatizemos que os verbos abundantes possuem, para o particípio, duas formas equivalentes. A irregular só será verbo quando tivermos ‘ação’, do contrário, teremos ‘estado’, por consequência, adjetivo.

O verbo ‘benzer’, dispõe dos particípios bento forma irregular, e benzido como forma regular. Destarte, o recomendável será: ‘Este pão foi bento (alguém o benzeu) ’, ’ Este pão está bento. (abençoado) – estado: adjetivo.’, ‘ Tinham (eles ou elas) benzido o pão. , ‘Haviam (eles ou elas) benzido o pão.’ Ainda que as duas formas do particípio devam ser equivalentes, quando a referência é pertinente à gasolina, uísque, vinho ou produtos que foram adulterados, o ‘benzer’ perde a santificação.

Também merecem consideração os verbos ‘suspender’ e acender. Vejamos: ‘Face ao mau comportamento, foram suspensos’. ‘ Sem que soubessem, estavam suspensos das atividades’. ‘Tendo em vista a saúde do artista, haviam suspendido o espetáculo’ . ’Nem bem tinham suspendido a reunião, e o temporal chegou avassalador’. ‘O fogo foi aceso’, ‘O fogo está aceso’. ‘Eles haviam acendido o fogo’. ‘Eles tinham acendido o fogo’.

Especial carinho com alguns verbos que não são abundantes, consequentemente apresentam somente uma forma e apenas são conjugados com os auxiliares ter/haver. Verbo ‘escapulir’. ‘Num vacilo e haviam escapulido. ‘Mesmo aos vigilantes cuidados, tinham escapulido’.

Conforme se vislumbra, o repertório é expressivo e copioso. Por ora, em se evitando a fadiga, fiquemos, por derradeiro, com o verbo fritar. ‘Os pastéis foram fritos.’, Não se apressem, pois a carne está frita.’, ‘Os cozinheiros haviam fritado, bem cedo, os pastéis’. ‘Sem motivo, os veteranos tinham ‘fritado’ os jovens calouros.’ (mudança de sentido).

Alguns autores contemporâneos registram que este ou aquele cientista ou escritor, nascido na cidade de ..., no ano...’morto’ em... Mesmo que não apareça verbo auxiliar, está implícito ser ou estar. Ora, é inviável e despropositado ‘está morto’. Não sendo ‘está’, resta-nos ‘foi morto’. Se o foi, alguém ou alguma coisa o matou. Não ocorrendo, para evitar eventuais ambiguidades, o registro deverá ser ‘morreu’.

Esperando ter contribuído, somos gratos; uma vez que outros ‘houveram-se agradecidos’.

Jorge Moraes - julho de 2017 - jorgemoraes_pel@hotmail.com

Porfírio - Um detetive dos diabos, por Véio China

Porfírio - Um detetive dos diabos

Eram precisamente vinte e duas horas e trinta minutos quando parei debaixo de um poste. Estávamos em pleno inverno e a luz ofuscada por um ainda discreto nevoeiro dava certa notoriedade ao meu terno de corte panamenho. Certamente para mim a noite é e sempre será uma linda mulher que adormece e se acordada com um beijo, e eu estava ali priorizando trabalho que me fazia mergulhar em seus seios, e eu e os meus olhos de lince permanecíamos atentos e.à disposição de causas boas ou ruins, não importava, desde que resultasse em algum dinheiro. E após cada serviço executado o comum era verme-me num bar e encostar o umbigo no balcão e beber. Depois e de cara cheia tentava apenas não morrer espatifado num poste ao deslizar os pneus do carro nas esburacadas ruas de Sampa.

Enfim, eu gostava dos odores da madrugada.e de sentir o cheiro do asfalto molhado numa cidade que necessitava ser limpa, enquanto, na mesma hora a maioria dos mortais aguardava em seus leitos a alarme dos despertadores nas primeiras horas da manhã. E agora, ali plantado com a minha garota de vapores gélidos e olhar desestrelado  jogava a bituca do meu cigarro na calçada quando repentinamente surgem três ou quatro prostitutas que, provavelmente faziam ponto nas imediações. Elas tagarelavam e riam alto quando uma de voz estridente me propõe:

-E aê, tiozinho, tas afim dum programinha legal?

Olhei para a criatura e ela não era de se jogar fora, porém eu não estava ali para trepar, mas sim para dar cabo às minhas responsabilidades, apesar do tesão que me causou aquelas pernas otimamente torneadas.  Pigarrei, olhei-a com alguma simpatia, mas acenei negativamente a cabeça, porém sem perder do olhar a janela do 3° andar do prédio em frente.
E sobre estar ali às vezes me perguntava meus motivos para abraçar aquela profissão, ainda mais porque ser detetive é prostituir-se diariamente tanto quanto a puta de coxas grossas. Sobre essa questão digo apenas que jamais desprezei a profissão de qualquer pessoa, mas nunca me dobrei à falsidade, já que muitos não se dão aquilo me que dou, a mão à palmatória, afinal entendia que poderiam sentir repugnância pelo que eu era; um safado alcaguete. E quando você se torna um dedo duro profissional perde um pouco do amor próprio e somatiza para si a antipatia da maioria das pessoas, pois qual de nós gostaria de ter sua privacidade vasculhada?
Bem, gostassem ou não era essa a minha profissão, e se detetive sou a culpa cabe a mim, pois sempre viverá em minha memória os meus tempos de juventude e os insistentes apelos dos meus velhos; “Filho, estude! -  Eles rogavam. Entretanto jamais dei ouvidos a eles, e eles queriam apenas que eu fosse um bom advogado. E talvez essa urgência fosse a do meu pai, hoje um humilde octogenário aposentado. Certamente ele pretendeu realizar em mim aquilo que não conseguiu ao cursar até o 2° do Direito, abandonando os estudos para sustentar irmãos em fase escolar e a mãe que acabara de enviuvar, isso quando era noivo de mamãe. Lógico, tal qual ele no começo tentei saciar suas vontades ao concluir os dois primeiros semestres numa faculdade privada. E sobre ela recordo-me do correr daquele ano, e lá estando aos poucos fui percebendo que não era a minha intenção tornar-me um homem das leis, ser o justo da balança, pois as aptidões para um bom advogado jamais tive. E assim concluí ao notar que o que me prendia naqueles bancos eram aquelas garotas com sorrisos malandros e toda a viabilidade de algumas trepadas gratuitas.
Bem, e já que estou aqui num jogo da verdade e de confessar a  mea-culpa é bom que eu seja mais íntegro e revele duas das principais verdades; A primeira é que à época o meu grande sonho foi o de ser motorista de caminhão. Claro, podem achar engraçado, mas eu me imaginava na boleia daqueles brutamontes como os Mercedes ou os FNM. E a segunda é que os dois semestres na faculdade trazem-me ótimas lembranças, notadamente as festas patrocinadas pelos filhinhos de papai que lá estudavam. Festas que sempre contavam com a presença das garotas do curso e outras levadas dos inferninhos que frequentavam. Festas celebradas em bairros nobres e em mansões de jardins suntuosos. E ali, entre brados da mocidade rolava whisky do bom, 25 anos, além de farta putaria. E uma coisa sempre levava a outra, então nos embebedávamos e semi desnudos nadávamos em suas piscinas de 10 por 15, para ao  fim ser as mesmas sacanagens de sempre, inclusive algumas trepadas relâmpago que, sem qualquer cerimônia se expunham nos gramados, banheiros de empregados,  ou, no melhor das hipóteses nos bancos traseiros dos carrões estacionados em suas garagens.

Porém este universo de devassidão não foi o bastante para segurar-me lá, e eu, obrigado a trabalhar para manter os estudos, e o pior, ganhando pouco, acabei por me estressar e mandar tudo e a todos à puta que pariu. E ao abandonar a faculdade, jovem e inexperiente, houve a certeza que me livrara de toda futilidade, além do massacre psicológico que me era imposto por  aqueles presunçosos professores.
Enfim, o que não faço é chorar o leite derramado, e eu exerço apenas a minha profissão,  e com ela me defendendo de unhas e dentes, pois sempre haverá gente melhor em serviços piores que o meu. Bem, deixando as lembranças de lado aguardo por mais 40 minutos com os olhos grudados na janela do 3° andar sem que surja qualquer novidade. Eu estava cansado, as putas também pareciam exaustas, e as minhas pernas doíam e estavam num estágio de dormência, enquanto elas, coitadas, arrastavam seus saltos no asfalto, acenando ou correndo atrás de cada todo carro que passava. Não demorou muito, e elas acabaram por sentar-se numa mureta do terreno da esquina.
Pelo meu lado as pernas formigavam causando-me incômodo, portanto bati vigorosamente as solas dos sapatos na calçada, e tão logo as penas se sentiram donas de si próprias caminhei uns 30 metros até o boteco mais próximo. Entrando pude sentir o cheiro a coisa podre vindo pelo corredor, certamente do banheiro que nele se findava. Olhei bem para as dependências do boteco, e ali numa das três mesas existentes uma negra bebia algo de uma forte coloração ferrugem, talvez “Fogo Paulista” uma bebida rampeira e de absurdo teor alcoólico. Aliás, não só a negra bebia, mas também os dois sujeitos que e sentavam ao seu lado.  Acomodei-me no balcão da frente sem descuidar-me da  janela do apartamento, pois a visão dali era excelente.

Fiquei sambando os dedos no tampo do balcão imitativo dum o mármore italiano enquanto espantava o pouco que sobrara da dormência das pernas. Eu olhava para o sujeito atrás do balcão.

-Por favor meu chapa, quero um conhaque, e meia cerveja quente e outra meia da gelada –  Pedi - O dono do bar me olha de forma estranha. Firmo os olhos em sua figura e ele parece carregar nos traços algo da herança portuguesa, fato que confirmo ao seu comentário inoportuno.

-Ai Jesus! Será que é mais um gajo para encher o rabo de pinga e me torrar as paciências? –  Ele reclamou  justificando a sua preocupação apontando o indicador para a crioula e para os dois sujeitos, assim como me dissesse: "Olhe a merda aí".  Evidente, mesmo que bêbada a mulher se ligava nas atitudes do português, e claramente se sentiu ofendida.

-Porra! Do que você tá falando portuga? Por acaso num to pagando a despesa? – Retruca aborrecida e  escandalosa.  E o seu protesto foi o suficiente para um dos sujeitos também se sentir  golpeado.

-Isso mesmo, Lustosa! A dama está pagando a conta, e a sua obrigação é servir a gente, e não ficar aí com esse papo furado! Um deles devolve. Foi o necessário para que o outro companheiro de copo criasse coragem e também se manifestasse:
-É isso mesmo, Lutosa! Está tudo lá no Código do Consumidor!  –  Apelou o segundo, inclusive o que estava em piores condições. que me obrigou a apurar os ouvidos  para entender as suas  falas embaralhadas.

A fala enrolada do sujeito me obrigou a apurar ou ouvidos. Pensei por segundos sobre a veemência bêbada e me questionei; Será que o ouvi direito? Foi mesmo o Código de Defesa do Consumidor que o bebum alardeou? –  Puta que pariu! Era, não havia dúvida, pois mesmo com a dificuldade fora exatamente o que ele dissera.
-Código do consumidor é a puta que te pariu! - Vociferou o português. Ele estava irado, pois senti no timbre da sua voz.
Fiquei olhando para a cena e tive vontade de gargalhar; o bebum só podia estar doido, ainda mais ao enfrentar aquele português, nada mais e nada menos que fera de seus 120 quilos distribuídos em provável metro e oitenta e cinco de estatura  – Entretanto eu nada tinha com aquilo, e assim segurei a minha onda.  Todavia, o portuga que de bobo nada tinha, afinal, e aliado à sua experiente de balcão sabia e muito bem dos levantes e das malandragens dos bêbados, e tanto que sumiu das minhas vistas ao procurar algo debaixo do balcão.

-Ó aqui o bebunzada do carálios! Vocês vão querer encarar? – Berrou para eles surgindo com um daqueles cassetetes de borracha maciça, provavelmente auferido da Guarda Municipal, afinal, esses malacos arrumam tudo e por todos os preço.

Os bebuns, assustados olharam para ele e nada mais protestaram. Também olhei e achei a sua ameaça física algo desproporcional, mas nada comentei, pois a minha vida já era demasiadamente problemática  para arrumar novas aporrinhações. Com as bebidas servidas matei o conhaque numa tragada só. Depois o homem abriu ambas as cervejas e eu intercalava os goles entre a quente e a fria. Na extensão do balcão outras três ou quatro pessoas tragavam suas bebidas e me olhavam curiosos. Eu sabia que o meu jeito de beber chamava a atenção das pessoas, já que era um estranho ritual aquele que eu praticava. Óbvio, e isso não era ferramenta do meu ofício, pois o que menos um detetive necessita é que prestem atenção em sua estampa. Não, não foi essa a minha intenção, contrário, pois seria eu a me ater deveria aos mínimos detalhes de um flagrante, e nisso podia garantir, era bom e nada escapava aos meus olhos de lince.

Logo, fiquei por ali terminando as minha as bebidas enquanto ouvia as conversas fiadas daqueles três bebuns. E lá vinham eles, o que parecia estar em situação melhor:

-Hei, sabiam que noutro dia fui no enterro dum amigo meu? - Ele pergunta para a negra e o outro, e eles olham perplexo para ele. E o bêbado continua: - Sim, fui eu e um amigo meu, bebum também.Aliás, éramos todos bebuns, até o morto era, e eu nem sabia que ele tinha morrido, e assim que chegamos lá, olhei pra ele no caixão, e a mulher dele chorava muito. Perguntei para ela de que ele tinha morrido e a mulher dele apenas chorava, chorava, e aí respondeu “ Olha moço, ele morreu como um passarinho” - A crioula e o amigo ouviam a narrativa espantados, até que ela, curiosa,  perguntou num atropelo de palavras - "Como assim; o seu amigo morreu como passarinho? – Sim, definitivamente a negra mergulhara de cabeça naquela louca história de velório, tanto que deixou escapar da mesa o cotovelo direito que lhe sustentava o rosto.  O narrador da história cinematograficamente exprimia um ar condoído quando lhe respondeu: - Bem, nem eu e nem meu amigo entendemos  muito bem aquela história de se morrer como passarinho, portanto ficamos por lá olhando pro defunto até que surgiu do nada um outro amigo nosso,  bebum também, e nos reconhecendo perguntou para o amigo que estava ao meu lado: “Sebastião, que coisa, que notícia horrível! Por acaso você sabe de que morreu o Odorico?” – Bem, como a pergunta não foi feita para mim achei melhor ficar quietinho, e meu amigo ficou lá matutando o que responder  para o outro, até que se saiu com algo que lhe pareceu lógico; "Morreu duma estilingada!"  – Sim! acreditem amigos, foi isso mesmo o que ele respondeu. – A negra o olhava perplexa, o outro também, foi então que o narrador da história caiu na mais profunda gargalhada. E assim eles perceberam que estavam sendo sacaneados

-Duma estilingada é, seu filho da puta? Duma estilingada vai morrer tu, tá saben....  –  A negra foi interrompida por um grave barulho de algo que se chocava contra uma superfície lisa.
-Cês vão encarar? - Era o portuga ressurgindo com o cassetete em punho.

Foi o suficiente para os três voltarem para as suas bebidas, e em silêncio. Depois olharam uns para os outros, e seus olhares eram tão marotos que não impossível conterem o riso, risos que logo após se transformaram em gargalhada, e para desespero do português:.

-Ai carálios, acho que  devo merecer! – Reclamou devolvendo o cassetete para o lugar de origem.
Eu ri, discretamente, era uma piada manjada, de bêbado, mas foi engraçado a naturalidade de ver uma piada de bêbado ser contada para outros bêbados. Peço mais uma cerveja e percebo as luzes da janela do terceiro andar se acenderem. Pouco adiantou a safada ter saído de casa com sua naturalidade morena e seus cabelos acastanhados, ter trocado de carro no estacionamento, e agora estar loira e fodendo com um zé mané num prédio de apartamentos de classe média baixa, e que nem elevador possuía. Eu não era aquilo que poderiam rotular dum Zé Arruela qualquer, e ela que fosse enganar outros otários, mas não eu, portanto corro para o prédio e subo os degraus pulando-os de dois em dois, e me escondo atrás de uma das pequenas coluna que dividiam todos os oito apartamentos de cada andar andar. Permaneci atento, e um pouco mais ouço vozes que brincam com a outra, e barulhos de saltos de sapatos que descem do pavimento superior. Uau! Foi então que a pude ver direito, carne e osso, aliás, pecaminosamente mais carne que osso. Pessoalmente o deslumbramento loiro da mulher resplandeceu mesmo que falsificado, porém o fato de estar tingida parecia deixar suas pernas mais apetitosas, ainda mais na posse daquele rabo que faria qualquer demônio gemer. Sem que me vissem, e antes que alcançassem o primeiro pavimento eu registrei o fato na minha ótima Polaroid comprada numa feira de segunda mão, isso no ano de 1975.

Assim que saíram pelo andar térreo desci e rumei diretamente para o bar. Já estava postado na porta do boteco quando os vi se separarem com um beijo e eles se dividiram e ela rumou para o seu automóvel estacionado um pouco mais adiante do cruzamento. Postada à frente dele a mulher abriu a porta e fez menção de entrar, no entanto não entrou. Em seguida fechou a porta, acionou o alarme e atravessou a rua vindo na direção do bar. Por questões da segurança do caso dei as costas para a rua, pois o que mais preza no verdadeiro detetive é o seu rosto jamais ser conhecido pelo objeto da investigação, já que obrigatoriamente ela teria que passar por mim. Repentinamente uma fragrância de um suave perfume feminino ganha o espaço em que estava, e sinto alguém tocar os meus ombros. Olho e lá está ela; a mágica loira dona do rabo descomunal

- Porfírio, que porra de detetive é você? - Ela me ri zombeteira

Eu nada disse. Os bêbados nos olham assustados, o portuga cola os cotovelos no tampo do balcão, e todos prestam atenção em nós. Não havia qualquer saída, e ela me fez sentir constrangido. Novamente os seus olhos faiscavam como os curtos circuitos que incendiam residências e estabelecimentos comerciais. Ela continua me olhando, e então joga os seus cabelos para trás e seus lábios carnudos e tingidos num batom grená se abrem devoradores:

-Porfírio, toma lá. É isso é para você!  Ah...e mande um beijo para a Aurélia! – Diz numa expressão  de quem sabe das coisas do mundo.

Um beijo para Aurélia? - Pergunto-me incrédulo. Caracoles! Eu estava amasiado com Aurélia há menos de três dias! Como ela poderia ter sabido?

Bem...depois abriu a sua bolsa de couro de crocodilo australiano e dentro dela retirou 8.000 pratas, as quais colocou em minhas mãos. Aliás, o valor que ela me dava correspondia à quase duas vezes e meia o preço que o seu marido me contratara.

-Entendeu tudo mesmo, Senhor Porfírio? – Questionou num induzido sorriso biscate – E agora ouça-me com atenção – Ela continuou ao chamar-me mais próximo. Então sussurrou para que os curiosos da mesa não a ouvissem; -Agora nós vamos inverter o jogo e o meu marido será a caça, e você o seu caçador. Há coisas importantes que quero que descubra sobre ele, e te aviso; essas coisas valem uma boa grana. Portanto senhor Porfírio, considere-se contratado, já que jamais levantaria suspeita. - Finalizou

-Sim, entendi tudo e muito bem minha senhora! Conte comigo, um criado ao seu dispor– Respondi da mesma forma que Humprey Bogart  faria, algo no estilo e olhares dos anos 50, truque que sempre causou algum efeito.

-Ah...E por favor, a Polaroid de 1975 agora é minha e fica comigo. Ah, claro, as fotos também, pois estão inclusas no preço – Disse-me ao retirar a mochila das minhas costas, lugar onde eu guardava a máquina Porém ela ainda não tinha terminado - E outra coisa Porfírio...Pare de me olhar desse jeito, já que não há nada mais cafona que este seu olhar! Modernize-se, homem! Há tantos caras interessantes por aí, Tarantino, Brad Pitt, Banderas, Pacino, De Niro, pô! Mas..Humprey Bogart não, pelo amor de Deus! – Disse-me num tom de gozação. Caracas! Aquela mulher devia ter parte com o diabo - Imaginei.

-E agora...finalizando... Aguarde minhas instruções, pois em hora apropriada farei contato com você - Sentenciou num sorriso que não mostrava a perfeição dos seus dentes. Em seguida me passou seu cartão de visita e lá constava o celular.

Poxa, nada mal! Eu acabara de arrumar uma nova patroa, e se os espiões mais competentes desse planeta f fizeram jogo duplo, triplo, quádruplo, por que um mero detetive não faria? Olhamo-nos por mais alguns instantes, e ela chamou-me mais intimamente ainda como se quisesse dizer-me algo no ouvido. Talvez o meu olhar de Humprey Bogart estivesse surtindo efeitos retardados.

-Porfírio, sinceramente, o melhor para você teria sido o motorista de caminhão, pois seria um péssimo advogado tanto quanto o sofrível detetive  que é. O diabo é que tu está acima de qualquer suspeita, logo, você é imprescindível –

Como? Motorista de caminhão?  - Por Jesus Cristo! - Sim, foi o que ela falou. Definitivamente, aquela mulher só podia ser coisa do mal, pois jamais confessei a alguém que meu sonho foi o de estar na boleia dum colossal  FNM.

Bem, ela falava e a sua voz soava como veludo, e após escancarar a minha fantasia sorriu dum jeito ordinário, desses de quem sabe que está com dois pássaros voadores na mão.

Em seguida deu-me as costas e eu a vi rebolar aquelas nádegas de outra galáxia, e elas teriam enfeitiçado o próprio John Kennedy, sem dúvida. Pouco mais adiante ela parou em frente da porta do seu  Chevrolet Ômega importado, acenou-me com a mão, entrou e partiu.

Copirraiti16Dez2013

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12 de jul de 2017

Dia 12 de julho é Dia do Poeta Pelotense

Dia 12 de julho é Dia do Poeta Pelotense

Foto: Rafa Marin            Foi sancionada na manhã desta quarta-feira (10/07/2013) a lei que transforma o dia 12 de julho em Dia do Poeta Pelotense, em homenagem ao 160º aniversário de nascimento de Francisco Lobo da Costa. O projeto foi apresentado pelo vereador Luiz Henrique Viana (PSDB), a pedido da Confraria Literária Lobo da Costa, e aprovada pela Câmara de Vereadores.


          Para o prefeito Eduardo Leite, a criação do Dia é o reconhecimento ao patrimônio imaterial do Município, a quem faz esta cidade, e um estímulo à leitura e ao surgimento de novos protagonistas da agenda cultural.


          De acordo com a representante da Confraria Literária, Ângela Sapper, o grupo surgiu há cerca de dez anos, quando em uma pesquisa perceberam que a população mais jovem não conhecia o poeta pelotense. Com a instituição da data, eles esperam conseguir divulgar ainda mais a sua obra, especialmente em escolas, academias, institutos e bibliotecas.


          Na próxima sexta-feira (12/07/2013), quando o Dia do Poeta Pelotense será comemorado pela primeira vez, a parceria entre Bibliotheca Pública Pelotense, Secretaria de Educação e Desporto (Smed) e Universidade Católica de Pelotas (UCPel) lançará o um concurso literário para a comunidade escolar da rede pública.

fonte: Prefeitura Municipal de Pelotas http://www.pelotas.rs.gov.br/noticias/detalhe.php?controle=MjAxMy0wNy0xMA==&codnoticia=34630

13 de jun de 2017

Frágil

Frágil

Há algo que no dentro de mim conspira
Um exército de mesquinhez e malfeitores
Alardeando que por hora não se inspira
Nos contos de fadas ou eternos amores

Há algo além, vago, à caminho do cerne
Que se ajoelha diante da batalha perdida
E ao corte da navalha que expõe a carne
Do reinado de um rei devastado em vida

Há algo frágil, e do meio pros cantos
Faminto de rubro vinho embrutecido
E da embriagada luxúria dos prantos
Dum Eu posto em taça, desconhecido

Copirraiti08Mar2014
Véio China©


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Reminiscências Contemporâneas (Hippies, Black Blocs & Iphones e muito mais), por Véio China

Reminiscências Contemporâneas (Hippies, Black Blocs & Iphones e muito mais)

Olhando em seus olhos logo percebi que seria um desses garotos que jamais saberão o que é o mar.
Talvez estivesse lembrando do mar por estar vindo dum domingo de praia e de um ótimo quarto de pousada. Como todo bom paulistano  procurei esquecer o solado dos sapatos sociais raspando no concreto e fiquei os pés  nas areias macias e cravei a vista tão distante quanto a idade podia me permitir, já que sempre me causou inveja essas lanchas de rico  ancoradas próximas á praia. Entretanto como jamais fui um comandante ou lobo domar retornei a São Paulo na segunda de manha e cá estou eu numa estação de metrô  às seis e meia da tarde, hora de rush, instante que o deixei  junto de suas parafernálias urbanas. 

Logo, ele e eu e outros milhões de usuários somos trens de metrô e estamos na estação Estação Sé apinhada de gente, enfim, uma raça humana que, plagiando o gado retorna para os seus lares.Talvez o garoto não soubesse, mas eu fora tão jovem quanto ele, desses sujeitos normais   que se flagram nas feiras livres consumindo porções de yakisoba e pastéis de palmito. E como não sabia dos pastéis, não haveria de saber que eu fora um sujeito posto à prova pela vida, apesar de minha inequívoca vontade de progredir. Porém, mesmo que houvesse a vontade, a verdade  é que nunca dei muita sorte com qualquer coisa, inclusive com os empregos,  pois  raras foram as respostas dos curriculum vitae que enviei pela existência toda. E o fato  não me espanta, pois talvez à época os engomadinhos daqueles escritórios de poltronas confortáveis acreditassem que eu fosse meramente um preenchedor de formulários.

E por falarmos em fichas para emprego lembro uma daquelas ocasiões que levantei ainda de madrugada e peguei dois ônibus lotados para tentar uma boa vaga numa multinacional. Bem, ao fim de duas horas e meia espremido como laranja prestes a se tornar suco, desci próximo da empresa, mas acabei me dando mal, já que não conhecendo o lugar adentrei por numa viela com casas desocupadas, talvez até pelo fato de algum grande empreendimento estivesse sendo planejado para o local.

Então continuei seguindo pela viela com os passos apertados, e era mais que certo que  alguns dos meus concorrentes  já andavam pelos corredores da empresa entregando suas qualificações. Lembro que ao passar pelas casas eu as olhava rapidamente, porém  não tardou e  vigorosos passos de dois sujeitos logo se aproximaram. Assim que me alcançaram alinharam-se  um de cada lado - "Devagar irmãzinho!" Um deles disse ao surgir com um calibre 22 na mão direita e retirado às pressas por debaixo do seu enorme camisão de flanela. Bom, exposto à arma de bandido, que poderia ser até plástica, não me surgiu outra ideia que não a de me ajoelhar na tentativa de salvar a minha pele. "Por favor, não me mate" - Roguei com os mesmos olhos piedosos dos mendigos -

Claro, nós os comuns sempre tivemos medo, muito medo, portanto nada mais previsível que nos subjugamos à ousadia dos marginais, ou às suas eventuais armas de PVC ou de ferro pintado.
Sem saída e naquela circunstância só me restou venerar o marginal como se fosse ele  o Jesus Cristo, afinal, eu jamais acreditaria que e o  filho de Deus atirasse contra um dos seus irmãos.

O que se postava à esquerda e que parecia ser o mais calmo olhou para mim e me mandou levantar do chão com uma frase que nunca mais esquecerei. Ele disse - "Calma irmãozinho, não matamos ninguém antes da hora do almoço. Apenas me passe o que tem nos bolsos e estará tudo bem" - Depois ainda enfiou no meu bolso o dinheiro da passagem e me mandou andar. E eu andei, andando, trêmulo, passo após passo até novamente sentir as pernas firmes e me dirigi à empresa que, até hoje não me convocou para uma segunda entrevista ( E olha que lá se vão mais de 32 anos)

Sim,  são coisas como estas que me deixam farto da vida. A impaciência se torna fúria, não só com a bandidagem estabelecida, das armas ou da política,  mas também com  aquele garoto que destilava ódio em sua expressão, a qual respondi com uma fisionomia acabrunhada, dessas que dizem o quanto andamos de saco com todos. Talvez alguns me julguem ranzinza, mas se há coisa que não suporto são esses olhares  que te olham como estivessem vendo um monte de estrume E era essa a impressão que ele me causava, e eu o achava imbecil, e odiava o fato tanto quanto os gatunos que nos rouba, lesam,  e agem como se fôssemos uns otários, e que estão fazendo um grande favor ao nos assaltar.

Sobre isso, e apesar de ser revoltante engolir sapos, é bom que saibamos da necessidade de, vez ou outra nos munirmos de  paciências, pois há ocasiões que as esperas são sábias ao apontarem que a existência não se sublima no valor das posses, no calor do sol,  ou nas fases da lua. Não, definitivamente não, pois a vida é muito mais que palavras bonitas ou  os mimos num rosto de mulher, pois também resplandecemos nas dificuldades, nos patamares difíceis e nos degraus mais altos,  já que existirão coisas que poderão nos marcar, assim como o amor bem feito com a mulher que se quer, mesmo que no derradeiro murmúrio da madrugada.

E assim é a vida e o exercício continua, e não será fácil para quem quer que seja, pois às vezes ela nos maltrata e coloca-nos para fora da cama ás 5,30 da manhã através do despertador que tocará irritantemente, e fazendo lembrar que há trabalho lá fora. Portanto você se levantará e irá ao banheiro e constatará que a sua respiração embaçou o espelho, e isso significa que há  batimentos em seu coração, apesar duma aparência horrível. Depois é só tomar a ducha, escovar os dentes, pentear os cabelos e sair para a rua sabendo que a vida está de olho em você, mesmo que não sejam aquelas as sua últimas horas, assim por dizer; o dia da tua paz definitiva.

Todavia é esta isenção de paz  que não me deixa acomodar para as coisas  que não fazem sentido,  assim como a prostituição e um bando de garotas com o rabo de fora   congestionando as esquinas com  michês de 50 pratas.

Evidente, há outras tantas aberrações, e uma delas é este desprezível quebra-quebra generalizado que vivemos, assim  como a abundante bandalheira praticada,  e tão comum às pessoas poderosas.  E a maior das verdades seja dita, pois a sociedade pensante está anestesiada, prostrada diante da anarquia que  reina absoluta, estupefata  com governantes que afundam um país à custas das esmolas clientelistas.

Sim, por outro lado também estou perplexo com os atos desses garotos mascarados, e eles  poderiam estar produzindo, estudando, amando, ou sei lá o que nais, porém, tempo perdido, já que  não se despem da violência ou do vandalismo, pois  lhes deve parecer "um negócio da China" depredar não só o patrimônio privado, mas igualmente o público, um evidente “foda-se” às instituições.

E isso me deixa puto da vida, pois talvez os black blocks tenham nascido numa época imprópria, pois a minha era foi duma geração submissa, mas que acabou herdando o mundo, e tudo num piscar de olhos. E essa herança não nos veio de graça,  foi com luta, com protestos, mas sem que promovêssemos destruições ou aniquilássemos pessoas. Todavia isso é uma outra história, coisas do meu tempo e duma velha guarda fascinada pela retórica dos grandes pacifistas, e que fazem lembrar do mundo jovem dizendo  NÂO à guerra do Vietnã, além do repudiar o preconceito e as questões racistas.

Logo, o garoto do metrô jamais imaginaria que esse foi o quadro pintado na minha geração, e que daquele ponto em diante foi um juntar de  forças, inclusive com os imensos dinossauros da mídia, gente assim como os Beatles, Rolling Stones, Morrison, Dylan, e tantos outros,  para enfim chegarmos onde chegamos, praticamente a lugar algum. Enfim, algo de errado aconteceu lá atras, e mesmo ansiando por mundo melhor e mais justo os jovens da época se perderam pelo caminho, dispersaram santificando e consumindo drogas que mataram não só a eles, mas também muitos de nossos ídolos.

Finalizando o resumo diria que fomos o estardalhaço jovem que pouco ou quase nada soube fazer com o poder da própria voz.

Ah, e já que estou passeando pelo passado volto aos pequenos detalhes daquela época e relembro a Praça da República e as feiras hippies, e à um domingo especial, onde ao percorrer as curtas alamedas ouvi e pela primeira vez o inacreditável Jimi Hendrix. Ainda me era um tempo intermediário, dividido entre o garoto que saia da infância para ganhar a juventude, e eu à época no cargo de office boy e junto do meu tênis Rainha  percorria que nem louco as ruas de São Paulo enfrentando filas, encarando ônibus lotados, desafiando enchentes que, por vezes me tinham-me pela cintura. Ah, e como esquecer dos almoços à preços módicos num imenso salão no centro da cidade, lugar mais conhecido como o  "Bandejão da Juventude Católica". E tudo me parecia tão claro e justo, e no fim do mês havia aquilo que eu julgava a recompensa, então corria à Galeria Pajé, e meus olhos se mantinham  frenéticos, era como  procurassem uma miss, talvez até a de São Paulo, mas não era uma garota de corpo escultural o motim do meu desejo, mas sim uma calça de um jeans diferenciado e de sucesso global; Levi Strauss era a marca. E ela me deixava feliz, e com ela dobrada no interior duma sacola plástica é que deixava no bolso do comerciante todo o meu salário do mês, pois usar uma daquelas era  sinal de status, e as garotas amavam os garotos enturmados.

Sim, é verdade, e uma coisa levando à outra relembro o romantismo do tempo e a excitação ao tocar a mão da namorada, a ansiedade nos dedos umedecidos de suor, depois o rubor corando meu rosto ao toque mais ousado, sem esquecer do coração que batia afoito, afinal era tão fácil se apaixonar naquela época. Talvez nem acreditem, mas essa coisa da ansiedade sexual me foi cobrada pouco antes das calças favoritas. Sim, surgiu na frequência das missas dominicais celebradas pelo Padre Damião. Talvez eu estivesse na casa dos 12 ou 13, o que não apaga de minha memória as pernas jovens no interior das recentes minissaias, um mundo de hábitos novos, e essas pernas ali na presença de Cristo me deixavam agitado. Entretanto nem nesses momentos escapei impune, já que persistiam em mim os resquícios duma severa educação cristã, ensinamentos que foram ministrados num colégio de padres que estudei até os 10 anos. E sendo eu o pecador carregava tantas culpas, e elas precisavam ser redimidas, portanto me aproveitava de estar na casa do Senhor e caminhava até ao confessionário, e lá acertava as minhas contas com um daqueles que me diziam ser o representante do Pai aqui na terra. E assim eu saia de lá leve e carregando na consciência a obrigação de rezar não sei quantas Aves-Maria e  Padres-Nosso, e agora eu podia tocar as asas dos anjos, pois quase nada devia a Deus.
E quando divago sobre o fim da infância e o início da fase jovem faço-me as mesmas perguntas de sempre: A minha alma já estava perdida? E por onde andariam os meus amigos da "divisão dos menores" do Liceu Salesiano de Campinas, junto das lembrança de tudo que vivenciei por lá?

Eu nunca mais soube, mas deduzo que muitos estão por aí com suas famílias, avôs em situações estáveis, instáveis, talvez em asilos, ou mortos, nem eu mesmo sei.

Bem, depois do colégio interno e já em Sampa adentrei a fase musical e só pensava em canções e nos cabelos iguais aos dos rapazes de Liverpool. E sobre as canções muitas delas me marcaram (Poucos devem lembrar de Vandré e a Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores) Não há como negar, e já naquela época demonstrava algum inconformismo, e isso se percebia nos meus gostos musicais, nas revistas em quadrinhos que devorava, principalmente aquela produzida por gente que tirava um barato do autoritarismo, portanto, do Regime Militar, já que esses jamais excluirei da lembrança (beijos, Fradim, Bode Orelana, Graúna, Henfil, Jaguar e Ziraldo)

E estando em tempos difíceis o normal era aceitar que o pior andava à espreita, assim como nos dias
de hoje,  pois o o mal destrói como traição entre marido ou mulher. Todavia o tempo foi caminhando, e ao fim daquela década o Regime jogou pesado coibindo manifestações, principalmente as estudantis. Mas elas persistiram e foi um festival de borrachadas, e a polícia, sem dó ou piedade desceu o cassetete na juventude. Com o movimento de rebeldia (principalmente dentro das faculdades) vieram grupos e foi formada a célula guerrilheira e um projeto que supomos clamar por liberdades e direitos civis.

Convenientemente se anota que as camadas mais esclarecidas apoiaram  irrestrita  tais movimentos (mesmo estando longe da militância) e fomos muitos os que acreditaram em seus ideais, e eu,  mesmo sendo jovem e inexperiente apoiei, pois jamais acreditei em liberdade tendo os militares e os atos de força no comando do país.

A guerrilha desenvolveu e em que pese as patentes militares envolvidas, mas la estava o anonimato dos nossos heróis perdido entre as matas, lutando por algo que nem mais sabia o que era. Evidente, houve o rastro da morte, e alguns se foram até pelo próprio e desconhecido habitat que enfrentavam. Passou-se pouco tempo e os militares dizimaram a guerrilha, afinal, a maioria daqueles garotos jamais tinha tocado numa arma de fogo.

Depois de vencidos muitos dos guerrilheiros se exilaram por aí, e é neste ponto que reside a triste ironia dos fatos; Alguns desses sobreviventes estão hoje por cima da carne seca. E a decepção fica por conta de agora sabermos que foi a guerrilha mentirosa, combatentes acoitando entre si um bando de falsos revolucionários.

E agora tudo me parece tão claro apesar da ficha ter demorado para cair, pois a mentira é tão contundente, e os pseudos guerrilheiros tinham por único objetivo a tomada do poder e se dar bem na vida, um poder que, diga-se, hoje  se mostra quase tão totalitário quanto o dos tempos militares..

Logo, muitos de nós nos dias atuais têm a consciência que pagamos demasiadamente caro por termos acreditado e colocado no poder a ignorância demagógica de um semi analfabeto. Assim é que nos sentimos, impotentes,  e eles se multiplicam e dividem o produto das falcatruas entre si num vilipêndio do erário público que mal deixa as digitais dos dedos inescrupulosas, mas que sabemos;  transferem boa parte dos seus golpes milionários para seletas carteiras abarrotadas de testas de ferro.
Bem, como política é algo que me causa nojo, a deixo de lado e retorno ao garoto de olhar duro, e ele continua me olhando, empinado, e seu nariz parece ter alcançado o mesmo status das nuvens no céu.
E esses olhares atravessados aconteceram pelo nosso resvalo acidental à porta da saída do metrô. Evidente, velhos carregam guarda-chuvas nas mãos, e não Ipods ou Iphones. E o estrago se fez no instante do choque, porém meu guarda-chuva escapou ileso. Ainda na intenção de ajudá-lo me agachei e peguei o seu aparelho, sem não antes notar que o vidro frontal do Aplle havia se espatifado, e duas ou três peças juntas da bateria se esparramaram pelo piso. Olhei atentamente para os pequenos pedaços e se eu fosse alguém confiável na área de assistência técnica de celulares lhe diria sem constrangimento que talvez o caso fosse o da perda total. Entretanto o momento e as circunstâncias não me pareceram apropriadas para alertá-lo, portanto silenciei.

-E aí tio! Tu vai ressarcir o meu aparelho? – Ele perguntou aproximando o rosto, resvalando seu tórax em meu peito.

-Como assim? Você está ficando louco, guri? – Respondo. O que mais podia dizer?

Logo o bonitão percebeu que do meu mato não sairia coelho

-Tio, quer mesmo saber? – Ele me fulminou. Eu sinto sua ira

-Quero! É justo que digas! – Devolvi, afinal é assim que nos fortalecemos para a democracia.

-Tu é um babaca reacionário – Ele devolveu com todas as letras. É estranho, mas os jovens de hoje sempre acham que os sujeitos com mais de 60 anos são reacionários, de direita, fascistas, ou do TFP e outras barbaridades. Eu apenas sorri para ele.

-E tu, sabes o que acho? Tu és nada mais que um filho de camundongo! – Replico com um risinho de desdem impregnado nos lábios.

O garoto apenas me olhou, e agora o seu ódio era mortal. Talvez estivesse lá pelos 20 ou 21 anos, um touro de academia, a montanha de músculos talvez adquirida nos anabolizantes, "ou não", como sempre dirá o sábio Caetano.

Seu olhar continuava desafiador, porém eu sabia que se tratava de reles pressão psicológica, pois poderia me trucidar se assim o quisesse.

Mas não o fez, talvez porque seus músculos pensassem, talvez pelo Estatuto do Idoso, ou por ter desconfiança que acabaria se metendo em mais complicações das que provavelmente estava.
-Garoto, escute! Vamos colher lagostas e mergulhar com as sereias? – Propus para ele num tom amistoso, fornecendo um sorriso mais que aceitável

-Hããã? Você está louco, velhote? – Foi a sua resposta-pergunta. Tudo bem, inclusive eu a previa.
Antes de desistirmos olhamos um para o outro pela última vez.

Ele, talvez pensando na reposição do aparelho, e de como chegaria no pai com a melindrosa conversa que um bando de “reacionários" quebrou o seu Ipod" intencionalmente ao darem conta da vermelha estrela petista cravada no peito da negra camiseta (à esquerda,bem  próxima ao coração)

Eu, por meu lado apenas abandonei as dependências do metrô e olhei para o firmamento à procura de tempestade.

Como o céu estava repleto de nuvens negras que não desaguavam suas lágrimas, pensei nas lagostas e nas tais sereias que, por aquela hora poderiam estar me aguardando nas profundezas do mar.
Eu apenas sorri quando voltei com o corpo e o vi recolhendo os pedaços do aparelho para guardá-los em sua mochila de grife.

De fato! Aquele Mister Qualquer Coisa jamais saberia o que era o mar.

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Véio China©

A dama do cachorrinho

A dama do cachorrinho

A. Tchekov

I

Comentava-se que na avenida à beira-mar tinha surgido uma cara nova: uma dama com um cachorrinho. Dmítri Dmítritch Gúrov, que estava em Ialta havia duas semanas e já se acostumara ao lugar, começou também a se interessar por gente nova. Sentado no pavilhão do Vernais, viu passar pela calçada da praia uma jovem senhora, loura, baixa, de boina; atrás dela corria um lulu da Pomerânia branco.

Depois ele a encontrou no jardim municipal e na praça várias vezes ao dia. Ela passeava sozinha, sempre com a mesma boina e o lulu branco; ninguém sabia quem ela era e a chamavam simplesmente de “a dama do cachorrinho”.

“Se ela está aqui sem marido e sem conhecidos”, pensava Gúrov, “não seria demais conhecê-la.”

Ele ainda não completara quarenta anos, tinha uma filha de doze e dois filhos no ginásio. Fizeram-no casar cedo, quando ainda estava no segundo ano da faculdade, e agora sua esposa parecia ter o dobro de sua idade. Ela era uma mulher alta, de sobrancelhas escuras, ereta, importante, sólida e, como ela se autodenominava, pensante. Lia muito, em suas cartas não usava o sinal duro[57], chamava o marido de Dimítri, e não Dmítri[58], e secretamente ele a considerava uma pessoa medíocre, estreita, sem graça; tinha medo dela e não gostava de ficar em casa. Começara a traí-la há muito tempo; traía com freqüência, e talvez por isso quase sempre falava mal das mulheres; e quando na sua presença a conversa girava em torno delas, ele as chamava assim:

– Raça inferior!

Parecia-lhe que o que ele aprendera com experiências amargas lhe dava o direito de chamá-las como quisesse, porém não conseguia passar nem dois dias sem a “raça inferior”. Na companhia dos homens ele se sentia entediado, pouco à vontade, ficava calado e frio; mas, no meio das mulheres, sentia-se livre e sabia o que dizer e como se comportar. Era-lhe fácil até mesmo ficar calado na presença delas. Na sua aparência, no seu caráter, em todo o seu modo de ser havia algo sedutor, imperceptível, que predispunha favoravelmente as mulheres em relação a ele e as atraía.

Sua farta experiência, na realidade uma experiência amarga, há muito lhe ensinara que toda aproximação, que no início traz uma agradável variedade à vida e que promete ser uma aventura leve e divertida, no caso de pessoas da alta sociedade, especialmente os moscovitas, indecisos e lentos na ação, fatalmente se transforma num problema terrivelmente complexo, e no final a situação se torna muito penosa. Porém, a cada novo encontro com uma mulher interessante era como se essa experiência escapasse da memória; dava vontade de viver, e tudo parecia simples e divertido.

E então, uma tarde, aconteceu que ele estava almoçando no jardim, e a dama com a boina aproximou-se devagar para ocupar a mesa vizinha. Sua expressão, a maneira de caminhar, o vestido, o penteado, tudo lhe dizia que ela era da boa sociedade, casada, estava em Ialta pela primeira vez e sozinha, e que se sentia entediada ali... As narrativas sobre a imoralidade dos costumes locais continham muitas inverdades, e ele as desprezava por saber que tais relatos eram criados por pessoas que de bom grado pecariam se soubessem fazê-lo. Mas, quando a dama se sentou à mesa vizinha a três passos dele, vieram à sua lembrança aquelas histórias de conquistas fáceis, de excursões às montanhas, e a atraente ideia de um relacionamento rápido, efêmero, de um romance com uma mulher desconhecida, de quem não se sabe nem nome nem sobrenome, de repente tomou conta dele.

Gúrov chamou carinhosamente o cachorrinho e, quando este se aproximou, fez- lhe um gesto de repreensão com o dedo. O cachorro rosnou; Gúrov tornou a repreendê-lo com o dedo.

A dama lançou-lhe um olhar e imediatamente baixou os olhos.
– Ele não morde – disse corando.
– Posso dar um osso a ele? – perguntou Gúrov e, quando ela balançou a cabeça afirmativamente, perguntou em tom amistoso: – A senhora está em Ialta há muito tempo?

– Uns cinco dias.
– Quanto a mim, já me arrasto aqui faz duas semanas.
Calaram-se por um instante.
– O tempo passa depressa, mas, ao mesmo tempo, isto aqui é um tédio! – disse ela sem olhar para ele.
– Não passa de um hábito dizer que aqui é um tédio – disse ele. – O burguês leva sua vida em algum lugar, em Beliov ou Jizdra[59], e não sente tédio, mas quando chega aqui: “Ai, que tédio! Ai, quanta poeira!”. Pode-se até pensar que ele veio de Granada.

Ela riu. Depois ambos continuaram a comer em silêncio, como dois desconhecidos. Porém, quando terminaram, puseram-se a caminhar juntos, iniciando uma conversa bem-humorada, leve, de pessoas livres e felizes, para quem não importava para onde ir nem sobre o que falar. Ficaram passeando e fazendo comentários sobre a estranha luminosidade do mar. A água tinha um tom lilás, suave e quente, e por ela se estendia uma faixa dourada de luar. Comentaram que ficava abafado depois de um dia de calor. Gúrov contou que era moscovita, formado em filologia, mas trabalhava num banco. Em certa época se preparou para cantar numa companhia privada de ópera, mas desistiu; tinha duas casas em Moscou... E dela, ele soube que crescera em Petersburgo, mas se casara em S., onde vivia já há dois anos, que ficaria em Ialta cerca de um mês e que talvez o marido viesse se juntar a ela, pois ele também queria descansar. Ela não soube dizer onde seu marido trabalhava – se no governo da província ou no zemstvo provincial – e ela mesma achou graça nisso. E Gúrov ainda ficou sabendo que ela se chamava Anna Serguêievna.

AVT_Anton-Pavlovitch-Tchekhov_2261Mais tarde, no quarto do hotel, ficou pensando nela e imaginou que na certa eles se encontrariam no dia seguinte. Era o que deveria acontecer. Ao se deitar, passou-lhe pela cabeça que há muito pouco tempo ela ainda era uma colegial, estudava, como agora fazia a sua filha, e lembrou-se de quanto havia de timidez e falta de traquejo no seu riso, na conversa com um desconhecido – essa devia ser a primeira vez na sua vida que ela ficava sozinha numa situação como aquela, com pessoas que a procuravam e olhavam para ela com um único e secreto objetivo, o qual era impossível que ela não adivinhasse. Ele se lembrou de seu pescoço fino e frágil e de seus belos olhos cinzentos.

II

Passou-se uma semana desde que se conheceram. Era um feriado. Nos quartos estava abafado e, nas ruas, o vendaval levantava poeira, arrancava os chapéus. A sede atormentou durante todo o dia; Gúrov volta e meia ia ao pavilhão e oferecia a Anna Serguêievna ora água gasosa com xarope, ora sorvete. Não havia onde se refugiar.

À tardinha, quando o vento amainou um pouco, eles foram para o cais ver a chegada do vapor. No embarcadouro, muitas pessoas passeavam; estavam ali à espera de alguém e carregavam flores. Naquele lugar, nitidamente chamavam a atenção duas características da elegante multidão ialtense: as senhoras maduras vestiam-se como as jovens e havia muitos generais.

Devido à agitação do mar, o vapor chegou tarde, quando o sol já se havia posto, e, antes de atracar, ficou muito tempo virando-se. Anna Serguêievna olhava através do lorgnon para o vapor e para os passageiros como a procurar algum conhecido, e seus olhos brilhavam quando se dirigia a Gúrov. Falava muito, suas perguntas eram entrecortadas, ela mesma logo se esquecia do que havia perguntado. Mais tarde perdeu seu lorgnon no meio da aglomeração.

A multidão bem-vestida se dispersou, os rostos já não eram visíveis, o vento cessou totalmente, mas Gúrov e Anna Serguêievna continuavam parados, como se esperassem para ver se não sairia mais alguém do vapor. Anna Serguêievna já não falava e cheirava as flores, sem olhar para Gúrov.

– O tempo à noite melhorou – disse ele. – Aonde vamos agora? Que acha de irmos a algum lugar?

Ela não respondeu.

Então ele a olhou fixamente, abraçou-a de repente e lhe deu um beijo na boca, envolvido pelo aroma e pela umidade das flores, mas logo depois olhou em volta assustado: não teria alguém visto?

– Vamos para o seu quarto... – disse ele baixinho.
E ambos partiram apressados.
O quarto dela estava abafado e havia cheiro dos perfumes que ela comprara numa loja japonesa. Vendo-a naquele momento, Gúrov pensava: “Que encontros não acontecem na vida!”. Do seu passado ele guardava a lembrança de mulheres despreocupadas, afáveis, contentes pelo amor, gratas a ele pela felicidade – embora muito curta – e também a de outras, como sua esposa, por exemplo, que amavam sem sinceridade, com discursos desnecessários, com afetação, histeria e uma expressão tal, como se aquilo não fosse amor, não fosse paixão, e sim algo mais significativo; e também duas ou três muito belas, frias, em cujo rosto perpassava um ar obstinado de ave de rapina, como se desejassem arrebatar da vida mais do que ela pode dar; tais mulheres já haviam passado da primeira juventude, eram caprichosas, avessas ao raciocínio, autoritárias e burras, e quando Gúrov esfriava em relação a elas, sua beleza começava a despertar ódio nele, e as rendas de sua lingerie lembravam-lhe escamas.

Mas, no caso atual, permanecia aquela timidez, a falta de traquejo da
juventude inexperiente, a sensação de embaraço; havia um ar de desnorteamento, como se alguém de repente tivesse batido à porta. Anna Serguêievna, a dama do cachorrinho, em relação ao que acontecera reagiu de um modo um tanto especial, com muita seriedade, como se aquilo significasse sua queda – era a impressão que dava, e isso era estranho e descabido. Seu rosto ficou abatido, murcho; seus longos cabelos pendiam dos lados do rosto; ela ficou meditativa, numa pose de desalento, parecia uma pecadora de uma gravura antiga.

– Foi errado – disse ela. – Agora o senhor será o primeiro a não me respeitar.

Havia sobre a mesa uma melancia. Gúrov cortou um pedaço e pôs-se a comer sem pressa. O silêncio durou pelo menos meia hora.

Anna Serguêievna estava comovente e exalava a pureza da mulher decente, ingênua e inexperiente; a vela solitária que ardia sobre a mesa mal iluminava seu rosto, mas era visível que ela estava sofrendo.

– Por que motivo eu deixaria de respeitá-la? – perguntou Gúrov. – Você não sabe o que está dizendo.

– Que Deus me perdoe! – disse ela, e seus olhos encheram-se de lágrimas. – Isto é terrível!

– Parece que você está se justificando.

– Como poderia me justificar? Sou uma mulher ruim, baixa, eu me desprezo e não penso em me justificar. Traí não o meu marido, mas a mim mesma. E não foi somente agora, já o traio há muito tempo. Meu marido talvez seja um homem bom e honrado, mas é um lacaio! Não sei o que ele faz lá, em que trabalha, só sei que é um lacaio. Quando me casei, eu tinha vinte anos, ardia de curiosidade, ansiava por algo melhor. Pois existe, dizia para mim, uma outra vida. Eu queria viver! Viver, viver... A curiosidade me queimava... O senhor não entende isso, mas, juro por Deus, eu já não conseguia me controlar, algo me aconteceu e eu fiquei fora de mim, então disse ao meu marido que estava doente e vim para cá... E, aqui, andava todo o tempo como se estivesse embriagada, como uma louca... e então me tornei uma mulher vulgar, sem valor, que qualquer um pode desprezar.

Gúrov já estava aborrecido de ouvir aquilo; irritava-o o tom ingênuo, o arrependimento tão inesperado e inoportuno; se não fossem as lágrimas em seus olhos, seria possível pensar que ela estava brincando ou representando um papel.

– Não entendo – disse ele baixinho –, o que você quer?

Ela escondeu o rosto no peito dele e ali permaneceu, agarrada a ele.

– Acredite em mim, acredite, eu lhe suplico... – disse ela. – Eu amo uma vida honesta, pura, tenho horror ao pecado, mas eu mesma não sei o que estou fazendo. As pessoas simples dizem: foi tentação do demônio. Eu também posso dizer agora que o demônio me tentou.

– Já chega, já chega... – balbuciou ele.

Olhando-a nos olhos imóveis e assustados, beijou-a, conversou com ela em voz baixa e com carinho, e pouco a pouco ela se acalmou, recuperou a alegria e ambos puseram-se a rir.

Mais tarde saíram. Na avenida à beira-mar não havia ninguém; a cidade, com seus ciprestes, parecia totalmente morta, mas o mar estava barulhento e batia contra a margem; uma barcaça solitária oscilava nas ondas e nela piscava uma lanterna.

Conseguiram encontrar uma charrete e foram para Oreanda.[60]

– Há pouco, lá em baixo, na portaria, fiquei sabendo seu sobrenome: no quadro está escrito von Dideritz – disse Gúrov. – Seu marido é alemão?

– Não, o avô dele, parece, era alemão, mas ele mesmo é ortodoxo.

Em Oreanda, sentaram-se num banco perto da igreja e ficaram calados, olhando o mar embaixo. Mal se avistava Ialta através da névoa matutina, e nos cumes das montanhas nuvens brancas pairavam imóveis. A folhagem das árvores estava quieta, cigarras cantavam e o ruído surdo e monótono do mar, vindo de baixo, falava de repouso, do sono eterno que nos espera. Esse barulho já se fazia ouvir ali quando não havia nem Ialta, nem Oreanda; ele se faz ouvir agora e será assim também no futuro, surdo e indiferente, quando nós não mais existirmos. E nessa constância, nessa completa indiferença em relação à vida e à morte de cada um de nós, esconde-se, talvez, a garantia de nossa salvação eterna, do incessante movimento da vida na terra, do seu contínuo aperfeiçoamento. Sentado ao lado de uma jovem mulher, que no amanhecer parecia tão bela, tranquilizado e enfeitiçado pela visão desse panorama fantástico – o mar, as montanhas, as nuvens, o amplo céu –, Gúrov pensava que, no fundo, se refletirmos bem, tudo neste mundo é maravilhoso; tudo, exceto aquilo que nós mesmos pensamos e fazemos quando esquecemos das finalidades supremas da existência e da nossa dignidade como homens.

Alguém se aproximou – devia ser um vigia –, olhou para eles e foi embora. Esse detalhe também lhe pareceu misterioso e belo. Via-se a chegada do vapor que vinha de Feodócia, iluminado pela aurora matutina e já de luzes apagadas.

– Há orvalho sobre a relva – disse Anna Serguêievna, quebrando o silêncio. – É, já é hora de ir para casa.
Voltaram para a cidade.
Daí em diante, todos os dias eles se encontravam ao meio-dia na avenida à beira-mar, almoçavam juntos, passeavam, admiravam o mar. Ela se queixava de que dormia mal, de que seu coração batia de maneira angustiada, e fazia sempre as mesmas perguntas, preocupada ora pelo ciúme, ora pelo pavor de que ele não a respeitasse o suficiente. E frequentemente, na praça ou no jardim, quando não havia ninguém por perto, ele a puxava para si e a beijava com paixão. O ócio total, os beijos em plena luz do dia, cheios de cautela e do medo de que alguém os pudesse ver, o calor, o cheiro do mar, o perpassar incessante de pessoas bem- vestidas, festivas e bem-alimentadas pareciam havê-lo transformado. Ele dizia a Anna Serguêievna o quanto ela era bonita, sedutora; demonstrava uma paixão impaciente, não saía do seu lado; já ela, ficava muitas vezes pensativa e continuava a lhe pedir que reconhecesse que ele não a respeitava, não a amava nem um pouco e só via nela uma mulher vulgar. Quase todas as noites, mais tarde, eles iam para algum lugar fora da cidade, para Oreanda ou para a cachoeira. E o passeio era sempre um sucesso, as impressões eram invariavelmente maravilhosas, grandiosas.

Aguardavam a vinda do marido, mas chegou uma carta dele na qual comunicava que adoecera da vista e suplicava à esposa que voltasse para casa o mais rápido possível. Anna Serguêievna se apressou em partir.

– É bom que eu vá embora – disse a Gúrov. – Deve ser o destino.

Ela partiu numa carruagem e ele a acompanhou. Viajaram um dia inteiro. Já acomodada no vagão do trem expresso, depois do segundo sinal ela disse:

– Deixe-me olhar mais uma vez para o senhor... Mais uma vez. Assim.
Ela não chorava, mas estava triste, parecia doente, e seu rosto tremia.
– Vou pensar no senhor... Vou me lembrar – dizia. – Fique com Deus. Não pense mal de mim. Estamos nos despedindo para sempre, isso é necessário, pois nunca deveríamos ter nos encontrado. Bem, fique com Deus.

O trem partiu rapidamente, suas luzes logo sumiram, e um minuto depois não havia mais nem um ruído, como se tudo houvesse sido tramado de propósito para interromper rapidamente aquele sonho, aquela loucura. Sozinho na plataforma, olhando a escuridão distante, Gúrov ouvia o cricrilar dos grilos e o zumbido dos fios telegráficos, com a sensação de que acabava de despertar. Veio-lhe à mente que na sua vida acontecera mais uma conquista ou uma aventura, e que também esta havia terminado, restando agora uma recordação... Ele estava emocionado, triste, e sentia um leve remorso: pois aquela jovem, que ele nunca mais veria, não fora feliz na sua companhia. Ele tinha sido amistoso e gentil com ela; entretanto, no seu modo de tratá-la, no seu tom e nos seus carinhos, como uma sombra transparecia uma leve caçoada, uma arrogância meio rude do homem feliz que, além do mais, tinha o dobro de sua idade. Todo o tempo ela dizia que ele era bondoso, extraordinário, superior; era evidente que ele lhe parecia diferente do que era na realidade; portanto, sem querer ele a enganou...

Ali, na estação, já se sentia o cheiro do outono e à noite começava a fazer um friozinho.

“Está na hora de voltar para o norte” – pensava Gúrov, deixando a plataforma. “Está na hora!”

III

Em casa, em Moscou, tudo já funcionava como no inverno: acendia-se o fogo nas estufas e, de manhã, quando as crianças se arrumavam para a escola e era servido o chá, ainda estava escuro, e a babá acendia as luzes por pouco tempo. O frio chegara. Quando cai a primeira neve, no primeiro passeio de trenó, é agradável ver o chão e os telhados brancos; a respiração fica leve, agradável, e nesse momento vêm à lembrança os anos de juventude. As velhas tílias e bétulas, brancas de geada, têm uma aparência acolhedora, são mais próximas ao coração do que os ciprestes e palmeiras, e junto a elas já não há vontade de pensar em montanhas e mar.

Gúrov era moscovita e regressou a Moscou num belo dia de inverno. Quando vestiu seu casaco de pele e luvas grossas e saiu para um passeio pela Petrovka[63], e quando, mais tarde, no sábado à noite, ouviu o repique dos sinos, sua recente viagem e os lugares onde estivera perderam para ele todo o encanto. Mergulhou aos poucos na vida moscovita, já lia com avidez três jornais diariamente e dizia que, por princípio, não lia jornais de Moscou.

Já tinha vontade de ir aos restaurantes, aos clubes, aos almoços festivos e jubileus, e novamente se sentia lisonjeado por receber em sua casa advogados e artistas famosos e por jogar cartas com um catedrático no clube dos doutores. E já conseguia comer uma porção inteira de caçarola de peixe ou carne, com chucrute...

Gúrov pensava que, passado um mês, Anna Serguêievna ficaria coberta de névoa na sua lembrança e só raramente apareceria em seus sonhos, com seu sorriso comovente, como as outras apareciam. Porém, mais de um mês havia passado, o inverno estava no auge e na sua memória tudo permanecia tão claro como se ele tivesse se separado de Anna Serguêievna apenas na véspera. As recordações avivavam-se cada vez com mais força. Se no silêncio da tarde chegavam ao seu gabinete as vozes das crianças que faziam seus deveres de casa, se ele ouvia uma romança ou o órgão num restaurante ou se a nevasca começava a uivar na chaminé da lareira – de repente tudo ressuscitava na sua memória: o que acontecera no cais, a madrugada na bruma das montanhas, o vapor de Feodócia, os beijos... Ele caminhava muito tempo pelo aposento, recordando, sorrindo; mais tarde, as lembranças se transformavam em sonhos e na sua imaginação o passado se misturava com o que ainda viria. Anna Serguêievna não era um sonho, ela o seguia por toda parte como uma sombra, observando-o. De olhos fechados, ele a via como uma pessoa viva, e ela lhe parecia mais bonita, mais jovem, mais delicada do que na realidade; também ele próprio se via melhor do que fora em Ialta. À noite, lá estava ela na estante de livros, na lareira, no canto do gabinete, olhando-o; ele ouvia sua respiração e o suave farfalhar de sua roupa. Na rua, ele acompanhava as mulheres com o olhar, procurando alguma parecida com ela...

Gúrov já se sentia angustiado e queria compartilhar com alguém suas lembranças, mas em casa era impossível falar do seu amor, e fora de casa não havia com quem. Não haveria de ser com os inquilinos nem no banco. E sobre o que ele poderia falar? Por acaso naquela ocasião ele sentiu amor? Houve, por acaso, alguma coisa bonita, poética, instrutiva ou simplesmente interessante em sua relação com Anna Serguêievna? O único jeito era falar de maneira indeterminada sobre o amor, as mulheres, e ninguém desconfiava da verdade. Apenas sua esposa levantava as sobrancelhas escuras e dizia:

– O papel de fátuo não combina nem um pouco com você, Dimítri.

Certa vez, à noite, saindo do clube dos doutores na companhia de um funcionário público, seu parceiro no jogo, ele não se conteve e disse:

– Se o senhor tivesse ideia da mulher fascinante que conheci em Ialta!
O funcionário sentou-se no trenó e partiu, mas de repente virou-se e gritou: – Dmítri Dmítritch!
– O quê?
– O senhor estava certo hoje cedo. O esturjão estava estragado.
De repente, essas palavras, tão comuns, por algum motivo deixaram Gúrov indignado e lhe pareceram humilhantes, impuras. Que costumes selvagens, que caras! Que noites sem sentido, que dias desinteressantes, sem nada de importante! Frenéticos jogos de cartas, comilança, bebedeira, conversas sempre sobre o mesmo assunto. Essas atividades inúteis e as discussões consumiam as melhores parcelas do tempo, as melhores forças, e, no final, restava uma vida limitada, prosaica, uma idiotice, mas sair dela, fugir, era impossível, como se a pessoa estivesse trancada num hospício ou numa penitenciária!

Gúrov não dormiu aquela noite, indignado, e depois passou o dia inteiro com dor de cabeça. Nas noites seguintes também dormiu mal, ficava sentado o tempo todo na cama, pensando, ou caminhava de um lado para o outro. As crianças o entediavam, o banco também, não queria ir a lugar nenhum nem conversar sobre nada.

Em dezembro, nos feriados, ele se preparou para viajar. Disse à mulher que ia a Petersburgo resolver um assunto para um rapaz e foi para S. Para quê? Ele mesmo não sabia bem. Queria ver Anna Serguêievna, falar com ela, marcar um encontro, se possível.

Chegou a S. pela manhã e ocupou o melhor quarto do hotel. O chão era forrado de lã cinzenta grosseira, igual à dos casacões dos soldados; sobre a mesa havia um tinteiro coberto de pó, com um cavaleiro de braço levantado, segurando uma espada e sem cabeça. O porteiro do hotel lhe deu as informações necessárias: von Dideritz morava na rua Staro-Gontchárnaia, em casa própria, perto do hotel. Vivia bem, era rico, tinha carruagem, todos o conheciam na cidade. O porteiro pronunciava Dríderitz.

Gúrov caminhou sem pressa para a rua Staro-Gontchárnaia, procurando a casa. Exatamente na frente dela havia uma longa cerca cinzenta com pregos.

“Qualquer um fugiria dessa cerca” – pensou Gúrov, olhando ora para as janelas, ora para a cerca. E refletia: “Hoje é feriado e o marido provavelmente está em casa. E, de qualquer modo, seria falta de tato entrar na casa e causar um constrangimento. Se eu enviar um bilhete, ele pode cair nas mãos do marido, estragando tudo. O melhor é confiar no acaso.” E continuou a caminhar pela rua, perto da casa, esperando por esse acaso... Viu um mendigo entrar no portão e os cachorros o atacarem. Uma hora depois, ouviu um piano, e os sons chegaram até ele fracos, confusos. Provavelmente era Anna Serguêievna quem tocava. De repente, a porta principal se abriu e por ela saiu uma velha; atrás dela corria o lulu branco, seu conhecido. Gúrov quis chamar o cãozinho, mas seu coração disparou e, com a emoção, não conseguiu lembrar o nome do cachorro.

Continuou a caminhar, odiando cada vez mais a cerca cinzenta e, irritado, já pensava que Anna Serguêievna o esquecera, que talvez ela já estivesse se divertindo com outro, o que era perfeitamente natural na situação de uma mulher jovem que era obrigada a ver aquela maldita cerca da manhã à noite. Regressou ao seu quarto de hotel e ficou sentado no divã durante muito tempo, sem saber o que fazer; depois almoçou e em seguida dormiu longamente.

“Como tudo isso é tolo e agitado!” – pensava ele, ao acordar, vendo as janelas escuras: já era noite. “Aí está, dormi demais. E agora, o que vou fazer à noite?”

Ficou sentado na cama forrada com um cobertor cinzento barato, como os de hospital, e se recriminava, aborrecido: “Aí está sua dama do cachorrinho... Aí está sua aventura... Agora fique aqui sentado!”

Naquela mesma manhã, na estação, ele notara um cartaz com letras enormes: pela primeira vez na cidade seria apresentada A gueixa. Lembrou-se disso e rumou para o teatro. “É muito provável que ela vá às estreias” – pensou.

O teatro estava lotado. Ali, como em geral em todos os teatros de província, uma névoa subia acima do lustre e havia muito ruído e agitação na galeria. Na primeira fila, antes do início do espetáculo, os janotas locais esperavam de pé, com as mãos nas costas; no camarote do governador, na cadeira da frente, estava sentada sua filha, de boá; já ele próprio se escondera discretamente atrás da cortina e só eram visíveis suas mãos. No palco a cortina balançava, a orquestra afinava demoradamente os instrumentos. Gúrov o tempo todo procurava avidamente com os olhos, enquanto o público entrava e ocupava seus lugares.

Entrou também Anna Serguêievna. Sentou-se na terceira fila, e quando Gúrov olhou para ela sentiu um aperto no coração, compreendendo claramente que, para ele, naquele momento não existia no mundo ninguém mais próximo, caro e importante. Perdida na multidão provinciana, aquela pequena mulher, sem nada de especial, com um lorgnon vulgar na mão, enchia agora toda a sua vida, era a sua dor, a sua alegria, a única felicidade que ele desejava para si; e, ao som de uma orquestra ruim, de violinos mal tocados e simplórios, ele pensava em como ela era bonita. Pensava e sonhava.

Junto com Anna Serguêievna, entrou e sentou-se um homem jovem com pequenas suíças, muito alto e meio curvado; a cada passo ele baixava a cabeça, dando a impressão de estar constantemente fazendo reverências. Era com certeza o marido, que, num acesso de amargura, em Ialta, ela chamara de lacaio. De fato, na sua figura esguia, nas suíças, na pequena calva, havia um quê de discrição de lacaio; ele sorria com doçura e em sua lapela brilhava um distintivo de alguma sociedade científica que lembrava uma plaquinha com número de lacaio.

No primeiro intervalo, o marido saiu para fumar e Anna permaneceu na poltrona. Gúrov, que também estava na plateia, aproximou-se dela e disse com voz trêmula, sorrindo forçado:

– Boa noite.

Ela olhou para ele e empalideceu, depois olhou novamente com pavor, sem crer nos seus olhos, e apertou nas mãos o leque junto com o lorgnon, aparentemente lutando consigo mesma para não desmaiar. Ficaram calados: ela, sentada; ele, de pé, assustado com o constrangimento dela e sem coragem de se sentar ao seu lado. Soaram as afinações dos violinos e das flautas; de repente os dois ficaram apavorados, pois parecia que de todos os camarotes olhavam para eles. Ela se levantou bruscamente e caminhou depressa para a saída; ele a seguiu e eles foram andando sem saber para onde, pelos corredores, pelas escadas, ora subindo, ora descendo, e na sua frente perpassavam uniformes de funcionários do judiciário, de professores de escolas, de servidores do udel, todos com distintivos; vislumbravam-se rapidamente senhoras andando, casacos de pele pendurados nos cabides, e soprava um vento encanado que espalhava o cheiro de tabaco das pontas de cigarros. Gúrov, com o coração batendo apressado, pensava: “Ó Deus, para que essas pessoas, essa orquestra...”.

Nesse momento, de repente ele se lembrou que naquela noite, na estação, ao se despedir de Anna Serguêievna, ele dissera a si mesmo que tudo estava terminado e que eles não se veriam mais. Mas como ainda estava distante o fim!

Numa escada estreita, sombria, onde estava escrito “Entrada para o anfiteatro”, ela parou.

– Que susto o senhor me deu! – disse ela ofegante, ainda pálida e aturdida. – Ai, como me assustou! Estou quase morta. Para que veio aqui? Para quê?

– Me entenda, Anna, me entenda... – disse ele rápido e em voz baixa. – Eu lhe imploro, me entenda...

Ela olhava para ele com terror, com súplica, com amor, olhava fixamente para gravar com firmeza na memória o seu rosto.

– Eu sofro tanto! – continuou ela, sem ouvi-lo. – Todo o tempo só penso no senhor, minha vida é pensar no senhor. E só o que eu queria era esquecer, apenas esquecer. Mas por que, por que o senhor veio?

Num patamar acima deles, dois alunos do ginásio fumavam e olhavam para baixo, mas Gúrov não se importou, puxou Anna Serguêievna para si e começou a beijar seu rosto, suas mãos.

– Que está fazendo, que está fazendo! – dizia ela aterrorizada, afastando-o de si. – Nós dois enlouquecemos. Parta hoje mesmo, parta agora... Eu lhe suplico, por todos os santos, eu lhe imploro... Vem vindo gente!

Alguém vinha subindo a escada.

– O senhor deve ir embora... – sussurrou Anna Serguêievna. – Está ouvindo, Dmítri Dmítritch? Vou me encontrar com o senhor em Moscou. Eu nunca fui feliz, sou infeliz agora, e nunca, nunca serei feliz, nunca! Não me faça sofrer ainda mais! Juro que vou a Moscou. Mas agora vamos nos separar. Meu querido, meu bom amigo, meu amor, vamos nos separar!

Ela apertou a mão dele e desceu rapidamente a escada, voltando-se o tempo todo para olhá-lo, e nos seus olhos via-se que realmente ela não era feliz... Gúrov ficou ali de pé por algum tempo, de ouvido atento, depois, quando tudo silenciou, pegou seu casaco e saiu do teatro.

IV

Anna Serguêievna passou a encontrá-lo em Moscou. Uma vez a cada dois ou três meses, ela partia de S. e dizia ao marido que ia consultar um professor por causa de um problema ginecológico – o marido acreditava e não acreditava. Em Moscou, ela se hospedava no Slaviánski Bazar[66] e imediatamente enviava a Gúrov um mensageiro. Gúrov ia vê-la e ninguém em Moscou sabia disso.

Ele caminhava ao encontro dela no hotel, em certa manhã de inverno (o mensageiro estivera em sua casa na noite anterior, mas não o encontrara), e com ele ia sua filha, que ele tivera vontade de acompanhar até o ginásio, localizado no caminho. Caía uma neve graúda e úmida.

– Está fazendo três graus acima de zero e mesmo assim está nevando – dizia Gúrov à filha. – É porque está quente apenas na superfície da terra. Já nas camadas mais altas da atmosfera a temperatura é completamente diferente.

– Papai, por que não há trovões no inverno?

Ele explicou isso também. Enquanto falava, ele pensava que estava indo para um encontro e que ninguém sabia disso, e provavelmente ninguém jamais saberia. Ele tinha duas vidas: uma evidente, que aqueles que achavam isso importante viam e conheciam, uma vida cheia de verdades convencionais e de mentiras convencionais, exatamente igual à vida de seus conhecidos e amigos; e outra vida que transcorria em segredo. Por uma estranha e talvez fortuita coincidência, tudo o que para ele era relevante, interessante, indispensável, aquilo em que ele era sincero e não enganava a si mesmo, que constituía o âmago de sua vida, não era do conhecimento das outras pessoas, e tudo o que era sua mentira, sua casca, na qual ele se escondia para encobrir a verdade, como, por exemplo, seu trabalho no banco, as discussões no clube, sua “raça inferior”, o comparecimento com a esposa aos jubileus, tudo isso transcorria às claras. E ele julgava os outros por si mesmo, não acreditava no que via, supondo sempre que para cada pessoa, sob o manto do segredo, assim como sob o manto da noite, se passava a sua verdadeira vida, a mais interessante. Cada existência pessoal sustenta-se no segredo, e talvez seja por isso que o homem educado exige tão nervosamente respeito à sua privacidade.

Depois de deixar a filha no ginásio, Gúrov se dirigiu ao Slaviánski Bazar. Ainda na portaria tirou o casaco de pele, subiu e bateu levemente na porta. Anna Serguêievna, com o vestido cinza de que ele mais gostava, cansada da viagem e da espera, aguardava-o desde a noite anterior; estava pálida, olhava para ele sem sorrir e, assim que ele entrou, apertou-se contra o seu peito. Como se tivessem passado uns dois anos sem se ver, seu beijo foi longo, demorado.

– Então, como vai a vida lá? – perguntou ele. – Quais as novidades?
– Espere, já vou dizer... Não consigo.
Ela não conseguia falar porque estava chorando. Ficou de costas para ele e cobriu os olhos com o lenço. “Bem, que chore um pouco, enquanto isso vou me sentar” – pensou ele, acomodando-se na poltrona.

Depois tocou a sineta e pediu que trouxessem chá; e enquanto ele bebia o chá, ela continuava de pé, voltada para a janela... Ela chorava porque sentia angústia e também porque tinha a amarga consciência do rumo triste que suas vidas haviam tomado; eles se viam apenas às escondidas, ocultavam-se dos demais como se fossem ladrões! Por acaso as suas vidas não estavam destruídas?

– Ora, vamos, pare de chorar! – disse ele.

Estava evidente para ele que aquele amor não terminaria tão cedo, mas quando, isso era impossível saber. Anna Serguêievna apegava-se a ele cada vez mais, adorava-o, e seria inconcebível dizer a ela que aquilo algum dia deveria ter um fim; e ela nem acreditaria nisso.

Ele se aproximou e pôs as mãos nos seus ombros, para fazer um carinho, um gracejo, e nesse momento viu-se no espelho.

Seus cabelos já começavam a ficar grisalhos. Ele achou estranho que tivesse envelhecido tanto ultimamente e que estivesse com tão má aparência. Os ombros em que descansavam suas mãos estavam quentes e tremiam. Sentiu compaixão por essa vida que ainda tinha calor e beleza, mas que provavelmente já estava próxima de começar a perder a cor e a murchar, do mesmo modo que a vida dele. Por que ela o amava daquela maneira? Ele sempre parecera às mulheres ser outra pessoa, diferente do que era na realidade, e elas amavam não a ele, mas alguém que sua imaginação havia criado, alguém que elas procuravam ansiosamente em suas vidas. E, mais tarde, quando percebiam seu engano, ainda continuavam a amá-lo. E nenhuma fora feliz com ele. O tempo passava, ele conhecia outra mulher, começava uma nova relação, depois se afastava, mas não amou nem uma vez; chame-se aquilo como se quiser, apenas não era amor. E somente agora, quando sua cabeça já estava ficando grisalha, ele começou a amar de verdade, como deveria – e pela primeira vez em sua vida.

Anna Serguêievna e Gúrov amavam-se como duas pessoas muito íntimas, como marido e mulher, como ternos amigos; parecia-lhes que o próprio destino escolhera um para o outro, e não entendiam por que ele tinha uma esposa e ela um marido; era como se eles fossem duas aves migratórias, macho e fêmea, que foram capturadas e obrigadas a viver em gaiolas separadas. Eles perdoaram um ao outro aquilo de que se envergonhavam no seu passado, perdoaram tudo do presente e sentiam que seu amor havia transformado a ambos.

Antes, nos momentos tristes, ele se tranquilizava com todo tipo de racionalizações que viessem à sua cabeça, mas agora ele não queria ser racional, pois a compaixão que sentia era profunda e ele queria ser sincero, carinhoso.

– Pare de chorar, minha querida – dizia ele –, chorou um pouco, já chega... Agora vamos conversar, pensar em alguma coisa...

Eles ficaram longamente trocando conselhos, falaram de como se livrar da necessidade de se esconder, de enganar, de viver em cidades diferentes, de ficar muito tempo sem se ver. Como se livrar dessas cadeias insuportáveis?

– Como? Como? – perguntava ele com as mãos na cabeça. – Como?

E parecia que, mais um pouquinho, a solução seria encontrada, e então uma nova vida começaria, uma vida maravilhosa; porém, para ambos estava claro que ainda estava muito longe o fim e que o mais complicado e difícil estava apenas começando.

Dezembro de 1899

RECUERDO CALIENTE, por Jorge Moraes

RECUERDO CALIENTE

Fez-se o solo intumescido,
Fertilizando sementes;
E elevaram-se imponentes
Como guardas perfilados;
E os tenros botões dourados
Transmutaram-se em pingentes:
De verde em rubro “caliente”
De frutos já sazonados.

Há neste simples recuerdo,
Cultivado com esmero
Não apenas um tempero
Para aguçar paladares;
Notarás, ao degustares,
Que a vida requer prudência,
Mas é soberba a existência
Apesar de seus pesares.

Sê comedido na ingesta;
Bota tenência ao alarde
Em excesso, a língua arde
E o calorão atropela;
Portanto, mantém cautela
E sorve de vagarinho
Gelados, água ou vinho
Pra refrescar a goela.

Se por ventura a estirpe
For ferida no seu brio,
Não é qualquer desafio
Que um índio macho rejeita:
“Prende o dente” e te deleita,
Mas cuida que não te traia
Uma lágrima que caia
E a bravura ser desfeita.

Convém destacar ainda
Que, dentre seus componentes,
Há valiosos nutrientes
Ao fluxo circulatório;
E, é público e notório,
Assim prega a medicina
Que ela também elimina
Processos inflamatórios.

As fronteiras se ampliaram
Na mais recente pesquisa,
E a ciência a preconiza
No tratamento ao obeso,
E não só reduz o peso:
Colesterol também cede,
E o benefício procede
Se quiser ficar reteso.

Seria dedo-de-moça,
Se não fosse a transgenia,
E até parece ironia,
Mas é a mais pura verdade;
Quem sabe esta variedade
Cujo nome desconheço
Batiza-se pelo apreço
De pimenta da amizade.

Inspirou-me o jardineiro
Com o lavor que o deleita;
E ao proceder à colheita
Cada fruto o gratifica;
E jubiloso o dedica
Aos amigos, com estima
E num gesto que o sublima
Quem divide, multiplica.

Jorge Moraes

25 de mai de 2017

Nunca antes na história deste país... (Avô & Neto em simplismos políticos), por Véio China

Nunca antes na história deste país... (Avô & Neto em simplismos políticos)

-Vô, sabe, ouvi dizer lá na escola que a presidente foi terrorista. Se foi terrorista, como pode ser nossa presidente? – Pergunta o garoto, talvez uns 13 ou 14 anos.

Sobre o menino podemos considerar que é um desses como muitos que andam por aí, e que estão numa fase de desinteresse pelo futebol, entretanto antenados e de olhos bem abertos para as garotas na escola, o Facebook, e surpreendentemente, no universo político tupiniquim, talvez até pelo fator "Black Blocs" o qual, sem discernimentos diz achar  "movimento firmeza”

-Inácio, leve a mal não, mas não acha que és muito garoto para tanto interesse político? – Questiona o avô ao olhá-lo firmemente nos olhos.

-Assim, sabe vô, lá na nossa classe a dona Izilda estava falando sobre a vida de Che Guevara, e a professora disse que o PT e a presidente tem tudo tem a ver com ele, pois todos militaram na esquerda. Perguntei a ela o que era ser de esquerda, direita, e ela explicou, portanto me interessei.

-Eita! E por que esse interesse repentino por esquerda, direita, e ainda mais pela dona Vilma? – O avô insiste, surpreso.

-Ah vô, nem é tanto o interesse por ela, pois do jeito que o pessoal mete o pau nela no Face, acho que deve ser por não estar fazendo grande coisa pelas pessoas....

-Hum, entendi...então vocês acham que ela não está lá fazendo aquelas coisas...sei. Mas, me diga Inácio, lá na tua escola estudam a política nacional?

-Ah vô, não! Não há aula falando de política não. É que a dona Izilda parece ser plugada nesses lances e gosta de descer o pau no governo. Sabe, gosto dela!

-Hum, e é bonita a sua professora de história?

-Eee vô! Tu sempre querendo saber se as mulheres são bonitas! Certo, o que posso dizer é que ela é  de geografia, e que também é meio barrilzinho, mas tem uns olhos azuis maravilhosos!

-Eita! Dos olhos azuis, além de ser gordinha  até que entendi, mas, como assim... professora de geografia? – Surpreende-se o velho.

-Uai, como assim....ora! geografia, vô...Ge o gra fi a! - O fedelho responde separando as sílabas

-Nossa, que coisa! Imagino então que nas aulas de história vocês aprenderão sobre o curso do Rio Amazonas, o quanto é pitoresco o Sena, e ainda as rotas das pirâmides no Egito. Pelo amor de Deus, o ensino neste país tá de brincadeira! O que pode ter a ver o cu com as calças? – O velho resmunga demonstrando seu descontentamento com a qualidade dos professores do país.

-Ô vô, vê se não me enrola! Para com esse papo sobre rios e rotas e me diga; A presidente Vilma foi ou não foi terrorista? – O garoto insistiu na pergunta. O velho o olha aturdido; Que assunto chato fui me meter! – Ruminou em pensamento. Depois muniu-se de alguma coragem e seguiu adiante.

-Assim meu filho, vamos por parte. Primeiro, a presidente não foi terrorista, mas, revolucionária, guerrilheira, apesar de muitos verem terrorismo nas atitudes tomadas por aqueles grupos. Claro, naquele tempo ela jamais se imaginou detentora de algum poder, afinal as esquerdas não tinham voz e nem vez no país... – O velho relata. Entretanto, antes mesmo de terminar as suas falas é bruscamente interrompido pelo neto.

-Uai, como é que pode isso, vô? Uma esquerda ser fraca e eleger um presidente? – O menino questiona de olhos arregalados –

O avô o olha e coça a cabeça e murmura entre dentes. “E agora José, como explicar isso pra esse fedelho curioso que o curso da história mudou?” – Depois decide; “Já que entrei no jogo não é justo deixa-lo na metade. Decide antes de disparar suas costumeiras metáforas.

-Bom...é que no meio do caminho surgiu um barbudinho que encantou a mídia e os intelectuais desse país. Já ouviu falar sobre uma poesia de Drummond, chamada “No meio do caminho?”

-Ah, já sim, vô! Aquela que diz  " E agora José/A festa acabou/A luz apagou" A professora de matemática vive recitando essa daí e muitos outros poemas.

-Hum...professora de matemática recitando "José"? – Outra vez o velho se surpreende, primeiro, pela confusão do garoto ao vê-lo referir-se a outro poema do imortal Drummond. Segundo, porque também não entendia a mestra de matemática ministrando aulas de literatura no lugar daqueles, para ele, incompreensíveis cálculos.

-É sim, vô! Ela é a nossa professora de matemática! - O garoto confirma

-Tá certo, Inácio. Apesar de você não estar se referindo ao poema que mencionei, confesso, o efeito é praticamente o mesmo. Portanto pegue a "No meio do caminho tinha uma pedra/Tinha uma pedra no meio do caminho" e substitua a palavra pedra e no seu lugar coloque“barbudinho” e aí sim terá uma poesia política afeita ao nosso tempo.

-Ta bom vô, vamos ver como fica; "No meio do caminha tinha um barbudinho/Tinha um barbudinho no meio do caminho" – O garoto ouve o som da própria frase. Porém, repentinamente o sobressalta: Mas...epa! O que pode ter a ver entre o barbudinho, o poder e a pedra? – Protesta o garoto num espanto que se fez cristalino.

- A princípio, nada, Inácio. É apenas brincadeira minha. Já reparou como um dos seus nomes é idêntico ao do barbudo? De diferente só o Ruis e o Nilva? – O velho compartilha num tom professoral.

-Ah é mesmo vô! Quem ainda não ouviu falar no nome de Ruis Inácio da Nilva? – O menino consente.

-Sim, mas voltando ao assunto o fato é que esse barbudinho se tornou conhecido nacionalmente por Tula. Ele foi um obstinado, e  mesmo semi analfabeto já lhe sentíamos o dom da esperteza, pois sabia estar na mídia como ninguém, inclusive, evidência que se deu na conta dos levantes da classe metalurgica, isso no ABC, e em plena década de 70.

-Mas, o que ele pretendia, vô? – Evidente, o garoto se mostrava interessadíssimo pelo assunto.

- O que posso dizer Inácio, é que à época ele brigava por melhores salários, direitos e melhores condições de trabalho.

-Nossa vô, então podemos concluir que ele foi um sujeito corajoso?

-Podemos sim Inácio! Pra falar a verdade, esse barbudinho foi um osso duro de roer, um grevista de mão cheia que lotava os estádios com as assembleias que promovia com a sua classe.

-Ah, que legal! O vô, é verdade que Tula não tem um dos dedos?

-É verdade sim Inácio. Inclusive sobre ele contam algumas línguas que ele decepou propositadamente o dedo numa prensa da fábrica onde trabalhava.

-Como assim vô, quem seria louco de cortar o próprio dedo? Mas... por que ele faria isso? – O garoto questiona intrigado.

-Bem, nem eu sei, pois com ele parece que tudo sempre foi e será possível – O velho devolveu num tom tão sarcástico que acabou por gerar dúvidas no guri.

-Ô vô, te conheço, né! Para de esconder o ouro de mim! – Ele olhava firmemente para o avô, e como esse nada respondeu, continuou -

-Sabe, a minha professora revelou que admirava muito esse tal de Tula, mas que agora não admira mais. Ela diz que ele traiu diversas promessas e princípios que fizeram ele chegar no poder. Ela disse ainda mais... Disse que hoje ele posa dando tapinhas nas costas de parceiros políticos, pessoas que no passado sempre alcunhou de corruptas e que lesavam o Brasil.

-Pois é Inácio. Assim como a tua professora há milhões de brasileiros que tem a mesma impressão sobre ele, e não são poucos os que não suportam nem que lhes digam o nome.

-Tô sabendo vô! – O guri respondeu divertido – Sabe, tenho um colega de classe que disse que o vô dele contou que à época muita gente tinha medo do barbudinho, e que os militares pregavam que ele seria capaz de comer criancinhas vivas, se essas dessem moleza! Cada louco, né vô? – O menino finalizou num riso divertido.

-Então, Inácio, foi mais ou menos isso. É que à época tanto a direita como o centro morriam de medo dele. Bem, mas isso não importa, e o que a história conta é que que ele acabou se elegendo e se tornou o nosso presidente.

-Caraca vô, então esse tal de Lula era um sujeito porreta, mesmo!

-Era sim, Inácio. E me lembro do dia da sua posse, e foi uma tarde de muitas festas, e o povo saiu à rua, pois pela primeira vez um homem do povo, miserável, se tornava o presidente do Brasil.

- E o senhor, vô? Acha que ele foi um bom presidente? –

-O que posso responder? Assim, diria que fez alguma coisa pelas pessoas mais carentes. Entretanto, a partir do 2º ano do seu governo começou a mostrar suas verdadeiras intenções ao lutar tenazmente contra tudo que defendeu. Inclusive contra o plano vigente das aposentadorias. Sobre isso ele modificou prazos, estendeu contribuições, faixas etárias.

-Nossa vô! Fale numa língua que eu possa entender, né! Mas, em todo o caso, e se foi o que entendi, é muito doido isso de ser trabalhador e lutar contra os interesses do próprio trabalhador? – O garoto raciocinou alarmado

-Então Inácio, foi assim mesmo. Ah, ele também sempre foi fã de aviões e viagens, inclusive fez a União comprar aviãozinho que nos custou os olhos da cara! - O velho respondeu indignado.

- Epa, espera, to me esquecendo de contar algo bobo...O Tula adorava entornar umas branquinhas.
Dizem que foi sob o efeito do álcool que pretendeu expulsar do país um jornalista estrangeiro que o taxou de alcoólatra. Entretanto, fora as cachaças procedeu algumas medidas no âmbito social, estendendo bolsas esmolas para uma legião de miseráveis, aliás, ideia que nem do seu governo partiu,  mas do anterior.
Mas foi aí que demonstrou o quanto era sabichão ao perceber que seria ali onde se concentraria o poder de barganha com um povo sofrido. E essa barganha é que os mantém no poder até hoje, já que ganham as eleições às custas da miséria e das esmolas dadas aos miseráveis.

-Puxa vô! É verdade isso?

-É sim. Quem olha de fora seria capaz de imaginar que isso traz felicidade e bem estar para esse povo. É mentira, não traz, pois não há planos para a educação  e nem oportunidades pera eles, infelizmente! Claro, é de pura demagogia, pois ele sempre soube que jamais resolveria a questão da pobreza, assim como a educação, saúde e moradia. Portanto criou esses auxílios esmolas e os distribuiu aos milhões para essas pessoas. E todos sabemos que foi golpe eleitoreiro para se perpetuar no poder, pois para os miseráveis qualquer quantia é uma benção.

-Poxa, que sujeito esperto, eim vô? – O garoto sorri.

-Sim, espertíssimo! Entretanto ele decepcionou as pessoas que detém algum grau de conhecimento, brasileiros que, como eu acreditaram piamente em suas promessas dum governo comprometido com moralidade, e à caça de corruptos e corruptores. E a maior das verdades é que, lamentavelmente o barbudo não combateu aqueles que assaltaram o povo, ao contrário, parece ter se aliado a eles, cerrando os olhos para isso e pra quilo, para depois, mesmo que descobertos os golpes implantados por seu guru político, ter a coragem de vir a nação e confessar que foi traído e de que nada sabia. Foi lamentável o fato.

-Uauu, que bacana! Gostei do esquemão! Um presidente que nada sabe deve ser um cara fantástico! Bem que poderia ser assim na escola, né?

-Como assim Inácio, não entendi! Explique melhor. –

-Assim vô; Quando há prova oral e fico com cara de besta ao não ter a resposta para certas perguntas. E assim sou obrigado a ouvir o riso dos que se julgam mais inteligentes,e eles me chamam de burro na cara dura, de toupeira, e essas coisas assim. Portanto seria bacana logo ir dizendo; Professora, eu nada sei! E todos me olhariam compreensivos diante a manifestação da professora, numa coisa tipo assim; Nossa, que bom, Inácio! Parabéns, você nunca sabe de nada, estamos orgulhosos de você! –  O menino respondeu de forma matreira, e ambos se olhando, sorriram e depois gargalharam. Amainado os risos o velho prosseguiu:

-Pois é Inácio, esse foi o mandatário que se julgou traído, aliás, traição e traidores que trabalhavam na sala ao lado da sua, ali bem diante de sua barba grisalha! E foi esse o pessoal que implantou pagamentos, uma espécie de“mensalão” para os políticos que votassem na Câmara de acordo com os interesses do governo  petista.

-Nossa vô, que trama incrível - Novamente interrompe o garoto. Depois continua: -Merecia um filme isso! – Mas, o que acabou acontecendo com esse pessoal, vô? – Intrigado o garoto questionou.

-Bem...o esquema foi descoberto porque um desses políticos parece não ter recebido o que lhe prometeram, e então ele botou a boca no trombone. Depois que o escândalo estourou, o traidor da sala ao lado, junto de muitos outros pegos com a boca na botija foram julgados e condenados pela mais alta corte da justiça nacional. Entretanto, com uma nova composição de ministros os quadrilheiros conseguiram um novo julgamento e O STF absolveu alguns da acusação de formação de quadrilha. Entendeu?

-Eu não, vô! Não entendi muito bem esse negócio de “quadrilha” ser absolvida pelo crime de “formação de quadrilha” Isso não me pareceu nada lógico. E outra, nem sei o que quer dizer esse ST e mais alguma coisa, esse que o senhor acabou de se referir.

-Ah, é a sigla do Supremo Tribunal Federal. Como eu disse, é um colegiado que reúne diversos juízes, e eles se tornam ministros e são nomeados pelo presidente da república. No caso do novo julgamento, e sobre a sentença absolvendo os apontados por “formação de quadrilha” aconteceu o fato dos dois novos juízes serem recentemente nomeados pela presidente Vilma. Muitos afirmam que houve "mutreta" neste novo julgamento, inclusive apontando que um dos novos empossados  recebeu uma nota preta por assessoria prestada a União. Portanto, os novos membros votaram à favor da absolvição, tornando sem efeito o julgamento anterior, e no qual haviam sido condenados.

-Nossa vô! Que rolo é esse negócio de Poder! –

-Pois é, Inácio. Pois é! – O velho solta os braços em sinal de desânimo.

-Poxa vida vô, agora to percebendo como parte das coisas andam nesse país. Acho que eu também ficaria decepcionado.

-Exatamente Inácio, Eu fiquei e muitos outros ficaram! Porém coisas estranhas acontecem diariamente nesse  Brasil. Não te espantes, ainda verás muito disso na tua jornada e nesta terra onde canta o sabiá. Ah,e por falar em coisas estranhas...por acaso você não pretende montar uma pequena empresa, sem capital, talvez até na área da informática? E por que não uma empresa onde nada se cria, nada fabrica? Empresa onde não há empregados, escritório, endereço fixo e clientes. Empresa onde verdadeiramente não haverá nada, mas que poderemos vender por milhões e milhões de reais para uma eventual compradora, quem sabe  uma concessionária do setor das telecomunicações. Sabe, Inácio, uma coisa te garanto; Ficaremos milionários do dia pra noite! Topas?

-Uauuu! Claro que topo vô! Mas... é possível uma barbada dessa? – O garoto pergunta entusiasmado.

-Aqui é totalmente possível! Sabe, Inácio, pressinto coisas boas para você. Acho que você ainda nem sabe, mas ainda serás o bambambã nos negócios de nossa família.
E não te impressiones se um dia tiveres que limpar merda de girafa num zoológico qualquer. Não te impressiones mesmo! Tudo, tudo, tudo será transitório, acredite em mim! - O velho se entusiasma, antes mesmo de desferir o bordão fatal.

-Tu Inácio, tu és um gênio, Inácio e serás o nosso "Neymar" nos negócios!


Copirraiti12Mar2014
Véio China©

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