Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

17 de abr de 2017

Oficina de escrita literária em PELOTAS RS

Oficina de escrita literária Inspiraturas 

às quintas 19h em Pelotas RS

  • Para escritores iniciantes ou amadores
  • Ambiente informal e divertido
  • Desafios lúdicos que agregam resultados
  • Transforme seus sonhos em belos textos literários
  • mente ocupada = saúde e bem estar

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10 de abr de 2017

o projeto INSPIRATURAS

Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

blog2017O projeto INSPIRATURAS - OFICINAS DE CRIAÇÃO LITERÁRIA oferece a oportunidade, ao público em geral, de desenvolver a prática da produção de textos literários e de conhecer os aspectos técnicos que compõem o estilo, o tipo e garantem a eficácia do texto. As oficinas Inspiraturas são fundamentadas na premissa de que escrever se aprende no exercício da leitura e da escrita.

INSPIRATURAS é uma pequena empresa voltada para desafiar o desenvolvimento humano através das ferramentas da comunicação textual e literária, ou seja, como meios do desenvolvimento dos hábitos de ler, escrever, falar e ouvir o mundo na forma de arte e, sobretudo, o despertar de um senso crítico capaz de promover transformações mais efetivas no ser e no seu ambiente.

INSPIRATURAS foi planejada com foco naquela pequena parcela que reconhece a literatura como um caminho para a busca do sentido da existência, e que não encontra espaço social disponível e em sintonia com essa busca. Queremos fomentar nosso mercado em torno daqueles que encontram prazer na necessidade de trocar experiências e conhecimento. No nosso projeto, essas pessoas têm papel preponderante, já que o grande valor agregado ao nosso produto é a qualidade das relações interpessoais e da comunicação; trata-se de uma proposta fundamentada nos melhores valores humanos.

Nosso diferencial reside na valorização da convivência e da arte. Buscamos um cliente que, por sua vez, também se distingue da média, preocupado em exercer sua humanidade num espaço simples no qual a importância reside na qualidade de vida, na atenção, respeito e carinho.

Acendendo a fogueira – Jack London

Acendendo a fogueira – Jack London

Tradução do texto original com o título 
To Build a Fire inSELECTED NORTHLAND TALES 
Oxford University Press, 
Oxford-New York, 1996 
©Luís Varela Pinto

Fazer uma Fogueira

O dia tinha já rompido frio e cinzento, extremamente frio e cinzento, quando o homem deixou o trilho principal do Yukon e subiu pela alta margem de terra, onde um trilho muito leve, pouco pisado, se dirigia para Leste por entre uma floresta de grossos abetos. A margem era íngreme e ele parou para tomar fôlego, olhando o relógio para justificar aquela paragem perante si próprio. Não havia sol, nem vestígios dele, embora não houvesse uma só nuvem no céu. Estava um dia claro, e contudo parecia haver um manto intangível a cobrir todas as coisas, uma subtil melancolia que tornava o dia escuro e que se devia à ausência do sol no céu. Este facto não preocupava o homem. Já estava habituado à falta do sol. Já não o via há alguns dias e sabia que mais alguns se passariam antes que a alegre esfera, a cumprir o seu percurso a Sul, espreitasse apenas acima do horizonte para logo desaparecer da vista.

O homem lançou um olhar para trás, para o caminho que trouxera. Lá estava o Yukon, uma milha de largura, escondido sob um metro de gelo. E sobre este gelo outro tanto de neve. Era toda uma brancura imaculada, rolando em suaves ondulações nos sítios onde a congelação tinha formado montes de gelo. Para Norte e para Sul, até onde a vista alcançava, era tudo de uma brancura ininterrupta, salvo uma fina linha escura que em curva se afastava da ilha coberta de abetos em direção ao Sul, e que curvava depois para Norte e desaparecia por detrás de outra ilha coberta de abetos. Esta fina linha escura era o trilho — o trilho principal — que levava até ao Chilcoot Pass, Dyea, e à água salgada, quinhentas milhas mais adiante; e que para Norte ia até Dawson, a setenta milhas, e ainda mais para Norte até Nulata, a mil milhas, e finalmente até St.Michael, no Mar de Bering, mil e quinhentas milhas mais adiante.

Mas nada disto — nem a misteriosa linha do trilho a perder de vista, nem a ausência do sol, nem o tremendo frio, nem a singularidade ou o carácter estranho de tudo aquilo — deixava qualquer impressão no homem. Não que ele já estivesse há muito habituado a eles. Ele era novo naquelas terras, um chechaquo, e este era o seu primeiro inverno naquelas paragens. O problema dele era a falta de imaginação. Era esperto e estava atento às coisas da vida, mas apenas às coisas e não ao significado delas. Cinquenta graus negativos significavam oitenta e tal graus de congelação. Tal facto, para ele, significava frio e desconforto, e apenas isso. Não o levava a meditar sobre a sua fragilidade como criatura de temperatura que era, ou sobre a fragilidade do homem em geral, apenas capaz de viver dentro de certos limites muito estreitos de calor e frio; e não o levava, daí para a frente, para o campo das conjecturas sobre a imortalidade e sobre o lugar do homem no universo. Cinquenta graus negativos representavam uma picada do frio, que faz doer e de que a gente se deve resguardar usando luvas, lobos de orelha, botas quentes de pele e meias grossas. Cinquenta graus negativos, para ele, eram apenas e só cinquenta graus negativos. Nunca lhe passara pela cabeça que pudessem ser mais alguma coisa.

Quando se virou para prosseguir o seu caminho, cuspiu, distraído a refletir. Ouviu um estalido agudo que o despertou. Cuspiu outra vez. E outra vez, no ar, antes de cair na neve, o cuspo estalou. Ele sabia que a cinquenta graus abaixo de zero o cuspo estalava na neve, mas este cuspo tinha estalado no ar. Não havia dúvida de que estava mais frio do que cinquenta abaixo de zero — quanto é que ele não sabia. Mas a temperatura não importava. Ele dirigia-se à velha concessão no braço esquerdo da bifurcação do Henderson Creek, onde os rapazes já se encontravam. Eles tinham vindo da região do Indian Creek, atravessando as montanhas, enquanto que ele tinha feito um desvio para ver das possibilidades de retirar os toros de madeira das ilhas do Yukon na Primavera. Ia lá chegar pelas seis horas; um pouco tarde, realmente, mas os rapazes lá estariam, já teriam uma fogueira e uma refeição quente pronta. Quanto ao almoço, apalpou o volume que sobressaía por baixo do casaco. Estava também por baixo da camisa, embrulhado num lenço contra a pele nua. Era a única maneira de conservar as bolachas sem congelarem. Sorriu para si próprio quando pensou naquelas bolachas, abertas uma a uma e embebidas na gordura do bacon e cada uma delas com uma generosa fatia de bacon frito.

Mergulhou na floresta, no meio dos enormes abetos. O trilho estava muito sumido. Já tinham caído trinta centímetros de neve desde a última passagem de um trenó, e ainda bem que ele não trazia um trenó, e ia assim tão leve. De facto, ele não trazia senão o almoço embrulhado num lenço. Estava era surpreendido com o frio. Estava realmente muito frio, concluiu, enquanto esfregava, com a mão enluvada, o nariz e as faces dormentes. Ele usava suíças, mas aqueles pelos não lhe protegiam a parte frontal da cara e o nariz ansioso, que se espetava agressivamente no ar gelado.

A trote e na peugada do homem, vinha um cão, um cão grande arraçado de lobo, daqueles com que andam os esquimós, e em nada diferente, física ou temperamentalmente do seu irmão, o lobo selvagem. O animal estava abatido, daquele frio tremendo. Ele sabia que não era altura para andar a viajar. O instinto fornecia-lhe uma informação mais real do que aquela que o homem obtinha através da sua própria avaliação. Na verdade, aquele frio não era só de cinquenta graus abaixo de zero; era de mais de sessenta ou setenta graus abaixo de zero. Era de setenta e cinco graus abaixo de zero. Como o ponto de congelação é de trinta e dois graus acima de zero, a temperatura chegara portanto aos cento e sete graus abaixo do ponto de congelação*. O cão não sabia nada de termómetros. Provavelmente não havia no seu cérebro qualquer noção exata do frio como a que havia no do homem. Mas o animal tinha o seu instinto e sentia uma vaga mas ameaçadora apreensão que o dominava e o fazia seguir na peugada do homem e o fazia questionar ansiosamente cada um dos seus movimentos menos habituais como se estivesse à espera que ele fosse acampar ali ou fosse procurar abrigo algures e fazer uma fogueira. Ele aprendera a conhecer as fogueiras e precisava de uma fogueira, ou então de escavar um buraco sob a neve para se aquecer aninhando-se ao abrigo da atmosfera exterior.

O orvalho resultante da respiração fixava-se-lhe no pelo na forma de um fino pó de gelo, e em especial o queixo, o focinho e as pestanas estavam brancos do seu bafo cristalizado. A barba e o bigode ruivos do homem estavam igualmente congelados, mas mais solidamente, tendo aqui a forma de gelo mesmo e aumentando a cada uma das suas expirações quentes e húmidas. Além disso, o homem ia a mascar tabaco e o gelo que lhe cobria a boca firmava-lhe os lábios de tal maneira que ele não conseguia limpar o queixo quando expelia o suco. O resultado era uma barba cristalizada da cor e da consistência do âmbar e que ia aumentando de tamanho no queixo. Se ele caísse, aquilo estilhaçava-se como vidro. Mas aquele apêndice não o preocupava. Era o preço a pagar por aqueles que mascavam tabaco naquelas terras, e ele já tinha tido duas experiências idênticas. O frio não era tanto, ele sabia-o, mas pelo termómetro de álcool em Sixty Mile ele soubera que se tinham registado temperaturas de cinquenta e cinquenta e cinco.

Continuou por uma extensão plana de floresta durante algumas milhas, atravessou uma vasta planície coberta de moitas e depois meteu por uma encosta abaixo em direção ao leito gelado de um pequeno ribeiro. Era o Henderson Creek, e ele sabia que estava a dez milhas da bifurcação. Consultou o relógio. Eram dez horas. Estava a fazer quatro milhas por hora e calculou que devia chegar à bifurcação ao meio-dia e meia. Resolveu que almoçaria lá para comemorar o acontecimento.

O cão continuava a segui-lo num desânimo de cauda pendente enquanto o homem gingava ao longo do leito do ribeiro. O sulco do velho rasto de trenó era bem visível, mas alguns centímetros de neve cobriam as marcas de patins mais recentes. Há um mês que ninguém passava, para cima ou para baixo, naquele ribeiro silencioso. O homem prosseguiu determinado. Ele não era muito dado a pensar, e particularmente naquela ocasião não tinha nada em que pensar a não ser em que iria almoçar na bifurcação e que às seis horas estaria no acampamento com os rapazes. Não havia ninguém com quem falar; e, se houvesse, teria sido impossível falar por causa da mordaça de gelo que lhe cobria a boca. Assim, continuou monotonamente a mascar tabaco e a fazer crescer a sua barba de âmbar.

De vez em quando vinha-lhe à ideia o terrível frio que fazia, e que nunca sentira tal frio. À medida que caminhava ia esfregando a cara e o nariz com as costas da mão enluvada. Fazia isto mecanicamente, mudando de mão de quando em vez. Mas por muito que esfregasse, assim que deixava de o fazer os malares ficavam logo dormentes e depois também a ponta do nariz. A cara ia certamente ficar gelada; ele sabia isso, e era com grande angústia que se arrependia de não ter arranjado uma proteção para o nariz do género da que o Bud usava durante as vagas de frio. Essas proteções passavam também pela cara e protegiam-na. Mas, afinal, também não importava muito. Qual era o problema de ter a cara gelada? Um pouco doloroso, só isso; nunca era coisa muito grave.

Vazia de ideias como a sua cabeça era, o homem era, porém, muito observador, e reparou nas mudanças do ribeiro, as lombas, as curvas e os ramos de árvore, e tinha sempre o cuidado de ver onde punha os pés. Uma vez, depois de uma curva, recuou abruptamente, como um cavalo assustado, desviou-se do sítio por onde tinha vindo a caminhar e retrocedeu alguns passos no trilho. O ribeiro sabia ele que estava gelado até ao fundo — nenhum ribeiro podia ter água naquele inverno polar — mas também sabia que havia nascentes que borbulhavam nas encostas dos montes e cuja água corria encosta abaixo sob a neve e por cima do gelo do ribeiro. Ele sabia que mesmo as mais rigorosas vagas de frio nunca conseguiam congelar estas nascentes, e conhecia igualmente o seu perigo. Eram armadilhas. Escondiam poças de água, debaixo da neve, que podiam ter um centímetro ou um metro de profundidade. Às vezes estavam cobertos por uma fina camada de gelo de três centímetros, que, por sua vez, estava coberta de neve. Outras vezes, havia camadas alternadas de água e gelo, de modo que, quando uma se quebrava, as outras começavam a quebrar-se por ali abaixo e a pessoa podia ficar metida na água até à cintura.

Esta a razão por que ele recuara tão assustado. Tinha sentido o gelo a ceder sob os seus pés e ouviu o estalido da camada de  gelo escondida sob a neve. E molhar os pés com tal temperatura significava perigo e problemas iminentes. Significava na melhor das hipóteses um atraso, porque seria obrigado a parar para acender uma fogueira cujo calor lhe permitisse ficar descalço enquanto secava as botas e as meias. Ficou a estudar o ribeiro e as margens e concluiu que a água vinha da direita. Reflectiu por momentos, esfregando a cara e o nariz, depois desviou-se para a esquerda, a caminhar cautelosamente e a experimentar a firmeza do piso passo a passo. Passado o perigo, meteu na boca mais um bocado de tabaco para mascar e lá prosseguiu no seu ritmo de quatro milhas por hora. No decurso das duas horas seguintes, deparou com várias destas armadilhas. Geralmente a neve que escondia as poças tinha um aspecto cavado, de açúcar cristalizado, que anunciava o perigo. E mais uma vez escapou por um triz; e uma das vezes, desconfiando do perigo, obrigou o cão a ir na frente. O cão não queria ir. Foi ficando para trás até que o homem o enxotou para a frente, e depois atravessou rapidamente a superfície branca. Subitamente o gelo quebrou e o cão debateu-se por momentos, desequilibrado para um dos lados, mas depois conseguiu sair para piso mais firme. Tinha molhado as patas e pernas da frente, e quase imediatamente a água que ficara agarrada ao pelo transformou-se em gelo. Fez rápidos esforços para o remover lambendo as pernas e depois sentou-se na neve começando a morder o gelo que se tinha formado entre os dedos para o tirar também. Fez isto apenas por instinto. Deixar ficar o gelo significaria pés em ferida e ele não sabia isso. Apenas obedeceu à misteriosa indicação vinda das profundezas ocultas do seu ser. Mas o homem compreendeu-o, depois de avaliar a questão, e tirou a luva da mão direita e ajudou-o a remover as partículas de gelo. Não expôs os dedos ao ar mais do que um minuto, e ficou espantado com a rapidez com que o entorpecimento os atingiu. Estava realmente muito frio. Calçou rapidamente a luva e começou a bater ferozmente com a mão no peito.

Às doze horas o dia atingia a sua claridade máxima. Mas o sol andava tão para sul na sua viagem invernal que não conseguia clarear o horizonte. O bojo da terra interpunha-se entre ele e o Henderson Creek, onde o homem caminhava sob um céu limpo, ao meio dia, sem projetar qualquer sombra. Ao meio-dia e meia, pontualmente, chegava ele à bifurcação do ribeiro. Estava satisfeito com o andamento que conseguira. Se o conseguisse manter estaria certamente com os rapazes pelas seis horas. Desabotoou o casaco e a camisa e tirou o almoço para fora. Esta tarefa não lhe demorou mais de um quarto de minuto, mas esse curto espaço de tempo foi suficiente para que os dedos expostos ao ar lhe ficassem dormentes. Não calçou a luva, em vez disso começou a bater repetidamente com os dedos nas pernas. Depois sentou-se num tronco coberto de neve para comer. O formigueiro nos dedos, depois de ter batido com eles nas pernas, cessou tão depressa que ele ficou sobressaltado. Não tinha tido qualquer possibilidade de dar uma única dentada nas bolachas. Bateu com os dedos repetidamente e calçou a luva, descalçando a outra mão para comer. Tentou uma dentada de boca cheia, mas a mordaça de gelo impediu-o. Esquecera-se de fazer uma fogueira para derreter o gelo. Riu-se da sua insensatez, e enquanto ria começou a notar a dormência a subir-lhe pelos dedos nus acima. E notou também que o formigueiro que começara a sentir nos dedos dos pés quando se sentara já estava a passar. Não sabia bem se os dedos dos pés estavam quentes ou dormentes. Mexeu-os dentro das botas e concluiu que estavam dormentes.

Calçou a luva rapidamente e pôs-se de pé. Começava a ficar um tanto assustado. Começou a bater com os pés até o formigueiro voltar. Só pensava que estava realmente muito frio. Aquele homem de Sulphur Creek tinha razão quando lhe falou do muito frio que às vezes se fazia sentir na região. E ele nessa altura rira-se do homem! Isto mostrava que não devemos ter tanta certeza das coisas. Não havia qualquer dúvida sobre isso, estava mesmo frio. Começou a andar energicamente de um lado para o outro, batendo com os pés e sacudindo os braços até conseguir que aquecessem. Depois pegou nos fósforos e começou a fazer uma fogueira. Nas moitas, onde a água da primavera anterior tinha deixado um monte de galhos secos, arranjou ele a lenha. Começando cuidadosamente de um pequeno lume, depressa conseguiu chamas grandes a crepitar, sobre as quais derreteu o gelo da cara e ao calor das quais comeu as suas bolachas. Por enquanto o ar frio estava vencido. O cão aproveitou bem a  fogueira, estendendo-se suficientemente perto para receber o calor e suficientemente longe para não ficar chamuscado.

Depois de acabar de comer, o homem encheu o cachimbo e ficou a fumá-lo confortavelmente. Depois calçou as luvas, apertou bem os lobos de orelhas e tomou o trilho esquerdo da bifurcação. O cão ficou desapontado e olhava, nostálgico, para a fogueira. Este homem não conhecia o frio. Possivelmente nenhuma geração dos seus antepassados conheceu o frio, o verdadeiro frio, o frio de cento e sete graus abaixo do ponto de congelação. Mas o cão conhecia-o; todos os seus antepassados o conheceram, e ele herdara esse conhecimento. E sabia que não era bom andar por fora com aquele frio terrível. O tempo estava bom era para se estar metido num buraco da neve, bem aconchegado, e esperar que uma cortina de nuvens se viesse descerrar sobre o espaço exterior donde vinha aquele frio. Por outro lado, também não havia grande intimidade entre o cão e o homem. O primeiro era escravo do segundo, e as únicas carícias que alguma vez recebia eram as do chicote e dos sons guturais que eram já uma ameaça de chicote. E por isso o cão não fez qualquer esforço para dar a conhecer ao homem a sua apreensão. Ele não estava preocupado com o bem estar do homem; era apenas por ele próprio que ele sentia aquela nostalgia da fogueira. E o homem assobiou e falou-lhe em tom de chicote, e o cão lá seguiu na sua peugada.

O homem meteu mais uma porção de tabaco na boca e iniciou a construção de uma nova barba âmbar. E o seu bafo húmido depressa lhe pulverizou de branco o bigode, as sobrancelhas e as pestanas. Neste trilho esquerdo da bifurcação do Henderson, parecia não haver tantas nascentes, e durante meia hora o homem não viu vestígios de nenhuma. Mas depois aconteceu. Num sítio onde não havia quaisquer sinais, onde a neve macia e ininterrupta parecia indiciar alguma solidez por baixo, o piso cedeu. Não parecia muito fundo. O homem molhou-se até meio dos tornozelos antes de, a debater-se, conseguir saltar para terra firme.

Ficou irritado e amaldiçoou a sua pouca sorte em voz alta. Tivera a esperança de chegar ao acampamento onde estavam os rapazes pelas seis horas, e isto ia atrasá-lo uma hora, porque ia ter de acender uma fogueira para secar as botas, as meias e os pés. Com aquela temperatura, isto tornava-se imperativo — até aí sabia ele; e dirigiu-se para a margem, que começou a trepar. Lá em cima, emaranhado na vegetação rasteira à volta dos troncos de pequenos abetos, estava um monte de lenha, deixado pela subida da água — principalmente paus e galhos, mas também grandes pedaços de ramos secos e boas canas secas do ano anterior. Atirou vários destes últimos para baixo, para cima da neve. Isto era para servir de base e evitar que as primeiras chamas se afogassem na neve, que de outra maneira se derreteria. O lume conseguiu-o ele friccionando um fósforo num bocado de casca de vidoeiro que tirou do bolso. Isto ardia ainda melhor do que o papel. Pô-lo sobre a base e foi alimentando o fogo com tufos de erva seca e com os galhos mais finos.

Trabalhava devagar, com muito cuidado e muito atento ao perigo em que estava. Pouco a pouco, à medida que as chamas cresciam, ia aumentando o tamanho dos ramos com que as estava a alimentar. Agachou-se na neve, a desemaranhar os ramos e ia-os atirando diretamente para a fogueira. Ele sabia que não podia falhar. Quando a temperatura está a setenta e cinco graus abaixo de zero, um homem não pode falhar na primeira tentativa para acender uma fogueira — quer dizer, se tiver os pés molhados. Se tiver os pés secos e falhar pode correr meia milha pelo trilho fora para restabelecer a circulação. Mas a circulação nos pés molhados e gelados não se pode restabelecer correndo, quando estão setenta e cinco graus abaixo de zero. Por mais depressa que corra, os pés molhados gelarão cada vez mais.

Tudo isto o homem sabia. Aquele veterano em Sulphur Creek tinha falado nisto no outro outono e agora é que ele estava a dar valor ao conselho. Já não sentia os pés. Para fazer a fogueira tinha sido obrigado a descalçar as luvas, e os dedos ficaram logo dormentes. O seu andamento de quatro milhas por hora tinha-lhe mantido o coração a bombear sangue para toda a superfície do corpo e para todas as extremidades. Mas no momento em que ele parou, a ação da bomba, abrandou. O frio do espaço atacou a ponta desprotegida do planeta, e estando ele nessa ponta desprotegida, recebeu o golpe em toda a sua força. O sangue do corpo retraiu-se perante o ataque. O sangue estava vivo, como o cão, e tal como o cão, queria recolher-se  e proteger-se daquele frio terrível. Enquanto andasse a quatro milhas por hora, o coração, quisesse ou não, bombeava esse sangue para a superfície; mas agora o sangue refluiu e alojou-se-lhe nos recessos do corpo. As extremidades foram as primeiras a sentir a sua ausência. Os pés molhados eram os que gelavam mais depressa, e os dedos nus eram os que adormeciam mais depressa, embora ainda não tivessem começado a gelar. O nariz e a cara já estavam a começar a gelar, enquanto a pele por todo o seu corpo arrefecia com a perda do sangue.

Mas estava salvo. Os dedos dos pés, o nariz e a cara só seriam ligeiramente afectados pela congelação, porque a fogueira estava a começar a arder bem. Ele estava a alimentá-la com ramos da espessura de um dedo. Mais um instante e poderia começar a alimentá-la com ramos da espessura do pulso, e então já poderia descalçar-se e, enquanto secava as botas e as meias, poderia manter os pés descalços quentes à fogueira, esfregando-os primeiro, claro, com neve. A fogueira foi um sucesso. Estava salvo. Lembrou-se do conselho do veterano em Sulphur Creek e sorriu. O veterano tinha falado muito a sério quando lhe ditou a regra segundo a qual ninguém deve viajar sozinho no Klondike com temperaturas abaixo dos cinquenta graus. E ali estava ele; tinha tido aquele acidente; estava sozinho e tinha-se salvo. Aqueles velhos veteranos eram muito maricas, alguns deles, pensou. O que era preciso era não perder a cabeça, e assim as coisas correriam bem. Qualquer homem que seja homem pode viajar sozinho. Mas era espantosa a rapidez com que a cara e o nariz estavam a gelar. E nunca imaginara que os dedos pudessem ficar sem vida em tão pouco tempo. E estavam de facto, sem vida, porque ele mal os podia mexer para agarrar um ramo, e parecia-lhe que estavam afastados do corpo e dele próprio. Quando tocava num ramo, tinha de olhar para ver se o estava a agarrar ou não. As comunicações entre ele e as pontas dos dedos estavam bastante fracas.

Mas nada disto contava muito. Estava ali a fogueira a estalar e a crepitar, uma promessa de vida a dançar em cada labareda. Começou a desapertar as botas. Estavam cobertas de gelo; as grossas meias alemãs pareciam bainhas de ferro até meio da perna; e os atacadores das botas pareciam varetas de aço, todas torcidas e cheias de nós como em resultado de uma explosão. Durante um bocado ainda tentou puxá-los com a mão, mas depois, percebendo o disparate que estava a fazer pegou na navalha.

Mas antes de poder cortar os atacadores, aconteceu aquilo. A culpa, ou melhor, o erro foi seu. Não devia ter feito a fogueira por baixo do abeto. Devia tê-la feito numa clareira. Mas assim tinha sido mais fácil puxar os ramos e pô-los diretamente sobre o fogo. Ora, a árvore sob a qual ele a fizera tinha uma grande carga de neve sobre os ramos. Há semanas que não corria vento nenhum, e todos os ramos estavam carregadinhos de neve. Enquanto estivera a fazer a fogueira, de cada vez que puxava um ramo transmitia uma ligeira agitação à árvore — uma agitação imperceptível para ele, mas a bastante para provocar o desastre. Um ramo no topo da árvore cedeu e deixou cair a neve sobre os ramos que lhe ficavam por baixo, os quais, por sua vez, cederam também. Este processo continuou, estendendo-se a toda a árvore. A neve cresceu como uma avalanche e acabou por cair sobre o homem e sobre a fogueira e o fogo apagou-se! No sítio da fogueira estava agora apenas um monte de neve fresca.

O homem ficou abalado. Era como se acabasse de ouvir a sua própria sentença de morte. Ficou sentado por momentos a olhar para o sítio onde ainda há pouco ardia a fogueira. Depois ficou muito calmo. Talvez o velho veterano de Sulphur Creek tivesse razão. Se tivesse ali consigo um companheiro, não estaria agora em perigo. O companheiro podia fazer a fogueira. Mas assim era ele que tinha de fazer a fogueira de novo, e desta vez não podia falhar. Mesmo que conseguisse, ia certamente ficar sem alguns dedos dos pés. Os pés deviam estar agora gravemente congelados e a segunda fogueira ainda ia demorar a fazer.

Era isto que ele estava a pensar, mas não se deixou ficar parado. Esteve sempre em atividade enquanto estes pensamentos lhe ocorriam. Construiu uma nova base para a fogueira, desta vez numa clareira, onde nenhuma árvore traiçoeira a poderia apagar. A seguir, juntou ervas secas e alguns galhos do monte deixado pela subida das águas. Não conseguia apertar os dedos para os puxar, mas conseguiu juntá-los às mãos cheias. Mas desta maneira arrastou também muitos galhos podres e bocados de musgo indesejáveis, mas era o melhor que conseguia fazer. Trabalhava metodicamente, juntando mesmo um braçado de ramos maiores que serviriam mais tarde quando o fogo já estivesse mais forte. E enquanto isto, o cão estava sentado a observá-lo com uma certa ansiedade nostálgica no olhar, porque o estava a ver como o fazedor de fogueiras, e a fogueira tardava.

Quando já estava tudo pronto, o homem procurou no bolso uma segunda casca de vidoeiro. Ele sabia que a casca lá estava e, embora não a pudesse sentir com os dedos, ouvia o seu ruge-ruge enquanto tentava desajeitadamente agarrá-la. Por muito que tentasse, não conseguia agarrá-la. E durante todo o tempo, ele sabia, bem no fundo do seu consciente, que os pés lhe estavam a congelar momento a momento. Esta ideia inclinava-o para o pânico, mas lutou contra isso e manteve a calma. Com os dentes, calçou as luvas e começou a balançar os braços para a frente e para trás batendo com as mãos nas pernas com toda a sua força. Estava a fazer isto sentado e depois levantou-se; e durante este tempo, o cão continuava sentado na neve, com a cauda de lobo enroscada à volta das patas anteriores, as orelhas pontiagudas de lobo viradas intencionalmente para a frente enquanto observava o homem. E o homem, enquanto balançava os braços e batia com as mãos, foi invadido por um enorme sentimento de inveja ao ver aquela criatura que estava quente e segura na sua proteção natural.

Algum tempo depois começou a sentir os primeiros sinais muito longínquos de sensibilidade nos dedos. O ligeiro formigueiro aumentou até se transformar em picadas muito dolorosas, mas que o homem abençoou com satisfação. Tirou a luva da mão direita e meteu-a no bolso a buscar a casca de vidoeiro. Os dedos expostos ao ar começaram logo a adormecer outra vez. A seguir tirou um punhado de fósforos. Mas aquele frio tremendo já arrancara a vida aos dedos outra vez. No seu esforço para separar um fósforo dos outros, caíram-lhe todos na neve. Tentou apanhá-los mas não conseguiu. Os dedos mortos não lhes conseguiam tocar nem agarrá-los. Ele agia com muito cuidado. Afastou do pensamento a ideia da cara e dos pés e do nariz que estavam a gelar, devotando toda a sua alma aos fósforos. Ficou a observar, usando o sentido da visão em vez do tacto, e quando viu os dedos um de cada lado do maço de fósforos apertou-os — ou melhor, quis apertá-los, porque as comunicações estavam cortadas e os dedos não obedeciam. Calçou a luva da mão direita e bateu com ela violentamente contra o joelho. Depois, com ambas as mãos enluvadas servindo como que de colher apanhou o punhado dos fósforos juntamente com muita neve e depositou tudo sobre o colo. Contudo as coisas não melhoraram muito.

Depois de alguma manipulação, conseguiu agarrar o maço de fósforos juntando as palmas das mãos enluvadas e desta maneira levou-o até à boca. O gelo estalou e partiu-se quando num violento esforço ele abriu a boca. Recolheu o maxilar inferior e enrolou o lábio superior para abrir espaço e esgadanhou o molho com os dentes de cima para separar um fósforo. Conseguiu apanhar um, que deixou cair no colo. Mas mesmo assim as coisas não melhoraram. Não conseguia agarrá-lo. Então pensou numa maneira. Pegou-lhe com os dentes e friccionou-o na perna. Vinte foram as vezes que ele repetiu o movimento até conseguir acendê-lo. Quando isso aconteceu, levou-o, sempre nos dentes, até à casca de vidoeiro. Mas o enxofre foi-lhe para as narinas e para os pulmões e fê-lo tossir convulsivamente. O fósforo caiu na neve e apagou-se.

O velho veterano de Sulphur Creek tinha razão, pensou ele durante aqueles momentos de desespero controlado que se seguiram: abaixo dos cinquenta negativos um homem deve viajar sempre acompanhado de um parceiro. Bateu com as mãos, mas não conseguiu provocar nelas qualquer sensação. Subitamente descalçou as luvas, puxando-as com os dentes. Pegou no molho todo com a parte posterior das palmas das mãos juntas. Os músculos dos braços não estavam gelados, o que lhe permitia apertar as mãos contra os fósforos. Depois friccionou todo o molho na perna. Os setenta fósforos acenderam-se todos! Não havia vento para os apagar. Virou a cabeça para o lado para evitar os gases sufocantes e pôs os fósforos acesos junto da casca de vidoeiro. Enquanto assim fazia, começou a sentir a mão. Estava a queimá-la. Sentia-lhe bem o cheiro. Bem lá no fundo, abaixo da superfície, ele sentia-a. A sensação transformou-se em dor aguda. Mas aguentou, mantendo a chama dos fósforos desajeitadamente junto da casca que só não pegou logo porque as mãos se interpunham absorvendo a maior parte da chama.

Por fim, quando já não aguentava mais, sacudiu as mãos. Os fósforos acesos caíram, a crepitar, na neve, mas a casca ficou a arder. Começou a pôr canas secas e os galhos mais finos sobre a chama. Não os podia escolher, porque tinha de pegar neles entre as mãos. Alguns pequenos pedaços de ramos podres e de musgo verde vinham agarrados aos galhos e ele arrancou-os o melhor que pôde com os dentes. Tratou da fogueira desajeitadamente, mas com muito cuidado. Aquele fogo significava vida, não podia morrer. Agora a retração do sangue da superfície do corpo fê-lo começar a tremer e ele ficou ainda mais desajeitado. Um grande bocado de musgo verde caiu mesmo em cima da pequena fogueira. Tentou empurrá-lo com os dedos, mas as tremuras fizeram com que o seu movimento fosse fundo demais e ele acabou por desfazer o núcleo da pequena fogueira, e as canas e os pequenos galhos a arder separaram-se e espalharam-se. Tentou juntá-los de novo, mas apesar da tensão do esforço, as tremuras dominavam-no e os galhos ficaram irremediavelmente espalhados. Os galhos deitaram uma fumaça e apagaram-se. O fazedor de fogueiras falhara. Ao olhar apático à sua volta, deu casualmente com os olhos no cão sentado na neve à sua frente, do outro lado dos restos da fogueira, fazendo movimentos impacientes com o corpo, erguendo ligeiramente ora uma ora outra das patas dianteiras e mudando o peso do corpo de uma para a outra numa ansiedade melancólica.

Ao ver o cão, ocorreu-lhe uma ideia louca. Lembrou-se daquela história do homem que, apanhado numa tempestade de neve, matou um boi e depois se arrastou para dentro da carcaça do animal, assim se salvando. Matava o cão e enfiava as mãos no corpo quente do animal até a dormência passar. Depois já podia fazer outra fogueira. Falou para o cão, chamando-o; mas a voz saiu-lhe com um estranho tom de medo que assustou o animal, que nunca ouvira o homem a falar-lhe daquela maneira. Alguma coisa se passava, e a sua natureza desconfiada pressentiu perigo — não sabia exatamente que perigo, mas algures no seu cérebro havia uma certa apreensão em relação ao homem. Ao ouvir o homem, achatou as orelhas e os movimentos impacientes do corpo e das patas acentuaram-se; mas não se chegou a ele. O homem pôs-se de joelhos e, apoiado nas mãos, gatinhou em direção ao cão. Esta sua invulgar posição também levantou suspeitas e o animal, a andar de lado, começou a afastar-se.

O homem sentou-se, por momentos, na neve a procurar acalmar-se. Depois calçou as luvas com os dentes e pôs-se de pé. Primeiro olhou para baixo para ver se de facto estava de pé, porque a falta de sensibilidade nos pés deixava-o desligado do solo. Esta sua posição fez com que as suspeitas do cão se começassem a desvanecer; e quando ele falou em tom peremptório, com aquele som de chicote na voz, o cão retomou a sua habitual postura de lealdade e encaminhou-se para ele. Quando chegou perto, o homem perdeu o controle. Estendeu os braços para o cão e teve uma verdadeira surpresa quando verificou que as mãos não conseguiam agarrar, que os dedos não se dobravam e não sentiam. Esquecera-se por momentos de que tinha as mãos geladas e que continuavam a gelar cada vez mais. Tudo isto aconteceu muito depressa e antes que o animal pudesse fugir, ele rodeou-lhe o corpo com os braços. Sentou-se no chão e segurou assim o cão, que entretanto rosnava, gania e se debatia.

Mas o homem não podia fazer mais nada, apenas podia mantê-lo seguro, abraçando-lhe o corpo, e continuar sentado. Compreendeu que não conseguiria matar o cão. Não tinha maneira de o fazer. Com as mãos naquele estado não conseguia pegar na navalha nem segurá-la na mão, e também não conseguia estrangular o animal. Soltou-o e ele afastou-se furiosamente com um salto, rabo entre as pernas e sempre a rosnar. Parou uns dez metros mais à frente e olhou o homem intrigado, de orelhas espetadas. O homem olhou para as mãos para as localizar e viu-as pendentes dos braços. E achou esquisita a sensação de ter de olhar para ver onde estavam as próprias mãos. Começou a balançar os braços para um lado e para o outro batendo com as mãos enluvadas nas pernas. Esteve a fazer isto durante cinco minutos, violentamente, e o coração bombeou para a superfície do corpo sangue suficiente para ele deixar de tremer. Mas a sensibilidade das mãos não voltava. Sentia as mãos como se fossem pesos pendurados na extremidades dos braços, mas quando tentou que essa impressão descesse, não a encontrou.

Um certo medo da morte, opressivo e entorpecedor, começou a apossar-se dele. Este medo depressa se tornou pungente quando ele se apercebeu de que a questão já não era só o facto de as mãos e os dedos dos pés estarem a gelar ou de vir a ficar sem eles, mas uma questão de vida ou de morte e de que as hipóteses estavam todas contra ele. Isto deixou-o em pânico e voltou-se e começou a correr pelo leito do ribeiro seguindo o velho trilho já meio apagado. O cão seguiu-o. Correu cegamente, sem destino, acossado por um medo que nunca sentira na vida. Gradualmente, à medida que ia sulcando a neve aos tropeções, começou a ver as coisas outra vez — as margens do ribeiro, os velhos montes de ramos, os choupos despidos de folhas e o céu. A corrida fê-lo sentir-se melhor. Já não tremia. Se continuasse a correr, quem sabe, talvez os pés descongelassem; e em qualquer dos casos, se corresse bastante chegaria ao acampamento onde estavam os rapazes. Ia ficar sem alguns dedos das mãos e dos pés e uma parte da cara; mas os rapazes iam tratar dele e salvar o que dele restasse quando lá chegasse. Mas ao mesmo tempo tinha na cabeça um outro pensamento que lhe dizia que nunca chegaria ao acampamento dos rapazes; que o acampamento ficava a muitas milhas de distância e que a congelação tinha um grande avanço sobre ele e em breve estaria hirto e morto. Esta ideia estava em fundo e ele recusava-se a considerá-la. Às vezes ela vinha à tona e exigia a sua atenção, mas ele empurrava-a de novo para baixo para pensar noutras coisas.

Ficou muito admirado de ainda poder correr, com os pés assim tão gelados que nem os sentia quando eles tocavam o chão e suportavam o peso do corpo. Tinha visto uma vez, algures, um Mercúrio alado, e perguntava-se se o Mercúrio se sentiria como ele, assim a planar sobre a terra.

A sua ideia de ir a correr até ao acampamento tinha um senão: faltava-lhe a resistência. Tropeçou várias vezes e por fim cambaleou, não resistiu e acabou por cair. Quando tentou levantar-se, não conseguiu. Resolveu sentar-se a descansar e depois caminhar simplesmente e manter o andamento. Depois de se sentar e de ter recuperado o fôlego, notou que se estava a sentir quente e bem disposto. Não estava a tremer, e até lhe parecia sentir uma réstia de calor a penetrar-lhe o peito e o tronco. Mas quando tocava no nariz ou na cara não sentia nada. A corrida não lhes provocava o degelo. Nem às mãos ou aos pés. E então pensou que a congelação do corpo devia estar a alastrar. Tentou afastar este pensamento, esquecê-lo, pensar noutra coisa qualquer; tinha plena consciência do pânico que aquela ideia lhe provocava, e ele receava o pânico. Mas aquele pensamento instalou-se e persistiu até lhe produzir uma imagem do corpo completamente gelado. Isto era demais, e encetou uma nova corrida desenfreada pelo trilho fora. Abrandou uma vez para voltar a andar a passo, mas aquela ideia da congelação a avançar fê-lo começar a correr outra vez.

E o cão sempre atrás dele, na sua peugada. Quando caiu uma segunda vez, o animal enrolou a cauda sobre as patas dianteiras e sentou-se à sua frente, virado para ele, curiosamente ansioso e atento. O calor e a segurança do animal encolerizaram-no, e começou a amaldiçoá-lo até que o animal, apaziguador, achatou as orelhas. Desta vez as tremuras voltaram mais depressa. Estava a perder a sua luta contra o gelo. A congelação, vinda de todos os lados, avançava-lhe pelo corpo. Esta ideia fê-lo continuar, mas não correu mais do que trinta metros e logo vacilou e se estatelou ao comprido. Era o seu derradeiro pânico. Quando recobrou o fôlego e o controle, sentou-se e começou a elaborar no seu espírito a ideia de encontrar a morte com dignidade. Contudo, esta concepção não lhe ocorreu nestes termos. A sua ideia era que tinha andado a fazer papel de parvo ao lançar-se naquela correria, qual galinha sem cabeça — foi esta a imagem que lhe veio à ideia. Bem, como, de qualquer maneira, estava condenado a ficar todo gelado, podia ao menos aceitar o facto com alguma decência. Com esta paz de espírito recém descoberta chegaram também os primeiros sinais de sonolência. Uma boa ideia, pensou ele, dormir até morrer. Era como tomar um anestésico. Gelar não era afinal tão mau como se pensava. Havia muitas maneiras de morrer bastante piores.

Imaginou os rapazes a encontrarem o corpo no dia seguinte. E subitamente viu-se a si próprio a ir com eles pelo trilho à sua procura. E, ainda com eles, depois de uma curva, deparou com o próprio corpo deitado na neve. Já não era parte de si mesmo, porque mesmo nessa altura ele estava fora de si próprio, ali com os rapazes à procura de si próprio. Estava realmente muito frio, foi o que pensou. Quando voltasse para os Estados Unidos, já podia dizer aos amigos o que era o verdadeiro frio. Passou desta imagem para uma visão do velho veterano de Sulphur Creek. Via-o distintamente, muito confortável e quente, a fumar cachimbo.

— Tinhas razão, velho amigo, tinhas toda a razão — sussurrou para o velho veterano de Sulphur Creek. Depois o homem caiu naquilo que lhe pareceu ser o mais confortável e restaurador dos sonos que jamais experimentara. O cão continuava sentado a olhar para ele, à espera. O curto dia aproximava-se do fim num crepúsculo longo e lento. Não havia sinais de que se fosse fazer qualquer fogueira, e além disso, nunca na sua experiência o cão conhecera homem nenhum que ficasse sentado na neve sem fazer uma fogueira. À medida que o crepúsculo avançava, o seu desejo por uma fogueira aumentava, e, mexendo-se muito e trocando constantemente a posição das patas dianteiras, começou a ganir baixinho e depois achatou as orelhas, a antecipar os ralhos do homem. Mas o homem continuava calado. Depois o cão começou a ganir alto, e a seguir rastejou até junto do homem, mas cheirou-lhe a morte. Isto fê-lo eriçar-se e recuar. Ficou ainda um pouco a uivar sob as estrelas, que saltitavam e dançavam brilhantes no céu frio. Depois voltou-se e começou a trotar pelo trilho adiante em direção ao acampamento que ele conhecia e onde estavam os outros alimentadores e fazedores de fogueiras.

6 de abr de 2017

Depoimento de Lu Leal



PORQUE QUERO APRENDER A ESCREVER...

Tudo começou quando nossa Associação do Pessoal da Caixa Econômica Federal ( APCEF ) contemplou cada Regional com verba extraordinária para uso de seus associados. 

No café festivo todos participantes declararam suas opiniões e eu me direcionei pra Escola Literária lutando pra que desse certo. Fiquei surpresa comigo mesma, pois não gosto da leitura e escrever pra mim também era dificultoso. 

Na verdade, eu precisava colocar no papel meus sentimentos, sofrimento e dor mesmo imaginando que não daria certo pois no colégio o pior era a redação, os 

poucos livros que consegui ler achava que ser escritor é fazer através das palavras o retrato da vida e , com certeza, estava num momento infeliz e doloroso.

A primeira aula estava marcada e o local escolhido, nove seriam os participantes. Porém, somente quatro iniciaram, isto contando dois professores.

Aí sim, me ferrei. A idéia seria incentivar os colegas e cair fora, pois não daria certo pra mim, mas como deixá-los? Dois professores e um aluno? Resolvi continuar até que a sala lotasse pra depois me despedir.

Os dias passavam e os professores me davam incentivo elogiando meu trabalho, rapidamente a amizade aflorou entre nós e me vi presa a eles e quintas feiras têm as melhores noites do mês. E o quarteto não parava mais éramos Sacha, Andréa, Ângela e eu.

Com sinceridade digo: escrever poesia eu tento e me completo com elas; aprendo com os professores escritores Sacha e Andréa e com os meus queridos colegas iniciantes na carreira de escritores Ângela, Cândida, Cirlei, Dionísia, Eduardo, Izabel e Rebeca.

Minha pretensão não é ser escritora, mas o pouco que faço me satisfaz e leva-me a flutuar e despojar meus pensamentos transformando-os em palavras escritas.

Obrigada!

Luleal

Oficina de Escrita Literária Online – Poesia

Oficina de Escrita Literária Online – Poesia INSPIRATURAS - Escrita Criativa - oferece aos interessados na produção de poemas uma oficina q...

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