Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

Oficina de escrita literária Inspiraturas, em Pelotas

Oficina de escrita literária Inspiraturas - o fim da página em branco - A ti, que ainda acreditas na escrita, em especial a Poesia, como ...

25 de mai de 2017

Nunca antes na história deste país... (Avô & Neto em simplismos políticos), por Véio China

Nunca antes na história deste país... (Avô & Neto em simplismos políticos)

-Vô, sabe, ouvi dizer lá na escola que a presidente foi terrorista. Se foi terrorista, como pode ser nossa presidente? – Pergunta o garoto, talvez uns 13 ou 14 anos.

Sobre o menino podemos considerar que é um desses como muitos que andam por aí, e que estão numa fase de desinteresse pelo futebol, entretanto antenados e de olhos bem abertos para as garotas na escola, o Facebook, e surpreendentemente, no universo político tupiniquim, talvez até pelo fator "Black Blocs" o qual, sem discernimentos diz achar  "movimento firmeza”

-Inácio, leve a mal não, mas não acha que és muito garoto para tanto interesse político? – Questiona o avô ao olhá-lo firmemente nos olhos.

-Assim, sabe vô, lá na nossa classe a dona Izilda estava falando sobre a vida de Che Guevara, e a professora disse que o PT e a presidente tem tudo tem a ver com ele, pois todos militaram na esquerda. Perguntei a ela o que era ser de esquerda, direita, e ela explicou, portanto me interessei.

-Eita! E por que esse interesse repentino por esquerda, direita, e ainda mais pela dona Vilma? – O avô insiste, surpreso.

-Ah vô, nem é tanto o interesse por ela, pois do jeito que o pessoal mete o pau nela no Face, acho que deve ser por não estar fazendo grande coisa pelas pessoas....

-Hum, entendi...então vocês acham que ela não está lá fazendo aquelas coisas...sei. Mas, me diga Inácio, lá na tua escola estudam a política nacional?

-Ah vô, não! Não há aula falando de política não. É que a dona Izilda parece ser plugada nesses lances e gosta de descer o pau no governo. Sabe, gosto dela!

-Hum, e é bonita a sua professora de história?

-Eee vô! Tu sempre querendo saber se as mulheres são bonitas! Certo, o que posso dizer é que ela é  de geografia, e que também é meio barrilzinho, mas tem uns olhos azuis maravilhosos!

-Eita! Dos olhos azuis, além de ser gordinha  até que entendi, mas, como assim... professora de geografia? – Surpreende-se o velho.

-Uai, como assim....ora! geografia, vô...Ge o gra fi a! - O fedelho responde separando as sílabas

-Nossa, que coisa! Imagino então que nas aulas de história vocês aprenderão sobre o curso do Rio Amazonas, o quanto é pitoresco o Sena, e ainda as rotas das pirâmides no Egito. Pelo amor de Deus, o ensino neste país tá de brincadeira! O que pode ter a ver o cu com as calças? – O velho resmunga demonstrando seu descontentamento com a qualidade dos professores do país.

-Ô vô, vê se não me enrola! Para com esse papo sobre rios e rotas e me diga; A presidente Vilma foi ou não foi terrorista? – O garoto insistiu na pergunta. O velho o olha aturdido; Que assunto chato fui me meter! – Ruminou em pensamento. Depois muniu-se de alguma coragem e seguiu adiante.

-Assim meu filho, vamos por parte. Primeiro, a presidente não foi terrorista, mas, revolucionária, guerrilheira, apesar de muitos verem terrorismo nas atitudes tomadas por aqueles grupos. Claro, naquele tempo ela jamais se imaginou detentora de algum poder, afinal as esquerdas não tinham voz e nem vez no país... – O velho relata. Entretanto, antes mesmo de terminar as suas falas é bruscamente interrompido pelo neto.

-Uai, como é que pode isso, vô? Uma esquerda ser fraca e eleger um presidente? – O menino questiona de olhos arregalados –

O avô o olha e coça a cabeça e murmura entre dentes. “E agora José, como explicar isso pra esse fedelho curioso que o curso da história mudou?” – Depois decide; “Já que entrei no jogo não é justo deixa-lo na metade. Decide antes de disparar suas costumeiras metáforas.

-Bom...é que no meio do caminho surgiu um barbudinho que encantou a mídia e os intelectuais desse país. Já ouviu falar sobre uma poesia de Drummond, chamada “No meio do caminho?”

-Ah, já sim, vô! Aquela que diz  " E agora José/A festa acabou/A luz apagou" A professora de matemática vive recitando essa daí e muitos outros poemas.

-Hum...professora de matemática recitando "José"? – Outra vez o velho se surpreende, primeiro, pela confusão do garoto ao vê-lo referir-se a outro poema do imortal Drummond. Segundo, porque também não entendia a mestra de matemática ministrando aulas de literatura no lugar daqueles, para ele, incompreensíveis cálculos.

-É sim, vô! Ela é a nossa professora de matemática! - O garoto confirma

-Tá certo, Inácio. Apesar de você não estar se referindo ao poema que mencionei, confesso, o efeito é praticamente o mesmo. Portanto pegue a "No meio do caminho tinha uma pedra/Tinha uma pedra no meio do caminho" e substitua a palavra pedra e no seu lugar coloque“barbudinho” e aí sim terá uma poesia política afeita ao nosso tempo.

-Ta bom vô, vamos ver como fica; "No meio do caminha tinha um barbudinho/Tinha um barbudinho no meio do caminho" – O garoto ouve o som da própria frase. Porém, repentinamente o sobressalta: Mas...epa! O que pode ter a ver entre o barbudinho, o poder e a pedra? – Protesta o garoto num espanto que se fez cristalino.

- A princípio, nada, Inácio. É apenas brincadeira minha. Já reparou como um dos seus nomes é idêntico ao do barbudo? De diferente só o Ruis e o Nilva? – O velho compartilha num tom professoral.

-Ah é mesmo vô! Quem ainda não ouviu falar no nome de Ruis Inácio da Nilva? – O menino consente.

-Sim, mas voltando ao assunto o fato é que esse barbudinho se tornou conhecido nacionalmente por Tula. Ele foi um obstinado, e  mesmo semi analfabeto já lhe sentíamos o dom da esperteza, pois sabia estar na mídia como ninguém, inclusive, evidência que se deu na conta dos levantes da classe metalurgica, isso no ABC, e em plena década de 70.

-Mas, o que ele pretendia, vô? – Evidente, o garoto se mostrava interessadíssimo pelo assunto.

- O que posso dizer Inácio, é que à época ele brigava por melhores salários, direitos e melhores condições de trabalho.

-Nossa vô, então podemos concluir que ele foi um sujeito corajoso?

-Podemos sim Inácio! Pra falar a verdade, esse barbudinho foi um osso duro de roer, um grevista de mão cheia que lotava os estádios com as assembleias que promovia com a sua classe.

-Ah, que legal! O vô, é verdade que Tula não tem um dos dedos?

-É verdade sim Inácio. Inclusive sobre ele contam algumas línguas que ele decepou propositadamente o dedo numa prensa da fábrica onde trabalhava.

-Como assim vô, quem seria louco de cortar o próprio dedo? Mas... por que ele faria isso? – O garoto questiona intrigado.

-Bem, nem eu sei, pois com ele parece que tudo sempre foi e será possível – O velho devolveu num tom tão sarcástico que acabou por gerar dúvidas no guri.

-Ô vô, te conheço, né! Para de esconder o ouro de mim! – Ele olhava firmemente para o avô, e como esse nada respondeu, continuou -

-Sabe, a minha professora revelou que admirava muito esse tal de Tula, mas que agora não admira mais. Ela diz que ele traiu diversas promessas e princípios que fizeram ele chegar no poder. Ela disse ainda mais... Disse que hoje ele posa dando tapinhas nas costas de parceiros políticos, pessoas que no passado sempre alcunhou de corruptas e que lesavam o Brasil.

-Pois é Inácio. Assim como a tua professora há milhões de brasileiros que tem a mesma impressão sobre ele, e não são poucos os que não suportam nem que lhes digam o nome.

-Tô sabendo vô! – O guri respondeu divertido – Sabe, tenho um colega de classe que disse que o vô dele contou que à época muita gente tinha medo do barbudinho, e que os militares pregavam que ele seria capaz de comer criancinhas vivas, se essas dessem moleza! Cada louco, né vô? – O menino finalizou num riso divertido.

-Então, Inácio, foi mais ou menos isso. É que à época tanto a direita como o centro morriam de medo dele. Bem, mas isso não importa, e o que a história conta é que que ele acabou se elegendo e se tornou o nosso presidente.

-Caraca vô, então esse tal de Lula era um sujeito porreta, mesmo!

-Era sim, Inácio. E me lembro do dia da sua posse, e foi uma tarde de muitas festas, e o povo saiu à rua, pois pela primeira vez um homem do povo, miserável, se tornava o presidente do Brasil.

- E o senhor, vô? Acha que ele foi um bom presidente? –

-O que posso responder? Assim, diria que fez alguma coisa pelas pessoas mais carentes. Entretanto, a partir do 2º ano do seu governo começou a mostrar suas verdadeiras intenções ao lutar tenazmente contra tudo que defendeu. Inclusive contra o plano vigente das aposentadorias. Sobre isso ele modificou prazos, estendeu contribuições, faixas etárias.

-Nossa vô! Fale numa língua que eu possa entender, né! Mas, em todo o caso, e se foi o que entendi, é muito doido isso de ser trabalhador e lutar contra os interesses do próprio trabalhador? – O garoto raciocinou alarmado

-Então Inácio, foi assim mesmo. Ah, ele também sempre foi fã de aviões e viagens, inclusive fez a União comprar aviãozinho que nos custou os olhos da cara! - O velho respondeu indignado.

- Epa, espera, to me esquecendo de contar algo bobo...O Tula adorava entornar umas branquinhas.
Dizem que foi sob o efeito do álcool que pretendeu expulsar do país um jornalista estrangeiro que o taxou de alcoólatra. Entretanto, fora as cachaças procedeu algumas medidas no âmbito social, estendendo bolsas esmolas para uma legião de miseráveis, aliás, ideia que nem do seu governo partiu,  mas do anterior.
Mas foi aí que demonstrou o quanto era sabichão ao perceber que seria ali onde se concentraria o poder de barganha com um povo sofrido. E essa barganha é que os mantém no poder até hoje, já que ganham as eleições às custas da miséria e das esmolas dadas aos miseráveis.

-Puxa vô! É verdade isso?

-É sim. Quem olha de fora seria capaz de imaginar que isso traz felicidade e bem estar para esse povo. É mentira, não traz, pois não há planos para a educação  e nem oportunidades pera eles, infelizmente! Claro, é de pura demagogia, pois ele sempre soube que jamais resolveria a questão da pobreza, assim como a educação, saúde e moradia. Portanto criou esses auxílios esmolas e os distribuiu aos milhões para essas pessoas. E todos sabemos que foi golpe eleitoreiro para se perpetuar no poder, pois para os miseráveis qualquer quantia é uma benção.

-Poxa, que sujeito esperto, eim vô? – O garoto sorri.

-Sim, espertíssimo! Entretanto ele decepcionou as pessoas que detém algum grau de conhecimento, brasileiros que, como eu acreditaram piamente em suas promessas dum governo comprometido com moralidade, e à caça de corruptos e corruptores. E a maior das verdades é que, lamentavelmente o barbudo não combateu aqueles que assaltaram o povo, ao contrário, parece ter se aliado a eles, cerrando os olhos para isso e pra quilo, para depois, mesmo que descobertos os golpes implantados por seu guru político, ter a coragem de vir a nação e confessar que foi traído e de que nada sabia. Foi lamentável o fato.

-Uauu, que bacana! Gostei do esquemão! Um presidente que nada sabe deve ser um cara fantástico! Bem que poderia ser assim na escola, né?

-Como assim Inácio, não entendi! Explique melhor. –

-Assim vô; Quando há prova oral e fico com cara de besta ao não ter a resposta para certas perguntas. E assim sou obrigado a ouvir o riso dos que se julgam mais inteligentes,e eles me chamam de burro na cara dura, de toupeira, e essas coisas assim. Portanto seria bacana logo ir dizendo; Professora, eu nada sei! E todos me olhariam compreensivos diante a manifestação da professora, numa coisa tipo assim; Nossa, que bom, Inácio! Parabéns, você nunca sabe de nada, estamos orgulhosos de você! –  O menino respondeu de forma matreira, e ambos se olhando, sorriram e depois gargalharam. Amainado os risos o velho prosseguiu:

-Pois é Inácio, esse foi o mandatário que se julgou traído, aliás, traição e traidores que trabalhavam na sala ao lado da sua, ali bem diante de sua barba grisalha! E foi esse o pessoal que implantou pagamentos, uma espécie de“mensalão” para os políticos que votassem na Câmara de acordo com os interesses do governo  petista.

-Nossa vô, que trama incrível - Novamente interrompe o garoto. Depois continua: -Merecia um filme isso! – Mas, o que acabou acontecendo com esse pessoal, vô? – Intrigado o garoto questionou.

-Bem...o esquema foi descoberto porque um desses políticos parece não ter recebido o que lhe prometeram, e então ele botou a boca no trombone. Depois que o escândalo estourou, o traidor da sala ao lado, junto de muitos outros pegos com a boca na botija foram julgados e condenados pela mais alta corte da justiça nacional. Entretanto, com uma nova composição de ministros os quadrilheiros conseguiram um novo julgamento e O STF absolveu alguns da acusação de formação de quadrilha. Entendeu?

-Eu não, vô! Não entendi muito bem esse negócio de “quadrilha” ser absolvida pelo crime de “formação de quadrilha” Isso não me pareceu nada lógico. E outra, nem sei o que quer dizer esse ST e mais alguma coisa, esse que o senhor acabou de se referir.

-Ah, é a sigla do Supremo Tribunal Federal. Como eu disse, é um colegiado que reúne diversos juízes, e eles se tornam ministros e são nomeados pelo presidente da república. No caso do novo julgamento, e sobre a sentença absolvendo os apontados por “formação de quadrilha” aconteceu o fato dos dois novos juízes serem recentemente nomeados pela presidente Vilma. Muitos afirmam que houve "mutreta" neste novo julgamento, inclusive apontando que um dos novos empossados  recebeu uma nota preta por assessoria prestada a União. Portanto, os novos membros votaram à favor da absolvição, tornando sem efeito o julgamento anterior, e no qual haviam sido condenados.

-Nossa vô! Que rolo é esse negócio de Poder! –

-Pois é, Inácio. Pois é! – O velho solta os braços em sinal de desânimo.

-Poxa vida vô, agora to percebendo como parte das coisas andam nesse país. Acho que eu também ficaria decepcionado.

-Exatamente Inácio, Eu fiquei e muitos outros ficaram! Porém coisas estranhas acontecem diariamente nesse  Brasil. Não te espantes, ainda verás muito disso na tua jornada e nesta terra onde canta o sabiá. Ah,e por falar em coisas estranhas...por acaso você não pretende montar uma pequena empresa, sem capital, talvez até na área da informática? E por que não uma empresa onde nada se cria, nada fabrica? Empresa onde não há empregados, escritório, endereço fixo e clientes. Empresa onde verdadeiramente não haverá nada, mas que poderemos vender por milhões e milhões de reais para uma eventual compradora, quem sabe  uma concessionária do setor das telecomunicações. Sabe, Inácio, uma coisa te garanto; Ficaremos milionários do dia pra noite! Topas?

-Uauuu! Claro que topo vô! Mas... é possível uma barbada dessa? – O garoto pergunta entusiasmado.

-Aqui é totalmente possível! Sabe, Inácio, pressinto coisas boas para você. Acho que você ainda nem sabe, mas ainda serás o bambambã nos negócios de nossa família.
E não te impressiones se um dia tiveres que limpar merda de girafa num zoológico qualquer. Não te impressiones mesmo! Tudo, tudo, tudo será transitório, acredite em mim! - O velho se entusiasma, antes mesmo de desferir o bordão fatal.

-Tu Inácio, tu és um gênio, Inácio e serás o nosso "Neymar" nos negócios!


Copirraiti12Mar2014
Véio China©

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22 de mai de 2017

Oficina de escrita literária Inspiraturas, em Pelotas

Oficina de escrita literária Inspiraturas
- o fim da página em branco -
A ti, que ainda acreditas na escrita, em especial a Poesia, como fonte de cura; e  aos iniciantes ou amadores dos textos artísticos, INSPIRATURAS oferece os mais lúdicos, criativos e inspiradores desafios que, realmente, agregarão resultados positivos à produção de textos em verso ou prosa.

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Num ambiente informal e divertido, poderás transformar os teus sonhos em belas criações literárias e desenvolver o teu estilo pessoal de autoria. Tudo com atencioso acompanhamento individualizado.


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Declamação de poemas

clip_image002DECLAMAÇÃO DE POEMAS - O declamador deve compreender perfeitamente o que está dizendo, isto é conhecer o poema, saber o que significa cada termo do poema, bem como sua correta pronúncia. Também dever entender a pontuação, para poder fazer as pausas adequadamente. É comum ver-se um declamador recitando um poema verso a verso, quebrando o sentido da frase, ou da expressão. A mensagem deve ser interiorizada em sua alma. É impossível transmitir com verdade algo que você não acredita. Como falar ao outro se você mesmo não se convenceu daquela mensagem? Não tente escolher um poema famoso ou sério caso você não goste dele; qualquer tipo de poesia pode ser interpretado.

MEMORIZAÇÃO - Memorizar um poema, não é apenas decorar os seus termos. È recomendável que a memorização ocorra simultaneamente com a interpretação.

POSTURA CÊNICA, INTERPRETAÇÃO E VOZ - Os gestos não devem ser muitos, nem exagerados, devendo ser coerentes.

Uma declamação simples não consiste em ler em voz alta um poema somente, a graciosidade está na adoção de uma voz dramática para o texto assim como expressões faciais e gestos coerentes que são muito bem-vindos. É possível ler o verso e declamar parte dele olhando para a assistência quando parte dele foi decorada. Recitar um poema decorado sem expressão nenhuma é o mesmo que fazer uma leitura ruim. Importa é que, decorando, pode-se utilizar uma postura mais expressiva.

A prática de bater os pés nas sílabas fortes é muito criativa, didática e em excelente caimento para todos os tipos citados acima. Ela tem origem nos poetas antigos que seguiam o sistema greco-latino de metrificação denominado pé justamente por esta razão.

Necessariamente haverão de ser indicados o nome de seu autor e o título do poema , antes de iniciar a declamação.

Tome notas diretamente sobre o poema escrito para marcar a sua forma de lê-lo. Faça notas diretamente sobre ele para dizer a si mesmo quando pausar, retardar o ritmo, gesticular ou alterar o seu tom de voz "marcando o poema". Você pode ter que experimentar com diversos estilos diferentes antes de encontrar algo de que goste. Indague-se quanto ao que pode soar melhor, leia desse modo em voz alta e descubra se você está certo.

Pense quanto ao que combina com o poema. Um poema dramático pode ser interpretado com grandes gestos e extremas mudanças na expressão facial. Um poema referente à visão sossegada de uma colina deve ser lido lentamente e com voz calma e tranquila.

Pratique ler o poema mais lentamente do que o pretendido. Quando você está à frente de uma multidão, é fácil permitir que o nervosismo e a adrenalina lhe apressem. Mesmo no caso de um poema que deve ser lido rapidamente, pratique começar lentamente e acelerar à medida que ele se faz mais empolgante ou tenso. Pause onde for natural, de modo que a interpretação pareça mais fluída. A pontuação deve ser lida e interpretada.

Concentre-se nas palavras mais do que na atuação. Mesmo um poema dramático deve se tratar primariamente do próprio poema, e não dos gestos e das vozes produzidos. Você pode ser mais exagerado do que na vida normal e cotidiana, caso creia ser mais adequado ao estilo do poema, mas não distraia às pessoas do significado real das palavras.

Tente falar cada palavra claramente. Não "engula" o final da sentença, deixando-a pouco clara ou silenciosa.

Se você não está certo quanto a quais gestos são apropriados, mantenha os cotovelos soltos ao lado do corpo e coloque uma mão sobre a outra, à sua frente. A partir dessa posição, você pode fazer pequenos gestos que pareçam naturais, ou manter-se imóvel, mesmo que sem rigidez.

Praticar frente a um espelho é uma ótima forma de conseguir uma ideia a partir da perspectiva da audiência. Você pode também gravar um vídeo de sua interpretação e assisti-lo posteriormente para conseguir ideias quanto ao que parece natural e ao que funciona ou não.

Respire fundo diversas vezes antes da interpretação. Isso melhorará o seu som e também acalmará o nervosismo.

Mantenha uma boa postura. Além de lhe fazer parecer confiante e preparado frente à audiência, manter-se com as costas eretas lhe ajudará a falar alta e claramente, de modo que todos lhe escutem.

Faça contato visual com a audiência. Enquanto você interpreta, deve estar olhando diretamente rumo aos olhos dos membros da plateia. Mova-se entre eles com frequência.

Faça com que a sua voz transporte toda a audiência. Há formas de fazer a sua voz soar mais alto e claramente sem gritar. Mantenha o queixo levemente elevado, os ombros para trás e as costas eretas. Tente falar a partir da parte baixa do peito, e não a partir da boca e da garganta.

Pronunciar cada palavra distintamente também ajudará a sua audiência a lhe entender.

Traga um copo de água para o palco, a fim de refrescar a voz se a interpretação durar por mais de um ou dois minutos.

 

Fonte: http://pt.wikihow.com/Interpretar-um-Poema

20 de mai de 2017

Enganos, por Véio China

Enganos

A dor se manifesta, mas não se imprime
Em tonalidade de lamentos, ou se lança
Ao calor dos beijos que passado refuta
Ou aos murmúrios cálidos de um amor
Que muitos sabem, desabou fracassado

Dores não se alardeiam ou partilham
São solitudes pactuando penitencias
Ao silêncio das paredes dum quarto
Repleto de roupas, livros, cobertores
Cúmplices mudos à ordem dos fatos

Assim é a dor; um eterno desafio a autoestima
Privilegiado aquele que por ela se sentir tocado
Pois paulatinamente sem notar, os insensíveis
Amargam-se abandonados como um cão vadio
Refém da rudeza duma vida onde não há afago

Logo, dor maior é aquela que nos trancafia na redoma das inverdades
Nas mentiras ditas por nós aos nossos olhos encharcados de poeiras
A vislumbrar ansiedades que persistem, mas recusam o arfar do peito
Na farsa consentida pelo coração que ao tempo transformou cúmplice
O pulsar cruel e disrítmico diante a fragilidade nostálgica das emoções

Copirraiti17Mai2014
Véio China©

Bloody_e

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Véio China, um poeta? Contista? Talvez nem um, nem outro. Mas apenas se diverte escrevendo

19 de mai de 2017

Trova, sextilha, cordel, martelo agalopado

clip_image002TROVA - é uma composição poética que deve obedecer as seguintes características:

1.Ser uma quadra. Ter quatro versos.

2- Cada verso deve ter sete sílabas poéticas.

3- Ter sentido completo e independente. O autor da Trova deve colocar nos quatro versos toda a sua ideia.

A rima poderá ser do primeiro verso com o terceiro e o segundo com o quarto, no esquema ABAB, ou ainda, somente do segundo com o quarto, no esquema ABCB.

EXEMPLO DE TROVA:

Eu-vi-mi-nha-mãe-re-zan-do

Aos-pés-da-Vir-gem-Ma-ri-a

E-ra u-ma-San-ta-es-cu-tan-do

O-que ou-tra-San-ta-di-zi-a

Para atender à métrica, hiatos podem transformar-se em ditongos (Sinérese) e ditongos transformar-se em hiatos (Diérese) Ex Su-a-ve por Sua-ve (3 viram 2)

Sau-da-de por Sa-u-da-de (3 viram 4)

Quando duas vogais não tônicas se defrontam, faz‑se obrigatoriamente a elisão. Exemplo: Des|de o |di|a em | que | Do|lo|res (elisões na 2ª e na 4ª sílaba)

Quando, de duas vogais que se defrontam, apenas uma é tônica, recomenda‑se fazer a elisão, embora, em casos excepcionais, pelo ritmo do verso, alguns trovadores prefiram separar as sílabas, como vemos aqui:

O | co|ra|ção | mor|re an|tes

Quando duas vogais tônicas se defrontam não se pode fazer a elisão, sendo obrigatória a separação das sílabas. A |Da|dá |é |mui|to |da|da

 

 

 Literatura de cordel

Literatura de cordel também conhecida no Brasil como folheto, é um gênero literário popular originado em relatos orais e depois impresso em folhetos. Remonta ao século XVI. O nome tem origem na forma como tradicionalmente os folhetos eram expostos para venda, pendurados em cordas, cordéis ou barbantes em Portugal.

As histórias que têm como ponto central uma problemática a ser resolvida através de inteligência e astúcia para atingir um objetivo. O herói sofrerá, vivendo em desgraça e martírio, sempre fiel ao seu amor ou às suas convicções, mesmo com as intempéries. Ao fim de tudo, o herói será exaltado e os opositores humilhados. Se assim não for, haverá outro meio de equilibrar a situação, que durante quase toda a narrativa permaneceu desfavorável ao protagonista.

Poética do cordel

Sextilha - Estrofe de seis versos de sete sílabas, com o segundo, o quarto e o sexto rimados; verso de seis pés, colcheia, repente. Estilo muito usado nas cantorias.

Septilha - Estrofe (rara) de sete versos; setena (de sete em sete). Na septilha usa-se o estilo de rimar os segundo, quarto e sétimo versos e o quinto com o sexto, podendo deixar livres o primeiro e o terceiro.

Oitava - Composta de oito versos (duas quadras), com sete sílabas. A rima na oitava difere das outras. O poeta usa rimar a primeira com a segunda e terceira, a quarta com a quinta e oitava e a sexta com a sétima. Quadrão: (AAABBCCB)

Décima - Estrofe de dez versos, com dez ou sete sílabas, cujo esquema mais comum é ABBAACCDDC, empregada sobretudo na glosa dos motes e nas pelejas.

Martelo - Estrofe composta de decassílabos, muito usada nos versos heroicos ou mais satíricos, nos desafios.

Galope à beira-mar - Estrofe de 10 versos hendecassílabos (que tem 11 sílabas), com o mesmo esquema rímico da décima clássica ABBAACCDDC, e que finda com o verso "cantando galope na beira do mar" ou variações dele. Termina, sempre, com a palavra "mar". É considerado o mais difícil gênero da cantoria nordestina, obrigatoriamente tônicas as segunda, quinta, oitava e décima primeira sílabas.

Repente - (conhecido também como Cantoria) é uma arte brasileira baseada no improviso cantado, alternado por dois cantadores, daí o nome repente. Possui diversos modelos de métrica, predominando os versos heptassílabos e decassílabos. A rima usada é a rima perfeita. Há dezenas de modalidades do repente, entre elas a sextilha, o martelo agalopado e o galope à beira-mar.

Pajada - poesia oral improvisada em Décima Espinela (abbaaccddc) no estilo recitado e acompanhada de violão. A trova é uma construção poética improvisada em sextilha. Suas rimas são abcbdb e seus versos são cantados ao acompanhamento de acordeon.

Fontes: Wikipédia e Dicionário Aurélio

18 de mai de 2017

Entrevistando um grande escritor... ( Uma história forrada de nostalgias, críticas, e garrafetas de vodca)

Entrevistando um grande escritor... ( Uma história forrada de nostalgias, críticas, e garrafetas de vodca)

Tudo aconteceu muito rápido, e penas chegou e me flagrou num banco de jardim, precisamente no Parque da Luz. Mas não foi somente este o fato, e evidente, surpreendia-me  as vigorosas estocadas do seu indicador no lado esquerdo do meu ombro. Incomodado, remexi-me de um lado para outro e ele me pareceu perplexo, talvez  até por ter-me surpreender-me (antes do susto) num diálogo absurdo com a árvore cravada atrás de mim. Provavelmente o sujeito não soubesse ou, quem sabe, achara que eu enlouquecera por completo. Mas não era nada disso e apenas criava cenas e as falas das minhas novas personagens, estudando meticulosamente cada um dos movimentos, já que  fariam parte do meu próximo livro.
E em se falando do  romance, o mais provável é que contasse com o ovo no cu da galinha, pois nem mesmo me dera ao trabalho de sair à caça de algum maldito editor que tivesse a suficiente coragem de publicá-lo. Bem, deixando os editores de lado, o que importa é que o garoto aportava ali no momento que minha mente produzia frases tórridas para um imaginário casal de meia idade que se bolinava, escorados na árvore em questão.

E me sentia bem, pois a imaginação voava como há muito não fazia. E eu gostava daquilo, e colocando mais lenha à fogueira vislumbrei ações em alta temperatura, as mãos do homem deslizando pelas costas da mulher, repousando sorrateiras num bumbum bem formado e generoso. Sim, sobre a dona dos glúteos avantajados, Sophia, poderíamos considerar que ela é muito bonita, e não só ela, e assim também o elegante tailleur cinza que vestia.
Logo, insistindo nas cenas  fiz todos perceberem que ali estava uma dona de classe, fato escancarado no sofisticado  e estiloso echarpe de seda chinesa que contornava delicadamente o seu rosado pescoço.

Entretanto o seu rosto de querubim somado as outras tantas evidências dum requinte social, não escondia dos transeuntes a sua escassez de recato. E a carência dos bons modos se contrapunha aos poucos minutos anteriores, onde ela e o namorado, caminhando pelas pequenas ruas arborizadas não se desgrudavam das mãos e nem dos sorrisos.
Portanto não seria de admirar que as pessoas que zanzassem pelo local apostassem suas fichas na compostura daquela mulher de fino trato, e que o atrevimento do namorado seria passível  duma  descompostura em regra. Mas assim não ocorreu, pois não se percebeu nela a inocência dos amantes incautas, já que as mãos do homem pareciam estimula-la, fato cristalizado diante os gemidos da mulher e de suas mãos de unhas encarnadas acariciando as nádegas do homem, excitadas.
E assim fiz as cenas persistirem, e eles se sussurravam obscenidades, beijando-se,  tocando a crueza de suas línguas sem se importarem com os protestos de um grupo de quatro velhotas que há poucos metros dali tagarelavam suas fofocas.

-Senhor Oldman! Senhor. Oldman! O zelador do seu prédio disse que eu o encontraria aqui  – O rapaz insiste e interrompe o exercício de minha imaginação. O tom de sua voz é jovial e entusiasmado. Claro, sua interrupção me irrita.

-Sim, ele disse, mas, o que posso a ter com isso, rapaz? – Devolvo com feição de poucos amigos. Evidente,  não me ocorriam os motivos de estar me cutucando daquele modo.

-Ah sim, desculpe-me senhor Oldman! Falha minha em não apresentar-me!  - Ele exclama.
-Sim, e quem você é? - Questiono
-Ah, o  meu nome é Arlindo Augusto, e estou aqui para um trabalho do meu grupo de Universidade - Ele devolve

-Hã? Universidade? Sim! Mas.. o que tem a ver comigo? –  Insisto contrariado enquanto o garoto retira o dedo do meu ombro.

-Bem, é que o trabalho vale uma ótima nota. Inclusive a ideia de entrevistá-lo foi minha. Sabe senhor Oldman, sou seu fã número um, e ficaremos felizes ao nos concedesse a entrevista.

-Ai meu Deus! Universitários não! – Gemo para ele.  Se havia coisa que me deixava acabrunhado eram esses fanfarrões universitários. Porém eu não podia simplesmente desaparecer com a sua imagem assim como fazia com as personagens. Retorno à carga.

-Tá bom meu rapaz! Mas..já que tinham que enviar alguém, porque não mandaram uma daquelas gostosas que certamente há em seu grupo ? -  Ele pensa por instantes e sorri sem graça.

-Bem senhor Oldman...a culpa não foi minha, juro! Até que tentei trazer uma delas, pois sei das suas facilidades quando estás diante dum bom par de pernas! - Ele se justifica, e completa: -Sei de tudo, pois tudo está nos seus livros.
-Nos meus livros, é?  Sim...Mas..por que eu? - Replico  - De fato eu estava curioso para saber como chegaram até mim.

-Bem, senhor Oldman, foi assim que aconteceu...Numa lista prévia de escritores sobraram três, e o senhor entre eles. E o seu nome foi à votação, e... - Ele explica, reticente, talvez acreditando que devesse me sentir feliz com a escolha.  Acho o fato engraçado e resolvo fazer parte da brincadeira.

-Nossa que ótimo! Olha...Eu lhes fico muito grato pela unanimidade,  e pelo reconhecimento! - Dissimulo com certo orgulho.

-Bem senhor Oldman, também não foi bem assim - Ele devolve timidamente e conclui: É que um deles morava em Recife, o outro em Maceió, e ambos afirmaram que só concederiam a entrevista se estivéssemos lá, pessoalmente.
-Uai! E por que não foram? - Replico desencantado e já sem o orgulho.
-Bem.. Sabe como é, né senhor Oldman...A vida de estudante é dura... mal sobra grana pros cineminhas de domingo, imagine então para as viagens... - Arlindo divaga. Merda! Sei que não deveria, mas a justificativa me irrita profundamente

Puta que pariu, odeio universitário! - Obviamente eu fora eleito por exclusão.
Arlindo percebe a minha irritação, talvez preocupado que a entrevista terminasse antes mesmo de iniciar. Ele me olha constrangido, e sei lá por qual cargas dágua resolve reportar os bastidores da votação do Prêmio Nobel de Literatura Universitária.

-Sabe senhor Oldman, nós os homens, éramos a maioria dos votantes, e só foi fecharmos com o seu nome e as garotas tirarem o corpo fora da escolha. Elas disseram assim "Já que querem esse sujeito...Então o problema é totalmente de vocês!" – Arlindo relata impregnado dum risinho imbecil. Aquilo me deixa curioso.

-Mas...Por que tiraram o corpo fora? 

-Ora, senhor Oldman, convenhamos... Há nas tuas histórias muitas marcas de escândalos, fofocas, assim como em suas andanças os rastros de  mulheres se pegando à tapa, entre outras coisas piores. Portanto... para os que leem a sua obra é como ter aceso à xerox autenticada dos seus procedimentos... -
-Ah..entendi. E sendo assim elas... - Ele não me deixa terminar
-Fugiram deste encontro da mesma forma que o vampiro foge dos raios de sol – Arlindo conclui amorfanhado, levantando e deixando deixar cair os ombros.
Seu pensamnto me deixa perplexo. Não o que avalia a minha moral ou conduta, mas, a outro, aquele que fala do vampiro e raios de sol.

-Uauuu, garoto! Será que te ouvi direito?  Assim como o vampiro foge dos raios de sol? Que frase magnífica! - Exclamo enquanto me olha surpreso.
Claro, a exclamação era puro sarcasmo, e mesmo que levasse em conta o fato do garoto ser meu fã, tudo me pareceu cristalino, um tremendo mala.

Permaneço com o olhar cravado nele e na apatia de sua feição que, a cada frase dita insistia em repetir o meu nome. E ele era atípico, pois quem detalhasse a sua aparência logo veria um desses rapazes como tantos outros que se metem a cursar o Jornalismo. Na sua fisionomia raquítica e cheirada à indolência sobressaia suas longas pernas que mais se assemelhavam a tacos de bilhares que se metem numa calça jeans. Acima do rosto, os fartos e encaracolados cabelos destoavam do ralo cavanhaque aloirado que ostentava no rosto afunilado. Seus lábios eram largos e finos, mas havia alguma expressão em seu olhar, pois procurava nele coisas que o identificassem com o público leitor. Também analisei  seu tórax e braços, e mesmo que fosse desprovido de músculos questionei se ele não seria uma boa personagem para a minha história. Sim, e por que não? Talvez eu pudesse colocá-lo numa das cenas do “ménage à trois” com o desespero daquele duo de amantes quarentões.
Ah, sim, falemos sobre os meus amantes. Bem...Sobre eles poderíamos concluir que são fruto dum casamento igual a tantos outros que, em certa fase convive com o conformismo dos beijos e trepadas que não mais carregam ranços de paixão. Logo, não há as bolhas provenientes de fervura, pois estão atolados à mediocridade da rotina destrutiva e do "nada eu faço, nada tu fazes, e nada faremos nós". E é justamente o que se dá com meu casal. Entretanto há alguma luz, e os faço perceber o que se ocorre á volta e os faço empreender mudanças. Claro, algumas delas são drásticas,  radicais até, aliás, como ocorre com eles ao tratarem dum limoeiro doente, no entanto, esperançosos que,  mesmos caídos, os limões debilitados ainda resultem na limonada que amaina a sede.
Certamente, tais fatores são aflorados à minha percepção de vida, principalmente aqueles que dizem sobre os sentimentos, pois para mim o amor se assemelha a um bólido que desaparece das vistas numa  auto-estrada sem  fiscalização. E penso assim, já que experiência não me torna ignorante, e nem me obriga a desconhecer que é preciso muita perícia para que o amor alcance o seu destino, isento de acidentes.
Assim reputo, pois agora sei que o amor  requerer calma e muita prudência, desafeto que é  do grotesco das nossas falhas e desacertos que, dependendo da conjuntura poderá nos  inviabilizar outra oportunidade.
E essa era parte da trama, e eles mereciam outra chance. E um deles é Marcos, talvez 43, um advogado criminalista que jamais enfrentou  o tribunal do júri, quer fosse defendendo os milionários do narcotráfico ou os apelos dramáticos dos crimes passionais.  Não, com ele tais defensorias jamais ocorreram, pois logo após  a formatura e num raro golpe de sorte assumiu por bagatela  e por prazo estendido uma pequena loja no ramo das peças. Agora, passados  15 anos seus negócios prosperaram e há um imóvel de sua propriedade que  ocupa meio quarteirão numa caríssima avenida comercial, um dos campeões nacionais no segmento das autopeças.
Com a esposa as coisas não foram muito diferentes. Ela é dois anos mais nova, psicóloga, uma dessas que jamais clinicaram ou mantiveram consultório próprio. Sim, é a verdade, pois igualmente saiu dos bancos da universidade para uma noite de núpcias numa humilde pousada  do interior de Minas Gerais. Não, não estranhem a situação, já que à época não tinha um gato para puxar pelo rabo. Entretanto, inteligentes e com ótimo aproveitamento diplomaram-se às custas da União. Agora pasmem, ela, Sofia, casou na plenitude da virgindade.

- Senhor Oldman, senhor Oldman.. Pode ou não pode nos conceder a entrevista? – Outra vez suplica ao enfiar (de novo) o dedo no meu ombro. Outra vez me vejo extraído do surto criativo. Obviamente, tinha que ficar puto da vida.

-Moleque do cacete, por que tu não abaixa essas calças e enfia a ponta desse teu dedo no rabo? – Esbravejo retirando bruscamente seu dedo da minha pele.

-Oh senhor Oldman, por favor, me perdoe! Não tive a intenção de machuca-lo – Ele justifica desapontado. E desta vez me pareceu tão desalentado que levou o seu olhar para o desgastado par de coturnos.

Depois da bronca me arrependi, e assim abrandei a raiva nas linhas do meu rosto. Subitamente Arlindo levanta o olhar e ele  parece ser frágil como a alma artista, igual a esses que brincam  com malabares de fogo nas noites frias de inverno. Repenso em sua participação em meu livro e definitivamente concluo que tanto seu biotipo como o espírito não condizem com o erotismo das cenas, portando, decido descarto-lo da cena que ocorreria num lugar próximo e por mim conhecido. Bem, talvez Arlindo Augusto nem quisesse estar naquele quarto miserável de um hotel vagabundo e destinado às prostitutas. Talvez fosse essa a forma encontrada encontrada por mim para punir o abastado casal. E já decido pronuncio:

-Bom, paciência, Arlindo! Não será desta vez que você atuará em meu romance – Sentencio antes que retorne  ao meu juízo perfeito. O garoto me olha surpreso e eu peço que inicie a entrevista. Entretanto parece que minhas falas o deixei bolado.

-Incluir-me no romance?  Como assim senhor Oldman? – Ele pergunta. 

-Ai meu Deus, tinha que arrumar sarna pra me coçar? - Recrimino a mim mesmo.
-Diga, diga senhor Oldman! O que o senhor pensou para mim? - Ele insiste
-Ai Jesus! Nada não, Arlindo Augusto, deixemos essa conversa para lá! - Ele parece compreender meu tom decisivo, mesmo que não saiba o por que.

Ainda surpreso, solicita a permissão para sentar ao meu lado, e damos início ao seu trabalho. Permito  que sente e escorrego para a beirada do banco no aguardo das perguntas. Arlindo assenta as nádegas na porosidade do concreto e abre a  sua mochila retirando do interior o aparelho celular. Em seguida aperta algumas teclas de comando e num gesto brusco e desajeitado o coloca bem rente minha boca, quase tocando-me os lábios. Faltou-me pouco para manda-lo à merda, entretanto  relembro a bronca  e refreio minha intenção. Repentinamente retira o aparelho de minha boca e o move para a sua e exclama algumas palavras. Para mim foi demais;  Ele esquecera de testar o nível da gravação

-Um, dois, três, testando! Som, som, som! –  É o que ele fala para um minúsculo orifício no celular. Meu Deus! “Um dois três testando..som..som..som”  Repito comigo e continuo a rir. Definitivamente, Arlindo Augusto era mais que mala, talvez,  babaca fosse pouco. Bem, depois de verificar que estava tudo em ordem deu a partida para a sua entrevista.

-Senhor Oldman, são passados cinco anos de sua última publicação. O que o faz tão ausente do mercado literário?

-Bem meu jovem...acho que a cabeça não está produzindo o suficiente

-Faltam ideias, senhor Oldman?

- Não, talvez esteja transbordando. Porém o volume de ideias é tanto que me confunde, e o meu comum é misturar as coisas ao coloca-las no papel. E o problema reside aí, pois percebo na confusão que meto as minhas idéias, um verdadeiro balaio de gatos pardos.
-Não coordena suas ideias coerentemente, senhor Oldman? - Ele pergunta, surpreso.
-Olha...não que eu seja um descoordenado, não é isso. E o mais que provável é que idade esteja pesando e eu numa estrada onde o inexorável é a velhice. De uns tempos para cá ando demasiadamente preocupado comigo, com as doenças, o alzheimer,  e esse maldito o meio que nos cerca.

-Mas...e quais seriam esse preocupações, senhor Oldman?

-Bem, ando preocupado com tantas coisas. Com os preços nos supermercados, com o desabastecimento de água. Sabe,  Arlindo, estou apreensivo e inconformado com o valor das aposentadorias, com a conta do restaurante por quilo, a falta de crédito, as orgias esparramadas pelo país, com drogas e drogados, repressores, com  os bêbados e cirroses.. - Nesse ponto faço uma pausa.
-Caraca! O senhor é mesmo preocupado com as coisas, eim senhor Oldman?
-Ah, isso eu sou! Hum...E com as balas perdidas, e com  sujeitos que possam me "acertar" nos cruzamentos do país - Replico num tom alarmista, dramático até.
-Poxa! como o senhor é pessimista, senhor Oldman! - Ele diz recolhendo os ombros e arregalando os olhos. Entretanto era bom que ele soubesse que minhas lamúrias ainda não tinham terminado. Continuei.
-E agora há o pior, Arlindo Augusto...Você sabia que o Viagra parece não ser eficaz tanto quanto antes? 

- Hã! Com assim, senhor Oldman... O Viagra deixou de ser eficaz! Ora! Mas qual é a correlação que existe entre o medicamento e a literatura,  ou mesmo com com o processo criativo? Não entendi, senhor Oldman! - Ele devolve, perplexo.

-Ora, meu jovem! Em minha opinião tem tudo a ver, meu rapaz! A pílula azul já foi mais eficiente ao manter elevada a autoestima de sujeitos como eu. Logo, o que me preocupa é a eficiência do medicamento, pois se de fato nada mudou em sua fórmula, significa que a droga sou eu! - Depois de ter soltado essa preciosidade, óbvio, me arrependi, pois não existia qualquer necessidade de deixá-lo a par do meu problema eréctil. E isso foi um erro, já que não deixou passar em branco:

-Hahaha! A droga é o senhor! Essa foi muito boa, senhor Oldaman!  - Ele ri divertido, enquanto curva o dedo polegar para baixo. Depois assume a feição séria e diz: - Olha, não encuca com isso senhor Oldman. Talvez seja apenas fase, passageiro, e tudo voltará ao normal. Provavelmente é algo que esteja prejudicando a absorção medicamentosa – Ele ameniza com  algumas reticências. Porém percebo nele  o incentivo. 

- Bem, Augusto, obrigado. Mas carrego as minhas culpas, pois aos  65 continuo fumando mais de duas carteiras de cigarros por dia, e isso há mais de meio século.  Sabe...talvez  eu esteja no fim da validade, ou coisa assim. Entretanto ouça com a máxima atenção aquilo que vou dizer; Entre a Terra e o espaço sideral sempre haverá mais mistérios que a  nossa inútil filosofia possa decifrar.. - 

-Opa! Já conheço esse bordão, senhor Oldman, aliás, não exatamente com essas palavras. Porém não compreendi  essa coisa dos “planetas e as estrelas e nem a sua desistência em produzir algo  relevante nesses anos de ostracismos –  Ele devolve numa tonalidade abafada. Olho para ele, e ele está entretido com alguns pombos apressados, pezinhos lépidos, daqui pra lá, de lá pra cá à procura de algum alimento. Talvez fosse esse o momento dele saber o real motivo de me distanciar da literatura:

- Bem, senhor universitário, vou explicitar para que a ficha te caia melhor; Quando uma cabeça não funciona dizem que o corpo padece. Quando ambas cabeças não funcionam, bem, ou estão em pane, ou refém de outra possibilidade. Logo, no meu caso, ou escrevo um monte de asneiras, ou limpo as lentes bifocais com detergentes poderosos para me esbaldar em filmes de putaria na internet. E pelo jeito tenho optado pelas duas... -  Depois de soltas as palavras fiquei pensando porque dissera aquilo. Novamente ele não me poupa:

-Hahaha... O senhor ainda assiste a esse tipo de filme, senhor Oldman? Por acaso é carência?

-Quer saber garoto? Carentes todos somos e seremos sempre, pois a carência é implícita à natureza humana! Poderia até estar mais se não me fosse  a pródiga memória. Sabe, não sou sambista, aliás, detesto o samba, mas há uma letra de um desses sujeitos que é espetacularmente sábia.

-E u também não gosto de samba, mas, o senhor se lembra do título ou quem canta?

-Não, não me lembro, só de parte da música, principalmente o trecho que diz “Recordar é viver, eu ontem sonhei com você”  E é assim que funciona a vida, garoto, logo, vivemos mais  para as recordações que para as realidades, talvez até porque poucos de nós aceitem envelhecer  sem um olhar sedutor no passado.

-Opa! Será que o seu pensamento anda largado em alguma de suas mulheres daquele tempo Sr. Oldman? E digo isso pelo fato de todos sabermos o quanto o senhor foi mulherengo...

-Mulherengo? Ô garoto, acredito que esteja  me confundindo  com o falecido Jesse Valadão! Então...Mas não há nada de abandonos em mulheres do passado, mas apenas no status quo de outrora. Há a saudade dos meus cabelos negros e fartos. Há a saudade das calças “Levis” boca-de-pito. Há saudade até do tênis “Bamba”, branco, assim como toda lembrança das minhas camisas rendadas e coloridas, que combinavam perfeitamente como os meus sapatos Cougar. Lembro que tinha três pares de cores diferentes; verde, vermelho e amarelo.

- Nossa senhor Oldman! Sapatos verdes, vermelhos e amarelos, e ainda por cima camisas rendadas? Isso que é ser antigo, eim?  As suas lembranças devem fazer parte dum antiquário! – Ele devolve com chacota.

-Sim, eu sou o antiquário em pessoa! E isso porque ainda não falei dos Beatles e nem de “Let it Be”. Não te segredei o que era subir a Rua Augusta grudado na cintura de uma garota de peitos  GG. Você já assobiou “Its too late” da Carole King ou “Atlantis” do Donavan? Não, né? Então...  e também sinto saudades dos  “cremes rinses” daquela época. É sim, pois eles nada tem a ver com essas porcarias de condicionadores de cabelos que são fabricados nos dias de hoje.  Eles sim conferiam  um look todo especial . 

-Nossa, creme rinse? Nunca ouvi falar - Ele tripudia - Bom..apesar que acho que o seu passado  deve ter sido um lance bacanérrimo, né senhor Oldman?

-Sim, foi....e outra... - Novamente me interrompe já engatado numa nova pergunta
-Senhor Oldman, poderia nos dizer quais eram as curtições daquele tempo, inclusive, as mais quentes? -  Ele pergunta e olha pra mim com certa malícia. Óbvio, percebo o que ele quer, mas decido deixá-lo ansioso e relato fatos mais amenos.

-É assim meu rapaz, muitas foram as curtições.  Uma delas era que a minha geração adorava tomar café no Aeroporto de Congonhas durante as madrugadas. A outra, degustar uma boa sopa de cebola num restaurante simples e próximo ao Ceasa. Entretanto os lances mais badaladas eram os bailes de bairro. Neles predominavam os efeitos das luzes. Eram bailes cobrados, alguns com conjuntos tocando ao vivo. Mas a diferença estava mesmo naquelas lampadas mágicas, luzes negras e estroboscópicas causando efeitos que deixavam nossas roupas brancas e os dentes com uma aparência fosforescente, algo quase azul neon, assim como os letreiros dos Pubs de hoje.

- Nossa senhor Oldman, acho que o senhor foi um arraso! Imaginando aqui o senhor dançando com uma ninfeta da época, colando o rosto, pernas, seios... - La vinha ele novamente.

- Ah meu rapaz, nem tanto... – Respondo demonstrando a humildade que não possuo. 

- E o senhor se recorda de algumas passagens pitorescas? – Os olhos dele brilham. Foi então que notei que ele pretendia que entrássemos diretamente ao assunto.

-Ta certo, entendi, garoto! Bem...Lembro de uma ou outra. Certa vez dei uma trepada  rapidinha com uma garota que conhecera dentro do ônibus da Breda Turismo. Era uma viação que fazia  a linha no litoral sul do estado de São Paulo e tinha por destino a cidade de Peruíbe

-Nossa! E como foi isso de fazer amor dentro de um ônibus? Deu certo?

-Para nós deu. Talvez nos assentos do carro houvesse meia dúzia de pessoas. Logo após a partida uns rocavam aqui, outros ressonavam acolá, pois é comum às linhas noturnas partirem com poucos lugares ocupados. Como de hábito comprei o último assento, solitário. Ao entrar no ônibus vejo uma  garota sentada na terceira ou quarta fila. Ela era bem bonita e tinha em sua cabeça uma dessas faixas que trazem frases do mundo do rock, coisa bem comum nos anos 70.  Era uma com frase de Jim Morrison, tipo assim - “Alguns nascem para o suave deleite; outros para os confins da noite”. Conclusão; Eu adorava Morrison, portanto me amarrei nela e no seu adorno... 

-Ah, certamente ela também deveria ser fã do Jimi Hendrix e da Janis Joplin! – Ele me interrompe, brilhantemente, diga-se.

-Cara, estou perplexo! Você deve ser um gênio! Que dedução magnífica! – Replico entusiasmado. Ele sorri sem jeito, talvez levando ao pé da letra a falsa lisonja. Porém não me senti um crítico solitário, pois naquele instante os pombos arrulharam em grupo, espalhafatosos.

-Sim, e o que aconteceu, senhor Oldman? – Ele me parecia frenético ao esfregar a mão com rapidez no tecido da perna direita.

-Calma rapaz, já te conto. Bem, não sei se sabe, mas sempre fui um cara de pau, logo, sentei-me ao seu lado e puxei conversa. Foi mágico! O papo fluiu como nos conhecêssemos há anos. Estávamos falando há uns 10 ou 15 minutos e passava um pouco da uma da manhã quando a convidei para sentarmos onde tinha o assento comprado. Ela me olhou e me ofertou um sorriso incógnito e prontamente se levantou...

-Conta...conta...conta logo senhor Oldman! – Ele pediu eufórico, agora batendo o punho direito contra a perna.

-Fique tranquilo meu jovem – Acalmei-o e continuei; Bem...já sentados nos últimos bancos e após conversamos por 10 minutos reclinamos os bancos e começamos a nos acariciar. Ela era uma delícia e sussurrava baixinho e seus gemidos se fizeram tão sensuais que lembrei dos filmes estrelados por Brigite Bardot. Ah, o biquinho que ela fazia quando dizia "Mon amour" me matava! Bom, não demorou muito e pulei para o banco ao lado e me deitei sobre ela. Daí ficamos num rala e roça insano, até que, com alguma dificuldade arriei a calça jeans. Para ela foi mais fácil, já que estava de mini-saia, e ela só teve o trabalho de desabotoar a blusa floral e para os seios saltarem ansiosos, escondidos que estavam num sutiã meia-taça. Sim, os peitos dela eram lindos! Um pouco mais de excitação e foi inevitável deixarmos de dar uma trepada das boas. Evidente que tomamos alguns cuidados, como o de gemermos baixinho para não acordarmos o pessoal dos bancos da frente. 

-Uauuuu! Que bárbaro senhor Oldman! Ah como gostaria de estar sentando no banco ao lado, incógnito, invisível. Ah, como gostaria de ter assistido tudo! – Ele exclama excitado. 

-Bom, foi isso, meu jovem. Depois nos limpamos com alguns lenços umedecidos que ela trouxera na bolsa. Agora...o estranho mesmo ficou por conta do meu rabo, de fora, indo de um lado para o outro conforme as curvas efetuadas, pois a Serra do Mar é um festival delas, fechadas...Ah, e isso sem falar na maldita pressão nos ouvidos, algo que tem relação com o nível do mar.

-Poxa vida senhor Oldman! Acredito que foi uma aventura e tanto! – Ele concorda extasiado. Depois emenda outra pergunta: Ah, assim, Já que estamos falando em “fazer amor” recorda de algum outro caso inusitado?

-Garoto, vamos parar com esse papinho frouxo de “fazer amor”? Use uma linguagem menos coloquial, porra!

-Epa! Desculpe senhor Oldman. Tentarei me adequar! – Ele assente num risinho safado.

-Isso! Assim que se fala, garoto! 

-Então vamos lá senhor Oldman! Existiram outras trepadas tão  incomuns quanto essa?

- Sim existiram algumas. Tô lembrando aqui de algumas. Teve a da escada de incêndio, na sala do arquivo morto duma firma que trabalhei, algumas me aproveitando do "vai-e-vem" das ondas do mar. Você não vai acreditar, mas trepei até em sala de cinema!
-Caraca! Em sala de cinema, senhor Oldman?
-Sim, bum cine-teatro bem fuleirão. Pra falar a verdade eu era bem garotão e foi numa sessão das 3 da tarde ao dar o meu maço de cigarro praticamente cheio para uma strepper balzaqueana que fazia show no local.
-Nossa! Que barra eim, senhor Oldman!
-Pois é, foi barra. E, ah, teve uma ocasião muito esquisita. Só que nessa entrou areia! Acredita?.

-Hã? Como assim? O senhor foi flagrado com a boca na botija? Foi pego pelo pai, mãe, ou pelo irmão da garota?

-Não, não! Não foi nada disso! O problema não foi esse! Nessa entrou areia, mesmo, literalmente falando. Era também madrugada e transamos num areal de Copacabana, num terreno desocupado, logo atrás do parquinho de diversões em que ficamos boa parte da noite. Apagadas as luzes do parquinho, ficamos por ali e nos ocultamos em alguns arbustos e nos misturados às embalagens de sorvetes e de amendoins torrados demos cabo ao serviço. Naquela época eu curtia uma de ser mochileiro, e estava ali com a namorada para ver as escolas de samba no carnaval carioca. Porém a grana era curta, e a decisão era a de; Ou comprávamos os ingressos, ou dormíamos naquelas espeluncas do centro. Claro, optamos por ver as escolas, além, óbvio, de tomarmos banho de gato naqueles famosos chuveirinhos de praia.

-Caraca! Não imagina como seus fãs ficarão felizes por lerem essas preciosidades...

-Ah sim! Posso imaginar o riso estampado no rosto de meia dúzia de sujeito que perde tempo em me ler!- Devolvo com sorriso cretino e conformado. Eu também era filho de Deus.

-Poxa vida, senhor Oldman! Que relatos canas! Podemos finalizar a nossa entrevista com um bate pronto?

-Claro garoto! Mas vamos inverter a ordem; Agora sou eu que respondo enquanto você pergunta! Ok?

-Hahaha! O senhor é mesmo um grande gozador, senhor Oldman – Ele riu farto e inocente. Pra falar a verdade, começava a ir com a cara daquele garoto.

-Ok, ok! Você venceu baby! E para os vencedores batatas fritas! Manda ver, guri! – Ele sorriu novamente, encostou o celular próximo dos lábios e sapecou:

-Uma bunda!

-Ah sim, a bunda de Carla Perez - Rebato

-A bunda das bundas? – Ele pergunta, agora mais desinibido

-Bem garoto, olha que já vi muita bunda bonita, mas a de  Da Rita Cadillac era imbatível!

-Puta que pariu! A de Rita Cadillac? Por acaso é uma velhota que há uns 8 anos atrás fez um filme pornô  deitada sobre o  capô dum cadillac vermelho?

-Sim! Ela mesmo!

-Hum..entendi. Bem, e a sua maior decepção, senhor Oldman?

-Hum... talvez a minha maior decepção foi jamais ter visto os peitos de Grace Kelly

-Quem? Grace o que? Quem é, senhor Oldman ?

-Ah foi uma atriz dos anos...Ah, deixa pra lá garoto!

-Ok, não vou insistir. Ah, agora me diga; Há muitos enganadores nesse país?

-Ih meu rapaz! Esse país está abarrotado de enganadores. Mas, o maior deles é o governo! – Ele me olha assustado. Aquilo me preocupa, pois talvez eu estivesse na presença de um desses esquerdistas alienados e que não enxergam um elefante à frente do próprio nariz. Se fosse o caso a entrevista corria o risco de interrupção.

-É... nessa vou ter que concordar com o senhor, senhor Oldman! – Eu o ouvi quieto e com um certo alivio. E ele continuou:

-Deduzindo, senhor Oldman. Se existe enganador, existe quem se deixa enganar. Por acaso seria a tal  "Elite branca" o grande bobo desta nação?

-Elite branca? Bah, guri! Isso é conversa pra boi dormir! O grande otário é o povo brasileiro como um todo, principalmente os mais humildes que se deixam seduzir por alguns míseros trocados – Devolvo convicto.

-Hum, certo, certo – Ele assente. Depois me desafia; Senhor Oldman, vale um bloodmary a sua convicção política mais contundente.

-Ah garoto... Essa é muito é a mais fácil de todas!

-É? – Ele questiona

-É! - Confirmo  

-Então diga senhor Oldman!

-Fora Petralhas! – Exalto-me. Talvez a tonalidade da voz tenha sido tão contundente que todas as árvores do parque me ouviram. E não só elas, pois as pessoas que passavam nos olharam, até os pombos nos olharam, e arrulharam ainda mais alto, não sei se a pró ou contra a minha convicção política.

Ele me olha e sorri. Eu olho pra ele e devolvo o sorriso. Depois o convido para um drink. Ele parece não entender. Então tiro do bolso do paletó de lãzinha cinza duas pequenas miniaturas de vodca. Ele aceita de pronto.

-A nós –  Eu digo

-A nós –  Ele Retribue

Terminadas, repetimos os goles com outro par de garrafetas. Repentinamente ele dá um tapa na própria testa e diz "Que cabeça essa minha" Eu apenas olho sem nada compreender. Ele me comunica "Senhor Oldman, tenho um presente para o senhor" Agora quem é pego de surpresa sou eu.  Pego mais duas miniaturas e outra vez consumimos o conteúdo. Apalpo um dos bolsos e noto que ainda sobrara um par delas no paletó-adega. Então ouço o barulho do zíper de sua mochila, e ele saca do interior um estojo embrulhado num bonito papel laminado. Estou ansioso e ele me faz a entrega. Assim que me desfaço da embalagem os meus olhos brilham diante dum belo par de lentes negras. Olho o estojo com atenção e nele há a marca Ray Ban. Talvez os óculos fossem legítimos, talvez não,  e isso não me importou. Retiro da caixa e me desfaço da velha armação que estava em meu rosto e a substituo pelo novo presente.

-Demais, senhor Oldman! Ficou muito bom, bom mesmo! O Senhor ficou parecendo com Charles Bukowski! Ta igualzinho a uma foto dele nos anos 80 em Los Angeles – Ele exclama
-Quem é Charles Bukowski? - Brinco com ele.

Ele sorri e eu devolvo. Depois levanta-se para ir embora. Já em pé  me dá um forte abraço, caloroso, cheio de afeto, e aquilo me fez sentir importante, pois há muito tempo não me afagavam daquela forma.  Talvez achem que sou piegas, mas repentinamente tudo à minha volta pareceu ganhar vida, pois há um dia ou um momento na vida da gente que as coisas, por mais pequenas que sejam, tornam-se imensuráveis.
E aquele era o dia e o momento. As flores pareciam adquirir um novo colorido, e no rosto das pessoas mais alegria, e até os pombos e seus incontroláveis apetites pareciam outros, diferentes, arrulhos inquietos, mas que sugeriam paz.
Surpreendentemente sinto algo aguar os meus olhos,. Era como tivessem pingado gotas de colírio, que ameaçavam desabar. Entretanto eu era duro, portanto arregalei  bem os olhos e as consegui reter, não possibilitando ao rapaz ver o quanto havia de humano em mim. E com as lágrimas dominadas assim como os velhos e cansados leões, enfio a mão no bolso do paletó-adega e resgato as derradeiras miniaturas. Ele acolhe a sua com galhardia e a entorna numa outra única golada, enquanto consumo a minhas em goles mais comedidos. Terminadas, civilizadamente ele recolhe todos os frascos vazios que deixamos sobre o banco e os leva até a lixeira mais próxima. Depois volta e pega a sua mochila e verifica se não está deixando algo para trás. Com tudo em ordem  enfia o celular no interior e me dá um “Até breve” e eu devolvo num “Até a próxima” . E ele toma o seu caminho e segue em linha reta.

Eu o acompanhei por uma daquelas ruazinhas até onde meus olhos puderam distingui-lo. E no caminho ele brinca no cocuruto de algumas crianças, e ajuda um senhor de severa idade a se erguer do banco. Porém eu notava nele algo não sincronizado. E conforme ele segue pela alameda eu sorrio prazeroso, pois Arlindo Augusto dava evidentes sinas de confusão motora. Eu sabia que não demoraria para que tropeçasse nas próprias pernas num inequívoco estado de embriaguez,  mesmo que, por sorte, ainda em estágio inicial.

Sim! Não existia qualquer dúvida agora; Arlindo Augusto era um garoto legal.

Copirraiti26Jun2014

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O Tambor Chinês, de Ihara Saikaku

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Ihara Saikaku

Tradução Tejiti Suzuki

No bairro de Nishijin, na cidade de Quioto, estão localizadas as oficinas de tecelagem de seda. Entre os mestres que viviam dessa profissão, havia um que, não obstante a sua destreza no ofício, via a sua situação econômica piorar dia por dia. No fim do ano, encontrava-se num beco sem saída. Falou com a mulher, e ficou decidido que deixariam o bairro na calada da noite, às escondidas dos credores. Começou ele, então, a vender os móveis e utensílios da oficina, secretamente, mas o fato não passou desapercebido dos seus colegas. Os mais chegados, que somavam uma dezena, lamentaram que tal ocorresse justamente com quem se mostrara sempre comedido, honesto, prestativo, homem de alma piedosa e isenta de pecados. Desejosos de salvá-lo da situação em que encontrava, encarregaram um deles, escolhido por mais avisado, de indagar do estado real das dívidas do colega. O enviado ficou sabendo que elas mal chegavam a oitenta ryos (cerca de duas libras ouro). Disse então, ao casal em apuros:

– Por que abandonar a oficina, que mantiveram durante tanto tempo por causa de tão pouco? Não se amofinem: são coisas da vida. Deixem tudo por nossa conta. Vão tratar dos preparativos para o Ano Novo. Deem as crianças presentes bonitos. Quanto aos uniformes dos aprendizes, ainda há tempo de mandar fazê-los azuis, sem o emblema da oficina. E, a senhora, deve cuidar mais da sua aparência, principalmente numa ocasião como esta. Vá fazer um penteado vistoso: a sabedoria da esposa consiste em não deixar ninguém perceber que o marido está em dificuldades.

Na noite de 26 de dezembro, conquanto estivessem todos atarefados, os dez colegas do mestre tecelão combinaram entre si e foram ter à casa do amigo, levando cada um consigo dez ryos.Pediram um vaso de madeira e nele depuseram as moedas de ouro que haviam trazido, constituindo assim uma caixa de socorro mútuo.

– As moedas aqui juntadas, que somam cem ryos, dentro em breve estarão multiplicadas por dez — diziam.

Um dos tecelões, com ar de entendido, levou o vaso até o santuário do Deus da Prosperidade, diante do qual depois de bater palmas, disse, como se rezasse:

Ó Deus da Prosperidade: multiplicai este tesouro; caso contrário, sereis jogado ao Rio Kamiya.

Entre os risos e aplausos de todos os presentes, teve inicio uma alegre libação, com os vinhos e vitualhas trazidos pelos visitantes. Beneficiadores e beneficiados estavam eufóricos.

Que bela e inusitada maneira de comemorar a passagem do ano! — exclamavam, erguendo as taças. Mesmo os menos afeitos às bebidas fartaram-se de beber. Cantaram e dançaram até esgotarem todo o seu repertorio de habilidades artísticas. Faziam tamanha algazarra que ninguém mais se entendia.

Eram quatro horas da manhã, e os galos cantavam, quando os visitantes se retiraram, após trocarem as sandálias, deixando suas capas e leques. Saíram abraçados uns aos outros, esquecidos de se despedirem dos donos da casa. Fatigado pelas preocupações da véspera, o mestre tecelão deitara-se no meio da sala, onde ficou a roncar alto.

Sua esposa fechou as portas, com maior cautela. Mandou a criadagem ir repousar. Não se continha, porém, de júbilo. Foi acordar o marido e pediu-lhe que fizesse um levantamento das contas à pagar: entregou- lhe, para tanto, o ábaco e o diário.

Brandindo o ábaco, bravateou o marido:

– Neste fim de ano, quando os cobradores me aparecerem, atiro-lhes com as moedas de ouro na cara. Sobretudo aquele maldito Hatiemon, o dono do empório, que, apesar de ser nosso parente afastado, e o mais intolerante de todos. Vou saldar definitivamente nossa dívida com ele. Não lhe compre mais nada. Passe a comprar no empório vizinho. E pague à vista, ouviu?

Enquanto fazia suas contas e projetos de pagamento, o tecelão foi buscar o vaso de madeira no santuário. Qual, porem, não foi a surpresa do casal quando constatou que o vaso estava vazio! Não podia ser obra dos ratos: ratos não roem moedas de ouro. Quem sabe se não seria uma brincadeira do Deus da Prosperidade? Vasculharam o santuário, repetidas vezes, mas não encontraram nem sombra do tesouro.

A grande alegria de havia pouco transformou-se numa tristeza sem fim. O tecelão pôs-se a monologar em voz alta:

– É destino. Não guardarei rancor de quem me roubou. Mas por que teria feito isso? Aceitei um auxilio caritativo e vejo-me em dificuldades maiores do que antes. Qual não será a maledicência das pessoas, agora? Não, não adianta continuar a viver neste mundo ingrato. Vamos, querida, partamos juntos para outra vida, levando as crianças conosco.

– É verdade. Não adianta continuar a viver — concordou, resoluta, a mulher.

Lembrou-se de que viria gente ver ambos, depois de mortos, e vestiu, então, o único quimono de seda branca que ainda lhe restava. Arrumou o cabelo ao espelho, com maior cuidado. Acarinhou a cabeça do marido: disse-lhe que, apesar dos dezenove anos decorridos, o amor conjugal de ambos parecia o orvalho daquela mesma madrugada. Com os olhos turvados pelas lágrimas, marido e mulher acenderam velas no santuário dos antepassados. Acordaram os filhos com cuidado. A menina, que era a mais velha, perguntou se já chegara o Ano Novo. Apesar de sonolento, o caçula não se esqueceu do arco de brinquedo que lhe havia sido prometido de presente.

Penalizados, os dois puseram-se a chorar copiosamente. Nesse momento, banhada também em prantos, a velha criada precipitou-se para dentro da sala:

– Não precisam explicar nada. Sei de tudo. O senhor e a senhora podem morrer, mas roubar a vida a estes inocentes! Não, isso não pode ser. Será que perderam a cabeça? Eu me encarrego de criar estas duas crianças.

Tudo isso foi dito aos gritos, enquanto ela protegia as crianças com seus braços. Os demais residentes acordaram com o barulho e os vizinhos vieram ver o que se passava. Em meio a confusão subsequente, o sol nasceu, e o projeto de suicídio acabou sendo posto de lado.

A noticia da ocorrência chegou aos ouvidos de alguns dos colegas do tecelão, os quais, convocando os companheiros faltantes, promoveram, os dez reunidos, uma sessão para deliberarem sobre o assunto. Ocorrência verdadeiramente incompreensível, na verdade. Como todos se haviam declarado dispostos a salvar o amigo da bancarrota, não seria admissível que algum deles fosse roubar o que ele próprio doara espontaneamente. O ladrão, no entanto, tinha de ser um deles.

– Só consultando a Providência é que se poderá provar a inocência de cada um de nos — afirmavam alguns. Outros, mais sensatos, achavam que isso não resolvia. Concordaram, por fim, em levar o caso ao conhecimento da autoridade, por escrito, de quem solicitaram julgamento. Deferida a solicitação, a audiência ficou marcada para o dia 25 de janeiro, ao termino das festas. Foi, outrossim, ordenado aos suplicantes que não se ausentassem da cidade, sob pena de sofrerem as sanções da lei, e que todos comparecessem a audiência em companhia de suas respectivas esposas ou, na falta desta, de qualquer parente mais próximo, do sexo feminino.

No dia aprazado, os tecelões, acompanhados das esposas, que se mostravam contrariadas, compareceram em juízo. Sorteado o número de ordem e afixada a lista respectiva na parede, a autoridade sentenciou:

– Julgo-vos responsáveis, coletivamente, pelo desaparecimento do dinheiro que constituía o fundo de socorro mutuo, e condeno-vos à pena seguinte: todo o dia, durante dez dias consecutivos, sairá um dos casais à rua, conduzindo, na ponta de uma vara, aquele tambor chinês que ali está, e, fazendo o percurso que vai do palácio até a alameda de pinheiros do templo, na direção oeste, voltará aqui pelo mesmo trajeto. É terminantemente proibida a aproximação de curiosos.

O tambor em questão era um tambor grande e pesado, pintado de vermelho berrante.

Durante dez dias consecutivos, o caso manteve acesa a curiosidade publica.

Que condenação esquisita! — comentavam todos.

Decorridos dez dias, a autoridade convocou novamente os dez casais e disse-lhes:

– Agradeço a colaboração de todos vós para a elucidação deste caso. Sinto muito ter-vos submetido a tal ridículo e vexame. Dirijo-me particularmente aos maridos, que parecem ter sofrido bastante, por causa das queixas e imprecações das mulheres. Eu soube disso por meio de um garoto muito vivo que coloquei dentro do tambor. Ele me contou ainda mais o seguinte: uma das mulheres se mostrou particularmente veemente nas suas invectivas contra o marido. Queixava-se do infortúnio de se ver assim exposta à curiosidade pública por culpa exclusiva dele. Protestava contra a tolice de ajudar a outrem e sacrificar a própria família. Suas lástimas e imprecações foram num crescendo. A certa altura, o marido sussurrou ao ouvido da esposa: “Tenha um pouco de paciência. O dinheiro é nosso. Você o verá em casa.” Não direi aqui de quem se trata, nem penso tenha sido o roubo ato premeditado. Julgo-o, antes, fruto da embriaguez. Em consideração ao seu louvável ato anterior, de ter prestado socorro a um necessitado, suspendo a pena e ordeno ao culpado que se limite a devolver o dinheiro e a desaparecer da cidade com a família. Cumprida minha ordem, arquive-se o processo. Podeis retirar-vos. Tenho dito.

Páginas de Cold Point, de Paul Bowles

Páginas de Cold Point

Paul Bowles

Nossa civilização está condenada a uma vida curta: suas partes constituintes são excessivamente heterogêneas. Pessoalmente, sinto- me satisfeito por ver tudo em processo de decadência. Quanto maiores as bombas, mais rápido este processo será cumprido. A vida repugna demais aos olhos para que alguém se esforce em preservá-la. Deixe-a ir. Talvez algum dia uma outra forma de vida apareça. De qualquer modo, não faz diferença. Ao mesmo tempo, eu ainda sou uma parte da vida, e por isso estou condicionado a me proteger de todas as formas possíveis. E assim estou aqui. Aqui nas Ilhas, a vegetação ainda tem a preponderância, e o homem precisa lutar, nem que seja apenas para fazer notada sua presença. Aqui é maravilhoso, os ventos alísios sopram o ano inteiro, e desconfio ser muito improvável que desperdicem bombas em uma parte tão pouco frequentada da ilha, e mesmo em qualquer parte dela.

Eu estava relutante em desistir da casa após a morte de Hope. Mas era a atitude mais óbvia. Uma vez que minha carreira universitária era uma rematada farsa (pois não acredito que possam ser válidas quaisquer das razões que levam um homem a “ensinar”), fiquei eufórico com a ideia de me demitir, e logo que os negócios dela foram resolvidos e o dinheiro aplicado de modo conveniente, eu não hesitei um minuto em me exonerar.

Acho que aquela semana foi a primeira vez, desde a infância, que consegui recobrar o sentimento de haver algum contentamento na existência. Passei por todas aquelas lindas casas me despedindo dos impostores da Língua Inglesa, dos faquires da Filosofia, e de todos os demais — mesmo dos colegas que eu apenas cumprimentava de passagem. Eu via a inveja nos seus rostos quando anunciava que ia partir pela Pan American no sábado de manhã; e o maior prazer que sentia nisso tudo vinha de eu poder responder “Nada”, quando me perguntavam, e invariavelmente perguntavam, o que eu pretendia fazer.

Quando eu era garoto, as pessoas costumavam se referir a Charles como “O Irmão Mais Velho C.”, embora ele seja apenas um escasso ano mais velho que eu. Agora para mim ele é apenas “O Irmão Mais Gordo C.”, um advogado bem-sucedido. Suas mãos e sua cara, vermelhas e opulentas, sua jovialidade amistosa, e a insondável hipocrisia de seu puritanismo, estas as qualidades que o tornam realmente repulsivo para mim. Há também o fato de que houve um tempo em que ele não parecia diferente do jeito atual de Racky. E apesar de tudo ele ainda é meu irmão, e condena declaradamente tudo que eu faço. A aversão que sinto por ele e tão forte que durante anos eu era obrigado a fazer um esforço prodigioso para engolir uma garfada de comida ou uma gota de líquido na sua presença. Ninguém sabe disso, além de mim — naturalmente Charles o ignora, seria o ultimo a quem eu contaria. Ele veio no último trem, duas noites antes de eu partir. Foi direto ao assunto — logo que se calibrou com uma bebida forte.

– Então está de partida para o mundo das selvas - disse ele, sentando-se na ponta da cadeira como um vendedor.

– Se é que se pode chamar de selva — repliquei. — Sem dúvida não e tão selvagem quanto Mitichi. — Ele tinha uma casa de campo no norte do Quebec. — Na verdade, considero o local civilizado.

Ele bebeu e estalou os lábios com firmeza, baixando o copo com certa força até bater no joelho.

– E Racky. Vai levá-lo também?

– Claro.

– Fora da escola. Longe. Ninguém para ver senão você. Você acha isso bom?

Olhei para ele e disse:

– Acho.

– Meu Deus, se eu pudesse impedir você legalmente, eu impediria! - Gritou, ficando de pé e pondo seu copo no porta-copos.

Eu tremia de excitação por dentro, mas fiquei apenas ali parado, olhando para ele. Prosseguiu:

– Você não está apto a exercer a custódia da criança! - Gritou. Fuzilou-me com um olhar severo por cima dos óculos.

– Você acha que não? - Eu perguntei delicadamente.

De novo, lançou em mim um olhar penetrante.

– Acha que eu esqueci?

Eu estava compreensivelmente ansioso em ver meu irmão fora da minha casa o mais cedo possível. Enquanto empilhava e escolhia cartas e revistas na escrivaninha, eu disse:

– Isso é tudo o que veio me dizer? Tenho muita coisa para fazer amanhã e preciso dormir um pouco mais. Não é provável que eu encontre você no café da manhã. Agnes vai cuidar para que você possa comer a tempo de pegar o primeiro trem.

Tudo que ele disse foi:

– Meu Deus! Acorde! Veja o que está fazendo! Você não está enganando ninguém, e sabe disso.

Esta espécie de conversa é típica do Charles. Sua mente é lenta e obtusa; constantemente imagina que todas as pessoas que encontra pretendem envolvê-lo nas trapaças de algum tipo de joguinho privado. Ele é tão completamente incapaz de seguir o funcionamento mesmo de um intelecto moderadamente desenvolvido que descobre intenções de duplicidade e segredo em toda parte.

– Não tenho tempo para ouvir estes absurdos - disse eu preparando-me para sair do quarto.

Mas ele gritou:

– Você não quer ouvir! Não! É claro que não! Você só quer fazer o que quer fazer. Você só quer ir lá para não sei onde e viver como bem entende, e as consequências que vão para o inferno!

Nesta altura, ouvi Racky descendo a escada. C., naturalmente, nada ouviu e continuou a vociferar:

– Mas lembre-se, tenho a sua ficha direitinho, e se houver qualquer problema com o garoto eu vou saber de quem é a culpa.

Atravessei o quarto às pressas e abri a porta de modo que ele pudesse ver que Racky estava ali do lado. Isso fez parar sua diatribe. Era difícil saber se Racky ouvira alguma coisa ou não. Embora não seja um jovem muito quieto, é a alma da discrição, e quase nunca é possível saber o que se passa na sua cabeça, senão aquilo que ele permite que os outros saibam.

Eu estava aborrecido por C. ter gritado comigo na minha própria casa. Na verdade, ele é o único de quem eu aceitaria tal comportamento, mas pai algum gosta que seu filho o veja ser criticado sem reação. Racky simplesmente ficou ali de pé no seu robe de banho, sua cara de anjo desprovida de expressão, e falou:

– Diga boa-noite ao tio Charles por mim, está bem? Eu esqueci.

Eu respondi que sim e fechei a porta depressa. Quando achei que Racky já estava de volta ao seu quarto, dei boa-noite a Charles. Nunca fui capaz de me livrar de sua presença rápido como eu desejava. O poder que exercia sobre mim data de um período antigo de nossas vidas, de dias que me desagradam lembrar.

Racky é um garoto maravilhoso. Depois que chegamos, quando concluímos ser impossível obter uma casa adequada, próxima de alguma cidade onde ele pudesse ter a companhia de meninos e meninas ingleses da sua faixa de idade, ele não demonstrou qualquer magoa, embora deva ter ficado desapontado. Em lugar disso, ao sair do escritório da empresa imobiliária para a rua ensolarada, ele forçou um e disse:

– Bom, acho que vamos precisar de bicicletas, só isso.

As poucas casas disponíveis perto do que Charles chamaria “civilização” provaram ser tão feias e com uma atmosfera de prisão tão insuportável que decidimos de imediato ficar em Cold Point, muito embora ficasse no extremo da ilha e bastante isolado com seus penhascos a beira-mar. Não havia duvida de ser uma das propriedades mais desejáveis da ilha, e Racky estava tão entusiasmado quanto eu com seus esplendores.

– Você vai ficar cansado de morar sozinho lá, só comigo — disse eu enquanto andávamos de volta para o hotel.

– Ah, eu vou me dar muito bem. Quando vamos comprar as bicicletas?

Sob tal insistência, compramos duas na manhã seguinte. Eu tinha certeza de não poder usar muito a minha, mas ponderei que ter uma bicicleta extra na casa podia ser conveniente. Vim a constatar que os criados todos possuíam bicicletas, sem as quais não poderiam ir e vir da aldeia de Orange Walk, a treze quilômetros pela costa. Assim, por certo tempo, todas as manhãs antes do café, me vi obrigado a pedalar furiosamente minha bicicleta ao lado de Racky durante meia hora. Dávamos um passeio pelo ar frio da manhã, sob as paineiras altas como torres perto da casa, e íamos até a grande curva que há na linha do litoral, no ponto onde as palmeiras oscilantes curvam-se para a terra sob a brisa persistente que lá bate sempre. Depois fazíamos uma grande curva e retornávamos em alta velocidade, debatendo aos brados a intensidade de nosso desejo pelos vários itens do café da manhã que sabíamos estar a nossa espera no terraço. Em casa, comíamos sob o vento, olhando de lá para o mar das Caraíbas, e conversávamos sobre as notícias do jornal local do dia anterior, trazido todas as manhãs de Orange Walk por Isiah. Depois, Racky desaparecia em sua bicicleta a manhã inteira, pedalando ferozmente pela estrada, em uma ou outra direção, até descobrir uma faixa de areia não notada até então, ao longo da costa, que passava a considerar como uma nova praia. No almoço, ele me descrevia isso em detalhes, acompanhado de um relato das vicissitudes físicas decorrentes de pedalar a bicicleta por entre as árvores, de modo que os nativos caminhando descalços pela estrada não o pudessem identificar, ou de escalar penhascos inacessíveis que provavam ser bem mais altos do que pareciam à primeira vista, ou de medir a profundidade da água antes de mergulhar saltando das rochas, ou de julgar a eficiência dos recifes para barrar a passagem dos tubarões e barracudas. Jamais havia qualquer componente de fanfarronice nos relatos de Racky — apenas a alegre excitação que experimentava por contar de que modo satisfazia sua inesgotável curiosidade. E sua mente mostrava-se alerta em todas as direções ao mesmo tempo. Não quero sugerir que eu alimentasse a expectativa de ele se tornar um “intelectual”. Isso não é da minha conta, e não estou particularmente preocupado em vir ele a ser ou não um homem de ideias. Sei que sempre terá certa ousadia na sua conduta e uma grande pureza de espirito em julgar valores. A primeira virtude ira preservá-lo de ser transformado no que eu chamo de “vitima”: nunca será brutalizado pelos fatos. Seu seguro senso de justiça nas considerações éticas ira protegê-lo do efeito paralisante do materialismo contemporâneo.

Para um garoto de dezesseis anos, Racky é dotado de uma extraordinária inocência de visão. Não digo isto como um pai abobalhado de amor pelo filho, embora Deus saiba que não posso sequer pensar no menino sem experimentar uma avassaladora sensação familiar de regozijo e gratidão por me ser concedido o privilégio de partilhar minha vida com ele. Nossa vida aqui juntos, que ele encara com a mais completa naturalidade, constitui para mim uma fonte inesgotável de maravilhas; e reflito sobre isto uma boa parte dos dias, apenas sentado e consciente de minha grande ventura em possuí-lo só para mim, fora do alcance de olhares curiosos e línguas malévolas. (Suponho que pense na verdade em C. quando escrevo isto.) E creio que parte do encanto de compartilhar a vida de Racky deriva justamente dele considerar isto tudo absolutamente normal. Nunca lhe perguntei se gosta daqui - é obvio demais que gosta. Acho que se um dia ele virar para mim e disser que se sente muito feliz, talvez esse encanto possa até de algum modo ser quebrado. Mesmo assim, se ele se mostrasse desatencioso e inconsiderado, ou mesmo indelicado comigo, sinto que isto só me faria amá-lo ainda mais.

Reli a ultima frase. O que significa? E por que eu imaginaria que pudesse significar mais do que afirma?

Ainda assim, por mais que eu tente, não posso acreditar no fato isolado, gratuito. O que devo estar sugerindo é que sinto que Racky de algum modo já se mostrou desatento. Mas de que modo? Sem duvida não posso ressentir-me de seus longos passeios de bicicleta; não posso pretender que fique sentado conversando comigo o dia inteiro. E nunca me preocupo se ele está enfrentando alguma situação perigosa; sei que sabe se cuidar melhor do que a maioria dos adultos, e que tem as mesmas chances que qualquer nativo de se ferir escalando os penhascos ou nadando na enseadas. Ao mesmo tempo, não existe a menor duvida em minha mente de que algo a respeito de nossa vida me incomoda, Devo ressentir-me de algum detalhe no esquema todo, seja qual for o esquema. Talvez seja apenas sua juventude, e eu tenho inveja de seu corpo ágil, de sua pele lisa, de sua graça e energia de animal.

Por um longo tempo esta manhã, fiquei observando o mar, tentando solucionar este pequeno quebra-cabeça. Duas garças brancas vieram e se empoleiraram num toco de árvore morta no lado leste do jardim, Ficaram ali um longo tempo sem se mover. Eu virava a cabeça para outra direção e esperava meus olhos se acostumarem ao brilho do mar no horizonte, e então de repente voltava a olhar para elas, para ver se haviam mudado de posição, mas permaneciam sempre na mesma atitude. Eu tentei imaginar o toco preto sem as garças — uma paisagem puramente vegetal — mas era impossível. Enquanto isso, lentamente me forcava a aceitar uma ridícula explicação para minha inquietação com Racky. Apenas ontem ela me veio a mente, quando, em lugar de vir almoçar, Racky enviou um garoto negro de Orange Walk com o recado de que ia almoçar na aldeia. Não pude deixar de notar que o menino usava a bicicleta de Racky. Eu o havia esperado para almoçar uma boa meia hora, e fiz Gloria servir a comida imediatamente apos o menino ir embora de volta a aldeia. Fiquei curioso em saber em que tipo de lugar e com quem Racky estaria almoçando, pois Orange Walk, até onde eu saiba, é habitada apenas por negros, e eu tinha certeza de que Gloria poderia lançar alguma luz na questão, mas eu mal pude perguntar a ela. No entanto, ao trazer a sobremesa. falei:

- Quem é o garoto que trouxe o recado do senhor Racky? Ela ergueu os ombros.

— Um moleque de Orange Walk. Seu nome e Wilmot.

Quando Racky voltou, ao cair da noite, vermelho com o esforço do exercício (pois nunca anda de bicicleta só para se distrair), eu o observei atentamente. Sua conduta veio ferir minhas suspeitas, por manifestar um falso entusiasmo e um bom humor bastante forçado. Foi para seu quarto cedo e leu por algum tempo antes de apagar a luz. Eu dei uma boa caminhada sob o luar que iluminava como o dia, escutando a musica dos insetos noturnos nas árvores. Sentei um pouco no escuro, no parapeito de pedra na ponte sobre o Rio Negro. (Na verdade e só um córrego entre as rochas, que desce da montanha alguns quilômetros no interior da ilha, e vem desembocar na praia perto da casa.) A noite, seu ruído sempre sugere uma corrente mais volumosa que durante o dia. A musica da água contra as pedras acalmava meus nervos, embora achasse difícil entender por que eu precisava disso, a não ser que estivesse mesmo aborrecido por Racky não ter vindo almoçar. Mas se fosse verdade, seria absurdo, e sobretudo perigoso — exatamente o tipo de coisa contra a qual o pai de um adolescente deve sempre se prevenir, e resistir, a menos que seja indiferente a perspectiva de perder em definitivo a confiança e a afeição de seu rebento. Racky deve ficar fora de casa sempre que quiser, com quem quiser, e por quanto tempo quiser, e não devo hesitar a respeito disso, muito menos mencionar o assunto diante dele, ou de algum modo dar a impressão de estar me intrometendo. Falta de confiança é o pecado mortal, imperdoável, da parte de um pai.

Embora ainda tomemos juntos nosso banho de mar matutino, já faz três semanas que não andamos lado a lado de bicicleta na nossa corrida antes do café da manhã. Um dia, enquanto eu ainda nadava, vi que Racky tomava sua bicicleta com o calção molhado e partia sozinho. Desde então se estabeleceu uma espécie de acordo tácito entre nós, de que este passaria a ser o procedimento; ele iria sozinho. Talvez eu o retardasse; ele gosta de andar tão rápido na bicicleta.

O jovem Peter, o jardineiro sorridente que mora na enseada de Saint Ives, é o grande amigo de Racky. É divertido ver os dois juntos entre os arbustos, debruçados sobre um formigueiro, ou correndo na tentativa de pegar um lagarto, ambos quase na mesma idade, ainda que tão diferentes - Racky com sua pele corada parecendo branca em contraste com o negro brilhante da pele do outro. Hoje sei que vou almoçar sozinho, pois é o dia de folga de Peter. Nesses dias, eles geralmente vão de bicicleta para a enseada de Saint Ives, onde Peter tem um pequeno barco de remo. La, pescam ao longo da costa, embora nunca tenham voltado com nada até agora.

Enquanto isso fico aqui sozinho, sentado nas pedras sob o sol, de vez em quando descendo até a água para me refrescar, sempre consciente de que a casa está às minhas costas, por trás das altas palmeiras, como um grande barco de vidro repleto de orquídeas e lírios. Os criados são limpos e quietos, e o trabalho dá a impressão de ser executado quase automaticamente. Os bons criados negros parecem ser outra benção das ilhas; os britânicos, nascidos aqui neste paraíso, não tem ideia da sorte que desfrutam. Na verdade, só fazem reclamar. É preciso ter vivido nos Estados Unidos para apreciar a maravilha deste lugar. Apesar de tudo, mesmo aqui as ideias mudam todos os dias. Logo as pessoas resolverão que sua terra deve fazer parte do monstruoso mundo atual, e uma vez assim ocorra, tudo estará acabado. A partir do momento em que as pessoas tem este desejo, estão infectadas com um vírus mortal, e começam a mostrar sintomas da doença. Passam a viver nos termos do tempo e do dinheiro, e a pensar em termos de sociedade e progresso. Então tudo o que resta fazer é matar outras pessoas que pensam da mesma maneira, junto com muitas outras que não pensam assim, visto que está é a manifestação final da moléstia. Por enquanto, aqui se experimenta um sentimento de estagnação — a existência estanca, como nos últimos segundos da ampulheta quando o que sobrou da areia de repente escorre rápido para o fundo, de uma só vez. Por enquanto, tudo parece em suspenso. E se parece, é porque está. Cada onda no pé, cada pio de pássaro na floresta atrás de mim, não me arrasta um passo que seja na direção do desastre final. O desastre é certo, mas em um instante já terá ocorrido, e pronto. Até lá, o tempo permanece estático.

Estou aborrecido com uma carta que veio no correio desta manhã: o Banco Real do Canadá requisita minha presença no seu escritório central para assinar os bilhetes de depósito e outros papéis referentes a uma soma que foi transferida por cabograma do Banco de Boston. Como o escritório central fica no outro lado da ilha, a oitenta quilômetros daqui, serei obrigado a passar a noite lá e voltar no dia seguinte. Não há razão para levar Racky comigo. A vista da “civilização” pode despertar nele certos desejos; nunca se sabe. Tenho certeza de que os despertaria em mim, na idade dele. E uma vez que isso comece, seria apenas outro infeliz, pois nada há para ele senão ficar aqui ao meu lado, pelo menos durante os próximos dois anos, quando espero renovar o aluguel, ou, caso as coisas em Nova York se recuperem, comprar a propriedade. Estou enviando um recado pelo Isiah, quando for a Orange Walk está tarde, para que o carro de McCoigh venha me buscar amanhã as sete e meia da manhã. É um enorme e velho Packard aberto, e Isiah pode se eximir do cansaço da viagem de volta até o trabalho, pondo sua bicicleta no banco de trás e vindo ao lado de McCoigh.

A viagem através da ilha era uma beleza, e teria sido altamente prazerosa caso minha imaginação não me tivesse pregado uma estranha peça logo no início. Paramos em Orange Walk para reabastecer o carro, e enquanto isso era feito, fui até uma loja na esquina comprar cigarro. Como não eram ainda oito horas, a loja estava fechada, e então entrei numa rua lateral onde havia outra loja que podia estar aberta. Estava, e comprei meus cigarros. No caminho de volta para a esquina, notei uma grande mulher negra com os braços apoiados no portão diante de sua casinha, observando a rua. Quando passei por ela, olhou fixo para minha cara e disse alguma coisa com o estranho sotaque da ilha. O tom de voz parecia pouco amistoso, ostensivamente dirigido a mim, mas eu não tinha ideia do que era. Voltei para o carro e o motorista deu a partida. No entanto, o som das palavras permaneceu em minha mente, assim como uma silhueta brilhante recortada contra um fundo escuro perdura na retina, de tal modo que ao fechar os olhos ainda é possível ver o exato contorno da forma. O motor do carro já rugia na subida do morro que leva a estrada principal, quando de repente voltei a ouvir as palavras. Eram as seguintes:

— Faça seu garoto ficar em casa, moço.

Fiquei estático por um momento, ali sentado, enquanto os campos abertos passavam por mim. Por que pensar que ela havia dito isto? Imediatamente concluí que eu atribuíra arbitrariamente um sentido a uma frase que não poderia compreender ainda que estivesse com toda atenção concentrada nela. E então me pus a imaginar por que meu subconsciente teria escolhido este significado, pois agora que eu sussurrava as palavras para mim mesmo, elas não conseguiam se combinar com nenhuma das ansiedades às quais minha mente se mostrava inclinada. De fato, eu nunca pensara a respeito dos passeios de Racky em Orange Walk. Nao posso ver aí nada com que me preocupar, por mais que eu me apresente esta questão. Na verdade, será que ela realmente poderia ter dito aquelas palavras? Durante todo o trajeto pelas montanhas, meditei sobre o assunto, muito embora fosse apenas um desperdício de energia. E logo não conseguia mais ouvir o som da voz dela em minha memória: eu tocara e repetira o disco em excesso, e agora estava estragado.

Aqui no hotel está em curso um baile de gala, A abominável orquestra, compreendendo dois saxofones e um rançoso violino, toca no jardim bem embaixo de minha janela, e os casais de ar muito sério deslizam pelo concreto encerado do terraço, sob a luz de lampiões de papel amarrados em cordões. Suponho que se pretenda recriar uma atmosfera japonesa.

Neste momento tento imaginar o que Racky estará fazendo lá em nossa casa, sozinho com Peter e Ernest, o vigia, para lhe fazer companhia. Será que já esta dormindo? A casa, a qual me habituei a achar risonha e benfazeja no seu jeito arejado, até parece que se encontra na mais sinistra e remota região do planeta, agora que estou aqui. Sentado, com essa orquestra absurda balindo lá embaixo, visualizei a casa e me sinto chocado com sua vulnerabilidade e seu isolamento. Em minha mente, vejo o promontório iluminado pelo luar com as palmeiras altas oscilando sem parar no vento, seus penhascos escuros lambidos no fundo pelas ondas. Súbito, embora eu tente resistir a sensação, sinto-me inexprimivelmente feliz por estar longe de casa, lá desamparada, perdida naquele promontório, no silêncio da noite. Então me recordo que a noite raramente e silenciosa. Há o barulho do mar no pé das rochas, o zunido de milhares de insetos, os gritos ocasionais das aves noturnas — todos os ruídos familiares que tornam o sono tão profundo. E Racky está lá, cercado por eles como sempre, e sem sequer ouvi-los. Mas me sinto duramente culpado por deixá-lo lá, tornado por uma ternura e uma tristeza inexprimíveis ao pensar nele, deitado sozinho na casa com dois negros, os únicos seres humanos num raio de quilômetros. Se continuar pensando em Cold Point, vou ficar cada vez mais nervoso.

Ainda não vou deitar. Estão gritando e rindo lá embaixo, os idiotas; não ia conseguir dormir mesmo. O bar ainda está aberto. Por sorte fica no outro lado da rua, em frente ao hotel. Excepcionalmente, eu preciso de alguns drinques.

Já é bem mais tarde, mas não me sinto melhor; devo estar um pouco bêbado. O baile terminou e o jardim esta em silêncio, mas o quarto está quente demais.

Quando eu estava adormecendo, na noite passada, ainda vestido, e com a luz do teto sordidamente acesa na minha cara, ouvi a voz da mulher negra de novo, com ainda maior nitidez do que ontem no carro. Por alguma razão, está manhã, não há a menor duvida em minha mente de que as palavras que ouvi são as que ela de fato disse. Aceito o fato e tento prosseguir daí. Vamos supor que ela disse mesmo para eu manter Racky em casa. Só pode significar que ela, ou outra pessoa de Orange Walk, teve algum desentendimento infantil com ele; embora eu deva dizer que é difícil conceber que Racky pudesse entrar em algum tipo de atrito ou discussão com aquela gente. Para acalmar meu pensamento (pois sem duvida parece que tomei tudo isso muito a sério), vou dar uma parada na aldeia está tarde antes de ir para casa, e tentar achar a mulher. Estou extremamente curioso para saber o que ela quis dizer.

Até esta tarde, quando voltei para Cold Point, não havia me conscientizado de como são poderosos todos estes elementos físicos que criam a atmosfera característica do lugar: o barulho do mar e do vento que isola a casa da estrada, o brilho da água, do céu e do sol, as cores cintilantes e o forte aroma das flores, a sensação de espaço, tanto fora quanto dentro da casa. Quando se mora aqui, é fácil aceitar tudo isto. Esta tarde, ao voltar, retomei consciência destes elementos, de sua existência e de sua força. Todos juntos são como um poderoso entorpecente; voltar me fez sentir como se estivesse desintoxicado e retornasse ao cenário de minhas anteriores liberalidades. Agora, onze horas, é como se nunca tivesse me ausentado sequer por uma hora. Tudo é o mesmo que sempre foi, até o seco ramo de palmeira que resvala contra a tela da janela junto a minha mesa. E de fato, passaram-se apenas trinta e seis horas da ultima vez que estive aqui; mas eu sempre tenho a expectativa de que minha ausência provoque irremediáveis mudanças no lugar que eu deixei.

Por estranho que pareça, agora que penso nisso, sinto que algo mudou desde que parti ontem de manhã, e foi a atitude dos criados - sua aura coletiva, por assim dizer. Percebi esta diferença imediatamente ao chegar, mas fui incapaz de defini-lo. Agora entendo claramente. A rede de compreensão geral que lentamente se irradia por um ambiente doméstico bem administrado fora destruída. Agora cada um agia por si. No entanto, não havia hostilidade, ao menos que eu visse. Todos se conduziam com a máxima cortesia, talvez com a exceção de Peter, que me chocou pelo seu invulgar mau humor quando o encontrei na cozinha após o jantar. Quis perguntar a Racky se ele notara algo, mas esqueci e ele foi dormir cedo.

Em Orange Walk fiz uma breve parada oferecendo a McCoigh a desculpa de que precisava ver a costureira na rua lateral. Passei em frente à casa onde vira a mulher, mas não havia ninguém.

Quanto a minha ausência, Racky parece ter passado a contento, consumindo a maior parte do dia a nadar junto as pedras abaixo do terraço. O barulho dos insetos agora chegou a seu auge, a brisa está mais fria que de costume, e eu devo aproveitar estas condições favoráveis para uma boa noite de sono.

Hoje foi um dos dias mais difíceis de minha vida. Acordei cedo, tomamos café da manha na hora de sempre, e Racky partiu na direção da enseada de Saint Ives. Deitei no terraço para tomar sol por um tempo, ouvindo os ruídos da gestão domestica. Peter circulava por toda a propriedade, recolhendo folhas mortas e botões de flores tombados em uma cesta enorme, que descarregava numa pilha de esterco. Aparentava um estado de espirito ainda pior que na noite passada. Quando chegou perto de mim no seu trajeto para outra parte do jardim, eu o chamei. Pôs o cesto no chão e ficou me olhando: depois começou a andar pela grama em minha direção, lentamente. com certa relutância, me pareceu.

– Peter, esta tudo bem com você?

– Sim senhor.

– Nenhum problema em casa?

– Ah, não senhor.

– Bom.

– Sim senhor.

Ele voltou ao seu trabalho. Mas seu rosto traía suas palavra: Não só parecia estar num estado de ânimo decididamente azedo; a fora no sol parecia sem dúvida alguma contrariado. Contudo, não era da minha conta, se ele mesmo recusava admiti-lo.

Quando o calor do sol atingiu um ponto que eu não mais podia suportar, saí de minha espreguiçadeira e desci a encosta do penhasco pelos degraus talhados na rocha. Embaixo há uma plataforma e um trampolim, pois a água é funda. As rochas se espalham para todos os lados, e as ondas quebram por cima delas, mas junto à plataforma o paredão de rocha e vertical e a água apenas esbarra contra ele sob o trampolim. O lugar é um pequeno anfiteatro, ao abrigo do som e da vista da casa. Ali também gosto de tomar sol; quando saio da água, muitas vezes tiro o calção e me deito, completamente nu, no trampolim. Em geral brinco com Racky porque ele se sente muito embaraçado em fazer o mesmo. Às vezes faz, mas nunca sem ser persuadido por mim. Eu estava lá estirado, nu em pelo, acalentado pelas batidas da água, quando uma voz desconhecida muito perto de mim falou:

– Senhor Norton?

Virei-me de um salto, nervoso, quase caí do trampolim, e me sentei, enquanto procurava em vão pelo meu calção, que estava sobre a rocha quase aos pés de um cavalheiro mulato de meia-idade. Vestia um terno de algodão branco e colarinho alto com uma gravata preta, e me pareceu que olhava para mim com um certo grau de horror.

Minha primeira reação foi de ira, por ter minha privacidade violada dessa maneira. Levantei e apanhei o calção, vestindo-o porém com calma e sem me preocupar em dizer nada além de:

– Não ouvi você descer os degraus.

– Devemos subir? - Perguntou o visitante.

Enquanto voltávamos pela escada, ele na minha frente, tive uma firme premonição de que ele estava aqui em alguma missão desagradável. Sentámo-nos no terraço, e ele me ofereceu um cigarro americano que não aceitei.

– Este é um lugar maravilhoso — ele disse, voltando os olhos para o mar e depois para a ponta do seu cigarro, que estava apenas parcialmente em brasa. Soprou-a.

Eu disse:

– Sim - e esperei que ele prosseguisse; logo ele retomou:

– Sou da guarda-civil da freguesia. A polícia, o senhor entende.

E encarando meu rosto, acrescentou:

– Esta é uma visita amigável. Mas ainda assim deve ser tratada como uma advertência, senhor Norton. É muito sério. Se qualquer outra pessoa vier procurar o senhor para tratar disso, o problema vai se tornar grave. Por isso eu quero falar com o senhor em particular e adverti-lo pessoalmente. O senhor entende.

Eu não podia acreditar que ouvia aquelas palavras. Afinal eu disse, com voz fraca:

– Mas o que houve? Não é uma visita oficial. Não deve ficar abalado. Eu me dei ao trabalho de vir falar pessoalmente porque quero evitar que o senhor tenha problemas maiores.

– Mas já estou abalado! — Gritei, enfim encontrando minha voz. - Como posso deixar de me abalar quando não sei do que você esta falando?

Ele chegou sua cadeira mais perto de mim e falou num tom de voz muito baixo.

– Esperei até que o moço estivesse longe de casa, de modo que pudéssemos falar em particular. O senhor entende, é sobre ele.

Por alguma razão, isto não me surpreendeu. Eu balancei acabeça.

– Vou contar ao senhor de forma muito breve. As pessoas aqui são só gente simples do interior. Criam problema por qualquer coisa Agora mesmo andam todos falando sobre o moço que mora aqui com o senhor. Ele é seu filho, ouvi dizer.

Sua voz aqui ganhou um tom de ceticismo.

– Claro que ele é meu filho.

Sua expressão não se alterou, mas sua voz se ergueu indignada.

– Seja ele quem for, é um moço muito ruim.

– O que quer dizer? — Gritei, mas ele interrompeu de um modo veemente.

– Ele pode ser seu filho; pode não ser. Não me importo que ele seja. Não é da minha conta. Mas ele é mau, dos pés a cabeça. Aqui nos não temos esse tipo de coisa, senhor. As pessoas em Orange Walk e na enseada de Saint Ives estão muito zangadas. O senhor não sabe do que essa gente é capaz quando é provocada.

Achei que era minha vez de interromper.

– Por favor, explique por que diz que meu filho é mau. O que ele fez?

Talvez a sinceridade na minha voz o tenha tocado, pois seu rosto tomou um aspecto mais gentil. Ele se inclinou ainda mais para perto e quase sussurrou:

– Ele não tem vergonha nenhuma. Faz o que lhe agrada com todos os rapazes, e homens também, e lhes dá um shilling para que não contem nada. Mas eles contam. Claro que contam. Cada homem num raio de trinta quilômetros para cima e para baixo da costa sabe quem ele é. E as mulheres também, elas sabem tudo a respeito disso.

Houve um silencio.

Senti que eu, durante os últimos segundos, estivera me preparando para me por de pé, pois desejava ir para o meu quarto e ficar sozinho, longe daquele escandalizado sussurrar de teatro. Acho que balbuciei:

– Bom dia.

Ou então:

– Muito obrigado.

E lhe dei as costas, seguindo para a casa. Mas ele continuou ao meu lado, ainda sussurrando nos meus ouvidos como um conspirador fervoroso:

– Mantenha o moço em casa, senhor Norton. Ou mande-o de volta para a escola, se é seu filho. Mas faça que ele fique longe das aldeias. Pelo bem dele.

Apertei sua mão e fui me deitar na cama. Dali, ouvi a porta de seu carro bater, e partir. Eu sofria no esforço de formular uma frase clara que pudesse usar ao conversar com Racky sobre o caso, sentindo que essa frase clara definiria minha posição. O esforço não passava de uma espécie de ação terapêutica, a fim de evitar a ideia da coisa propriamente. Qualquer atitude parecia impossível. Não havia jeito de abordar o assunto. Subitamente me dei conta de que nunca seria capaz de falar abertamente com ele sobre isso. Com o advento dessa notícia, ele havia se tornado outra pessoa, um adulto, temível e misterioso. Para dizer a verdade, passou pela minha cabeça a possibilidade de que a historia do mulato fosse falsa, mas automaticamente rejeitei esta possibilidade. Era como se eu quisesse acreditar, quase como se eu já soubesse, e tivesse apenas obtido a confirmação.

Racky voltou ao meio-dia, ofegando e sorrindo. O inevitável pente surgiu e foi usado nos cachos do cabelo suado e em desordem. Sentando-se para almoçar, ele exclamou:

– Nossa! Que praia incrível eu achei esta manhã! Mas que trabalho para chegar lá!

Eu tentei parecer desinteressado ao encontrar seus olhos; era como se nossas posições se tivessem invertido, e eu procurasse ganhar confiança para refrear suas críticas. Ele ficou tagarelando sobre espinhos e plantas rastejantes e seu facão de mato. Durante toda a refeição, eu repetia para mim mesmo: “Agora é o momento. É preciso dizer alguma coisa.” Mas tudo que eu dizia era:

– Quer mais salada? - Ou:

– Prefere sua sobremesa agora?

Então o almoço passou e nada aconteceu. Depois de tomar o café, fui para o meu quarto e me olhei no amplo espelho. Vi meus olhos tentando transmitir um pouco de coragem a seus irmãos refletidos. Enquanto estava lá, ouvi alguma confusão na outra ala da casa; vozes, batidas, o barulho de uma briga. Acima dos ruídos, elevou-se a penetrante voz de Gloria, imperiosa e excitada:

– Não, homem! Não bate nele! Peter, não, homem!

Desci rapidamente para a cozinha, de onde parecia vir o tumulto, mas no caminho esbarrei com Racky, que cambaleava na entrada com as mãos cobrindo o rosto.

– O que foi, Racky? - Gritei.

Ele me empurrou e foi para a sala de estar sem retirar as mãos do rosto; virei-me e fui atrás dele. De lá, ele foi para seu próprio quarto, deixando a porta aberta atrás de si. Ouvi o ruído de água correndo no banheiro. Fiquei indeciso. De repente Peter apareceu na porta do corredor, com o chapéu na mão. Quando ergueu a cabeça, fiquei surpreso ao ver que sua bochecha sangrava. Nos olhos havia uma expressão confusa, estranha, de um temor momentâneo e uma profunda hostilidade. Baixou os olhos outra vez.

– Podia por favor falar com o senhor?

– O que foi todo esse barulho? O que está acontecendo?

– Posso falar com o senhor lá fora? - Ele perguntou obstinadamente, ainda sem levantar os olhos.

Em vista das circunstâncias, fiz sua vontade. Caminhamos lentamente pela estrada de cinzas vulcânicas até a estrada principal, através da ponte e da floresta, enquanto ele me narrava sua historia. Eu nada dizia.

– E então ele declarou:

– Eu nunca quis, senhor. Mesmo da primeira vez. Mas depois da primeira vez eu fiquei com medo, e o senhor Racky me perseguia todo dia.

Fiquei parado e, afinal, disse:

– Se você me tivesse contado da primeira vez que aconteceu, teria sido melhor para todos.

Ele girou o chapéu nas mãos, examinando-o atentamente.

– Sim, senhor. Mas até hoje eu não sabia o que todo mundo andava falando dele em Orange Walk. O senhor sabe que sempre vou à praia na enseada de Saint Ives com o senhor Racky nos meus dias de folga. Se eu soubesse o que todo mundo anda falando, eu não teria medo. E eu queria manter meu emprego aqui. Eu preciso do dinheiro.

Então repetiu o que já dissera três vezes.

– O senhor Racky disse que se o senhor descobrisse eu ia para a cadeia. Sou um ano mais velho que o senhor Racky, senhor.

– Eu sei, eu sei - disse com impaciência. E concluindo que o que Peter esperava de mim naquele momento era severidade, acrescentei:

– É melhor você pegar suas coisas e ir para casa. Você não pode mais trabalhar aqui, você sabe.

A hostilidade em seu rosto assumiu proporções assustadoras quando disse:

– Se o senhor me matasse eu não trabalharia mais em Cold Point.

Virei-me e segui com presteza para casa, deixando-o ali parado na estrada. Parece que ele voltou ao entardecer, agora ainda há pouco, e apanhou seus pertences.

Em seu quarto, Racky lia. Pusera um esparadrapo no queixo e na maça do rosto.

– Demiti Peter — anunciei. - Ele bateu em você, não foi?

Ele ergueu os olhos. Seu olho esquerdo estava inchado, mas ainda não estava preto.

– Bateu sim. Mas eu também acertei uma nele. E acho que eu merecia mesmo apanhar, de qualquer jeito.

Recostei-me na mesa.

– Por quê? — Perguntei de um modo casual.

– Ah, eu sabia uma coisa sobre ele, de muito tempo atrás, e ele tinha medo que eu contasse a você.

– E só agora você ameaçou me contar?

– Ah, não! Ele disse que ia se demitir do emprego aqui, e eu brinquei com ele sugerindo que era por covardia.

– Por que ele quis ir embora? Pensei que ele gostava do emprego.

– Bem, gostava sim, eu acho. Mas não gostava de mim.

O olhar cândido de Racky traía uma sombra de ressentimento. Eu ainda estava recostado na mesa. E insisti:

– Mas eu pensei que vocês dois fossem bons amigos. Pareciam se dar bem.

– Nada. Ele estava apenas apavorado com a possibilidade de perder o emprego. Eu sabia uma coisa sobre ele. Mas ele era um bom sujeito; eu gostava dele. - Fez uma pausa. — Ele já se foi?

Um estranho tremor se insinuou em sua voz ao dizer as últimas palavras, e eu compreendi que pela primeira vez até então a impecavel encenação de Racky não se coadunava com a ocasião. Ele estava muito perturbado por ter perdido Peter.

– Sim, já foi — respondi rápido. - E também não vai voltar.

Racky, ao ouvir o meu tom de voz pouco comum, virou para mim seus olhos jovens nos quais vislumbrei uma frouxa perplexidade. Compreendi que era o momento de pressioná-lo, e dizer:

– O que você sabia a respeito de Peter?

Mas como se ele tivesse alcançado o mesmo ponto do meu pensamento uma fração de segundo antes, Racky retirou de mim a vantagem saltando da cama, entoando uma canção aos brados, e despindo toda sua roupa ao mesmo tempo. Quando ficou diante de mim, nu, cantando a plenos pulmões, e enfiou os pés no seu calção de banho, tomei consciência outra vez de que eu seria incapaz de dizer a ele o que deveria dizer.

Entrou e saiu da casa a tarde inteira: uma parte do tempo, ficou lendo no quarto, e a maior parte dele passou no trampolim. É um comportamento estranho para ele; daria tudo para saber o que se passa em sua mente. À medida que a noite se aproximava, meu problema assumia um caráter puramente obsessivo. Andava de um lado para outro no meu quarto, sempre parando numa extremidade para olhar o mar pela janela, e na outra para fitar meu próprio rosto no espelho. Como se isso pudesse me ajudar! Então tomei uma bebida. E outra. Achei que talvez eu fosse capaz de falar durante o jantar, revigorado pelo uísque. Mas não. Logo ele teria ido para a cama. Não que eu pretenda confrontá-lo com uma serie de acusações. Isto eu sei que nunca poderei fazer. Mas devo encontrar um modo de impedir suas escapadas, e devo dar uma razão para isso, de modo que ele nunca venha a suspeitar de nada.

Nós tememos pelo futuro de nossos rebentos. E ridículo, mas um ridículo apenas um pouco mais palpável que tudo o mais na vida. Passou um certo tempo; dias que estou contente por ter vivido mesmo que agora tenham terminado. Acho ter sido esse o período que sempre esperei que a vida me proporcionasse, a recompensa que inconscientemente, mas inabalavelmente, esperava, em troca por ter sido submetido e pressionado tão duramente sob as garras da existência por todos esses anos.

Esta noite parece ter sido há muito tempo, pois rememorei seus detalhes tantas vezes que veio a tomar as feições de uma lenda. Na realidade meu problema já fora solucionado naquele mesmo momen­to, embora eu não soubesse disso. Como eu não podia perceber as linhas gerais da questão, imaginei estupidamente que deveria quebrar a cabeça em busca das palavras corretas para abordar Racky. Mas foi ele que veio até mim. Nessa mesma noite, quando eu me preparava para dar uma volta sozinho, coisa que eu supunha poder me ajudar a encontrar uma formula, ele apareceu na minha porta.

– Vai andar um pouco? - Ele perguntou, notando o bastão em minha mão.

A perspectiva de sair imediatamente após ter falado com ele fez as coisas parecerem mais simples para mim.

– Vou — respondi. — Mas antes queria ter uma conversa com você.

– Claro. O que foi?

Não olhei para ele, pois não queria ver a luz alerta que eu tinha certeza de encontrar no seus olhos naquele momento. Enquanto falava, eu batia com meu bastão nos desenhos que os azulejos formavam no pavimento.

– Racky, você gostaria de voltar a escola?

– Você está brincando? Sabe que detesto a escola.

Olhei para ele.

– Não, não estou brincando. Não fique tão horrorizado. Você provavelmente vai adorar estar em companhia de pessoas de sua idade. (Este não era um dos argumentos que planejara usar.)

– Posso gostar de ficar com caras da minha idade, mas não quero ter de ir a escola para isso. Já tive bastante escola na vida.

Fui ate a porta e disse, sem muita convicção.

– Pensei que fosse ganhar sua adesão.

Ele riu.

– Não, obrigado.

– O que não significa que você deixará de fazer o que eu disse. — Falei por cima do ombro ao sair.

Durante meu passeio, martelava o asfalto da estrada com o bastão, e me vi parado na ponte, assaltado por visões dramáticas envolvendo toda sorte de imprevistos antes de nossa mudança para os Estados Unidos, Racky levando um tombo feio da bicicleta e ficando paralisado durante alguns meses, e até a possibilidade de eu deixar os acontecimentos seguirem seu curso, o que sem duvida significaria a necessidade de eu ter de visitá-lo de vez em quando na prisão governamental, para levar comida e presentes, se não sobrevivesse nada mais trágico ou violento. “Mas nada disso vai acontecer”, eu disse para mim mesmo, e sabia que estava desperdiçando um tempo precioso; ele não deve voltar a Orange Walk amanhã.

Voltei para o promontório a passos de tartaruga. Não havia lua e a brisa era muito pouca. Quando me aproximava da casa, tentando pisar de leve nas cinzas vulcânicas a fim de não acordar o vigia Ernest e ter de explicar que era eu, notei que não havia luz no quarto de Racky. A casa estava escura, exceto pela luz fraca na minha mesa-de-cabeceira. Em lugar de entrar, contornei todo o prédio, chocando-me com os arbustos e grudando o rosto em teias de aranha, e fui sentar um pouco no terraço onde me pareceu correr uma aragem. O barulho do mar vinha de algum ponto além do penhasco, onde as ondas quebravam suspirando. Aqui embaixo, só havia vez por outra um leve burburinho de água. A maré estava mais baixa que o normal. Fumei três cigarros mecanicamente, tendo deixado até de pensar, e então. com um gosto amargo de fumaça na boca, entrei.

Meu quarto estava abafado. Larguei minhas roupas na cadeira e olhei para a mesa-de-cabeceira, a fim de verificar se a moringa de água ainda estava lá. Então minha boca abriu. A colcha da minha cama fora puxada. Na extremidade da cama, numa linha escura contra a brancura do lençol, jazia Racky, adormecido de lado, e nu.

Fiquei olhando para ele um longo tempo, provavelmente contendo o fôlego, pois me lembro de ter sentido uma tonteira a certa altura. Eu sussurrava para mim mesmo, enquanto meus olhos seguiam a curva de seu braço, ombro, costas, quadris, pernas: “Uma criança. Uma criança.” O destino, quando é visto com clareza e de muito perto, é desprovido de qualidades. O seu reconhecimento e a consciência da nitidez da visão não deixam espaço no horizonte da mente. Por fim apaguei a luz e deitei-me num movimento suave. Anoite era completamente escura.

Ele permaneceu numa quietude absoluta até o nascer do sol Nunca vou saber se ele estava ou não realmente adormecido todo esse tempo. Naturalmente não poderia estar, e apesar disso ficou imóvel Quente e firme, mas imóvel como um morto. A escuridão e o silêncio ao nosso redor eram pesados. A medida que os pássaros começaram a cantar, afundei num torpor suave e aconchegante; quando acordei mais tarde com a luz do sol, ele havia saído.

Encontrei-o na água, brincando sozinho no trampolim; pela primeira vez, ele despira o calção sem que eu o sugerisse. Por todo o dia ficamos juntos, entre o terraço e as rochas, conversando, nadando, lendo, ou apenas deitando para tomar sol. Ele não voltou para seu quarto quando anoiteceu. Em lugar disso, depois que os criados foram dormir, trouxemos três garrafas de champanha para meu quarto e pusemos o balde de gelo na mesa-de-cabeceira.

Então, por fim, eu me vi capaz de tocar no assunto delicado que ainda me preocupava, e, tentando tirar proveito da nova situação de entendimento entre nós, fiz minha solicitação da maneira mais fácil e natural.

– Racky, você me faria um enorme favor, se eu lhe pedisse?

Ele deitou-se de costas, as mãos sob a cabeça. Seu olhar pareceu-me cauteloso, destituído de franqueza.

– Acho que sim — ele disse. — O que é?

– Você podia permanecer nas imediações da casa por alguns dias... digamos, uma semana? Só para minha satisfação? Podemos dar passeios de bicicleta juntos, tão longe quanto você quiser. Faria isso por mim?

– Claro que sim — respondeu sorrindo.

Eu estava contemporizando, mas me sentia desesperado.

Talvez uma semana depois - (só quando alguém não se sente plenamente feliz dedica uma atenção tão minuciosa ao tempo, portanto pode ter sido um pouco mais ou um pouco menos) — estávamos tomando o café da manha. Isiah permanecia de pé, na sombra, esperando para nos servir mais café.

– Notei que você recebeu uma carta do tio Charley outro dia — disse Racky. — Não acha que devíamos convidá-lo para vir aqui?

Meu coração começou a bater com força.

– Aqui? Ele ia odiar — eu disse em tom casual. — Além disso, não ha espaço. Onde dormiríamos?

No momento mesmo em que eu ouvia essas palavras, sabia que eram as palavras erradas, que eu não estava de fato tomando parte da conversa. De novo senti a fascinação do completo desamparo que assalta quem se torna, de súbito, um espectador consciente do perfil de seu destino.

– No meu quarto - respondeu Racky. — Está vazio.

Neste momento, pude vislumbrar uma extensão do traçado do destino que nunca suspeitara existir.

– É absurdo - eu disse. - Não é o tipo de lugar para o tio Charley.

Racky deu a impressão de ter tido uma ideia brilhante.

– Talvez se eu escrevesse e o convidasse – ele sugeriu, fazendo sinal para Isiah lhe servir mais café.

Absurdo — eu disse outra vez, contemplando ainda mais uma parte do traçado que se revelava, como uma figura em um papel fotográfico que gradualmente vai se tornando mais nítida, mergulhada na bandeja com liquido revelador.

Isiah encheu a xicara de Racky e voltou para a sombra. Racky bebeu lentamente, fingindo saborear o cafe.

– Bem, não vai fazer mal algum experimentar. Ele vai apreciar o convite — ele disse, como quem especula.

Por alguma razão, nesta conjuntura eu soube o que devia dizer, e quando o disse, sabia o que eu viria a fazer.

– Acho que devíamos viajar para Havana durante alguns dias semana que vem.

Ele pareceu cautelosamente interessado, e então abriu um largo sorriso forçado.

– Formidável! — Gritou. - Para que esperar a semana que vem?

Na manhã seguinte os criados acenavam para se despedir de nós, enquanto partíamos pela estrada de cinza vulcânica no carro de McCoigh. Decolamos do aeroporto às seis horas da tarde. Racky estava muito animado; conversou com a aeromoça todo o tempo ate Camaguey.

Ele ficou encantado com Havana. Sentados no bar do Nacional continuamos a discutir a possibilidade de C. nos fazer uma visita na ilha. Não foi sem dificuldade que cheguei a persuadir Racky de que escrever para seu tio seria desaconselhável.

Decidimos procurar um apartamento para Racky bem aqui em Vedado. Ele não parecia interessado em voltar para Cold Poinl Decidimos também que, morando em Havana, ele necessitaria de uma receita maior que a minha. Já estou tratando de transferir a maior parte da herança de Hope para o nome dele, sob a forma de um fundo de crédito que eu deverei administrar até que ele atinja a maioridade Afinal, era o dinheiro de sua mãe.

Compramos um novo conversível, e ele o dirigiu para me levar até Rancho Boyeros quando fui pegar meu avião, Um cubano chamado Claudio, com dentes muito brancos, a quem Racky havia conhecido na piscina naquela manhã, veio sentado entre nós.

Esperávamos diante do campo de pouso. Um funcionário soltou a corrente para que os passageiros pudessem passar.

– Se você se aborrecer, venha para Havana - disse Racky, apertando meu braço.

Os dois ficaram juntos atrás da corda, acenando para mim, suas camisas sacudindo com o vento enquanto o avião manobrava para decolar.

O vento bate na minha cabeça; entre uma onda e outra há milhares de minúsculos sons de água espirrando e engolindo enquan­to o mar escoa pelas gretas e furos das rochas; e o sentimento, em parte submerso, em parte na superfície, de estar na água assedia minha mente mesmo quando o sol quente queima meu rosto. Sento-me aqui e leio, e aguardo que a deliciosa sensação de saciedade que vem após uma boa refeição se transforme, à medida que as horas passem, em uma outra sensação ainda mais deliciosa, que com um leve arrebatamento interior nos comove, e que acompanha o despertar do apetite.

Na realidade, estou plenamente feliz aqui, pois ainda acredito ser muito pouco provável que algo drástico possa sobrevir nesta parte da ilha, num futuro próximo.

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