Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

25 de mai de 2017

Nunca antes na história deste país... (Avô & Neto em simplismos políticos), por Véio China

Nunca antes na história deste país... (Avô & Neto em simplismos políticos)

-Vô, sabe, ouvi dizer lá na escola que a presidente foi terrorista. Se foi terrorista, como pode ser nossa presidente? – Pergunta o garoto, talvez uns 13 ou 14 anos.

Sobre o menino podemos considerar que é um desses como muitos que andam por aí, e que estão numa fase de desinteresse pelo futebol, entretanto antenados e de olhos bem abertos para as garotas na escola, o Facebook, e surpreendentemente, no universo político tupiniquim, talvez até pelo fator "Black Blocs" o qual, sem discernimentos diz achar  "movimento firmeza”

-Inácio, leve a mal não, mas não acha que és muito garoto para tanto interesse político? – Questiona o avô ao olhá-lo firmemente nos olhos.

-Assim, sabe vô, lá na nossa classe a dona Izilda estava falando sobre a vida de Che Guevara, e a professora disse que o PT e a presidente tem tudo tem a ver com ele, pois todos militaram na esquerda. Perguntei a ela o que era ser de esquerda, direita, e ela explicou, portanto me interessei.

-Eita! E por que esse interesse repentino por esquerda, direita, e ainda mais pela dona Vilma? – O avô insiste, surpreso.

-Ah vô, nem é tanto o interesse por ela, pois do jeito que o pessoal mete o pau nela no Face, acho que deve ser por não estar fazendo grande coisa pelas pessoas....

-Hum, entendi...então vocês acham que ela não está lá fazendo aquelas coisas...sei. Mas, me diga Inácio, lá na tua escola estudam a política nacional?

-Ah vô, não! Não há aula falando de política não. É que a dona Izilda parece ser plugada nesses lances e gosta de descer o pau no governo. Sabe, gosto dela!

-Hum, e é bonita a sua professora de história?

-Eee vô! Tu sempre querendo saber se as mulheres são bonitas! Certo, o que posso dizer é que ela é  de geografia, e que também é meio barrilzinho, mas tem uns olhos azuis maravilhosos!

-Eita! Dos olhos azuis, além de ser gordinha  até que entendi, mas, como assim... professora de geografia? – Surpreende-se o velho.

-Uai, como assim....ora! geografia, vô...Ge o gra fi a! - O fedelho responde separando as sílabas

-Nossa, que coisa! Imagino então que nas aulas de história vocês aprenderão sobre o curso do Rio Amazonas, o quanto é pitoresco o Sena, e ainda as rotas das pirâmides no Egito. Pelo amor de Deus, o ensino neste país tá de brincadeira! O que pode ter a ver o cu com as calças? – O velho resmunga demonstrando seu descontentamento com a qualidade dos professores do país.

-Ô vô, vê se não me enrola! Para com esse papo sobre rios e rotas e me diga; A presidente Vilma foi ou não foi terrorista? – O garoto insistiu na pergunta. O velho o olha aturdido; Que assunto chato fui me meter! – Ruminou em pensamento. Depois muniu-se de alguma coragem e seguiu adiante.

-Assim meu filho, vamos por parte. Primeiro, a presidente não foi terrorista, mas, revolucionária, guerrilheira, apesar de muitos verem terrorismo nas atitudes tomadas por aqueles grupos. Claro, naquele tempo ela jamais se imaginou detentora de algum poder, afinal as esquerdas não tinham voz e nem vez no país... – O velho relata. Entretanto, antes mesmo de terminar as suas falas é bruscamente interrompido pelo neto.

-Uai, como é que pode isso, vô? Uma esquerda ser fraca e eleger um presidente? – O menino questiona de olhos arregalados –

O avô o olha e coça a cabeça e murmura entre dentes. “E agora José, como explicar isso pra esse fedelho curioso que o curso da história mudou?” – Depois decide; “Já que entrei no jogo não é justo deixa-lo na metade. Decide antes de disparar suas costumeiras metáforas.

-Bom...é que no meio do caminho surgiu um barbudinho que encantou a mídia e os intelectuais desse país. Já ouviu falar sobre uma poesia de Drummond, chamada “No meio do caminho?”

-Ah, já sim, vô! Aquela que diz  " E agora José/A festa acabou/A luz apagou" A professora de matemática vive recitando essa daí e muitos outros poemas.

-Hum...professora de matemática recitando "José"? – Outra vez o velho se surpreende, primeiro, pela confusão do garoto ao vê-lo referir-se a outro poema do imortal Drummond. Segundo, porque também não entendia a mestra de matemática ministrando aulas de literatura no lugar daqueles, para ele, incompreensíveis cálculos.

-É sim, vô! Ela é a nossa professora de matemática! - O garoto confirma

-Tá certo, Inácio. Apesar de você não estar se referindo ao poema que mencionei, confesso, o efeito é praticamente o mesmo. Portanto pegue a "No meio do caminho tinha uma pedra/Tinha uma pedra no meio do caminho" e substitua a palavra pedra e no seu lugar coloque“barbudinho” e aí sim terá uma poesia política afeita ao nosso tempo.

-Ta bom vô, vamos ver como fica; "No meio do caminha tinha um barbudinho/Tinha um barbudinho no meio do caminho" – O garoto ouve o som da própria frase. Porém, repentinamente o sobressalta: Mas...epa! O que pode ter a ver entre o barbudinho, o poder e a pedra? – Protesta o garoto num espanto que se fez cristalino.

- A princípio, nada, Inácio. É apenas brincadeira minha. Já reparou como um dos seus nomes é idêntico ao do barbudo? De diferente só o Ruis e o Nilva? – O velho compartilha num tom professoral.

-Ah é mesmo vô! Quem ainda não ouviu falar no nome de Ruis Inácio da Nilva? – O menino consente.

-Sim, mas voltando ao assunto o fato é que esse barbudinho se tornou conhecido nacionalmente por Tula. Ele foi um obstinado, e  mesmo semi analfabeto já lhe sentíamos o dom da esperteza, pois sabia estar na mídia como ninguém, inclusive, evidência que se deu na conta dos levantes da classe metalurgica, isso no ABC, e em plena década de 70.

-Mas, o que ele pretendia, vô? – Evidente, o garoto se mostrava interessadíssimo pelo assunto.

- O que posso dizer Inácio, é que à época ele brigava por melhores salários, direitos e melhores condições de trabalho.

-Nossa vô, então podemos concluir que ele foi um sujeito corajoso?

-Podemos sim Inácio! Pra falar a verdade, esse barbudinho foi um osso duro de roer, um grevista de mão cheia que lotava os estádios com as assembleias que promovia com a sua classe.

-Ah, que legal! O vô, é verdade que Tula não tem um dos dedos?

-É verdade sim Inácio. Inclusive sobre ele contam algumas línguas que ele decepou propositadamente o dedo numa prensa da fábrica onde trabalhava.

-Como assim vô, quem seria louco de cortar o próprio dedo? Mas... por que ele faria isso? – O garoto questiona intrigado.

-Bem, nem eu sei, pois com ele parece que tudo sempre foi e será possível – O velho devolveu num tom tão sarcástico que acabou por gerar dúvidas no guri.

-Ô vô, te conheço, né! Para de esconder o ouro de mim! – Ele olhava firmemente para o avô, e como esse nada respondeu, continuou -

-Sabe, a minha professora revelou que admirava muito esse tal de Tula, mas que agora não admira mais. Ela diz que ele traiu diversas promessas e princípios que fizeram ele chegar no poder. Ela disse ainda mais... Disse que hoje ele posa dando tapinhas nas costas de parceiros políticos, pessoas que no passado sempre alcunhou de corruptas e que lesavam o Brasil.

-Pois é Inácio. Assim como a tua professora há milhões de brasileiros que tem a mesma impressão sobre ele, e não são poucos os que não suportam nem que lhes digam o nome.

-Tô sabendo vô! – O guri respondeu divertido – Sabe, tenho um colega de classe que disse que o vô dele contou que à época muita gente tinha medo do barbudinho, e que os militares pregavam que ele seria capaz de comer criancinhas vivas, se essas dessem moleza! Cada louco, né vô? – O menino finalizou num riso divertido.

-Então, Inácio, foi mais ou menos isso. É que à época tanto a direita como o centro morriam de medo dele. Bem, mas isso não importa, e o que a história conta é que que ele acabou se elegendo e se tornou o nosso presidente.

-Caraca vô, então esse tal de Lula era um sujeito porreta, mesmo!

-Era sim, Inácio. E me lembro do dia da sua posse, e foi uma tarde de muitas festas, e o povo saiu à rua, pois pela primeira vez um homem do povo, miserável, se tornava o presidente do Brasil.

- E o senhor, vô? Acha que ele foi um bom presidente? –

-O que posso responder? Assim, diria que fez alguma coisa pelas pessoas mais carentes. Entretanto, a partir do 2º ano do seu governo começou a mostrar suas verdadeiras intenções ao lutar tenazmente contra tudo que defendeu. Inclusive contra o plano vigente das aposentadorias. Sobre isso ele modificou prazos, estendeu contribuições, faixas etárias.

-Nossa vô! Fale numa língua que eu possa entender, né! Mas, em todo o caso, e se foi o que entendi, é muito doido isso de ser trabalhador e lutar contra os interesses do próprio trabalhador? – O garoto raciocinou alarmado

-Então Inácio, foi assim mesmo. Ah, ele também sempre foi fã de aviões e viagens, inclusive fez a União comprar aviãozinho que nos custou os olhos da cara! - O velho respondeu indignado.

- Epa, espera, to me esquecendo de contar algo bobo...O Tula adorava entornar umas branquinhas.
Dizem que foi sob o efeito do álcool que pretendeu expulsar do país um jornalista estrangeiro que o taxou de alcoólatra. Entretanto, fora as cachaças procedeu algumas medidas no âmbito social, estendendo bolsas esmolas para uma legião de miseráveis, aliás, ideia que nem do seu governo partiu,  mas do anterior.
Mas foi aí que demonstrou o quanto era sabichão ao perceber que seria ali onde se concentraria o poder de barganha com um povo sofrido. E essa barganha é que os mantém no poder até hoje, já que ganham as eleições às custas da miséria e das esmolas dadas aos miseráveis.

-Puxa vô! É verdade isso?

-É sim. Quem olha de fora seria capaz de imaginar que isso traz felicidade e bem estar para esse povo. É mentira, não traz, pois não há planos para a educação  e nem oportunidades pera eles, infelizmente! Claro, é de pura demagogia, pois ele sempre soube que jamais resolveria a questão da pobreza, assim como a educação, saúde e moradia. Portanto criou esses auxílios esmolas e os distribuiu aos milhões para essas pessoas. E todos sabemos que foi golpe eleitoreiro para se perpetuar no poder, pois para os miseráveis qualquer quantia é uma benção.

-Poxa, que sujeito esperto, eim vô? – O garoto sorri.

-Sim, espertíssimo! Entretanto ele decepcionou as pessoas que detém algum grau de conhecimento, brasileiros que, como eu acreditaram piamente em suas promessas dum governo comprometido com moralidade, e à caça de corruptos e corruptores. E a maior das verdades é que, lamentavelmente o barbudo não combateu aqueles que assaltaram o povo, ao contrário, parece ter se aliado a eles, cerrando os olhos para isso e pra quilo, para depois, mesmo que descobertos os golpes implantados por seu guru político, ter a coragem de vir a nação e confessar que foi traído e de que nada sabia. Foi lamentável o fato.

-Uauu, que bacana! Gostei do esquemão! Um presidente que nada sabe deve ser um cara fantástico! Bem que poderia ser assim na escola, né?

-Como assim Inácio, não entendi! Explique melhor. –

-Assim vô; Quando há prova oral e fico com cara de besta ao não ter a resposta para certas perguntas. E assim sou obrigado a ouvir o riso dos que se julgam mais inteligentes,e eles me chamam de burro na cara dura, de toupeira, e essas coisas assim. Portanto seria bacana logo ir dizendo; Professora, eu nada sei! E todos me olhariam compreensivos diante a manifestação da professora, numa coisa tipo assim; Nossa, que bom, Inácio! Parabéns, você nunca sabe de nada, estamos orgulhosos de você! –  O menino respondeu de forma matreira, e ambos se olhando, sorriram e depois gargalharam. Amainado os risos o velho prosseguiu:

-Pois é Inácio, esse foi o mandatário que se julgou traído, aliás, traição e traidores que trabalhavam na sala ao lado da sua, ali bem diante de sua barba grisalha! E foi esse o pessoal que implantou pagamentos, uma espécie de“mensalão” para os políticos que votassem na Câmara de acordo com os interesses do governo  petista.

-Nossa vô, que trama incrível - Novamente interrompe o garoto. Depois continua: -Merecia um filme isso! – Mas, o que acabou acontecendo com esse pessoal, vô? – Intrigado o garoto questionou.

-Bem...o esquema foi descoberto porque um desses políticos parece não ter recebido o que lhe prometeram, e então ele botou a boca no trombone. Depois que o escândalo estourou, o traidor da sala ao lado, junto de muitos outros pegos com a boca na botija foram julgados e condenados pela mais alta corte da justiça nacional. Entretanto, com uma nova composição de ministros os quadrilheiros conseguiram um novo julgamento e O STF absolveu alguns da acusação de formação de quadrilha. Entendeu?

-Eu não, vô! Não entendi muito bem esse negócio de “quadrilha” ser absolvida pelo crime de “formação de quadrilha” Isso não me pareceu nada lógico. E outra, nem sei o que quer dizer esse ST e mais alguma coisa, esse que o senhor acabou de se referir.

-Ah, é a sigla do Supremo Tribunal Federal. Como eu disse, é um colegiado que reúne diversos juízes, e eles se tornam ministros e são nomeados pelo presidente da república. No caso do novo julgamento, e sobre a sentença absolvendo os apontados por “formação de quadrilha” aconteceu o fato dos dois novos juízes serem recentemente nomeados pela presidente Vilma. Muitos afirmam que houve "mutreta" neste novo julgamento, inclusive apontando que um dos novos empossados  recebeu uma nota preta por assessoria prestada a União. Portanto, os novos membros votaram à favor da absolvição, tornando sem efeito o julgamento anterior, e no qual haviam sido condenados.

-Nossa vô! Que rolo é esse negócio de Poder! –

-Pois é, Inácio. Pois é! – O velho solta os braços em sinal de desânimo.

-Poxa vida vô, agora to percebendo como parte das coisas andam nesse país. Acho que eu também ficaria decepcionado.

-Exatamente Inácio, Eu fiquei e muitos outros ficaram! Porém coisas estranhas acontecem diariamente nesse  Brasil. Não te espantes, ainda verás muito disso na tua jornada e nesta terra onde canta o sabiá. Ah,e por falar em coisas estranhas...por acaso você não pretende montar uma pequena empresa, sem capital, talvez até na área da informática? E por que não uma empresa onde nada se cria, nada fabrica? Empresa onde não há empregados, escritório, endereço fixo e clientes. Empresa onde verdadeiramente não haverá nada, mas que poderemos vender por milhões e milhões de reais para uma eventual compradora, quem sabe  uma concessionária do setor das telecomunicações. Sabe, Inácio, uma coisa te garanto; Ficaremos milionários do dia pra noite! Topas?

-Uauuu! Claro que topo vô! Mas... é possível uma barbada dessa? – O garoto pergunta entusiasmado.

-Aqui é totalmente possível! Sabe, Inácio, pressinto coisas boas para você. Acho que você ainda nem sabe, mas ainda serás o bambambã nos negócios de nossa família.
E não te impressiones se um dia tiveres que limpar merda de girafa num zoológico qualquer. Não te impressiones mesmo! Tudo, tudo, tudo será transitório, acredite em mim! - O velho se entusiasma, antes mesmo de desferir o bordão fatal.

-Tu Inácio, tu és um gênio, Inácio e serás o nosso "Neymar" nos negócios!


Copirraiti12Mar2014
Véio China©

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