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11 de mai de 2017

PRESSUPOSTOS E SUBENTENDIDOS

PRESSUPOSTOS E SUBENTENDIDOS


Pressuposição
 
 
É indiscutível que a escola é o lugar privilegiado para auxiliar os alunos na leitura de pressupostos. Mas, o que são pressupostos? Veja-se o seguinte exemplo prático: 
 
“Ademir parou de beber.”   Para se aceitar o fato de Ademir ter deixado de beber, toma-se, como verdadeira, outra informação que, embora não dita na frase, é logicamente pressuposta pelo verbo parar de, ou seja, se Ademir parou de beber, é porque antes ele bebia. Por outro lado, a informação deixa de ser válida se Ademir nunca bebeu. Dessa feita, o Novo Dicionário Aurélio (Ferreira, 1986) assim define pressuposto:  “circunstância ou fato considerado como antecedente necessário a outro.”             De forma mais abrangente, Ilari e Geraldi (1994: 90) explicam que a pressuposição é um “conteúdo implícito, sistematicamente associado ao sentido de uma oração, tal que a oração só pode ser verdadeira ou falsa se o conteúdo em questão for reconhecido como verdadeiro”.
 
No exemplo citado acima, percebe-se que a pressuposição lógica ou semântica é parte do conhecimento partilhado pelo falante e pelo ouvinte. Assim, diz-se que sua noção é relacionada ao sentido das palavras inscritas no enunciado, mas também, como diz Cançado (2005: 27-28), “a um conhecimento prévio, extralinguístico, que o falante e o ouvinte têm em comum”; portanto, de acordo com a autora , “pode-se dizer que a pressuposição é uma noção semântico-pragmática.” Dessa feita, o conteúdo pressuposto “Ademir bebia antes”, já que conhecido pelos interlocutores para ser proferido, não é afetado, permanece inalterado quando esse enunciado é negado, ou é colocado em forma de interrogativa, ou mesmo como uma condicional (suposição) antecedendo outra sentença:  a) Ademir parou de beber;  b) Ademir não parou de beber;  c) Ademir parou de beber?;  d) Se Ademir parou de beber, sua esposa deve estar contente.
 
O pressuposto, pois, faz sentido em qualquer uma dessas situações, ainda que modifiquem sua forma sintática.
 
Ao analisar as relações de sentido em enunciados, algumas palavras ou expressões introduzem pressuposição. Entre os indicadores linguísticos de pressuposição, podemse citar certos adjetivos ou palavras similares modificadoras do substantivo, verbos que indicam mudança ou permanência de estado, advérbios, orações adjetivas e conjunções, os quais, ao serem identificados, contribuem para uma leitura mais aprofundada do texto.            Quando se diz, por exemplo, “Frequentei as aulas de pintura, mas aprendi algumas coisas.” o falante transmite duas informações de maneira explícita: a) que ele frequentou as aulas de pintura; b) que ele aprendeu algumas coisas. Ao ligar essas duas informações com um mas comunica também, de modo implícito, sua crítica às aulas de pintura, pois passa a transmitir a ideia de que pouco se aprende nessas aulas.
 

Subentendidos
 
Para falar em subentendidos, as “máximas conversacionais” apresentadas pelo americano Paul Grice (1982) devem ser reportadas. Segundo Maingueneau (2004), essas máximas ou leis do discurso desempenham papel fundamental na interpretação de enunciados orais ou escritos, já que são definidas como um conjunto de normas que devem ser respeitadas pelos interlocutores num ato de comunicação verbal. Como propõe Grice, há um princípio geral denominado princípio de cooperação que determina que os interlocutores devem se mostrar cooperativos, contribuindo para construir o sentido do texto de acordo com o objetivo ou orientação imposta pelo intercâmbio verbal no qual participam. Na dependência desse metaprincípio, estão várias normas, e, de acordo com Borba ( 1998: 253), algumas delas “permitem prever os subentendidos”, que são “insinuações semânticas que se acrescentam à significação dada pelo componente lingüístico”, ou, no dizer de Maingueneau (2004: 33), o subentendido é um “tipo de implícito que se evidencia pelo confronto do enunciado com o contexto de enunciação.”
 
Em relação às máximas de Grice (1982: 89), que dizem respeito, em síntese, a dizer o suficiente para ser compreendido, a procurar afirmar coisas verdadeiras, a ser relevante e a ser claro, tem-se que, caso seja violada ou transgredida uma dessas regras, o leitor procurará entender o que está implícito no enunciado. O significado passa a ser depreendido a partir do que não se disse explicitamente, levando-se em consideração o contexto situacional, o conhecimento das máximas que regulam a interação, os diferentes conhecimentos cognitivos, não só de caráter linguísticos, mas socioculturais.   Veja-se um exemplo de Grice: um professor escreve uma carta de recomendação a respeito de um aluno que é candidato a um cargo de professor de filosofia, nesses termos: “Prezado Senhor, o conhecimento de inglês do senhor X é excelente, ele tem participado regularmente de nossas aulas. Sem mais, etc.” Nesse caso, como o professor não transmitiu as informações necessárias e as informações constantes na carta não são relevantes ao que foi solicitado, o recebedor da carta, decifrando o sentido literal e reconhecendo que ele não é pertinente, deverá inferir que o professor deve estar querendo dar informações não explícitas na carta, qual seja: a informação de que o senhor X não é adequado ao cargo de professor de filosofia. Em outros termos, as insinuações que se podem depreender daí não foram marcadas linguisticamente no texto, mas são inferidas em decorrência da transgressão de uma máxima, determinando que o leitor/ouvinte, subentenda um conteúdo além do sentido literal.
 
Ao articular as noções de pressuposto e de subentendido, Koch (1996: 69) diz que “a pressuposição é parte integrante dos enunciados; o subentendido, por sua vez, diz respeito à maneira como este sentido deve ser decifrado pelo destinatário.” Enquanto os pressupostos estão relacionados a um componente linguístico – presente no próprio enunciado – independente das condições de ocorrência, os subentendidos estão previstos por um componente retórico que leva em conta as circunstâncias da enunciação, estando, portanto, ausentes no enunciado. Assim, o pressuposto é uma informação estabelecida como indiscutível ou evidente tanto para o falante quanto para o ouvinte, pois a estrutura lingüística oferece os elementos necessários para depreender o sentido do enunciado. Já o subentendido, por possibilitar dizer alguma coisa, aparentando não a dizer ou não a dizendo, passa a ser de responsabilidade do ouvinte/leitor.
      
Maingueneau (1996: 91) ilustra essa distinção com o seguinte exemplo:
 
A: Estou procurando alguém para consertar meu carro.
B: Meu irmão está em casa.
A: Mas ele está sempre tão ocupado!
 
De acordo com o autor, a resposta de B contém a proposição implícita de que B tem um irmão. Essa proposição, qualquer que seja a situação de enunciação, encontra-se inscrita no enunciado. Dessa resposta, ainda, outro conteúdo implícito pode ser inferido, ainda que não se encontre no enunciado: o de que B propõe a A empregar o seu irmão, isto é, a informação de que o irmão de B é apto a fazer o conserto. Essa inferência foi operada a partir da enunciação, é subentendida a partir dela.
 
Segundo Borba (1998, p. 253), um enunciado como “Conheço muito bem os políticos de hoje” pode sugerir mais valores semânticos do que o enunciado declara, como, por exemplo, pode querer dizer que são desonestos. No entanto, se o locutor do enunciado é contestado pelo ouvinte quanto ao conteúdo do seu dizer, poderá alegar que quem está dizendo isso é o ouvinte e não ele, que não disse isso que o ouvinte interpretou, ou seja, defende-se atrás do sentido literal das palavras para se safar da interpretação. Portanto, o subentendido pode servir para o emissor proteger-se. Ao enunciar algo que pode ser subentendido, pode ter a intenção de transmitir a informação que deseja, mas sem se comprometer. Assim, não diz explicitamente, mas dá a entender, deixa subentendida alguma informação; deixa-a camuflada para não se comprometer.
 
Reconhecendo os implícitos do texto

Como já ressaltado, na análise de textos, o aluno deverá perceber que há textos em que o que não foi escrito também deve ser levado em consideração no ato de ler. No texto abaixo, por exemplo, o professor deve levar o aluno a depreender os significados decorrentes de certas palavras ou expressões marcadas discursivamente no texto que levam a depreender posições, idéias em relação ao que se fala:
 
Pesquisa revela que só 19% usam camisinha
 
Um levantamento feito (...) com trabalhadores de 120 empresas de 14 estados revela que o brasileiro ainda está muito mal informado sobre as formas de contágio da Aids. Segundo a pesquisa, 71% dos 4941 entrevistados acreditam que doar sangue transmite a doença, quando, na verdade, o perigo é receber o sangue de alguém que possui o vírus.   No tema prevenção, a situação também é preocupante: 96,4% dos pesquisados sabem que o uso do preservativo evita a transmissão da doença, mas, mesmo assim, 47% responderam que nunca usaram preservativo; 18% disseram que usam camisinha às vezes; e 19% afirmaram usála sempre.

(Boa Forma. Ano 12, n° 11, nov. 1997)

Além das várias informações explícitas, as quais estão presentes na superfície textual, há informações implícitas que devem ser identificadas. Por exemplo: no título só 19% usam camisinha, o advérbio só estabelece o implícito de que o uso de camisinha é indesejavelmente baixo entre os pesquisados. Na passagem o brasileiro ainda está muito mal informado, o advérbio ainda deixa implícito que a desinformação é um fator negativo, mas provisório, ou seja, há a possibilidade de reverter, de superar essa desinformação. Na sequência acreditam que doar sangue transmite a doença, quando, na verdade, o perigo é receber o sangue, percebe-se a oposição entre a falsa crença da informação ao verdadeiro conhecimento do processo de transmissão da doença. Quanto ao advérbio também, na sequência No tema prevenção, a situação também é preocupante, instaura o pressuposto de que o que se disse antes sobre a falsa crença de contágio da Aids também é preocupante, ou seja, acrescenta-se a essa preocupação mais uma, a que se refere ao tema prevenção da Aids. Já na passagem 96,4% dos pesquisados sabem que o uso do preservativo evita a transmissão da doença, mas, mesmo assim, 47% responderam que nunca usaram preservativo, a forma verbal sabem do verbo factivo saber pressupõe que seja verdadeira a sua completiva, ou seja, a afirmação de que o uso do preservativo evita a transmissão da doença. O primeiro enunciado os pesquisados sabem que o uso do preservativo evita a transmissão da Aids conduz à conclusão de que, então, eles usam preservativos; essa conclusão, no entanto, é refutada pela conjunção adversativa mas, que introduz um argumento contrário a esse implícito, ou seja, eles não usam preservativos. Além disso, percebe-se o uso de mesmo assim reforçando a ideia de que mesmo sabendo que o uso do preservativo é necessário, não o usam.
 
As expressões acima analisadas, explícitas no texto, permitem depreender os pressupostos, os quais, analisados no seu conjunto, refletem o ponto de vista a partir do qual o texto foi construído, uma vez que divulgado em uma revista que se preocupa com a saúde e bem-estar do leitor. 
 
Além de informar sobre a pesquisa, o texto procura advertir sobre a necessidade de se difundir mais os métodos de prevenção da contaminação da Aids, ou, em outros termos, de se controlar a contaminação da Aids entre os brasileiros por meio de informações sobre as formas de contágio da doença.  Como se vê, por meio das pistas extraídas do texto, o leitor pode, então, compreender os implícitos e garantir um bom nível de leitura.
 
Fonte: http://www.filologia.org.br/ixsenefil/anais/11.htm

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