Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

13 de jun de 2017

Frágil

Frágil

Há algo que no dentro de mim conspira
Um exército de mesquinhez e malfeitores
Alardeando que por hora não se inspira
Nos contos de fadas ou eternos amores

Há algo além, vago, à caminho do cerne
Que se ajoelha diante da batalha perdida
E ao corte da navalha que expõe a carne
Do reinado de um rei devastado em vida

Há algo frágil, e do meio pros cantos
Faminto de rubro vinho embrutecido
E da embriagada luxúria dos prantos
Dum Eu posto em taça, desconhecido

Copirraiti08Mar2014
Véio China©


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Véio China, um poeta? Contista? Talvez nem um, nem outro. Mas apenas se diverte escrevendo

Reminiscências Contemporâneas (Hippies, Black Blocs & Iphones e muito mais), por Véio China

Reminiscências Contemporâneas (Hippies, Black Blocs & Iphones e muito mais)

Olhando em seus olhos logo percebi que seria um desses garotos que jamais saberão o que é o mar.
Talvez estivesse lembrando do mar por estar vindo dum domingo de praia e de um ótimo quarto de pousada. Como todo bom paulistano  procurei esquecer o solado dos sapatos sociais raspando no concreto e fiquei os pés  nas areias macias e cravei a vista tão distante quanto a idade podia me permitir, já que sempre me causou inveja essas lanchas de rico  ancoradas próximas á praia. Entretanto como jamais fui um comandante ou lobo domar retornei a São Paulo na segunda de manha e cá estou eu numa estação de metrô  às seis e meia da tarde, hora de rush, instante que o deixei  junto de suas parafernálias urbanas. 

Logo, ele e eu e outros milhões de usuários somos trens de metrô e estamos na estação Estação Sé apinhada de gente, enfim, uma raça humana que, plagiando o gado retorna para os seus lares.Talvez o garoto não soubesse, mas eu fora tão jovem quanto ele, desses sujeitos normais   que se flagram nas feiras livres consumindo porções de yakisoba e pastéis de palmito. E como não sabia dos pastéis, não haveria de saber que eu fora um sujeito posto à prova pela vida, apesar de minha inequívoca vontade de progredir. Porém, mesmo que houvesse a vontade, a verdade  é que nunca dei muita sorte com qualquer coisa, inclusive com os empregos,  pois  raras foram as respostas dos curriculum vitae que enviei pela existência toda. E o fato  não me espanta, pois talvez à época os engomadinhos daqueles escritórios de poltronas confortáveis acreditassem que eu fosse meramente um preenchedor de formulários.

E por falarmos em fichas para emprego lembro uma daquelas ocasiões que levantei ainda de madrugada e peguei dois ônibus lotados para tentar uma boa vaga numa multinacional. Bem, ao fim de duas horas e meia espremido como laranja prestes a se tornar suco, desci próximo da empresa, mas acabei me dando mal, já que não conhecendo o lugar adentrei por numa viela com casas desocupadas, talvez até pelo fato de algum grande empreendimento estivesse sendo planejado para o local.

Então continuei seguindo pela viela com os passos apertados, e era mais que certo que  alguns dos meus concorrentes  já andavam pelos corredores da empresa entregando suas qualificações. Lembro que ao passar pelas casas eu as olhava rapidamente, porém  não tardou e  vigorosos passos de dois sujeitos logo se aproximaram. Assim que me alcançaram alinharam-se  um de cada lado - "Devagar irmãzinho!" Um deles disse ao surgir com um calibre 22 na mão direita e retirado às pressas por debaixo do seu enorme camisão de flanela. Bom, exposto à arma de bandido, que poderia ser até plástica, não me surgiu outra ideia que não a de me ajoelhar na tentativa de salvar a minha pele. "Por favor, não me mate" - Roguei com os mesmos olhos piedosos dos mendigos -

Claro, nós os comuns sempre tivemos medo, muito medo, portanto nada mais previsível que nos subjugamos à ousadia dos marginais, ou às suas eventuais armas de PVC ou de ferro pintado.
Sem saída e naquela circunstância só me restou venerar o marginal como se fosse ele  o Jesus Cristo, afinal, eu jamais acreditaria que e o  filho de Deus atirasse contra um dos seus irmãos.

O que se postava à esquerda e que parecia ser o mais calmo olhou para mim e me mandou levantar do chão com uma frase que nunca mais esquecerei. Ele disse - "Calma irmãozinho, não matamos ninguém antes da hora do almoço. Apenas me passe o que tem nos bolsos e estará tudo bem" - Depois ainda enfiou no meu bolso o dinheiro da passagem e me mandou andar. E eu andei, andando, trêmulo, passo após passo até novamente sentir as pernas firmes e me dirigi à empresa que, até hoje não me convocou para uma segunda entrevista ( E olha que lá se vão mais de 32 anos)

Sim,  são coisas como estas que me deixam farto da vida. A impaciência se torna fúria, não só com a bandidagem estabelecida, das armas ou da política,  mas também com  aquele garoto que destilava ódio em sua expressão, a qual respondi com uma fisionomia acabrunhada, dessas que dizem o quanto andamos de saco com todos. Talvez alguns me julguem ranzinza, mas se há coisa que não suporto são esses olhares  que te olham como estivessem vendo um monte de estrume E era essa a impressão que ele me causava, e eu o achava imbecil, e odiava o fato tanto quanto os gatunos que nos rouba, lesam,  e agem como se fôssemos uns otários, e que estão fazendo um grande favor ao nos assaltar.

Sobre isso, e apesar de ser revoltante engolir sapos, é bom que saibamos da necessidade de, vez ou outra nos munirmos de  paciências, pois há ocasiões que as esperas são sábias ao apontarem que a existência não se sublima no valor das posses, no calor do sol,  ou nas fases da lua. Não, definitivamente não, pois a vida é muito mais que palavras bonitas ou  os mimos num rosto de mulher, pois também resplandecemos nas dificuldades, nos patamares difíceis e nos degraus mais altos,  já que existirão coisas que poderão nos marcar, assim como o amor bem feito com a mulher que se quer, mesmo que no derradeiro murmúrio da madrugada.

E assim é a vida e o exercício continua, e não será fácil para quem quer que seja, pois às vezes ela nos maltrata e coloca-nos para fora da cama ás 5,30 da manhã através do despertador que tocará irritantemente, e fazendo lembrar que há trabalho lá fora. Portanto você se levantará e irá ao banheiro e constatará que a sua respiração embaçou o espelho, e isso significa que há  batimentos em seu coração, apesar duma aparência horrível. Depois é só tomar a ducha, escovar os dentes, pentear os cabelos e sair para a rua sabendo que a vida está de olho em você, mesmo que não sejam aquelas as sua últimas horas, assim por dizer; o dia da tua paz definitiva.

Todavia é esta isenção de paz  que não me deixa acomodar para as coisas  que não fazem sentido,  assim como a prostituição e um bando de garotas com o rabo de fora   congestionando as esquinas com  michês de 50 pratas.

Evidente, há outras tantas aberrações, e uma delas é este desprezível quebra-quebra generalizado que vivemos, assim  como a abundante bandalheira praticada,  e tão comum às pessoas poderosas.  E a maior das verdades seja dita, pois a sociedade pensante está anestesiada, prostrada diante da anarquia que  reina absoluta, estupefata  com governantes que afundam um país à custas das esmolas clientelistas.

Sim, por outro lado também estou perplexo com os atos desses garotos mascarados, e eles  poderiam estar produzindo, estudando, amando, ou sei lá o que nais, porém, tempo perdido, já que  não se despem da violência ou do vandalismo, pois  lhes deve parecer "um negócio da China" depredar não só o patrimônio privado, mas igualmente o público, um evidente “foda-se” às instituições.

E isso me deixa puto da vida, pois talvez os black blocks tenham nascido numa época imprópria, pois a minha era foi duma geração submissa, mas que acabou herdando o mundo, e tudo num piscar de olhos. E essa herança não nos veio de graça,  foi com luta, com protestos, mas sem que promovêssemos destruições ou aniquilássemos pessoas. Todavia isso é uma outra história, coisas do meu tempo e duma velha guarda fascinada pela retórica dos grandes pacifistas, e que fazem lembrar do mundo jovem dizendo  NÂO à guerra do Vietnã, além do repudiar o preconceito e as questões racistas.

Logo, o garoto do metrô jamais imaginaria que esse foi o quadro pintado na minha geração, e que daquele ponto em diante foi um juntar de  forças, inclusive com os imensos dinossauros da mídia, gente assim como os Beatles, Rolling Stones, Morrison, Dylan, e tantos outros,  para enfim chegarmos onde chegamos, praticamente a lugar algum. Enfim, algo de errado aconteceu lá atras, e mesmo ansiando por mundo melhor e mais justo os jovens da época se perderam pelo caminho, dispersaram santificando e consumindo drogas que mataram não só a eles, mas também muitos de nossos ídolos.

Finalizando o resumo diria que fomos o estardalhaço jovem que pouco ou quase nada soube fazer com o poder da própria voz.

Ah, e já que estou passeando pelo passado volto aos pequenos detalhes daquela época e relembro a Praça da República e as feiras hippies, e à um domingo especial, onde ao percorrer as curtas alamedas ouvi e pela primeira vez o inacreditável Jimi Hendrix. Ainda me era um tempo intermediário, dividido entre o garoto que saia da infância para ganhar a juventude, e eu à época no cargo de office boy e junto do meu tênis Rainha  percorria que nem louco as ruas de São Paulo enfrentando filas, encarando ônibus lotados, desafiando enchentes que, por vezes me tinham-me pela cintura. Ah, e como esquecer dos almoços à preços módicos num imenso salão no centro da cidade, lugar mais conhecido como o  "Bandejão da Juventude Católica". E tudo me parecia tão claro e justo, e no fim do mês havia aquilo que eu julgava a recompensa, então corria à Galeria Pajé, e meus olhos se mantinham  frenéticos, era como  procurassem uma miss, talvez até a de São Paulo, mas não era uma garota de corpo escultural o motim do meu desejo, mas sim uma calça de um jeans diferenciado e de sucesso global; Levi Strauss era a marca. E ela me deixava feliz, e com ela dobrada no interior duma sacola plástica é que deixava no bolso do comerciante todo o meu salário do mês, pois usar uma daquelas era  sinal de status, e as garotas amavam os garotos enturmados.

Sim, é verdade, e uma coisa levando à outra relembro o romantismo do tempo e a excitação ao tocar a mão da namorada, a ansiedade nos dedos umedecidos de suor, depois o rubor corando meu rosto ao toque mais ousado, sem esquecer do coração que batia afoito, afinal era tão fácil se apaixonar naquela época. Talvez nem acreditem, mas essa coisa da ansiedade sexual me foi cobrada pouco antes das calças favoritas. Sim, surgiu na frequência das missas dominicais celebradas pelo Padre Damião. Talvez eu estivesse na casa dos 12 ou 13, o que não apaga de minha memória as pernas jovens no interior das recentes minissaias, um mundo de hábitos novos, e essas pernas ali na presença de Cristo me deixavam agitado. Entretanto nem nesses momentos escapei impune, já que persistiam em mim os resquícios duma severa educação cristã, ensinamentos que foram ministrados num colégio de padres que estudei até os 10 anos. E sendo eu o pecador carregava tantas culpas, e elas precisavam ser redimidas, portanto me aproveitava de estar na casa do Senhor e caminhava até ao confessionário, e lá acertava as minhas contas com um daqueles que me diziam ser o representante do Pai aqui na terra. E assim eu saia de lá leve e carregando na consciência a obrigação de rezar não sei quantas Aves-Maria e  Padres-Nosso, e agora eu podia tocar as asas dos anjos, pois quase nada devia a Deus.
E quando divago sobre o fim da infância e o início da fase jovem faço-me as mesmas perguntas de sempre: A minha alma já estava perdida? E por onde andariam os meus amigos da "divisão dos menores" do Liceu Salesiano de Campinas, junto das lembrança de tudo que vivenciei por lá?

Eu nunca mais soube, mas deduzo que muitos estão por aí com suas famílias, avôs em situações estáveis, instáveis, talvez em asilos, ou mortos, nem eu mesmo sei.

Bem, depois do colégio interno e já em Sampa adentrei a fase musical e só pensava em canções e nos cabelos iguais aos dos rapazes de Liverpool. E sobre as canções muitas delas me marcaram (Poucos devem lembrar de Vandré e a Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores) Não há como negar, e já naquela época demonstrava algum inconformismo, e isso se percebia nos meus gostos musicais, nas revistas em quadrinhos que devorava, principalmente aquela produzida por gente que tirava um barato do autoritarismo, portanto, do Regime Militar, já que esses jamais excluirei da lembrança (beijos, Fradim, Bode Orelana, Graúna, Henfil, Jaguar e Ziraldo)

E estando em tempos difíceis o normal era aceitar que o pior andava à espreita, assim como nos dias
de hoje,  pois o o mal destrói como traição entre marido ou mulher. Todavia o tempo foi caminhando, e ao fim daquela década o Regime jogou pesado coibindo manifestações, principalmente as estudantis. Mas elas persistiram e foi um festival de borrachadas, e a polícia, sem dó ou piedade desceu o cassetete na juventude. Com o movimento de rebeldia (principalmente dentro das faculdades) vieram grupos e foi formada a célula guerrilheira e um projeto que supomos clamar por liberdades e direitos civis.

Convenientemente se anota que as camadas mais esclarecidas apoiaram  irrestrita  tais movimentos (mesmo estando longe da militância) e fomos muitos os que acreditaram em seus ideais, e eu,  mesmo sendo jovem e inexperiente apoiei, pois jamais acreditei em liberdade tendo os militares e os atos de força no comando do país.

A guerrilha desenvolveu e em que pese as patentes militares envolvidas, mas la estava o anonimato dos nossos heróis perdido entre as matas, lutando por algo que nem mais sabia o que era. Evidente, houve o rastro da morte, e alguns se foram até pelo próprio e desconhecido habitat que enfrentavam. Passou-se pouco tempo e os militares dizimaram a guerrilha, afinal, a maioria daqueles garotos jamais tinha tocado numa arma de fogo.

Depois de vencidos muitos dos guerrilheiros se exilaram por aí, e é neste ponto que reside a triste ironia dos fatos; Alguns desses sobreviventes estão hoje por cima da carne seca. E a decepção fica por conta de agora sabermos que foi a guerrilha mentirosa, combatentes acoitando entre si um bando de falsos revolucionários.

E agora tudo me parece tão claro apesar da ficha ter demorado para cair, pois a mentira é tão contundente, e os pseudos guerrilheiros tinham por único objetivo a tomada do poder e se dar bem na vida, um poder que, diga-se, hoje  se mostra quase tão totalitário quanto o dos tempos militares..

Logo, muitos de nós nos dias atuais têm a consciência que pagamos demasiadamente caro por termos acreditado e colocado no poder a ignorância demagógica de um semi analfabeto. Assim é que nos sentimos, impotentes,  e eles se multiplicam e dividem o produto das falcatruas entre si num vilipêndio do erário público que mal deixa as digitais dos dedos inescrupulosas, mas que sabemos;  transferem boa parte dos seus golpes milionários para seletas carteiras abarrotadas de testas de ferro.
Bem, como política é algo que me causa nojo, a deixo de lado e retorno ao garoto de olhar duro, e ele continua me olhando, empinado, e seu nariz parece ter alcançado o mesmo status das nuvens no céu.
E esses olhares atravessados aconteceram pelo nosso resvalo acidental à porta da saída do metrô. Evidente, velhos carregam guarda-chuvas nas mãos, e não Ipods ou Iphones. E o estrago se fez no instante do choque, porém meu guarda-chuva escapou ileso. Ainda na intenção de ajudá-lo me agachei e peguei o seu aparelho, sem não antes notar que o vidro frontal do Aplle havia se espatifado, e duas ou três peças juntas da bateria se esparramaram pelo piso. Olhei atentamente para os pequenos pedaços e se eu fosse alguém confiável na área de assistência técnica de celulares lhe diria sem constrangimento que talvez o caso fosse o da perda total. Entretanto o momento e as circunstâncias não me pareceram apropriadas para alertá-lo, portanto silenciei.

-E aí tio! Tu vai ressarcir o meu aparelho? – Ele perguntou aproximando o rosto, resvalando seu tórax em meu peito.

-Como assim? Você está ficando louco, guri? – Respondo. O que mais podia dizer?

Logo o bonitão percebeu que do meu mato não sairia coelho

-Tio, quer mesmo saber? – Ele me fulminou. Eu sinto sua ira

-Quero! É justo que digas! – Devolvi, afinal é assim que nos fortalecemos para a democracia.

-Tu é um babaca reacionário – Ele devolveu com todas as letras. É estranho, mas os jovens de hoje sempre acham que os sujeitos com mais de 60 anos são reacionários, de direita, fascistas, ou do TFP e outras barbaridades. Eu apenas sorri para ele.

-E tu, sabes o que acho? Tu és nada mais que um filho de camundongo! – Replico com um risinho de desdem impregnado nos lábios.

O garoto apenas me olhou, e agora o seu ódio era mortal. Talvez estivesse lá pelos 20 ou 21 anos, um touro de academia, a montanha de músculos talvez adquirida nos anabolizantes, "ou não", como sempre dirá o sábio Caetano.

Seu olhar continuava desafiador, porém eu sabia que se tratava de reles pressão psicológica, pois poderia me trucidar se assim o quisesse.

Mas não o fez, talvez porque seus músculos pensassem, talvez pelo Estatuto do Idoso, ou por ter desconfiança que acabaria se metendo em mais complicações das que provavelmente estava.
-Garoto, escute! Vamos colher lagostas e mergulhar com as sereias? – Propus para ele num tom amistoso, fornecendo um sorriso mais que aceitável

-Hããã? Você está louco, velhote? – Foi a sua resposta-pergunta. Tudo bem, inclusive eu a previa.
Antes de desistirmos olhamos um para o outro pela última vez.

Ele, talvez pensando na reposição do aparelho, e de como chegaria no pai com a melindrosa conversa que um bando de “reacionários" quebrou o seu Ipod" intencionalmente ao darem conta da vermelha estrela petista cravada no peito da negra camiseta (à esquerda,bem  próxima ao coração)

Eu, por meu lado apenas abandonei as dependências do metrô e olhei para o firmamento à procura de tempestade.

Como o céu estava repleto de nuvens negras que não desaguavam suas lágrimas, pensei nas lagostas e nas tais sereias que, por aquela hora poderiam estar me aguardando nas profundezas do mar.
Eu apenas sorri quando voltei com o corpo e o vi recolhendo os pedaços do aparelho para guardá-los em sua mochila de grife.

De fato! Aquele Mister Qualquer Coisa jamais saberia o que era o mar.

Copirraiti16Fav2014
Véio China©

A dama do cachorrinho

A dama do cachorrinho

A. Tchekov

I

Comentava-se que na avenida à beira-mar tinha surgido uma cara nova: uma dama com um cachorrinho. Dmítri Dmítritch Gúrov, que estava em Ialta havia duas semanas e já se acostumara ao lugar, começou também a se interessar por gente nova. Sentado no pavilhão do Vernais, viu passar pela calçada da praia uma jovem senhora, loura, baixa, de boina; atrás dela corria um lulu da Pomerânia branco.

Depois ele a encontrou no jardim municipal e na praça várias vezes ao dia. Ela passeava sozinha, sempre com a mesma boina e o lulu branco; ninguém sabia quem ela era e a chamavam simplesmente de “a dama do cachorrinho”.

“Se ela está aqui sem marido e sem conhecidos”, pensava Gúrov, “não seria demais conhecê-la.”

Ele ainda não completara quarenta anos, tinha uma filha de doze e dois filhos no ginásio. Fizeram-no casar cedo, quando ainda estava no segundo ano da faculdade, e agora sua esposa parecia ter o dobro de sua idade. Ela era uma mulher alta, de sobrancelhas escuras, ereta, importante, sólida e, como ela se autodenominava, pensante. Lia muito, em suas cartas não usava o sinal duro[57], chamava o marido de Dimítri, e não Dmítri[58], e secretamente ele a considerava uma pessoa medíocre, estreita, sem graça; tinha medo dela e não gostava de ficar em casa. Começara a traí-la há muito tempo; traía com freqüência, e talvez por isso quase sempre falava mal das mulheres; e quando na sua presença a conversa girava em torno delas, ele as chamava assim:

– Raça inferior!

Parecia-lhe que o que ele aprendera com experiências amargas lhe dava o direito de chamá-las como quisesse, porém não conseguia passar nem dois dias sem a “raça inferior”. Na companhia dos homens ele se sentia entediado, pouco à vontade, ficava calado e frio; mas, no meio das mulheres, sentia-se livre e sabia o que dizer e como se comportar. Era-lhe fácil até mesmo ficar calado na presença delas. Na sua aparência, no seu caráter, em todo o seu modo de ser havia algo sedutor, imperceptível, que predispunha favoravelmente as mulheres em relação a ele e as atraía.

Sua farta experiência, na realidade uma experiência amarga, há muito lhe ensinara que toda aproximação, que no início traz uma agradável variedade à vida e que promete ser uma aventura leve e divertida, no caso de pessoas da alta sociedade, especialmente os moscovitas, indecisos e lentos na ação, fatalmente se transforma num problema terrivelmente complexo, e no final a situação se torna muito penosa. Porém, a cada novo encontro com uma mulher interessante era como se essa experiência escapasse da memória; dava vontade de viver, e tudo parecia simples e divertido.

E então, uma tarde, aconteceu que ele estava almoçando no jardim, e a dama com a boina aproximou-se devagar para ocupar a mesa vizinha. Sua expressão, a maneira de caminhar, o vestido, o penteado, tudo lhe dizia que ela era da boa sociedade, casada, estava em Ialta pela primeira vez e sozinha, e que se sentia entediada ali... As narrativas sobre a imoralidade dos costumes locais continham muitas inverdades, e ele as desprezava por saber que tais relatos eram criados por pessoas que de bom grado pecariam se soubessem fazê-lo. Mas, quando a dama se sentou à mesa vizinha a três passos dele, vieram à sua lembrança aquelas histórias de conquistas fáceis, de excursões às montanhas, e a atraente ideia de um relacionamento rápido, efêmero, de um romance com uma mulher desconhecida, de quem não se sabe nem nome nem sobrenome, de repente tomou conta dele.

Gúrov chamou carinhosamente o cachorrinho e, quando este se aproximou, fez- lhe um gesto de repreensão com o dedo. O cachorro rosnou; Gúrov tornou a repreendê-lo com o dedo.

A dama lançou-lhe um olhar e imediatamente baixou os olhos.
– Ele não morde – disse corando.
– Posso dar um osso a ele? – perguntou Gúrov e, quando ela balançou a cabeça afirmativamente, perguntou em tom amistoso: – A senhora está em Ialta há muito tempo?

– Uns cinco dias.
– Quanto a mim, já me arrasto aqui faz duas semanas.
Calaram-se por um instante.
– O tempo passa depressa, mas, ao mesmo tempo, isto aqui é um tédio! – disse ela sem olhar para ele.
– Não passa de um hábito dizer que aqui é um tédio – disse ele. – O burguês leva sua vida em algum lugar, em Beliov ou Jizdra[59], e não sente tédio, mas quando chega aqui: “Ai, que tédio! Ai, quanta poeira!”. Pode-se até pensar que ele veio de Granada.

Ela riu. Depois ambos continuaram a comer em silêncio, como dois desconhecidos. Porém, quando terminaram, puseram-se a caminhar juntos, iniciando uma conversa bem-humorada, leve, de pessoas livres e felizes, para quem não importava para onde ir nem sobre o que falar. Ficaram passeando e fazendo comentários sobre a estranha luminosidade do mar. A água tinha um tom lilás, suave e quente, e por ela se estendia uma faixa dourada de luar. Comentaram que ficava abafado depois de um dia de calor. Gúrov contou que era moscovita, formado em filologia, mas trabalhava num banco. Em certa época se preparou para cantar numa companhia privada de ópera, mas desistiu; tinha duas casas em Moscou... E dela, ele soube que crescera em Petersburgo, mas se casara em S., onde vivia já há dois anos, que ficaria em Ialta cerca de um mês e que talvez o marido viesse se juntar a ela, pois ele também queria descansar. Ela não soube dizer onde seu marido trabalhava – se no governo da província ou no zemstvo provincial – e ela mesma achou graça nisso. E Gúrov ainda ficou sabendo que ela se chamava Anna Serguêievna.

AVT_Anton-Pavlovitch-Tchekhov_2261Mais tarde, no quarto do hotel, ficou pensando nela e imaginou que na certa eles se encontrariam no dia seguinte. Era o que deveria acontecer. Ao se deitar, passou-lhe pela cabeça que há muito pouco tempo ela ainda era uma colegial, estudava, como agora fazia a sua filha, e lembrou-se de quanto havia de timidez e falta de traquejo no seu riso, na conversa com um desconhecido – essa devia ser a primeira vez na sua vida que ela ficava sozinha numa situação como aquela, com pessoas que a procuravam e olhavam para ela com um único e secreto objetivo, o qual era impossível que ela não adivinhasse. Ele se lembrou de seu pescoço fino e frágil e de seus belos olhos cinzentos.

II

Passou-se uma semana desde que se conheceram. Era um feriado. Nos quartos estava abafado e, nas ruas, o vendaval levantava poeira, arrancava os chapéus. A sede atormentou durante todo o dia; Gúrov volta e meia ia ao pavilhão e oferecia a Anna Serguêievna ora água gasosa com xarope, ora sorvete. Não havia onde se refugiar.

À tardinha, quando o vento amainou um pouco, eles foram para o cais ver a chegada do vapor. No embarcadouro, muitas pessoas passeavam; estavam ali à espera de alguém e carregavam flores. Naquele lugar, nitidamente chamavam a atenção duas características da elegante multidão ialtense: as senhoras maduras vestiam-se como as jovens e havia muitos generais.

Devido à agitação do mar, o vapor chegou tarde, quando o sol já se havia posto, e, antes de atracar, ficou muito tempo virando-se. Anna Serguêievna olhava através do lorgnon para o vapor e para os passageiros como a procurar algum conhecido, e seus olhos brilhavam quando se dirigia a Gúrov. Falava muito, suas perguntas eram entrecortadas, ela mesma logo se esquecia do que havia perguntado. Mais tarde perdeu seu lorgnon no meio da aglomeração.

A multidão bem-vestida se dispersou, os rostos já não eram visíveis, o vento cessou totalmente, mas Gúrov e Anna Serguêievna continuavam parados, como se esperassem para ver se não sairia mais alguém do vapor. Anna Serguêievna já não falava e cheirava as flores, sem olhar para Gúrov.

– O tempo à noite melhorou – disse ele. – Aonde vamos agora? Que acha de irmos a algum lugar?

Ela não respondeu.

Então ele a olhou fixamente, abraçou-a de repente e lhe deu um beijo na boca, envolvido pelo aroma e pela umidade das flores, mas logo depois olhou em volta assustado: não teria alguém visto?

– Vamos para o seu quarto... – disse ele baixinho.
E ambos partiram apressados.
O quarto dela estava abafado e havia cheiro dos perfumes que ela comprara numa loja japonesa. Vendo-a naquele momento, Gúrov pensava: “Que encontros não acontecem na vida!”. Do seu passado ele guardava a lembrança de mulheres despreocupadas, afáveis, contentes pelo amor, gratas a ele pela felicidade – embora muito curta – e também a de outras, como sua esposa, por exemplo, que amavam sem sinceridade, com discursos desnecessários, com afetação, histeria e uma expressão tal, como se aquilo não fosse amor, não fosse paixão, e sim algo mais significativo; e também duas ou três muito belas, frias, em cujo rosto perpassava um ar obstinado de ave de rapina, como se desejassem arrebatar da vida mais do que ela pode dar; tais mulheres já haviam passado da primeira juventude, eram caprichosas, avessas ao raciocínio, autoritárias e burras, e quando Gúrov esfriava em relação a elas, sua beleza começava a despertar ódio nele, e as rendas de sua lingerie lembravam-lhe escamas.

Mas, no caso atual, permanecia aquela timidez, a falta de traquejo da
juventude inexperiente, a sensação de embaraço; havia um ar de desnorteamento, como se alguém de repente tivesse batido à porta. Anna Serguêievna, a dama do cachorrinho, em relação ao que acontecera reagiu de um modo um tanto especial, com muita seriedade, como se aquilo significasse sua queda – era a impressão que dava, e isso era estranho e descabido. Seu rosto ficou abatido, murcho; seus longos cabelos pendiam dos lados do rosto; ela ficou meditativa, numa pose de desalento, parecia uma pecadora de uma gravura antiga.

– Foi errado – disse ela. – Agora o senhor será o primeiro a não me respeitar.

Havia sobre a mesa uma melancia. Gúrov cortou um pedaço e pôs-se a comer sem pressa. O silêncio durou pelo menos meia hora.

Anna Serguêievna estava comovente e exalava a pureza da mulher decente, ingênua e inexperiente; a vela solitária que ardia sobre a mesa mal iluminava seu rosto, mas era visível que ela estava sofrendo.

– Por que motivo eu deixaria de respeitá-la? – perguntou Gúrov. – Você não sabe o que está dizendo.

– Que Deus me perdoe! – disse ela, e seus olhos encheram-se de lágrimas. – Isto é terrível!

– Parece que você está se justificando.

– Como poderia me justificar? Sou uma mulher ruim, baixa, eu me desprezo e não penso em me justificar. Traí não o meu marido, mas a mim mesma. E não foi somente agora, já o traio há muito tempo. Meu marido talvez seja um homem bom e honrado, mas é um lacaio! Não sei o que ele faz lá, em que trabalha, só sei que é um lacaio. Quando me casei, eu tinha vinte anos, ardia de curiosidade, ansiava por algo melhor. Pois existe, dizia para mim, uma outra vida. Eu queria viver! Viver, viver... A curiosidade me queimava... O senhor não entende isso, mas, juro por Deus, eu já não conseguia me controlar, algo me aconteceu e eu fiquei fora de mim, então disse ao meu marido que estava doente e vim para cá... E, aqui, andava todo o tempo como se estivesse embriagada, como uma louca... e então me tornei uma mulher vulgar, sem valor, que qualquer um pode desprezar.

Gúrov já estava aborrecido de ouvir aquilo; irritava-o o tom ingênuo, o arrependimento tão inesperado e inoportuno; se não fossem as lágrimas em seus olhos, seria possível pensar que ela estava brincando ou representando um papel.

– Não entendo – disse ele baixinho –, o que você quer?

Ela escondeu o rosto no peito dele e ali permaneceu, agarrada a ele.

– Acredite em mim, acredite, eu lhe suplico... – disse ela. – Eu amo uma vida honesta, pura, tenho horror ao pecado, mas eu mesma não sei o que estou fazendo. As pessoas simples dizem: foi tentação do demônio. Eu também posso dizer agora que o demônio me tentou.

– Já chega, já chega... – balbuciou ele.

Olhando-a nos olhos imóveis e assustados, beijou-a, conversou com ela em voz baixa e com carinho, e pouco a pouco ela se acalmou, recuperou a alegria e ambos puseram-se a rir.

Mais tarde saíram. Na avenida à beira-mar não havia ninguém; a cidade, com seus ciprestes, parecia totalmente morta, mas o mar estava barulhento e batia contra a margem; uma barcaça solitária oscilava nas ondas e nela piscava uma lanterna.

Conseguiram encontrar uma charrete e foram para Oreanda.[60]

– Há pouco, lá em baixo, na portaria, fiquei sabendo seu sobrenome: no quadro está escrito von Dideritz – disse Gúrov. – Seu marido é alemão?

– Não, o avô dele, parece, era alemão, mas ele mesmo é ortodoxo.

Em Oreanda, sentaram-se num banco perto da igreja e ficaram calados, olhando o mar embaixo. Mal se avistava Ialta através da névoa matutina, e nos cumes das montanhas nuvens brancas pairavam imóveis. A folhagem das árvores estava quieta, cigarras cantavam e o ruído surdo e monótono do mar, vindo de baixo, falava de repouso, do sono eterno que nos espera. Esse barulho já se fazia ouvir ali quando não havia nem Ialta, nem Oreanda; ele se faz ouvir agora e será assim também no futuro, surdo e indiferente, quando nós não mais existirmos. E nessa constância, nessa completa indiferença em relação à vida e à morte de cada um de nós, esconde-se, talvez, a garantia de nossa salvação eterna, do incessante movimento da vida na terra, do seu contínuo aperfeiçoamento. Sentado ao lado de uma jovem mulher, que no amanhecer parecia tão bela, tranquilizado e enfeitiçado pela visão desse panorama fantástico – o mar, as montanhas, as nuvens, o amplo céu –, Gúrov pensava que, no fundo, se refletirmos bem, tudo neste mundo é maravilhoso; tudo, exceto aquilo que nós mesmos pensamos e fazemos quando esquecemos das finalidades supremas da existência e da nossa dignidade como homens.

Alguém se aproximou – devia ser um vigia –, olhou para eles e foi embora. Esse detalhe também lhe pareceu misterioso e belo. Via-se a chegada do vapor que vinha de Feodócia, iluminado pela aurora matutina e já de luzes apagadas.

– Há orvalho sobre a relva – disse Anna Serguêievna, quebrando o silêncio. – É, já é hora de ir para casa.
Voltaram para a cidade.
Daí em diante, todos os dias eles se encontravam ao meio-dia na avenida à beira-mar, almoçavam juntos, passeavam, admiravam o mar. Ela se queixava de que dormia mal, de que seu coração batia de maneira angustiada, e fazia sempre as mesmas perguntas, preocupada ora pelo ciúme, ora pelo pavor de que ele não a respeitasse o suficiente. E frequentemente, na praça ou no jardim, quando não havia ninguém por perto, ele a puxava para si e a beijava com paixão. O ócio total, os beijos em plena luz do dia, cheios de cautela e do medo de que alguém os pudesse ver, o calor, o cheiro do mar, o perpassar incessante de pessoas bem- vestidas, festivas e bem-alimentadas pareciam havê-lo transformado. Ele dizia a Anna Serguêievna o quanto ela era bonita, sedutora; demonstrava uma paixão impaciente, não saía do seu lado; já ela, ficava muitas vezes pensativa e continuava a lhe pedir que reconhecesse que ele não a respeitava, não a amava nem um pouco e só via nela uma mulher vulgar. Quase todas as noites, mais tarde, eles iam para algum lugar fora da cidade, para Oreanda ou para a cachoeira. E o passeio era sempre um sucesso, as impressões eram invariavelmente maravilhosas, grandiosas.

Aguardavam a vinda do marido, mas chegou uma carta dele na qual comunicava que adoecera da vista e suplicava à esposa que voltasse para casa o mais rápido possível. Anna Serguêievna se apressou em partir.

– É bom que eu vá embora – disse a Gúrov. – Deve ser o destino.

Ela partiu numa carruagem e ele a acompanhou. Viajaram um dia inteiro. Já acomodada no vagão do trem expresso, depois do segundo sinal ela disse:

– Deixe-me olhar mais uma vez para o senhor... Mais uma vez. Assim.
Ela não chorava, mas estava triste, parecia doente, e seu rosto tremia.
– Vou pensar no senhor... Vou me lembrar – dizia. – Fique com Deus. Não pense mal de mim. Estamos nos despedindo para sempre, isso é necessário, pois nunca deveríamos ter nos encontrado. Bem, fique com Deus.

O trem partiu rapidamente, suas luzes logo sumiram, e um minuto depois não havia mais nem um ruído, como se tudo houvesse sido tramado de propósito para interromper rapidamente aquele sonho, aquela loucura. Sozinho na plataforma, olhando a escuridão distante, Gúrov ouvia o cricrilar dos grilos e o zumbido dos fios telegráficos, com a sensação de que acabava de despertar. Veio-lhe à mente que na sua vida acontecera mais uma conquista ou uma aventura, e que também esta havia terminado, restando agora uma recordação... Ele estava emocionado, triste, e sentia um leve remorso: pois aquela jovem, que ele nunca mais veria, não fora feliz na sua companhia. Ele tinha sido amistoso e gentil com ela; entretanto, no seu modo de tratá-la, no seu tom e nos seus carinhos, como uma sombra transparecia uma leve caçoada, uma arrogância meio rude do homem feliz que, além do mais, tinha o dobro de sua idade. Todo o tempo ela dizia que ele era bondoso, extraordinário, superior; era evidente que ele lhe parecia diferente do que era na realidade; portanto, sem querer ele a enganou...

Ali, na estação, já se sentia o cheiro do outono e à noite começava a fazer um friozinho.

“Está na hora de voltar para o norte” – pensava Gúrov, deixando a plataforma. “Está na hora!”

III

Em casa, em Moscou, tudo já funcionava como no inverno: acendia-se o fogo nas estufas e, de manhã, quando as crianças se arrumavam para a escola e era servido o chá, ainda estava escuro, e a babá acendia as luzes por pouco tempo. O frio chegara. Quando cai a primeira neve, no primeiro passeio de trenó, é agradável ver o chão e os telhados brancos; a respiração fica leve, agradável, e nesse momento vêm à lembrança os anos de juventude. As velhas tílias e bétulas, brancas de geada, têm uma aparência acolhedora, são mais próximas ao coração do que os ciprestes e palmeiras, e junto a elas já não há vontade de pensar em montanhas e mar.

Gúrov era moscovita e regressou a Moscou num belo dia de inverno. Quando vestiu seu casaco de pele e luvas grossas e saiu para um passeio pela Petrovka[63], e quando, mais tarde, no sábado à noite, ouviu o repique dos sinos, sua recente viagem e os lugares onde estivera perderam para ele todo o encanto. Mergulhou aos poucos na vida moscovita, já lia com avidez três jornais diariamente e dizia que, por princípio, não lia jornais de Moscou.

Já tinha vontade de ir aos restaurantes, aos clubes, aos almoços festivos e jubileus, e novamente se sentia lisonjeado por receber em sua casa advogados e artistas famosos e por jogar cartas com um catedrático no clube dos doutores. E já conseguia comer uma porção inteira de caçarola de peixe ou carne, com chucrute...

Gúrov pensava que, passado um mês, Anna Serguêievna ficaria coberta de névoa na sua lembrança e só raramente apareceria em seus sonhos, com seu sorriso comovente, como as outras apareciam. Porém, mais de um mês havia passado, o inverno estava no auge e na sua memória tudo permanecia tão claro como se ele tivesse se separado de Anna Serguêievna apenas na véspera. As recordações avivavam-se cada vez com mais força. Se no silêncio da tarde chegavam ao seu gabinete as vozes das crianças que faziam seus deveres de casa, se ele ouvia uma romança ou o órgão num restaurante ou se a nevasca começava a uivar na chaminé da lareira – de repente tudo ressuscitava na sua memória: o que acontecera no cais, a madrugada na bruma das montanhas, o vapor de Feodócia, os beijos... Ele caminhava muito tempo pelo aposento, recordando, sorrindo; mais tarde, as lembranças se transformavam em sonhos e na sua imaginação o passado se misturava com o que ainda viria. Anna Serguêievna não era um sonho, ela o seguia por toda parte como uma sombra, observando-o. De olhos fechados, ele a via como uma pessoa viva, e ela lhe parecia mais bonita, mais jovem, mais delicada do que na realidade; também ele próprio se via melhor do que fora em Ialta. À noite, lá estava ela na estante de livros, na lareira, no canto do gabinete, olhando-o; ele ouvia sua respiração e o suave farfalhar de sua roupa. Na rua, ele acompanhava as mulheres com o olhar, procurando alguma parecida com ela...

Gúrov já se sentia angustiado e queria compartilhar com alguém suas lembranças, mas em casa era impossível falar do seu amor, e fora de casa não havia com quem. Não haveria de ser com os inquilinos nem no banco. E sobre o que ele poderia falar? Por acaso naquela ocasião ele sentiu amor? Houve, por acaso, alguma coisa bonita, poética, instrutiva ou simplesmente interessante em sua relação com Anna Serguêievna? O único jeito era falar de maneira indeterminada sobre o amor, as mulheres, e ninguém desconfiava da verdade. Apenas sua esposa levantava as sobrancelhas escuras e dizia:

– O papel de fátuo não combina nem um pouco com você, Dimítri.

Certa vez, à noite, saindo do clube dos doutores na companhia de um funcionário público, seu parceiro no jogo, ele não se conteve e disse:

– Se o senhor tivesse ideia da mulher fascinante que conheci em Ialta!
O funcionário sentou-se no trenó e partiu, mas de repente virou-se e gritou: – Dmítri Dmítritch!
– O quê?
– O senhor estava certo hoje cedo. O esturjão estava estragado.
De repente, essas palavras, tão comuns, por algum motivo deixaram Gúrov indignado e lhe pareceram humilhantes, impuras. Que costumes selvagens, que caras! Que noites sem sentido, que dias desinteressantes, sem nada de importante! Frenéticos jogos de cartas, comilança, bebedeira, conversas sempre sobre o mesmo assunto. Essas atividades inúteis e as discussões consumiam as melhores parcelas do tempo, as melhores forças, e, no final, restava uma vida limitada, prosaica, uma idiotice, mas sair dela, fugir, era impossível, como se a pessoa estivesse trancada num hospício ou numa penitenciária!

Gúrov não dormiu aquela noite, indignado, e depois passou o dia inteiro com dor de cabeça. Nas noites seguintes também dormiu mal, ficava sentado o tempo todo na cama, pensando, ou caminhava de um lado para o outro. As crianças o entediavam, o banco também, não queria ir a lugar nenhum nem conversar sobre nada.

Em dezembro, nos feriados, ele se preparou para viajar. Disse à mulher que ia a Petersburgo resolver um assunto para um rapaz e foi para S. Para quê? Ele mesmo não sabia bem. Queria ver Anna Serguêievna, falar com ela, marcar um encontro, se possível.

Chegou a S. pela manhã e ocupou o melhor quarto do hotel. O chão era forrado de lã cinzenta grosseira, igual à dos casacões dos soldados; sobre a mesa havia um tinteiro coberto de pó, com um cavaleiro de braço levantado, segurando uma espada e sem cabeça. O porteiro do hotel lhe deu as informações necessárias: von Dideritz morava na rua Staro-Gontchárnaia, em casa própria, perto do hotel. Vivia bem, era rico, tinha carruagem, todos o conheciam na cidade. O porteiro pronunciava Dríderitz.

Gúrov caminhou sem pressa para a rua Staro-Gontchárnaia, procurando a casa. Exatamente na frente dela havia uma longa cerca cinzenta com pregos.

“Qualquer um fugiria dessa cerca” – pensou Gúrov, olhando ora para as janelas, ora para a cerca. E refletia: “Hoje é feriado e o marido provavelmente está em casa. E, de qualquer modo, seria falta de tato entrar na casa e causar um constrangimento. Se eu enviar um bilhete, ele pode cair nas mãos do marido, estragando tudo. O melhor é confiar no acaso.” E continuou a caminhar pela rua, perto da casa, esperando por esse acaso... Viu um mendigo entrar no portão e os cachorros o atacarem. Uma hora depois, ouviu um piano, e os sons chegaram até ele fracos, confusos. Provavelmente era Anna Serguêievna quem tocava. De repente, a porta principal se abriu e por ela saiu uma velha; atrás dela corria o lulu branco, seu conhecido. Gúrov quis chamar o cãozinho, mas seu coração disparou e, com a emoção, não conseguiu lembrar o nome do cachorro.

Continuou a caminhar, odiando cada vez mais a cerca cinzenta e, irritado, já pensava que Anna Serguêievna o esquecera, que talvez ela já estivesse se divertindo com outro, o que era perfeitamente natural na situação de uma mulher jovem que era obrigada a ver aquela maldita cerca da manhã à noite. Regressou ao seu quarto de hotel e ficou sentado no divã durante muito tempo, sem saber o que fazer; depois almoçou e em seguida dormiu longamente.

“Como tudo isso é tolo e agitado!” – pensava ele, ao acordar, vendo as janelas escuras: já era noite. “Aí está, dormi demais. E agora, o que vou fazer à noite?”

Ficou sentado na cama forrada com um cobertor cinzento barato, como os de hospital, e se recriminava, aborrecido: “Aí está sua dama do cachorrinho... Aí está sua aventura... Agora fique aqui sentado!”

Naquela mesma manhã, na estação, ele notara um cartaz com letras enormes: pela primeira vez na cidade seria apresentada A gueixa. Lembrou-se disso e rumou para o teatro. “É muito provável que ela vá às estreias” – pensou.

O teatro estava lotado. Ali, como em geral em todos os teatros de província, uma névoa subia acima do lustre e havia muito ruído e agitação na galeria. Na primeira fila, antes do início do espetáculo, os janotas locais esperavam de pé, com as mãos nas costas; no camarote do governador, na cadeira da frente, estava sentada sua filha, de boá; já ele próprio se escondera discretamente atrás da cortina e só eram visíveis suas mãos. No palco a cortina balançava, a orquestra afinava demoradamente os instrumentos. Gúrov o tempo todo procurava avidamente com os olhos, enquanto o público entrava e ocupava seus lugares.

Entrou também Anna Serguêievna. Sentou-se na terceira fila, e quando Gúrov olhou para ela sentiu um aperto no coração, compreendendo claramente que, para ele, naquele momento não existia no mundo ninguém mais próximo, caro e importante. Perdida na multidão provinciana, aquela pequena mulher, sem nada de especial, com um lorgnon vulgar na mão, enchia agora toda a sua vida, era a sua dor, a sua alegria, a única felicidade que ele desejava para si; e, ao som de uma orquestra ruim, de violinos mal tocados e simplórios, ele pensava em como ela era bonita. Pensava e sonhava.

Junto com Anna Serguêievna, entrou e sentou-se um homem jovem com pequenas suíças, muito alto e meio curvado; a cada passo ele baixava a cabeça, dando a impressão de estar constantemente fazendo reverências. Era com certeza o marido, que, num acesso de amargura, em Ialta, ela chamara de lacaio. De fato, na sua figura esguia, nas suíças, na pequena calva, havia um quê de discrição de lacaio; ele sorria com doçura e em sua lapela brilhava um distintivo de alguma sociedade científica que lembrava uma plaquinha com número de lacaio.

No primeiro intervalo, o marido saiu para fumar e Anna permaneceu na poltrona. Gúrov, que também estava na plateia, aproximou-se dela e disse com voz trêmula, sorrindo forçado:

– Boa noite.

Ela olhou para ele e empalideceu, depois olhou novamente com pavor, sem crer nos seus olhos, e apertou nas mãos o leque junto com o lorgnon, aparentemente lutando consigo mesma para não desmaiar. Ficaram calados: ela, sentada; ele, de pé, assustado com o constrangimento dela e sem coragem de se sentar ao seu lado. Soaram as afinações dos violinos e das flautas; de repente os dois ficaram apavorados, pois parecia que de todos os camarotes olhavam para eles. Ela se levantou bruscamente e caminhou depressa para a saída; ele a seguiu e eles foram andando sem saber para onde, pelos corredores, pelas escadas, ora subindo, ora descendo, e na sua frente perpassavam uniformes de funcionários do judiciário, de professores de escolas, de servidores do udel, todos com distintivos; vislumbravam-se rapidamente senhoras andando, casacos de pele pendurados nos cabides, e soprava um vento encanado que espalhava o cheiro de tabaco das pontas de cigarros. Gúrov, com o coração batendo apressado, pensava: “Ó Deus, para que essas pessoas, essa orquestra...”.

Nesse momento, de repente ele se lembrou que naquela noite, na estação, ao se despedir de Anna Serguêievna, ele dissera a si mesmo que tudo estava terminado e que eles não se veriam mais. Mas como ainda estava distante o fim!

Numa escada estreita, sombria, onde estava escrito “Entrada para o anfiteatro”, ela parou.

– Que susto o senhor me deu! – disse ela ofegante, ainda pálida e aturdida. – Ai, como me assustou! Estou quase morta. Para que veio aqui? Para quê?

– Me entenda, Anna, me entenda... – disse ele rápido e em voz baixa. – Eu lhe imploro, me entenda...

Ela olhava para ele com terror, com súplica, com amor, olhava fixamente para gravar com firmeza na memória o seu rosto.

– Eu sofro tanto! – continuou ela, sem ouvi-lo. – Todo o tempo só penso no senhor, minha vida é pensar no senhor. E só o que eu queria era esquecer, apenas esquecer. Mas por que, por que o senhor veio?

Num patamar acima deles, dois alunos do ginásio fumavam e olhavam para baixo, mas Gúrov não se importou, puxou Anna Serguêievna para si e começou a beijar seu rosto, suas mãos.

– Que está fazendo, que está fazendo! – dizia ela aterrorizada, afastando-o de si. – Nós dois enlouquecemos. Parta hoje mesmo, parta agora... Eu lhe suplico, por todos os santos, eu lhe imploro... Vem vindo gente!

Alguém vinha subindo a escada.

– O senhor deve ir embora... – sussurrou Anna Serguêievna. – Está ouvindo, Dmítri Dmítritch? Vou me encontrar com o senhor em Moscou. Eu nunca fui feliz, sou infeliz agora, e nunca, nunca serei feliz, nunca! Não me faça sofrer ainda mais! Juro que vou a Moscou. Mas agora vamos nos separar. Meu querido, meu bom amigo, meu amor, vamos nos separar!

Ela apertou a mão dele e desceu rapidamente a escada, voltando-se o tempo todo para olhá-lo, e nos seus olhos via-se que realmente ela não era feliz... Gúrov ficou ali de pé por algum tempo, de ouvido atento, depois, quando tudo silenciou, pegou seu casaco e saiu do teatro.

IV

Anna Serguêievna passou a encontrá-lo em Moscou. Uma vez a cada dois ou três meses, ela partia de S. e dizia ao marido que ia consultar um professor por causa de um problema ginecológico – o marido acreditava e não acreditava. Em Moscou, ela se hospedava no Slaviánski Bazar[66] e imediatamente enviava a Gúrov um mensageiro. Gúrov ia vê-la e ninguém em Moscou sabia disso.

Ele caminhava ao encontro dela no hotel, em certa manhã de inverno (o mensageiro estivera em sua casa na noite anterior, mas não o encontrara), e com ele ia sua filha, que ele tivera vontade de acompanhar até o ginásio, localizado no caminho. Caía uma neve graúda e úmida.

– Está fazendo três graus acima de zero e mesmo assim está nevando – dizia Gúrov à filha. – É porque está quente apenas na superfície da terra. Já nas camadas mais altas da atmosfera a temperatura é completamente diferente.

– Papai, por que não há trovões no inverno?

Ele explicou isso também. Enquanto falava, ele pensava que estava indo para um encontro e que ninguém sabia disso, e provavelmente ninguém jamais saberia. Ele tinha duas vidas: uma evidente, que aqueles que achavam isso importante viam e conheciam, uma vida cheia de verdades convencionais e de mentiras convencionais, exatamente igual à vida de seus conhecidos e amigos; e outra vida que transcorria em segredo. Por uma estranha e talvez fortuita coincidência, tudo o que para ele era relevante, interessante, indispensável, aquilo em que ele era sincero e não enganava a si mesmo, que constituía o âmago de sua vida, não era do conhecimento das outras pessoas, e tudo o que era sua mentira, sua casca, na qual ele se escondia para encobrir a verdade, como, por exemplo, seu trabalho no banco, as discussões no clube, sua “raça inferior”, o comparecimento com a esposa aos jubileus, tudo isso transcorria às claras. E ele julgava os outros por si mesmo, não acreditava no que via, supondo sempre que para cada pessoa, sob o manto do segredo, assim como sob o manto da noite, se passava a sua verdadeira vida, a mais interessante. Cada existência pessoal sustenta-se no segredo, e talvez seja por isso que o homem educado exige tão nervosamente respeito à sua privacidade.

Depois de deixar a filha no ginásio, Gúrov se dirigiu ao Slaviánski Bazar. Ainda na portaria tirou o casaco de pele, subiu e bateu levemente na porta. Anna Serguêievna, com o vestido cinza de que ele mais gostava, cansada da viagem e da espera, aguardava-o desde a noite anterior; estava pálida, olhava para ele sem sorrir e, assim que ele entrou, apertou-se contra o seu peito. Como se tivessem passado uns dois anos sem se ver, seu beijo foi longo, demorado.

– Então, como vai a vida lá? – perguntou ele. – Quais as novidades?
– Espere, já vou dizer... Não consigo.
Ela não conseguia falar porque estava chorando. Ficou de costas para ele e cobriu os olhos com o lenço. “Bem, que chore um pouco, enquanto isso vou me sentar” – pensou ele, acomodando-se na poltrona.

Depois tocou a sineta e pediu que trouxessem chá; e enquanto ele bebia o chá, ela continuava de pé, voltada para a janela... Ela chorava porque sentia angústia e também porque tinha a amarga consciência do rumo triste que suas vidas haviam tomado; eles se viam apenas às escondidas, ocultavam-se dos demais como se fossem ladrões! Por acaso as suas vidas não estavam destruídas?

– Ora, vamos, pare de chorar! – disse ele.

Estava evidente para ele que aquele amor não terminaria tão cedo, mas quando, isso era impossível saber. Anna Serguêievna apegava-se a ele cada vez mais, adorava-o, e seria inconcebível dizer a ela que aquilo algum dia deveria ter um fim; e ela nem acreditaria nisso.

Ele se aproximou e pôs as mãos nos seus ombros, para fazer um carinho, um gracejo, e nesse momento viu-se no espelho.

Seus cabelos já começavam a ficar grisalhos. Ele achou estranho que tivesse envelhecido tanto ultimamente e que estivesse com tão má aparência. Os ombros em que descansavam suas mãos estavam quentes e tremiam. Sentiu compaixão por essa vida que ainda tinha calor e beleza, mas que provavelmente já estava próxima de começar a perder a cor e a murchar, do mesmo modo que a vida dele. Por que ela o amava daquela maneira? Ele sempre parecera às mulheres ser outra pessoa, diferente do que era na realidade, e elas amavam não a ele, mas alguém que sua imaginação havia criado, alguém que elas procuravam ansiosamente em suas vidas. E, mais tarde, quando percebiam seu engano, ainda continuavam a amá-lo. E nenhuma fora feliz com ele. O tempo passava, ele conhecia outra mulher, começava uma nova relação, depois se afastava, mas não amou nem uma vez; chame-se aquilo como se quiser, apenas não era amor. E somente agora, quando sua cabeça já estava ficando grisalha, ele começou a amar de verdade, como deveria – e pela primeira vez em sua vida.

Anna Serguêievna e Gúrov amavam-se como duas pessoas muito íntimas, como marido e mulher, como ternos amigos; parecia-lhes que o próprio destino escolhera um para o outro, e não entendiam por que ele tinha uma esposa e ela um marido; era como se eles fossem duas aves migratórias, macho e fêmea, que foram capturadas e obrigadas a viver em gaiolas separadas. Eles perdoaram um ao outro aquilo de que se envergonhavam no seu passado, perdoaram tudo do presente e sentiam que seu amor havia transformado a ambos.

Antes, nos momentos tristes, ele se tranquilizava com todo tipo de racionalizações que viessem à sua cabeça, mas agora ele não queria ser racional, pois a compaixão que sentia era profunda e ele queria ser sincero, carinhoso.

– Pare de chorar, minha querida – dizia ele –, chorou um pouco, já chega... Agora vamos conversar, pensar em alguma coisa...

Eles ficaram longamente trocando conselhos, falaram de como se livrar da necessidade de se esconder, de enganar, de viver em cidades diferentes, de ficar muito tempo sem se ver. Como se livrar dessas cadeias insuportáveis?

– Como? Como? – perguntava ele com as mãos na cabeça. – Como?

E parecia que, mais um pouquinho, a solução seria encontrada, e então uma nova vida começaria, uma vida maravilhosa; porém, para ambos estava claro que ainda estava muito longe o fim e que o mais complicado e difícil estava apenas começando.

Dezembro de 1899

RECUERDO CALIENTE, por Jorge Moraes

RECUERDO CALIENTE

Fez-se o solo intumescido,
Fertilizando sementes;
E elevaram-se imponentes
Como guardas perfilados;
E os tenros botões dourados
Transmutaram-se em pingentes:
De verde em rubro “caliente”
De frutos já sazonados.

Há neste simples recuerdo,
Cultivado com esmero
Não apenas um tempero
Para aguçar paladares;
Notarás, ao degustares,
Que a vida requer prudência,
Mas é soberba a existência
Apesar de seus pesares.

Sê comedido na ingesta;
Bota tenência ao alarde
Em excesso, a língua arde
E o calorão atropela;
Portanto, mantém cautela
E sorve de vagarinho
Gelados, água ou vinho
Pra refrescar a goela.

Se por ventura a estirpe
For ferida no seu brio,
Não é qualquer desafio
Que um índio macho rejeita:
“Prende o dente” e te deleita,
Mas cuida que não te traia
Uma lágrima que caia
E a bravura ser desfeita.

Convém destacar ainda
Que, dentre seus componentes,
Há valiosos nutrientes
Ao fluxo circulatório;
E, é público e notório,
Assim prega a medicina
Que ela também elimina
Processos inflamatórios.

As fronteiras se ampliaram
Na mais recente pesquisa,
E a ciência a preconiza
No tratamento ao obeso,
E não só reduz o peso:
Colesterol também cede,
E o benefício procede
Se quiser ficar reteso.

Seria dedo-de-moça,
Se não fosse a transgenia,
E até parece ironia,
Mas é a mais pura verdade;
Quem sabe esta variedade
Cujo nome desconheço
Batiza-se pelo apreço
De pimenta da amizade.

Inspirou-me o jardineiro
Com o lavor que o deleita;
E ao proceder à colheita
Cada fruto o gratifica;
E jubiloso o dedica
Aos amigos, com estima
E num gesto que o sublima
Quem divide, multiplica.

Jorge Moraes

Oficina de escrita literária Inspiraturas, em Pelotas

Oficina de escrita literária Inspiraturas - o fim da página em branco - A ti, que ainda acreditas na escrita, em especial a Poesia, como ...

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