Queremos o fim da página em branco. No projeto Inspiraturas, exploramos estímulos muito diversificados que têm no grupo a base fundamental. Daí, podemos treinar e desenvolver uma escrita mais sensível, espontânea e livre. Uma forma lúdica de derramar as palavras ainda não escritas.

Oficina de Escrita Literária - POESIA - on line

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Despertar poesia - Inspiraturas
vivências de poesia para iniciantes e amadores
com ênfase na escritura de poemas
exercícios lúdicos e práticas de escrita criativa
subsídios teóricos para a produção de poemas autorais
incentivo à troca de experiências, impressões e sugestões
acompanhamento da produção e dos resultados
Às segundas-feiras, 19:30h até 22h na Casa do Poeta Inspiraturas - Pelotas RS
início em junho. Apenas oito vagas - 70$mês
www.inspiraturas.com
whatsapp 53991212552
oficinainspiraturas@gmail.com

26 de dez de 2017

Colors, por Véio China

COLORS

Todos se amotinaram, relataram
A raiz, o cubo, e a dura verdade
Tons turvos que no ar evaporam
As cenas isentas de simplicidade

São dedos que apontam o que restou
É a solidão alcoolizada nas metáforas
São as nostalgias  que o vento exalou
Pássaro em riste sem  voo de alforria

Foram  ilusões  impondo o dolo e a crença
Pruma  sobrevida  de sensores emperrados
Um doce gosto de engano na boca criança
A farsa das traições nos olhos apaixonados

Sim, todos foram nos legando coisas extraídas
Numa existência que só agora as dívidas cobra
Nestas cicatrizes que hoje relembram  histórias
De mim, o tolo expulsando amores cova afora

Assim, jamais haverá o porquê de me queixar
Das  tonalidades dos olhos que  me quiseram
Todos estiveram ao meu alcance, aquém mar
Olhares nus, incautos, e que  tudo expuseram

Entretanto, não permiti o decifrar das matizes

Copirraiti02Fev2014
Véio China©

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Véio China, um poeta? Contista? Talvez nem um, nem outro. Mas apenas se diverte escrevendo

Figuras de linguagem - exercícios

Figuras de linguagem - exercícios

Nos exercícios de número 1 a 22, faça a associação de acordo com o seguinte código:

a) elipse

b) zeugma

c) pleonasmo

d) polissíndeto

e) assíndeto

f) hipérbato

g) anacoluto

h) silepse de gênero

i) silepse de número

j) silepse de pessoa

l) anáfora

m) anástrofe

1. (   ) “Dizem que os cariocas somos pouco dados aos jardins públicos.”(Machado de Assis)

2. (   ) “Aquela mina de ouro, ele não ia deixar que outras espertas botassem as mãos.” (José Lins do Rego)

3. (   ) “Este prefácio, apesar de interessante, inútil.” (Mário Andrade)

4. (   ) “Era véspera de Natal, as horas passavam, ele devia de querer estar ao lado de lá-Dijina, em sua casa deles dois, da outra banda, na Lapa-Laje.” (Guimarães Rosa)

5. (   ) “Em volta: leões deitados, pombas voando, ramalhetes de flores com laços de fitas, o Zé-Povinho de chapéu erguido.” (Aníbal Machado)

6. (   ) “Sob os tetos abatidos e entre os esteios fumegantes, deslizavam melhor, a salvo, ou tinham mais invioláveis esconderijos, os sertanejos emboscados. “ (Euclides da Cunha)

7. (   ) V. Exa. está cansado?

8. (   ) “Caça, ninguém não pegava... (Mário de Andrade)

9. (   ) “Mas, me escute, a gente vamos chegar lá.”(Guimarães Rosa)

10. (   ) “Grande parte, porém, dos membros daquela assembleia estavam longe destas ideias.”(Alexandre Herculano)

11. (   ) “E brinquei, e dancei e fui

Vestido de rei....”(Chico Buarque)

12. (   ) “Wilfredo foge. O horror vai com ele, inclemente. Foge, corre, e vacila, e tropeça e resvala, E levanta-se, e foge alucinadamente....”(Olavo Bilac)

13. (   ) “Agachou-se, atiçou o fogo, apanhou uma brasa com a colher, acendeu o cachimbo, pôs-se a chupar o canudo do taquari cheio de sarro.” (Graciliano Ramos)

14. (   ) “Tão bom se ela estivesse viva me ver assim.” (Antônio Olavo Pereira)

15. (   ) “Coisa curiosa é gente velha. Como comem!” (Aníbal Machado)

16. (   ) “Sonhei que estava sonhando um sonho sonhado.”(Martinho da Vila)

17. (   ) “Rubião fez um gesto. Palha outro; mas quão diferentes.”( Machado de Assis)

18. (   ) “Estava certo de que nunca jamais ninguém saberia do meu crime.” (Aurélio Buarque de Holanda)

19. (   ) “Fulgem as velhas almas namoradas....

 Almas tristes, severas, resignadas,

De guerreiros, de santos, de poetas. “ (Camilo Pessanha)

20. (   ) “Muita gente anda no mundo sem saber pra quê: vivem porque veem os outros viverem.” (J. Simões Lopes Neto)

21. (   ) “Um mundo de vapores no ar flutua.” (Raimundo Correa)

22. (   ) “Tende piedade de mulher no instante do parto.

Onde ela é como a água explodindo em convulsão

Onde ela é como a terra vomitando cólera

Onde ela é como a lua parindo desilusão.” (Vinícius de Morais)

Nos exercícios de números 23 a 40, faça a associação de acordo com o seguinte código:

a) metáfora

b) comparação

c) prosopopeia

d) antonomásia

e) metonímia

f) sinédoque

g) sinestesia

h) onomatopeia

i) aliteração

j) catacrese

23. (   ) “Asas tontas de luz, cortando o firmamento!” (Olavo Bilac)

24. (   ) “Redondos tomates de pele quase estalando.”(Clarice Lispector)

25. (   ) “O administrador José Ferreira

Vestia a mais branca limpeza.” (João Cabral de Melo Neto)

26. (   ) “A cidade inteira viu assombrada, de queixo caído, o pistoleiro sumir de ladrão, fugindo nos cascos de seu cavalo.” (José Cândido de Carvalho)

27. (   ) “A noite é como um olhar longo e claro de mulher. “ (Vinícius de Morais)

28. (   ) A virgem dos lábios de mel é um das personagens mais famosas de nossa literatura.

29. (   ) “O pé que tinha no mar a si recolhe.” (Camões)

30. (   ) “Se os deuses se vingam, que faremos nós os mortais? “ ( V. Bergo)

31. (   ) “Solução onda trépida e lacrimosa; geme a brisa folhagem; o mesmo silêncio anela de opresso.” ( José de |Alencar)

32. (   ) “Avista-se o grito das araras.” (Guimarães Rosa)

33. (   ) “Da noite a tarde ea taciturna trova

Soluça...”

34. (   ) “O Forte ergue seus braços para o céu de estrelas e de paz.” ( Adonias Filho)

35. (   ) “Lá fora a noite é um pulmão ofegante.” (Fernando Namora)

36. (   ) “O meu abraço te informará de mim.” (Alcântara Machado)

37. (   ) “Iam-se as sombras lentas desfazendo

Sobre as flores da terra frio orvalho. “( Camões)

38. (   ) “Não há criação nem morte perante a poesia

Diante dela, a vida é um sol estático

Não aquece, nem ilumina” (Carlos Drummond de Andrade.)

39. (   ) “Um olhar dessa pálpebra sombra.” (Álvares de Azevedo)

40. (   ) “O arco-íris saltou como serpente multicolor nessa piscina de desenhos delicados. “ (Cecília Meireles)

Nos exercícios de números 41 a 50, faça a associação de acordo com o seguinte código:

a) ironia

b)eufemismo

c) antítese

d) paradoxo

e) hipérbole

f) gradação

41. (   ) “Na chuva de cores

Da tarde que explode

A lagoa brilha (Carlos Drummond de Andrade)

42. (   ) “Nasce o sol, e não dura mais que um dia.

Depois de luz, se segue a noite escura,

Em tristes sombras morre a formosura

Em contínuas tristezas, a alegria.” (Gregório de Matos)

43. (   ) “Se eu pudesse contar as lágrimas que chorei na véspera e na manhã, somaria mais que todas as vertidas desde Adão e Eva. “(Machado de Assis)

44. (   ) “Todo sorriso é feito de mil prantos,

toda vida se tece de mil mortes.”( Carlos de Laet)

45. (   ) “Eu era pobre. Era subalterno. Era nada.” (Monteiro Lobato)

46. (   ) “Residem juntamente no teu peito

Um demônio que ruge e um deus que chora.” (Olavo Bilac)

47. (   ) “Quando a indesejada das gentes chegar.” (Manuel Bandeira)

48. (   ) “Voando e não remando, lhe fugiram. “ (Camões)

49. (   ) “O dinheiro é uma força tremenda, onipotente, assombrosa.” ( Olavo Bilac)

50. (   ) “Moça linda, bem tratada, três séculos de família, burra como uma porta: um amor.” (Mário de Andrade)

Identifique nos textos abaixo os tipos de recursos expressivos que ocorrem.

      51. “Olha a bolha d’água

      no galho

      Olha o orvalho!” (Cecília Meireles)

      R.

      52. “Bomba atômica que aterra!

      Pomba atônita da paz!

      Pomba tonta, bomba atômica.” (Vinícius de Morais)

      R.

      53. “Belo belo belo.

      Tenho tudo quanto quero.” (Manuel Bandeira)

      R.

      54. “Não quero amar,

      Não quero ser amado,

      Não quero combater

      Não quero ser soldado.”(Manuel Bandeira)

      R.

      55. “Lá vem o vaqueiro, pelos atalhos,

      tangendo as reses para os currais...

      Blém... Blém... blém... cantam os chocalhos

      dos tristes bodes patriarcais.” (Ascenso Ferreira).

      R.

      56. “dúvida sombra

      Sem dúvida na sombra

      Na dúvida, sem sombra.” (Haroldo de Campos)

      R.

      57. “E fria, fluente, frouxa claridade

      Flutua como as brumas de um letargo....“ (Cruz e Souza)

      R.

      58. “A onda anda

      aonde anda

      a onda?

      a onde ainda

      ainda onda

      ainda onda

      aonde?

      aonde?

      a onda a onda.” (Manuel Bandeira)

      R.

Estabeleça a correlação:

      a) assonância

      b) paronomásia

      c) onomatopeia

      d) aliteração

      59. (   ) “Se você gritasse

      Se você gemesse,

      se você tocasse

      a valsa vienense,

      se você dormisse

      se você cansasse

      se você morresse

      Mas você não morre,

      você é duro, José!” (Drummond)

      60. (   ) Rua

      torta,

      Lua

      morta.

      Tua

      porta.” (Cassiano Ricardo)

      61. (   ) “Diamante. Vidraça

      arisca, áspera asa risca

      o ar. E brilha. E passa.” (Guilherme de Almeida)

      62. (   ) “É pleno dia. O ar cheira a passarinho,

      O lábio se dissolve em açúcares breves.

      O zumbido da mosca embalança de sede.

      .... Assurbanipa!....”(Mário de Andrade)

      63. (   ) “Do amor morto motor da saudade

      (...)

      Divindade do duro totem futuro total” (Caetano Veloso)

Nomeie as figuras encontradas nos exercícios abaixo:

      64. (   ) “Adeus: vamos para a frente,

      recuando de olhos acesos.” (Drummond)

      R.

      65. “Plantava tudo que era verdura, que ficavam velhas no chão. “(José Lins do Rego)

      R.

      66 “A igreja era grande e pobre. Os altares, humildes.” (Carlos Drummond de Andrade)

      R.

      67. “Algumas janelas, aqui e ali, continuam acesas, esquecidas da noite que se foi.”( Fernando Sabino)

      R.

      68. “- Ninguém não vê nem um pé de cana.” (J. Lins do Rego)

      R.

      69. “E o olhar estaria ansioso esperando

      e a cabeça ao saber da mágoa balançando

      e o coração fugindo e o coração voltando

      e os minutos passando e os minutos passando...”

      (Vinícius de Morais)

      R.

      70. “E os sessenta milhões de brasileiros falamos e escrevemos de inúmeras maneiras a língua que nos deu Portugal.”

      (Raquel de Queirós)

      R.

      71. “Guardei na memória pedaços de conversas.”

      (Graciliano Ramos)

      R,.

      72. “Essas que ao vento vêm

      Belas chuvas de junho!” (Joaquim Cardoso)

      R.

      73. “Foi por ti que num sonho de ventura

      a flor da mocidade consumi.” (Álvares de Azevedo)

      R.

      .

Identificar nos textos abaixo as figuras presentes nas frases:

      74. (   ) “A casa tem muitas gavetas

      e papéis, escadas compridas.

      Quem sabe a malícia das coisas

      quando a matéria se aborrece?” (Drummond)

      a) antítese b) assíndeto c) prosopopeia d) catacrese

      e) comparação.

      75. (   ) “Senhora, partem tão tristes

      meus olhos por vós, meu bem,

      que nunca tão tristes vistes

      outros nenhum por ninguém.” (Camões)

      a) metáfora e sinestesia

      b) silepse e catacrese

      c) catacrese e comparação

      d) anáfora e hipérbole

      e) hipérbato e sinédoque

      76. (   ) “O préstito passando

      Bando de clarins em cavalos fogosos

      Utiaritis aritis assoprando cometas sagradas

      Fanfarras fanfarrans

      fenferrens

      finfirrins

      forrobodó de cuia.” (Mário de Andrade)

      a) aliteração e metáfora

      b) comparação e silepse

      c) onomatopeia e aliteração

      d) onomatopeia e metáfora

      e) prosopopeia e comparação

Relacione as figuras de palavras:

      a) sinestesia d) metonímia

      b) catacrese e) sinédoque

      c) metáfora f) comparação

      77. (   ) “Deixe em paz meu coração

      Que ele é um pote até aqui de mágoa.”(Chico Buarque)

      78. (   ) “... como um lustro de seda dentro de um confuso montão de trapos de chita.” (Raquel de Queirós)

      79. (   ) “Por uma única janela envidraçada, entravam claridades cinzentas e surdas, sem sombras.” (Clarice Lispector)

      80. (   ) Folheada, a folha de um livro retoma....”

      (João Cabral de Melo Neto)

      81. (   ) “Navegam fome e cansaço nas profundezas do rio.” (Mauro Mota).

      82. (   ) “A cidadezinha está calada, entrevada.” (Carlos Drummond de Andrade)

Relacione as figuras de construção:

      a) silepse de gênero f) anáfora

      b) elipse g) pleonasmo

      c) zeugma h) hipérbato

      d) assíndeto i) anacoluto

      e) polissíndeto j) silepse de número

      l) silepse de pessoa

      83. (   ) “Política, Samuel não discutia.” (Carlos Drummond de Andrade)

      84. (   ) “Eu, parece-me que sim; pelo menos nada conheço, que se lhe aparente.” (Mário de Sá Carneiro)

      85. (   ) “Vossa Senhoria pode ficar descansado; não digo nada; cá estou para outras.”( Machado de Assis)

      86. (   ) “Os outros reparos, aceitei-os todos.”

      (Mário de Andrade)

      87. (   ) “Entramos os cinco, em fila, na sacristia escura.”

      (Carlos Drummond de Andrade)

      88. (   ) “Ama, e treme, e delira, e voa, e foge e engana.”

      (Alberto de Oliveira)

      89. (   ) “- E o povo de Marvalha? perguntava ele aos canoeiros.

      - Estão em São Miguel.” (José Lins do Rego)

      90. (   ) “Tenho certeza que fala de amor.”(Otto Lara Resende).

      91. (   ) “noite sem lua, concha sem pérola”( Guimarães Rosa).

      92. (   ) “Tudo cura o tempo, tudo gasta, tudo digere.”( Vieira)

      93. (   ) “Não nos movemos, as mãos é que se estenderam pouco a pouco, todas quatro,pegando-se, apertando-se, fundindo-se.” (Machado de Assis)

Relacione as figuras de pensamento:

      a) antítese

      b) paradoxo

      c) ironia

      d) eufemismo

      e) hipérbole

      f) gradação

      g) prosopopeia ou personificação

      apóstrofe

      94. (   )“Parece que toda cidade precisava ter um louco na rua para chamar o povo à razão.” (José J Veiga)

      95. (   )“E me beija com alma e fundo/ até minh’alma se sentir beijada...” (Chico Buarque)

      96. (   ) “Holanda defenderá a verdade de vossos sacramentos. Holanda edificará templos, Holanda levantará altares...” (Vieira)

      97. (   )“As florestas ergueram os braços peludos.” (Raul Bopp)

      98. (   ) “Colombo, fecha a porte dos teus mares.” (Castro Alves)

      99. (   ) “Tendes a volúpia suprema da vaidade, que é a vaidade da modéstia.” (Machado de Assis)

      100. (   ) “Gente que nasceu, amou, sofreu aqui.” (Fernando Brandt)

      101. (   ) “E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir. Deus lhe pague.” (Chico Buarque)

Relacione as figuras de som:

      a) aliteração

      b) assonância

      c) paronomásia

      d) onomatopeia

      102. (   ) “Leis perfeitos seus peitos direitos

      me olham assim

      fino menino me inclino

      pro lado do sim

      rapte-me adapte-me capte-me coração.”

      (Caetano Veloso)

      103.(   ) “Plunct, plact, zum, você não vai a lugar nenhum.” (Raul Seixas)

      104, (   ) “Toda gente homenageia Januária na janela.” (Chico Buarque)

      105. (   ) “Há um pinheiro estático e extático.” (Rubem Braga)


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Gente de papel e tinta: A construção de personagens numa oficina de Escrita Criativa


Gente de papel e tinta: A construção de personagens numa oficina de Escrita Criativa

João de Mancelos

mancelos@live.com, Universidade de Aveiro  
   

1. À redescoberta dos heróis

No último Outono, ao arrumar o sótão, descobri uma velha caixa de cartão, contendo alguns dos mais preciosos tesouros literários da minha infância e adolescência. Decorreram três dezenas de anos, desde a última vez que folheei aqueles romances de aventuras intemporais. O Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes, a segunda obra mais vendida a seguir à Bíblia, já perdera a capa e a lombada cedera ao meu manuseamento entusiástico. O Tarzan, de Edgar Rice Burroughs, adormecia sob uma camada de pó, o seu grito na selva há muito silenciado. A Ilha do Tesouro, de Robert Lewis Stevenson, amarelecera e apresentava agora a cor das moedas de ouro que os piratas tanto procuraram.
Português: Investigação e Ensino Número temático - dezembro 2012
 
Tal como milhões de leitores, pelo mundo fora e ao longo de várias gerações, também eu amara aqueles heróis. Melhor ainda, imitara-os, pois, segundo o aforismo do dramaturgo inglês Oscar Wilde, a vida reproduz mais a arte do que o oposto (Wilde, 1909: 46). Em criança, bastava-me uma espada de madeira para ser o Cavaleiro da Triste Figura e percorrer as planícies morenas de La Mancha em busca de uma Dulcineia que, na minha realidade, usava tranças, aparelho nos dentes. Na infância, a imaginação governa-nos descuidadamente e os livros alimentam a necessidade de sermos quem gostaríamos, mais do que poderíamos. A História da Literatura prova que as grandes personagens fazem as grandes obras; algumas, como D. Quixote ou Lolita, fixaram-se até na cultura comum e na linguagem quotidiana: fala-se de um político quixotesco, por causa do seu discurso utópico, ou de uma adolescente atrevida que se comporta como uma lolita nabokoviana por apreciar a companhia de homens mais velhos. Apesar da relevância incontornável dos heróis, na maioria das vezes, os alunos do Ensino Secundário centram as composições excessivamente no enredo e descuram a construção das personagens. Tal fragiliza as histórias e dificulta a adesão do leitor aos protagonistas, que carecem de realismo. Acredito ser possível contrariar esta situação, recorrendo a algumas técnicas e exercícios, realizáveis no contexto de uma lição ou de uma oficina de Escrita Criativa. Neste artigo, abordo diversas questões: como imaginar um herói de uma história infanto-juvenil? Que nome atribuir-lhe? Haverá vantagem em mostrar em vez de contar? Como criar empatia com o leitor?

2. Passear com o amigo invisível

Através do pacto da ficção, o autor de uma história compromete-se a mentir bem, enquanto o leitor finge acreditar, numa cumplicidade fantástica, que nos retira momentaneamente do nosso quotidiano. Trata-se de uma necessidade básica de alimentar o imaginário, ou um desejo esforçado de transcender a humana condição. Dizia o poeta norte-americano Thomas Stearns Eliot, que “o Homem não consegue suportar tanta realidade” (Eliot, 1963: 190). Para que um escritor minta bem — isto é, de forma credível —, tem de ele próprio fingir que as suas personagens existem no mesmo mundo que habita. Neste espírito, costumo sugerir aos alunos um exercício muito simples, que explico no meu livro Introdução à Escrita Criativa: [Convide] a personagem para um passeio no parque da cidade ou numa praia, onde possa, sossegadamente, entrevistá-la. Não pretendo, com esta sugestão, que o aprendiz de escritor se sente num banco de jardim a falar sozinho; esse inquérito pode ser mental. Não se esqueça de levar um lápis e um bloco de notas, para registar os seguintes dados: a) Elementos básicos: nome, sexo, idade; b) Etnia e nacionalidade; c) Aspecto físico; d) Traços psicológicos (qualidades, defeitos, manias divertidas, passatempos); (…) f) Vida familiar (estado civil, relações familiares); g) Vida social (amigos, associações e ginásio que frequenta); h) Vida amorosa e orientação sexual; i) Religião e vida espiritual; j) Opções políticas; k) Nível de inteligência; l) Cultura; educação; m) Emprego e ambições profissionais (ou ausência destas); n) Discurso (formal, informal, gíria, pronúncia, etc.). (Mancelos, 2009: 67-68) Apenas uma parcela destes dados será utilizada na história, até para não maçar o público com pormenores entediantes como o número das botas que o pirata calçava. Contudo, nesta primeira fase, o registo de todos os elementos acerca da personagem é importante porque a torna mais real na imaginação do escritor e, concomitantemente, no cérebro de quem lê.

Após ter criado a ficha da personagem, o jovem autor deverá fingir que é Deus e insuflar vida na sua personagem. Costumo dar como exemplo de um herói ou anti-herói particularmente bem concebido o Dom Quixote. As primeiras páginas desse romance resistiram à passagem do tempo, com o mesmo sabor: Num lugar da Mancha, cujo nome não quero lembrar-me, vivia, não há muito, um fidalgo, dos de lança em cabido, adarga antiga, rocim fraco, e galgo corredor. (…)  Orçava na idade o nosso fidalgo pelos cinquenta anos. Era rijo de compleição, seco de carnes enxuto de rosto, madrugador e amigo da caça. (…) É pois de saber que este fidalgo, nos intervalos que tinha de ócio, (que eram os mais do ano), se dava a ler livros de cavalaria, com tanta afeição e gosto, que se esqueceu quase de todo do exercício da caça e até da administração dos seus bens; e a tanto chegou a sua curiosidade e desatino neste ponto, que vendeu muitas courelas de semeadura para comprar livros de cavalarias que ler; com que juntou em casa quantos pôde apanhar daquele género. (Cervantes, 2009: 15-16) Parece estar viva, esta personagem de papel e tinta. Mais ainda, suscita de imediato o interesse e a empatia do leitor, sobretudo se for, como a maioria de nós, um fã dos romances de aventuras. A imagem do fidalgo com armas obsoletas e ferrugentas faz rir, mas o seu espírito de sonhador (uma criança grande, apesar de já contar cinquenta anos), leva-nos a amá-lo. E, tal como provavelmente as gerações de leitores que apreciam a literatura de cavalaria, também este fidalgo arruinado coleciona calhamaços e se deleita com as proezas alheias, imaginando-se no lugar dos heróis. Nas próximas páginas analiso alguns destes aspectos, que concorrem para quem uma personagem tenha o sopro da vida: a escolha do nome, a caraterização, a empatia.


3. O que esconde um nome?

Batizar uma personagem não é uma tarefa tão fácil nem leviana como pode parecer a um escritor aprendiz. O maior poeta em língua inglesa perguntava em Romeu e Julieta: “What’s in a name?” (Shakespeare, 2004: 55). O que se esconde, de facto, num nome? De que forma este realça aspetos da personalidade ou aparência de uma personagem? Dulce pode ser uma rapariga doce, Severina, uma mulher severa, por exemplo. Num artigo intitulado “A Arte de Chamar Nomes”, que publiquei na minha secção mensal da revista Os Meus Livros, sugiro aos jovens escritores uma multiplicidade de fontes onde procurar um nome para as personagens: No romance A Canção de Salomão, Toni Morrison seguiu o método usado pelos afroamericanos para batizar os filhos: abriu a Bíblia ao acaso e apontou para um versículo. Desgraçadamente, a sua personagem, uma mulher negra, herdou o nome do governador da Judeia, Pilatos. Outra autora, Celia Rees, prefere olhar para as lombadas das obras que tem na estante, e combinar nomes e apelidos de escritores famosos. Seguindo este método, por que não inventar um Fernando Camões ou um Luís Vaz Pessoa? Se a inspiração lhe falha, recorra a listas telefónicas, dicionários de mitologia ou até títulos de canções (“Layla” ou “Roxanne”). (Mancelos, 2010: 35) Ainda a propósito do batismo das personagens, aconselho os meus alunos a evitarem nomes semelhantes, como Liliana e Lília, por exemplo, para não confundirem um leitor menos atento ou mais cansado. Convém ainda ter em atenção que o nome se deve adequar ao grupo socioeconómico da personagem e à época em que esta nasceu (Marshall, 2000: 27-28). Recordo-me que na década de oitenta muitos pais batizavam os filhos com nomes de personagens das telenovelas brasileiras em voga na altura. Já nas histórias de ficção científica, designações como Spock ou Zoran, funcionam na perfeição, pois evocam culturas alienígenas que nós, os terráqueos, ignoramos (Mueller, 1995: 107).

4. Mostra-me o que não contas!

Além de uma escolha assisada do nome, o jovem escritor deve recorrer a outras formas diretas ou indiretas para caraterizar com credibilidade uma personagem, sobretudo quando esta é o protagonista ou o vilão da narrativa. Sol Stein considera cinco modos fundamentais de caraterização, a saber: atributos físicos; formas de vestir; traços psicológicos e maneirismos; ações e atitudes; diálogos (Stein, 2003: 56). Nenhum destes expedientes oferece dificuldade aos estudantes e escritores aprendizes, à exceção de uma: caraterizar através da ação. Relativamente a este aspeto, torna-se necessário explicar duas técnicas que os manuais de Escrita Criativa focam: contar e mostrar. Contar reside em fazer uma afirmação geral acerca da personalidade ou estado de espírito de um herói. Já a técnica de mostrar implica colocar a personagem em ação, dramatizar, para que essa caraterística seja inferida pelo leitor (Friel, 2004: 113). Por exemplo, o narrador pode contar que D. Quixote era um sonhador inveterado e cheio de ilusões. Contudo, para mostrar essa caraterística, deve criar uma situação em que o cavaleiro exiba plenamente a sua loucura. O célebre episódio da luta contra os moinhos de vento ilustra esta faceta de D. Quixote: (…) meteu esporas ao cavalo Rocinante, sem atender aos gritos do escudeiro, que lhe repetia serem sem dúvida alguma moinhos de vento, e não gigantes, que nem ouvia as vozes de Sancho, nem reconhecia, com o estar já muito perto, o que era; antes ia dizendo a brado: — Não fujais, cobardes e vis criaturas; é só um cavaleiro que vos investe. Levantou-se nestes comenos um pouco de vento, e começaram as velas a mover-se; vendo isto D. Quixote disse: — Ainda que movais mais braços que os do gigante Briareau, haveis de mo pagar. E dizendo isto, encomendando-se de todo o coração à sua senhora Dulcineia, pedindo-lhe que em tamanho transe o socorresse, bem coberto da sua rodela, com a lança em riste, arremeteu a todo o galope do Rocinante e se aviou contra o primeiro moinho que estava adiante. E, dando-lhe uma lançada na vela, o vento a volveu com tanta fúria, que fez a lança em pedaços, levando desastradamente cavalo e cavaleiro que foi rodando miseravelmente pelo campo fora. (Cervantes, 2009: 60) Como se deduz deste excerto bem-humorado, a técnica de mostrar é mais interessante do que a estratégia de contar, pois permite ao leitor visualizar a personagem em ação, captando traços da sua personalidade. Nas belas palavras do autor e docente de Escrita Criativa Nigel Watts: Se quer que os leitores visualizem uma cena, que as suas personagens ganhem vida, que os enquadramentos se tornem mais vívidos, dê-lhes os cheiros, as sensações, o sabor. Dois amantes a beijarem-se, saboreando o suor nos lábios um do outro; uma casa velha que cheira a maçãs e a pimenta; o tacto frio das moedas que o rapaz dos jornais lhe dá — precisamos de ouvir as coisas que ignoramos porque pensamos que são pouco importantes, convencidos que não são matéria real do drama e da vida. (Watts, 2000: 157)

Neste âmbito, costumo sugerir aos meus alunos um exercício simples: mostrar o que é apenas contado por afirmações como: “A Eva está contente”, “O Giovanni é um mafioso”, a “Sara trabalha imenso”. O estudante não pode usar os termos “contente”, “mafioso” ou o verbo “trabalhar”. O objetivo é adestrar a capacidade de pôr as personagens em plena ação.


5. Como amar um herói?

Amar os heróis é um direito inalienável de qualquer leitor. Como afirma Daniel Pennac em Como um Romance os protagonistas têm sobre nós um efeito profundo: “(…) a imaginação infla, os nervos vibram, a o coração bate mais depressa, a adrenalina corre” (Pennac, 2010: 157). Esta empatia com os protagonistas das narrativas deriva da identificação que estabelecemos com eles, página a página, sofrendo quando são derrotados, e rejubilando quando vencem as forças malignas, sejam elas reais ou moinhos de vento. É, pois, fundamental que o leitor simpatize com a causa dos protagonistas, e deteste com igual repulsa os vilões, para se estabelecer cumplicidade. Um herói inteligente e corajoso, como Harry Potter, o menino mágico que J. K. Rowling criou, ou Lizbeth Salander, a rapariga sueca perita em computadores, dos romances de Stieg Larsson, apelam ao espírito dos leitores mais jovens, ávidos de aventura. Para tanto, o autor deve criar um protagonista com qualidades e defeitos, com igual dose de audácia e de medo (Watts, 2000: 71-72). Afinal, até o Super-Homem, versão moderna de Hércules, tem os pontos fracos, notoriamente a vulnerabilidade a uma substância radioativa chamada kriptonite.  Dentre os anti-heróis, destacaria o Dom Quixote como um dos mais amados, precisamente graças à sua autenticidade, uma mistura de qualidades e fraquezas: é corajoso, mas desastrado; sonhador, porém, utópico, e com a cabeça nas nuvens, como tantos leitores. Nestas circunstâncias, é impossível não gostar dele e rir com as suas façanhas e desventuras.


6. Uma nova vida

Em conclusão, construir uma personagem memorável exige esforço e um exigente trabalho de planeamento que vai desde a escolha acertada do nome até ao uso de estratégias para criar empatia, passando pela capacidade de mostrar o herói em ação. Tal implica um conhecimento das técnicas de escrita criativa e numerosas leituras, de escritores clássicos e recentes, não só pelo prazer, mas também para tentar descobrir os segredos dos grandes autores (Oates, 2008: 12).  Afinal, o labor da escrita não resulta apenas do relâmpago da inspiração, como alguns jovens preguiçosos julgam. Na maioria das vezes, este ofício consiste em redigir, amachucar o papel, voltar ao princípio, e pacientemente insistir. Segundo o Prémio Nobel William Faulkner, tudo começa com uma personagem credível; o que autor faz é correr atrás desta, com um papel e um lápis, para tomar nota dessa nova vida que criou (Sheridan, 2009: 143).

 
Bibliografia

Cervantes, M. de. (2009). O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha. Trad. Viscondes de Castilho e de Azevedo. Estarreja: MEL Editores. Eliot, T. S. (1963). Collected Poems 1909-1962. London: Faber and Faber. Friel, J. (2004). “Writing a Novel”. In J. Newman, E. Cusick & A. La Tourette (Eds), The Writer’s Workbook. London: Arnold. 104-122. Mancelos, J. de. (2009). Introdução à Escrita Criativa. Lisboa: Colibri, 2009.
Português: Investigação e Ensino Número temático - dezembro 2012 
Mancelos, J. de. (agosto 2010). “A Arte de Chamar Nomes”. Os Meus Livros. 89, 35. Marshall, E. (2000). Novel Writing: Sixteen Steps to Success. London: A&C Black. Mueller, L., e J. D. Reynolds (1995). Creative Writing: Forms and Techniques. New York: National Textbook. Oates, J. C. (2008). A Fé de um Escritor: Vida, Técnica, Arte. Trad. Maria João Lourenço. Cruz Quebrada: Casa das Letras. Pennac, D. (2010). Como um Romance. 15ª ed. Trad. de Francisco Paiva Boleo. Lisboa: Asa. Sheridan, D. (2009). Teaching Secondary English: Readings and Applications. New York: Routledge. Stein, S. (2003). Solutions for Writers: Practical Craft Techniques for Fiction and Non-fiction. London: Souvenir Press. Shakespeare, W. (2007). The Tragedy of Romeo and Juliet. Teddington: Ecolibrary. Watts, N. (2000). Como Escrever um Romance e Conseguir Publicá-lo. Trad. José Bóia. Estoril: Edições Atena. Wilde, O. (1909). The Works of Oscar Wilde. vol. 10. London: Lamb.

Tipos de Coesão Textual


SINTAXE DE CONCORDÂNCIA

SINTAXE DE CONCORDÂNCIA

Concordância é o princípio sintático segundo o qual as palavras dependentes se harmonizam, nas suas flexões, com as palavras de que dependem. Assim:

a) os adjetivos, pronomes, artigos e numerais concordam em gênero e número com os substantivos determinados (concordância nominal).

b) o verbo concordará com o seu sujeito em número e pessoa (concordância verbal).

CONCORDÂNCIA NOMINAL

Quando o adjetivo se referir a um só nome, o substantivo concorda com ele em gênero e número.

Boa árvore não dá maus frutos.

adjetivo substantivo

Quando o adjetivo se referir a dois ou mais substantivos do mesmo gênero e do singular e vier posposto, toma o gênero deles e vai facultativamente, para o singular ou plural.

Disciplina, ação e coragem digna (ou dignas).

Quando o adjetivo se referir a dois ou mais substantivos de gêneros diferentes e do singular e vier posposto, poderá ir para o masculino plural ou concordar com o mais próximo.

Escolheste lugar e hora maus. (masculino plural)

Escolheste lugar e hora má. (concorda com o substantivo mais próximo)

Quando o adjetivo se referir a dois ou mais substantivos de gêneros diferentes e do plural e vier posposto, tomará o plural masculino ou concordará com o mais próximo.

Rapazes e moças estudiosos (ou estudiosas).

Quando o adjetivo se referir a dois ou mais substantivos de gênero e número diferente e vier posposto, poderá concordar com o mais próximo ou ir para o plural masculino.

Primos, primas e irmãs educadíssimas (ou educadíssimos).

Pode o adjetivo ainda concordar com o mais próximo quando os substantivos são ou podem ser considerados sinônimos.

Gratidão e reconhecimento profundo.

Quando dois ou mais adjetivos se referem ao mesmo substantivo determinado pelo artigo, ocorrem três tipos de construção paralelas.

Estudo as línguas inglesa e francesa.

Estudo a língua inglesa e a francesa.

Estudo a língua inglesa e francesa.

CONCORDÂNCIA VERBAL

O verbo concorda com o sujeito em número e pessoa com as seguintes regras:

Sujeito composto anteposto ao verbo: Esse fica no plural.

Ex.: O pai, a mãe e o filho estão ausentes.

Sujeito composto posposto ao verbo: Esse pode concordar com o núcleo mais próximo ou com todos os números indo para o plural.

Ex.: Está ausente o pai, a mãe e o filho.

Estão ausentes o pai, a mãe e o filho.

Sujeito composto por pronomes pessoais diferentes: O verbo vai para o plural concordando com a pessoa que possui prioridade gramatical (ou seja, 1a pessoa prevalece sobre 2a e 3a; 2a pessoa prevalece sobre a 3a).

Ex.: Eu, tu, ele e ela somos bons amigos. (eu - nós)

Tu, ele e ela sois bons amigos. (tu - vós)

Ela e tu ireis embora. (tu - vós)

Sujeito composto: Tendo seus núcleos ligados por não só ... mas também, tanto ... quanto, não só ... como, o verbo concorda com o mais próximo ou vai para o plural.

Ex.: Não só a moça, mas também o príncipe estariam pobres.

OBS.: Caso se trate de uma simples comparação, o verbo fica no singular.

Ex.: Este aumento de salário, assim como o anterior, não compensou.

Sujeito ligado por "com": O verbo irá para o plural se indicar cooperação na ação, visto que a preposição forma verdadeiro sujeito composto, eqüivalendo a "E"; se a preposição "COM" exprimir circunstância de companhia, o verbo fica no singular.

Ex.: Napoleão com seus soldados invadiram a Europa.

Egas Monis, com a mulher e os filhos, apresentou-se ao rei da Espanha.

Sujeito ligado por "ou": Levar-se-á em conta para o verbo ficar:

a) no singular:

- exclusão: Pedro ou Paulo será eleito.

- sinonímia: A glotologia ou a lingüística é uma ciência que se ocupa da linguagem humana.

b) no plural :

- inclusão: O calor ou o frio excessivo prejudicam certas plantas. (ou = e)

- antonímia: O choro ou o riso constituíam o viver daquela gente.

- retificação: O ladrão ou os ladrões não deixaram nenhum vestígio.

Sujeitos representados por "um ou outro": O verbo fica no singular.

Ex.: Uma ou outra pode alugar a casa.

Sujeito representado por "nem um, nem outro": Exige o verbo no singular.

Ex.: Afirma-se que nem um, nem outro falou a verdade.

Sujeito representado por expressão como a maioria de (a maior parte, parte de) + um nome no plural: O verbo irá para o singular ou plural.

Ex.: A maior parte dos doidos ali metidos estão (ou está) em seu perfeito juízo.

Sujeito representado por um coletivo: O verbo fica no singular, embora em escritores clássicos se encontrem exemplos de concordância não com o coletivo, mas com a idéia de plural que ele encerra (silepse).

Ex.: Mas nem sempre o povo acerta.

Sujeito representado pela palavra "que" pronome relativo: O verbo concorda em número e pessoa com o antecedente da palavra que.

Ex.: Fui eu que te vesti do meu sudário.

Não és tu que me dás felicidade.

Sujeito representado pelo pronome "quem": O verbo vai para a 3a pessoa do singular, segundo a NGB.

Ex.: Mas não sou eu quem está em jogo. (ou "estou")

Sujeito composto seguido de um aposto resumidor: O verbo concorda com a palavra resumidora e não com o sujeito composto. Geralmente o aposto vem expresso por um pronome indefinido.

Ex.: Jogos, convenções, espetáculos, nada o distraía.

Desvios, fraudes, roubos, tudo era permitido.

Verbo + pronome apassivador "se": Concorda com o sujeito paciente em número e pessoa.

Ex.: Ouviam-se aplausos no salão.

Compram-se livros usados.

Vendem-se apartamentos. (sujeito paciente)

Verbo + índice de ideterminação do sujeito "se”: Fica o verbo na 3a pessoa do singular. Os verbos são os Transitivo Indireto, o Intransitivo e o de Ligação.

Ex.: Precisa-se de carpinteiros.

Gosta-se de praias naquela região.

Necessita-se de outras explicações.

Verbos impessoais: Ficam na 3a pessoa do singular, não possuem sujeito:

a) O verbo haver no sentido de existir, acontecer.

Ex.: Havia dois alunos no corredor.

Houve fatos estranhos naquela cidadezinha.

b) Os que indicam fenômenos da natureza: chover, ventar, nevar, gear, etc.

c) Os verbos haver, fazer, estar, ir, ser (com referência a tempo) .

Ex.: três dias que não o vejo.

Faz quatro meses que não nado.

Vai em dois anos ou pouco mais que...

É Cedo.

Está frio.

O verbo "dar", "bater", "soar" + hora (s): Esses verbos concordam com o sujeito expresso hora(s):

Ex.: Deram há pouco nove horas!

Bateram devagar dez horas!

Soaram cinco horas no relógio.

O VERBO "SER"

a) Com as palavras tudo, isto, isso, aquilo, o (que) e o predicativo no plural, o verbo ser também pode ir para o plural ou ficar no singular.

Ex.: Tudo eram memórias na infância.

Isto não são coisas que você possa dizer.

Tudo são flores.

b) O sujeito que dá nome a pessoa concorda com o verbo ser.

Ex.: O filho é as alegrias do pai.

c) O sujeito que dá nome a algo pede o verbo concordando com o predicativo no plural.

Ex.: O problema são as suas dívidas.

d) O pronome pessoal sujeito ou predicativo pede a concordância do verbo com ele.

Ex.: Ele era todo ouvidos e angústia.

O trouxa neste caso fui eu.

e) As expressões é muito, é pouco, é mais de, é menos de, é tanto, quando indicam preço, quantidade, peso ficam com o verbo no singular.

Ex.: Duas horas não é tanto assim.

Oitocentos gramas é muito.

f) Em horas, datas e distâncias, o verbo ser é impessoal e concorda com predicativo.

Ex.: Hoje são quatorze de outubro. / Hoje é dia quatorze de outubro.

(predicativo) (predicativo)

É zero hora em São Paulo.

São dez horas da manhã.

EXERCÍCIOS – CONCORDÂNCIA VERBAL
I. Faça a Concordância Correta «Rasurando o Verbo Incorreto»:
01) [Deu / Deram] cinco horas no relógio da sala há pouco.
02) [Faz / Fazem] vinte minutos que estamos a sua espera.
03) [Havia / Haviam] poucas vagas para o curso.
04) [Está / Estão] batendo neste instante cinco horas.
05) Quando [bater / baterem] seis horas, podem sair.
06) [Falta / Faltam] poucos minutos para bater o sinal de saída.
07) [Basta / Bastam] duas pessoas para arrombar esta porta.
08) [Sobrou / Sobraram] apenas duas balas no meu bolso.
09) Conhecido o resultado da votação, [choveu / choveram] vaias.
10) [Deu / Deram] uma hora há pouco.
11) Agora, que já [está / estão] dando seis horas, podem sair.
12) [Falta / Faltam] um minuto e cinqüenta segundos.
13) [Falta / Faltam] três minutos para as dez horas.
14) [Deve / Devem] faltar poucos minutos para as nove.
15) Não [havia / haviam] vizinhos naquele deserto.
16) [Havia / Haviam] já dois anos que não nos víamos.
17) Conhecera-o assim, [fazia / faziam] quase vinte anos.
18) [Deverá / Deverão] haver cinco anos que ocorreu o incêndio.
19) Aqui [faz / fazem] verões terríveis
20) [Vai / Vão] fazer cem anos que nasceu o genial artista.
21) [Começou / Começaram] a haver abusos
22) Não [podem / pode] haver rasuras neste documento.
23) [Haviam / Havia] muitos anos que não vinha ao Rio.
24) Nisto [deram / deu] três horas no relógio do boteco.
25) Aquilo [é / eram] manobras políticas.
26) [Bateram / Bateu] quatro horas em três torres há um tempo só.
27) [Davam / Dava] nove horas na igreja da cidade.
28) Na igreja, ao lado, [bateram / bateu] devagar dez horas.
29) Talvez ainda [haja / hajam] vagas naquela escola.
30) Por cima do fogão [deviam / devia] haver fósforos.

REGÊNCIA NOMINAL

É a maneira de o nome (substantivo, adjetivo e advérbio) relacionar-se com seus complementos. Muitas vezes um nome pode ser usado ora com esta, ora com aquela preposição, sem que a alternância provoque mudança de seu significado (v. acostumado); outras vezes, porém, isso não ocorre (v. afeiçoado). Vejamos a regência de alguns nomes:

Acessível – a, por

Acesso – a, de, em, para

Acostumado – a, com

Alheio – a, de

Ânsia – de, por

Ansioso – de, para, por

Assistência – a, em

Atento – a, em

Capaz – de, para

Cheiro – a, de

Confiança – de, com, em, para

Constante – de, em

Contrário – a, de

Correspondente – a, de

Desejoso – de

Farto – de

Habituado – a, em

Idêntico – a, em

Inerente – a

Junto – a, de

Nocivo – a

Preferência – a, para, para com, de

Preferível – a

Próximo – a, de

Relacionado – com

Residente – em

Satisfeito – com, de, em

Superior – a, em

Último – a, de, em

Vizinho – a, com, de

REGÊNCIA VERBAL

É a maneira de o verbo relacionar-se com seus complementos.

Agradar (tr. dir. – contentar, fazer carinhos) – Agradar o filho com balas.

Agradar a (tr. ind. - satisfazer) – O espetáculo não agradou ao público. (Desagradar é sempre tr. ind. – O espetáculo desagradou ao público.)

Aspirar (tr. dir. – respirar, absorver) – Aspirar ar puro. Aspirar éter.

Aspirar a (tr. ind. – desejar ardentemente) – Aspirar ao cargo. (Usa-se a ele, e não lhe: O cargo? Aspiro a ele.)

Assistir (tr. dir. – prestar assistência) – Assistir um docente.

Assistir a (tr. ind. - ver) Assistir a um jogo. (Usa-se a ele, e não lhe: Apesar de jogo ruim, muitos a ele assistiram.)

Assistir a (tr. ind. - caber) É um direto que assiste ao presidente. (Usa-se lhe: Este é um direito que lhe assiste.)

Assistir em (intr. – morar) – Assisto em São Paulo. (É desusado).

Atender (tr. dir. – complemento pessoa) – Atender um cliente.

Atender a (tr. ind. – complemento pessoa) – Atender a um cliente. (Prefere-se o uso do complemento oblíquo o: Atendi-o, em vez de: Atendi-lhe.)

Atender a (tr. ind. – complemento coisa) – Atender ao telefone, ao portão, à campainha. (Usa-se a ele, e não lhe: O telefone toca, e ninguém a ele atende.)

Atingir (tr. dir.) – Atingir o auge da fama. As despesas atingem vultosa quantia.

Chamar (tr. dir. – apelidar, com ou sem de) – Chamei-o palhaço. Chamei-o de palhaço.

Chamar a (tr. ind. – apelidar, com ou sem de) – Chamei-lhe palhaço. Chamei-lhe de palhaço.

Chamar (tr. dir. – fazer vir, convocar) – Chamar o elevador. Chamar as crianças. (Pode-se usar a preposição por quando o complemento é pessoa: Chamar pelas crianças.)

Chamar (tr. dir. - atrair) – Esse fato chamou a atenção da polícia.

Chamar a (tr. dir. e ind. – repreender) – Chamei-o à atenção.

Chamar-se (pr. – ter por nome) – Eu me chamo Filipe. Como você se chama?

Chegar aIr a – Regressar aRetornar aSair aSubir aTrepar aVir aVoltar a (intr.) – Chegar ao clube. Sair ao terraço. Subir ao muro. Trepar à árvore. (Todos os verbos e expressões que dão idéia de movimento usam-se com a preposição a: Indo por aqui, iremos dar ao Largo Paiçandu. Fomos ter a uma rua sem saída. Vou dar um pulo à farmácia. Deram um empurrão ao rapaz. Chamei-o à lousa. Desci ao andar térreo).

Compartilhar (tr. dir.) – Compartilhar a dor, a alegria de alguém.

Custar (intr.) – Custar secar esta cola. Custou aparecer um bom candidato.

Custar a (tr. ind.) – Custa ao rapaz entender o assunto. Custou-lhe subir à árvore. (Convém evitar este emprego: O rapaz custou a entender o assunto. Ele custou a subir à árvore.)

Esquecer (tr. dir.) – Esqueci o nome dele.

Esquecer-se de (tr. ind.) – Esqueci-me do nome dele.

Esquecer a (tr. ind.) – Esqueceu ao rapaz a lição. Esqueceu-me o nome dele. (Esta construção é clássica: o ser esquecido, neste caso, é sujeito.)

Implicar (tr. dir. - acarretar) – Toda ação implica uma reação igual e contrária.

Implicar com (tr. dir. – ter implicância) – Implicar com crianças.

Implicar-se em (tr. ind. – envolver-se) – Implicar-se em tráfico de entorpecentes.

Lembrar (tr. dir. – fazer recordar) – Marisa lembra muito a mãe na maneira de trajar-se.

Lembrar (tr. dir. e ind. – não esquecer de) – Lembrar que pode estar chovendo por Guarujá.

Lembrar a (tr. dir. e ind. – advertir, recordar) – Lembrei-lhe o fato. Lembramos ao pessoal que já era tarde. Lembro a vocês que vivemos no Brasil, América do Sul, e não Europa. (Neste caso, não se aconselha empregá-lo com objeto direto de pessoa e indireto de coisa. Assim, por exemplo: Lembrei-o do fato. Lembramos o pessoal de que já era tarde. Lembro vocês de que vivemos no Brasil...)

Lembrar a (tr. ind. – vir à lembrança, ocorrer) – Não me lembra esse fato. Nunca mais me lembraram aqueles acontecimentos. Lembrou a Luís esse dia? Lembram-nos bastante aquelas férias. (É a construção clássica, que dá por sujeito o ser lembrado.)

Lembrar-se de (tr. ind. – recordar-se, ter lembrança) – Lembro-me de tudo. “Lembra-te de que a beleza e a elegância são tudo.” Você se lembra de mim? (Neste caso não pode prescindir do pronome, a menos que se lhe posponha um infinitivo. Ex.: Ninguém lembrou (ou lembrou-se) de avisar a polícia.)

Morar emResidir em (intr.) – Morar na Rua da Paz. Residir na Praça da Alegria.

Namorar (tr. dir.) – Namorar alguém. (Não se usa namorar com.)

Obedecer aDesobedecer a (tr. ind.) – Obedeço a todos. Desobedeci a um sinal de trânsito. (Usam-se na voz passiva: O pai foi obedecido pelo filho. O professor foi desobedecido pelo aluno.) Se o complemento é coisa, não admitem o pronome lhe, que se substitui por a ele: Você obedeceu ao regulamento, mas a maioria das pessoas não obedece a ele.

Pagar a – Perdoar a (tr. dir, e ind.) – Pagar algo a alguém. Paguei os honorários ao advogado. Perdoar um pecado a alguém. Perdoei a dívida a meu amigo. (Omitindo-se a coisa, temos: Pagar a alguém. Paguei ao advogado. Perdoar a alguém. Perdoei a meu amigo. Portanto: Pagar-lhe. Paguei-lhe. Perdoar-lhe. Perdoei-lhe.)

Pisar (tr. dir.) – Não pisem a grama. Pisei o pé dele.

Precisar (tr. dir. – indicar com exatidão, expor minuciosamente) – Os pilotos precisaram o local do pouso.

Precisar de (tr. ind. - necessitar) – Precisar de ajuda. (Alguns clássicos usaram o verbo precisar, nesta acepção como tr. direto: Precisar ajuda. No português moderno, todavia, tal construção não tem nenhum amparo abalizado. O mesmo se diz do verbo necessitar, que modernamente se usa apenas como tr. indireto.)

Preferir a (tr. dir. e ind.) – Prefiro doces a salgados. Prefiro comer arroz a comer feijão. (Não admite modificador: mais, muito mais, mil vezes, milhões de vezes, etc., porque em preferir já existe o prefixo que traz a idéia de mais, ou de antes. Não aceita, ainda, que ou do que.)

Querer (tr. dr. - desejar) – Não quero balas.

Querer a (tr. ind. – amar, estimar) – Quero muito a meus filhos. Quero-lhe muito, Cristina.

Reparar (tr. dir. - consertar) – O marceneiro reparou a porta que estava emperrada.

Reparar em (tr. ind. - observar) – Repare nas belas mãos de Teresa.

Reparar para (tr. ind. - olhar) – Repare para aquela paisagem. (Se o objeto indireto é oracional, omite-se a preposição: Ninguém reparou que brincávamos.)

Responder a (tr. ind. – dar resposta) – Respondam ao questionário. Não respondi à carta de Juçara. (Usa-se a ele, e não lhe: Pediram-me o questionário, mas ainda não pude responder a ele.) Usa-se na voz passiva: O questionário foi respondido pelos alunos.

Servir (tr. dir. – prestar serviço a, pôr sobre a mesa) – Se o presidente precisar de mim, sirvo-o com muito prazer. Este elevador não serve o último andar. Sirva o almoço, Juçara.

Servir a (tr. ind. – ser útil, convir) – Esta máquina não serve a nosso tipo de trabalho. Esse moço não lhe serve, Teresa; esqueça-o.

Simpatizar comAntipatizar com (tr. ind.) – Simpatizei com Teresa. Antipatizamos com seus amigos. (Não se usa simpatizar-se nem antipatizar-se.)

Sobressair a ou entre (tr. ind.) – A Miss Paraná sobressai a (ou entre) todas as candidatas. (Não se usa sobressair-se.)

Torcer por (tr. ind. – desejar a vitória) – Torcer pelo Flamengo. Torcíamos pelos uruguaios. (Não se usa torcer para.) Quando se constrói “Eu torcia para que o Vasco perdesse”, usa-se o verbo torcer como intransitivo; o que existe aí não é a preposição para simplesmente, mas a locução conjuntiva para que (= a fim de que).

Visar (tr. dir. – pôr o visto, apontar para) – Visar o passaporte. Visar o passarinho.

Visar a (tr. ind. – desejar, objetivar) – Visar ao progresso. Visar ao poder. (Usa-se a ele, e não lhe: O progresso era a meta do governo, e só a ele visavam os seus representantes.) Seguido de infinitivo, costuma-se omitir a preposição: Zósimo visava chegar ao poder pela força. Melhor, contudo, é usá-la: Zósimo visava a chegar ao poder pela força. (Apesar de alguns dicionários registrarem tal verbo como tr. dir. nesta acepção, oferecendo até exemplos clássicos, na língua contemporânea não se aconselha seu emprego com essa transitividade.)

Informar de ou sobre (tr. dir. e ind.) – Informei os funcionários da (ou sobre a) reunião.

Informar-se de (tr. ind.) – Informar-se do preço das passagens. (Não se usa informar-se sobre.)

Informar-se de com (tr. ind. com dois obj. indiretos) – Informe-se do preço das passagens com o funcionário da empresa.

Proceder a (tr. ind. – dar início a alguma coisa; fazer, executar, realizar) – O professor procederá ao sorteio dos pontos para exame. O juiz procedeu ao julgamento.

Ir – É intransitivo, não admitindo a preposição EM. Ex.: Vou à praia. / Foi para a França. Mas nunca: Vou no cinema. / Foi no Maracanã.

CRASE

Ocorre crase:

a) quando a preposição a se encontra diante de:

ü artigo definido feminino: a ou as.

ü a inicial dos pronomes demonstrativos aquele, aquela, aquilo.

b) nas locuções adverbiais, prepositivas e conjuntivas femininas em que aparece a ou as (às vezes – adverbiais; à procura de – prepositiva; à medida que - conjuntiva).

c) nas expressões à moda de (mesmo diante de palavras masculinas), à maneira de (Arroz à grega – à maneira dos gregos)

A sala de visitas foi decorada com móveis à Luiz XV. (=à moda de)

Não ocorre:

a) diante de verbo.

Estávamos prestes a sair de casa.

b) diante de substantivo masculino.

Ela gosta de andar a pé.

c) diante de artigo indefinido.

Cheguei a uma conclusão rápida.

d) diante de pronome pessoal (reto, oblíquo e de tratamento).

O guarda não se referia a ela. (reto)

O guarda não se referia a ti. (oblíquo)

O juiz cedeu o terreno a V.Sª. (tratamento)

e) diante da palavra casa, se a referência for a própria casa.

Vou a casa. (= vou para minha casa)

Cheguei a casa. (=cheguei em minha casa)

Obs.: se, no entanto, casa estiver especificada com qualquer atributo, ocorrerá crase.

Fui à casa dela.

Fui às casas Bahia.

f) em expressões formadas por palavras repetidas.

Gota a gota

Uma a uma

Frente a frente

O FANTÁSTICO E A FANTASIA

O FANTÁSTICO E A FANTASIA

Jefferson Vasques Rodrigues

“O abismo sonha um grito nos olhos de quem o sente”.

O mundo real deve ser entendido, de um modo geral, como aquele conteúdo da consciência constituído, por um lado, pela imagem do mundo mediada pela percepção (objeto), e do outro, pelo conteúdo dessa imagem mediado pelo sentimento e pensamento inconscientes (“ímago”). Assim, as duas “realidades” que se apresentam, o mundo da consciência e o mundo do inconsciente, não disputam a supremacia, mas tornam-se mutuamente relativos. Ninguém se oporá com obstinação a idéia de que a realidade do inconsciente seja relativa; mas que a realidade do mundo consciente seja posta em dúvida, eis o que não será tolerado com a mesma facilidade. No entanto, as duas “realidades” são vivências psíquicas.

Não há realidade absoluta, de um ponto de vista crítico. Conhecemos o mundo externo e interno, consciente e inconsciente, através das imagens mentais, como observado pelo psiquiatra suíço, Carl Jung: “Longe, portanto, de ser um mundo material, esta realidade é um mundo psíquico que só nos permite tirar conclusões indiretas e hipotéticas acerca da verdadeira natureza da matéria. Só o psíquico possui uma realidade imediata, que abrange todas as formas, inclusive às idéias e pensamentos “irreais”, que não se referem a nada de exterior”.

Quando se torna ambígua a distinção da origem de uma imagem mental, se essa provém do mundo externo (percepções) ou interno (sensações, imaginação), surge o estado de hesitação e simultaneidade pelo qual se caracteriza, em termos psicológicos, a fantasia. Essa impossibilidade de distinção pode ocorrer em estados alterados de consciência ou então pela projeção: um complexo1 afetivo (libido) associado a um objeto invade a estrutura consciente devido a repressão unilateral (a paixão é um exemplo).

Essa hesitação real é a mesma hesitação representada para o leitor num texto fantástico, hesitação que Todorov explicitou como característica marcante da literatura desse gênero. A oscilação entre uma explicação racional e conhecida (consciente) e a aceitação irracional de um evento estranho às leis da natureza (inconsciente) acaba promovendo a simultaneidade desses aspectos. Além disso, para que exista a hesitação é necessário que o leitor “participe” do texto e ao mesmo tempo perceba seu papel de receptor. Portanto o leitor não poderia interpretar o texto alegoricamente, o que o colocaria muito distante da narrativa, nem poeticamente, o que impediria o distanciamento necessário. Essa forma de participação coincide com a maneira ideal de compreensão das fantasias, descrita pela psicologia analítica, nas palavras de seu fundador, Jung: “...porque para ser vivida de um modo completo a fantasia exige, não só a visão passiva, mas a participação ativa do sujeito”. Só assim a fantasia pode escapar à sina de se tornar um movimento esdrúxulo da imaginação (rejeitado) ou de ser analisada ao pé da letra, concretamente, o que deixaria de lado seu conteúdo simbólico (não se entenda símbolo como alegoria e sim como “representação” de aspectos in/conscientes).

Todorov esclarece que em muitos casos a história fantástica, que nasce da coexistência de dois universos, acaba se dissolvendo em um dos pólos dessa tensão, característica que esse crítico utilizou para sua classificação. O texto é dito fantástico-estranho quando os acontecimentos insólitos são explicados de forma racional e essa explicação é aceita pelos personagens no mundo ficcional. Se os acontecimentos sobrenaturais afirmam-se como inexplicáveis caracteriza-se o texto como fantástico-maravilhoso.

Para Todorov, a função do texto fantástico é “subtrair o texto à ação da lei e assim transgredi-la”. Com isso seria possível burlar a censura social permitindo a incursão por temas tabus para a coletividade como incesto, amor homossexual, necrofilia, sensualidade excessiva, doenças mentais e vícios. Já para a narrativa, a emersão de eventos sobrenaturais, movimentos extraordinários, permite a saída de um estado de equilíbrio ou desequilíbrio constantes dinamizando assim a realidade que até o momento se encontrava estabilizada. Verifica-se, aqui também, semelhança com as funções da fantasia: apresenta ao seu receptor-emissor imagens que procuram romper uma fixação consciente (lei) procurando dar fluxo a libido estagnada trazendo assim, aos olhos da consciência, uma outra face da realidade psíquica. Como já mencionado anteriormente, isso apenas é possível, segundo a psicologia analítica, se o emissor-receptor encarar a fantasia sem desprezo (distanciamento) ou entrega (alucinação). Deve haver a simultaneidade de estados. Posição equivalente a que Todorov defende com relação ao leitor da literatura fantástica.

É interessante notar a evolução dos textos fantásticos, a partir dos textos homéricos e lendas antigas, verificando uma mudança importante que só veio a se cristalizar a partir do século XVIII : a conscientização da situação fantástica pelo próprio narrador, indicando um maior aprofundamento no entendimento da realidade, pelo menos da realidade ficcional, como algo mutável e suscetível. E já no século XX, a literatura fantástica passa a assumir o fato insólito, típico desse gênero, como um acontecimento normal dentro da narrativa, não sendo necessária a torrente de explicações racionais que o texto fantástico, da época do iluminismo, exigia. Pode-se fazer um paralelo entre o processo de conscientização da ir/realidade do mundo ficcional ao processo de conscientização da ir/realidade do mundo real (psicológico). Referindo-se a esse último, Jung disse: “ Quanto mais limitado for o campo consciente de um individuo, tanto maior será o número de conteúdos psíquicos (“imagos”) que se manifestam exteriormente, quer como espíritos, quer como poderes mágicos projetados sobre vivos (magos, bruxas). Num estádio superior de desenvolvimento, quando já existem representações da alma, nem todas as imagens continuam projetadas (quando a projeção continua, até mesmo as árvores e as pedras dialogam); nesse novo estádio, um complexo ou outro pode aproximar-se da consciência , a ponto de não ser percebido como algo estranho, mas sim como algo próprio.” - é o que vem acontecendo ao longo do desenvolvimento da literatura fantástica -

“Tal sentimento, no entanto, não chega a absorver o referido complexo como um conteúdo subjetivo da consciência. Ele fica, de certo modo, entre o consciente e o inconsciente, numa zona crepuscular: por um lado, pertence ao sujeito da consciência, mas por outro lhe é estranho, mantendo uma existência autônoma que o opõe ao consciente. De qualquer forma, não obedece necessariamente a intenção subjetiva, mas é superior a esta, podendo constituir um manancial de inspiração, de advertência, ou de informação”.

Verifica-se portanto o espelhamento entre a realidade psíquica e a realidade ficcional, ambas questionando a realidade dos padrões estabelecidos exemplificando que esses mesmos padrões, sejam ficcionais ou “reais”, não podem simplesmente ser encarados como sinais que ocultam algo de geralmente conhecido, mas sim como símbolos verdadeiros: tentativa de elucidar mediante a analogia alguma coisa ainda totalmente desconhecida ou em processo. A literatura, como as artes, representa esse processo de descoberta e a literatura fantástica representa a própria consciência dessa processo, questionando portanto a própria literatura diante da realidade. Inicialmente apresentando o desconhecido como soturno e demoníaco, vide o “ O Corvo” de Poe, o Fantástico, com o passar do tempo e o fluir da libido inconsciente, vem se tornando natural e presente como em “Cem anos de Solidão”.

Bibliografia:

POE, Edgard “O Corvo – A Filosofia da Composição”, São Paulo, Editora Expressão, 1986

JUNG, Carl ”A Natureza da Psique”, Rio de Janeiro,Vozes, 1997

JUNG, Carl “O Eu e o Inconsciente”, Rio de Janeiro, Vozes, 1997

MARQUES, Gabriel “Cem Anos de Solidão”

RODRIGUES, Selma “O Fantástico”, São Paulo, ed. Ática, 1988

TODOROV, T. “As Estruturas Narrativas”, São Paulo, ed. Perspectiva, 1979



1 Teoria dos Complexos de Carl Gustav Jung, 1971, “A Natureza da Psique”

fonte: http://www.unicamp.br/iel/site/alunos/publicacoes/textos/f00002.htm

O BARRIL DE AMONTILLADO

O BARRIL DE AMONTILLADO
 
Suportara  eu, enquanto possível, as mil ofensas de Fortunato. Mas quando se aventurou ele a insultar-me, jurei vingar-me. Vós, que tão bem  conheceis a natureza de minha alma, não havereis de supor, porém, que proferi alguma ameaça. Afinal, deveria vingar-me. Isso era um ponto definitivamente assentado, mas essa resolução, definitiva, excluía ideia de risco. Eu devia não só punir, mas punir com impunidade. Não se desagrava uma injúria quando o castigo cai sobre o desagravante. O mesmo acontece quando o vingador deixa de fazer sentir sua qualidade de vingador a quem o injuriou.
 
Fica logo entendido que nem por palavras nem por fatos dera causa a Fortunato de duvidar de minha boa-vontade. Continuei, como de costume, a fazer-lhe cara alegre, e ele não percebia que meu sorriso agora se originava da ideia de sua imolação.
 
O Fortunato tinha o seu lado fraco, embora a outros respeitos fosse um homem acatado e até temido. Orgulhava-se de ser conhecedor de vinhos. Poucos italianos têm o verdadeiro espírito do "conhecedor". Na maior parte, seu entusiasmo adapta-se às circunstâncias do momento e da oportunidade, para ludibriar milionários ingleses e austríacos. Em matéria de pintura e ourivesaria era Fortunato, a igual de seus patrícios, um impostor; mas em assuntos de vinhos velhos era sincero. A este respeito éramos da mesma força. Considerava-me muito entendido em vinhos italianos e sempre que podia, comprava-os em larga escala.
 
Foi ao escurecer duma tarde, durante o supremo delírio carnavalesco, que encontrei meu amigo. Abordou-me com excessivo ardor, pois já estava bastante bebido. Estava fantasiado com um traje apertado e listado, trazendo na cabeça uma carapuça cônica cheia de guizos. Tão contente fiquei ao vê-lo que quase não largava de apertar-lhe a mão. E disse-lhe:
 
- Meu caro Fortunato, foi uma felicidade encontra-lo ! Como está você bem disposto hoje! Mas recebi uma pipa dum vinho, dado como amontillado, e tenho minhas dúvidas.
 
- Como?   disse ele. - Amontillado? Uma pipa? Impossível. E no meio do carnaval!
 
- Tenho minhas dúvidas - repliquei -, mas fui bastante tolo para pagar o preço total do amontillado sem antes consultar você. Não consegui encontrá-lo e tinha receio de perder uma pechincha. 
 
- Amontillado!
 
- Tenho minhas dúvidas.
 
- Amontillado! 
- E preciso desfazê-las.
 
- Amontillado! 
 
- Se você não estivesse ocupado. . . Estou indo à casa Luchesi. Se há alguém que entenda disso, é ele. Haverá de dizer…
 
- Luchesi não sabe diferençar um amontillado dum xerex
 
- No entanto, há uns bobos que dizem por aí que, em matéria de vinhos, vocês se equiparam.
 
- Pois então vamos. 
 
- Para onde?
 
- Para sua adega.
 
- Não, meu amigo. Não quero abusar de sua boa-vontade. Você está ocupado. Luchesi...
 
- Não estou ocupado, coisa nenhuma... Vamos.
 
- Não, meu amigo. Não é por isso, mas é que vejo está fortemente resfriado. A adega está duma umidade intolerável.  Suas paredes estão incrustadas de salitre.
 
- Não tem importância, vamos. Um resfriado à-toa. Amontillado! Acho que você foi enganado. Quanto a Luchesi, é incapaz de  distinguir um xerez dum amontillado.
 
Assim falando, Fortunato agarrou meu braço. Pondo no rosto uma máscara de seda e enrolando-me num rocló, deixei-me levar  por ele, às pressas, na direção do meu palácio.
 
Todos os criados haviam saído para brincar no carnaval. Dissera-lhes que só voltaria de madrugada e dera-lhes explícitas ordens  para não se afastarem de casa. Foi, porém, o bastante, sabia, para que se sumissem logo que virei as costas.
 
Peguei dois archotes, um dos quais entreguei a Fortunato, e  conduzi-o através de várias salas até a passagem abobadada que  levava à adega. Desci à frente dele uma longa e tortuosa escada,  aconselhando-o a ter cuidado. Chegamos por fim ao sopé e  ficamos juntos no chão úmido das catacumbas dos Montresors. Meu amigo cambaleava e os guizos de sua carapuça tilintavam a cada passo que dava.
 
- Onde está a pipa?    perguntou ele.
 
- Mais para o fundo - respondi -, mas repare nas teias cristalinas que brilham nas paredes desta caverna.
 
Ele voltou-se para mim e fitou-me bem nos olhos com aqueles seus dois glóbulos vítreos que destilavam a reuma da bebedice. 
 
- Salitre? - perguntou ele, por fim.
 
- É, sim - respondi. - Há quanto tempo está você com essa tosse?
 
- Eh! Eh! Eh! Eh! Eh! Eh! Eh!... - pôs-se ele a tossir, e  durante muitos minutos não conseguiu meu pobre amigo dizer uma palavra.
 
Não é nada - disse ele, afinal.
 
- Venha - disse eu, decidido.    Vamos voltar. Sua saúde é preciosa. Você é rico, respeitado, admirado, amado. Você é feliz como eu era outrora. Você é um homem que faz falta. Quanto a mim, não. Voltaremos. Você pode piorar e não quero ser responsável por isso. Além do quê, posso recorrer a Luchesi...
 
- Basta! - disse ele. - Essa tosse não vale nada. Não me há de matar. Não é de tosse que hei de morrer.
 
- Isto é verdade… isto é verdade. . . - respondi - e, de fato, não era a minha intenção alarmá-lo sem motivo. Mas acho que você devia tomar toda a precaução. 
 
Um gole deste Médoc nos defenderá da umidade. 
 
Então fiz saltar o gargalo duma garrafa que retirei duma longa pilhada no chão.
 
- Beba - disse eu, apresentando-lhe o vinho.
 
Levou a garrafa aos lábios, com um olhar malicioso. Calou-se um instante e me cumprimentou com familiaridade, fazendo tilintar os guizos. 
 
- Bebo pelos defuntos que repousam em torno de nós - disse ele. 
 
- E eu para que você viva muito.
 
Pegou- me de novo no braço e prosseguimos.
 
- Estas adegas são enormes - disse ele.
 
- Os Montresors eram uma família rica e numerosa - respondi. 
 
- Não me lembro quais são suas armas.
 
- Um enorme pé humano dourado em campo blau; o pé esmagando uma serpente rastejante cujos comilhos se lhe cravam no calcanhar. 
 
- E qual é a divisa?
 
- Nemo me impune lacessit. (ninguém me ofende impunemente. N.T.) 
 
- Bonito! - disse ele.
 
O vinho faiscava-lhe nos olhos e os guizos tilintavam. Minha própria imaginação se aquecia com o Médoc. Havíamos passado diante de paredes de ossos empilhados, entre barris e pipotes, até os recessos extremos das catacumbas. Parei de novo e desta vez e atrevi a pegar Fortunato por um braço acima do cotovelo.
 
- O salitre! Veja, está aumentado. Parece musgo agarrado às paredes.  Estamos embaixo do leito do rio. As gotas de umidade filtram-se entre os ossos. Venha, vamos antes que seja demasiado tarde…  Sua tosse...
 
- Não é nada - disse ele. - Continuemos. Mas antes, dê-me outro gole de Médoc. Quebrei o gargalo duma garrafa de De Grave e entreguei-lha.
 
Esvaziou-a dum trago. Seus olhos cintilavam, ardentes. Riu e jogou a garrafa para cima, com um gesto que eu não compreendi.
 
Olhei surpreso para ele. Repetiu o grotesco movimento.  
 
- Não compreende? - perguntou.
 
- Não. 
 
- Então não pertence à irmandade?
 
- Que irmandade?
 
- Não é maçom?
 
- Sim, sim! - respondi. - Sim, sim!
 
- Você, maçom? Não é possível!
 
- Sou maçom, sim   repliquei.
 
- Mostre o sinal - disse ele.
 
- É este - respondi. retirando de sob as dobras de meu rocló uma colher de pedreiro.
 
- Você está brincando - exclamou ele, dando uns passos para  trás. - Mas vamos ver o amontillado  .
 
- Pois vamos - disse eu, recolocando a colher debaixo do capote e oferecendo-lhe , de novo, meu braço, sobre o qual se apoiou ele pesadamente. 
 
Continuamos o caminho em busca do amontillado.   Passamos por uma série de baixas arcadas, demos voltas, seguimos  para a frente, descemos de novo e chegamos a uma profunda  cripta, onde a impureza do ar reduzia a chama de nossos archotes  a brasas avermelhadas.
 
No recanto mais remoto da cripta, outra se descobria menos  espaçosa. Nas suas paredes alinhavam-se restos humanos empilhados até o alto da abóbada, à  maneira das grandes catacumbas de Paris. Três lados dessa cripta interior estavam assim ornamentados. Do   quarto, haviam sido afastados os ossos, que jaziam misturados no  chão, formando em certo ponto um montículo de avultado tamanho. Na parede assim desguarnecida dos ossos, percebemos um  outro nicho, com cerca de um metro e vinte de profundidade, noventa centímetros de largura e um metro e oitenta ou dois metros e dez de altura. não parecia ter sido escavado para um uso especial, mas formado simplesmente pelo intervalo entre dois dos colossais pilares do teto das catacumbas, e tinha como fundo uma das paredes, de sólido granito, que os circunscreviam.
 
Foi em vão que Fortunato, erguendo a tocha mortiça, tentou espreitar a profundeza do recesso. A fraca luz não nos permitiu ver-lhe o fim.
 
- Vamos - disse eu -, aqui está o amontillado  . Quanto a  Luchesi...
 
- E um ignorantaço! - interrompeu meu amigo, enquanto caminhava, vacilante, para diante e eu o acompanhava rente aos  calcanhares. Sem demora, alcançou ele a extremidade do nicho, e não podendo mais prosseguir, por causa da rocha, ficou estupidamente apatetado. Um momento mais e ei-lo acorrentado por mim ao granito. Na sua superfície havia dois anéis de ferro, distando um do outro cerca de sessenta centímetros, horizontalmente. De um deles pendia curta cadeia e do outro um cadeado. Passei a corrente em torno da cintura e prendê-lo, bem seguro, foi obra de minutos. Estava por demais atônito para resistir. Tirando a chave saí do nicho.
 
- Passe sua mão - disse eu - por sobre a parede. Não deixa de sentir o salitre. É de fato bastante úmido. Mais uma vez  permita-me implorar-lhe que volte. Não? Então devo positivamente  deixá-lo. Mas é preciso primeiro prestar-lhe todas as pequeninas  atenções que puder.
 
- O amontillado ! - vociferou meu amigo, ainda não recobrado do espanto.
 
- É verdade - repliquei -, o amontillado  .
 
Ao dizer estas palavras, pus-me a procurar as pilhas de ossos a que me referi antes. Jogando-os para um lado, logo descobri grande quantidade de tijolos e argamassa. Com estes e com o auxílio de minha colher de pedreiro comecei com vigor, a  emparedar a entrada do nicho.
 
Mal havia eu começado a acamar a primeira fila de tijolos, descobri que a embriaguez de Fortunato tinha-se dissipado em grande parte. O primeiro indício disto que tive foi um surdo lamento, lá do fundo do nicho.
 
Não era o choro de um homem embriagado. Seguiu, então,  um longo e obstinado silêncio. Deitei a segunda camada, a terceira e a quarta; e depois ouvi as furiosas vibrações da corrente. O barulho durou vários minutos, durante os quais, para maior satisfação, interrompi meu trabalho e me sentei em cima dos ossos. 
 
Quando afinal o tilintar cessou, tornei a pegar e acabei sem interrupção a quinta, a sexta e a sétima camada. A parede estava agora quase ao nível de meu peito. Parei de novo e levantando o archote por cima dela, lancei uns poucos e fracos  raios sobre o rosto dentro do nicho.
 
Uma explosão de berros fortes e agudos, provindos da garganta do vulto acorrentado, fez-me recuar com violência. Durante um breve momento hesitei. Tremia. Desembainhando minha espada, comecei a apalpar com ela em torno do nicho, mas uns instantes de reflexão me tranquilizaram. Coloquei a mão sobre a a alvenaria sólida das catacumbas e senti-me satisfeito. Reaproximei-me da parede: Respondi aos urros do homem. Servi-lhe de eco, ajudei-o a gritar... ultrapassei-o em volume e em força. Fui fazendo assim e por fim cessou o clamor.
 
Era agora meia-noite e meu serviço chegara a cabo. Completara a oitava, a nona e a décima camadas. Tinha acabado uma porção desta última e a décima primeira. Faltava apenas uma  pedra a ser colocada e argamassada. Carreguei-a com dificuldade por causa do peso. Coloquei-a, em parte, na posição devida. Mas então irrompeu  de dentro do nicho uma enorme gargalhada que me fez eriçar os cabelos. Seguiu-se-lhe uma voz lamentosa, que tive dificuldade de  reconhecer como a do nobre Fortunato. A voz dizia:
 
- Ah, ah, ah!... Eh, eh, eh! Uma troça bem boa de fato…uma excelente pilhéria! Haveremos de rir a bandeiras despregadas lá no palácio... eh, eh, eh!... a respeito desse vinho, eh! eh! eh!
- O amontillado  ! - exclamei eu.
 
- Eh, eh, eh!... Eh, eh, eh!... Sim... o amontillada! já não será tarde? Já não estarão esperando por nós no palácio?  minha mulher e os outros? Vamos embora!
 
- Sim - disse eu. - Vamos embora.
 
- Pelo amor de Deus, Montresor!
 
- Sim - disse eu. - Pelo amor de Deus!
 
Aguardei  debalde uma resposta a estas palavras. Impacientei-me. Chamei em voz alta:
 
- Fortunato! 
 
Nenhuma resposta. Chamei de novo:
 
- Fortunato!
 
Nenhuma resposta ainda. Lancei uma tocha através da abertura e deixei-a cair láPoe_Excerpt-1_Pkgd_Cove dentro. Como resposta ouvi apenas o tinir dos guizos. Senti um aperto no coração. . devido talvez à umidade das catacumbas. Apressei-me em terminar meu trabalho. Empurrei a última pedra em sua posição. Argamassei-a. Contra a nova parede, reergui a velha muralha de ossos. Já faz meio século que mortal algum os remexeu.  In pace requiescat!

Edgar Allan Poe

Desses jogos confusos, por Wasil Sacharuk

O poeta, por Bento Calaça

O Poeta

De fantasma na noite,
Também brinco pastorando
Palavras entre estrelas.

Bento Calaça

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Quem sou eu:

Professor,ator, diretor de teatro e construtor experimental de versos ou um simples artesão destes.

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O velho e o Mar (by Véio China)


O velho e o Mar (by Véio China)

Os sentimentos do pescador, um verdadeiro lobo do mar, naquele dia se concentravam nas tormentas e no infinito das águas azuis, que faziam dançar o seu barco como se fosse dum papel pouco encorpado. Sim, fora avisado pela guarda costeira dos perigos, porém não deu atenção, pois perdidos dentro de si havia o cheiro das tripas dos peixe que, tal qual a natureza humana se misturavam em suas entranhas. Ele navegava solitário, já que e aprendera compactuar com as levezas dos mares calmos, assim como agora defendia-se das poderosas ondas que, bravias e sucessivas pareciam pretender partir ao meio o "Gladiator" seu velho barco de pesca.
Naquela tarde de mar revolto ninguém saíra para pescar, afinal, bom pescador é aquele que respeita o mar, pois sabe que as águas não aceitam desafios. E havia nele toda a compreensão para todos esses ensinamentos, porém, ele sorria. Sorria para o instante, sorria das suas peripécias e maestria ao desafiar o oceano que aguardava por um só por um dos seus deslizes para sepultá-lo de vez naquele cemitério de vagas. Mas também o fato não o impressionava, pois ele não estava ali para pescar, mas sim para morrer, já que lhe parecia romântica a ideia de ir-se tragado pelas águas, pois para ele seria como estar sendo velado no quintal de casa.

Claro, poderia ser tudo mais simples e mais rápido; a bala nos miolos tornaria tudo tão definitivo, mas, o pavor de causar algum transtornos para Helga, a sua boa vizinha de trailer, deixava-o incomodado. Ah Helga! Uma pessoa de coração imenso, e que, apesar da cegueira, ainda encontrava alegrias para viver. Sempre se perguntara por que Helga descobria os infindáveis motivos que permitissem sua batalha perdurar, mesmo que sozinha, aliás, não somente só, mas junto duma modesta pensão deixada pelo falecido marido ferroviário. Lembra de tudo que ocorreu há cinco anos; do rapaz que deu naquela praia dirigindo um trailer e o estacionou ao lado do seu. Lembra ainda que a mulher desceu pela porta tateando as paredes do veículo, e que depois de algum confabulo com o jovem motorista veio até si e pediu autorização para cravar vida ali. "Eu não sou dono da areia, dona! Nem do mar" - Respondeu a ela. Ela sorriu, sim, mesmo que estivesse com óculos escuros pode perceber o sorriso denunciado nos cantos dos lábios. E assim ele pediu para conhece-lo, e contornando seu rosto com as pontas dos dedos foi que travaram o primeiro conhecimento. E de lá para cá nasceram dois irmãos, e ele gostava de voltar do mar e dar a ela um b om peixe, e sentar-se na soleira do trailer para ouvir as boas histórias da velha Alemanha, país natal de Helga.

Fora isso não havia muitas lembranças, salvo a da visita do seu único filho e de quando se viram pela última vez, talvez há uns três anos e meio.
Foi num fim de tarde de domingo quando emborcava o último quarto da sua garrafa de vodca, e foi acordado pelas palavras ditas por alguém de rosto jovial:
“Oi pai, tudo bem com você?” – Assustou-se, e entre encantado e surpreso conseguiu apenas responder um “Tudo bem!”. Porém não houve nem tempo de apresentá-lo a Helga, e  Dustin não ficou mais que 30 minutos e se foi tal qual como chegara; sem deixar qualquer endereço ou um número de telefone.  Agora ele pensava naquilo; Talvez a culpa tenha sido sua. Talvez não tivesse demonstrado a necessária alegria em vê-lo, talvez a história teria sido diferente e ele tivesse ficado para jantar o melhor dos peixes que um pescador conseguisse preparar.
Então, praticamente com quase nada a se falarem foi que viu a silhueta do filho descer os degraus do trailer e se tornar apenas um ponto caminhante nas areias e desaparecer no horizonte ao fim daquela mesma tarde.

E fora assim naquele mesmo dia que ele decidira da um basta em tudo, portanto estava aqui. Era doído recordar-se da mãe de Dustin e de quanto era bonito o seu sorriso. Dilacerava reviver aquela noite que, voltando do mar não encontrou ninguém no trailer. Depois disso sua vida não buscou realizações, e ele se deixou levar por uns poucos amigos (alguns deles falecidos) e de algumas rameiras de beira de cais Por fim, recordou-se dos homens e da natureza humana e de quanto algumas dessas pessoas possuem o dom de desintegrar qualquer tentativa duma existência pacífica e feliz.

Vivia nesse conjunto de lembranças quando foi acordado pelo surgimento de raios que chicotearam o ar e um vento gélido o fez tremer nos ossos; Seria possível ver o que via? Sim! Não havia a menor dúvida, pois vinda do horizonte ele divisou a formação de uma descomunal onda, talvez a maior da sua vida.
Novamente sorriu, já que sabia que era a onda da sua vida. Repentinamente o céu se acalma e não há mais raios e nem os ventos da tormenta, mas apenas o vagalhão que se aproxima calmo e colossal, e vai ganhando corpo até formar um paredão como se fosse um edifício de alguns andares. E ela veio e “Gladiator” surfou na sua crista, porém o leme já não respondia a qualquer manobra dos seus braços. Evidente, quem seria ele pra enfrentar a imposição do oceano? Não, era pouco, quase nada, mas não se entregaria assim, sem qualquer luta,  dignidade, pois o que pouco houvera em vida não ia lhe faltar na morte. E foi então que onda quebrou-se em cima e o barco despencou e desgovernado num mergulho que beirou ao desespero, foi à pique. Livrando-se do barco os seu braços tentaram se debater junto às outras ondas, agora menores, mas já não havia mais qualquer resistência no corpo exaurido, portanto,  submergiu.

E o seu corpo afundava e o ar se rareava nos pulmões enquanto percebia a beleza em algumas das exóticas criaturas marinhas. Podia notar a beleza e o bailado dos peixes das tantas espécies, e de como tudo que estava sob a água se movimentava de forma exata e disciplinada. E a cada instante o corpo ganhava as profundezas, pois o soube ao golfar o último ar. No seu rosto insistia o sorriso sereno, e um desejo moribundo. Sim! Estava á porta da morte, e para um moribundo nada se nega, pois foi o que lhe ensinaram em sua existência.
Ainda restava alguma vida em seus olhos quando ela veio; linda,  maravilhosa, seios fartos e  mamilos generosos. Ao fim do estonteante corpo da criatura não se viam pés, mas a graciosa nadadeira que fazia aquele ser quase humano flutuar com a mesma leveza de um balão à gás. E então ele a admirou, e ela sorriu para ele e estendeu-lhe as mãos alvas e delicadas. Ele, encantado as pegou e ambos sorriam docilmente ao iniciaram o bailado do adeus. Sutilmente, percebendo que não mais havia ar em seus pulmões ternamente se desvencilhou das mãos sedosas e cerrou os olhos, colocou posicionou a mão direita junto ao coração e disse um adeus para Helga.
Ao tocarem o fundo do oceano havia nele um sorriso agradecido.
Era um belo e meigo sorriso preenchido de paz.

Véio China


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