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Oficina de Escrita Literária - POESIA - on line

Oficina de Escrita Literária Online – Poesia

Proposta lúdica voltada ao desenvolvimento e ao aprimoramento da composição poética. A oficina foi projetada para ser um meio de iniciação na produção literária.

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Exercício leve e agradável de interação e da liberdade de brincar com as letras;

Comentários, sugestões e críticas que focalizam os aspectos positivos e negativos da produção, consistindo numa avaliação personalizada;

Cinco desafios conceituais e criativos voltados ao desbloqueio da escrita e à iniciação na arte de escrever poemas;

A OFICINA DE POESIA ON LINE é coadjuvante do poeta no processo de ilustrar sentimentos, bem como desenvolvê-los e expressá-los numa estética bela e sensível.

26 de dez de 2017

Gente de papel e tinta: A construção de personagens numa oficina de Escrita Criativa


Gente de papel e tinta: A construção de personagens numa oficina de Escrita Criativa

João de Mancelos

mancelos@live.com, Universidade de Aveiro  
   

1. À redescoberta dos heróis

No último Outono, ao arrumar o sótão, descobri uma velha caixa de cartão, contendo alguns dos mais preciosos tesouros literários da minha infância e adolescência. Decorreram três dezenas de anos, desde a última vez que folheei aqueles romances de aventuras intemporais. O Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes, a segunda obra mais vendida a seguir à Bíblia, já perdera a capa e a lombada cedera ao meu manuseamento entusiástico. O Tarzan, de Edgar Rice Burroughs, adormecia sob uma camada de pó, o seu grito na selva há muito silenciado. A Ilha do Tesouro, de Robert Lewis Stevenson, amarelecera e apresentava agora a cor das moedas de ouro que os piratas tanto procuraram.
Português: Investigação e Ensino Número temático - dezembro 2012
 
Tal como milhões de leitores, pelo mundo fora e ao longo de várias gerações, também eu amara aqueles heróis. Melhor ainda, imitara-os, pois, segundo o aforismo do dramaturgo inglês Oscar Wilde, a vida reproduz mais a arte do que o oposto (Wilde, 1909: 46). Em criança, bastava-me uma espada de madeira para ser o Cavaleiro da Triste Figura e percorrer as planícies morenas de La Mancha em busca de uma Dulcineia que, na minha realidade, usava tranças, aparelho nos dentes. Na infância, a imaginação governa-nos descuidadamente e os livros alimentam a necessidade de sermos quem gostaríamos, mais do que poderíamos. A História da Literatura prova que as grandes personagens fazem as grandes obras; algumas, como D. Quixote ou Lolita, fixaram-se até na cultura comum e na linguagem quotidiana: fala-se de um político quixotesco, por causa do seu discurso utópico, ou de uma adolescente atrevida que se comporta como uma lolita nabokoviana por apreciar a companhia de homens mais velhos. Apesar da relevância incontornável dos heróis, na maioria das vezes, os alunos do Ensino Secundário centram as composições excessivamente no enredo e descuram a construção das personagens. Tal fragiliza as histórias e dificulta a adesão do leitor aos protagonistas, que carecem de realismo. Acredito ser possível contrariar esta situação, recorrendo a algumas técnicas e exercícios, realizáveis no contexto de uma lição ou de uma oficina de Escrita Criativa. Neste artigo, abordo diversas questões: como imaginar um herói de uma história infanto-juvenil? Que nome atribuir-lhe? Haverá vantagem em mostrar em vez de contar? Como criar empatia com o leitor?

2. Passear com o amigo invisível

Através do pacto da ficção, o autor de uma história compromete-se a mentir bem, enquanto o leitor finge acreditar, numa cumplicidade fantástica, que nos retira momentaneamente do nosso quotidiano. Trata-se de uma necessidade básica de alimentar o imaginário, ou um desejo esforçado de transcender a humana condição. Dizia o poeta norte-americano Thomas Stearns Eliot, que “o Homem não consegue suportar tanta realidade” (Eliot, 1963: 190). Para que um escritor minta bem — isto é, de forma credível —, tem de ele próprio fingir que as suas personagens existem no mesmo mundo que habita. Neste espírito, costumo sugerir aos alunos um exercício muito simples, que explico no meu livro Introdução à Escrita Criativa: [Convide] a personagem para um passeio no parque da cidade ou numa praia, onde possa, sossegadamente, entrevistá-la. Não pretendo, com esta sugestão, que o aprendiz de escritor se sente num banco de jardim a falar sozinho; esse inquérito pode ser mental. Não se esqueça de levar um lápis e um bloco de notas, para registar os seguintes dados: a) Elementos básicos: nome, sexo, idade; b) Etnia e nacionalidade; c) Aspecto físico; d) Traços psicológicos (qualidades, defeitos, manias divertidas, passatempos); (…) f) Vida familiar (estado civil, relações familiares); g) Vida social (amigos, associações e ginásio que frequenta); h) Vida amorosa e orientação sexual; i) Religião e vida espiritual; j) Opções políticas; k) Nível de inteligência; l) Cultura; educação; m) Emprego e ambições profissionais (ou ausência destas); n) Discurso (formal, informal, gíria, pronúncia, etc.). (Mancelos, 2009: 67-68) Apenas uma parcela destes dados será utilizada na história, até para não maçar o público com pormenores entediantes como o número das botas que o pirata calçava. Contudo, nesta primeira fase, o registo de todos os elementos acerca da personagem é importante porque a torna mais real na imaginação do escritor e, concomitantemente, no cérebro de quem lê.

Após ter criado a ficha da personagem, o jovem autor deverá fingir que é Deus e insuflar vida na sua personagem. Costumo dar como exemplo de um herói ou anti-herói particularmente bem concebido o Dom Quixote. As primeiras páginas desse romance resistiram à passagem do tempo, com o mesmo sabor: Num lugar da Mancha, cujo nome não quero lembrar-me, vivia, não há muito, um fidalgo, dos de lança em cabido, adarga antiga, rocim fraco, e galgo corredor. (…)  Orçava na idade o nosso fidalgo pelos cinquenta anos. Era rijo de compleição, seco de carnes enxuto de rosto, madrugador e amigo da caça. (…) É pois de saber que este fidalgo, nos intervalos que tinha de ócio, (que eram os mais do ano), se dava a ler livros de cavalaria, com tanta afeição e gosto, que se esqueceu quase de todo do exercício da caça e até da administração dos seus bens; e a tanto chegou a sua curiosidade e desatino neste ponto, que vendeu muitas courelas de semeadura para comprar livros de cavalarias que ler; com que juntou em casa quantos pôde apanhar daquele género. (Cervantes, 2009: 15-16) Parece estar viva, esta personagem de papel e tinta. Mais ainda, suscita de imediato o interesse e a empatia do leitor, sobretudo se for, como a maioria de nós, um fã dos romances de aventuras. A imagem do fidalgo com armas obsoletas e ferrugentas faz rir, mas o seu espírito de sonhador (uma criança grande, apesar de já contar cinquenta anos), leva-nos a amá-lo. E, tal como provavelmente as gerações de leitores que apreciam a literatura de cavalaria, também este fidalgo arruinado coleciona calhamaços e se deleita com as proezas alheias, imaginando-se no lugar dos heróis. Nas próximas páginas analiso alguns destes aspectos, que concorrem para quem uma personagem tenha o sopro da vida: a escolha do nome, a caraterização, a empatia.


3. O que esconde um nome?

Batizar uma personagem não é uma tarefa tão fácil nem leviana como pode parecer a um escritor aprendiz. O maior poeta em língua inglesa perguntava em Romeu e Julieta: “What’s in a name?” (Shakespeare, 2004: 55). O que se esconde, de facto, num nome? De que forma este realça aspetos da personalidade ou aparência de uma personagem? Dulce pode ser uma rapariga doce, Severina, uma mulher severa, por exemplo. Num artigo intitulado “A Arte de Chamar Nomes”, que publiquei na minha secção mensal da revista Os Meus Livros, sugiro aos jovens escritores uma multiplicidade de fontes onde procurar um nome para as personagens: No romance A Canção de Salomão, Toni Morrison seguiu o método usado pelos afroamericanos para batizar os filhos: abriu a Bíblia ao acaso e apontou para um versículo. Desgraçadamente, a sua personagem, uma mulher negra, herdou o nome do governador da Judeia, Pilatos. Outra autora, Celia Rees, prefere olhar para as lombadas das obras que tem na estante, e combinar nomes e apelidos de escritores famosos. Seguindo este método, por que não inventar um Fernando Camões ou um Luís Vaz Pessoa? Se a inspiração lhe falha, recorra a listas telefónicas, dicionários de mitologia ou até títulos de canções (“Layla” ou “Roxanne”). (Mancelos, 2010: 35) Ainda a propósito do batismo das personagens, aconselho os meus alunos a evitarem nomes semelhantes, como Liliana e Lília, por exemplo, para não confundirem um leitor menos atento ou mais cansado. Convém ainda ter em atenção que o nome se deve adequar ao grupo socioeconómico da personagem e à época em que esta nasceu (Marshall, 2000: 27-28). Recordo-me que na década de oitenta muitos pais batizavam os filhos com nomes de personagens das telenovelas brasileiras em voga na altura. Já nas histórias de ficção científica, designações como Spock ou Zoran, funcionam na perfeição, pois evocam culturas alienígenas que nós, os terráqueos, ignoramos (Mueller, 1995: 107).

4. Mostra-me o que não contas!

Além de uma escolha assisada do nome, o jovem escritor deve recorrer a outras formas diretas ou indiretas para caraterizar com credibilidade uma personagem, sobretudo quando esta é o protagonista ou o vilão da narrativa. Sol Stein considera cinco modos fundamentais de caraterização, a saber: atributos físicos; formas de vestir; traços psicológicos e maneirismos; ações e atitudes; diálogos (Stein, 2003: 56). Nenhum destes expedientes oferece dificuldade aos estudantes e escritores aprendizes, à exceção de uma: caraterizar através da ação. Relativamente a este aspeto, torna-se necessário explicar duas técnicas que os manuais de Escrita Criativa focam: contar e mostrar. Contar reside em fazer uma afirmação geral acerca da personalidade ou estado de espírito de um herói. Já a técnica de mostrar implica colocar a personagem em ação, dramatizar, para que essa caraterística seja inferida pelo leitor (Friel, 2004: 113). Por exemplo, o narrador pode contar que D. Quixote era um sonhador inveterado e cheio de ilusões. Contudo, para mostrar essa caraterística, deve criar uma situação em que o cavaleiro exiba plenamente a sua loucura. O célebre episódio da luta contra os moinhos de vento ilustra esta faceta de D. Quixote: (…) meteu esporas ao cavalo Rocinante, sem atender aos gritos do escudeiro, que lhe repetia serem sem dúvida alguma moinhos de vento, e não gigantes, que nem ouvia as vozes de Sancho, nem reconhecia, com o estar já muito perto, o que era; antes ia dizendo a brado: — Não fujais, cobardes e vis criaturas; é só um cavaleiro que vos investe. Levantou-se nestes comenos um pouco de vento, e começaram as velas a mover-se; vendo isto D. Quixote disse: — Ainda que movais mais braços que os do gigante Briareau, haveis de mo pagar. E dizendo isto, encomendando-se de todo o coração à sua senhora Dulcineia, pedindo-lhe que em tamanho transe o socorresse, bem coberto da sua rodela, com a lança em riste, arremeteu a todo o galope do Rocinante e se aviou contra o primeiro moinho que estava adiante. E, dando-lhe uma lançada na vela, o vento a volveu com tanta fúria, que fez a lança em pedaços, levando desastradamente cavalo e cavaleiro que foi rodando miseravelmente pelo campo fora. (Cervantes, 2009: 60) Como se deduz deste excerto bem-humorado, a técnica de mostrar é mais interessante do que a estratégia de contar, pois permite ao leitor visualizar a personagem em ação, captando traços da sua personalidade. Nas belas palavras do autor e docente de Escrita Criativa Nigel Watts: Se quer que os leitores visualizem uma cena, que as suas personagens ganhem vida, que os enquadramentos se tornem mais vívidos, dê-lhes os cheiros, as sensações, o sabor. Dois amantes a beijarem-se, saboreando o suor nos lábios um do outro; uma casa velha que cheira a maçãs e a pimenta; o tacto frio das moedas que o rapaz dos jornais lhe dá — precisamos de ouvir as coisas que ignoramos porque pensamos que são pouco importantes, convencidos que não são matéria real do drama e da vida. (Watts, 2000: 157)

Neste âmbito, costumo sugerir aos meus alunos um exercício simples: mostrar o que é apenas contado por afirmações como: “A Eva está contente”, “O Giovanni é um mafioso”, a “Sara trabalha imenso”. O estudante não pode usar os termos “contente”, “mafioso” ou o verbo “trabalhar”. O objetivo é adestrar a capacidade de pôr as personagens em plena ação.


5. Como amar um herói?

Amar os heróis é um direito inalienável de qualquer leitor. Como afirma Daniel Pennac em Como um Romance os protagonistas têm sobre nós um efeito profundo: “(…) a imaginação infla, os nervos vibram, a o coração bate mais depressa, a adrenalina corre” (Pennac, 2010: 157). Esta empatia com os protagonistas das narrativas deriva da identificação que estabelecemos com eles, página a página, sofrendo quando são derrotados, e rejubilando quando vencem as forças malignas, sejam elas reais ou moinhos de vento. É, pois, fundamental que o leitor simpatize com a causa dos protagonistas, e deteste com igual repulsa os vilões, para se estabelecer cumplicidade. Um herói inteligente e corajoso, como Harry Potter, o menino mágico que J. K. Rowling criou, ou Lizbeth Salander, a rapariga sueca perita em computadores, dos romances de Stieg Larsson, apelam ao espírito dos leitores mais jovens, ávidos de aventura. Para tanto, o autor deve criar um protagonista com qualidades e defeitos, com igual dose de audácia e de medo (Watts, 2000: 71-72). Afinal, até o Super-Homem, versão moderna de Hércules, tem os pontos fracos, notoriamente a vulnerabilidade a uma substância radioativa chamada kriptonite.  Dentre os anti-heróis, destacaria o Dom Quixote como um dos mais amados, precisamente graças à sua autenticidade, uma mistura de qualidades e fraquezas: é corajoso, mas desastrado; sonhador, porém, utópico, e com a cabeça nas nuvens, como tantos leitores. Nestas circunstâncias, é impossível não gostar dele e rir com as suas façanhas e desventuras.


6. Uma nova vida

Em conclusão, construir uma personagem memorável exige esforço e um exigente trabalho de planeamento que vai desde a escolha acertada do nome até ao uso de estratégias para criar empatia, passando pela capacidade de mostrar o herói em ação. Tal implica um conhecimento das técnicas de escrita criativa e numerosas leituras, de escritores clássicos e recentes, não só pelo prazer, mas também para tentar descobrir os segredos dos grandes autores (Oates, 2008: 12).  Afinal, o labor da escrita não resulta apenas do relâmpago da inspiração, como alguns jovens preguiçosos julgam. Na maioria das vezes, este ofício consiste em redigir, amachucar o papel, voltar ao princípio, e pacientemente insistir. Segundo o Prémio Nobel William Faulkner, tudo começa com uma personagem credível; o que autor faz é correr atrás desta, com um papel e um lápis, para tomar nota dessa nova vida que criou (Sheridan, 2009: 143).

 
Bibliografia

Cervantes, M. de. (2009). O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha. Trad. Viscondes de Castilho e de Azevedo. Estarreja: MEL Editores. Eliot, T. S. (1963). Collected Poems 1909-1962. London: Faber and Faber. Friel, J. (2004). “Writing a Novel”. In J. Newman, E. Cusick & A. La Tourette (Eds), The Writer’s Workbook. London: Arnold. 104-122. Mancelos, J. de. (2009). Introdução à Escrita Criativa. Lisboa: Colibri, 2009.
Português: Investigação e Ensino Número temático - dezembro 2012 
Mancelos, J. de. (agosto 2010). “A Arte de Chamar Nomes”. Os Meus Livros. 89, 35. Marshall, E. (2000). Novel Writing: Sixteen Steps to Success. London: A&C Black. Mueller, L., e J. D. Reynolds (1995). Creative Writing: Forms and Techniques. New York: National Textbook. Oates, J. C. (2008). A Fé de um Escritor: Vida, Técnica, Arte. Trad. Maria João Lourenço. Cruz Quebrada: Casa das Letras. Pennac, D. (2010). Como um Romance. 15ª ed. Trad. de Francisco Paiva Boleo. Lisboa: Asa. Sheridan, D. (2009). Teaching Secondary English: Readings and Applications. New York: Routledge. Stein, S. (2003). Solutions for Writers: Practical Craft Techniques for Fiction and Non-fiction. London: Souvenir Press. Shakespeare, W. (2007). The Tragedy of Romeo and Juliet. Teddington: Ecolibrary. Watts, N. (2000). Como Escrever um Romance e Conseguir Publicá-lo. Trad. José Bóia. Estoril: Edições Atena. Wilde, O. (1909). The Works of Oscar Wilde. vol. 10. London: Lamb.

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