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17 de mar de 2011

Poema Narrativo

Poema Narrativo

Narrativas geralmente aparecem em forma de prosa, no entanto, a poesia também pode contar histórias. Trata-se da poesia do gênero Épico ou Narrativo. A narrativa em verso tem sua origem na literatura oral. Assim, letras de música, cantigas de roda infantis, desafio de repentistas são, além de manifestações literárias, bons exemplos de narrativas em forma de verso. O poema narrativo conta uma história, um episódio: 

Há pelo mens três tipos de poemas narrativos:

Epopéia: é o poema épico que narra um grande feito histórico de um povo, de um país, destacando os seus heróis. Além dos textos históricos, encaixam-se nessa classificação os textos bíblicos. A epopéia clássica, das quais são exemplos a “Ilíada” e a “Odisséia”, ambas de Homero; “Os Lusíadas”, de Camões. O poema épico é feito de ações heróicas, realizadas por personagens ilustres, as quais possuem inegável força, poder econômico, religioso ou virtuosismo.

Xácara: é o poema narrativo que conta as façanhas de um herói, mas principalmente uma história de amor vivida por ele e uma mulher “proibida”. Apesar dos obstáculos que o separa, o casal vive sua paixão proibida, física, adúltera, pecaminosa e, por isso é punido no final. É o tipo de narrativa mais comum na Idade Média. Exemplo: “Tristão e Isolda”.

Fábula: é o poema narrativo em que as personagens são seres não humanos personificados. Com o objetivo de criticar os homens, esse poema sempre encerra uma lição de moral. 

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Exemplos de poemas narrativos: 

A cobiça

Já faz muito desde o sucedido
Alguns não recordam mais nada
E outros duvidam do acontecido

A meia-noite quebrou a calada
No grito da primeira badalada
Lançada a sorte na noite de breu
Eu estava lá quando tudo se deu:

No meio da mata, não sei bem ao certo
Um rito secreto e uma estranha canção
O calor da fogueira ardia bem perto

Construíram lá um grande portal
Fundamentado em colunas de ouro
Nele incrustado o amor ao metal
Toda paixão p'ra compor o tesouro

A cobiça foi mãe da ira e da morte
Da intolerância e do devir malogrado
Os nativos insanos perderam o norte

Ouviu-se som grave qual um trovão
Que fez todo o povoado desperto
Apenas uns poucos sabiam a razão
Da queda de todos no limbo deserto

De nada adiantaram os meus mantras
Sequer os apelos ao deus que esqueci
Caídas por terra as crenças santas

Todos arremessados no mundo abissal
Por uma espiral no centro do estouro
Caídos no fogo mais quente infernal
Reinado de um anjo coberto de louros

sacharuk
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Romeu e Julieta às avessas

Era um dia de sol
e uma moça tão bela
escovava os cabelos
enquanto olhava à janela

Lá, ao longe,
podia ser visto
um prédio antigo

Seria naquela igreja
o casamento perfeito
com pompas, honras
e muitos efeitos

Mas o olhar da moça
vagueava sombrio
olhava o horizonte
intenso e vazio
sem esperança
ela avistava também
a aldeia pobre
e o moço que não era lorde

e ele cavalgava alado
e ela imaginava o abraço
e ele troteava vasto
e ela gozava de fato

Por outro lado,
o moço do enlace pomposo
não avistava o além
olhava sim a parede escura
os olhos repletos de amargura

Imaginava nas marcas de mofo
cenas de um cavalariço fofo
e o rapaz tão lindo
fazia cócegas no seu umbigo

e ele, o rapaz, era aprendiz
e ele, o moço, sorria feliz
e ele, o rapaz, estava apaixonado
e ele, o moço, desesperado

Foi então que num ato
o moço agoniado
encontrou o vidrinho
alaranjado
num trago, bebeu a luz infinita

Coitado, mal soube ele
que a moça prometida
fugiu com o plebeu
numa doida corrida

e o seu cavalariço endeusado
amancebou-se com o seu primo
um final cômico
ou realmente trágico?

Dhênova

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A Centopeia Dividida

Tatuzinho era bruxo malvado
e discutiu com a centopeia
daí teve a péssima ideia
de fazer um feitiço irado

Ficou escondido na areia
praticou o ato mais feio
seu feitiço dividiu ao meio
e fez duas cinquentopeias

A abelha testemunhou tudo
da porta da sua colmeia
e convocou uma assembleia
para tratar desse absurdo

Aquele tatuzinho era insano
muito famoso em toda aldeia
esperava a noite de lua cheia
para traçar os seus planos

As cinquentopeias medrosas
decidiram permanecer unidas
mas estavam muito perdidas
e nem se entendiam na prosa

Sob as penas de uma galinha
o Piolho Velho era a liderança
comentou que havia esperança
se chamasse a dona Joaninha

Joaninha era boa feiticeira
e talentosa na matemática
decerto conhecia a prática
de fazer centopeia inteira

Então a bruxinha competente
com toque de magia esperta
refez a centopeia completa
e os bichos ficaram contentes

E o malvado do tatuzinho?
Ah! Ele é muito teimoso
em vez de ser mais amoroso
prefere viver sempre sozinho

sacharuk

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Voo de sangue

Olho à janela, o negro esconde o muro, sinto o peito aberto, vísceras à mostra, no lugar do coração apenas um buraco. Sei que foi minha a mão que cortou, fez um triângulo, fatiou os pedaços, espalhou ao vento, sangrou veneno... um clichê é o que sinto, isto também sei.
Fico esperando a brisa, paciente, enquanto a cicatriz ainda permanece inconsequente, como o eco das paredes nuas, rachaduras emboloradas, minha cama e a tua... mas ainda há candura e um outro céu, eu sei, e é só no que acredito...
A manhã rompe num rasgo, busco tua mão inconsciente, no teu abraço sinto-me quente, e me aconchego, me acho e te vejo tão frágil, quisera não ser mais um peso, então me afasto...
Volto à janela, é manhã alta, neste instante, uma borboleta amarela faz seu voo, encontra a emoção, leva para longe a dor... que esqueceu de dar adeus, seguiu feliz com seu jeito encantado, ainda olhando pra trás de vez em quando e acenando obscena, deixando o todo de lado.

Dhênova


3 comentários:

  1. Andei aprendendo e lendo por aqui. A cobiça é sensacional, muito bem escrito mas confesso que me apaixonei pelo tatuzinho bandido! Foi minha primeira leitura da manhã, e o meu primeiro sorriso! Parabéns Sacharuk!

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